O país está diferente

Concordo com a ideia central do artigo, mas acrescentaria que o país está muito menos estruturalmente diferente do que deveria estar e que, também por isso, 2016 continua a ser um ano de alto risco: O país está diferente. E a oposição recusa admiti-lo. Por José Manuel Fernandes.

Não há volta a dar: desde finais de 2012, meados de 2013, que os indicadores económicos estão a melhorar. Batemos no fundo, já estamos a recuperar. É isso que está a tornar a vida mais dura à oposição.

O lobby rentista dos manuais escolares

Um excelente texto de António Araújo sobre o escandaloso lobby rentista – patrocinado pelo Estado, como geralmente acontece nestes casos – dos manuais escolares “oficiais”: 42,70 €.

Os «cadernos de exercícios» ou «cadernos de actividades» são uma, entre muitas, das habilidades deste negócio milionário. O Ministério, no seu site, indica apenas o preço do manual. Mas depois todos os professores exigem o «caderno de actividades», sem o qual a aprendizagem da matéria é impossível. Sei bem que, nos termos da lei, é proibido obrigar a compra em conjunto do manual e do caderno de actividades. Também sei que quem já tenha o manual pode comprar só o caderno de actividades, ou vice-versa. Mas porque é que o MNE não publicita também o preço dos cadernos de exercícios e de actividades? No caso da Biologia, o livro custa 32,74€. Mas, depois, o «manual de auto-avaliação» carrega a factura com mais 9,96€.

Aliás, a pouca-vergonha é tanta que, regra geral, manuais e cadernos de actividades vêm ambos embrulhados no mesmo celofane. Se vou ao balcão de uma papelaria e peço «o livro de Biologia do 11º ano», entregam-me o manual mais o caderno de actividades, tudo por atacado. Chamam-lhe «bloco pedagógico». E depois apresentam a conta: 42 euros.

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Testemunho Especialista

Segundo o JN, «Costa acusa Governo e Carlos Costa de criarem ilusão de ausência de custos com Novo Banco». A observação é pertinente, não fosse Costa um perito na criação de ilusões de ausência de custos.

Financiar a Segurança Social com portagens

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Aimeriez-vous un souvenir?

António Costa teve uma ideia digna de nota — mais uma. Financiar a Segurança Social com receitas das portagens. Mas Costa não deveria ficar por aqui. Deveria também considerar pagar os salários dos funcionários públicos com as receitas da venda de souvenirs a turistas à porta de cruzeiros. E financiar obras públicas vendendo rifas, raspadinhas e sêlos, edição dos Descobrimentos.

E já agora, dado que as receitas das portagens abatem às PPPs, António Costa sugere financiar as PPPs com receitas vindas de onde? De uma taxa sobre as pensões ou sobre o subsídio de desemprego?

A falácia do contributo do consumo e do crédito para o crescimento do PIB

Imagine o leitor que de um ano para o outro acontecia o seguinte na economia portuguesa:
1. Os portugueses consumiam mais 200 milhões de euros de carros importados
2. A corticeira Amorim vendia mais 100 milhões de euros em cortiça

O que aconteceria ao PIB neste caso? Seguindo a fórmula mais conhecida do PIB (Consumo Privado (C) + Consumo Público (G) + Investimento (I) + Exportações (X) – Importações (I)), o PIB cresceria os 100 milhões de euros correspondentes ao aumento de exportações da corticeira Amorim. O aumento do consumo em 200 milhões era totalmente eliminado pela parcela importações, já que todos os produtos foram importados. Intuitivamente, não é complicado perceber que o consumo de 200 milhões em carros importados não tem nenhum efeito na riqueza produzida no país. Também não é difícil perceber que produzir mais 100 milhões de euros em cortiça, aumenta o tamanho da economia portuguesa.

