Há falta de jovens em Portugal?

Em resposta ao meu artigo O Receio de Bagão Félix…, “jo” comentou:

“Se o problema actualmente fosse a demografia teríamos empregos para jovens que não encontravam tomador. É isso que significa falta de jovens. O que temos é um desemprego muito maior entre os jovens do que entre o resto da população. Por tanto (sic) só há falta de jovens se houver falta de desempregados. Se o problema fosse falta de pessoas em idade para trabalhar bastava ir buscar uns barcos ao Mediterrâneo. Se a população está a decrescer e os vossos gurus dizem que o PIB vai crescer pelo menos 2,5% ao ano a partir de agora o problema também não é a falta de recursos. Parece que o único problema com as pensões é que há bancos e seguradoras que já não encontram mais nada que valha a pena pilhar.”

Vamos começar pelo facto: conforme disse no meu artigo, têm nascido menos jovens, desde 1970. Muito menos. Do-tipo-3-para-1,23 menos. Logo, o facto é muito real e qualquer pessoa que ande na rua, vá a escolas, passe em maternidades, e fale com pessoas com atividades infantis pode facilmente confirmar isso.

A questão não é negar o facto, a questão é compreender: se há menos jovens, porque é que estes têm cada vez mais dificuldade em arranjar emprego? Porque há uma coisa que tem diminuído ainda mais que os jovens: os empregos disponíveis para estes.

Vejamos mais uma estatística do PortData, a idade média dos novos pensionistas de velhice subiu de 62,3 para 63,4 entre 2011 [ano da entrada da Troika] e 2013, e eu suspeito que continue a subir. Em apenas 2 anos, aumentou mais de 1 (!). Os pensionistas por escalão etário têm estado a começar a diminuir nos escalões <60 e 60-64, numa altura em que a população nestes segmentos tem aumentado.

Vamos a um exemplo: a enfermagem. O problema não é ter havido uma explosão de enfermeiros em Portugal que, como são em tão em altas quantidades, não encontram emprego. O problema é que os hospitais pararam de contratar, e os enfermeiros que lá estão não se reformam (porque não os deixam). Menos de 10% dos jovens formados em enfermagem nos últimos anos anos encontram emprego na sua área. Metade, vai para fora. Cerca de metade, vai para outros empregos.

Sobre previsões de PIB: a) eu não tenho guris nem sei a quem se refere, b) duvido muito que o PIB cresça a uma média de 2,5%/ano nos próximos 20 ou 40 anos, c) os recursos nunca são ilimitados pelo que haverá sempre uma limitação mais ou menos severa de recursos. Por fim, a pilhagem foi feita por outros, não pela banca e pelas seguradoras – mais uma vez, nem sei com que base alguém afirma isso.

Por fim, haverá outras justificações para esta falta de emprego para os jovens. O crescimento do PIB é recente e tem sido lento por agora. O crescimento do emprego é uma variável desfasada do crescimento da produção (agregada no PIB). Um crescimento sem grande correspondência em termos de emprego (“jobless growth”) devido à rigidez do mercado laboral. A acumulação por parte de alguns de 2 empregos para ajudar a pagar as contas – não só as suas como as de familiares em situação difícil. O facto de algumas posições preferirem pessoas não formadas, para “controlar”custos. O facto de as qualificações mais teóricas de muitos jovens não incluírem conhecimentos técnicos. Enfim, as justificações são inúmeras. Não me digam é que não há uma crise de nascimentos, há muito e em crescendo.

Adenda: esta é uma realidade que é para continuar e acelerar. Senão vejam nas páginas 31/32 deste relatório de Roberto Carneiro:

De acordo com a Estratégia Europeia 2020, adotada em Conselho Europeu de 8 de março de 2010, entre as três prioridades que foram aprovadas, considera-se relevante a do crescimento inclusivo, nomeadamente o objetivo duma taxa global de emprego de 75% para a população dos 20-64 anos e de (50%) para a população idosa com mais de 65 anos.

O PS, a linha do Syriza e o próximo Governo de Portugal (4)

Não foi combinado (ainda que provavelmente vá ser impossíovel convencer disso os habituais teóricos da conspiração), mas verifico que eu e o João Pereira Coutinho começámos os nossos artigos de ontem quase exactamente da mesma forma, ainda que o João prossiga depois no seu estilo bastante mais assertivo: Humilhação.

