O país está diferente

Concordo com a ideia central do artigo, mas acrescentaria que o país está muito menos estruturalmente diferente do que deveria estar e que, também por isso, 2016 continua a ser um ano de alto risco: O país está diferente. E a oposição recusa admiti-lo. Por José Manuel Fernandes.

Não há volta a dar: desde finais de 2012, meados de 2013, que os indicadores económicos estão a melhorar. Batemos no fundo, já estamos a recuperar. É isso que está a tornar a vida mais dura à oposição.

O lobby rentista dos manuais escolares

Um excelente texto de António Araújo sobre o escandaloso lobby rentista – patrocinado pelo Estado, como geralmente acontece nestes casos – dos manuais escolares “oficiais”: 42,70 €.

Os «cadernos de exercícios» ou «cadernos de actividades» são uma, entre muitas, das habilidades deste negócio milionário. O Ministério, no seu site, indica apenas o preço do manual. Mas depois todos os professores exigem o «caderno de actividades», sem o qual a aprendizagem da matéria é impossível. Sei bem que, nos termos da lei, é proibido obrigar a compra em conjunto do manual e do caderno de actividades. Também sei que quem já tenha o manual pode comprar só o caderno de actividades, ou vice-versa. Mas porque é que o MNE não publicita também o preço dos cadernos de exercícios e de actividades? No caso da Biologia, o livro custa 32,74€. Mas, depois, o «manual de auto-avaliação» carrega a factura com mais 9,96€.

Aliás, a pouca-vergonha é tanta que, regra geral, manuais e cadernos de actividades vêm ambos embrulhados no mesmo celofane. Se vou ao balcão de uma papelaria e peço «o livro de Biologia do 11º ano», entregam-me o manual mais o caderno de actividades, tudo por atacado. Chamam-lhe «bloco pedagógico». E depois apresentam a conta: 42 euros.

Continuar a ler

Testemunho Especialista

Segundo o JN, «Costa acusa Governo e Carlos Costa de criarem ilusão de ausência de custos com Novo Banco». A observação é pertinente, não fosse Costa um perito na criação de ilusões de ausência de custos.

Financiar a Segurança Social com portagens

reality-studio-ss13-souvenir-north-portugal-svenja-sprecht

Aimeriez-vous un souvenir?

António Costa teve uma ideia digna de nota — mais uma. Financiar a Segurança Social com receitas das portagens. Mas Costa não deveria ficar por aqui. Deveria também considerar pagar os salários dos funcionários públicos com as receitas da venda de souvenirs a turistas à porta de cruzeiros. E financiar obras públicas vendendo rifas, raspadinhas e sêlos, edição dos Descobrimentos.

E já agora, dado que as receitas das portagens abatem às PPPs, António Costa sugere financiar as PPPs com receitas vindas de onde? De uma taxa sobre as pensões ou sobre o subsídio de desemprego?

A falácia do contributo do consumo e do crédito para o crescimento do PIB

Imagine o leitor que de um ano para o outro acontecia o seguinte na economia portuguesa:
1. Os portugueses consumiam mais 200 milhões de euros de carros importados
2. A corticeira Amorim vendia mais 100 milhões de euros em cortiça

O que aconteceria ao PIB neste caso? Seguindo a fórmula mais conhecida do PIB (Consumo Privado (C) + Consumo Público (G) + Investimento (I) + Exportações (X) – Importações (I)), o PIB cresceria os 100 milhões de euros correspondentes ao aumento de exportações da corticeira Amorim. O aumento do consumo em 200 milhões era totalmente eliminado pela parcela importações, já que todos os produtos foram importados. Intuitivamente, não é complicado perceber que o consumo de 200 milhões em carros importados não tem nenhum efeito na riqueza produzida no país. Também não é difícil perceber que produzir mais 100 milhões de euros em cortiça, aumenta o tamanho da economia portuguesa.

