Inflação

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Inflação

“A Economia numa lição” foi escrito por Henry Hazlitt em 1946. O livro não é grande, tem uma linguagem acessível e existe uma edição em português lançado pela editora Actual. A obra é importante e meio caminho andado para, de forma consciente, não se ficar amarrado às narrativas dominantes que atrofiam o debate e conduzem o país numa via que, por não ter sido devidamente discutida, se comprova mais tarde ser desastrosa.

Perante o receio de que a economia não cresça com uma inflação inferior a 2% ao ano, é quase unânime a necessidade desta ser estimulada. Para tal, a solução que tem
vingado nos EUA, e agora na Europa, é o de aumentar a despesa pública sem se subir os impostos. Como? Muito simplesmente através da compra pelos bancos centrais de dívida pública. O conceito é brilhante pois não tem custos para os políticos em exercício, já que os cidadãos não ligam directamente a inflação aos governos, como o fazem com o aumento dos impostos.

No entanto, o preço, quer político quer económico, existe. É que, além de ser negativo para a economia que os governantes tenham rédea livre para gastar, é ainda mais perigoso, para as democracias, que os governos se possam expandir livremente, pois que, não havendo nada que os ligue aos resultados negativos das suas medidas, o escrutínio normal em qualquer democracia desaparece.

Mas há mais: como lembra Hazllit, riqueza não é igual a dinheiro. O excesso deste significa inflação, um imposto que prejudica mais os pobres que os ricos e que fomenta a desigualdade. A desigualdade que servirá depois de pretexto para o discurso populista, outro perigo para as democracias, que já grassa na Europa e que vive da ignorância e do desespero.

Estamos num campo em que vertente política e económica andam lado a lado. Vezes sem conta ouvimos dizer que a descida dos preços adia o consumo. Ora, esta conclusão esquece que as pessoas não deixam de adquirir aquilo de que precisam e, mesmo que o façam, que estão a poupar; estão a criar capital que não fica debaixo do colchão, mas é investido. A diferença é que esse investimento será feito pelos cidadãos, no pleno uso das suas liberdades individuais, e não pelos governos. Algo que pode ser um problema para algumas pessoas, mas não para todas.

Desde a semana passada que todos os principais bancos centrais estão a comprar dívida pública. Os resultados nos EUA, no Reino Unido e no Japão não são animadores. A política monetária tem os dias contados, mas só dentro de alguns anos é que os dirigentes políticos estarão preparados para enfrentar esta nova realidade. Entretanto, a inflação não só nos coloca à mercê do Estado, como enriquece a banca e os mercados financeiros que, curiosamente, os adeptos da política adoptada pelo BCE, tanto criticam. Porque será?

O Syriza como produto da UE

A verdadeira causa da vitória do Syriza. Por Rui Ramos.

Foi o BCE e os líderes europeus quem elegeram o Syriza. Não apenas com a política de austeridade, mas também com a nova política de inflação. Estarão agora dispostos a pagar a factura grega?

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Dois bons exemplos

Dois bons exemplos em termos procedimentais, um do PSD e outro do PS.

Miguel Albuquerque rejeita liminarmente governar sem eleições antecipadas

O novo líder do PSD/Madeira, Miguel Albuquerque, assegura “estar fora de questão” e ser “impensável” assumir a presidência do Governo Regional sem a realização de eleições legislativas e rejeitou a possibilidade de negociações nesta matéria. “Está completamente fora de questão assumir a presidência do governo sem a realização de eleições. Não há negociação possível”, disse Miguel Albuquerque em entrevista à agência Lusa.

Sucessor de Pizarro no PS-Porto recusa assumir liderança e exige que sejam convocadas eleições

Na reunião desta segunda-feira da concelhia socialista, Tiago Barbosa Ribeiro mostrou disponibilidade para se candidatar, repetindo aquilo que dissera na reunião do secretariado concelhio onde deixou claro que só aceitaria ocupar o lugar de Manuel Pizarro depois de haver eleições. Número dois da comissão política concelhia, o socialista podia assumir automaticamente a liderança daquela estrutura, por que os estatutos permitem-no, todavia, optou por não o fazer, defendo a convocação de eleições internas.

No caso do Tiago Barbosa Ribeiro, as amplas discordâncias políticas (a que aliás faço alusão no meu artigo de amanhã no Observador) não me impedem de reconhecer, sem reservas, o bom exemplo dado neste caso. Espero que seja um bom sinal para o futuro do PS-Porto.

Um beco sem saída

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Com a argúcia estratégica da ígnea, Tsipras entrou com a Grécia, a reboque do partido que elegeu, num beco sem saída. A posição de espartano confrontador dar-lhe-á aquilo que ele jura não querer, a saída do Euro — embora seja evidente que a quer —, não assumindo porém a responsabilidade por essa decisão. O plano é simples: forçar a ruptura que liberta a Grécia desse despeito que são as regras orçamentais (i.e., a realidade, a responsabilidade fiscal, o dogma ideológico de que 1 + 1 = 2), que o impedem de implantar o sonho venezuelano. Ao mesmo tempo, culpa a Alemanha, a Europa, enfim, os neoliberais, pela inflexibilidade. Uma vitória interna tácita, pois encontra a quem possa remeter as culpas pelo sofrimento que acalentará os gregos, pelo menos os que têm eletricidade grátis, nos anos vindouros, e a certeza que poderá continuar a prometer estender as praias de Corfu a Atenas.

