João, o Quadros

Se algum estilo te definisse era este, João. Dali recorria ao génio e à técnica para pintar algo surreal numa tela em branco. Já tu és uma tela em branco algo surreal.

Se algum estilo te definisse era este, João. Dali recorria ao génio e à técnica para pintar algo surreal numa tela em branco. Já tu és uma tela em branco algo surreal.

João Quadros é um personagem sui generis. Desprovido de sentido de humor, embora se aclame humorista, escreve enfastiosas prosas que fazem do seu autor — dele — a piada. E como o que vende é, ou o muito bom, ou o muito mau, alguém lhe deu guarida.

Nesta sua última crónica, se é que o termo se apropria, e em que o autor surreal emprega sem recato o estilo naïf, Quadros lança-se numa querela contra Schauble e, logo de seguida, contra todos os alemães, generalização clássica do leitor que estreia o livro dos porquês. Bastaram dois parágrafos para surgir a piada com a deficiência física de Schauble. Ao fim dos oito que cerram penosa farolice suspeitamos que se tratou de uma lobotomia. A ter de escolher, muito sinceramente, preferiria a incapacidade de locomoção de Schauble.

 ***

Quadros vai a Munique. Não é um livro da Anita, que o supera em acutilância, mas relata uma história aveludada com equiparável sofisticação: foi e não gostou; os Alemães «são frios com os miúdos»; e — imagine-se — «a cerveja não é gelada». Já gelado é o lóbulo que restou.

No fundo, prestes a concluir assim a sua romaria cultural, «não chega a ser viver». O paralelo pode aqui ser estabelecido com as piadas de Quadros — no fundo, também não chegam a ser piadas. E perante tão astuto teorema estabelece um corolário de irremediável sensatez: «quem sabe viver são gregos ou portugueses». Especialmente quando sustentados por Alemães. Dos frios.

Finalmente, «malta», notem que eles são o «Dark Side of the Force». Assim, em inglês, que o estilo naif-romântico se presta ao barroquismo. E «quando os vencermos, numa próxima Guerra» — Quadros desempenhará a importante função de tronco num qualquer dique (em inglês pronuncia-se dick) —, é «fazer um Israel para eles», «lá para os arredores da Groenlândia (sic)».

Está bem, Quadros. Agora coloca o teu nome e vai entregar a redacção, que está muito linda.

É urgente rever o acesso às urgências

Minudência nesta época épica, mas ainda assim importante abordar.

Recorro, ou socorro-me, de uma lapalissada para contextualizar o problema. A urgência hospitalar tem um propósito claro, que hoje poucos saberiam identificar: tratar casos urgentes. Se agora é mais difícil perceber o verdadeiro intento das urgências hospitalares, não o era na 1ª Grande Guerra, quando o serviço se generalizou — o seu propósito era tratar feridos de guerra, casos de vida ou de morte que requeriam tratamento imediato. O que naturalmente exclui gripes ou dores de cabeça.

O resto está no Observador.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’ de hoje.

A globalização é tramada

Quando Alexis Tsipras assinou o acordo com os credores, e se percebeu que o Syriza tinha traído o povo grego prometendo-lhe o que não era possível cumprir, foi manifesto o sentimento de revolta. Por cá, como é frequente entre a extrema-esquerda, a rebelião fez-se contra os credores, com a Alemanha à cabeça. Reconhecer o erro seria repensar a vida e isso não é possível entre crentes crédulos. Punir terceiros é mais fácil.

Mas até aqui o tiro falhou o alvo. Entre as várias propostas que ouvi, até por gente dita ilustre, constava o boicote aos produtos alemães: deixemos de comprar BMW, Mercedes e outros bens mais modestos e os alemães vergam-se perante nós. Sucede que há um problema. Aliás, dois.

Primeiro, é difícil obrigar 10 milhões de pessoas a não comprar produtos alemães. Mas, e em segundo, o pior é que estes não existem. Na era em que vivemos há algo que nos protege a todos dos déspotas de sofá: chama-se globalização. Devido a ela, os ditos produtos alemães são fabricados no mundo inteiro; até em Portugal, como se passa na Autoeuropa.