Se o leitor, principalmente se não for economista, percebeu a explicação simples do parágrafo anterior, ficará surpreendido de saber que para o INE não é bem assim. Na análise à situação anterior, os relatórios do INE diriam que o crescimento de 100 milhões da economia ocorreu graças a um contributo positivo do consumo no valor de 200 milhões de euros e negativo da procura externa líquida no valor de 100 milhões de euros. Isto acontece porque o INE não desconta à procura interna o valor dessa procura que resultou em importações, fazendo com que todo o peso do aumento das exportações recais sobre a categoria “procura externa líquida”. Esta confusão metodológica tem efeitos relevantes na discussão política e dá azo a demagogia de todo o tipo. Pior que isso: faz com que, por natureza, a procura interna contribua sempre positivamente para o crescimento do PIB em alturas de crescimento, dando a ideia aos mais desatentos que a única forma de crescer é estimulando a procura interna.

Para corrigir esta situação, o Banco de Portugal alterou a sua metodologia de cálculo dos contributos para o PIB. Em vez de subtrair o valor das importações apenas ao contributo das exportações, aloca parte das importações ao consumo interno. No caso acima, como todo o aumento das importações se deveu ao consumo, as importações seriam subtraídas alocadas ao contributo do consumo fazendo com que fosse, acertadamente, zero. Uma grande diferença em relação ao que é reportado no INE.

A diferença entre usar uma metodologia acertada (a do Banco de Portugal) e uma completamente enganosa (a do INE) é gritante. Em 2014, por exemplo, o INE refere um contributo da procura interna para o crecimento do PIB de +2,0pp e o Banco de Portugal de apenas +0,3. Sete vezes menos! Da mesma forma, enquanto o INE reportou um contributo da procura externa líquida de -1,1pp, o Banco de Portugal fala num contributo positivo de +0,6 das exportações (o dobro da contribuição atribuída ao consumo interno).

Quando ouvirem um político dizer que o crescimento económico se deve ao consumo e ao crédito, lembrem-se desta explicação e dos três gráficos abaixo:

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(Fonte: INE e Banco de Portugal. Primeiros dois gráficos roubados ao João Miranda)

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A culpa é do hambúrguer

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Da página oficial de Facebook António Costa consta a imagem que antecede este texto. Como se a imagem não valesse só por si, a legenda que compõe o resto do post rebenta com a escala de confiança. E reza assim a legenda:

“António Costa e Fernanda Tadeu casaram há 28 anos. Não houve festa mas sim um hambúrguer rápido no Abracadabra na Rua do Ouro com os padrinhos Diogo e Teresa Machado, antes de seguirem viagem para Veneza em lua-de-mel. António sempre soube gerir a sua vida pessoal e profissional e Fernanda tem sido o seu maior apoio.”

Infelizmente para a confiança ganha com este monumento de comunicação, o post do hambúrguer no dia de casamento de António Costa desapareceu por questões técnicas.

Como a confiança merece ser apoiada, nacionalizei a imagem ao Telmo Azevedo Fernandes. Que faz justiça aos protagonistas.

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“Governo quer obrigar portugueses a pagarem leite mais caro”

Milk Numa visita a Chaves, o Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho veio dizer que o seu Governo está a procurar “sensibilizar a União a Europeia para a necessidade de ter uma alteração dos preços de referência” do leite, para assim impedir que “preços anormalmente baixos possam ocorrer”. O que são preços “anormalmente baixos” e o que os distingue de preços “normalmente baixos” ninguém sabe, muito menos o Primeiro-Ministro. O que ele sabe, e bem, é que os produtores de leite portugueses, parte integrante da “lavoura” tão querida do CDS e que este não se cansa de procurar proteger, dizem estar a viver uma “situação dramática” com a queda dos preços que se tem verificado desde o fim das quotas anteriormente estabelecidas pela União Europa. E sabe ainda melhor que estes lhe agradecerão todos os esforços no sentido de “corrigir” o problema.