Se o leitor, principalmente se não for economista, percebeu a explicação simples do parágrafo anterior, ficará surpreendido de saber que para o INE não é bem assim. Na análise à situação anterior, os relatórios do INE diriam que o crescimento de 100 milhões da economia ocorreu graças a um contributo positivo do consumo no valor de 200 milhões de euros e negativo da procura externa líquida no valor de 100 milhões de euros. Isto acontece porque o INE não desconta à procura interna o valor dessa procura que resultou em importações, fazendo com que todo o peso do aumento das exportações recais sobre a categoria “procura externa líquida”. Esta confusão metodológica tem efeitos relevantes na discussão política e dá azo a demagogia de todo o tipo. Pior que isso: faz com que, por natureza, a procura interna contribua sempre positivamente para o crescimento do PIB em alturas de crescimento, dando a ideia aos mais desatentos que a única forma de crescer é estimulando a procura interna.

Para corrigir esta situação, o Banco de Portugal alterou a sua metodologia de cálculo dos contributos para o PIB. Em vez de subtrair o valor das importações apenas ao contributo das exportações, aloca parte das importações ao consumo interno. No caso acima, como todo o aumento das importações se deveu ao consumo, as importações seriam subtraídas alocadas ao contributo do consumo fazendo com que fosse, acertadamente, zero. Uma grande diferença em relação ao que é reportado no INE.

A diferença entre usar uma metodologia acertada (a do Banco de Portugal) e uma completamente enganosa (a do INE) é gritante. Em 2014, por exemplo, o INE refere um contributo da procura interna para o crecimento do PIB de +2,0pp e o Banco de Portugal de apenas +0,3. Sete vezes menos! Da mesma forma, enquanto o INE reportou um contributo da procura externa líquida de -1,1pp, o Banco de Portugal fala num contributo positivo de +0,6 das exportações (o dobro da contribuição atribuída ao consumo interno).

Quando ouvirem um político dizer que o crescimento económico se deve ao consumo e ao crédito, lembrem-se desta explicação e dos três gráficos abaixo:

CNKEKCmXAAAU9Ba

CNKEKDcXAAACeEY

Procinterna

(Fonte: INE e Banco de Portugal. Primeiros dois gráficos roubados ao João Miranda)

Continuar a ler

A culpa é do hambúrguer

Costahamburguer

Da página oficial de Facebook António Costa consta a imagem que antecede este texto. Como se a imagem não valesse só por si, a legenda que compõe o resto do post rebenta com a escala de confiança. E reza assim a legenda:

“António Costa e Fernanda Tadeu casaram há 28 anos. Não houve festa mas sim um hambúrguer rápido no Abracadabra na Rua do Ouro com os padrinhos Diogo e Teresa Machado, antes de seguirem viagem para Veneza em lua-de-mel. António sempre soube gerir a sua vida pessoal e profissional e Fernanda tem sido o seu maior apoio.”

Infelizmente para a confiança ganha com este monumento de comunicação, o post do hambúrguer no dia de casamento de António Costa desapareceu por questões técnicas.

Como a confiança merece ser apoiada, nacionalizei a imagem ao Telmo Azevedo Fernandes. Que faz justiça aos protagonistas.

calcoes

“Governo quer obrigar portugueses a pagarem leite mais caro”

Milk Numa visita a Chaves, o Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho veio dizer que o seu Governo está a procurar “sensibilizar a União a Europeia para a necessidade de ter uma alteração dos preços de referência” do leite, para assim impedir que “preços anormalmente baixos possam ocorrer”. O que são preços “anormalmente baixos” e o que os distingue de preços “normalmente baixos” ninguém sabe, muito menos o Primeiro-Ministro. O que ele sabe, e bem, é que os produtores de leite portugueses, parte integrante da “lavoura” tão querida do CDS e que este não se cansa de procurar proteger, dizem estar a viver uma “situação dramática” com a queda dos preços que se tem verificado desde o fim das quotas anteriormente estabelecidas pela União Europa. E sabe ainda melhor que estes lhe agradecerão todos os esforços no sentido de “corrigir” o problema.