Comprar marcas alemãs é comprar produtos feitos em Portugal e noutros sítios. Donde, não os comprar será punir, não só os alemães, mas os portugueses e todos os outros que fabricam esses produtos. É destruir, nesses países, postos de trabalho, salários, modos de vida que existem porque os alemães, esses exploradores que poupam e investem, criaram empregos. A esquerda odeia impossíveis. Acontece que os encontramos quando não existe aquilo de que se fala.

Uma “Saúde” injusta

adseNo Diário Económico de hoje, Vital Moreira escreve um artigo em que defende “a extinção da ADSE (o sistema de saúde próprio dos funcionários públicos, criado ainda no Estado Novo)”, argumentando que “(i) não faz sentido que, havendo um SNS público universal, o Estado oferecesse paralelamente um sistema de saúde “convencionada” aos seus funcionários; (ii) em qualquer caso, era socialmente iníquo que uma benesse privativa dos funcionários públicos fosse paga em grande parte pelos impostos de toda a gente, que já pagam o SNS.”

Não pretendo contestar as conclusões do dr. Vital, mesmo tendo em conta que são provenientes de alguém que em tempos se deixou arrebatar por paixões políticas por gente do calibre de Brejnev, Cunhal, ou José Sócrates (deixo ao leitor a difícil questão de qual deles o pior). Os desvarios da juventude (aos sessenta, quando se enamorou pelo socratismo, Vital Moreira era certamente jovem de espírito) não devem desqualificar uma pessoa para toda a eternidade. E a verdade é que o ex-deputado do PCP e cabeça de lista do PS ao “Parlamento” Europeu tem, ultimamente, dito coisas bastante sensatas. No entanto, concordando com o dr. Vital na caracterização da ADSE como um sistema fundamentalmente injusto, não posso deixar de achar um dos seus argumentos profundamente errado: o de que “a benesse privativa dos funcionários públicos” é “paga em grande parte pelos impostos de toda a gente”. Na realidade, essa é uma benesse paga inteiramente pelos impostos de todos aqueles que a ela não têm acesso.

É verdade que a ADSE funciona, em teoria, como um sistema de seguros privado, alimentado pelas contribuições individuais dos seus beneficiários: os funcionários públicos que dele escolhem beneficiar descontam dos seus salários para ter acesso a esse sistema. Mas vejamos: quem paga esses salários? O Estado. E onde vai o Estado buscar o dinheiro para pagar esses salários? Aos impostos dos contribuintes. Como o que os funcionários públicos pagam de impostos corresponde a uma parte desses salários que o próprio Estado paga, é fácil de perceber como esses impostos não passam de dinheiro que sai de um bolso para logo voltar a entrar nele, e que o saldo dessa “operação” é zero. Como é fácil de perceber que todo o dinheiro que o Estado gasta, incluindo o que gasta em salários de funcionários públicos, é dinheiro dos impostos de todos os outros contribuintes. Os descontos dos funcionários públicos para a ADSE, no fundo, são descontos feitos sobre salários pagos pelo dinheiro extraído dos bolsos de todos os que (e na medida em que) não têm no Estado a origem desses rendimentos.

Algumas alminhas mais sensíveis e menos perspicazes estarão, a este ponto do texto, a acusar-me de “lançar o anátema sobre os funcionários públicos”. Nada disso. Qualquer comunidade política que pretenda ser minimamente funcional precisa de um Estado – de um aparelho burocrático minimamente organizado e capaz – para desempenhar as tarefas que os seus membros entendam (mal ou bem) ser da responsabilidade desse (mais ou menos extenso) “Leviatã”. E para ter esse aparelho burocrático, precisa de cobrar impostos que financiem os salários das pessoas que o integrem. O facto dessas mesmas pessoas terem os seus rendimentos “à custa” do que se extrai dos rendimentos dos que não integram esse Leviatã não implica necessariamente uma injustiça: é apenas e só a relação entre “funcionários públicos” (e restantes “dependentes” do erário público) que decorre da necessidade do Estado existir e de só se poder financiar de uma forma. O que pode ou não ser injusto é a forma como essa mesma relação se institucionaliza. E no caso da ADSE, ela institucionaliza-se de uma forma extraordinariamente injusta.