Em 8 meses, Costa destroçou o PS como alternativa. Porque cometeu três erros: não cortou com o passado socrático, que os portugueses abominam; associou-se às fantasias gregas, que os portugueses temem; e distribuiu promessas sobre promessas, que os portugueses já não compram. Só isso explica que os mesmos que consideram o actual governo ‘mau’ ou ‘muito mau’ sejam aqueles que ainda ponderam dar-lhe a vitória. Haverá maior humilhação para Costa?

Leitura complementar: A atracção fatal do PS pelo Syriza.

A essência do comunismo

Old habits die hard.

Não obstante as várias formas de folclore da extrema-esquerda, importa de vez em quando recordar que a essência das práticas comunistas é, em última instância, isto: silenciar por todos os meios – incluindo ameaças, exercícios de difamação, saneamentos ou o uso directo da volência, dependendo das circunstâncias – todas as perspectivas dissonantes e críticas relativamente ao avanço do socialismo.

Leitura complementar: Em Sesimbra, as águas andam agitadas.

O receio de Bagão Félix…

… é que lhe cortem a pensão. E isso nota-se.

Na sua mais recente entrevista à Visão, este comodoro da armada dos cabelos brancos consegue dizer o seguinte:

  1. Há 18 anos, escreveu-se um livro sobre a SS. Como nesse livro se previra o “início do colapso do sistema no ano de 2015″ com o PIB a crescer 2% (cresceu menos) e o desemprego a 5% (tem sido maior), esse livro foi exagerado.
    É uma espécie de dizer “Ah, esses catastrofistas, são sempre iguais”.
  2. Tal não aconteceu porque “a idade de reforma, o fator de sustentabilidade (há 30 anos, a esperança média de vida aos 65 anos era de cerca de 14 anos mais, e agora é de cerca de 19 anos mais), a convergência das pensões, a consideração de toda a carreira contributiva para a formação da pensão, a penalização de reformas antecipadas, etc”.
    Como se isso fosse suficiente (evitou-se o colapso, mas ainda vamos nessa direção)
  3. Perante o facto de que recentemente o dinheiro da TSU não tem chegado para pagar as 3.000.000 pensões em Portugal, muito à custa de algumas como a sua, a resposta de Bagão é, e cito: “Os velhos agora são mais caros porque vivem mais tempo? O que é isto? Queremos produzir uma eutanásia social?”
    Lembra Sócrates, sinceramente.
  4. Depois de Bagão ter culpado o desemprego, pergunta o jornalista: “E ainda assim as contas da Segurança Social não lhe mostram que esta é insustentável…”. Responde Bagão: “Não, não me mostram” e “é uma moda falar-se da insustentabilidade”. Bagão está descansado devido ao Fundo de Reserva.
    Sobre o Fundo de Reserva, recomendo este breve artigo.
  5. A culpa é então dos desempregados. Porquê? Segundo Bagão, por 3 motivos: a) Subsídio de Desemprego (2.700 M€), b) Desempregados não pagam TSU (perda de receitas de 4.000 M€, de desempregados subsidiados e não-subsidiados), c) Equivalência Contributiva (1.100 M€ que o Estado atribui de direitos de reforma como se os desempregados estivessem a descontar). Feitas as contas, 7.800 M€. Conclusão: “Este é o principal fator de estrangulamento da Segurança Social, não há outro. Qual demografia?! É o desemprego!”
    Vamos parar para analisar este ponto mais aprofundadamente.

Fecundidade. Em 1960 o Indíce Sintético de Fecundidade era de 3,2 (nº de filhos por mulher). Em 1970 era ainda 3. Em 1991 era já 1,56. Hoje é 1,23. A quebra de receitas pela falta daqueles adultos de hoje, que não nasceram entre 1960 e 1991, é difícil de calcular. Mas suponhamos que nasceram em média menos 50.000 pessoas/ano. Assim, faltam 1.500.000 de adultos a contribuir. Se cada um ganhasse 1000€/mês, contribuía 347,5€/mês ou 4.170€/ano. Ou seja, 6.255 M€/ano. E como este indicador tem evoluído negativamente, este número tende a aumentar (exponencialmente).

Mortalidade. Em 1960, o Índice de Envelhecimento era de 27% (Por cada 100 crianças, havia 27 idosos). Em 1991 era 44,9%. Hoje é 133,5%. Se hoje se pagasse apenas 1/5 das pensões actuais, poupavam-se 17.040 M€/ano (sim, por que ao Bagão só publicita as da Seg. Social, mas há também as da CGA – ver 2013).
PS: O INE na sua pirâmide demográfica para 2060 prevê para este indicador 306%.

