Muitos serviços públicos, pouco serviço público

Muitos serviços públicos, pouco serviço público: reflexões sobre a minha experiência no Governo. Por Fernando Alexandre.

Católica Lisbon School of Business and Economics sobe no ranking do “Financial Times”

Está mais uma vez de parabéns toda a equipa da Católica Lisbon School of Business and Economics, um notável (e infelizmente raro) caso de sucesso no ensino superior em Portugal, conseguido sem financiamento estatal, com os resultados que estão à vista, nos rankings e muito além deles: Católica Lisbon é a 38ª no ranking do Financial Times

A Católica Lisbon School of Business and Economics escalou sete lugares no ranking de 2015 do Financial Times sobre a formação de executivos. Esta escola de gestão ocupa, este ano, o lugar 38 do ranking global, que resulta do 51.º lugar numa outra tabela ligada a programas customizados, isto é, de formação específica para empresas, e da prestação nos programas abertos, dirigidos a qualquer aluno, onde obtém o 38.º melhor desempenho.

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A câmara de Lisboa associou-se de vez ao crime organizado?

homer x rayNão tenho nada contra uma realidade que se encontra em inúmeros desses países bárbaros que compõem a União Europeia, a saber uma tarifa fixa nos táxis desde o aeroporto até à cidade mais importante que o aeroporto serve (desde que, evidentemente, se possa optar pela tarifa normal dependente dos quilómetros do percurso). Geralmente garante que não somos (muito) enganados por taxistas que se põem a dar voltas desnecessárias antes de chegar ao destino para conseguir percursos mais caros. Faz tanto mais sentido optar-se por uma tarifa fixa quanto os aeroportos são geralmente longe da cidade, com percurso de estrada e de autoestrada, que incluem portagens. E também não tenho nada a obstar a que se cobre pela entrada dos carros no aeroporto – táxis e outras variantes – ou pela permanência de mais de 10 minutos.

Mas claro que a associação da ANTRAL, da ANA e da inevitável Câmara Municipal de Lisboa (agora presidida pelo delfim de António Costa) só podia magicar ‘soluções’ que não são mais formas de saque legalizadas, com esta proposta de pagamento de 20€ desde o aeroporto da Portela até, no máximo, 14 km de distância – que, depois, pagam-se os 20€ e os quilómetros que acrescem.

Eu moro ao pé do rio, no lado oposto, em Lisboa, ao do aeroporto, e não me lembro de pagar mais de 15€ para ir para o (ou vir do) aeroporto, incluindo a marcação ou o pedido telefónico do táxi e as malas. Se vou do aeroporto da Portela para casa dos meus pais (em Alvalade, e onde às vezes deixo o meu carro), o mais provável é o taxista encontrar forma de me insultar, ou vai a arfar durante todo o percurso, porque é um percurso pequeno e barato (não pago sequer 10€).

À parte a parvoíce da taxa de 1€ para a ANA, e a bacoquice do motorista fardado, agradeço que a Câmara Municipal de Lisboa – que, ao contrário da ANTRAL que defende os interesses dos seus associados, supostamente, alegadamente, teoricamente defende os interesses dos lisboetas – me explique, como se eu tivesse 5 anos, de que forma é que pagar quase o dobro (para minha casa; ou mais do dobro no caso dos meus pais) por viagem de táxi do aeroporto está a defender os meus interesses? Onde é que isto é diferente de sancionar um saque aos clientes de táxis? Será que o vírus que causa estupidez tem concentrações anormalmente elevadas nos edifícios da CML?

Teodora Cardoso sobre o cenário macroeconómico do PS

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Em declarações públicas, Teodora Cardoso, responsável pelo Conselho de Finanças Públicas, afirmou que «as medidas de estímulo à procura interna não são a solução para os problemas do país. Estão, aliás, na base dos problemas do país». Em particular, Teodora refere que «simples políticas de estímulo à procura, avaliadas estritamente pelo seu impacto de curto prazo, já demonstraram a sua ineficácia: não só não garantiram o crescimento da produtividade e a competitividade da economia, como, ao aumentarem o peso do endividamento, público e privado, comprometeram o seu crescimento». E reforça: «foi por ter levado longe demais o estímulo orçamental à procura que Portugal perdeu competitividade e capacidade autónoma de financiamento da dívida».

