Por favor não me ajudem, pensará ele

socratesO primeiro autor de um pedido de habeas corpus foi um jurista conhecido por ameaçar imolar-se num sofa regado com gasolina em protesto contra a sua universidade. O segundo apresentou o pedido em fotocópias de jornal. O terceiro é um sucateiro condenado por violência doméstica e envolvido em leilões manhosos com o badalado Manuel Godinho.

Não faz diferença, o que interessa é o Draghi

É bom recordar àqueles cujo conhecimento de economia é inversamente proporcional à forma aguerrida e proselitísta com que juravam que o yield das obrigações da dívida pública nada tinha a ver com a percepção do risco ou com os défices orçamentais, este simples gráfico. Um deles foi agora recentemente promovido ao secretariado nacional do PS, imagino que como recompensa pela sua acutilância económica.

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Yield até à maturidade das obrigações a 10 anos da Grécia e de Portugal, cabalmente demonstrando o efeito Draghi-dual, em que uma mesma acção pode gerar dois efeitos completamente distintos.

Serviço Público

Um bom exemplo de serviço público prestado por uma empresa privada e estrangeira, a EasyJet. E sim, o serviço é diferenciado, mas julgo que o jornal e o sumo da Compal não justificarão a diferença de 140€. Para além de que o voo da TAP está sempre sujeito a greves.

ServicoPublicoEasyJet

Mistérios estatísticos

No Jornal de Negócios, é notícia que de acordo com a OCDE, «Portugal terá sido o país resgatado que menos empobreceu até 2012», e que «a crise e a subsequente política de austeridade retirou mais a quem mais tinha: a perda anual média de rendimento real disponível dos 10% mais ricos foi de 3,7%, ao passo que os 10% mais pobres perderam 1,9%». No entanto, o mesmo artigo refere que de acordo com o INE, «os dados (…) sugerem que o coeficiente de Gini (…) desceu ligeiramente de 34,5% em 2011 para 34,2% em 2012», mas que «o fosso de rendimento entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, subiu, passando de 10 em 2011 (…) para 10,7 em 2012.»

Alguma observações:

  • Quando existe tão gritante contradição entre duas fontes, é importante tentar averiguar as razões da diferença. Dizer no mesmo artigo que a desigualdade diminuiu e o fosso entre ricos e pobres aumentou é algo esquizofrénico.
  • Pode-se começar por verificar que o intervalo de comparação é diferente. Nomeadamente que a OCDE analisou dados entre 2007 e 2012 enquanto os dados do INE são entre 2011 e 2012. Um subconjunto dos primeiros, portanto.
  • Quando nos referimos aos dados propriamente ditos, eles não “sugerem” os seus próprio valores. Podemos dizer que os dados apresentados “sugerem” uma diminuição da desigualdade. Não podemos dizer que os dados “sugerem” uma diminuição do índice de Gini, quando essa diminuição é objectivamente apresentada.

Mas adiante. O mais interessante não é o artigo mas antes o próprio estudo da OCDE. Nele podemos ver que o crescimento médio anual do rendimento real líquido dos 10% mais pobres em Portugal entre os anos 80 e 2008 foi de 3,6%, enquanto para os 10% mais ricos esse crescimento foi de 1,1%. A evolução destes indicadores deve ser vista a longo prazo e não de ano para ano, em que algum factor específico e conjuntural pode ser responsável pela variação. O estudo da OCDE vem confirmar a variação de outros indicadores a longo prazo, como o de Gini, que desceu de 37% para 34,2% entre 1994 e 2012; ou o S80/S20, que desceu de 7,4 para 6,0 no mesmo periodo. Sob qualquer prisma, a desigualdade parece ter diminuido em Portugal nas últimas décadas. Ao contrário do que “sugerem” as notícias sensacionalistas, que surgem oportunisticamente cada vez que um indicador tem uma variação para cima de uma ano para outro.

Note-se que a diminuição da desigualdade não é um valor em abstracto. A desigualdade é mais baixa em Cuba e na Coreia do Norte e isso não faz esses países ter um melhor nível de vida que o nosso. Possivelmente, se tivessemos o crescimento que tanta falta nos faz para suportar o nosso anafado estado, num contexto de maior desigualdade, isso seria preferível.

