A pesada herança autárquica de Valentim Loureiro

Fica mais uma ilustração prática de que, também no âmbito da governação autárquica, popularidade não equivale necessariamente a competência e rectidão: Valentim Loureiro: Faturas falsas obrigam Câmara de Gondomar a devolver 11 milhões de euros

Sob a liderança de Valentim Loureiro, a Câmara de Gondomar criou um esquema de falsificação de faturas e desvio de fundos comunitários. Agora, foi obrigada a devolver 11 milhões de euros.

Revolução francesa

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Revolução francesa

A França tem sido muito criticada pela sua imobilidade económica e política. É muito comum dizer-se que os franceses estagnaram perante os desafios que os assolam há vários anos. Paralisados, entorpecidos com a crueldade de um mundo que não se revê neles, os franceses enfiaram a cabeça na areia e ignoram o que se passa à sua volta, mesmo quando dentro das suas fronteiras. Mas isso já não é verdade.

Pelo menos desde há uns tempos a esta parte, a França está a reagir. E o rumo dessa reacção tem tanto de interessante quanto de relevante para o debate político português. Na verdade, a cultura política do nosso actual regime, e da geração que o moldou à sua imagem e semelhança, deve muito da sua essência à experiência, percepção e modo de pensar francês.

São vários os exemplos dessa mudança, desde as continuadas provocações de Éric Zemmour que culminaram com a publicação, em 2014, do seu último livro, Le Suicide français, no qual o autor culpa a geração de 68 pelo declínio do Estado francês e pelos problemas sociais, e raciais, que assolam aquele país. Mas também o filósofo Alain Finkielkraut com as suas críticas ao relativismo, ao progressismo e, novamente, ao Maio de 68.

A revista Le Point, cujos editoriais do seu director Franz-Olivier Giesbert têm um forte pendor liberal, fez há semanas primeira página deste assunto. Não se limitou a referenciar os líderes mais mediáticos deste fenómeno, mas apresentou outras individualidades que fazem a nova geração, bem como outras tendências dentro do, podemos defini-lo assim, movimento. Porque é disso que se trata: de uma verdadeira deslocação do discurso político francês para a direita.

Os partidos de direita, neste caso a UMP e o UDI, este fundado há pouco mais de dois anos por Jean-Louis Borloo, ainda não encontraram a melhor forma de integrar no seu discurso político o novo pensamento da direita. Mas será uma questão de tempo. O certo é que a força motora do debate político francês já não se joga à esquerda. A França do Maio de 68 acabou.

Não se espere, no entanto, grande originalidade. Afinal, trata-se da França especialista em revoluções que, sabemos também por experiência própria, mudam pouca coisa ou quase nada. Tirando alguns sector mais liberais, os intelectuais franceses que estão a levantar a voz em nome da direita, apelam ao conceito de um Estado forte que se imponha a todos.

As consequências em Portugal são evidentes, pois muito brevemente a esquerda portuguesa ficará politicamente órfã. Talvez por isso, o que se passa em Paris não seja notícia em Lisboa, o que revela o quanto esta nova realidade afectará o nosso regime. Aliás, se há político francês que interessa seguir é Manuel Valls. É que, ou o PS de António Costa deriva à esquerda, ou o líder do PSF é um bom prenúncio das escolhas ingratas que terão de ser tomadas no Largo do Rato.

Palavras e ventos de paz

IRAN-TURKEY-DIPLOMACY-KHAMENEI-ERDOGAN 

Turkey’s Erdogan says can’t tolerate Iran bid to dominate Middle East

Turkish President Tayyip Erdogan accused Iran on Thursday of trying to dominate the Middle East and said its efforts have begun annoying Ankara, as well as Saudi Arabia and Gulf Arab countries.

Turkey earlier said it supports the Saudi-led military operation against Houthi rebels in Yemen and called on the militia group and its “foreign supporters” to abandon acts which threaten peace and security in the region.

“Iran is trying to dominate the region,” said Erdogan, who is due to visit Tehran in early April. “Could this be allowed? This has begun annoying us, Saudi Arabia and the Gulf countries. This is really not tolerable and Iran has to see this,” he added in a press conference.