Embora o CFP não contemple nos seus estatutos a análise de cenários macroeconómicos de partidos políticos, tal como o do PS, Teodora Cardoso acabou de o fazer de forma tácita. Um golpe devastador no cenário macroeconómico do Partido Socialista, que procura replicar o modelo que nos trouxe até aqui: consumo interno assente em endividamento externo, resultando na apoplexia da competitividade externa, numa balança comercial desequilibrada e numa economia assente em bens não-transaccionáveis, tudo isto enquanto agudiza a sustentabilidade da segurança social. Quatro anos volvidos e o PS nada aprendeu.

O disparate de canalizar recursos públicos para novos centros de congressos

Subscrevo a preocupação e também espero que prevaleça o bom senso e não se avance para a construção de mais elefantes brancos: Europarque é do Norte. Por Emídio Sousa.

É com base nessa moderação e bom senso que me preocupam as notícias sobre novos centros de congressos. Aconselho os decisores políticos a refletirem. Manter e recuperar o que já está construído parece-me bem. Sem bairrismos bacocos, construir novos centros de congressos parece-me um perfeito disparate e espero que em momento algum o Estado ou os fundos comunitários financiem esse tipo de despesa.

António Costa sobre a privatização da TAP em 2012 e 2015

Fevereiro de 2012: António Costa defende integração da TAP numa grande companhia latino-americana

“Tenho dito e repito que a privatização da TAP é a mais crítica que está em cima da mesa, assim como a privatização da ANA, e acho que era útil para o país do ponto de vista estratégico uma estratégia de fusão por integração entre a TAP e uma grande empresa e a integração da ANA com os aeroportos brasileiros”, acrescentou.

Uma tal opção permitiria, considerou, “captar investimento e consolidar” essa centralidade atlântica”.

Maio de 2015: Privatização. António Costa espera que nada de irremediável aconteça na TAP

Questionado pelos jornalistas sobre a entrega de três ofertas vinculativas para a compra da companhia aérea, António Costa sublinhou que a TAP “é uma condição essencial da nossa soberania” e pediu cautela.

O PS, repetiu, “fará tido para que o Estado não perca o controlo da empresa”, manifestando a esperança que de alguns candidatos tenham feito ofertas para menos de 50% do capital. Mas tal não terá acontecido, porque isso levaria à exclusão do candidato, tendo em conta as exigências do caderno de encargos.

(via João Miranda: António Costa indeciso entre Avianca e Azul)

Leitura complementar: O guião do regresso ao passado; TAP: privatização ou falência?

Regresso ao passado em Portugal

O meu artigo de hoje no Observador: O guião do regresso ao passado.

Se a tendência dos últimos tempos se mantiver, o filme que se perspectiva para depois das legislativas é uma sequela em tons cinzentos do que conduziu ao pedido de resgate em 2011. Tal como acontece na maioria das sequelas, o filme arrisca-se a ser de ainda pior qualidade do que o original, mas num aspecto não devem restar dúvidas: o final será muito semelhante. Caso venha a ser colocado em prática, o guião do regresso ao passado será uma receita para o desastre depois das próximas legislativas.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

O Fórum de Políticas Públicas do ISCTE

Infelizmente, regra geral o Governo não tem estado à altura das acusações dos seus críticos mais radicais: Um escândalo: o governo de “direita aplicou políticas de direita”. Por João Marques de Almeida.

O Fórum de Políticas Públicas, realizado esta semana no ISCTE, acusou o governo de “aplicar políticas de direita”. Segundo as notícias, discutiu-se sobretudo a execução do “memorando”. É sem qualquer dúvida um ponto importante, mas não é o que me interessa aqui. O ponto relevante tem a ver com a cultura democrática de muitos dos participantes no Fórum, e o modo como avaliam a legitimidade da “direita” em Portugal.

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Coisas que me tiram do sério (1)

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Uma é a explicada neste post do JM Ferreira de Almeida. E tira-me do sério porque não compreendo de todo esta mania de pessoas (que de resto aparentam ser inteligentes) insistirem que o problema da gestão pública ou privada está nas pessoas e que se resolve escolhendo ou nomeando pessoas com mais qualidade e competência. Não está.