Porque é que há tantas greves de transportes públicos?

O Economista Insurgente

(excerto do livro O Economista Insurgente)
As imagens mais comuns nos dias de greve não são as de fábricas paradas, restaurantes fechados ou escritórios paralisados, mas sim de pessoas de classe média e baixa desesperadas por não terem transportes públicos disponíveis. As greves raramente têm sucesso no sector privado, mas as imagens da confusão geradas pela paralisação dos transportes públicos são bastante comuns. Autocarros parados, filas de pessoas exaltadas à espera de transporte (funciona ainda melhor em dias de chuva) e protestos dos utentes são as imagens de marca das reportagens televisivas em dias de greve. Apesar do insucesso de adesão que consecutivas greves gerais têm historicamente em Portugal, há um sector muito específico onde tendem a ter bastante sucesso: O sector dos transportes públicos.

Não é surpreendente que assim seja. Em primeiro lugar, a maioria dos trabalhadores das empresas de transportes públicos são funcionários relativamente bem pagos que podem suportar sem grande sacrifício a perda de um dia de salário. Pelos motivos que veremos mais à frente, estes trabalhadores têm grande poder negocial nas suas discussões com o Estado e foram conseguindo ao longo do tempo conquistar bastantes benefícios diretos e indiretos.

No entanto, existe um factor ainda mais importante para o sucesso das greves nos transportes públicos: As centrais sindicais concentram muitos esforços na sindicalização e mobilização dos trabalhadores deste sector. Para além do esforço de captação de trabalhadores do sector dos transportes, nos dias de greve é também junto às empresas de transportes onde mais piquetes de greve são montados. Existem bons motivos para isso: Uma greve bem sucedida no sector dos transportes tem um efeito multiplicador nos restantes sectores. Como muitas pessoas ainda vão dependendo dos transportes públicos para chegar aos empregos, uma greve nos transportes desencoraja ou impede de todo outros trabalhadores de deslocarem-se ao emprego. Aqueles que têm escolha, antecipando a greve nos transportes públicos, levam viatura própria para o emprego nesse dia, contribuindo para um trânsito ainda mais intenso. Tudo isto faz com que muitas pessoas completamente desinteressadas nos motivos da greve acabem por também faltar ao emprego nesse dia, aumentando de forma artificial o real impacto das greves. Ao contrário de outros trabalhadores, cuja ausência ao trabalho tem pouca visibilidade pública, uma greve dos transportes gera um caos visível e multiplicador. Precisamente por isso é que os sindicatos fazem um esforço tão grande para garantir adesão à greve neste sector.

Neste contexto, os governos não gostam de greves nos transportes e tudo fazem para as evitar. Cientes deste facto, os trabalhadores das empresas de transportes foram conseguindo ao longo dos anos acesso a benefícios não disponíveis a trabalhadores, com o mesmo nível de qualificações, noutros sectores. No privado, uma empresa que suba os salários dos seus funcionários acima da sua produtividade (ou seja, acima do retorno que o trabalho deles possibilita) acaba por ir à falência e fechar. Como grande parte das empresas de transportes públicos pertencem ao Estado, esse problema não existe. Estas empresas podem aumentar os salários, acumular prejuízos, passando-os diretamente para os contribuintes; que na próxima greve estarão à chuva à espera do comboio ou do autocarro pelo qual pagam bem, mas que nem sempre chega.

Transportes públicos: greves, greves e mais greves

Funcionários do STCP em greve hoje e amanhã
Trabalhadores do Metro de Lisboa em greve no dia 17
Metro de Lisboa volta a parar a 22 de dezembro
Trabalhadores da Refer marcam greve para 18 de Dezembro

Leitura complementar: Pela libertação do Metro de Lisboa.

Hoje na Grécia, amanhã em Portugal ?

Parlamento grego aprovou orçamento do Estado para 2015

Parlamento grego aprovou neste domingo o orçamento do Estado para 2015, um documento que não tem aprovação junto dos credores gregos e gerou uma ampla rejeição social.