Mas o plano falhará por vários motivos. O primeiro é de ordem económica. O eleitorado grego deixou-se seduzir pela promessa vã, pelos cantos das Sirens, pela demagogia. Em suma, por aquilo que tão bem caracteriza a extrema-esquerda, a irresponsabilidade lunática. Enquanto país soberano são decisões legítimas do seu povo. O que não podem exigir é que sejam os outros a pagar a euforia. Compreende-se que os restantes países, particularmente os que estão sujeitos a fortes medidas de consolidação orçamental e austeridade, não queiram suportar a folga dos gregos. Até porque a Grécia já beneficiou de dois resgates que ascendem a 240 mil milhões de Euros, e beneficia ainda das taxas de juro mais baixas de toda a periferia, em alguns casos com um custo para as próprias instituições europeias.

Mas falhará primariamente por uma questão de ordem política. A cedência da Europa perante o discurso chantagista da esquerda radical, de Das Kapital em riste, abriria perigosos precedentes para outras papoilas saltitantes por essa Europa fora. Em particular em Espanha, galvanizando assim o temerário homem do rabo de cavalo, Pablo Iglesias. E de Espanha a França ou a Itália é um instante. Portugal safa-se, não porque os lunáticos não existam, mas porque têm o carisma de um cabide, embora não esteja imune a desvarios da ala proto-lunática do PS, a dos jovens turcos.

Se a Europa nunca aceitaria a chantagem de um Governo de extrema-direita, e bem, também não deve agora subjugar-se aos ditames de tolinhos que seguram a pistola contra a sua própria cabeça, ameaçando premir o gatilho se eles — nós — não fizermos o que eles querem. Pois que disparem.

No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no ‘i’ é sobre a regionalização defendida, desta vez, pelo presidente da Câmara de Braga, Ricardo Rio.

A regionalização

O presidente da Câmara de Braga, Ricardo Rio, que assina uma das colunas na página do lado, defendeu neste jornal a regionalização. Referindo-se aos instintos centralistas que é preciso combater, e no meio de outras considerações, como a afirmação da identidade de uma região, o texto acaba por ser a repetição de um discurso que tem pouco de inovador.

Não me oponho à regionalização se esta também for fiscal. Quer isto dizer o quê? Muito simplesmente que as regiões devem ser financiadas pelos impostos que cobram aos seus habitantes. Caso contrário, a regionalização não passa de uma presunção. Presume-se que se descentralizam funções, mas estas continuam a ser financiadas por Lisboa, mantendo-se dependentes do poder central.

Uma regionalização verdadeira não é apenas de poderes, mas de responsabilidades. E a principal responsabilidade de um político que faz obra é a apresentação de um plano de pagamentos. Como se paga o que se construiu? A questão não é pertinente apenas devido aos problemas que todos conhecemos, mas indispensável para o bom funcionamento democrático.

É que, se as medidas de um dirigente regional não forem pagas por quem vive na sua região, a factura será transferida para os que estão fora do seu círculo eleitoral, e não podem votar contra ele. A regionalização pode proporcionar um Estado mais barato e eficiente se houver verdadeiro escrutínio. Quem paga deve ter uma palavra a dizer. Os tempos são outros e a regionalização, a ser feita,

O Syriza e a esquerda portuguesa

O PS pode ter começado a perder as eleições. Por João Marques de Almeida.

A reação da esquerda portuguesa à vitória do Syriza ficará na história da política portuguesa como o dia de todos os disparates. Entende-se que o Bloco de Esquerda celebre a vitória do Syriza, dada a proximidade entre os dois. As celebrações do PS e do PCP são incompreensíveis. O “PS grego” (o PASOK) teve cerca de 5% dos votos. Alguém consegue perceber o que celebrou o PS? Quanto aos comunistas gregos (ideologicamente muito próximos dos portugueses) alcançaram 5,5%. Será que o PCP comemorou o facto dos comunistas gregos terem mais 0,5% do que os socialistas gregos?

O aristocrata republicano em grande forma

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O Che Che nacional continua sem amigos e família que o estimem e cuidem.

Foi em outubro de 2013 que li o livro de Stephen Emmott, professor ilustre da Universidade de Cambridge, Dez Mil Milhões – Enfrentando o Nosso Futuro.

Apercebi-me então do que seria a dramática situação do planeta se a ganância da globalização dos mercados continuasse, sem regras, em busca do petróleo, furando a terra e provocando trágicas consequências nos oceanos, a que infelizmente temos vindo a assistir nos últimos anos.

