Dar mérito a quem o merece

João Galamba, da direcção do PS, fala hoje no seu artigo no Expresso do recuo de Portugal nos últimos anos. Diz ele:

“Com as políticas da actual maioria, Portugal regrediu uma década nos níveis de pobreza, regrediu duas décadas no emprego, regrediu três décadas no investimento e voltou a ter níveis de emigração só comparáveis com a década de 60.”

João Galamba tem razões, mas é demasido humilde na atribuição do mérito por este recuo. Vamos por partes:

Pobreza
Em 2013, Portugal apresentava uma taxa de risco de pobreza semelhante à de 2004 (19,5 vs 19,4). Se em 2014 tiver mantido o mesmo valor, então João Galamba terá razão em relação ao recuo de uma década: Portugal terá em 2014 o mesmo valor que em 2004. No entanto, esquece-se João Galamba de referir o contributo do seu próprio governo para esse recuo. Em 2011, já o risco de pobreza tinha recuado para os níveis de 2006.

Emprego
Também em relação ao emprego, João Galamba tem razão. Em 2014, existiam tanto empregos como em 1997 (4,5 milhões) o que perfaz quase duas décadas. Mas mais uma vez, João Galamba esquece-se dos méritos do seu próprio governo neste recuo. Quando deixaram o poder 2011, o emprego já tinha recuado para os níveis de…1998 (de facto, um pouco abaixo, com 4,7 milhões em 2011 vs 4,8 em 1998).

Investimento
Com o investimento, acontece o mesmo. Em 2013 tivemos o mesmo nível de investimento que em 1989. São apenas 24 anos, mas, com alguma boa vontade, até dou de barato que isto é um recuo de 3 décadas. No entanto, mais uma vez João Galamba esquece-se de referir os méritos do seu próprio governo. Se em 2013, o investimento estava ao nível de 1989, em 2011 já tinha recuado para pouco mais que os níveis de 1992.

Emigração
No que toca à emigração, 2012 e 2013 foram anos record que levaram o número de emigrantes aos níveis de 1966, um recuo de 5 décadas. Mas para a maioria PSD/CDS deixar o país aos níveis de 1966 não teve muito caminho para percorrer porque o governo PS já tinha deixado a emigração aos níveis de… 1967.

Fica aqui então uma tabela resumo dos recuos temporais:

recuo

João Galamba podia até falar noutros recuos, por exemplo nos encargos com a dívida pública, onde o governo PS deixou o país a níveis só vistos no século XIX (sim, um recuo de mais de um século).

Tem razão João Galamba quando diz que a pobreza regrediu 1 década, o emprego 2 décadas, o investimento 3 décadas e a emigração mais de 50 anos. Esquece-se é de atribuir o mérito a quem mais o merece: o governo PS, que foi o responsável directo por quase todo esse recuo temporal.

Nota: face a alguns comentários em relação ao ano escolhido para comparar os resultados do PS (2011), esclareço que os valores não seriam substancialmente diferentes se o ano usado tivesse sido 2010. Nada mudaria no caso dos níveis de pobreza e emprego em relação a 2011. No caso do investimento, o recuo teria sido até 1998 em vez de 1992 e no caso da emigração teria recuado até 1969 em vez de 1967. Nada de substancialmente diferente, portanto.

Resultados do socialismo verde

«“Os sacos finos deixaram de ser produzidos e em relação aos outros, os clientes estão expectantes em relação aos consumidores”, apontou.

A medida representou uma “quebra acentuada das vendas, provavelmente terei de reduzir alguns contratos com colaboradores”, lamentou.

Atualmente, a Plasgal conta com 120 pessoas, mas é possível que tenha de reduzir “no prazo de dois a três meses para as 90, para já”, disse.

“Tivemos de readaptar algumas máquinas, se não colocarmos volumes nos mercados externos, caso contrário teremos de abater as máquinas”, explicou Paulo Almeida.