Leitura complementar: O Tribunal Constitucional, o BES, o Orçamento 2016.

Rumo a uma tempestade perfeita em 2016 ?

Eurogrupo subscreve cepticismo de Bruxelas sobre o cumprimento da meta do défice público

Governo persiste no objetivo de baixar o défice público para 2,7% em 2015, mas o Eurogrupo subscreve os receios de Bruxelas de que haja uma derrapagem para 3,3%.

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Não os deixeis cair em tentação

(artigo publicado no Diário Económico na passada sexta-feira, não disponível online)

A corrupção e o tráfico de influências são características incontornáveis das administrações públicas um pouco por todo o Mundo. Isto dificilmente é surpreendente: a mistura explosiva de oportunidade, necessidade e inclinação pessoal faz com que a corrupção não só seja esperada, como altamente provável.
Observemos o caso português. A administração pública gere de forma directa perto de metade do PIB, tendo um papel regulador e fiscalizador da quase totalidade do que é deixado nas mãos de privados. Ao mesmo tempo, tabelas salariais rígidas fazem com que as remunerações dos altos cargos da administração pública estejam muito longe de corresponder ao poder e responsabilidades que lhes são atribuídos. Políticos remunerados como quadros médios de uma empresa, mas que gerem as mesmas somas de dinheiro de altos executivos, são alvos fáceis de corrupção.
Por outro lado, a carreira política sofre de um problema de selecção adversa, favorecendo a entrada de pessoas mais susceptíveis à corrupção. Sendo verdade que alguns entram na política com uma genuína vontade de fazer o bem, muitos também são atraídos pela possibilidade de ascensão social que não conseguiriam por outras vias. E são estes últimos que, por não terem outra alternativa, resistem melhor aos obstáculos de percurso, chegando assim aos cargos mais altos de poder. Somando todos estes factores, a única surpresa é que não existam (ou não sejam conhecidos) mais casos de corrupção.
Uma justiça eficaz é um factor dissuasor importante que solucionará parte do problema. Neste domínio, os acontecimentos recentes só podem ser considerados má notícia por quem achar que a corrupção é um fenómeno novo. Não sendo um fenómeno novo, o facto de finalmente chegar à barra dos tribunais é uma excelente notícia.
Mas a justiça por si só não chega: o eleitorado também tem um papel a cumprir. Cabe ao eleitorado eleger os políticos que se comprometam a eliminar as fontes de corrupção e saber escolher os candidatos menos susceptíveis de serem corrompidos. Isso passa por, em primeiro lugar, afastar as tentações, reduzindo o tamanho do estado e a extensão do seu poder na sociedade. Em segundo lugar, aceitar que governantes de topo possam receber um salário proporcional às responsabilidades que detêm, tornando-os mais independentes. Aumentar salários de políticos é uma medida complicada de passar a um eleitorado dado a indignações fáceis, mas fundamental no combate à corrupção. Finalmente, o eleitorado deve contrariar a selecção adversa na política, privilegiando candidatos com carreira profissional consolidada fora dela. Claro que isto não é fácil: políticos de carreira são especialistas no tipo de tácticas necessárias para ganhar eleições. Mas ao eleger homens e mulheres com provas dadas de competência nas suas vidas profissionais, o eleitorado saberá que, além de escolher alguém comprovadamente competente, estará a dar poder a quem não precisa da política para atingir o sucesso financeiro. Estaria dado o primeiro passo.

Não gosto de aristocracias

Soares chama de bandidos aos mercados que mais não são que a soma das livres decisões das pessoas (ou utilizando uma expressão mais do seu agrado, do ‘povo’).

Soares, que não tem pejo em apelidar de bandidos aqueles que ele não consegue individualizar (nem conhecer), visita, sem qualquer problema de consciência, quem (apesar de socialista) a justiça desconfia, porque com provas mas ainda sem julgamento, ser bandido.