Daí, seguramente, a razão por que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, um político de uma inteligência e visão extraordinárias, fez baixar o preço do petróleo por toda a parte, tentando ao mesmo tempo limitar a fúria dos oceanos e a consequente formação de gelo que este ano, excecional, atingiu as duas costas dos Estados Unidos e outros continentes.

No ano passado, o mar, em Portugal, destruiu grande parte das nossas praias. Mas se este ano isso se repetisse – e não gostaria que isso acontecesse – ficaríamos sem praias e sem turismo.

Daí que seja necessário que os cientistas que ainda nos restam e que se interessam por esta área se imponham e responsabilizem o governo pela prevenção dos impactos negativos das alterações climáticas, que tendem a agravar-se.

As indignações selectivas das papoilas saltitantes

O Syriza ganhou na Grécia mas em Portugal a Quinta Divisão já começa o seu trabalho. Por Helena Matos.

Interessante será acompanhar de agora em diante a forma como vai ser noticiada a Grécia. Para já temos a grande operação de apagamento e limpeza sobre o perfil do parceiro de coligação do Syriza. As papoilas saltitantes que estariam a arrancar as vestes com a indignação pelo facto a extrema-direita xenófoba e homofóbica estar num governo da UE agora fazem de conta que não vêem nada.

A dissidência na esquerda

Ainda não estão volvidos dois dias e a guerrilha sectária na esquerda portuguesa já é notória. Eu é que sou Syriza!, gritam.

Momentos de grande diversão proporcionados pelos Che Guevaras indígenas. A não perder os próximos capítulos, que nos poderão trazer outras dúvidas existenciais de grande pertinência, como: «Seremos todos Syriza?»; «Todos os Syriza são iguais, ou haverá Syrizas mais Syrizas do que outros Syrizas?»; «É possível reconhecer anatomicamente um verdadeiro Syriza português?».

E num tom mais sério

«Ansiedades e perplexidades em torno do movimento syrizico mundial: Prolegómenos de uma problemática pertinente, urgente e consistente» (doutoramento apresentado no ISCTE, sob orientação do Professor Bagão Félix); «Pela mão de Tsipras – O Social e o Político na Pós-Modernidade Syrizica» (doutoramento apresentado na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, sobre a orientação do Professor Boaventura Sousa Sanatos);

Do Rui Albuquerque, no Blasfémias.

Não acertam uma

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Inebriados pela crónica de uma tragédia grega recentemente votada, os assuntos domésticos, com excepção da romaria a Évora, parecem de menor relevo. Em especial a execução orçamental de 2014, que registou valores que ultrapassaram as estimativas do Governo, estimativas desde logo nada conservadoras. Registou-se um défice entre 3.5% e 3.7% fruto de uma redução de cerca de 1700 M€ face a 2013, e abaixo da estimativa inicial de 4%. 2/3 dessa redução deveu-se a cortes na despesa.

Na sequência disto, o deputado do PSD, Duarte Marques, fez um interessante exercício pedagógico. Comparou os resultados da execução orçamental de 2014 com os vaticínios dos videntes da nossa praça em relação às estimativas produzidas em 2013.

João Galamba, por exemplo, tinha dificuldade em compreender “em que medida este orçamento contribui para a consolidação das finanças públicas”, o que vai em linha com a sua incompreensão generalizada de tantos outros assuntos.

Nicolau Santos, o jornalista keynesiano especializado em laços papillon e em assuntos económicos, afirma mesmo tratar-se de uma “ficção”. E diz mais, “É uma ficção porque assenta num quadro macroeconómico irrealista e porque contempla um objetivo irrealizável”. A precisão das palavras de Nicolau é similar à sua exactidão na escolha de bonitas gravatas.

Pedro Adão e Silva, entre comentários de futebol, de surf e de música, encontrou tempo para comentar um outro assunto no qual também é especialista. “O Governo prepara-se para fazer a mesma coisa em 2014 mas espera obter resultados diferentes. Partindo de um défice de 5,8%, o Governo estima reduzir o desequilíbrio orçamental em 2 pontos percentuais, para 4%, com 4 mil milhões de austeridade. Como e porquê? Ninguém sabe. A loucura prossegue, enquanto assistimos ao espantoso exercício que é queimar dinheiro na praça pública para satisfazer os desejos sadomasoquistas dos credores.“. O nosso especialista em coisas afirma, de Marcuse ao peito e prancha de surf debaixo do braço, que a “A meta do défice será superior ao acordado (4%)”. Assim tipo 4.5%, Pedro? “acima da que o próprio Governo quis que fosse a meta revista (4,5%)”.

O resto está no artigo original no Expresso. Aguardamos também explicações quanto à famigerada espiral recessiva.

Cerco ao Palácio de Cristal – 40 anos depois

Cerco ao Palácio de Cristal: as 12 horas mais longas da vida do CDS

“O Congresso não passará” e “morte aos fascistas” foram as palavras de ordem na noite de 25 para 26 de janeiro de 1975, junto ao Palácio de Cristal, no Porto. Lá dentro, onde já decorrera a sessão inaugural do I Congresso do CDS, estavam agora reféns mais de 700 militantes e convidados, enquanto cá fora estava montada uma batalha campal entre centenas de manifestantes e a polícia. Das 12 horas de impasse resultaram 16 feridos (sem mortes), alguns carros incendiados, a atenção dos meios de comunicação internacionais que temeram que Portugal estivesse a resvalar novamente para um regime autoritário e um susto para a vida. Aconteceu há 40 anos.