Desemprego. Primeiro, isso é fazendo a comparação com uma taxa de desemprego de 0%, o que nunca em nenhuma economia aconteceu – o desemprego natural é considerado 3%, pois tem de haver sempre as pessoas que estejam “entre empregos”.
Depois, a terceira parcela é pura fantasia: eu nunca vou receber pelo que descontei, quanto mais pela equivalência contributiva – isso é para crentes num futuro longínquo e inalcançável.
E por fim, esta é uma perda temporária: com a recuperação económica, o desemprego irá recuar para valores mais normais, como já tem estado a acontecer. Na questão demográfica, a questão é diferente: as minhas colegas de geração que até agora não tenham tido filhos, muitas já não vão ter. Entre as mais novas, muitas irão ter tardiamente, mas nunca em valores de reposição de população. Mais uma vez recomendo este relatório da Seg. Social, de onde tirei esta imagem. Qual a perda de população estimada até 2060? Quase 2.000.000.

Piramide Demográfica Portugal 2060

Todo o resto da entrevista é muito boa. Para não repetir tudo (o link está no início), ficam aqui os highlights:

  • Sobre equívocos: “Em primeiro lugar, do lado das receitas tem de se considerar o IVA social (2 pontos percentuais) porque este surgiu precisamente para financiar prestações do sistema previdencial e contributivo. ” Como podem ver no relatório, eles já são considerados.
  • “as transferências para o Fundo de Estabilização aparecem como despesa, o que não faz sentido nenhum. É como se uma pessoa fizesse um depósito a prazo e considerasse o que punha de parte como despesa e não como investimento para poupança?” – Se estivéssemos num regime de capitalização, este comentário faria sentido. Num sistema “pay as you go”, é um perfeito disparate.
  • “A seguir, as pensões, atualmente, pagam o mesmo IRS que outro tipo de rendimento. Ora, para se perceber se a SS é sustentável ou não, deveria considerar-se apenas a pensão líquida de IRS.” Sim, porque se um pensionista recebe 5.000 brutos, 3.000 líquidos e 2.000 de imposto, os 3.000 (num sistema “pay as you go” como o nosso) saem das contribuições atuais, mas os 2.000 são pagos por… deixa ver… pelos mesmos!
  • “Finalmente, nas pensões do regime previdencial contributivo tem de se retirar a parte não contributiva. Explico: as pensões mínimas têm uma bonificação. Por exemplo, em muitas pensões mínimas de €250, a parte contributiva corresponde apenas a 50 ou 100 euros. Depois, há um complemento social que é dado para se atingir a pensão mínima. Quanto pesa este complemento? Um total de 22,5% das despesas com pensões, ou seja, 3,3 mil milhões de euros. Quando se diz que as pensões do regime contributivo custam €13 mil milhões, tem de se ter em conta que mais de €3 mil milhões correspondem a parte não contributiva, parte essa que é financiada por transferências do Orçamento do Estado e não pela TSU.”
    Vários erros. 1º, como podem ver no relatório, as despesas com o Complemento Solidário de Idosos são de 1,17% do Orçamento da Seg. Social e de 0% da CGA. Assim, o valor total é de cerca de menos de 0,3 mil milhões. Depois, as reformas são de 21,3 mil milhões, 13 da SS e 8,3 da CGA. Depois, aquele número de 22,5% não só é errado (não chega a 2%), como nem sei de ele vem. Para perceberem a minha estranheza, refiro por exemplo um facto bem conhecido nesta área, de que todas as pensões até 1000€ representam apenas 53% do total das pensões de SS e CGA (ver por exemplo no Gremlin Literário) Ora, 22,5% seria uma parte substancial de todas essas pensões (mesmo só contando a SS), o que não é apenas um erro de cálculo, é um erro de avaliação de grandezas.
  • “Visão: Então concluímos que a TSU, afinal, chegar para pagar as pensões…
    Bagão: Pois claro que chega. O sistema previdencial foi sempre superavitário. Só nos últimos dois anos é que tem tido um ligeiro défice por causa do efeito devastador do desemprego, como é óbvio.”
    lol
  • “Visão: E para se fazer face a esse “ligeiro défice”, não se tem recorrido ao Fundo de Estabilização?
    Bagão: Nem um tostão.”
  • “Visão: Concorda com o uso do dinheiro do Fundo de Estabilização para compra de dívida pública?
    Bagão: Assim como discordei da determinação do Ministério das Finanças deste Governo, para que o fundo pudesse adquirir até 90% dos seus ativos em dívida soberana – o que acho uma intromissão inadmissível, que colide com o princípio fundamental em qualquer gestão de ativos, que é o da diversificação do risco -, discordo agora desta coisa disparatada do PS de aproveitar 10% do Fundo, ou seja, 1,4 milhões de euros, para a reabilitação urbana. O Fundo não é do Estado; é dos pensionistas e dos futuros pensionistas. Isto é a política a entrar em domínios onde não deve entrar.”
    Como falei aqui, isto é grave.
  • “Visão: Que reformas vamos ter no futuro?
    Bagão: Temos de dizer aos jovens, com honestidade, que as suas condições de reforma tendem a ser inferiores às que hoje existem, mas que também não devem colocar os ovos todos no mesmo cesto.”
    Ou, de forma mais frontal: “Aguentem isto enquanto eu viver. Agora, como estamos a deixar uma situação explosiva, eu no lugar dos jovens diversificava. Depois não digam que não avisei”
  • “Visão: Está a falar do plafonamento. Ainda o defende?
    Bagão: Sim, sou a favor do plafonamento acima de um determinado nível de rendimento. Não tanto por uma questão de equilíbrio do sistema, mas por uma questão ideológica, filosófica, doutrinária”.
    Eu por mim tinha uma reforma como ele. O tramado é que não há dinheiro.
  • “Não é o momento oportuno para lançar qualquer plafonamento.”
    =)
  • “Visão: Baixar a TSU é descapitalizar a previdência?
    A Segurança Social caminha a passos largos para a insustentabilidade, dizem, e depois vão aproveitar para fazer política com as receitas da TSU. Todos querem aproveitar o sistema, mas querem o quê? Os ossos? ?O esqueleto? Ou o fillet mignon?”
    Se ele quer lançar um plafonamento, este no fundo passa por uma redução de TSU e pensões. Só assim se pode passar de um sistema mono-pilar para um sistema multi-pilar.