Sem promoções no Pingo Doce para condenar, a Ministra da Agricultura logo veio consolar os produtores de leite, dizendo que a “preocupação” do Governo era fazer com que o preço do leite “pudesse subir”, para que assim fosse “efetivamente um mecanismo regulador, que neste momento entendemos que não está a ser”. Reunida com os seus congéneres de Espanha, Itália e França, Cristas explicou que iriam pedir na Europa “um aumento dos preços de referência, que permitem retirar produto do mercado quando o produto está em excesso – e que está a pressionar o preço para baixo – e com isso ajudar a regular o preço do próprio produto”. A crer no seu passeio a Chaves e o que lá disse, o Primeiro-Ministro dá o seu aval, e mais uma vez (não têm sido poucas) demonstra o quão infundadas são as acusações de que se trata de um “ultraliberal”.

Traduzidas do “politiquês” que esta gente adoptou em detrimento da língua portuguesa, as palavras da Ministra da Agricultura querem dizer apenas o seguinte: uma vez removidos os obstáculos à produção e venda do leite, a oferta do dito produto aumentou, e a procura por ele não foi suficiente para que quem o vende o fizesse a preços mais altos que aqueles que se têm verificado; legítima e compreensivelmente preocupados com a sua vida e o seu ganha-pão, os produtores agradecem que o poder político, sediado em Lisboa ou em Bruxelas, arranje um mecanismo que permita diminuir a concorrência que enfrentam, e assim garantir que possam cobrar preços mais altos pelo que têm a vender; e como a “lavoura” constitui uma dilecta clientela da coligação, esta última não quer deixar de lutar (ou, no mínimo, parecer fazê-lo) para que seja satisfeita a vontade da primeira.

Ou seja, a coligação achou por bem partir para eleições passando (como agora horrivelmente se diz) “a mensagem” de que quer proibir os portugueses de pagarem, pelo leite que compram, os preços baixos que as livres oferta e procura presentemente lhes oferecem; e que se “a Europa” deixar e um número suficiente de eleitores a quiser alçar de novo a São Bento, pretende usar o poder e a lei para beneficiar arbitrariamente um grupo de pessoas em detrimento de outras, pela simples razão de que as primeiras se movimentam melhor que as segundas no mercado da influência política, o único que prospera em Portugal. Tendo em conta o desprezo generalizado da população por todo e qualquer indivíduo que exerça um cargo político, e que por isso convém aos partidos “mobilizarem” os fiéis e clientes a irem votar, já que poucos para além destes estarão dispostos a dar o seu voto a quem quer que seja, a tal “mensagem” talvez seja uma boa ideia como estratégia eleitoral e de manutenção do poder. Mas como modo de o exercer, e princípio de governação, dificilmente poderia ser pior.

O perigo de radicalização do PS

O Miguel Noronha já aqui simpaticamente o recomendou, mas ainda assim não quero deixar de dar conta do meu artigo de hoje no Observador, aproveitando adicionalmente para chamar mais uma vez a atenção para as declarações de ontem de Ferro Rodrigues e de António Arnaut, que a meu ver reforçam a sua pertinência: A radicalização do PS: entre Fernanda Câncio e Ascenso Simões.

John Locke nasceu há 383 anos

lockeMiguel Morgado (via Facebook) sobre os 383 anos do nascimento de Locke:

Há 383 anos nasceu John Locke. Quando preparei a primeira edição portuguesa – por incrível que pareça era mesmo a primeira… – dos “Dois Tratados do Governo Civil” para as Edições 70, escrevi isto na contracapa:
“John Locke foi uma das figuras maiores da civilização ocidental moderna. Locke foi o pensador da subjectividade, dos direitos naturais, da crítica das ideias inatas, da tolerância religiosa, da separação radical entre o Estado e a(s) igreja(s), da liberdade racional, do governo representativo baseado no consentimento popular, da separação de poderes, da revolução contra a tirania, do direito de propriedade e do direito à acumulação de propriedade, do desenvolvimento económico e tecnológico assente na capacidade humana de transformação do mundo. Ele foi o filósofo da epistemologia, da política, da religião, da educação; o economista, o constitucionalista, o exegeta, o assessor político, o professor universitário e o médico. Com “Dois Tratados do Governo Civil”, Locke define um dos momentos mais importantes da história intelectual da Europa.”

