O euro

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

O euro

No meio da guerra monetária que desde 2010 assola o mundo, a maioria assusta-se quando a sua moeda se valoriza face às restantes. Pelo menos é assim que o tema é noticiado, quando se referem os riscos e os problemas para a exportação que uma moeda mais forte comporta.

Visto desta perspectiva nem se percebe porque é que a Europa criou uma moeda única e porque razão Portugal quis aderir ao euro. Bem sei que agora que a Europa exige mais rigor e envia menos fundos, muitos duvidam, mas o certo é que uma moeda forte tem vantagens.

Entre muitas, elas são fundamentalmente cinco: controle da inflação, que prejudica os mais pobres e os mais poupados; ajuda a alguns exportadores, que importam mais barato produtos que manufacturam e depois exportam; criação de condições para que as empresas adquiram outras de países com moedas mais fracas; possibilidade dos governos se financiarem com taxas mais baixas e, enriquecimento dos cidadãos do Estado com moeda forte comparativamente aos de outros países.

É verdade que uma moeda fortemente valorizada encarece os produtos. Mas também não é mentira que se uma empresa exporta mais caro, precisa de vender menos quantidades para atingir as margens de lucro de que necessita, principalmente se, como referido, o que vende é o resultado da transformação de produtos que importou mais barato. Ou seja, é com uma moeda forte que se consegue uma política de desenvolvimento com salários altos. O euro é o nosso melhor instrumento para que se evitem as políticas baseadas nos salários baixos, na desvalorização da moeda e, consequentemente, do trabalho.

Dito desta forma, não se percebe porquê tanta celeuma com o euro. Ora, o problema não está na moeda forte, mas no que é preciso fazer para que as suas vantagens se concretizem. E para que tiremos vantagens de uma moeda forte são precisas, essencialmente, três ferramentas: poupança, capital e contas públicas equilibradas.

E agora percebemos o porquê do dilema com a moeda forte. É que o desenvolvimento de um país baseado na poupança, na acumulação do capital e na contenção do poder político é algo que o socialismo não comporta. Na verdade, o socialismo depende do consumo, do endividamento e de uma forte intervenção estatal não compatível com contas públicas equilibradas. É por este motivo que a esquerda deposita tanta esperança no Syriza. É esta a nova forma de olhar a Europa que o PS pede todos os dias.

Há quem conclua que quem está a mais no euro é a Alemanha. Pode ser. Mas se a Alemanha sair do euro, o euro deixa de ser a moeda forte que conhecemos. E deixando de o ser, o modelo de desenvolvimento sustentável, porque sem endividamento, e de salários altos, deixa de ser possível. Possível fica o que sempre tivemos: um poder político activo, agressivo, reivindicativo e que exige o fim daquilo que fomenta: a pobreza e a dependência externa.

Procura-se consciência na Câmara de Lisboa

Roseta diz que Salgado tinha “perfeita consciência” dos 4,6 milhões.

A presidente da Assembleia Municipal de Lisboa diz que o vereador Manuel Salgado “tem perfeita consciência” de que a isenção de taxas e compensações urbanísticas que a Câmara de Lisboa propôs que fosse concedida ao Benfica é de 4,6 milhões de euros e não de 1,8 milhões. Então por que é que o autarca nunca corrigiu o valor que tem sido divulgado? “Isso pergunte-lhe a ele”, responde Helena Roseta, recusando fazer uma leitura desse facto.

A bota e a perdigota do PS

Estando Portugal, por razões óbvias, sob vigilância da Comissão Europeia dada a sua elevadíssima dívida pública, o PS resolveu usar o facto para atacar o governo. Algo expectável, naturalmente, sendo oposição. O engraçado é que o PS, ou pelo menos o seu porta voz Vieira da Silva, parece não ter entendido os termos dessa vigilância. Se tivesse, talvez fosse mais reservado na manifestação pública, na medida em que o comunicado da CE aponta explicitamente para fragilidades da nossa economia que são o estandarte da campanha do PS: Diz a comissão que Portugal está demasiado dependente do crescimento económico para atingir os seus objectivos de redução do défice e da dívida pública. Isto é, há ainda muito para reformar e muita despesa para cortar. Sem estes passos, um crescimento económico durável não voltará.