O gestor lembrou que a readaptação da indústria transformadora não se faz de um dia para o outro e isso tem impactos económicos grandes.

“A readaptação do equipamento é um processo lento” e os custos podem ultrapassar os 3,5 a 4 milhões de euros.

“Dissemos várias vezes ao ministro o impacto que isto teria no setor”, afirmou, apontando que a recomendação da União Europeia é de uma “redução gradual” para 90 sacos por habitante até 2020 e para 40 sacos em 2015.

“Em Portugal é de 35 por habitante e a decisão definitiva foi tomada em dezembro e entrou em vigor em fevereiro”, sublinhou.»

Espero que no impacto financeiro da medida suas alucinações Moreira da Silva e Passos Coelho tenham contabilizado os subsídios de desemprego que vão pagar aos mais que esperáveis desempregados que esta mudança provocou.

Ler+ é possível e promove a saúde e a economia

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Devemos agradecer ao autor de Tortura em Democracia, actualmente a residir em Évora.

Várias Câmaras Municipais financiaram o livro de José Sócrates que esteve, pelo menos, um mês em primeiro lugar em todas as livrarias. O Sexta às 9 descobriu que, em Lisboa, foram emitidas faturas em nome de autarquias do norte do país que compraram este livro às dezenas, várias vezes.

Os casos e o infernal Estado fiscal

Sejamos realistas. Por José Manuel Moreira.

O caso mais recente é o das dívidas de Passos Coelho à Segurança Social. Fazendo-nos crer que o mal maior não está na máquina fraudulenta, que produz sucessivos casos – da Saúde à Segurança Social – mas nos “apanhados”. Daí que se exija, não a liberdade de saída (ou não entrada), mas que ninguém escape ao sistema.

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Exigência

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Exigência

Em 1918, Thomas Mann publicou as “Considerações de um Apolítico”. Trata-se de uma apologia da Alemanha de Guilherme II, contra a França, o Reino Unido e os EUA. Contra o Ocidente, a democracia, o liberalismo económico e político. Mann definiu-se nesta obra como apolítico porque não apreciava a política. Não só a política partidária, mas tudo o que esta significava de discussão, de debate, de liberdade, porque em detrimento da ordem, da incerteza; em prejuízo da estabilidade e da previsibilidade.

Quando o escreveu, Thomas Mann era um homem literariamente instruído e já tinha publicado ‘Buddenbrooks’ e ‘Morte em Veneza’. No entanto, quanto à política e no que dizia respeito à economia não se tinha cultivado. Não sabia, nem queria saber. Foi por isso que se definiu como apolítico: alguém sem ideias políticas. E foi também por essa razão que ao longo da sua vida contradisse o que defendeu em 1918. Thomas Mann não era mal-intencionado. Pura e simplesmente, não sabia. Quis-se alhear da realidade até perceber, para o que precisou de uma guerra mundial, o perigo de ser apolítico. O perigo de entregar o poder do conhecimento a outros.

Praticamente 100 anos passaram das considerações apolíticas de Mann, mas os riscos, embora não tão graves, têm a mesma génese. Da mesma forma que Mann beneficiou da paz que o liberalismo permitiu à Europa no século XIX, também a maioria de nós adormeceu pensando que a história tinha terminado. No entanto, durante esse mesmo período, a história desenrolou-se e caiu-nos em cima.

E aquilo com que nos deparamos agora é que enquanto a maioria, à semelhança de Mann, esteve adormecida e imersa nas suas vidas, os dirigentes políticos, beneficiando desse torpor e indiferença, seguiram, tal como há um século, políticas que à primeira vista eram inofensivas, mas que quando continuadas durante anos puseram em causa o equilíbrio alcançado.