O problema não está em os descontos feitos pelos funcionários públicos para terem acesso ao sistema serem provenientes das carteiras dos contribuintes com rendimentos privados, por via indirecta da redistribuição do Orçamento; está no facto de o Estado, por essa via indirecta da redistribuição do Orçamento, extrair parte da riqueza obtida pelos contribuintes com rendimentos privados para subsidiar aos funcionários públicos uma liberdade de escolha no acesso aos cuidados de saúde que nega aos que a subsidiam. “Privatizar” ou “mutualizar” a ADSE não resolveria o problema, pois essa liberdade continuaria ser exclusiva dos seus beneficiários, subsidiados por uma parte da população portuguesa que não teria sequer a possibilidade de escolher tê-la ou não. A única forma de corrigir esse desequilíbrio seria através de uma mudança profunda na forma como o Serviço Nacional de Saúde é financiado, deixando o Estado de 1) dar os funcionários públicos um sistema paralelo ao SNS 2) pretender oferecer cuidados “tendencialmente gratuitos” a quem tem rendimentos que lhe permitiriam aceder a eles através do seu próprio bolso, e 3) financiar os Hospitais, em vez de gastar os seus parcos recursos a garantir a quem não tem com que pagar os cuidados de que necessita as verbas correspondentes, e dando a essas pessoas a mesma liberdade para escolher qual o prestador de serviço a que quer recorrer e entregar o dinheiro.

Claro que essa mudança não resolveria o problema da desigualdade decorrente do facto de alguns portugueses com determinados meios pagarem não só os seus próprios custos com cuidados de saúde como também subsidiarem os dos restantes, porque essa desigualdade não é passível de ser corrigida: é um resultado inevitável da existência de um Estado, e apesar de alguns sonhos libertários, essa entidade (e a função redistributiva que, em maior ou menor grau, necessariamente a acompanha) não será dispensável nos tempos que se avizinham, a não ser que o “modelo sírio” ou o “afegão” se tornem a nova moda. Mas mantendo esse “mal” incorrigível, conseguiria institucionalizá-lo de uma forma muito mais justa do que a corrente divisão entre ADSE e SNS, dando a todos uma liberdade de escolha de que, hoje em dia, só os ricos e detentores de empregos públicos podem beneficiar.

Assim vai o processo de escolha das listas no PS…

Os dados francamente pouco animadores para o PS das sondagens que vão saindo não serão certamente alheios a todas estas dificuldades…

Dança das cadeiras. A lista de candidatos por Lisboa e os que ficaram de fora
Rui Paulo Figueiredo demite-se de líder parlamentar PS na Assembleia Municipal de Lisboa
Costa recusa lista de deputados propostos pelo PS-Coimbra
Lista de deputados do PS do Porto chumbada em comissão distrital
Revolta e contestação no PS Viseu

Grande Passatempo Insurgente – Legislativas 2015: 1ª fase

Com novas eleições, chega um novo Grandioso Passatempo Insurgente. Este ano o concurso será em duas fases: uma decorrerá até ao fim de Julho para tentar perceber qual dos leitores tem maior capacidade de previsão a longo prazo e outra na semana anterior às eleições.

Como não podia deixar de ser, o vencedor de cada fase levará um grandioso prémio: uma cópia do livro “O Economista Insurgente”.