Não existe qualquer razão para que no Estado haja piores ou melhores gestores que no sector privado, nem sequer esse é um problema. A questão é o que diferencia uma e outra actividade são os incentivos, não são as pessoas, que dessas há boas e más, competentes e incompetentes em todo o lado. Por natureza, a probabilidade de a gestão privada ser melhor e mais eficaz é infinitamente maior. E porquê?

1 – Suponhamos uma empresa pública cujo orçamento anual é 1 milhão de euros que resulte em parte de transferências do Orçamento de Estado. Graças à qualidade da gestão, consegue produzir e entregar o mesmo serviço ou produto com um orçamento 20% inferior. Ora o que acontece no ano seguinte? Obrigatoriamente a transferência do OE será reduzida no pressuposto que passa a ter um orçamente de apenas 800 mil euros. O que isto provoca é um incentivo perverso que, em princípio, leva a que quem a gere não tente racionalizar o orçamento porque se sabe condenado a dispor de menos recursos se o fizer;

2 – O que obriga os gestores privados* a andar em bicos de pés e a procurar a excelência são a concorrência e a possibilidade de falência (a maioria dos incentivos são muito mais pela negativa que pela positiva). Por definição, uma empresa pública está impedida de falir e não tem nada a temer da concorrência. Assim sendo, o que se espera de um gestor público? Que tente suplantar a concorrência? Que queira ser eficiente e por via do lucro (que é o alfa e o ómega das empresas privadas e ao mesmo tempo uma afronta ao contribuinte que exista nas empresas do estado), manter-se no mercado e evitar a falência? Obviamente que não.

3 – Uma empresa pública, também por definição, é tutelada pelo poder político cujo mercado não tem nada que ver com o mercado empresarial. Os políticos estão no mercado dos votos e, naturalmente, vão sujeitar aquilo que tutelam a esse objectivo que, bastas vezes, é conflituante com uma boa gestão;

4 – Em virtude do modelo de gestão pública e com carradas de boas intenções sujeitam-se a empresas do estado a constrangimentos burocráticos e legais que não existem para as empresas privadas. Por muito infernal (que é) que seja a gestão destas à custa deste problema, as regras não são as mesmas, têm uma liberdade de decisão que o gestor público não tem.

 

Resumindo: não existe qualquer possibilidade de, em média, a qualidade da gestão pública ter sequer uma fracção da qualidade da gestão privada, pura e simplesmente porque não é possível alinhar os incentivos correctamente e porque a gestão pública é muitas vezes submetida a interesses políticos. As pessoas são o que são e reagem a incentivos. Ponto.

*Obviamente falo de gestores privados que gerem no mercado, não dos que gerem empresas rentistas encostadas ao estado. Esses não são gestores, são o que a Ayn Rand chamava pull-peddlers.

Fernando Alexandre de regresso

De regresso à blogosfera, depois de 2 anos no XIX Governo de Portugal. Por Fernando Alexandre.

Não irei fazer aqui um balanço da minha experiência, mas apresentarei aqui alguns episódios que marcaram a minha passagem pelo Governo e que penso que ajudam a perceber melhor o funcionamento do Estado português.

Leitura complementar: Fernando Alexandre e a luta contra a corrupção no MAI.

Sobre a situação na TAP

Mais logo, estarei no Jornal das 20h do Porto Canal, com Júlio Magalhães, a comentar a situação da TAP.

Leitura complementar: TAP: privatização ou falência?

Uma transição inacabada

Por uma reforma do sistema político. Por Manuel Braga da Cruz.

A nossa transição, de um socialismo revolucionário, que se substituiu ao autoritarismo conservador, para uma democracia plena, é, ainda hoje, uma transição inacabada.

O nosso texto constitucional, apesar das revisões já conhecidas, é ainda reflexo dos propósitos revolucionários que o condicionaram no início.

O presente não é idêntico ao passado, e o futuro pede que o encaremos com lucidez.

Vale muito a pena ler na íntegra aqui.