Chegámos assim a um despertar do eleitorado que foi apanhado de surpresa. Um eleitorado que, por se ter desinteressado das questões políticas durante anos, vai cometer erros. Como Mann. Mas que também vai evoluir; vai-se instruir e irá exigir políticos com um discurso que vá além do mero amealhar de receitas para serem distribuídas de acordo com critérios tantas vezes subjectivos e que encaram o Estado como um conjunto de lugares a serem ocupados.

É frequente referir-se que o eleitorado já não se revê nos partidos. Ora, e contrariamente ao que se diz, tal não sucede por falta de interesse, mas precisamente porque os cidadãos agora querem saber. Exigem. E sejamos muito directos neste ponto: o eleitorado está à procura de novas soluções; de novos caminhos que estão a ser esboçados fora da classe política. Esteja, pois, esta atenta para se actualizar e ir ao encontro de um eleitorado que já não é mais apolítico, mas começou a exigir.

Revista de Imprensa Insurgente (2)

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Fonte: Sol

Comentário: Anti-sistema!? Eanes foi presidente 10 anos e é um dos “fundadores” do regime. Sampaio da Nóvoa foi reitor de uma das principais universidades. Carvalho da Silva liderou a CGTP, um dos principais pilares da organização corporativa do regime durante anos. Marinho Pinto foi bastonário da Ordem dos Advogados, outro pilar corporativo. Estão a gozar, só podem.

Y(pipe)dreams

A Ydreams, empresa portuguesa propagandeada como exemplo de sucesso e paradigma de inovação, solicitou a proteção de credores numa última tentativa de evitar a insolvência. Mais ou menos na brincadeira, costumo dizer que o primeiro passo para um empresa se dar mal é aparecer no Expresso e na SIC Notícias como exemplo de sucesso. A Ydreams é, neste caso, realmente paradigmática. O seu presidente, António Câmara, chegou a escrever regularmente no Expresso sobre inovação e empreendedorismo.

Apesar da realidade dos factos, o Expresso ainda assim consegue dar a péssima notícia (para os investidores da empresa) com algum spin genial. Desde o “portfolio valioso” de propriedade intelectual aos inúmeros prémios e delegações espalhadas pelo mundo. Seria giro fazer uma auditoria séria ao dito “portfolio valioso” para perceber quantas das coisas anunciadas pela Ydreams são mesmo patentes e activos proprietários funcionais, em vez de marcas catchy, recauchutamento de ideias vagas de gurus sobre o futuro (sem qualquer implementação real) ou utilização de tecnologias alheias.

A Ydreams era um pet project apoiado por Ricardo Salgado, deslumbrado com o paleio de António Câmara, cuja visão aspiracional deve ser presumivelmente contagiante, mas a sua capacidade de execução, no melhor dos casos, insuficiente. Só assim se explica que uma empresa cujo passivo era há 4 anos o dobro das receitas, ao mesmo tempo que os prejuízos eram mais de um terço das receitas, tenha conseguido persistir até agora no consumo do capital dos seus investidores.

O triste nisto nem é que a imagem do empreendedorismo, tão importante para um país como o nosso, que é averso à iniciativa empresarial, saia beliscada pelo falhanço de um dos seus (alegados) porta-estandartes. O triste é que este exemplo mostra cruamente a falta de qualidade (ou falta, mesmo) da análise de viabilidade de investimentos por parte de alguns dos intervenientes no sector do capital de risco.

A compra de votos à custa dos mais pobres

SSSe há uma coisa que a campanha do PS “Abandonados pela Segurança Social” vem demonstrar é a irrelevância das prestações pecuniárias do regime não contributivo da Segurança Social. O PS quer fazer o país acreditar que faz uma grande diferença para uma família de 6 pessoas receber 135 euros de RSI ou para um reformado pobre ter mais 48 euros por mês na reforma. Quer-nos também fazer acreditar que esse tipo de ajuda é preferível a ajuda em géneros, como a que é garantida pelas cantinas sociais. Nos verdadeiros casos de necessidade, as ajudas pecuniárias continuarão a fazer pouca diferença, nomeadamente na qualidade da alimentação.