Tudo o que tem que fazer é deixar na caixa de comentários deste post a sua previsão dos resultados eleitorais com os 5 maiores partidos. O vencedor será aquele que ficar mais perto do resultado final (menor soma da diferença entre a previsão e os resultados finais de cada partido). Em caso de desempate, ganhará quem adivinhar o 5º partido mais votado. O segundo critério de desempate será a pessoa que colocou o comentário mais cedo. Fica aqui a minha previsão:

PS: 37%
PaF: 37%
CDU: 10%
BE: 6%
5º partido: 3% (PDR)

Costa demarca-se do PS de 2008?

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Não o suficiente. Algumas notas:

  1. Se não deseja voltar a 2008, então talvez seja prudente António Costa deitar o cenário macroeconómico ao lixo e renovar a equipa de economistas;
  2. Ao contrário do que António Costa sugere, a pergunta «se não tivesse havido a crise internacional de 2008, a trajectória em que Portugal estava em 2007 “teria continuidade ou estava condenada?”» é muito interessante não apenas para historiadores, mas para todos nós. A não resposta evidencia que, ou não sabe responder, ou concorda com o modelo. Depreende-se então que pouco aprendeu com o que se passou. Um modelo de estímulo da procura interna assente em dívida externa estava condenado ao fracasso, e a crise das dívidas soberanas apenas o catalisou;
  3. António Costa afirma que «o país deve assumir que o que o bloqueia é a dificuldade da sua estrutura económica se adaptar a um novo quadro competitivo e que é preciso atacar na raiz aquilo que limita o quadro de competitividade nacional». Ora, segundo estudos da Deloitte e do World Economic Forum, fortes dissuasores do investimento directo estrangeiro são a ineficiência da justiça, a elevada carga fiscal e a burocracia do Estado. Parar de falar da reversão da redução do IRC ou da privatização da TAP, evitando assim afugentar investidores estrangeiros, seria um bom começo;
  4. «o Governo acreditou numa austeridade expansionista». Não. Alberto Alesina defendeu essa teoria, mas o Governo português nunca a referiu. Viu, e bem, a austeridade como um imperativo financeiro para a estabilização das contas públicas;
  5. Finalmente, afirma que «são necessárias reformas estruturantes». De acordo. Em particular, reformas que ancorem o crescimento da procura interna numa balança corrente equilibrada, i.e., indexado ao crescimento das exportações. Tudo o que o cenário macroeconómico e a agenda para a década não são.

António Costa, para lá de se demarcar do PS de 2008, faria bem em demarcar-se também do PS de 2015, que pouco mais não é, bem feitas as contas, que um remix tosco do de 2008.

Mas afinal… onde é que é o túmulo da Nossa Senhora de Fátima?

Geronimo Jeronimo

Geronimo, ou Jeronimo. Tem um mosteiro em sua honra em Lisboa, parece

Perguntas dos turistas que nos visitam. Eles querem e não conseguem saber:

  • Onde é o túmulo da Nossa Senhora de Fátima?
  • Mosteiro dos Jerónimos foi feito em honra do Índio Jerónimo?
  • Cristo está sepultado nos Jerónimos?
  • D. Pedro IV é D. Pedro I no Brasil por causa do fuso horário?
  • Que mouro ou romano construiu a Torre dos Clérigos?
  • Como é que Salazar matou D. Carlos (em 1908)?
  • Qual é o autocarro que faz Lisboa – Madeira?
  • Quando foi a Revolução dos Escravos? Em 1974?

Mais um dos inúmeros problemas de termos turistas a mais =)

Direito à opção

Cidadão recusou ligar-se à água de Paços de Ferreira. O tribunal deu-lhe razão.

“a sentença proferida pelo tribunal determina que nenhum cidadão é obrigado a ligar-se à rede pública de água da concessionária Águas de Paços de Ferreira (AGS), tratando-se de uma relação jurídica de natureza privada”.
“nenhum consumidor pode contra a sua vontade ser obrigado a manter um serviço que não deseja, cabendo ao consumidor denunciar o contrato se nisso tiver interesse”.

Esta regra básica de Liberdade aplicada a muitos outros setores teria certamente resultados interessantes.