Para terminar, aproveitando este artigo do jornal Público, coloco aqui a imagem que relaciona a variável Desemprego com as contribuições para a SS em % do PIB:

SegurancaSocial TEXTO2

PS: Não resisto a mais uma gargalhada. Quando terminarem de rir deste artigo, têm aqui o Relatório #10, sobre a Segurança Social do Observatório sobre Crises e Alternativas, do CES, gerido por Manuel Carvalho da Silva. Sim, esse Carvalho da Silva.

A extrema-esquerda alucinada que quer ir para o Governo com o PS

Importa recordar que este parece ser neste momento o parceiro preferencial do PS para uma coligação (isto caso o partido de Rui Tavares consiga eleger deputados em número suficiente para o efeito, claro): O que querem Ana Drago e Rui Tavares.

Leitura complementar: A atracção fatal do PS pelo Syriza.

O PS, a linha do Syriza e o próximo Governo de Portugal (2)

Nem de propósito, a deputada do PS Isabel Moreira assume-se publicamente como marxista: É BOM PORQUE NÃO É NATURAL.

O lastro de Marx que me marca sem retorno, tão forte que faz de mim uma marxista, é a genialidade como contrapôs o progresso à natureza. A recusa de uma qualquer “ordem natural das coisas” e a defesa acérrima do progresso como antítese que espatifa a selva do acontecer como acontecer, ou do cada um por si, ou da não intervenção humana para mudar as suas condições, foi apresentada por Marx sem complacências.

Leitura complementar: A atracção fatal do PS pelo Syriza.

Lula da Silva preocupado com o risco de ser preso

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Lula está desesperado com o risco de ser preso

“Possesso e tenso na sexta-feira, 19, logo após a prisão dos dois maiores empreiteiros do Brasil, Lula espumava de raiva.

Aos interlocutores, culpou o governo Dilma, qualificado de ‘frouxo’ por ter deixado a situação ter chegado a esse ponto.”

Em outras palavras: Lula culpa Dilma por não ter conseguido boicotar as investigações.

O PS, a linha do Syriza e o próximo Governo de Portugal

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O meu artigo de hoje no Observador: A atracção fatal do PS pelo Syriza.

Desde Janeiro, muito mudou. Os amanhãs cantados para a Grécia sob governação da esquerda radical tardam em concretizar-se, as tropelias da dupla Tsipras-Varoufakis sucedem-se e o Syriza tem vindo, em consequência, gradualmente a perder credibilidade entre muitos que, na esquerda europeia, inicialmente olharam com simpatia para aos resultados eleitorais gregos. (…) Os tradicionais partidos socialistas europeus enfrentam, em geral, uma escolha inevitável e inadiável: ou estão com o radicalismo do Syriza e a ruptura institucional ou se apresentam como alternativa política dentro do quadro estabelecido. Mas essa escolha afigura-se especialmente difícil para o PS, dados os notórios e persistentes sinais de atracção pela via do Syriza. É também por isso importante seguir com atenção o que se passa na Grécia e levar a sério o que sugeriu ainda há poucos meses o candidato a primeiro-ministro António Costa: a linha do Syriza pode muito bem ser o modelo para o próximo Governo de Portugal.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

PDR: um partido à imagem do seu líder

Partido de Marinho e Pinto à zaragata: “Fascista!”; “tresloucado!”