 

Entretanto, as reformas continuam a ser implantadas a bom ritmo.

Tradição fratricida

shootingyourselAs reacções desmedidas de algumas pessoas no PS à candidatura presidencial de Henrique Neto dão que pensar. Talvez fosse bom os socialistas lembrarem-se do que aconteceu das vezes que destrataram os seus militantes que concorreram contra o candidato oficial do partido.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje ‘i’.

A defesa da Europa

Foi há poucos dias, e perante a Comissão Europeia, que Manuel Valls apelou a que os 28 países da União Europeia (UE) se unissem e comparticipassem no custo da luta contra o terrorismo. Perante o esforço que o governo francês para fazer frente a esta ameaça, o primeiro–ministro francês chegou mesmo a dizer que “l’armée européenne existe, c’est la France”.

Quem diria. Quem diria há 15 anos que ouviríamos a França falar deste modo, chamando atenção para a necessidade de a Europa financiar a sua defesa. Na verdade, não é só o terrorismo que a ameaça. Os EUA têm outros desafios na Ásia e no Pacífico e a Rússia está novamente a levantar um muro que a separa do velho continente.

Sem esquecermos a Grécia, que, saindo do euro, cairá num limbo para o qual arrastará aquela zona do Mediterrâneo e afastará a Turquia do Ocidente. Não é por acaso que Obama se preocupa com a situação grega e apela a que a UE reconsidere  a cobrança da dívida daquele país.

Aquilo que os europeus estão a começar a perceber é que o guarda-chuva norte-americano já não é suficiente. A Europa precisa de fazer por si. O que cria um desafio militar acrescido, pois implica um aumento da despesa pública, precisamente quando a maioria dos estados europeus estão fortemente endividados. Como é que países com já tão pouca margem de manobra vão financiar o tão necessário armamento, aumentando o orçamento no sector da defesa? Como é que uma Europa atulhada em despesa investe na defesa?

Primavera persa, parte enésima

Youness Asakeree

Youness Asakeree

Iranian vendor dies after setting himself on fire

Youness Asakere, an Iranian fruit vendor who set himself on fire in front of the Khoramshahr municipality in protest after his fruit stand was confiscated by authorities, died March 22. His death, and the lack of broader attention by Iranian society, has stirred many questions among activists and analysts on social media.

Os amigos são para as ocasiões

Reforma do Mapa Judiciário

A lista VIP de Pinto Monteiro.

O novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) ainda não tomou posse, mas lança já uma forte acusação. António Ventinhas diz que Pinto Monteiro não apoiava investigações a pessoas poderosas.

É uma acusação direta ao antigo Procurador-Geral da República Pinto Monteiro.

O recém-eleito presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Ventinhas, diz que o antigo PGR não apoiava investigações a pessoas poderosas e que muitos procuradores envolvidos em processos mediáticos enfrentavam processos disciplinares.

Na entrevista à jornalista da Antena 1 Cristina Santos, António Ventinhas afirma que o Ministério Público tem agora mais apoio por parte da Procuradoria. Algo que não acontecia no tempo de Pinto Monteiro.

 

O monstro

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Leviathan_by_Thomas_Hobbes Na passada semana, a polémica da “lista VIP” de contribuintes animou os telejornais e a classe política, perante a incompreensão ou indiferença geral da população. Afinal, saber se o Sec. de Estado “sabia ou não sabia” ou se se deve demitir é tipo de questão para a qual os eleitores reservam a atitude mental que Ferro Rodrigues um dia disse ter para com o segredo de justiça, e quem os pode culpar? No entanto, a existência da tal lista revela algo que deveria preocupar e muito o cidadão comum. Ela, juntamente com as fugas acerca da situação fiscal de Passos Coelho e outros, mostram como o sigilo fiscal pouco passa de uma ficção em Portugal, e como isso põe em perigo a saúde do Estado democrático.