Programas IEP-UCP 2015/16

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Candidaturas ao Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa 2015/16

Quando a sustentabilidade gera indignação

Um esclarecimento competente de Pedro Passos Coelho face a uma polémica francamente infeliz: Passos garante que dinheiro da ADSE está “à disposição dos beneficiários”

“O que o Tribunal de Contas disse é que um aumento para cerca de dois pontos noventa e qualquer coisa de contribuição chegaria para equilibrar os custos que são suportados com as receitas que entram”, foi explicando o primeiro-ministro. Contudo, a decisão foi tomada a “olhar para o médio e para o longo prazo e na altura o estudo que foi feito pelo Governo apontava para a necessidade de gerar excedentes maiores para o futuro.” Se “porventura acontecer que no médio e no longo prazo a ADSE venha a acumular excedentes superiores aqueles que são necessários para no futuro fazer face às suas necessidades, àss necessidades dos seus beneficiários, nesse caso a própria ADSE poderá decidir, das duas uma: ou melhorar o nível de serviço e oferecer – dado que tem suporte financeiro para isso – melhores benefícios aos beneficiários da ADSE, ou eventualmente, corrigir e baixar o nível de contribuições”, afirmou Passos Coelho.

Ainda há gente com bom senso no PS…

Presidenciais. Assis vê “com simpatia” disponibilidade de Maria de Belém

Maria de Belém Roseira soma apoios para uma eventual candidatura presidencial. A deputada ainda não confirmou se quer avançar, mas já está a receber elogios. O eurodeputado Francisco Assis afirma ao Observador que “vê com grande simpatia e amizade” a aparente disponibilidade da ex-ministra da Saúde e vai esperar pelo anúncio formal, uma vez que não se “reconhece” em nenhum dos candidatos presidenciais que já estão no terreno.

“Faz falta uma candidatura de centro-esquerda”, explica. Assis já defendeu publicamente uma candidatura presidencial de Jaime Gama, que entretanto disse que isso não estava nos seus planos. Por isso, o eurodeputado aguarda para ver quem mais aparece. Sobre António Sampaio da Nóvoa, que deverá receber o apoio oficial do PS, Assis insiste que não vai ter, de maneira nenhuma, o seu apoio. “Não só não apoio, como não votarei em Sampaio da Nóvoa”, esclarece.

Para o ex-líder da UGT, João Proença, a antiga presidente do PS seria “seria uma ótima candidata presidencial”. Maria de Belém Roseira “é uma pessoa ponderada” e “envolvida com causas sociais”, explicou ao Observador. “Claramente cobre o eleitorado centro-esquerda. […] Não joga nos extremos do PS, tem perfil ótimo para ser candidata presidencial”, resume.

A esquerda nacionalista

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

A esquerda nacionalista

Ganhar eleições com a promessa de distribuição de dinheiro é fácil. Ora, se há regra que o euro impõe, para que seja forte e cumpra a sua função estabilizadora, é que os orçamentos de Estado sejam equilibrados. Nos últimos quatro anos o país, fruto da intervenção da troika e da crise grega, percebeu esta premissa. Ora, tendo o Estado português sido governado como um colector de fundos a serem distribuídos de acordo com critérios políticos e para pagar uma parte da população dependente do poder, um orçamento sem défice obriga ao rigor que advém de libertar o Estado dos grupos de interesses que deste se alimentam.

Há já vários anos que o país sente na pele o custo dos défices públicos. No entanto, e de acordo com o que li nos últimos dias, quem se atrever a desafiar esta delapidação do património público em nome de interesses particulares é apelidado de nazi. Já não fascista, talvez porque a Alemanha esteja agora no centro da resolução da crise dos défices e nazi seja um insulto mais contundente.