1 ano depois da Troika: a ilusão e a lição

Em teoria o governo PSD/CDS governa o país há quase 4 anos. Na prática, em três desses anos, o país foi governado pela Troika, de um lado, e o Tribunal Constitucional do outro. Hoje é consensual culpar-se as medidas da Troika pelos problemas económicos do país

Quem acha que foi a Troika que empobreceu o país e aumentou o desemprego, que sem a Troika o país teria passado pela crise muito melhor vive numa ilusão. Vive na ilusão de que a economia teria resistido bem sozinha à falência das suas finanças públicas. Vive na ilusão que uma economia fortemente endividada e que continuava a endividar-se rapidamente e com um crescimento anémico, não iria sofrer um grande abanão. Vive na ilusão que uma economia com um sistema bancário tão frágil como estava em 2011 não teria sofrido o mesmo ou mais do que sofreu nos anos seguintes. Vive na ilusão de pensar que os abanões, os ajustamentos económicos são indolores, que é possível ajustar uma economia sem que se crie desemprego, emigração e queda da riqueza produzida no imediato.

Durante 3 anos o país foi governado pela Troika. Em 2011 era um país que crescia pouco, estava muito endividado e que se continuava a endividar rapidamente. Três anos depois, o país continuou endividado, mas a dívida (privada e pública) começou a baixar e o país a crescer um pouco mais. Um ano depois da saída da Troikas, os partidos do costume já voltaram (de forma mais ou menos transparente) a prometer o tipo de medidas que nos levou à situação de 2011. É um embaraço para nós eleitores e para a classe política em geral que a Troika tenha gerido melhor o país numa situação difícil do que qualquer partido o teria feito. Um ano depois da saída da Troika, é esta a triste lição.

A NOS e uma fraude

Espero sinceramente que a NOS corrija rapidamente a mão neste caso deplorável: Sou vítima de fraude. Por Rita Carreira.

Em 18 de Março de 2013, uma pessoa abriu uma conta na NOS com o meu nome e número de contribuinte. A conta foi aberta pelo telefone, o email de contacto na conta não é o meu, o número de telefone não é o meu, a casa onde o serviço foi ligado não é minha nem tem qualquer ligação a mim. No entanto, eu conheço a pessoa que fez isto. A dívida era de “€ 1439,65 (correspondendo € 950,18 a capital, € 128,85 a juros, € 76,50 a custas judiciais e € 284,12 a despesas administrativas), uma vez que o serviço foi prestado de acordo com as condições contratadas.” Notem a palavra “contratadas” porque vai ser importante a seguir.

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Entradas no dicionário

O meu texto de ontem no Observador.

‘Há duas tiras de quadradinhos em que a Mafalda, de Quino, introduz uma explicação para as desavenças no mundo: o facto de metade do mundo estar a almoçar quando a outra metade está a dormir. E termina ditando ao Filipe uma carta ao secretário-geral da ONU sugerindo que o que divide o mundo afinal não é a política mas o sono.

Às vezes tenho uma desconfiança prima desta quanto à esquerda e à direita: que o que as divide não é tanto os valores ou os caminhos políticos; é o dicionário. É que não se aventa outra explicação para usos tão exóticos de certas palavras.

Um exemplo: sucesso. António Costa há poucos dias afirmou, num evento sobre educação, que ‘este governo não foi capaz de conviver com nenhuma das marcas de sucesso da governação socialista’. Uau. O país inteiro vive encadeado com tanto sucesso socialista, efeito de resto agudo por estes dias quando se preenche a declaração para o IRS.’

O resto está aqui.

Sobre o desmancho ortográfico

Nada melhor do que a opinião de Vasco Graça Moura.