O relatório da CE é tipicamente político no sentido de dar no cravo e na ferradura, deixando expressões e frases que podem ser usadas tanto pelo governo como pela oposição para puxar a brasa à sua sardinha. No entanto, errando o alvo mais uma vez, Vieira da Silva confunde contexto com causa: A comissão indica o reduzido crescimento, reduzida inflação e alto desemprego como factores que dificultam o atingir dos objectivos. Vieira da Silva entende estes factores como a causa dos desiquilíbrios. É curioso achar que inflação baixa é a raíz dos nossos problemas, quando o desiquilíbrio fundamental da periferia europeia face ao centro foi justamente um diferencial de inflação (no sentido de nível de preços, não massa monetária) superior ao crescimento da produtividade.

A pergunta

Em 1980 Reagan venceu Carter perguntando aos eleitores se estavam melhor que há 4 anos. Postas as coisas nesses termos, os norte-americanos rapidamente concluíram que não e mudaram de administração.

António Costa, que quer ser primeiro-ministro no lugar de Passos Coelho, já respondeu à mesma pergunta.

 

Costa perde sentido de estado

António Costa fez um discurso em português, sem tradutor, onde disse que Portugal estava bastante melhor do que há 4 anos atrás. Toda a cerimónia, mesmo os discursos dos membros da comunidade chinesa, foi em português. Assistiram à cerimónia membros da comunidade chinesa em Portugal que entendiam português e, portanto, podem ler a nossa imprensa. O que sentirão esses “chineses” ao ler hoje que afinal Costa estava a tentar iludi-los? Que impacto terão estas declarações na confiança daqueles “investidores”?

P.S.: Fica aqui uma sugestão para o PSD: contratar 20 chineses para ir a todos os comícios do PS.

Dialética Marxista

180px-grouchomarxpromophotoDepois dos “radicais-moderados” do Syriza, a mente fervilhou tentando antecipar de onde viria a próxima e brilhante síntese de teses e antíteses. Pois chegou agora, crédito a Alfredo Barroso, na ideia da China “comunista-neoliberal”.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O sonho

Com o lançamento de um novo romance, Miguel Real concedeu uma entrevista ao “Público” na qual afirmou que “Portugal desenvolveu um imenso sentimento de medo em relação ao futuro”. Para aquele professor de Filosofia, o país terá deixado “de sonhar e de criar utopias”.

Durante várias décadas o país sonhou a utopia de que se podia desenvolver sem se preocupar com o futuro. Ora a despreocupação, ou a negligência, conforme o ponto de vista, não é igual a não ter medo. É falta de cuidado, imprudência, inconsciência. Quer queiramos quer não, o que o país teve, se é que é possível colectivizar desta forma milhões de individualidades, foi falta de cuidado.

Bem sei que é aborrecido falar de assuntos comezinhos como este. Mas, se a arte de sonhar está em não deixar de ter os pés bem assentes na terra, não podemos perder a consciência de que a presente crise resulta da acumulação de dívida, da inconsciência com que se encarou o futuro.

Até porque há sempre espaço para sonhar. Eu, por exemplo, gostaria de viver num país cujo Estado não estivesse endividado e não precisasse de ajuda externa para levar a cabo as suas funções essenciais. Que, com as contas públicas equilibradas, tirasse partido de uma moeda forte, que é o melhor instrumento para um desenvolvimento com salários altos. Um país onde o poder político fosse contido e as pessoas livres do fardo que são as frases feitas como as proferidas por Miguel Real, que, ao mesmo tempo que nos falam do futuro, nos tiram os meios de o encarar.

Rua e lenços revolucionários

Maduro

Enquanto o povo se prepara para defender a revolução nas ruas, a política económica revolucionária de Maduro continua a frutificar.

Exercícios intelectuais nas fronteiras do conhecimento e da paz

Rússia anuncia manobras militares na fronteira com Estónia e Letónia,

Polónia não aprecia comemorações.