O padrão José Manuel Pureza de “serviço público de televisão”

Via Câmara Corporativa, fico a saber que, aparentemente, para o Bloco de Esquerda e para uma parte (?) do PS, o indisfarçável entusiasmo generalizado dos jornalistas da RTP com a vitória do Syriza não foi, ainda assim, suficiente para atingir o patamar exigido ao “serviço público”.

Mais uma razão para lamentar que este Governo não tenha tido a coragem e a determinação necessárias para privatizar a RTP.

Intervenção da PSP durante homenagem a Sócrates

Felizmente, tudo acabou sem problemas de maior: PSP impede agressões durante homenagem a Sócrates

Os ânimos estiveram exaltados e obrigaram mesmo à intervenção da PSP, que impediu agressões entre um humorista e apoiantes de Sócrates.

Lisbon MBA – 36º no ranking global FT e único MBA português no Top 100

Sem deixar de recordar que convém não sobrevalorizar este tipo de rankings, é de assinalar mais um resultado notável num país onde infelizmente são muito poucas as excepções à mediocridade vigente no sistema de ensino superior. Neste caso, o crescente reconhecimento internacional desta iniciativa conjunta da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica (em Lisboa) e da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa mostra também que é possível ser bem sucedido na cooperação inter-institucional sem colocar em causa a identidade própria e a matriz de valores próprios de cada uma das instituições envolvidas: The Lisbon MBA sobe 16 posições no ‘ranking’ da Financial Times. É o 13º melhor da Europa

O português The Lisbon MBA Internacional subiu 16 posições no ranking do Financial Times e é agora o 36º melhor do mundo e o 13º melhor da Europa. Iniciativa conjunta de duas universidades portuguesas – da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica (Católica-Lisbon School of Business and Economics) e da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (Nova School of Business and Economics) – em parceria com o norte-americano MIT Sloan School of Management é o único MBA português a fazer parte dos 100 melhores.

(…)

Desde que entrou para o ranking do Financial Times, em 2013, o MBA português subiu 25 posições. Na Europa, está à frente de nomes como a Warwick Business School ou a Cass Business School, da City University, no Reino Unido, e em comparação com a listagem de 2014, subiu quatro lugares.

Um enorme trinta-e-um

European-union-sfSpanEsta manhã, as classes falatórias do continente europeu acordaram em polvorosa com a notícia da vitória do Syriza. Dos que exultam com o resultado aos que nele vêem um Apocalipse, todos atribuíram um enorme significado à coisa. Era escusado: a vitória do Syriza é tão irrelevante como o seria a sua derrota. Infelizmente, os problemas que a crise grega implica para a Grécia e para a Europa precedem a eleição de ontem, e sobreviver-lhe-iam independentemente de qual fosse o vencedor. A subida do Syriza ao poder apenas precipita a sua confrontação.

Em 2010, o conhecido jornalista americano Michael Lewis viajou para a Grécia para escrever um artigo sobre a crise do país. Publicado na Vanity Fair e incluído no seu livro Boomerang, e o retrato que faz é aterrador. Uma Grécia que, anos 80 e 90, sofria taxas de juro sobre os seus títulos de dívida pública 10% mais altas que as alemãs, viu na adesão à moeda única uma forma de ser tratada “como um país totalmente funcional do Norte da Europa”. O problema, explica Lewis, é que estava longe de o ser, dado os seus défices monstruosos e a inflação indomada da sua antiga moeda nacional, e só mesmo as mágicas artes da manipulação das contas (com a prestimosa ajuda da Goldman Sachs e o fechar de olhos do resto da “Europa”: Lewis cita um economista grego que, em 1998, notava como as contas oficiais gregas deixavam de fora metade da sua dívida real) permitiram que a Grécia aderisse ao euro desde o seu início. Uma vez conseguido este objectivo, o país pôde então “adquirir para a sua dívida uma garantia implícita da Europa (leia-se da Alemanha)”, permitindo aos gregos contrair empréstimos a taxas semelhantes às dos alemães.