O PS ao serviço de uma maioria “patriótica e de esquerda” ?

Curiosidades do presente: António Arnaut quer uma maioria “patriótica e de esquerda”.

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Leitura complementar: A radicalização do PS: entre Fernanda Câncio e Ascenso Simões.

O “logo veremos” e os seus riscos

Carta de um indeciso aos seus semelhantes. Por Rui Ramos.

António Costa, nesta campanha, representa o “logo veremos”. Logo veremos se ele vai afrontar a mitológica Merkel, ou, pelo contrário, fazer tudo o que ela lhe mandar (o que quer dizer “uma postura activa na Europa, sem submissão nem aventureirismos”?). Logo veremos se vai acabar com a austeridade ou, pelo contrário, como o Syriza, aplicar uma dose ainda maior. Logo veremos como vai governar: sozinho, com a direita, ou com os comunistas. Logo veremos se mandará votar num candidato presidencial “radical” (Nóvoa), ou num candidato “moderado” (Maria de Belém). Em “eleições decisivas”, António Costa fez do PS uma escolha que deixa tudo por decidir.

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Fé na matemática

O meu texto de ontem no Observador.

‘Quando li esta deliciosa crítica de Alexander Masters ao livro The Universe in Your Hand lembrei-me do famoso e infame modelo macroeconómico do PS com os seus 207.000 empregos em quatro anos. E, nem de propósito, ontem Stephen Hawking contou-nos aquilo em que ‘acredita’: que a informação se transforma em holograma quando passa num buraco negro. O que me deixou muito feliz, uma vez que estou muito familiarizada com todas as possibilidades permitidas aos hologramas, pela via mais óbvia, a das séries infantis que os meus filhos vêem na televisão. Há uma destas séries que tem um avô preso num universo alternativo e cujo vilão atua por meio de hologramas. Acho que amanhã, para as impressionar (há que aproveitar enquanto não chega a adolescência), digo às minha crianças que provavelmente os buracos negros tiveram o seu papel na separação de avô e neto.

Como refere Alexander Masters, há um grupo numeroso de cientistas respeitáveis, ferozmente ateus, deliberadamente descrentes dessas fábulas que são as religiões, cujo intelecto não se contenta com menos do que uma cristalina prova científica. Misturam-se a custo com os simplórios beatos ou new age que acreditam num Deus criador ou numa energia harmoniosa universal com que comunicam através de mantras e meditação. Oferecem a esses beatos e new agers o tratamento merecido: a chacota. E no meio de tanta teoria exótica e improvável, nunca lhes ocorreu ponderar se o apelo espiritual da grande maioria da população mundial é afinal resposta a alguma lei natural ainda não descoberta. Ou se a procura de resposta aos ‘porquê?’ e ‘para quê?’ é, hélas, tão racional como o encantamento que as personalidades científicas têm com a beleza (fria) do ‘como?’, que é ao que a ciência responde.

Em todo o caso, eu, que como católica sou alvo de chacota das personalidades científicas, fiquei satisfeita com o que li dessas teorias (todas mais veneráveis do que qualquer religião) que, entre surpreendentes outros, concebem universos dentro de universos. Porque quando eu era criança vivia fascinada com a imagem do Atlas carregando o mundo nos ombros. (Mal sabia eu que décadas mais tarde faria parte de um grupo que tem no seu cânone um livro chamado Atlas Shrugged.) Bom, a criança Maria João também vivia convencida que o nosso mundo era um brinquedo num mundo de gigantes, tal como os globos terrestres são brinquedos no nosso. Pelo que, dou já aqui como provado de forma cristalina, as imaginações infantis são uma ótima fonte de explicações cosmológicas.’