 Suécia e a Finlândia assinaram um pacto militar entre si como resposta à crescente ameaça da Nato.

I Have Never Left Russia“.

Os oito erros que levaram a Ucrânia a invadir várias regiões da Rússia.

Showbiz (arquivo cultural-caridoso do então PM russo).

Métodos Socráticos

Os tiques de Sócrates ainda estão entranhados na cultura política portuguesa e custam a sair. Em reacção ao episódio chinês de António Costa, Vieira da Silva esclareceu que Costa usou a palavra “diferente”, não especificando se estava “melhor” ou “pior”. Já Luis Montenegro elogiou a falta de “botabaixismo”.

Os apoios de António Costa

O próprio messias no Casino da Póvoa.

O Terceiro excluído, por João Cardoso Rosas.

(…) Os partidos da social-democracia, que sempre constituíram a primeira ou segunda força política europeia, estão em crise profunda. Não se trata de pensar agora no caso português e na ambiguidade da liderança do PS – António Costa pode andar por aí a repetir as vacuidades que quiser porque na Europa não sabem sequer que ele existe. O que deve fazer pensar são os casos da Alemanha ou da Holanda, onde os social-democratas alinham inteiramente pela política de austeridade. Nos Governos de França ou da Itália, eles pareciam ter uma visão diferente, mas acabaram por não ser consequentes.

O actual debate na Europa é muito importante e dele depende não só o futuro da Grécia, ou de Portugal, mas também o destino do projecto europeu. Neste debate o aspecto político mais surpreendente é, sem dúvida, a auto-exclusão do centro-esquerda.

Entretanto no PCTP/MRPP

Já não s@m@s Syris@.

Adenda: Por um qualquer motivo revolucionário que me escapa, os camaradas do site do PCTP/MRPP removeram o link para o vídeo. No entanto, a revolução do Garcia Pereira continua por aqui. Divirtam-se.

Lata estanhada

Ontem, no Prós e Contras, argumentei que a escolha política que se colocava aos países em bancarrota era entre austeridade extrema imediata com défice zero ou pedido de ajuda e correspondente austeridade suavizada mas mais prolongada no tempo. Pedro Lains afirmou que ainda assim se deveria ter optado por uma dose menor de austeridade, para minimizar o impacto negativo. Eu retorqui que o contexto de elevado stock de dívida e défices enormes (mais de 10% em Portugal e na Grécia, como ponto de partida) impossibilitavam esse cenário. Em resposta, Francisco Louçã disse que não era assim: Portugal tinha tido défices de 9% na altura de Cavaco Silva, estando portanto as minhas “contas” erradas.

Na verdade eu não apresentei contas algumas. Mas deixando esse detalhe de lado, é possível realmente apresentar uma conta simples que ilustra o meu raciocínio: Com um stock de dívida tão elevado, superior a 100% do PIB, só os juros a pagar são suficientes para não cumprir o acordado no Tratado de Maastricht (3%). Assim sendo, a espiral de crescimento da dívida torna-se um problema de emergência e é inevitável ou a bancarrota ou doses intensas de austeridade (o meu ponto inicial).

Mas o erro na argumentação de Louçã é ainda mais grave que esta simples aritmética. Vejo-me novamente na posição ingrata de defender Cavaco Silva, depois do episódio Clara Ferreira Alves na semana passada. Efectivamente, houve um ano da governação de Cavaco em que o défice público foi de 9%. Foi em 1985. Nesse ano, Cavaco ganhou as eleições a 6 de Outubro, tendo tomado posse um mês depois, a 6 de Novembro. Por mais má vontade que se tenha contra ele, parece-me de díficil justificação atribuir-lhe responsabilidade pelo défice nesse ano. Além disso, logo no ano seguinte o défice baixou para 6% e iniciou uma rápida recuperação que culminou em cerca de 2% em 1989, antes de piorar novamente, sem nunca exceder cerca de 6%. Cavaco Silva nunca escondeu ser Keynesiano.