Não foi só o “povo grego” a aproveitar a oportunidade: os bancos gregos, diz Lewis, emprestaram cerca de 30 mil milhões de euros ao Estado (a juntar a todos os outros que este último pediu emprestado a muitas outras entidades), que prontamente os atirou ao lixo: entre 2000 e 2010, os salários do sector público (excluindo subornos que pediam aos incautos que a eles recorrem) duplicaram; a companhia de caminhos de ferro tinha uma despesa sete vezes menor que as suas despesas; o seu sistema educativo, apesar de ser um dos piores da Europa, tinha quatro vezes mais professores por aluno que um dos melhores, o finlandês; empregos que fossem classificados como “trabalho árduo” tinham como idade de reforma 55 anos para os homens e 50 para as mulheres, e incluíam profissões como radialistas ou músicos; o pagamento de impostos era uma actividade praticamente facultativa: os médicos, uma profissão onde escasseiam os necessitados e paupérrimos, eram conhecidos por declararem rendimentos inferiores aos necessários para se pagar imposto; e a explosão do défice em 2009, por exemplo, era explicada a Lewis pelo então Ministro das Finanças como uma consequência de ter sido um ano eleitoral, e que como tal os funcionários do fisco local tinham recebido ordens para não serem especialmente rigorosos na cobrança fiscal. E claro, a massagem das contas públicas continuava, com, por exemplo, o montante real dos gastos do Estado com o sistema público de pensões a ser mais de três vezes superior ao declarado às instituições europeias. Como seria de esperar, nada disto teve um happy ending.

Quando o Pasok chegou ao poder, substituindo a Nova Democracia, teve de admitir que o buraco orçamental era muito maior do que era até reconhecido, e que a Grécia teria de pedir o resgaste à troika do FMI, BCE e UE. Como diz Lewis, a “Europa concordou em gastar milhões de dólares para resgatar a Grécia. Em contrapartida, a Grécia comprometeu-se a dar uma volta à quase totalidade da sua economia.” Mas como até a mais distraída das leituras de uma das recentes avaliações da execução do programa grego mostra, a promessa ficou longe de ser cumprida: “a Grécia”, diz o FMI, “tem continuado a fazer progressos significativos no reequilíbrio da sua economia. Mas tem ficado para trás na execução de reformas indutoras da produtividade”, para o que contribuiu a resistência de “interesses instalados”. O “ajustamento” terá sido efectuado “através de canais recessivos (compressão de despesa e salários reais), em vez de ganhos de produtividade”, e objectivos como os das privatizações, reformas no mercado laboral, e da própria contenção da dívida ficaram muito aquém do exigido e prometido. Por alguma razão, no mês passado, a EU teve de prolongar o programa de empréstimos à Grécia por mais dois meses, dados os receios de que tudo estivesse à beira de ruir.

É verdade que, o ano passado, a Grécia conseguiu um excedente orçamental. Mas feito “à bruta” (veja-se, por exemplo, os cortes nas pensões, feitos não de forma gradual mas de uma assentada), o “ajustamento” grego não podia deixar de ter tido consequências gravíssimas para a população. Desde o elevado desemprego jovem, passando pelos funcionários públicos despedidos, pelas pessoas que não conseguem contrair empréstimos e por isso têm de fechar os seus pequenos negócios, por quem não deixou de ter dinheiro para pagar as escolas dos filhos, até quem deixou de ter dinheiro para pagar o suborno aos médicos para que os seus velhos sejam tratados num hospital, uma enorme fatia da população grega viu, de um dia para o outro, a sua vida piorar significativamente, e com poucas perspectivas de alguma vez vir a melhorar. E escusado será dizer que, embora mais “austeritário”, o Estado grego não ficou por isso menos corrupto: a máquina fiscal que outrora servia acima de tudo para cobrar subornos a quem não queria pagar impostos comporta-se agora de forma autoritário para cobrá-los mesmo a quem não os deve.

Perante isto, não é de espantar que um partido como o Syriza tenha conseguido ganhar as eleições. Para quem viva num país que passou pelo acima descrito, o voto em quem promete querer a “reestruturação da dívida” (com perdão de parte dela) e a manutenção da Grécia no seio quente e fofo da moeda única, o aumento do “investimento público” em cerca de 4 mil milhões de euros e a descida de impostos, surge naturalmente como algo atractivo, se bem que apenas da mesma forma (e com as mesmas consequências) que o canto da sereias era atractivo para os marinheiros companheiros de um mítico habitante daquelas terras.

Aliás, não tem faltado quem diga que esta vitória do Syriza é uma prova de como a “austeridade” da “sra. Merkel” (uma oportunista política de importância menor elevada a ideóloga firme e toda-poderosa pela simplicidade mental dos críticos) tem como único resultado a ascensão das forças políticas radicais. Deixando de lado o problema do raciocínio de se identificar os “radicais” como um mal mas achar-se que a forma de os combater é precisamente adoptando a sua agenda, esta é uma tese que peca pela incapacidade de compreender a natureza do berbicacho que defrontamos. Pois não é só na Grécia que os “radicais” e os “extremos” conquistam um lugar nos voláteis corações dos eleitores, e em alguns desses outros locais, não é a austeridade que os anima, mas precisamente o que entendem ser um excesso de “generosidade” para com os que se queixam dela: se na Grécia a vitória do Syriza talvez se deva à forma como Merkel, a Finlândia e a Holanda fizeram a “Europa” lidar com a crise, na Alemanha, Finlândia e Holanda, a ascensão de partidos radicais “nacionalistas” não se deve de forma alguma à ideia de que os “povos do sul” estão a ser autoritariamente condenados à pobreza pelo “fundamentalismo austeritário” dos “países do norte”, mas à percepção de que alemães, finlandeses e holandeses estão a pagar a “preguiça” e a “boa vida” dos “laxistas” do “Mediterrâneo”.