O resto (até chegar aos números do PS) está aqui.

De acordo

Nota-se bem quando existem ideólogos e pensadores por trás de um líder. O discurso é outro. É pensado exactamente na mesma latitude em que Nóvoa pensa o país.

A Justiça e os últimos 4 anos

O meu artigo no Diário Económico de hoje sobre a Justiça.

Justiça

Sobre os últimos quatro anos devemos reter o novo mapa judiciário apresentado pela actual ministra que, com a figura do administrador judicial e a criação de gabinetes de apoio aos magistrados judiciais, foi um primeiro passo na necessária reorganização do funcionamento interno dos tribunais.

Mais mediáticas foram as prisões de José Sócrates, em Évora, e a de Ricardo Salgado, em casa. No entanto, e apesar do sistema judicial ter sido capaz de enfrentar os antigos donos disto tudo, o certo é que tal se terá devido mais ao colapso de um esquema económico que ao mero funcionamento da Justiça.

O futuro nos dirá. Nos esclarecerá se, apesar do sucedido nesta legislatura, o modelo socialista de desenvolvimento que dura há décadas, e que pressupõe como normal uma combinação entre políticos e empresários, ferindo a livre iniciativa e o livre funcionamento do mercado, sobreviverá ao ponto de outros poderes substituírem os que agora caíram em desgraça.

Mãe II

kafka2O texto publicado no Diário Económico tem 1000 caracteres com espaços. Não sei porquê tinha-o escrito com 2000. Fica aqui a versão mais longa.

 

 

Mãe

Os Governos de Portugal saídos de eleições são uma espécie de “Kinder Surpresa”. Sabe-se quem se candidata a PM que, ganhando as eleições, se torna um ditador posicional. Como todos os ditadores (de facto ou posicionais), distribui lugares e recursos, faz escolhas, promove este ou aquele e obriga-se a satisfazer clientelas e Partido, não vá o diabo tecê-las. Continuar a ler

Mãe

kafka2Eu no Diário Económico de ontem

Os governos de Portugal saídos de eleições são uma espécie de “Kinder Surpresa”. Sabe-se quem se candidata a primeiro-ministro que, ganhando as eleições, se torna um ditador posicional.

 

O Estado baby-sitter e a liberdade de escolha

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Possivelmente inspirado pela rentrée política da coligação, Paulo Trigo Pereira disserta sobre a liberdade de escolha na sua crónica no Público. Faz um enquadramento genérico do tema e contextualiza-o à luz da filosofia política. Evoca pensadores como Nozick, Isaiah Berlin ou Rawls. Até Kant. E no fim decreta que, na ausência de «níveis de instrução, de rendimento, de saúde, de liberdades cívicas e políticas adequadas», não estão reunidas as condições para que os portugueses possam beneficiar de liberdade de escolha.

O artigo é interessante, introduzido com o decoro e a seriedade intelectual que questões tão prementes exigem. Mas erra no busílis do seu argumento — já existe liberdade de escolha em Portugal, com ou sem aquilo que Paulo Trigo Pereira considera serem os requisitos mínimos. Está é vedada aos mais pobres, sendo apanágio exclusivo dos mais ricos. Senão vejamos. Se as escolas públicas na periferia da sua residência não têm os níveis de qualidade que lhe parecem adequados para prover uma boa educação aos seus filhos, e caso seja rico, pode sempre optar por inscrevê-los num colégio privado. É aliás esclarecedor que tantos socialistas, paladinos da defesa da escola pública, ou assim se anunciam, tenham os seus filhos em escolas privadas. Por exemplo, os filhos de António Costa estudaram no Colégio Moderno, pertencente à família de Mário Soares, e que, em 2007, ocupou o 9º lugar do ranking nacional.