Sem promoções no Pingo Doce para condenar, a Ministra da Agricultura logo veio consolar os produtores de leite, dizendo que a “preocupação” do Governo era fazer com que o preço do leite “pudesse subir”, para que assim fosse “efetivamente um mecanismo regulador, que neste momento entendemos que não está a ser”. Reunida com os seus congéneres de Espanha, Itália e França, Cristas explicou que iriam pedir na Europa “um aumento dos preços de referência, que permitem retirar produto do mercado quando o produto está em excesso – e que está a pressionar o preço para baixo – e com isso ajudar a regular o preço do próprio produto”. A crer no seu passeio a Chaves e o que lá disse, o Primeiro-Ministro dá o seu aval, e mais uma vez (não têm sido poucas) demonstra o quão infundadas são as acusações de que se trata de um “ultraliberal”.

Traduzidas do “politiquês” que esta gente adoptou em detrimento da língua portuguesa, as palavras da Ministra da Agricultura querem dizer apenas o seguinte: uma vez removidos os obstáculos à produção e venda do leite, a oferta do dito produto aumentou, e a procura por ele não foi suficiente para que quem o vende o fizesse a preços mais altos que aqueles que se têm verificado; legítima e compreensivelmente preocupados com a sua vida e o seu ganha-pão, os produtores agradecem que o poder político, sediado em Lisboa ou em Bruxelas, arranje um mecanismo que permita diminuir a concorrência que enfrentam, e assim garantir que possam cobrar preços mais altos pelo que têm a vender; e como a “lavoura” constitui uma dilecta clientela da coligação, esta última não quer deixar de lutar (ou, no mínimo, parecer fazê-lo) para que seja satisfeita a vontade da primeira.

Ou seja, a coligação achou por bem partir para eleições passando (como agora horrivelmente se diz) “a mensagem” de que quer proibir os portugueses de pagarem, pelo leite que compram, os preços baixos que as livres oferta e procura presentemente lhes oferecem; e que se “a Europa” deixar e um número suficiente de eleitores a quiser alçar de novo a São Bento, pretende usar o poder e a lei para beneficiar arbitrariamente um grupo de pessoas em detrimento de outras, pela simples razão de que as primeiras se movimentam melhor que as segundas no mercado da influência política, o único que prospera em Portugal. Tendo em conta o desprezo generalizado da população por todo e qualquer indivíduo que exerça um cargo político, e que por isso convém aos partidos “mobilizarem” os fiéis e clientes a irem votar, já que poucos para além destes estarão dispostos a dar o seu voto a quem quer que seja, a tal “mensagem” talvez seja uma boa ideia como estratégia eleitoral e de manutenção do poder. Mas como modo de o exercer, e princípio de governação, dificilmente poderia ser pior.

O perigo de radicalização do PS

O Miguel Noronha já aqui simpaticamente o recomendou, mas ainda assim não quero deixar de dar conta do meu artigo de hoje no Observador, aproveitando adicionalmente para chamar mais uma vez a atenção para as declarações de ontem de Ferro Rodrigues e de António Arnaut, que a meu ver reforçam a sua pertinência: A radicalização do PS: entre Fernanda Câncio e Ascenso Simões.