Pouco interessa qual dos lados tem razão, quanto mais não seja porque o mais provável é que ambos estejam igualmente longe da verdade. O que interessa é que os lados existem, e colocam um enorme problema à União Europeia, problema esse que decorre da forma como os seus arranjos políticos e económicos foram desenhados. O “anti-austeritarismo” grego ou espanhol e o nacionalismo “anti-dependentes” da Alemanha ou da Finlândia, apesar das suas muitas diferenças, têm no euro uma origem comum: a adopção de uma mesma moeda por países com condições e características políticas, sociais e económicas tão diferentes como a Grécia (ou Portugal) e a Alemanha (ou a Finlândia), fez com que a dada altura fosse inevitável que as necessidades de países com problemas orçamentais se tornassem incompatíveis com a credibilidade da moeda, a necessidade de restrições orçamentais nesses países com a possibilidade de terem algum crescimento económico, e a eventual conveniência de transferências monetárias dos mais ricos para os mais pobres com o apoio eleitoral aos partidos de governo nesses países mais ricos. Os arranjos políticos e económicos da União Europeia produziram não só um conflito de interesses de duas democracias, uma incompatibilidade entre vontades igualmente legítimas das respectivas maiorias eleitorais de cada um dos regimes democráticos integrantes da UE, como assegurou também que ninguém fica contente com o resultado: dependendo da proveniência, ora se protesta a falta de “solidariedade” de uns, ou o estar-se a pagar a “preguiça” e o “despesismo” dos outros.

Na Grécia, considera-se que a dívida actualmente contraída pelo Estado é insustentável, ou no mínimo incompatível com os “direitos humanos do povo grego”. E embora haja quem diga que a dívida grega até é mais sustentável que a de outros países, a verdade é que a necessidade de obter excedentes orçamentais primários de 4,5% do PIB em 2016 parecem, dado o estado do país, ser incompatíveis com a possibilidade dos gregos levarem uma vida minimamente decente. Nesse sentido, uma “reestruturação” da dívida talvez fosse útil (embora se argumente que as taxas de juro gregas são já tão baixas que tal medida não serviria de muito). O problema está em que uma “reestruturação” não se faz unilateralmente, e os credores da Grécia só a aceitariam se tivessem um mínimo de confiança (que obviamente não têm) de que o país aproveitaria esse alívio para fazer as reformas que em tempos de dificuldade não conseguiam fazer, em vez de o usar para regressar aos “bons velhos tempos” descritos por Michael Lewis. De forma unilateral, a única coisa que a Grécia pode fazer é declarar uma bancarrota, uma opção que, embora permitindo o regresso à sua extinta moeda nacional e o recurso à sua impressão em massa para aumentar salários e despesa, teria como consequência real uma outra “austeridade”, porventura ainda mais violenta: com a inflação, o aumento nominal dos salários corresponderia muito provavelmente a uma descida real do seu valor, e a uma degradação das condições de vida dos que ainda tivessem emprego, para não falar dos que entretanto se juntariam à longa fila de desempregados, após o fecho de mais não sei quantos negócios, levados na corrente. A Grécia substituiria a “austeridade” da “sra. Merkel” e imposta pelo estrangeiro por uma “austeridade” interna do “sr. Tsipras”, e dificilmente ficaria melhor com a troca.

Deve ser por isto que muita gente fora da Grécia viu com bons olhos uma vitória do Syriza: a desgraça que se abateria lá pelos lados helénicos serviria de exemplo para quem, por aqui e por ali, vá tendo veleidades “anti-austeritárias”. O problema está em que a desgraça não se cingiria à Grécia, alastrando-se em maior ou menor grau por toda a União. Parece ser verdade que o sistema financeiro europeu está muito menos exposto à dívida grega, e que portanto uma eventual bancarrota causaria teoricamente menos danos agora do que teria provocado em 2010. Mas convém não esquecer que, a partir do momento em que a Grécia reintroduzisse uma moeda própria, os gregos que ainda tivessem euros na sua mão teriam de os trocar, colocando no mercado uma inundação de euros para venda que conduziriam a uma sua desvalorização. A simples saída de um país da moeda única colocaria em dúvida a credibilidade desta última, quanto mais não seja porque haveria sempre a possibilidade de as coisas até correram bem e do seu exemplo ser posteriormente seguido por outros países. E claro, uma saída grega do euro implicaria perdas de montantes relativamente avultadas nos cofres dos países da União: a Alemanha, obviamente, seria quem teria mais a perder. Mas até o nosso país se arriscaria a perder 1,1 mil milhões de euros com a brincadeira. E há quem receie que os fundos de resgate não têm dinheiro suficiente para lidar com uma crise que eventualmente se abatesse sobre a Espanha ou a Itália em consequência do que resultasse de uma saída grega.