Diz “o povo” que “quem não deve, não teme”, e diz mal. É precisamente “quem não deve” que mais tem a temer de quem o pode acusar infundadamente de “dever”. Se o sigilo fiscal de qualquer cidadão não estiver devidamente protegido, se um qualquer funcionário fiscal puder aceder aos nossos dados, todos estamos potencialmente sujeitos a ser alvos de uma perseguição fiscal, bastando que por alguma razão tenhamos caído nas más graças de alguém com um computador das “Finanças”. Numa altura em que a Autoridade Tributária tem por hábito partir do princípio de que o contribuinte está em falta e exigir-lhe que prove a sua inocência, é fácil de perceber como “não dever” não é garantia de nada.

No fundo, ninguém pode ficar descansado. O aumento de poderes da AT conjugado com a sua incapacidade para proteger a segurança dos nossos dados dão ao nosso Estado democrático o pior do carácter dos autoritários: transforma todo e qualquer cidadão numa potencial ameaça a todo e qualquer cidadão. Ao contrário do que pensava o senhor que lhe deu o nome, quanto mais poderoso é o Leviatã estatal, mais os homens se tornam nos lobos dos homens.

Colóquio Pensamento Libertário II – 26 de Março, em Lisboa

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No próximo dia 26 de Março estarei numa conferência na FCSH da Universidade Nova de Lisboa onde falarei no painel das 14h00, sendo a minha comunicação subordinada ao tema “Propriedade sem Estado no pensamento de Nozick e Rothbard”.

Mais informações e inscrições através deste link.

YDreams: uma estória empresarial portuguesa

Porque falhou a YDreams? As explicações de António Câmara

Conta que houve o falhanço de expectativas que não teve a adequada resposta. A conjuntura também não ajudou. Estávamos em 2009 e as expectativas de vendas chegaram a ser de 20 milhões de euros. Estava tudo contratado e adjudicado. Principal cliente: o Estado.

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O critério de representatividade de Marine Le Pen

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A propósito de uma entrevista de Marine Le Pen. Por João Carlos Espada.

Em entrevista ao semanário Expresso do último sábado, Marine Le Pen classificou Durão Barroso como “o chefe dos guardas prisionais. Foi o chefe da prisão, foi o grande general da prisão dos povos, que é o que na realidade é a União Europeia.” Quanto a Angela Merkel, ficámos a saber que “é a directora da prisão”.

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Resultados das eleições em França e na Andaluzia

Assim vai a Europa…

Eleições departamentais em França: Sarkozy em primeiro, Le Pen em segundo
Andaluzia: PSOE ganha eleições, Podemos em terceiro

Um programa eleitoral de extrema-

Sem quaisquer reservas, acusa Merkel de ser «a directora da prisão que é a Europa», ou Durão Barroso de ter sido o «guarda prisional». Acredita que estamos numa ditadura, a «euroditadura». A culpa? Do Euro, da União Europeia. A mesma «euroditadura» que tem subjugado a Grécia, dizendo a um país soberano «o que deve fazer e como o deve fazer». Clama pelo «fim do Euro», pois só assim poderão acabar as grilhetas que espartilham os países. Deseja a nacionalização dos principais bancos, pois o «Estado-estratego deve defender o interesse dos seus compatriotas». A Troika? Define-a como uma «hidra com três cabeças cujo único objectivo é defender os interesses dos bancos, das grandes instituições financeiras, dos credores dos países». É contundente quanto ao seu posicionamento: «não sou por menos Estado, não sou por mais privatizações, não sou pelo ultraliberalismo, não sou por essas leis do mercado que eu considero deverem ser controladas porque, caso contrário, conduzem ao esclavagismo». É naturalmente contra o acordo transatlântico, o TTIP, cujo objectivo é criar «mercado único mundial», onde «os fracos morrerão». A respeito do conflito ucraniano? A culpa é da UE, que «se imiscuiu voluntariamente na esfera de influência da Rússia». Finalmente, e quanto à geopolítica europeia: «os países do Norte tratam os do Sul como parasitas, gastadores, preguiçosos».