John Locke nasceu há 383 anos

lockeMiguel Morgado (via Facebook) sobre os 383 anos do nascimento de Locke:

Há 383 anos nasceu John Locke. Quando preparei a primeira edição portuguesa – por incrível que pareça era mesmo a primeira… – dos “Dois Tratados do Governo Civil” para as Edições 70, escrevi isto na contracapa:
“John Locke foi uma das figuras maiores da civilização ocidental moderna. Locke foi o pensador da subjectividade, dos direitos naturais, da crítica das ideias inatas, da tolerância religiosa, da separação radical entre o Estado e a(s) igreja(s), da liberdade racional, do governo representativo baseado no consentimento popular, da separação de poderes, da revolução contra a tirania, do direito de propriedade e do direito à acumulação de propriedade, do desenvolvimento económico e tecnológico assente na capacidade humana de transformação do mundo. Ele foi o filósofo da epistemologia, da política, da religião, da educação; o economista, o constitucionalista, o exegeta, o assessor político, o professor universitário e o médico. Com “Dois Tratados do Governo Civil”, Locke define um dos momentos mais importantes da história intelectual da Europa.”

O PS ao serviço de uma maioria “patriótica e de esquerda” ?

Curiosidades do presente: António Arnaut quer uma maioria “patriótica e de esquerda”.

pcp_patriótica_esquerda

Leitura complementar: A radicalização do PS: entre Fernanda Câncio e Ascenso Simões.

O “logo veremos” e os seus riscos

Carta de um indeciso aos seus semelhantes. Por Rui Ramos.

António Costa, nesta campanha, representa o “logo veremos”. Logo veremos se ele vai afrontar a mitológica Merkel, ou, pelo contrário, fazer tudo o que ela lhe mandar (o que quer dizer “uma postura activa na Europa, sem submissão nem aventureirismos”?). Logo veremos se vai acabar com a austeridade ou, pelo contrário, como o Syriza, aplicar uma dose ainda maior. Logo veremos como vai governar: sozinho, com a direita, ou com os comunistas. Logo veremos se mandará votar num candidato presidencial “radical” (Nóvoa), ou num candidato “moderado” (Maria de Belém). Em “eleições decisivas”, António Costa fez do PS uma escolha que deixa tudo por decidir.

Continuar a ler

A Venezuela não interessa a ninguém (3)

How Hugo Chavez Trashed Latin America’s Richest Economy

Chavez isn’t around anymore, but this is clearly his crisis. He took a country that was muddling along, and put it on course to become a basket case. There are worse kinds of rulers than that — those who massacre their own people or lead their nations into hopeless wars. But in terms of basic macroeconomic management Hugo Chavez has to go down as one of the most disastrous leaders the world has seen quite in a while.

(via Ricardo Valente)

Varoufakis, o tóxico

varoufakis_finger

Tsipras’ Gamble

Another homeless parliamentarian is Yanis Varoufakis, the former finance minister who, despite the extremely high number of votes he received in January, is considered so toxic that no party has been willing to include him in their lists so far.

(via Nuno Garoupa)

Flanagan’s suicide notes

After Shooting, Alleged Gunman Details Grievances in ‘Suicide Notes’

In Flanagan’s often rambling letter to authorities, family and friends, he writes of a long list of grievances. In one part of the document, Flanagan calls it a “Suicide Note for Friends and Family.”

He says he has been attacked by black men and white females
He talks about how he was attacked for being a gay, black man
He says has suffered racial discrimination, sexual harassment and bullying at work

A source with direct knowledge of his complaints against the station said a pair of tweets sent today and attributed to him accurately reflect previous complaints he lodged against the two people he killed today. These are the two Tweets: “Alison made racist comments,” and, “Adam went to hr on me after working with me one time!!!”

No Fio da Navalha

O meu artigo para o Jornal ‘i’ de hoje.

A pólvora chinesa

As bolsas caíram a pique com as notícias vindas da China. Melhor: com a confirmação de que a economia chinesa se encontra com sérios problemas. O que está a acontecer na China é extremamente importante, não só porque este país é hoje um gigante económico, mas também, e como Miguel Monjardino já teve oportunidade de referir no “Expresso”, ditará os termos de um debate ideológico que terá lugar nos próximos anos.

É que o modelo chinês finalmente falhou. Finalmente, porque era de esperar. Não obstante as experiências históricas passadas, muitos foram os que acreditaram ter a China descoberto uma nova fórmula de desenvolvimento controlada pelo Estado, capaz de sobreviver à crise das economias ocidentais. O desejo da ordem a qualquer preço é a única explicação que conheço para um erro tantas vezes repetido.