Mas há mais exemplos onde existe liberdade de escolha. Mesmo tendo acesso a um Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito, financiado através de impostos, uma parte considerável da população opta por subscrever um seguro de saúde privado que lhe permita escolher onde obter cuidados de saúde, pese embora o esforço financeiro acrescido. Uma vez mais, uma facilidade apenas acessível a cidadãos ricos. De forma análoga, os funcionários públicos, mediante inscrição na ADSE, um subsistema de saúde exclusivo do sector público, também dispõem de ampla liberdade de escolha nos cuidados de saúde. Podem optar entre o SNS ou um qualquer outro prestador de cuidados de saúde. Curiosamente, da última vez que Mário Soares esteve internado, este optou por ir para o Hospital da Luz, do grupo Espírito Santo Saúde, em detrimento do SNS. Uma vez mais, uma liberdade apenas para alguns.

A liberdade de escolha existe, e bem. O que se exige é que esta seja democratizada, e que mais portugueses, para além dos abastados, possam beneficiar dela. Uma família pobre que resida num bairro social rodeado por escolas públicas com um mau ranking está forçada a inscrever os seus filhos nessas mesmas escolas, hipotecando o seu futuro e perpetuando o círculo vicioso da pobreza. E fá-lo enquanto os socialistas, que apregoam as virtudes da escola pública, inscrevem os seus filhos nas melhores escolas privadas do país. De igual forma, um português pobre é forçado a aguardar meses pela marcação de uma consulta, e a esperar horas para ser atendido numa urgência de um hospital público. A questão que se coloca é porquê que os mais pobres não poderão almejar a inscrever os seus filhos nas melhores escolas do país, proporcionando-lhes oportunidades idênticas às que os mais abastados beneficiam, ou a procurarem cuidados de saúde num hospital privado? Porque deverão os colégios privados ser um benefício exclusivo para os mais ricos?

Garantir que todos os portugueses têm acesso aos melhores cuidados de saúde, privados ou públicos, e à melhor educação, privada ou pública, é um imperativo categórico, na acepção kantiana do termo. Democratizar a liberdade de escolha é, portanto, um garante da justiça social, conceito tão caro a Rawls. E é-lo sem violar a liberdade individual. Pelo contrário, promovendo-a. A interferência do Estado em matéria de direitos negativos tal como definidos por Berlin — direitos que não pressupõem um dever, uma obrigação, por parte de terceiros — é, mais do que coercivo, uma intromissão na vida dos cidadãos. Pressupõe uma postura paternalista do Estado, de baby-sitter, em que o cidadão é incapaz de tomar decisões, pelo que deverá o Estado tomá-las por ele. Mais ainda, a democratização da liberdade de escolha introduz concorrência e competição, motores da inovação e garantes da eficiência. Por exemplo, seria assim possível identificar de forma precisa as piores escolas, aquelas de onde as famílias fogem, e agir em conformidade.

Paulo Trigo Pereira evoca a questão das desigualdades sociais como travão à liberdade de escolha, mas o argumento parece estar invertido. Ao limitarmos a liberdade e a acção dos mais pobres, diminuímos as suas chances de saírem do círculo vicioso da pobreza. A liberdade de escolha é, mais do que a promoção da eficiência económica e do bem-estar, uma obrigação moral para com estes. Não permitamos que a cegueira ideológica continue a privar os que já estão mormente privados de melhor saúde e melhor educação: os mais pobres. Já os prejudicamos o suficiente, não prejudiquemos também os seus filhos.

O difícil puzzle das pensões

Reforma das pensões: há soluções técnicas, não há solução política. Por Margarida Corrêa de Aguiar.

Não deveríamos estar condenados à recorrente adopção de ajustamentos avulsos ou paramétricos agravando a iniquidade intergeracional e reduzindo a adequação das pensões sem ultrapassar em definitivo as ameaças à sustentabilidade do sistema de pensões, como tem sido a experiência dos últimos dez anos.

Persistir na pedagogia da reforma estrutural, como não me canso de fazer, funciona como um antídoto, embora reconheça a sua duvidosa eficácia.