Ainda importante de salientar é que os défices de Cavaco existiram num contexto de inflação elevada (20% em 1985, baixando depois, mas sempre por volta do dois dígitos até 1992) e de stock de dívida pública incomparavelmente mais baixo do que na presente crise (mais uma vez reforçando o meu ponto inicial).

O alquimista do Rato

alchemistÉ incompreensível que o nosso pérfido governo não siga a estratégia de “ovo de Colombo” de António Costa. Basta “criar riqueza” para resolver todos os nossos problemas. Só não vê quem não quer, realmente.

Estratégias

O amigos do Syriza encaram o acordo de sexta-feira como uma oportunidade do governo grego decidir sozinho as medidas a aplicar para ultrapassar a crise. Enganam-se. No ponto em que a Grécia se encontra (e aqui Portugal não difere dela) só há três opções: retomar as políticas de investimento público e estímulo económico, continuar a austeridade sobre as pessoas, com os cortes nos salários e nas pensões, e reformar o estado.

O Syriza escolheu a terceira. E vão-se ver gregos com ela. É que se cortar salários e pensões era uma forma atenuada da austeridade, reformar o estado, pressupõe cortar funções e despedir pessoas. É mil vezes mais difícil e doloroso. Por isso mesmo, o governo português não seguiu essa via e a oposição só a menciona como algo hipotético quando não sabe o que dizer sobre redução da despesa.

Não julgo, no entanto, que Tsipras e Varoufakis não saibam disto. Sabem. Simplesmente, querem ganhar tempo para o seu objectivo, que me parece cada vez mais claro, é a saída da Grécia do euro, mas de forma a que não sejam responsabilizados e por isso forçados a deixar o governo.

A maior preocupação do Syriza neste momento parece ser o gerir politicamente a saída do euro. Manter o poder após se ter ido contra o programa eleitoral que passava por continuar na moeda única. Mais que defraudar o eleitorado, o Syriza precisa passar a mensagem que os gregos não foram enganados, mas que os alemães (e a Europa) é que se mostraram inflexíveis.

Taxa de juro de Portugal inferior à dos EUA

Screen Shot 2015-02-23 at 09.51.10Há quem jure que é apenas via efeito Draghi, mas a Grécia está lá para mostrar que há bem mais para além do efeito Draghi, nomeadamente a credibilidade, ou a falta dela, da política fiscal. Portugal virou safe haven, e a taxa de juro a 10 anos, onde o efeito do QE do BCE nem sequer é relevante — o QE não se irá estender por 10 anos, pelo que o prémio de risco de um potencial default está devidamente contabilizado —, está agora mais baixa que a dos Estados Unidos.

António Costa e o comunicado do PASOK

Espero que com a maior brevidade possível haja algum senhor jornalista que se lembre de pedir a António Costa, líder do PS, para comentar o Comunicado do PASOK sobre o acordo com o eurogrupo.

Recordo que o PASOK é o partido grego irmão do PS português na Internacional Socialista.

A discussão que deveríamos estar a ter sobre a Grécia

Felizmente, começa a haver cada vez mais responsáveis alemães a alertar publicamente para aquele que tem sido o grande erro de Angela Merkel relativamente à gestão política da zona euro: Instituto alemão defende que a Grécia devia fazer uma saída ordeira da zona euro

Líder do mais importante instituto de análise económica alemão defende a saída “ordeira” da Grécia da zona euro. A extensão dos financiamentos é um “analgésico” que não vai curar a doença grega.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza; Da espiral recessiva aos cantos do Syriza.

A falsa “responsabilidade” de Maria Luís Albuquerque

maria-luis-albuquerque-cc5bMaria Luís Albuquerque, uma candidata a líder do PSD que nas horas vagas se dedica ao ofício anteriormente conhecido como o do Ministério da Fazenda, tem nestes últimos dias estado nas bocas do mundo, ou pelo menos do estreito e sufocante mundo da intelligentsia lusa. Tudo porque, segundo consta, se mostrou pouco interessada em dar o seu aval às exigências do novo governo grego, ficando assim do lado dos países que impuseram o acordo concluído na passada sexta. Infelizmente, haveria razões bem melhores para criticar Maria Luís, mas a que a indignação pátria fecha os olhos por preguiça ou fraca compreensão.