A economia chinesa é uma enorme bolha que o poder político planeou a partir de Pequim, subsidiando-a através de estímulos keynesianos por via do banco central e demais bancos politicamente dependentes. Imagine-se a política monetária defendida por Obama nos EUA, e que certa esquerda pretende seja adoptada na Europa, mas para subsidiar empresas com objectivos delineados a régua e esquadro por um comité central sediado em Pequim.

Interessante será também ver o impacto que a quebra na produção chinesa terá nos preços no Ocidente. É que a baixa inflação de que temos beneficiado deve-se em muito aos produtos baratos vindos do Oriente. A inflação tão sonhada pelo BCE e pelo Fed pode tornar-se um pesadelo.

A Venezuela não interessa a ninguém (2)

Being the ex-President’s daughter pays off: Hugo Chavez’s ambassador daughter is Venezuela’s richest woman

Venezuela’s Food Shortages Trigger Long Lines, Hunger and Looting

In a national survey, the pollster Consultores 21 found 30% of Venezuelans eating two or fewer meals a day during the second quarter of this year, up from 20% in the first quarter. Around 70% of people in the study also said they had stopped buying some basic food item because it had become unavailable or too expensive.

Food-supply problems in Venezuela underscore the increasingly precarious situation for Mr. Maduro’s socialist government, which according to the latest poll by Datanálisis is preferred by less than 20% of voters ahead of Dec. 6 parliamentary elections. The critical situation threatens to plunge South America’s largest oil exporter into a wave of civil unrest reminiscent of last year’s nationwide demonstrations seeking Mr. Maduro’s ouster.

Continuar a ler

Fé na matemática

O meu texto de ontem no Observador.

‘Quando li esta deliciosa crítica de Alexander Masters ao livro The Universe in Your Hand lembrei-me do famoso e infame modelo macroeconómico do PS com os seus 207.000 empregos em quatro anos. E, nem de propósito, ontem Stephen Hawking contou-nos aquilo em que ‘acredita’: que a informação se transforma em holograma quando passa num buraco negro. O que me deixou muito feliz, uma vez que estou muito familiarizada com todas as possibilidades permitidas aos hologramas, pela via mais óbvia, a das séries infantis que os meus filhos vêem na televisão. Há uma destas séries que tem um avô preso num universo alternativo e cujo vilão atua por meio de hologramas. Acho que amanhã, para as impressionar (há que aproveitar enquanto não chega a adolescência), digo às minha crianças que provavelmente os buracos negros tiveram o seu papel na separação de avô e neto.

Como refere Alexander Masters, há um grupo numeroso de cientistas respeitáveis, ferozmente ateus, deliberadamente descrentes dessas fábulas que são as religiões, cujo intelecto não se contenta com menos do que uma cristalina prova científica. Misturam-se a custo com os simplórios beatos ou new age que acreditam num Deus criador ou numa energia harmoniosa universal com que comunicam através de mantras e meditação. Oferecem a esses beatos e new agers o tratamento merecido: a chacota. E no meio de tanta teoria exótica e improvável, nunca lhes ocorreu ponderar se o apelo espiritual da grande maioria da população mundial é afinal resposta a alguma lei natural ainda não descoberta. Ou se a procura de resposta aos ‘porquê?’ e ‘para quê?’ é, hélas, tão racional como o encantamento que as personalidades científicas têm com a beleza (fria) do ‘como?’, que é ao que a ciência responde.