Por outro lado, se a Alemanha e restante União Europeia acabarem por ir ao encontro das pretensões de Tsipras, a incerteza e o perigo não seriam menores. O resultado imediato seria o de incentivar os restantes países em dificuldades (não só Portugal, não só a Espanha, mas também a Itália e acima de tudo a França) a pedirem igual ou semelhante benevolência. A credibilidade do euro, que sofreria logo com o perdão ou simples reestruturação da dívida grega (a moeda passaria a estar associada, não à política ortodoxa de Frankfurt, mas às práticas orçamentais criativas de Atenas), ficaria pelas ruas da amargura com a mera possibilidade de semelhantes perdões e reestruturações se estenderem ao resto do continente, e de que as reformas que não foram feitas deixassem de ser vistas como necessárias. A perda de valor do euro afectaria não só os salários e poupanças dos gregos, mas também o valor dos rendimentos dos cidadãos dos outros países da zona euro, implicando uma degradação das suas condições de vida. E perante as dificuldades estruturais das suas economias e a relutância em realizar as reformas que poderiam ajudar a colmatá-las, as expectativas de que pudessem melhorar seriam tão escassas como os empregos que sobreviveriam à tempestade.

Aconteça o que acontecer com o Syriza, aconteça o que acontecer no país que agora irá governar em coligação com os nacionalistas-populistas-justicialistas dos dissidentes da Nova Democracia, nem a Grécia nem o resto da Europa se verão livres de dificuldades nos tempos que se avizinham. Nem a Grécia nem a Europa evitarão uma qualquer forma de “austeridade”. Nem os problemas relacionados com a forma como a Grécia tem sido governada desaparecem, nem os problemas inerentes ao desenho dos arranjos políticos da “Europa” deixarão de existir.

Temos, por isso, um enorme trinta-e-um em mãos. Como saíremos dele?

Mal.

“oportunismo pouco recomendável”

Grécia (2) Por Vital Moreira.

A tentativa de todas as esquerdas em Portugal para cavalgarem a vitória da esquerda radical na Grécia, incluindo partidos que pouco têm a ver com o Syriza, como o PS e o PCP, releva de um oportunismo pouco recomendável.

Diáspora a Évora

Na diáspora a Évora que congregou milhares e milhares de cidadãos estava lá um infiltrado neoliberal cuja única função, diligentemente efectuada, era a de minar a procissão a partir do seu ponto nevrálgico. Tarefa executada com sucesso.

Melhores momentos:
— “E estas pessoas estão aqui sem almoçar!”
— “Ainda não almoçaram?”
— “Esta senhora ainda não. Mas se calhar também não precisa…”

— “Uma salva de palmas para o Engenheiro!!!”
— *silêncio*

Uma grande vitória do Syriza

Alexis Tsipras

Estamos perante uma incontornável vitória do partido da esquerda-radical grego, Syriza. O seu líder, Alex Tsipras — conta-se que terá dado o nome de Ernesto a seu filho em homenagem a esse pacifista sul-americano, Che Guevara — venceu no país onde os resultados eleitorais, incluindo o 3º lugar alcançado pelo partido neonazi Aurora Dourada, fazem tanto sentido como a forma como se governa. Ou seja, nenhum. No país onde ser cabeleireiro é profissão de desgaste e permite reforma aos 53, agradeça-se aos alemães, ganharam aqueles cujo corte de cabelo um dia terá sido semelhante ao de Che Guevara.

Seja como for, e estragando a festa a Rui Tavares, a João Galamba e a todos hábeis capitalizadores do ímpeto eleitoral do discurso anti-austeridade, esta foi, sem dúvida, uma enorme vitória, mas não vossa. Analisemos todos os cenários possíveis:

1. Tsipras modera o discurso, cumpre tratados e obrigações. Neste caso, Tsipras não faz mais do que os seus congéneres franceses e italianos, Hollande e Renzi, que de garanhões anti-austeridade passaram a tíbias libelinhas patrocinadas pela Pfizer. À terceira é de vez, e torna-se ainda mais óbvio que, face à realidade, não resta muito a fazer. Seria mais uma derrota da esquerda e da extrema-esquerda europeia, acantonadas pelo seu discurso idílico do fim da austeridade — vulgo, cumprir regras orçamentais — e da caça ao unicórnio.

2. Tsipras radicaliza o discurso, Grécia sai do Euro. Acontecendo a famigerada Grexit, a Grécia seria atirada para a mais abjecta pobreza. Desvalorização do dracma, default da dívida, saída dos mercados de capitais, intervenção de emergência do FMI, tudo isto faria a austeridade parecer uma história de embalar. E não podem culpar a Merkel: a Grécia, bem ou mal, tem-se mantido no Euro. Olímpia a arder enviaria uma clara mensagem para o eleitorado europeu com propensão para sonhar: os unicórnios não existem.

3. Tsipras não consegue governar, voltando a convocar eleições daqui a uns meses. Neste cenário, confirma-se a inaptidão da extrema-esquerda para tudo o que não sejam marchas LGBT ou propostas de criminalizar o piropo. Desfeita a magia por demérito do próprio, a Grécia perde entretanto preciosos meses no seu ajustamento, agudizando ainda mais o ajustamento necessário.