O Acordo Ortográfico significa a perversão intolerável da língua portuguesa.(…)

Mas o que ninguém pode é passar em claro que o AO leva ao agravamento da divergência e à desmultiplicação das confusões entre as grafias e faz tábua rasa da própria noção de ortografia, ao admitir o caos das chamadas facultatividades. Sobre tudo isso existe, de há muito, abundante material crítico, com destaque para os estudos essenciais, demolidores e, note-se, não contrariados, de António Emiliano. (…)

Esse vocabulário comum nunca existiu. Não há notícia de que esteja em vias de ser elaborado, nem de encontros de instituições ou órgãos competentes dos oito países de língua portuguesa para tal efeito. (…)

O AO não está nem pode estar em vigor. A vigência de uma convenção internacional na nossa ordem interna depende, antes de mais, da sua entrada em vigor na ordem internacional. Terá o AO começado a vigorar no ordenamento internacional quando há Estados subscritores que ainda não o ratificaram, decorridos mais de 20 anos sobre a sua celebração? E esse mesmo facto não inviabilizará o próprio AO, por impossibilidade manifesta do fim que ele se propunha e que era o de alcançar uma “unidade” ortográfica aplicável a todos aqueles Estados?

Por outro lado, e quanto ao chamado segundo protocolo modificativo, que não foi também ratificado por todos os Estados que o subscreveram, poderá a ratificação por três desses Estados sobrepor-se aos ordenamentos constitucionais dos restantes e vinculá-los a todos, levando-os a acatar, por esse expediente trapalhão, algo que eles como Estados soberanos também não ratificaram? Significará isto uma vigência do protocolo na ordem externa, de modo a que ele possa vigorar em Portugal ou aplicam-se ao caso os mesmos princípios que acima referi?

Uma outra ordem de questões prende-se com um pressuposto essencial. O art.º 2.º do AO exige que, antes da sua entrada em vigor, os Estados signatários tomem, através das instituições e órgãos competentes, as providências necessárias com vista à elaboração “de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, tão completo quanto desejável e tão normalizador quanto possível, no que se refere às terminologias científicas e técnicas”.

Esse vocabulário comum nunca existiu. Não há notícia de que esteja em vias de ser elaborado, nem de encontros de instituições ou órgãos competentes dos oito países de língua portuguesa para tal efeito.

Sendo assim, como é que se pode sustentar a vigência e aplicabilidade do AO?

Por último, está mais do que demonstrado o risco de a língua portuguesa, tal como a falam os mais de 50 milhões de pessoas que não seguem a norma brasileira, vir a ser muito desfigurada, na relação entre grafia e oralidade, em especial no tocante à pronúncia.

 

Por tanto olharem para as estrelas, passam a vida a cair no chão

Ao longo dos próximos meses, comentadores e colunistas portugueses que até há uma ou duas semanas nunca tinham ouvido falar de Chuka Umunna, ao ponto de ainda terem de verificar a ortografia do seu nome no Google antes de o escrever, vão incensá-lo como o futuro de uma “esquerda” “de futuro, “capaz de ganhar eleições”. Mostrarão assim como “ganhar eleições” é para eles (como para os seus congéneres da “direita”, diga-se passagem) a única virtude política, e como facilmente se deixam seduzir (novamente como os aderentes ao outro lado) por toda e qualquer nova “estrela” só por esta lhes ter sido apresentada como tal por um qualquer jornal “estrangeiro”.

“Labour as we know it will never rule again” (2)

David Miliband defende o regresso ao New Labour e critica o irmão

Após a derrota do Labour, houve quem se interrogasse se o partido tinha optado pelo irmão errado. David não quis entrar directamente nesse tipo de análise, na entrevista que deu na segunda-feira à BBC. Os trabalhistas não perderam devido a um problema de “personalidade” mas de “orientação política”.

David Miliband é um homem do New Labour, a bandeira política de Tony Blair (primeiro-ministro entre 1997 e 2007) que reescreveu o manifesto do partido retirando-lhe premissas antigas (uma visão do socialismo) e cortando os laços com as estruturas tradicionais de apoio, como, por exemplo, os sindicatos. Nas respostas que deu à BBC, David Miliband, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Blair, disse que a chave para o fracasso trabalhista foi um regresso ao passado, ou pelo menos o apagar das orientações do New Labour que, na sua opinião, têm mais que ver com a sociedade actual e com as aspirações do eleitorado.

“Penso que o veredicto do eleitorado é muito claro e se o Labour não adoptar uma política que desafie as bandeiras tradicionais que dominaram a política durante tanto tempo, abraçando uma política de ambição e inclusão, não vai ganhar”, disse David Miliband. “Não vale a pena culpar o eleitorado ou dizer que os eleitores não perceberam a mensagem. Eles simplesmente não quiseram o que o partido lhes propôs.”