Alexis Tsipras num comício interno? Pablo Iglesias numa manifestação do Podemos? Poderia ser qualquer um dos dois, pois qualquer um subscreveria todas as posições suprarreferidas. Mas não é. É Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, o partido de extrema-direita francês, numa entrevista ao Expresso (edição em papel). Não fosse a reposição da pena de morte ou o fim da imigração, e seria um autêntico programa eleitoral da extrema-esquerda. Este episódio recorda-nos que nacionalismo e socialismo sempre andaram de mãos dadas, pelo menos no que a assuntos económicos diz respeito.

«Sou de extrema-direita, mas bem podia ser de extrema-esquerda».

«Sou de extrema-direita, mas bem podia ser de extrema-esquerda».

O Estado indiscreto é uma ameaça à liberdade e à justiça

A lista VIP: o que é uma coisa séria? Por Rui Ramos.

Esta caso da “lista VIP” lembrou-nos que o Estado português tem pelo menos uma coisa em comum com Polichinelo: a incapacidade de guardar um segredo. Dito isto, pode continuar a não parecer uma coisa séria. Não será o sigilo uma relíquia do passado, impossível de honrar na era dos “leaks” e dos “hackers”? Não estará a solução para a falta de confidencialidade em abolir a confidencialidade?

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A bestialidade de xiitas & sunitas

mesquita

 

Na última Sexta-feira, um grupo de idiotas carniceiros decidiu celebrar o dia santo do Islão, assassinando o maior número de pessoas. Os bombistas suicidas escolheram como alvo duas mesquitas xiitas. Morreram 142 pessoas. Há mais sírias para além da Síria.

Yemen is a battlefield for Saudi Arabia and Iran

The latest atrocity in Yemen, which claimed nearly 150 lives on Friday, appears part of a proxy war between the Middle East’s two superpowers

 

Leitura complementar: Aviso de 2004, do Rei Abdullah da Jordânia.

A “eficácia” da brutalidade

Brutalidade Há dias, no Observador, David Dinis escreveu um artigo sobre a polémica em torno da “lista de contribuintes VIP” que tem animado a classe política e os telejornais perante a indiferença ou incompreensão generalizadas da população. Após algumas considerações a propósito do caso, Dinis (pessoa que, pelo que leio e ouço, tenho em boa conta) escreve que “o Fisco é um dos trunfos maiores do ajustamento e modernização do Estado que temos para apresentar” tanto “aos credores” como “aos contribuintes” e que por isso “convinha muito não estragar o retrato”. Li e não acreditei no que li. Até que, vasculhando aquilo a que se convencionou chamar “as redes sociais”, deparei com várias comentários lamentando a circunstância deste caso vir “manchar” a “credibilidade” da Autoridade Tributária, “uma das poucas coisas que funcionam bem em Portugal”, dizia um dos opinadores.

É verdade que os vários governos que nos têm calhado em sorte desde que a dra. Manuela Ferreira Leite colocou o dr. Paulo Macedo a reformar a máquina tributária insistem em vangloriar-se da acrescida “eficácia” dessa mesma máquina no combate à evasão fiscal. Mas que sucessivos governos vivam noutro mundo que não o real não me surpreende. Já que portugueses comuns que são forçados a sujeitarem-se aos ditames das gentes que alternadamente nos pastoreiam acreditem nas balelas que nos tentam impingir é algo que acho bem mais preocupante. E para acreditar que o Fisco “funciona bem” e é um exemplo do melhor que “ajustamento” trouxe requer uma credulidade a um nível que está perto do humanamente impossível.