Numa entrevista que deu ontem à TVI, com o propósito de explicar a sua posição na reunião do “Eurogrupo” e acima de tudo promover a sua campanha para a sucessão de Passos Coelho, a Ministra das Finanças afirmou ser “uma pessoa muito prudente”, uma louvável característica pessoal que a leva a não admitir uma descida de impostos nos próximos tempos, dado que o défice orçamental ainda não “deixou de existir” e um alívio da carga fiscal iria pôr em causa o objectivo de contenção da dívida pública portuguesa. É uma afirmação que encaixa bem na “mensagem” eleitoral que o PSD (com a sempre oportunista colaboração do CDS/PP) tem vindo a ensaiar, e que a próprio Maria Luís tinha já proferido anteriormente: um partido “responsável” como o PSD não vai ceder à tentação eleitoral de baixar impostos nas vésperas dos portugueses irem colocar a sua respectiva cruzinha no boletim de voto (ou ignorar em massa as festividades), colocando as necessidades do país à frente das do próprio partido.

Mas é também – e acima de tudo – uma mensagem que, como qualquer pessoa com dois dedos de testa facilmente compreende, esconde não só o seu próprio eleitoralismo (“nós”, PSD, não somos como “eles”, “os políticos” que só querem “tachos” e “poleiro”) como também o falhanço do governo ao longo destes anos em que teve o mérito de evitar a bancarrota mas a incapacidade de conseguir o que quer que fosse para além disso: ao dizer que é “prematuro” falar de descidas de impostos por estas implicarem uma subida do défice, a Ministra das Finanças reconhece (sem querer reconhecer) que o governo por cuja política orçamental ela é directamente responsável foi incapaz de reduzir a despesa pública na medida necessária a aliviar um pouco da carga fiscal que sufoca os portugueses. Pois se uma descida de impostos provocaria uma subida do défice, é porque essa despesa é ainda demasiado elevada para que aquilo que o Estado extrai dos bolsos dos contribuintes seja suficiente para cobrir as verbas que saem do Ministério de Maria Luís. E se assim é, é porque o governo assim fez com que fosse. É à Ministra das Finanças que cabe a definição do que o Estado gasta ou não gasta. Se acha que é necessário baixar impostos mas a despesa pública é demasiado elevada para que se possa dispensar receita, basta-lhe cortar essa despesa. Ao contrário do que se poderia imaginar pelo eco das suas palavras de ontem, a elevada despesa pública do Estado português não é uma fatalidade, algo que é imposto a Maria Luís pelo Além ou uns deuses já não do Olimpo mas de Frankfurt. É algo que resulta da vontade política da própria Ministra e do seu chefe de Governo e parceiro de orientação Pedro Passos Coelho.

Maria Luís Albuquerque é, como já o havia sido o seu antecessor Vítor Gaspar, e como continuam a ser Paulo Macedo e Nuno Crato, um exemplo paradigmático do “falso reformismo” do Governo PSD/CDS: sob o manto retórico das “reformas”, a coligação manteve intacto o estatismo que herdou, apenas com menos dinheiro. Numa outra sua declaração infeliz, a Ministra das Finanças disse há meses que que como “não há muitos ricos em Portugal” e se “procura sempre proteger quem tem menos recursos”, a “classe média acaba por ser a grande sacrificada” pelas medidas orçamentais que têm de ser implementadas. Sendo verdade que há “poucos ricos” em Portugal e por conseguinte a Grande Redistribuição fiscal que alimenta os sonhos dos nossos bem-pensantes não poderá nunca passar dos minutos de REM do seu soninho, também é verdade que o que essa declaração de Maria Luís propositadamente ignorou é que a escassez de abastados de que ela se queixa é acompanhada por uma vasta abundância de “boys” e “girls” que dependem do que o orçamento vai tendo para oferecer, e de quem, por sua vez, as lideranças partidárias – dos partidos do Governo, claro, mas também do PS – estão também bastante dependentes, e que é em virtude dessa abundância que Maria Luís Albuquerque deliberadamente preferiu aumentar a carga fiscal à tal “classe média” em detrimento de deixarem cair aqueles que os seguram ou irão segurar no futuro.