Leitura complementar: “Labour as we know it will never rule again”.

Soares, sempre fixe

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Na mais recente coluna de opinião no DN, o “pai da democracia” passa pelo Nicolau Santos – o homem que trouxe às luzes da ribalta o Professor Baptista -, assinala o Dia da Europa apelando à eterna esperança para que possam ser ultrapassados “os partidos ditos liberais e os mercados usurários que tanto têm desgraçado a Europa”, relembra ao mundo que David Cameron não só é um isolacionista como tem manifestamente poucos amigos e ainda tem espaço para elogiar o Papa Francisco e exigir um pedido de desculpas pela detenção do 44.

José Sócrates continua na prisão, desde há quase seis meses, sem ter sido acusado e julgado.

O juiz Carlos Alexandre foi o principal responsável pela sua prisão no convencimento, julgo eu, de que estava a fazer um grande serviço. A verdade é que, até hoje, não se conseguiu apurar qualquer motivo que justifique essa prisão. Nem sequer foi ouvido.

O juiz Carlos Alexandre e o procurador Rosário Teixeira tentaram encontrar um motivo para que fosse julgado por qualquer ato que tenha praticado. Nunca o conseguiram. Daí que qualquer pessoa lúcida reconheça que deve ser posto em liberdade quanto antes e com os devidos pedidos de desculpa.

Talvez por isso Carlos Alexandre esteja agora tão crítico em relação ao que ele diz que lhe tem vindo a suceder, sem saber porquê. Diz que está a ser maltratado por gente que desconhece. E começa a estar um pouco nervoso na sua vaidade. O melhor para todos seria que libertasse quanto antes José Sócrates e lhe apresentasse as devidas desculpas.

O esquerdismo das redacções e a sobranceria iluminada dos jornalistas

A verdade (ilustrada) a que temos direito. Por Helena Matos.

Em Portugal as redacções são de esquerda, facto em si mesmo nem bom nem mau e que nada tem de original. O problema, ou melhor dizendo o nosso problema, é que essa pertença traduz-se num fenómeno do domínio do paranormal pois só o esoterismo consegue explicar que tendo as redacções como propósito fazer notícias e dependendo o seu sucesso da sua capacidade para as produzir acabem a esconder notícias relevantes simplesmente porque elas põem em causa a sua narrativa prévia sobre o mundo. Uma narrativa que garante que os partidos que cabem no espectro do progressismo (seja isso o que for!) são invariavelmente os vencedores e que se tal não acontece essa anormalidade só se explica por chapeladas, manipulação ou obscurantismo dos eleitores. E assim, como a maior parte das nossas redacções está convicta de que nenhum povo poderá votar num partido que além de se dizer conservador defende a austeridade, a derrota de Cameron foi dada como certa. Como tal não aconteceu, apesar de todas as certezas prévias dos enviados especiais, só resta escondê-lo.

Leitura complementar: Diário de imprensa no dia a seguir a uma vitória da direita num dos mais importantes países europeus.

Henrique Neto em entrevista no Observador

Henrique Neto: “Discurso de Sampaio da Nóvoa é lírico. O país precisa de ação”

Acha que vem aí um bloco central e que nem PSD, nem PS têm um projeto para o país. Diz que Sampaio da Nóvoa tem apoio do PS, mas não qualidades para ser PR. O Observador entrevistou Henrique Neto.

O Público

Não vejo nenhum problema no facto de um jornal ter uma inclinação política. Desde que não se noticiem factos errados, é até bom ter orgãos de imprensa com diferentes inclinações políticas. Seria preferível que essa inclinação política fosse clara e transparente, mas também tenho a noção de que os leitores portugueses não estão muito preparados para esse nível de transparência porque ainda existe a expectativa no mercado de que um jornal tem que ser absolutamente imparcial. Dentro da transparência possível no mercado português, o jornal Público tem sido dos menos opacos (nomeadamente, através dos editoriais).