Não deve haver indivíduo que tenha tido o infortúnio de por via do nascimento ser cidadão português que não conheça, por experiência própria ou tenebrosos relatos de terceiros, os métodos a que a Autoridade Tributária/ex-DGCI (tal como com as polícias políticas do antigamente ou os serviços secretos russos, convém mudar o nome da coisa regularmente na esperança de que o facto de tudo continuar na mesma passe despercebido) recorre para “combater a evasão fiscal”. Todos os portugueses já receberam (ou conhecem alguém que recebeu) uma carta da AT/ex-DGCI a acusá-los de uma dívida que não têm, ameaçando-os de multas, penhoras ou processos judiciais caso esta não seja saldada, geralmente num prazo curto. Qualquer português que não ande a dormir sabe, mesmo sem pessoalmente ter tido o azar de passar por um semelhante calvário, como a AT/ex-DGCI (ou a Segurança Social) gosta de enviar notificações sobre situações fiscais de incumprimento que não correspondem à realidade do contribuinte ameaçado, na esperança de que ou a incompreensão do que lhe está a ser exigido (o português dessas notificações é deliberadamente ilegível) ou o receio dos custos inerentes a um longo processo no tribunal o levem a pagar sem protestar. Na prática, a AT/ex-DGCI declara o cidadão culpado até prova em contrário, e espera que por ignorância ou medo, o coitado admita a culpa ou não tente sequer provar a inocência, e se limite a “pagar e calar”, de forma a que o Estado vá conseguindo amealhar uns tostões aqui e ali para alimentar o “monstro” em que se tornou.

Mesmo o caso das “facturas” e a maior frequência com que os portugueses as pedem está longe de ser o sucesso que o Governo gosta de propagandear e em que David Dinis aparentemente acredita: convém não esquecer que os portugueses com pequenos negócios foram forçados a adquirir equipamento especial para processar essas facturas electronicamente, e que passados poucos meses foram novamente forçados a adquirir a versão actualizada, tudo do seu bolso. Em muitos casos (e só aqui em Caxias, onde vivo, me lembro de dois, e podem ter sido mais), donos de “pequenos estabelecimentos comerciais” tiveram de fechar o seu negócio por não conseguirem comportar esses custos. Os liberais-em-nome-apenas que proliferam por aí dirão que um negócio que não tem dinheiro suficiente para custos desses é um negócio que não tem condições para existir, mas mostram apenas a sua ignorância: não percebem, primeiro, que esse pequeno negócio tinha pelo menos a vantagem de dar trabalho a pessoas que, sem ele, ficam desempregadas. E em segundo lugar, ignoram que quando o outro senhor austríaco falou de “destruição criativa”, falava dos negócios que desapareciam por causa do mercado, não devido à imposição artificial de barreiras à livre interacção das pessoas pelo Estado. A destruição promovida pela AT/ex-DGCI, como qualquer destruição provocada pela visível e pesada mão do Estado, é tudo menos “criativa”.

A “eficácia” do Fisco é, na realidade, muito pouco eficaz. Consegue cobrar mais, é verdade, mas cobra mais de forma indiferenciada, independentemente das pessoas efectivamente deverem ou não. Consegue cobrar mais, porque aterroriza os cidadãos a pagarem o que a AT/ex-DGIC lhes diz que devem antes de terem ainda mais complicações e para que não se arrisquem a ter de pagar ainda mais, por muito inocentes que sejam à partida. Consegue cobrar mais, não por actuar de forma mais “moderna”, mas por recorrer à brutalidade. Ao contrário do que David Dinis escreve, não há qualquer perigo de se “estragar o retrato”. Há muito que a pintura está já bem borrada.

“Esquerda Caviar” em Portugal

Está disponível hoje nas principais livrarias de Portugal o livro “Esquerda Caviar” (Alêtheia Editores), do economista e blogger brasileiro Rodrigo Constantino.

Em seu blog no site da revista Veja, Constantino publicou uma breve apresentação do livro que escrevi para os leitores portugueses.

O Economista Insurgente: “Porque é que é impossível ao Estado pagar a dívida pública?”

O Economista Insurgente

«A dívida acumulada tem uma dimensão, relativamente ao que é produzido anualmente em Portugal, que torna muito difícil que o Estado consiga honrar os seus compromissos. Se todos os gastos do Estado fossem cortados, incluindo prestações sociais, salários, etc., ainda assim demoraria cerca de 4 ou 5 anos a pagar. Se o PIB crescesse a 2% ao ano e o Estado tivesse um excedente orçamental de 1% do PIB, demoraria mais de 25 anos a reduzir a dívida para o limite previsto nos tratados europeus (60% do PIB). Num contexto de crescentes despesas, onde o orçamento do Estado é cronicamente deficitário, a tarefa torna-se impossível.