Soares chama-nos de bandidos. A nós que somos os ditos mercados. No jantar dos seus 90 anos reúne-se com a sua corte. Diz a imprensa que estão presentes jovens, “a nova geração dos socialistas”. Também havia uma geração de novos no Estado Novo; não sabiam era nada do que se passava fora das salas de jantar. Fica um apelo: deixem-me em paz. É que eu, ao contrário de Soares, verdadeiramente não gosto de aristocracias.

 

Sobre o quociente familiar do IRS

Além do meu artigo desta semana no Observador (Para o IRS, um filho não é uma pessoa), recomendo estes dois posts do Carlos Guimarâes Pinto: Uma lógica fantástica; Confusão progressiva.

Em sentido contrário, e apesar de não concordar com a argumentação, recomendo este post do João Miranda.

Podemos: o chavismo em Espanha e na Europa

À atenção de Joana Amaral Dias e restantes entusiastas do Podemos: Venezuela cree que España puede ser la plataforma de difusión del chavismo

El ascenso de la izquierda representada por Podemos puede convertir a España en la “plataforma de difusión” del chavismo en Europa. Así lo sostiene el embajador venezolano en Madrid, Mario Isea, en un informe que se entregó el pasado 24 de noviembre, durante una reunión privada, a los diputados del Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV).

Joana Amaral Dias e o Podemos em versão portuguesa

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Eis que, das ruínas do Bloco de Esquerda, pode emergir mais um contributo para a união da extrema-esquerda em Portugal: Há um partido da Joana?

Joana Amaral Dias, ex-dirigente e ex-deputada do BE, é um dos nomes que está por detrás de um movimento de cidadãos que pode vir a transformar-se em partido para concorrer às Legislativas de 2015. (…) O ‘Juntos Podemos’ mantém contactos regulares com o ‘Podemos’ espanhol, mas afasta qualquer associação formal ao partido de Pablo Iglesias, que lidera nas intenções de voto em Espanha.

O Mexilhão, o polvo e o caviar

Sobre a crise e o mexilhão, há os comentários desinformados, as evidências espúrias e depois há os factos. Neste caso, da OCDE:

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Durante o período de crise, a desigualdade diminuiu em Portugal. A maioria dos cortes poupou os que menos recebem, penalizando os que estão no topo da escala de rendimentos. O mexilhão safou-se.
Claro que esta realidade aborrece muitos que dizem querer defender o mexilhão, quando o que querem proteger é o polvo. Ou, na melhor das hipóteses, o seu próprio direito ao caviar.

Para o IRS, um filho não é uma pessoa

O meu artigo de hoje no Observador, sendo que devo a ideia do último parágrafo ao meu colega do IEP-UCP Hugo Chelo, que me recordou a questão numa conversa sobre o tema do artigo: Para o IRS, um filho não é uma pessoa.

No final do Séc. XVIII, nos EUA, o infame “Three-Fifths Compromise”, proposto por James Madison durante a Convenção Constitucional, estabeleceu que cada escravo passasse a contar como 0,6 de uma pessoa para efeitos de representação e tributação dos Estados. Em pleno Séc. XXI, em Portugal, o Governo propõe que um filho passe a contar como 0,3 de uma pessoa para efeitos do quociente aplicado no cálculo do IRS das famílias e a oposição reage de forma indignada condenando veementemente a intenção de passar de zero para 0,3.

O resto do texto pode ser lido aqui.

Confusão progressiva

O PS defende um sistema de tributação de rendimentos progressiva, ou seja, em que quem mais pode pagar, paga uma taxa mais alta. Ao mesmo tempo, discorda da introdução do quociente familiar. Isto cria situações interessantes de “progressividade”:

1. Uma mãe solteira com um filho a cargo paga uma taxa de IRS superior do que uma mulher casada com o mesmo salário cujo marido esteja desempregado.
2. Um homem divorciado pagará menos IRS se se unir com uma mulher desempregada do que se passar a tomar conta da mãe idosa
3.Um homem solteiro que ganhe 50 mil euros e tenha 4 filhos a cargo paga a mesma taxa de IRS que um homem solteiro com o mesmo salário
4. Se o Woody Allen fosse português teria passado a pagar menos IRS quando se decidiu casar com a filha
5. Um casal de dentistas abre uma clínica. Para decidirem quantas consultas estão dispostos a dar por semana, fazem as contas aos seus custos. Precisam de 20 mil euros líquidos por anol para as suas próprias despesas mais 10 mil por cada filho. Descobrem que para terem o primeiro filho terão que faturar mais 20 mil euros por ano. Para o segundo, 25 mil e para o terceiro 30 mil. Ficam-se pelo primeiro.