Destes 3 cenários que decorrem de uma vitória do Syriza, nenhum é positivo para a esquerda ou para os proponentes da posição anti-austeridade, isto é, para aqueles que vêm nas regras orçamentais uma opção ideológica. É uma enorme derrota que cheira a vitória, sabe a vitória, mas não o é.

Costa, Seguro e as sondagens

Sondagens: Costa e Seguro, duas faces da mesma moeda?

Janeiro de 2014: António José Seguro era líder do PS e os socialistas dominavam as sondagens com vantagens entre 8 e 13 pontos sobre o PSD. Janeiro de 2015: António Costa é líder do PS e domina as sondagens com vantagem para o PSD entre 6 e 11 pontos. A diferença é que Seguro à data era líder do partido há 26 meses, enquanto Costa o é há dois meses, mas, mesmo assim, os socialistas começam a olhar para a curva dos números com preocupação.

Leitura complementar: O Hollande de Lisboa?; Nuvens no horizonte de António Costa…; Dias difíceis no PS…

o governo liberal, parte 3658ª

Este Moreira da Silva é uma estirpe letal de um virús estupidificante com que por algum grande azar Portugal se contaminou.

Vejam bem onde chegámos: as empresas de grande distribuição planearam as suas compras de consumíveis para os seus negócios sem pedir autorização ou sem dar cavaco às políticas imbecis do ministro do ambiente.

E agora, aparentemente em nome da proteção ambiental que a fiscalidade verde pretende trazer, milhões de sacos de plástico já produzidos vão ficam a envelhecer num qualquer armazém porque já não podem ser usados. O ambiente que se lixe – bem como os recursos que foram gastos a produzir e, eventualmente, a destruir estes sacos de plástico não usados – o que interessa é a taxinha daquele ser vivo de espécie indeterminada que preside ao ministério do ambiente.

Um pavão egocêntrico

pav_o_coloridoUma coisa que tem piada nesta fabricada indignação com algo que o Secretário de Estado do Turismo não disse é que nos dá a oportunidade de ver o egocentrismo de um pavão a funcionar. Juntamente com a sua sarcástica gargalhada facebookiana, Rui Moreira coloca quatro recortes de jornal onde supostamente aparece a promover a cidade do Porto. Os artigos sucedâneos que têm surgido mencionam esse facto, como prova inequívoca do mérito do presidente da CMP na promoção da cidade.

Acontece que uma olhadela mais cuidada sobre os quatro artigos em causa mostra que os mesmos nada promovem a cidade. Três são das semanas que se seguiram às eleições autárquicas e noticiam o facto inédito de um independente ter ganho a câmara do Porto. São os do (International) New York Times, do Libération e do El País. O quarto, da revista Monocle, é de Abril de 2014, sendo na essência uma “vanity piece” que nos dá a conhecer o ego de Moreira; e este deve realmente ser bastante grande, pois para apresentar estes artigos como exemplos do seu papel na promoção da cidade, ele terá de achar que a sua eleição é suficiente para trazer turistas a rodos para a cidade. Ou então que os 75 e picos mil leitores da Monocle ficarão tão impressionados com o seu perfil que farão uma incansável campanha word-of-mouth a promover o Porto.

Mais um bode expiatório

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Se há arte em que o português é exímio, é a arte de culpar o outro. O aumento dos juros da dívida soberana? Culpa dos especuladores. A austeridade? Culpa da Merkel. A mulher espancada? Culpa do Benfica que perdeu o jogo. O ataque terrorista? Culpa da austeridade, da Merkel e da liberdade de expressão, e provavelmente ainda sobrará espaço para culpar os especuladores, através de um intrincado raciocínio ao nível da Ana Gomes.

A atentar pelos comentadores profissionais que à 3ª comentam a bola mas à 4ª são especialistas em tudo, a nova senda na arte de expiar culpas é o brasileiro. A PT? Culpa dos brasileiros. A TAP? Culpa dos brasileiros. Alguém em Portugal decidiu comprar 1/4 de uma empresa da segunda liga das telecomunicações brasileiras pelo seu então valor de mercado? Culpa dos brasileiros. Alguém em Portugal aceita uma fusão, que, em boa verdade, foi uma absorção da PT pela congénere brasileira? Já sabemos de quem é a culpa. Alguém em Espanha decide comprar a Vivo por um valor exorbitante, inundando a PT de capital que foi posteriormente muito mal aplicado? Esta era para enganar. Culpa dos espanhóis, certamente. Se ao menos não tivessem comprado a Vivo. Alguém em Portugal decidiu comprar uma empresa de manutenção terrestre no Brasil que estava à beira da falência e com uma alavancagem de quase 5x o valor da empresa? Culpa dos brasileiros.

Esta falta de reflexividade e de auto-crítica é característica de quem não tem a humildade para assumir os seus erros e responsabilizar-se por isso. Porque, esse sim, é um exercício custoso, só ao alcance dos mais dignos.