Os beneficiários que verdadeiramente necessitam de apoio trocariam num piscar de olhos os benefícios pecuniários por ajudas em géneros, nomeadamente alimentação (135 euros para uma família de 6 não chega, nem de perto nem de longe, para pagar alimentação para um mês). Como os falsos necessitados tendem a menosprezar a ajuda em géneros, isto deixa mais recursos disponíveis para ajudar quem verdadeiramente necessita. Porque despreza então o PS a ajuda em géneros, preferindo as ajudas pecuniárias, mais sujeitas a fraude, e que pouco fazem pelos que verdadeiramente necessitam? A explicação é simples: porque pequenas ajudas pecuniárias abrangem mais eleitores, incluindo muitos que não necessitam dessa ajuda (quando, por exemplo, o rendimento efectivo do seu agregado familiar é superior ao declarado). Ao alargar o número de beneficiários, o PS mantém um conjunto de eleitores fieis que sabem que ter o PS no poder lhes garante um suplemento de rendimento. Com pequenas ajudas pecuniárias dadas a um grande número de pessoas, aqueles que necessitam mais, recebem menos, mas o PS atinge o seu objectivo: comprar votos.

Leitura adicional: RSI vs Cantinas Sociais

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

Os servos

O caso de Passos Coelho com a Segurança Social e os seus atrasos na entrega das declarações ao fisco deve fazer-nos pensar. Poderá alguém que alguma vez tenha tido dívidas ao fisco e à Segurança Social ser primeiro-ministro? Ou mesmo ser titular de um cargo de cariz político?

A pergunta é pertinente porque as vastas funções que foram sendo atribuídas ao Estado, a elevada dívida que este contraiu para fazer frente às despesas resultantes dessas mesmas funções, torna indispensável o pagamento pontual dos impostos, das taxas e das contribuições à Segurança Social. Mais, e voltando à pergunta: como é que alguém que se atrasa com o fisco e a Segurança Social pode aumentar impostos e exigir o seu pagamento a tempo e horas?

Podemos ficar-nos por esta pergunta, mas também podemos ir um pouco além: será esta a sociedade que queremos? Uma sociedade centrada no Estado, em que tudo gira à sua volta e o chefe de governo mais não é que o líder máximo de algo mais parecido com uma grande organização, cujo funcionamento não pode ter falhas?

Não pretendo dar razão a Passos Coelho, até porque centenas de milhares de pessoas se esforçam por não ter dívidas nem se justificam com o desconhecimento da lei. No entanto, não deixamos de viver numa realidade em que antes de mais nada devemos ao Estado. E, como todos lhe devemos, a todos exigimos o pagamento do que se deve. Seja um cidadão comum ou um primeiro-ministro. Não é de mais concluir que estamos presos nesta lógica do servidor-pagador.

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Sobre a proposta de fazer do fundo de capitalização da Segurança Social uma representação da Remax, pouco haverá a acrescentar. Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso — o que exclui os proponentes deste golpe de génio — perceberá imediatamente a míriade de potenciais problemas que tamanha irresponsabilidade acarraterá.

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Seia e Gouveia. E Vitor Bento.

imagem1_5210No meu artigo de hoje no Observador faço um pequeno remoque ao ensaio que Vitor Bento publicou, tentando explicar a arquitectura monetária europeia através de queijos da Serra, e com queijos da Serra mostrar porque discordo de Vitor Bento na narrativa que tece à volta da sua análise económica.