‘he go crazy’

Já por várias vezes pensei em escrever sobre Sampaio da Nóvoa, mas tenho descoberto que o candidato presidencial é um tema difícil. Rio-me imenso a ler a pomposidade e auto-encantamento do senhor e ainda não estou convencida que a sua candidatura não seja um plano de alguém maquiavélico (e com um tremendo sentido de humor) com algum objetivo que eu ainda não vislumbrei (além de enredar o PS nesta ridicularia). As únicas palavras que me ocorrem para escrever são ‘a criatura é lunática’. Poderia eventualmente referir os sapatos de padre que o senhor usa, mas essa essa informação tem copyright da Margarida Bentes Penedo e ficar-me-ia mal roubar as observações alheias. Na verdade, quando penso em Sampaio da Nóvoa recordo-me sempre deste pequeno interlúdio do Fawlty Towers:

Pelo que o melhor é lerem este maravilhoso texto de Paulo Tunhas sobre Sampaio da Nóvoa, quase tão hilariante como a personagem que descreve.

Diário de Notícias: declínio e degradação de um jornal histórico

Em 2009, o Diário de Notícias vendia cerca de 45.000 exemplares em, banca. Hoje em dia, as vendas em banca andam em torno dos 10.000 exemplares. Ainda assim, é estranho como uma publicação que atingiu um nível tão abismal de degradação interna continua a conseguir esses números, provavelmente justificados essencialmente pela habituação de alguns (cada vez menos) leitores a um jornal com forte marca histórica em Portugal.

Exemplos da degradação do Diário de Notícias não faltam mas esta nota de direcção é paradigmática do estado a que o histórico jornal chegou. Basicamente, como resumiu Eduardo Cintra Torres, a direcção do Diário de Notícias não lamenta ter mentido nem pede desculpa. Desculpa-se a si mesma e culpa a vítima da mentira.

Hoje, o DN está praticamente reduzido a um orgão de propaganda, ainda por cima mal feito, quase sempre mal escrito e sem qualquer respeito pelos leitores nem pelos visados nas “notícias” que vai publicando. A propósito, vale a pena ler este comentário da Rita Carreira: DN e filosofia de jornalismo

Diz o DN que a responsabilidade pelos erros da história é do Fernando Alexandre e da sua decisão de não responder às perguntas do jornal. Quando li isto, fiquei perturbada. A história é baseada num depoimento oficial que existe e ao qual o jornal teve acesso. O erro advém de esse documento ser mal citado por duas formas: desrespeito pelo contexto da citação e transcrição incorrecta da citação. Qualquer pessoa que trabalha no jornal poderia ter corrigido este erro sem precisar de acesso ao Fernando Alexandre, bastava verificar a fonte original da citação. Isto é factual, não está sujeito a interpretação.

Quando eu leio uma história do DN, exactamente o que é que eu devo pensar? Que o jornal tem carta branca para citar erradamente documentos oficiais, especialmente quando os autores da citação não verificam os factos da história? Que o editor do DN não se sente responsável por evitar erros deste tipo no futuro? Que o DN é um jornal que não tem implementado um processo de controle de qualidade?

Leitura complementar: Fernando Alexandre e a luta contra a corrupção no MAI; Fernando Alexandre, a luta contra a corrupção no MAI e os erros do DN; Fernando Alexandre, a luta contra a corrupção no MAI e os erros do DN (2).

Resumo esquemático das alternativas eleitorais (2)

O resumo esquemático das alternativas eleitorais feito pelo Carlos Guimarães Pinto tornou-se viral e superou já as 5.000 partilhas nas redes sociais e tem – compreensivelmente – suscitado inúmeras tentativas de resposta por parte de socialistas (como por exemplo esta no Aventar).

Continuo no entanto a achar, como já escrevi, que o mais sintomático é que o diagrama do Carlos vale mais do que todos os cartazes pirosos e ineptos da coligação PSD/CDS juntos.

Porque esconde o PS as suas contas? Os erros já encontrados e os grandes riscos ainda escondidos.