Como formar uma maioria

Olhando para os resultados da última sondagem e sabendo que ainda falta bastante tempo, não deixa de ser interessante tentar especular que coligações formariam uma maioria no parlamento:

- PS+PSD
– PS+BE+LIVRE
– PS+CDS+PDR
– PS+CDS+LIVRE

Não seriam maiorias no parlamento:

- PSD+CDS
– PS+CDS
– PS+LIVRE
– PS+PDR
– PS+PDR+LIVRE

PS: 37%; PSD: 31%; CDU: 8%; BE: 6%; CDS: 5%

PS e Costa saem com “ferimentos ligeiros” do primeiro “choque” com prisão de Sócrates

O primeiro estudo de opinião publicado depois da detenção do primeiro-ministro projecta agora alguma luz sobre o seu impacto eleitoral: segundo o barómetro mensal da Aximage, cujo trabalho de campo foi efectuado entre 1 e 4 de Dezembro, a intenção de voto no PS cai ligeiramente de 38,5% para 37,4%. Porém, esta descida de 1,1 pontos percentuais é inferior à registada no mês anterior, de 1,7 pontos. Por outro lado, o PSD e o CDS não parecem beneficiar do caso pois as intenções de voto mantêm-se praticamente inalteradas.

Quanto ao efeito deste caso judicial na imagem de António Costa, os dados da Aximage são menos claros. Se, por um lado, a confiança do eleitorado em António Costa enquanto eventual primeiro-ministro cai de forma expressiva, por outro lado, a avaliação que lhe é feita enquanto líder partidário não só não cai, como até sobe ligeiramente (0,2 pontos).

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Bastiat e o ladrão

Falácias. Por José Manuel Moreira.

Depois de, mais uma vez, ser apanhado, alguém pergunta: o que pensa fazer quando sair em liberdade? Resposta: com a minha idade, 30 anos, e sabendo-se da dificuldade de emprego, vou continuar a roubar. Explicando melhor: “Sem o meu trabalho (o de ladrão), o repórter, o escrivão, o delegado, o juiz e o promotor não tinham emprego. Estou colaborando!”, disse o bandido preso.

Bom argumento! Sem larápios, o que seria do pessoal dos cofres, das fechaduras, das chaves, das portas, dos alarmes… e das polícias?

Coeficiente de esbulho

Nos últimos dias veio a debate público a intenção do governo de alterar o código de IRS por forma a que o número de dependentes em cada agregado influencie a taxa efectiva de imposto apagar. Isso ocorrerá através do coeficiente familiar, pelo qual é dividido o rendimento do agregado para fins de determinação da taxa, actualmente de 2 para um casal e que aumentará 0,3 por cada dependente.

O PS é contra esta medida, tendo apresentado o argumento de que é “regressiva”. É uma linha de argumentação semelhante à usada pelo governo de Sócrates para a eliminação ou redução dos benefícios fiscais. Para os socialistas, aparentemente, tudo o que não seja progressivo é necessariamente regressivo. É importante perceber esta posição do PS porque é indicadora de uma tendência, que infelizmente não é diferente da do governo PSD/CDS, para um sempre crescente esbulho fiscal. O actual governo argumenta com a falta de alternativas. Aumenta impostos porque não tem outro remédio. O PS argumenta de forma mais sofisticada (ou sofismada): As reduções de impostos são regressivas, pois quem mais paga é quem mais beneficia com as reduções.