Para tornar as coisas mais graves, essa opção, emparelhada com a retórica que a mascara, consegue apenas juntar o pior de dois mundos: atrai o descontentamento que o reformismo sempre provoca, sem trazer consigo nenhuma das vantagens que resultariam das reformas que na prática não foram feitas. O que não só afecta a popularidade do Governo, um mal que honestamente não me tira descanso, como diminui a predisposição dos eleitores para aceitarem verdadeiras reformas no futuro, quanto mais não seja porque duvidam da palavra e das intenções de quem as venha prometer. Se tivessem juízo, seria com isto que se indignariam todos aqueles que nos últimos dias protestavam contra Maria Luís Albuquerque. E se tiverem juízo, será por isto que os militantes do PSD não a escolherão para sua futura líder.

Nem toda a esquerda está em estado de negação da realidade (3)

Eurodeputado do Syriza critica acordo do Governo helénico com Eurogrupo

“A mudança do nome da ‘troika’ para ‘instituições’, do ‘memorando’ por ‘acordo’ e dos ‘credores’ por ‘parceiros’ não altera nada a realidade anterior”, afirmou Manolis Glezos. (…) No seu artigo, Glezos pede desculpa aos eleitores gregos por tê-los feito “participar na ilusão” durante a campanha eleitoral de ter um Governo de esquerda, pedindo-lhes uma reação “antes que seja demasiado tarde”.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza; Da espiral recessiva aos cantos do Syriza.

Nem toda a esquerda está em estado de negação da realidade (2)

3 semanas em que a Europa se viu grega. Por LA-C.

Deixando de lado os aspectos simbólicos que alguns valorizam muito (como, por exemplo, passar a haver alguém que fale grosso com os alemães) e a que eu não sei dar valor, fica o acordo que foi assinado.

E esse é tristemente doloroso para as pretensões syrizicas. Conseguiram muito menos do que um governo discreto teria conseguido. E houve coisas que perderam; como parte do dinheiro que tinha ido para a Grécia para apoiar os bancos e que voltou para o BCE.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza; Da espiral recessiva aos cantos do Syriza.

Nem toda a esquerda está em estado de negação da realidade

Desanimado suspiro. Por João Rodrigues.

O que estava escrito pareceu-me uma cedência em toda linha em relação ao moderadíssimo programa do Syriza, veremos se temporária, muito depende da reacção interna, no partido e fora dele, mas o que era dito pareceu-me que estava longe disso, aproximando-se de um Ministro das Finanças, mais um, a falar de confiança entre parceiros e das imposições de austeridade como forma de evitar tentações e outras coisas mais: palavras, as coisas significam o que eu quero que elas signifiquem e por aí fora.

Leitura complementar: Razões para ter esperança no Syriza; O socialismo europeu e o Syriza; Da espiral recessiva aos cantos do Syriza.

Declaração de voto de Michael Seufert – nova lei da cópia privada

Aqui fica a declaração de voto do deputado Michael Seufert (via Facebook):

Declaração de Voto – PPL 246

A Assembleia da República aprovou em votação final global a proposta de lei 246/XII – alteração à chamada Lei da Cópia Privada –com o meu voto contra, pelas razões que de seguida expresso.

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O que distingue a Grécia da Venezuela?

Pequeno dicionário do nosso tempo mediático. Por Helena Matos.

O que distingue a Grécia da Venezuela? A crise humanitária. Ou seja, a Grécia vive, no dizer de muitos jornalistas portugueses, uma crise humanitária. Já a Venezuela, com as prateleiras vazias, presos políticos e uma criminalidade elevadíssima, que por sinal afecta e muito a comunidade portuguesa, vai vivendo com algumas dificuldades, nas quais se inclui aquela coisa mais ou menos folclórica de não terem papel higiénico e o facto de os preservativos custarem uma pequena fortuna.

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A arrogância do Syriza e a realidade

As entradas de leão, e a saída de sendeiro, do Syriza. Por José Manuel Fernandes.