O PS orgulha-se de ter sido o único partido a apresentar contas do impacto das suas medidas. Ontem, depois de apresentarem uma revisão ao seu plano com apenas 4 meses, os líderes do PS voltaram a enfatizar que apenas o PS fez os cálculos ao impacto das suas medidas. Seria um bom motivo de orgulho, e um bom exemplo para as outras forças políticas, se provassem que as fizeram realmente. A questão é que até hoje ainda não provaram. Mostraram uns números finais, é verdade, mas os cálculos para chegar a esses números estão ainda por revelar. Em resumo, o PS diz que fez um estudo que não disponibiliza e que, convenientemente, prova que as suas medidas eleitorais vão ter um impacto positivo no país. Suspeito? O Gato Fedorento explica melhor. Até conseguirem provar que fizeram os cálculos, só se pode concluir que não só não fizeram as contas (o que os coloca lado-a-lado com os outros partidos), como mentiram (algo que nenhum dos outros partidos fez).

Esta falha em mostrar os cálculos é ainda mais relevante pelo facto de ser Mário Centeno o coordenador do plano. Mário Centeno não foi chamado pelo PS por ser militante, pescador ou benfiquista. Foi chamado por ser um economista e um académico respeitado. Foi chamado para dar respeitabilidade ciêntífica ao plano. Como académico respeitado tem a obrigação redobrada de fazer com que os seus estudos sejam replicáveis e os dados publicamente disponíveis. Esta transparência é particularmente importante porque, como provou o famoso exemplo de Rogoff-Reinhart, mesmo os melhores académicos cometem lapsos.

Apesar de não darem acesso aos cálculos, ontem já foi possível vislumbrar um erro colossal no plano macroeconómico do PS. Embora eu gostasse muito que os números na caixa vermelha abaixo fossem correctos, a verdade é que estão completamente errados. A carga fiscal é 10 vezes superior ao que o PS mostra no seu plano. Mesmo revelando apenas uma ínfima parte do seu modelo, é possível encontrar um erro desta dimensão (ver abaixo).

errosPS
(retirado da página 28 do documento macroeconómico do PS às 9.30 do dia 20 de Agosto)

Mas gralhas de Excel à parte, há uma razão ainda melhor para que o Ps mostre os seus cáclulos: todo o plano macroeconómico do PS assenta no pressuposto de que as medidas terão um impacto positivo no PIB. O cálculo desse impacto no PIB está completamente escondido na folha de cálculo. E se o impacto não acontecer? E se o PS fizer toda aquela despesa pública que promete e o PIB não se mexer. Em baixo, podem ver o que acontecerá se o PS cumprir com o seu plano para a despesa e receita, mas o crescimento prometido (e que não dizem como calcularam) não acontecer:

deficesc

dividasc

Se o crescimento que o PS garante que vai acontecer mas não revela como calculou não se concretizar, o défice continuará sempre acima de 3% e a dívida pública será 8pp superior ao que está no plano. No último ano, o défice será mais do dobro do que o PS tem no seu plano, algo dificilmente aceite pelas entidades europeias.

Finalmente o leitor poderá questionar-se sobre o porquê de eu ter dúvidas sobre a forma como foi calculado o crescimento económico no plano macroeconómico do PS. É simples: apesar de afirmarem que a economia portuguesa está destroçada, o PS promete já daqui a dois anos um nível de crescimento que Portugal não tem há 15 anos.

Por isso, repito aqui o meu apelo a Mário Centeno: se confia realmente nos cálculos que fez, disponibilize-os ao público, como um bom académico e homem de ciência. Mostre que não está apenas a contribuir para que o país afunde novamente daqui a uns anos.

P.S.: Como forma de dar o exemplo, e apesar de isto ser apenas um blog, fica aqui disponível a simples folha de cálculo utilizada para calcular os impactos acima. Cálculos disponíveis para todos verem e criticarem, se acharem conveniente.