Terras frias das Beiras, Seia e Gouveia há muito que competem entre si. Seia produz o seu conhecido e apreciado queijo amanteigado de ovelha, ou Queijo da Serra, assim como queijo de cabra. Gouveia usa os derivados da ovelha de uma outra forma, tecendo casacos, mantas e sapatos de lã. Ambas as cidades trocam produtos entre si — de Seia saem os queijos, de Gouveia os casacos. Entretanto, porque do boca-em-boca se enche o granel — assim corre o adágio popular, ou assim creio que corra —, Seia começou a vender os seus famigerados queijos para outras localidades também. Rezam os boatos que até para as terras distantes do Porto os queijos viajavam, deliciando e contentando os ougados por uma tosta bem barrada. Com tanta procura externa, Seia começou a enriquecer, e os preços acompanharam esta tendência. Gouveia, em comparação, por lá continuava.

Programa Avançado – Diplomacia Política e Económica

Estão abertas as candidaturas para o Programa Avançado em Diplomacia Política e Económica do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa.
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Os casos fiscais de Pedro Passos Coelho e António Costa

O resumo dos casos recentes envolvendo Pedro Passos Coelho e António Costa oportunamente elaborado pelo Carlos Guimarães Pinto já contabiliza mais de 1000 partilhas no Facebook.

Leitura complementar: Da ditadura fiscal à miséria moral.

Cavaco Silva sobre o perfil do próximo Presidente

Outros critérios podem e devem certamente ser considerados, mas não deixa de ser interessante a opção de Cavaco Silva ao vir publicamente destacar precisamente esta dimensão. Se na área do PS tanto António Guterres como, em menor grau, António Vitorino encaixam no perfil traçado pelo actual Presidente da República, já na área do PSD nenhum dos nomes que tem sido mais falado (Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa, Rui Rio, Manuela Ferreira Leite) parece, pelo menos à primeira vista, encaixar nesse perfil: Cavaco Silva: Próximo Presidente deve ter experiência em política externa

Cavaco Silva traça o perfil desejável do seu sucessor, no prefácio que assina esta segunda-feira: alguém com experiência em política externa para defender o país.

Interessante também a pronta reacção de Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa.

“Campeonato” espanhol: empate técnico

Observador:

Quase empatados. O resultado mais recente das sondagens publicada este domingo pelo El País mostra que os quatro partidos que reúnem mais intenções de voto repartem entre si 80% do eleitorado.

(…)

A distância entre as quatro forças política é tão curta, que considerando a margem de erro, o resultado é praticamente um empate técnico. A manter-se a tendência, significa que o próximo governo espanhol terá de resultar de uma coligação.

Fez-me pensar: se Bloco de Esquerda subir nas sondagens e “roubar” eleitorado ao PS, que tipo de entendimento teria a coligação António Costa/Catarina Martins?

A fórmula Ferreira Leite para a Grécia

Quase 11 anos atrás a então ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite, contratou Paulo Macedo (o actual ministro da Saúde) como Director-Geral de Impostos, com o objectivo de modernizar e tornar mais eficaz a cobrança de impostos. Esta foi a solução encontrada em 2004 para fazer face ao défice orçamental excessivo, ao invés de reformar o Estado e consequente redução da despesa pública. Solução que, na década seguinte, continuou a ser implementada em Portugal.

Agora o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, pretende aumentar o volume de impostos cobrados, uma das medidas será a contratação de “espiões” fiscais. Numa economia já bastante fragilizada nada que se queira ouvir. Por outras palavras, tal como Ferreira Leite fez doutrina por cá, também lá estão a privilegiar o sector público em prejuízo do privado.

Nota: O discurso de combate à evasão fiscal anda sempre à volta da maior justiça entre os contribuintes. Mas, apesar de se conseguir cobrar mais impostos a alguns, a carga fiscal para os restantes nunca baixa.

Então um post no dia da mulher

saltos luis xiv

Como prometido ontem no facebook, cá vai a resposta feminista ao post do Mário com o Nelson Évora.