A única forma de poder ultrapassar a situação seria por via de um considerável crescimento económico, em que maior produção se traduziria em maior colecta fiscal, permitindo, por sua vez, amortizar a dívida; ou pelo menos reduzi-la em percentagem do PIB. Se, por exemplo, o Estado tivesse orçamentos equilibrados, seria preciso um crescimento médio de 3,5% ao ano durante quase 25 anos para a dívida baixar para os limites dos tratados europeus. Contudo, esse crescimento não poderá ocorrer enquanto a carga fiscal for tão pesada e os juros tão elevados, ambas as situações resultantes da crise orçamental.

Temos assim um problema de “pescadinha de rabo na boca”: É preciso juros e impostos baixos para que haja mais investimento – que resulta em crescimento económico; mas baixar impostos resultaria em défices ainda maiores no curto prazo, tornando os juros mais altos.

Chegamos assim a um cenário em que a única conclusão possível é que, perante o Estado que temos, a dívida é impossível de pagar. A qualificação de “Estado que temos” é importante, pois havendo vontade política de alterar significativamente o Estado, reduzindo assim os seus gastos, podem ser libertados os meios para equilibrar as contas públicas, ou mesmo gerar excedentes, e de reduzir a carga fiscal por forma a incentivar o investimento produtivo.

Tendo em conta o que já foi referido anteriormente neste capítulo, no que toca às áreas onde a despesa do Estado é maior, é inevitável concluir que apenas mexendo nas despesas sociais do Estado (segurança social, educação e saúde) é possível equilibrar as contas públicas.»

in “O Economista Insurgente”, Esfera dos Livros, 2014

Revisitar a história

thatcher-mandela-afpgtA história, os historiadores, ou talvez alguns contadores de histórias, tentaram sempre colar a oposição de Margaret Thatcher ao African National Congress (ANC), a uma posição de simpatia para com o apartheid. A mensagem sempre foi bem manipulada — Margaret Thatcher, que nunca apelidou Nelson Mandela de terrorista, mas chamou sim de organização terrorista à aliança tripartida com comunistas do qual o ANC fazia parte, ficou eternamente associada a essa imagem, rapidamente deturpada para um apoio implícito à segregação racial da África do Sul.

A prática é recorrente e não está confinada a este caso, como bem ilustra a nossa própria história contemporânea, e o enorme salto ilógico que os comunistas portugueses davam ao acusar de reaccionários e fascistas os que estavam contra a implantação de um regime comunista após o 25 de Abril, como se estar contra o comunismo implicasse estar a favor do regime salazarista. Resultou, pelo menos até agora. O livro de Rob Rewick, “The End of Apartheid: Diary of a Revolution”, diplomata britânico que acompanhou todo o processo em primeira mão, vem esclarecer a história, negando liminarmente que alguma vez Thatcher tivesse apoiado o apartheid. Isto era manifestamente óbvio pelas suas declarações públicas, mas fica também agora esclarecida a sua posição em privado.

Recordemos que, aquando da sua libertação, Nelson Mandela declarou profusamente que Margaret Thatcher era “uma inimiga do apartheid”. Segundo Rewick, Margaret Thatcher foi a líder política ocidental que mais pressionou — e os documentos agora desclassificados confirmam-no — pela libertação de Nelson Mandela.

A verdade fica assim reposta.

Leitura complementar: “Much to be thankful for”.

Os portugueses imaginários de PS e PSD

O meu texto de ontem no Observador.

‘Nestes últimos anos temos verificado uma persistente sintonia entre PSD e PS: nenhum dos partidos entende aquela categoria que dá pelo nome de ‘os portugueses’. Os portugueses reais estão para PS e PSD mais ou menos como a lógica aristotélica para quem fez uma operação dolorosa e foi sedado com morfina. E a argúcia dos dois partidos no conhecimento de ‘os portugueses’ equipara-se ao bom senso e à capacidade de lidar por si próprio com as adversidades da vida de Bertie Wooster, de P. G. Wodehouse, que só conseguia escapar-se dos noivados contrariados, das sovas dos apaixonados das suas noivas e das armadilhas das tias pela ação de Jeeves, o mordomo.