No meio da injúria disparatada é de notar uma notável ironia. Para tal convido o leitor a que feche os olhos quando ouvir um comentador de esquerda falar. Feche os olhos e saboreie, ou assuste-se, conforme o caso: parece Salazar, não parece? O orgulhosamente sós está lá, quando a Grécia luta sozinha contra a Europa e quando nos dizem que urge que Portugal faça o mesmo; o provincianismo de Santa Comba está lá, na crítica desajuizada à Alemanha, na história cuja ignorância se utiliza para validar uma ideologia política que faliu Estados mas que aponta a culpa a quem empresta dinheiro para pagar as contas. Está ali quando ouvimos o ódio aos povos que geriram com cuidado o dinheiro que entregaram aos seus Estados.

Também gostava que Portugal não precisasse de fazer parte do euro. Que tivesse tido a capacidade de seguir o aviso que Margaret Thatcher fez ao Reino Unido: aderir ao euro é entregar a soberania à Europa que será depois exercida pelos mais fortes. Mas para que não fizéssemos parte do euro teríamos de ter um escudo forte, que nos protegesse da inflação, que só foi efectivamente controlada depois da criação do Instituto Monetário Europeu.

O problema é que esse escudo forte nunca existiu; e pelo que vemos da maioria da classe política, dificilmente existirá. Uma moeda forte, uma moeda que nos dê soberania, obriga a contenção nos gastos; algo muito difícil quando grande parte da população depende economicamente do Estado, impedindo a sua reforma. Requer que se proteja o interesse público dos diversos grupos que subsistem porque alimentados pelo Estado. Acima de tudo que os políticos governem o Estado e não interesses ou pessoas. Tal não sendo possível, que venha o euro, a contenção orçamental e a liberdade que daí advém.

Passos Coelho: balanço de quatro anos de governação

Uma análise ponderada, equilibrada e que partilho em larga medida: O que devo a Passos Coelho. E o que ele deve a nós todos. Por José Manuel Fernandes.

O melhor que fica destes anos é a percepção de que nos libertámos do sufoco e que os portugueses reagiram bem à crise, começando a mudar alguma coisa na nossa economia, em especial na sua abertura ao exterior. O pior é a sensação de que não mudámos o suficiente para que, à primeira aberta, retomemos os maus hábitos. Muitos só querem desapertar o cinto. E quase todos ainda não perceberam que o país tem de mudar muito mais do que mudou.

Livraria Lello no Porto cobra entradas

A partir de dia 23, quem quiser entrar na livraria para tirar uma foto, paga. 3€ (!)
O valor é dedutível na compra do 1º livro. Esperam-se os indignados do costume.

Vale a pena eleger um partido de extrema esquerda?

Façamos uma cronologia rápida. Eles certamente levam isto ao charco em poucos meses. Depois, como eles só vivem com o dinheiro dos outros, acabam a pedir dinheiro a alguma entidade internacional. Como qualquer credor, essa entidade vai pedir uma mudança de vida. Em contexto de crise, consegue-se aprovar no parlamento um pacote de reformas do mercado laboral, um enorme pacote de privatizações e diversas medidas que estavam há muito em gavetas. Como bónus, a malta que é cega como uma porta e anda por clubismos, ainda acaba a defender essas mesmas medidas. Dá que pensar…

Neo-Liberal grego elogia ideia de Passos Coelho

Segundo o DN:

Primeiro-ministro grego diz que não abandona o cargo e que vai aplicar plano de austeridade, mesmo não acreditando nele. E até elogiou a solução proposta por Passos Coelho para o fundo exigido por Merkel.

Porfírio, o ideólogo

Porfírio, o ideólogo, diz que isto da direita colar António Costa ao Syriza é uma patetice.

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Tem a sua razão. A César o que é de César. Não foi a direita. Foi António Costa.

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Adenda: o Nuno Mendes recordou-nos que o Presidente do PS, Carlos César, também fez questão de colar o PS ao Syriza.

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Haja vergonha

Equiparar os horrores vividos nos países invadidos pelos nazis, vividos pelos homens e mulheres perseguidos e mortos pelo nazismo, à crise que os cidadãos gregos vivem hoje, mas que criaram e consentiram nos anos anteriores, não é um ultraje. É um ataque vil e cobarde à memória.