Começo por fazer a declaração de interesses. Também não sou adepta da igualdade de género naquela parte em que anula as diferenças entre homens e mulheres. Acho o mundo muito mais divertido com a existência destas diferenças. Precisamente por haver diferenças é tão importante a participação das mulheres em todas as esferas (se fôssemos indistintos, tanto faria se fôssemos respresentados por homens ou por mulheres). E, de resto, uma das minhas lutas (se isto não soar excessivamente commie) feministas é precisamente recusar tanto a uniformização dos géneros como não aceitar que, mantendo-se a diferença, a maneira masculina de fazer as coisas seja o padrão e a maneira feminina um desvio que as mulheres devem corrigir para serem aceites. E, não nos enganenos, no nosso mundo ocidental livre e women-friendly esta forma de obrigar ar mulheres a aceitarem o padrão masculino (onde não estão tão à-vontade ficando, assim, em desvantagem) é o último (e mais insidioso) reduto do machismo.

Mas já não me convencem que as diferenças entre os sexos sejam motivo – e quantas vezes são usadas para isso – para limitar ocupações e tarefas de cada um dos sexos. As mulheres não são naturalmente adequadas à realização de tarefas domésticas, nem ao cuidado dos filhos e dos doentes da famíla, nem às atividades profissionais de cuidadoras. Eu, que me tenho por muito feminina, não acho qualquer piada a limpezas domésticas ou a tratamento de roupas ou, sequer, a cozinhar. Também não vejo que a minha natureza ditasse que a mudança das fraldas dos meus filhos, ou os banhos ou os períodos sem dormir à noite me fossem destinados em exclusivo (ou em maioria). Eeeeeeeetc.

E – e chegamos ao post do Mário – coisas como saltos altos também não são naturais ao sexo feminino. (Digo eu que uso quase sempre saltos altos; e gosto.) Nem exclusivas. Ao longo dos tempos muitos homens usaram saltos altos. Luís XIV era conhecido por usar saltos altos. Nelson Évora está apenas a fazer algo que muitos outros antes dele fizeram. E quanto ao simbolismo da fotografia, é um ótimo exercício de empatia. Aquela ideia de usar os sapatos do outro para o compreendermos. E sim, é um exercício que faz falta no que toca aos assuntos femininos (que, lá está, são menorizados e apenas para os fóruns femininos – porque os assuntos importantes e que merecem discussão geral, de homens e mulheres, são os que interessam aos homens). Pelo que Nelson Évora não está nada ridículo na capa da Máxima; está admirável. (Tanto que uma coisa que eu vou já ensinando aos meus dois filhos é que as cabeças e os corações femininos têm um soft spot para homens empáticos; para que assim desenvolvam a capacidade e a aproveitem.)

saltos homens

(Já agora quanto a este post do João Cortez, também acho um enorme disparate estas disposições legais. Mas acharia muito bem que fosse obrigatória a publicidade da percentagem de mulheres nos conselhos de administração e nos corpos de gestão das grandes empresas, por exemplo. Porque é uma informação relevante e nós somos meninas para, sabendo isso, boicotar os bens e serviços vendidos por empresas com exiguidade de mulheres no topo.)

P.S. Este post é conversa europeia (também poderia ser norte-americana). Que não nos faça esquecer os tantos sítios onde as mulheres nem veem respeitados os seus direitos humanos, tanto nas leis como nos hábitos culturais. E como tantos aceitam que este desrespeito pelos direitos humanos das mulheres seja importado para a Europa em nome da tolerância para com os imigrantes.

António Costa descoberto II

Existem actualizações no post de António Balbino Caldeira no Portugal Profundo sobre a cobertura descoberta.

Por uma questão de orientação e facilidade de leitura, as novidades encontram-se no Pós-Texto 1 (18:46 de 7-3-2015): A penthouse duplex de Costa e no Pós-Texto 2 (21:38 de 7-3-2015): As explicações de Costa ao CM.

Leitura complementar: António Costa descoberto.

Ditadura fiscal e miséria moral

O meu artigo de hoje no Observador: Da ditadura fiscal à miséria moral.