Eurico Figueiredo, ex-deputado do PS, era apoiante desde a primeira hora. Agora, acusa Marinho de “falso profeta” e de criar “partido fascista”. Marinho já respondeu: é “acusação tresloucada”.

Continuar a ler

António Costa, até quando?

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Costa desvaloriza sondagem que dá PSD/CDS à frente

O líder do PS diz que vai continuar a trabalhar para conseguir “maioria absoluta”. Costa diz que “é uma triste sina herdar coisas por reparar”.

Fica por esclarecer se quando António Costa referiu que “é uma triste sina herdar coisas por reparar” tinha em mente a situação actual do Partido Socialista…

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Leitura complementar: O Hollande de Lisboa?; Nuvens no horizonte de António Costa…; O que é que Seguro não tem?

O que quer a esquerda?

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

O que quer a esquerda?

Ouvir alguém de esquerda a discutir a crise do euro e as políticas a serem implementadas é kafkiano. Vejamos: à falta de verbas que sustentem a Segurança Social, a esquerda responde com mais emprego. Emprego que se cria com investimento. Como é que se investe? Com dinheiro do Estado. Como é que o Estado recebe dinheiro?Aqui a resposta já é mais vaga porque não interessa reconhecer que com mais impostos e mais dívida, o que equivale a ainda mais impostos no futuro.

Quando falta dinheiro nos cofres do Estado, a esquerda defende a necessidade do investimento e a criação de emprego. No entanto, quando se passa ao caso concreto a conversa já é outra. Veja-se a privatização da TAP: não só se trata de investimento estrangeiro, com a vantagem natural de entrar dinheiro no país, como qualquer alternativa à seguida seria pior para o Estado e para os contribuintes. Na verdade, a recapitalização da empresa, além de difícil devido às limitações impostas por Bruxelas, obrigaria a um aumento dos impostos ou a um corte de outras despesas, como seja na saúde e outras prestações sociais.

Mas há mais. Temos também o turismo. Este sector bateu todos os recordes de receitas e de números de visitantes. No entanto, o que por aí se ouve é que há turistas a mais, que estes sujam as ruas, fazem barulho e determinam o tipo de comércio. Como se este fosse algo mais que o local de trabalho que cada comerciante cria para si. A situação é de tal forma caricata que até o Município de Lisboa, além de criar novas taxas para incentivar o turismo que está em alta sem a sua ajuda, pune comerciantes na Baixa cujas lojas têm sucesso com os turistas.

É aqui que sou forçado a concluir que a esquerda não pode ser assim tão kafkiana. Tem de haver algo mais. A impunidade ideológica de que tem beneficiado não lhe permite tamanho desaforo. E esse algo mais que a esquerda tem é uma visão de sociedade e de Portugal que raramente é discutida: um país onde as pessoas trabalham para o Estado; não apenas como funcionários públicos, mas no sentido de que trabalham com vista a angariar receitas para o Estado. Os cidadãos como formigas que amealham, não para si, mas para um poder público que zela por todos.

É isto que explica as taxas, os impostos, a desvalorização do equilíbrio das contas públicas, o desprezo pelo sucesso, a irritação perante o lucro. Na verdade, como pode alguém ousar ter um ganho que vá além do interesse nacional? Interesse este que mais não será que determinado por quem zela por todos; por um poder dirigente que não se harmoniza com a liberdade de agir. Isto é o que a esquerda quer. A direita, explicando que deseja precisamente o contrário, facilmente vencerá as eleições.

Em Sesimbra, as águas andam agitadas

Sesimbra Cultural: CDU destrói economia local a Sesimbra e culpa site regional.

Há malta em Sesimbra que começa a compreender a diferença entre a retórica “amiga do povo” do PC e a realidade nua e crua de uma gestão decidida em comité central.

 

A última sondagem

Para além do empate técnico entre PS e PaF (com ligeira vantagem para o PAF), a sondagem publicada pelo JN hoje mostra outras informações interessantes.