Comecemos pelo PS. Tal como uma seita new age espera num santuário dos Andes pelas naves intergaláticas que a vai levar a dançar entre as estrelas, ou como os cubanos e os venezuelanos esperam pela abundância que traz o socialismo, os socialistas nacionais ainda estão à espera que ‘os portugueses’ se levantem violentamente contra o atual governo. Que – segundo vários socialistas, alguns deles ainda não na fase Alzheimer – fez o país regressar a níveis de pobreza piores do que os de 1974. E procurou diligentemente o empobrecimento do país (tudo porque são pessoas pérfidas que todas noites abrem garrafas de Bollinger Brut para celebrar o sofrimento generalizado da população portuguesa).’

O resto das confusões dos dois maiores partidos sobre nós, os queridos cidadãos portugueses, está aqui.

O socialismo volta a funcionar

Maduro

E bem, na Venezuela.

Venezuela Is On the Brink of Collapse por Tom Rogan.

(…)The problem is that Chávez, Maduro, and company have only ever wanted personal power. They see themselves as reincarnations of Simón Bolívar. But where Bolívar opposed the tyranny of the Spanish empire, Maduro opposes the “tyranny” of free enterprise.

The Chávistas have always been crackpots, but, until recently, high oil prices enabled them to paper over their failings. No longer. Plummeting oil prices have eviscerated government budgets. In response, Maduro is doubling down on insanity. Contemplate the comrade’s magnificent crisis plan: Rather than accepting that shortages in goods are caused by his price controls and collapsed currency, Maduro blames hoarders and foreign conspirators (a favorite regime scapegoat), while he restricts shopping days. Rather than recognizing that his neglect means that medical professionals can’t replace their tools, Maduro blames greed. Rather than admitting that Mad Max criminality contributes to police corruption and low morale, Maduro rants about the ills of “individualism” and “consumerism.” Rather than tolerating scrutiny, Maduro attacks freedom of the press. Rather than pursuing dialogue with the political opponents, Maduro imprisons them and cuddles North Korea.

As I say, Chávezville is an asylum. (…)

A propósito de gins e de vir

picture_kafka_drawingEu, hoje, no Diário Económico

Vem Devagar Emigrante

A meio de um gin (ou de meia dúzia) ocorreu a alguém que jovens que emigraram e rapidamente perceberam que há lugares onde o trabalho e o mérito são premiados, onde é possível imaginar um futuro acolheriam de braços abertos o regresso a esta nossa desesperança.

Então e o multiplicador?

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Este edifício custou mil milhões de Euros, mas isso pouco interessa. Com o multiplicador keynesiano este investimento gerará coisas incríveis para gerações actuais e vindouras.

Alguns keynesianos, entre os quais João Galamba, estão indignadíssimos com o custo do novo edifício do BCE, que se estima em mil milhões de Euros. O que custa a compreender, tendo em conta que estes seguem e acreditam numa escola económica que advoga abrir e fechar buracos, e que refere que, sempre que não haja pleno emprego, o multiplicador da despesa pública é superior a 1, isto é, por cada 1€ gasto, existe um incremento do PIB superior a 1€. Aliás, o cúmulo da apoteose keynesiana seria se essa despesa tivesse sido paga com dinheiro acabado de imprimir, fluindo das impressoras do BCE para o bolso do construtor, assim monetizando-a.

Logo, o que estes keynesianos deveriam estar a reclaramar era por um edifício umas 100 a 200 vezes mais caro, e cuja construção aliás nunca terminasse, mantendo assim a despesa a fluir eternamente — que é o rendimento dos outros, recordam-se? —, num círculo económico virtuoso. Uma espécie de Sagrada Família, mas em Frankfurt. Ou, numa visão 2.0 do abrir e fechar buracos, estando permanente a construir e logo a seguir a destruir sedes do BCE, actividade ainda mais potenciadora do PIB, pois requer diferentes ofícios. Enfim, tarefa árdua esta de compreender os Harry Potters da economia.