Há linhas de argumentação perfeitamente legítimas para ser contra esta alteração ao coeficiente familiar. Por exemplo, que o sistema fiscal deve ser mais simples e este género de benefícios torna-o complexo; ou que uma família com mais elementos também recolhe mais serviços do estado, pelo que o igual tratamento fiscal já é redistributivo por si só; ou ainda que o imposto deve ser puramente individual pois numa óptica de igual tratamento perante a lei não seria justo que pessoas sem filhos ou solteiras tenham de pagar pelas opções familiares de outras pessoas. Mas o PS, naturalmente, prefere ir pelo caminho seguro de ter uma posição que facilita um aumento contínuo dos impostos. Se calhar é por interpretar a constituição numa óptica de “progressividade da progressividade”: O imposto sobre o rendimento deve ser progressivo e esta progressividade deve, ela própria, ser progressiva ao longo do tempo. O caminho do progresso, afinal de contas, é uma estrada de sentido único.

 

O cinismo

Sócrates critica, numa carta enviada ao DN, a indiferença das pessoas com a sua prisão. Que se choque com a hipocrisia dos seus camaradas socialistas, é algo natural e compreensível. Agora, no que toca à indiferença das pessoas, Sócrates manifesta já os efeitos do isolamento prisional. Na verdade, as pessoas não estão indiferentes. Estão até muito atentas, algumas atónitas, outras nem por isso, com a prisão preventiva de um ex-primeiro-ministro que, e é preciso salientar este ponto, a maioria dos eleitores elegeu por duas vezes. Sócrates está preventivamente preso, não por qualquer questão política, mas por crimes eventualmente cometidos e devido ao risco de fuga e à destruição de provas.

Sócrates critica o sistema que vive do cinismo, da cobardia e da cumplicidade. Critica aquilo que o fez. Como se aquilo que lhe serviu para subir não tivesse legitimidade para o fazer cair. É hipócrita, mas natural vindo de quem vem. O que já custa um pouco mais a aceitar, e aqui sim, concordo com as críticas do ex-primeiro-ministro ao sistema, é a falta de atenção das pessoas neste ponto: se José Sócrates utilizou o sistema que agora acusa de cínico, cobarde e cúmplice, como é que ainda não se percebeu que esse mesmo sistema tem todas as condições para criar mais personagens como José Sócrates?

Há dias vimos o PS, que foi o viveiro de Sócrates, a exultar os seus valores num congresso, como se nada se tivesse passado. No entanto, por muitos valores que tenham, a tentação de ter o Estado e os seus meios à mão é demasiado para gente fraca. Gente que existe não apenas no PS, mas em todos os partidos, como se sabe pelas condenações que vão sendo proferidas pelos tribunais. Que isto continue sem qualquer reflexão de fundo é, isso sim, algo que nos deve surpreender.

Costa, vai a Évora

O milupa chicupa lupica valupi lança aqui um apelo sentido ao novo líder do PS para que visite o líder espiritual no exílio.

Costa, vai a Évora. Vai dar dois abraços ao homem. O homem que é teu amigo e camarada. E o homem que é teu camarada e amigo. Um abraço à chegada e outro à partida. Como fazem os amigos e os camaradas.

Vale a pena lêr na íntegra.

Soares continua fixe

soares

O pior tem sido os oceanos, que se expandiram, tanto no Atlântico como no Pacífico, e no seu furor estão a matar as faunas e a destruir as praias.

 

Perante a indiferença familiar e face ao impedimento do detido 44, proponho um programa de opinião do doutor Mário Soares, na RTP, no intervalo dos jogos da Liga dos Campeões.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’ é sobre os vistos gold.

Os vistos gold

Os vistos gold são um estímulo do Estado ao mercado imobiliário. Foi por isso que os critiquei, em Janeiro deste ano, neste jornal. O governo, perante um mercado que depois de anos e anos de impulsos vindo do Estado rebentou em 2008, achou por bem repetir a dose. Como? Introduzindo um elemento alheio a esse mesmo mercado, desvirtuando-o.

Claro que houve ganhos. Alguém ganha quando o Estado intervém. Para quê esperar pela retoma natural quando o poder político pode dar uma mão e permitir ganhos imediatos? O problema é que o prejuízo, muito maior que o ganho, só é visível se olharmos com atenção; só será sentido a longo prazo. É geralmente o que se passa quando o Estado intervém: uma estratégia com poucos custos políticos, porque as perdas são dispersas e dificilmente concretizáveis.