Mas pior que isso é sabermos que essa crítica não se funda em razões humanitárias. Os que comparam Schäuble a Hitler, fazem-no, não em nome da solidariedade, mas de uma ideologia que necessita do dinheiro que o Estado tira aos cidadãos; da necessidade de continuarem a viver num país em que o Estado distribui o dinheiro do povo.

A vergonha podia ter limites. Mas o desespero pelo fim do acesso aos dinheiros públicos, não ajuda.

Alemães sobre a moeda única

Não é necessário ser presciente ou astrólogo para perceber que numa zona monetária existem regras e deverá imperar a disciplina monetária, e que estas têm de ser cumpridas para a sua sobrevivência. E também não é necessário ser vidente para saber que são os países com economias mais fortes a ter de fazer o enforcing de muitas dessas regras. Nada disto era desconhecido aquando da criação do Euro, e os próprios alemães estavam cientes disso, tal como esta passagem de Arnulf Baring, em 1997, bem demonstra:

They will say we are subsiding scroungers, lounging in cafes on the Mediterranean beaches. Monetary union, in the end, will result in a gigantic blackmailing operation. When we Germans demand monetary discipline, other countries will blame their financial woes on that same discipline, and by extension, on us. More, they will perceive us as a kind of economic policeman. We risk once again becoming the most hated people in Europe.

— Arnulf Baring, 1997

Uma zona monetária não tem lugar para indigência económica e para desvarios socialistas. Ou as regras que asseguram a estabilidade da zona monetária são para cumprir, ou só resta um caminho. Fora.

HT Daniel Hannan.

Lições gregas

Um texto interessante de João Rodrigues, que continua a ser uma das poucas – muito poucas – pessoas no espaço à esquerda do PS que vale a pena ler em Portugal: Uma dúzia de balanços e perspectivas.

11. A saída do Euro faz hoje parte do adquirido estratégico da esquerda portuguesa que quiser aprender com as lições gregas.

Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais – IEP-UCP

Apresentação Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

Está em curso a 1ª fase de candidaturas à melhor Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais em Portugal – a do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

O concurso aos cursos da UCP é local, pelo que a opção “Universidade Católica Portuguesa” não está incluída no concurso nacional, devendo a candidatura ser feita directamente junto da UCP.

Está também em curso a 3ª fase de candidaturas ao MA in Governance, Leadership and Democracy Studies, assim como a 2ª fase de candidaturas aos programas de Mestrado e Doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais.

a gente mais reles que o mundo produziu

Já tinha apanhado ontem os comentários ignóbeis de uma criatura (supostamente humorista) cuja falta de educação só é igualada pela falta de piada. Mas hoje, depois de ler este texto de Ana Sá Lopes, percebi que não tinha sido só a criatura supostamente humorista a pegar na aparição de Laura Ferreira sem cabelo. A ultra-socrática Estrela Serrano também achou por bem meter as suas colheradas. Bom, que alguém use uma mulher a recuperar de um cancro – que, como Ana Sá Lopes bem diz, viveu a sua doença dignamente e discretamente – para atacar um político (que também não anda a alardear a doença da mulher) é do mais soez e vil que se consegue. Mas, sinceramente, cada vez mais me convenço pelo que vou vendo que ser/ter sido socrático é estar moralmente e eticamente em estágio sub-humano (apesar da paradoxal propensão desta gente para dar lições de moral).

Mas o texto de Estrela Serrano é mais sórdido ainda noutro nível que não o político. Vejam o que diz a pessoa: ‘tratando-se de um evento oficial, seria difícil evitar a presença de fotógrafos e ainda mais difícil que estes deixassem de fotografar Laura Ferreira, sobretudo encontrando-se ela numa situação singular. A decisão de se expôr, foi, assim, em primeiro lugar sua e de Passos Coelho.’