(…) a Autoridade Tributária (uma designação que em si mesma é já todo um programa…) que impõe prazos e obrigações declaratórias aos cidadãos é a mesma entidade que frequentemente não cumpre prazos e falha nas notificações. Acresce que, por via do alegado “combate à evasão” (o tal que supostamente propiciaria baixas de impostos que ainda ninguém viu), o ónus da prova está hoje cada vez mais invertido, de tal forma que em muitos casos, na prática, é já o cidadão que tem de provar a sua inocência face à máquina fiscal.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Resumo dos casos recentes envolvendo Passos e Costa

Resumo4Clicar na imagem para ampliar.
Correcções e actualizações na caixa de comentários.

Com excepção do último caso (onde a culpa também está mais longe de ser provada) todos aconteceram quando os intervenientes não tinham responsabilidades políticas, envolveram montantes baixos e, mesmo tendo havido intenção, correspondem a comportamentos normais na altura em que aconteceram. Por isso, é difícil perceber como é que qualquer destes casos pode justificar a desqualificação destas pessoas para o cargo de primeiro-ministro. Talvez seja boa altura para colocar a histeria de lado.

Sem alternativa

Como tenho defendido desde algum tempo, tirando algumas medidas cosméticas e empurrado pelo Tribunal Constitucional, a coligação PSD/CDS geriu a crise da mesma forma que o PS tê-lo-ia feito se fosse governo. É escasso o espaço para alternativas ideológicas na condução do país que não incluam decisões drásticas de consequências imprevisíveis. Dois acontecimentos recentes vieram comprová-lo. Por um lado, a ausência de alterações relevantes na política na Grécia e o facto das poucas alterações (quase todas de retórica) terem tido consequências negativas para o país. O segundo acontecimento marcante foi a admissão de Costa que o país estava melhor, deixando claro que dificilmente envergaria por um caminho substancialmente diferente.

Estes acontecimentos aliados a sondagens pouco satisfatórias, deixaram o PS numa situação difícil. Na ausência de alternativas políticas substanciais (politicamente possíveis ou com resultados melhores que a actual), o debate vira-se os indivíduos. Todos os atrasos, multas de trânsito, redes de amigos e ligações serão escrutinados. Como chegar a líder de um partido político implica muitas destas coisas, haverá muito caminho sujo a percorrer. É uma pena.

Democracia participativa

Formulação da pergunta do referendo de Campolide sobre a manutenção da calçada portuguesa:

984279_841244372603545_6768335487855763714_n (via Luis Paixão Martins)

Senhores eleitores, preferem manter a porcaria do piso actual ou mudar para algo muito melhor?

Há que matar o pensamento único

É indiferente que o capitalismo, com a globalização do comércio e a inovação tecnológica, haja conseguido aumentar exponencialmente a produtividade, assim como arrancar milhões de pessoas da pobreza, especialmente nos lugares mais povoados como a China, a Índia ou o Brasil. Apesar da evidência empírica, em Espanha e, inclusive, nos Estados Unidos, há muitos compatriotas que pensam, equivocadamente, que o mundo está hoje bastante pior do que há décadas.

De Espanha e sobre Espanha, poderia ser sobre Portugal. Reflecte bem como o pensamento único se entrincheirou, para nosso pesar, no discurso público. Em países onde a despesa pública é superior a 50% do PIB e onde fazer um bom negócio é crime de lesa-pátria que deve ser taxado, a propaganda das teses neoliberais que se espalharam pelo mundo só pode ser brincadeira. De propangadistas, de lunáticos ou de ambos.

A ler: Há que matar o pensamento único, de Miguel Angel Belloso.

Método socrático: Conhece-te a ti mesmo

think-before-you-speakInterpretar a referência de Passos a não ter enriquecido no exercício de um cargo público como uma crítica a Sócrates diz mais sobre o juízo que o intérprete faz de Sócrates do que sobre o juízo que Passos fará do mesmo.