Recapitulemos. A promessa eleitoral de Tsipras era que iria renegociar a dívida, obter um perdão substancial (metade?) e formar uma coligação de convocasse uma conferência europeia sobre as dívidas soberanas. A seguir, Varoufakis andou pela Europa a tentar vender uma solução para a dívida grega que já não falava em perdão, mas implicaria sempre grandes perdas para os credores. Na sexta-feira o acordo diz taxativamente que a Grécia se compromete a honrar as suas dívidas e os seus prazos de pagamento.

No discurso de vitória da noite eleitoral, Tsipras proclamou que o memorando tinha acabado e troika também. No acordo ficou escrito que o memorando passou a chamar-se “o actual acordo” e a troika mudou de nome para “as instituições”, algo que estas, de resto, agradecem. Os técnicos que costumavam visitar Atenas vão continuar a visitar – e a vigiar – Atenas. O dinheiro também só voltará a fluir para a Grécia quando “as instituições” e o Eurogrupo aprovarem.

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Como o socialismo real liberta os trabalhadores

North Korea has 100,000 labourers working abroad in a ‘state-sponsored slavery’ scheme: rights groups

Tens of thousands of North Koreans work long hours for little or no pay, toiling in Chinese factories or Russian logging camps, digging military tunnels in Burma, building monuments for African dictators, sweating at construction sites in the Middle East and aboard fishing boats off Fiji, according to former workers and human rights researchers.

Pablo Iglesias: o Podemos e a Venezuela como modelo

Pablo Iglesias: «Qué envidia de los españoles que viven en Venezuela, es un ejemplo democrático»

Pablo Iglesias en Venezolana de Televisión – Entrevista completa

Como a eleição do Syriza diminuiu o poder negocial da Grécia

Ao contrário do que se possa pensar, a eleição do Syriza diminuiu, em vez de aumentar, o poder negocial da Grécia na Europa. Apesar do show mediático, a Grécia está hoje numa posição mais fraca do que antes da eleição do Syriza.

Em primeiro lugar, devido às expectativas criadas nos agentes económicos. A perspectiva de eleição do Syriza fez com que a receita de impostos baixasse drasticamente, fazendo com que a Grécia voltasse a ter um défice primário em Janeiro, aumentando a sua necessidade imediata de financiamento. Ao mesmo tempo, a possibilidade da Grécia sair do Euro, fez com a corrida aos depósitos que suscitou deixasse os bancos numa situação precária em termos de liquidez. Ao aumentar as necessidades imediatas de financiamento, a Grécia colocou-se numa posição negocial ainda mais fraca do que a que tinha antes.

Mas o principal motivo para a diminuição do poder negocial é político. A forma como o Syriza encarou as negociações, desde o estilo revolucionário às declarações heróicas do seu líder, fez com que qualquer resultado que pudesse ser transformado numa vitória trouxesse o perigo de contágio político a outros países, como Espanha, Portugal e mesmo a Itália. Como veremos nos próximos dias quando as medidas forem anunciadas, qualquer pequena inversão das medidas anteriores ou pequena flexibilidade nas metas será transformada numa vitória do Syriza, da sua ideologia e do seu método de fazer política. Mesmo as cedências mais normais serão vistas dessa forma. Como uma proclamação de vitória do Syriza pode ter consequências políticas indesejáveis para a Alemanha e para o resto da UE, os parceiros querem evitar qualquer cedência que possa ser declarada como uma vitória. Por este motivo, a Alemanha será muito cautelosa nas cedências que fará e na comunicação dessas cedências. Algumas cedências que seriam não só aceitáveis como desejáveis poderão vir a ser evitadas, precisamente devido às implicações políticas de poderem ser transformadas numa vitória política do Syriza.

No passado a Zona Euro já fez grandes cedências à Grécia: alterou medidas de austeridade, aligeirou metas de défice e até reestruturou parte da sua dívida. Não teria sido surpreendente se, com outro governo, tivesse feito o mesmo desta vez. Mas com a eleição do Syriza, fazer cedências tornou-se politicamente perigoso.