A primeira é de que apenas 14% dos eleitores acredita que o PS será melhor no governo do que a actual coligação, apesar de 37% responderem que vão votar PS. Portanto, a maioria dos eleitores do PS não acredita que eles farão melhor que o actual governo.

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A segunda constatação interessante é o número de pessoas que acredita que a austeridade teve um efeito positivo no país. Apesar do quase consenso mediático e político em torno do assunto, já há quase tantas pessoas a acreditar no efeito positivo da austeridade como pessoas a acreditar que teve um efeito negativo. O grande salto deu-se no último ano. Talvez também por isso, Portas, que sempre se quis fazer de polícia bom anti-austeridade do governo, continue a ser o líder político menos apreciado da sondagem. Quem quer agradar a gregos e troianos, arrisca-se a parecer desonesto e acabar por não agradar a ninguém.

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200 anos depois de Waterloo, recordar a Guerra Peninsular

Waterloo foi a derrota final e mais marcante, mas hoje é um bom dia para recordar que o despotismo napoleónico começou a ser derrotado alguns anos antes em Portugal.

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The English Lion kills the Imperial Eagle. A beautiful monument to pay homage today to all who died 200 years ago in Waterloo to save us all from tyranny! Exactly 200 years to the minute Lord Wellington and Field Marshall Blücher finally met to close a horrible day of fightings. “Sauvons nos aigles!” was the last cry heard from the French.

(ideia e texto surrupiados via Facebook ao meu colega Ricardo Reis)

Da austeridade ideológica

«Estes neoliberalistas, que escolheram a austeridade» — asseverou Ana Sá Lopes em tom indigente.

«Estes neoliberalistas, que escolheram a austeridade» — asseverou Ana Sá Lopes em tom indigente.

O problema de Portugal — excluindo todos os outros — é este: achar que a austeridade foi uma escolha e não um imperativo, e achar que a «social-democracia», se esta pudesse governar nesta Europa neoliberal, tal nunca o exigiria. Tanto assim é que o neoliberalismo que mata, passe os créditos a Mário Soares, que citava o Papa Francisco, conseguiu corromper grandes vultos da esquerda europeia não-neoliberal, como Hollande, Renzi ou Sigmar Grabriel, agora convertidos a finanças públicas em ordem — aos neoliberalismos, concluirão. Infelizmente a esquerda portuguesa ainda não percebeu que finanças públicas em ordem é condição sine qua non para os seus desvarios, é o garrote que incha a veia — note-se a analogia ao consumo intravenoso de estupefacientes, em tudo apropriada. Derrota-se a si mesma quando o ignora. Em síntese, isto é uma versão moderna da frase eternizada por Thatcher: «o socialismo acaba quando se acaba o dinheiro dos outros». Em parlance moderna, viver com défices crónicos, obras faraónicas e um Estado Social insustentável acaba quando se acaba o dinheiro de quem financia a borga. Pena que Ana Sá Lopes, entre tantos outros, não o compreenda, e continue a achar que a austeridade foi uma opção e não uma necessidade. Aqui perdemos efectivamente todos.

Demagogia sobre a Grécia – Parte 1273

Nos últimos dias veio a público uma notícia revelando que a Comissão Europeia propôs ao FMI incluir no acordo com a Grécia um corte de 400 milhões no orçamento defesa que reverteriam a favor das pensões mais baixas. Segundo a notícia, o FMI rejeitou o pedido da Comissão Europeia. Para muitos dos apoiantes locais do Syriza, mas também aqueles que estando alinhados ideologicamente com o Syriza mantêm um pé de fora não vá a coisa correr mal, isto é uma prova da cegueira ideológica do FMI.
Aquilo que fica por contar é que foi a Comissão Europeia e não a Grécia a fazer o pedido. Nenhum membro do governo grego veio a público defender a medida. Antes pelo contrário, da Grécia chegam sinais bastante diferentes. Os credores não podem impedir a Grécia de fazer cortes de despesa. A Grécia poderia cortar no orçamento da defesa amanhã se o desejasse realmente. Mas Tsipras escolheu para parceiro de coligação um partido nacionalista a quem deu a pasta da defesa. Dificilmente Kamenos, o ministro da defesa nacionalista, aceitaria um corte tão grande no seu orçamento.
Para além disto, o FMI já pediu no passado a países intervencionados para cortarem no seu orçamento da defesa. O mais certo é ter optado por não incluir a medida por saber antecipadamente que seria rejeitada.

Melhor que um cartaz

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“A justiça portuguesa vai transformar Sócrates num herói”

“A justiça portuguesa vai transformar Sócrates num herói”, é nisso que acredita Marinho e Pinto, antigo bastonário da Ordem dos Advogados.