Houve contratos-promessa que retiraram imóveis do mercado para serem vendidos mais tarde; empresas que foram criadas especificamente para o fazerem; imóveis idênticos que foram transaccionados a preços muito diferentes. Negócios destes nada têm de errado. As pessoas são livres de acordar o que quiserem. Sucede que nestes casos se compram casas, não porque sejam desejadas, mas para a obtenção de um prémio do poder político.

Também nada há de mal na ideia de atribuição de vistos. Errado é fazê-lo através de um mercado alheio a isso. Até porque o pretexto que tem sido dado é mesmo esse: incentivar o crescimento, apressar a retoma. As consequências são, para quem esteja atento, desastrosas.

revisitando a famosa e infame lei da cópia privada

Como infelizmente o PS não tem o monopólio das ideias ilógicas, convém relembrar a lei da cópia privada. Na semana passada estive no debate na Faculdade de Ciências da UL sobre a proposta de Barreto Xavier e – porque ainda não é tarde - deixo aqui a sugestão da Maria João Nogueira para alertar os deputados para o disparate monumental e injusto que é esta taxa. Não só nos obrigará a pagar uma taxa por dispositivos onde vamos guardar conteúdos que nós produzimos como criará uma classe que irá prosperar verdadeiramente à conta do trabalho alheio: como referiu o Michael Seufert na sua intervenção, os autores portugueses não necessitarão mais de produzir algo que o público queira consumir, basta-lhes aguardar que as empresas criem dispositivos com cada vez maior capacidade de memória para receberem cada vez mais dinheiro.

O processo de hollandização em curso

A tentação hollandista de António Costa. Por José Manuel Fernandes.

Seis meses depois de ter desafiado António José Seguro, António Costa foi ontem entronizado líder do PS. Durante estes seis meses conseguiu uma proeza: nunca disse como, com que recursos, com que dinheiro, vai fazer diferente. Esquivo, não fala do dia seguinte, aquele que preocupa quem tem os pés na terra, elabora apenas sobre a década seguinte. Mas isso não o tem impedido de fazer mais do que promessas – na verdade tem vindo sobretudo a alimentar ilusões. Por este caminho está a colocar-se numa posição “à la Hollande”, mesmo que muitos o tenham alertado para o risco dessa estratégia.

Leitura complementar: Um fantasma paira sobre o PS; O Hollande de Lisboa?

BE: à meia dúzia é melhor e mais barato

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De acordo com a sua constituição presumidamente revolucionária, o Bloco de Esquerda (BE) “é um movimento de cidadãs e cidadãos” que assume entre outras coisas fundamentais para a modernidade progressista a “forma legal de partido político” mas que também concebe  ser reconhecido como “movimento” que inspira e é inspirado por “contribuição convergentes de cidadãos, forças e movimentos” que se “comprometem com a defesa intransigente da liberdade e com a busca de alternativas ao capitalismo”. Para além dessa tarefa hercúlea de procura e dissimulação envergonhada do comunismo, o BE “pronuncia-se por um mundo ecologicamente  sustentável ” e sonha com a “transformação social, e a perspectiva do socialismo como expressão da luta emancipatória da Humanidade contra a exploração e a opressão”. Honra seja feita ao BE, será  difícil a todas as forças, grupos e ajuntamentos de esquerda inovar tanto nos mesmos desejos, chamando-lhes outros nomes mais ou menos convergentes e com idênticos objectivos. Para a humanidade permanecer a par das novidades, o Observador trata de dar a conhecer O Bando dos seis: quem é quem na nova direção do Bloco de Esquerda.

Católica Lisbon mantém-se no Top 25 do Financial Times

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Está mais uma vez de parabéns toda a equipa da Católica Lisbon School of Business and Economics, pela manutenção do 25º lugar no ranking do Financial Times.

Repito que escrevi por ocasião da mesma distinção, há um ano: tendo sempre o cuidado de não sobrevalizar este tipo de rankings, é de realçar o notável trabalho que tem vindo a ser realizado pela CLSBE, sem financiamento estatal, com os resultados que estão à vista, nos rankings e muito além deles.