Laura Ferreira está, portanto, num estado em que se aparece em público está-se a ‘expor’ – e, já agora, expor não tem nem nunca teve acento circunflexo (eu não costumo fazer de corretor ortográfico humano, mas aqui não há perdão de nada). É, como se retira do texto da pessoa Serrano, alguém que não está em condições de estar em locais com fotógrafos e onde fica difícil não ser fotografada. Está, presume-se, como os leprosos da idade média, bons para se fazerem ver cobertos de panos ou, melhor, permanecerem escondidos nas leprosarias.

Mas que gente é esta?! A senhora (a senhora é a Laura, não a outra pessoa, evidentemente), tem toda a dignidade humana em si mesma, tem tanto direito a passear-se pela rua como a pessoa socrática. Não é vergonha nenhuma ter um cancro, não é vergonha nenhuma estar sem cabelo. Pelo contrário, Laura Ferreira foi de uma ENORME CORAGEM ao apresentar-se assim, sem cabelo mas segura. Foi mesmo um ato de esperança para qualquer pessoa que perca o cabelo durante o tratamento de um cancro. E por ser mulher, este ato de Laura Ferreira tem uma carga verdadeiramente libertadora. Não que as feministas idiotas – como lhes chama Ayaan Hirsi Ali – consigam perceber isto. Na verdade, a chicktv levezinha tem mais espessura intelectual do que estas criaturas nacionais do sexo feminino. É verem o vídeo abaixo, da temporada de Sex and the City quando a Samantha teve o cancro da mama.

Quanto ao resto que a pessoa Serrano também diz, referindo-se ao ‘sentimento de compaixão que a sua [de Laura] imagem  sem cabelo provoca’, não tem que se preocupar. Quem, que esteja já no estádio humano, olha para Laura vê apenas uma mulher corajosa. Já quem olha para Estrela Serrano e quem lhe bate palmas e quem faz piadas sobre um cancro, vê que essa gente merece compaixão. Porque há faltas muito mais graves do que a falta de cabelo. E que se notam à vista desarmada e são, essas sim, visualmente assaz repugnantes.

Para a Laura: desejo-lhe boas melhoras. Não aprecio particularmente o seu marido, mas da Laura fiquei muito orgulhosa. E sim, reflete bem no seu marido o seu ato. Não por, como dizem, expor a doença da mulher à procura de compaixão mas, ao invés, por estar orgulhosamente ao lado de uma Laura sem cabelo.

A “linha” do programa de governo do PS

Na Grécia, Syriza foi eleito com a promessa de não cortar pensões. Quase seis meses depois apresenta ao Eurogrupo proposta que engloba a redução de pensões.

diabo_AntonioCostaEm Portugal, já em época de pré-campanha, ontem numa entrevista televisiva: António Costa: “Não haverá cortes nas pensões”

25 de Janeiro de 2015, António Costa: Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha”

Um juíz certamente “escrutinado” e “dos bons”

O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, defendeu esta quarta-feira à noite em Coimbra que as prerrogativas desvirtuadas do Constitucional “não se resolvem acabando” com este tribunal, mas escolhendo “melhores juízes”.

Passos Coelho considerou que os juízes do Tribunal Constitucional, “que determinam a inconstitucionalidade de diplomas em circunstâncias tão especiais”, deveriam estar sujeitos a “um escrutínio muito maior do que o feito” até hoje.

“Como é que uma sociedade com transparência e maturidade democrática pode conferir tamanhos poderes a alguém que não foi escrutinado democraticamente”, questionou Pedro Passos Coelho […]

Observador, 5 de Junho de 2014.

A Assembleia da República elegeu José António Pires Teles Pereira como juiz do Tribunal Constitucional a 3 de Julho, para substituir o juiz José da Cunha Barbosa. José Teles Pereira foi eleito com 145 votos a favor, 43 votos em branco e seis votos nulos, num universo de 194 votantes, anunciou o secretário da mesa da Assembleia, no final dos trabalhos parlamentares.

O nome de Teles Pereira tinha sido proposto pelo PSD, com o acordo do PS e do CDS-PP.

Público, 10 de Junho de 2015.