“José Sócrates, Sempre!” – cartaz em Lisboa

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Cartazes de apoio a Sócrates afixados em Lisboa

O movimento de apoio a José Sócrates afixou dois novos cartazes, desta vez em Lisboa, contra a prisão do antigo primeiro-ministro e contra a direita portuguesa. O porta-voz do movimento, José António Pinho, acusa a direita de ter programado a prisão de Sócrates.

Num contexto de sondagens pouco entusiasmantes para o PS e de crescente desconforto interno no partido com a sua liderança, este tipo de iniciativas são provavelmente a última coisa que António Costa desejaria politicamente neste momento. Definitivamente, não está nada fácil a vida para o sucessor de António José Seguro na liderança do PS…

Leitura complementar: Um fantasma paira sobre o PS.

Estoril Political Forum 2015

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Termina hoje o prazo para inscrições na edição 2015 do Estoril Political Forum, organizado pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. O Estoril Political Forum 2015 tem como tema geral “Magna Carta: Law, Liberty & Power”.

O programa preliminar completo está disponível aqui. As inscrições podem ser feitas aqui.

Entretanto, recordo que decorre até 30 de Junho a 2ª fase de candidaturas ao MA in Governance, Leadership and Democracy Studies, programa em inglês oferecido pelo IEP-UCP em Lisboa, e até 10 de Julho a 1ª fase de candidaturas aos programas de Mestrado e Doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais.

Estoril Political Forum 2015 – “Magna Carta: Law, Liberty & Power”

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De 22 a 24 de Junho terá lugar a edição 2015 do Estoril Political Forum, organizado pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. O Estoril Political Forum 2015 tem como tema geral “Magna Carta: Law, Liberty & Power”.

O programa preliminar completo está disponível aqui. As inscrições podem ser feitas aqui até dia 17 de Junho.

Entretanto, decorre até 30 de Junho a 2ª fase de candidaturas ao MA in Governance, Leadership and Democracy Studies, programa em inglês oferecido pelo IEP-UCP em Lisboa.

Até 10 de Julho, decorre a 1ª fase de candidaturas aos programas de Mestrado e Doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais, do IEP-UCP, em Lisboa.

Perguntas e respostas sobre a privatização da TAP

Let her go.

Let it go.

O excelente FAQ sobre a TAP do Mário Amorim Lopes, um post de verdadeiro serviço público, já contabiliza mais de 5.000 partilhas registadas nas redes sociais.

Foi também em parte significativa devido a esse texto que O Insurgente registou só nos últimos três dias (Sexta, Sábado e Domingo) um total acumulado superior a 35.000 visitas no site.

Um ramalhete

Olá. Viemos aqui dizer umas coisas.

Olá. Viemos aqui dizer umas coisas.

Num plot que mais parece saído de um filme de David Lynch, o cineasta António-Pedro Vasconcelos organizou uma conferência na Fundação Calouste Gulbenkian intitulada “Quem ganha com as privatizações?”. Para acalentar o serôdio, o cineasta convidou quatro pessoas, para além do próprio, que nada percebem do assunto, onde se incluem Raquel Varela, Mariana Mortágua ou Paulo Morais, contando ainda com aparições inesperadas de outros grandes especialistas, como Garcia Pereira.

As duas horas estão recheadas de profuso e criativo disparate. De Paulo Morais, o costume. Acusações de conflito de interesse ou de corrupção disparadas em amplo espectro, como um míssil para matar uma mosca — matando tudo, eventualmente também acertará num alvo. De Raquel Varela nem vale a pena o esforço. De Mariana Mortágua é que estava à espera de mais. O seu trabalho na CPI que investigou o caso BES foi exemplar, demonstrando trabalho, afinco, rigor e responsabilidade, características que, por si só, a deveriam manter afastada do Parlamento. Elogiei-a e reitero o meu elogio pelo seu trabalho na CPI.

O debate começa com a típica falácia económica, eternizada por Almeida Garrett — que teve a habilidade de escrever «Viagens na minha terra», livro que nem o próprio deve ter conseguido ler —, e que consiste em ver a economia como um jogo de soma-zero. «Se alguém ganha nas privatizações, alguém tem de perder». Pois, mas a economia não é um jogo de soma-zero. Cada transacção é, ex-ante, win-win para ambas as partes, e o excedente económico aumenta para os dois. Caso contrário a transacção não ocorreria. Mas adiante.