Contrariando aqueles que afirmavam ontem que a notícia da vitória dos conservadores ingleses não tinha destaque porque não era importante para Portugal, o Público dá hoje um grande destaque de capa ao resultado das eleições inglesas. É certo que o tom do tratamento é bastante diferente do que deu à vitória do PS francês ou do Syriza. Dá-lhe o tom pesaroso (até no já habitual excelente tratamento gráfico) que se espera de um jornal com a sua inclinação política, mas atribui o destaque que se espera de um jornal político (ao contrário do JN que continua a colocar as eleições inglesas ao nível do tratamento dado por uma estação de TV às orelhas de um adolescente). Este destaque ser feito apenas hoje vem de encontro a uma razão plausível para a falta de referência de capa ontem: o resultado das eleições ser desconhecido à hora de fecho da redacção. Pese embora isso não ter impedido o DN de colocar na capa o resultado das eleições logo na manhã seguinte, concedo ser possível que as redacções fechem a horas diferentes ou estejam dispostas a tomar riscos diferentes no que publicam na capa.

O Público tem uma inclinação política distante da minha. Com essa inclinação contribui, na minha opinião, para levar o país para um caminho de empobrecimento, dívida e miséria económica. O Público não é, por isso, o meu jornal, mas não deixa por isso de ser um grande jornal.

O triunfo da falta de vergonha

sec-estado-jorge-barreto-xavier-300x168 Um dano significativo para o país e uma vergonha absoluta para o Governo e para os partidos que o apoiam.

Leitura complementar: A nova Lei da Cópia Privada: uma mancha notável; A abominável Lei da Cópia Privada ataca de novo; Uma vitória para a AGECOP, uma derrota para o país; A nova lei da cópia privada: uma vitória do rentismo; Lei da cópia privada: Presidente vetou rentismo.

A inenarrável TSF e as eleições no Reino Unido

Sempre é melhor do que ter de falar sobre o SMS enviado por António Costa: Telechavismo adolescencial. Por FNV.

A inenarrável TSF, supostamente feita por jornalistas, não escondeu a raiva. Entrevistou um homem da rua desempregado e encolerizado com o resultado, outro apenas desapontado, um terceiro que prefere the devil you know e, por último, um que diz que Cameron fez batota . Só ouvido ( noticiário das 10.00h) , contado não se acredita.
Um tipo fica a pensar que a democracia é mesmo um sistema frágil.

Sociologia da indignação

Sou um homem de gostos simples e remediadas doidivanas no que à folia diz respeito: a arte circense não me atrai, os Monty Python reformaram-se, pelo que sobra o Bloco de Esquerda. Ou o que resta dele.

Coube a José Soeiro, intercalando a passa de um cigarro e um parágrafo de um projecto lei para criminalizar o piropo, o tento de nos providenciar farta farra. Até começa bem, queixando-se de uma decisão que havia sido tomada «sem que os pais e encarregados de educação tenham sido sequer consultados». Isto, em bom rigor, é uma precisa descrição da escola pública.

Mas a indignação é outra. Imagine-se que, entre a panóplia de irrelevâncias que são ministradas ao gosto dos cientistas da educação, alguém se lembrou de fazer umas sessões de empreendedorismo nas escolas, alertando assim a indefesa criança portuguesa que existe vida para além da dependência do Estado. Por engano, acertaram.

Tamanha heresia. Invocando as suas habilidades enquanto sociólogo, Soeiro vê nisto o propósito de propagandear, imagine-se, a «doutrinação sobre a beleza do mercado» ou a «magia da criação do valor». E sobre o projecto de simular ter uma empresa? A religião do empreendedorismo, jura o próprio. Faz sentido, até porque o seu ofício é outro — é promover a dependência daqueles que vivem à custa destes. E nesse plano, ter crianças independentes que querem criar um negócio seu, prosperar na vida e não depender de ninguém diminui-lhe, se é que mais é possível, o eleitorado.

Finalmente, e puxando dos seus galardões de cientista social, Soeiro informa-nos que, enquanto na Noruega 7% da população é empreendedora, já no Gana 66.9% da população está auto-empregada, concluindo assim, com a leveza de um pensamento brando, que é nos países pobres onde se é muito empreendedor. Mais uma vítima da escola pública. Felizmente, têm tendência a concentrar-se no Bloco de Esquerda.