Em todo o caso, eu, que como católica sou alvo de chacota das personalidades científicas, fiquei satisfeita com o que li dessas teorias (todas mais veneráveis do que qualquer religião) que, entre surpreendentes outros, concebem universos dentro de universos. Porque quando eu era criança vivia fascinada com a imagem do Atlas carregando o mundo nos ombros. (Mal sabia eu que décadas mais tarde faria parte de um grupo que tem no seu cânone um livro chamado Atlas Shrugged.) Bom, a criança Maria João também vivia convencida que o nosso mundo era um brinquedo num mundo de gigantes, tal como os globos terrestres são brinquedos no nosso. Pelo que, dou já aqui como provado de forma cristalina, as imaginações infantis são uma ótima fonte de explicações cosmológicas.’

O resto (até chegar aos números do PS) está aqui.

Ainda sobre os abusos do fisco

Com uns dias de atraso relativamente à publicação, aqui fica o meu artigo mais recente no Observador: Os abusos do fisco não acontecem por acaso.

Respeito!

Apesar dos esforços dos cartazes e cartas do António Costa. Grande Líder só há um. O Kim e mais nenhum.

“‏@DPRK_News
Davos World Economic Forum proclaims 14 traits shared by great leaders. All such traits are possessed by Supreme Leader Kim Jong-Un!”

De acordo

Nota-se bem quando existem ideólogos e pensadores por trás de um líder. O discurso é outro. É pensado exactamente na mesma latitude em que Nóvoa pensa o país.

A Justiça e os últimos 4 anos

O meu artigo no Diário Económico de hoje sobre a Justiça.

Justiça

Sobre os últimos quatro anos devemos reter o novo mapa judiciário apresentado pela actual ministra que, com a figura do administrador judicial e a criação de gabinetes de apoio aos magistrados judiciais, foi um primeiro passo na necessária reorganização do funcionamento interno dos tribunais.

Mais mediáticas foram as prisões de José Sócrates, em Évora, e a de Ricardo Salgado, em casa. No entanto, e apesar do sistema judicial ter sido capaz de enfrentar os antigos donos disto tudo, o certo é que tal se terá devido mais ao colapso de um esquema económico que ao mero funcionamento da Justiça.

O futuro nos dirá. Nos esclarecerá se, apesar do sucedido nesta legislatura, o modelo socialista de desenvolvimento que dura há décadas, e que pressupõe como normal uma combinação entre políticos e empresários, ferindo a livre iniciativa e o livre funcionamento do mercado, sobreviverá ao ponto de outros poderes substituírem os que agora caíram em desgraça.

A Venezuela não interessa a ninguém

venezuala_protest_ap_img

A Venezuela não interessa a ninguém. A Venezuela não interessa a ninguém. Porque haveria de interessar, se não interessa a ninguém? Na Venezuela não há um leão chamado Cecil caçado por um dentista. Logo, não interessa a ninguém. Na Venezuela não há caracóis que são cozidos vivos. Você gostaria de ser cozido vivo? Na Venezuela também não. Na Venezuela cidadãos são executados à luz do dia. Triste fado. Fossem um felino ou um molusco e interessariam a alguém. A Venezuela não interessa a ninguém. A revolução bolivariana é boa, é bem intencionada, é bonita e é de esquerda, é contra o capitalismo, é pelo socialismo. E isso já interessa. O que não interessa a ninguém é o que vem depois. Isso não interessa a ninguém. Em particular, as filas para o supermercado, o limite de levantamento de 13€. Ou, como diz o outro, por sinal candidato a deputado pelo PS, quem não consegue viver com levantamentos de 60€/dia? Se os gregos conseguem, os venezuelanos, estóicos latinos, também. É a revolução bolivariana. Essa interessa, essa é digna, essa é noticiável. Essa merece capas do Público e do DN. É tão comovente que jornais brasileiros fazem noticia das capas que Portugal dedicou a Chavez e à Venezuela. A criança que chora com a morte de Chavez, anunciando ao mundo a era pós-Chavez. Essa interessa. Pelo menos a alguns. Interessa aos mesmos a quem não interessa o que deveria interessar agora. A Venezuela não interessa a ninguém. Nem a Venezuela, nem eles.