Infelizmente, Mariana Mortágua não soube utilizar esse rigor e trabalho que lhe elogiei aqui. Entre muitas imprecisões, falsidades e mesmo ignomínias, destaco estas:

  1. «Não há um único investidor português nos CTT». Bom, os CTT têm a maior parte do seu capital disperso em bolsa (free float), pelo que é algo provável que haja portugueses com acções dos CTT. Conheço uns quantos. Vou-lhes perguntar se são mesmo portugueses.
  2. «Só a EDP vende electricidade em Portugal». Não sei se a Mariana tem um painel solar em casa para cozinhar um tofu com os seus amigos do Bloco, mas caso tenha, então também vende electricidade em Portugal. É uma micro-produtora paga a peso de ouro, fruto dos subsídios às renováveis. Mas para além de si existem muitas outras empresas produtoras e comercializadoras de energia, como é o caso da Iberdrola, da Endesa, da Galp Energia, etc.
  3. «Quem é o dono da EDP? Não é nenhum português». Voltamos ao argumento dos CTT. Neste momento não sou, mas pertencendo uma empresa aos seus accionistas, então posso-lhe confiar, em jeito de confidência, que já fui. Já fui portador de acções da EDP, embora não chegassem para comprar um portátil. Seja como for, e tanto quanto sei, sou português, pelo que reuno as duas condições.
  4. «Nenhum privado com o mínimo de racionalidade económica compra prejuízo». Esta é a minha preferida. Há gente que devia sair do gabinete e ir ver como é a economia real. E depois há gente que devia sair da economia real e ler um pouco. Mariana, uma parte significativa de empresas de private equity fazem precisamente isso — compram empresas em processos de falência e tentam recuperá-las. Algumas dão, outras não. Nos últimos anos e só nos EUA, cerca 30 milhares de milhões de USD foram investidos em quase 2 mil empresas que tinham declarado bancarrota, e que empregam mais de 250 mil pessoas.

Por fim, resta-me lamentar que, ao contrário da TAP, o pensamento destes senhores, que apresenta a consistência de um soufflé, não se reserve aos próprios, permanecendo assim privado. Mais um forte argumento a favor das privatizações, em particular aquelas que minorem a exposição pública da asneira.

O campeão das privatizações

O PS é, indubitavelmente, e bem, o campeão das privatizações. É pena que só o reconheça quando é Governo, e o negue quando é oposição. Lá está, uma vez mais, Mr Hyde and Dr Jekyll.

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A Magna Carta e nós

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O Miguel Noronha já aqui simpaticamente linkou o texto, mas não quero deixar de assinalar os 800 anos da Magna Carta com referência ao meu atigo desta semana no Observador, onde regresso ao tema: E se a liberdade depender de preconceitos?

É, assumidamente, uma equação difícil e imperfeita para quem se revê, em sentido amplo, num enquadramento liberal, mas talvez seja ainda assim a que mais garantias oferece. A título de ilustração, sugiro uma reflexão sobre alguns dos momentos mais negros da história contemporânea portuguesa: tanto no terrorismo de Estado que caracterizou boa parte da 1ª República como no caos e excessos revolucionários do PREC, a preservação da liberdade em Portugal só foi possível pelo enraizamento profundo em boa parte da população de valores, crenças e preconceitos – a favor da propriedade privada ou da fé católica, por exemplo – que a levaram a resistir firmemente ao progressismo utópico das elites revolucionárias.

Nesta linha, devemos provavelmente mais à tradição simbolizada pela Magna Carta do que habitualmente reconhecemos.

Magna Carta: 800 anos

João Carlos Espada – Magna Carta: “Uma ideia fundadora de um regime político limitado pela lei”

Há duas formas de encarar a Magna Carta, cujo oitavo centenário se assinala esta segunda-feira: como um mero documento feudal ou como um documento fundador de muitas ideias modernas. O director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, João Carlos Espada, opta pela segunda hipótese.

Em entrevista à Renascença, o professor universitário defende que a Magna Carta representa uma “ideia fundadora de um regime político limitado pela lei”, ainda que a sua formulação original não o defina como hoje a definimos.

Bruno de Carvalho dá o mote para a próxima época?

Bruno de Carvalho critica arbitragens e culpa gerências anteriores do Sporting

O presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, criticou hoje a arbitragem da final do ‘play-off’ com o Benfica em futsal, na qual o rival se sagrou campeão, culpando as gestões anteriores do clube pela herança que deixaram.

Leitura complementar: Jesus e a tentação de Bruno; Bruno de Carvalho e Jorge Jesus: para mais tarde recordar…