
O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.
No país dos sovietes
A promoção do Pingo Doce no dia do Trabalhador foi uma dura resposta aos que exigiram um boicote àquela cadeia de supermercados.
Se não foi de propósito, merecia que tivesse sido. Merecíamos todos. Uns, porque se sentiram aliviados ao saber que ainda existe quem afronte o poder do Estado. Outros, porque levaram com a resposta que há tantos anos andavam a pedir. A promoção que o Pingo Doce ofereceu aos seus clientes no passado 1º de Maio não se trata apenas de uma desforra face aos apelos ao boicote àquela cadeia de supermercados, vindos dos que invocaram, em nome do país, interesses corporativos e particulares. É um pequeno ajuste de contas por tudo o que tem sido feito em detrimento do país, das nossas vidas, dos nossos negócios e da nossa esperança.
Durante anos, o país deixou-se levar por discursos de frases feitas e sentido nenhum que nos diziam ser importante regulamentar a lei laboral, impedir o despedimento, garantir o emprego na função pública, taxar o trabalho e o lucro, aumentar os encargos sobre os que criavam empresas e negócios e eram ambiciosos. Ganhar dinheiro só era positivo porque parte dele era encaminhado para os cofres do Estado. Trabalhámos não para nós, mas para todos nós. Para que o Estado tivesse dinheiro e os iluminados pela luz do poder o pudessem gastar a seu bel-prazer.
Esta catástrofe, que já dura há tantas décadas, ainda não terminou, mas recebeu no dia 1 de Maio um primeiro sinal de que o seu fim pode não estar longe. Há uma letargia que nos consome, que não permite à economia crescer, que nos fez aceitar como bons os milhões de euros gastos em investimentos públicos e que tem destruído os postos de trabalho. Aliás, o desemprego só não atingiu mais cedo as proporções de hoje porque a emigração não é de agora. Começou há cerca de dez anos, quando os primeiros sentiram os sinais de uma economia estagnada, sem futuro. Que algo não estava certo e que o desastre aguardava uma primeira oportunidade para se fazer sentir. Enquanto tal não sucedeu, a apatia que a lengalenga socialista provocou permitiu que a grande maioria se endividasse na compra de uma casa para viver, sem que ninguém tivesse a coragem de liberalizar a lei do arrendamento e facilitar a vida das pessoas. Que a justiça deixasse de funcionar a tempo e horas, e ninguém tenha sido capaz, ou saiba sequer, como resolver o problema. Permitiu-nos chegar a um ponto em que o Estado já nem as suas funções essenciais cumpre de forma digna. Andámos a cavar um buraco procurando uma saída do outro lado. As pás, essas, foram-nos dadas, entre sorrisos e promessas, pelos verdadeiros coveiros do Estado social.
O que sucedeu com a promoção do Pingo Doce é um exemplo do que deve ser feito para sairmos do buraco onde nos encontramos. É preciso confrontar a irracionalidade daqueles que, cheios de ideais, destroem as nossas vidas. Expô-los publicamente ao ridículo. Fazer com que se veja o que defendem e aquilo que pretendem. Pô-los a exigir que o Estado, reduzido que está a servi-los, impeça quem queira ou precise de ter acesso a produtos mais baratos. Fazê–los proclamar não ser justo baixar os preços, mesmo que isso seja do proveito da maioria das pessoas e, mais importante que qualquer outro argumento, apenas a elas diga respeito.
A ânsia que alguns poderes instalados no Estado têm de entrar nas nossas vidas e decidir, em nosso nome, o que é melhor para nós é um vício que atingiu os limites da falta de decoro. Veja-se o Partido Socialista, que exigiu à ASAE que investigue se houve concorrência desleal na promoção do Pingo Doce, não vá o país ter perdido com um benefício pontual concedido aos consumidores. Que a ASAE, um organismo público controlado não sabemos por quem, com ligações não sabemos a que poderes, uma entidade de quem, ao contrário do que sucede com qualquer supermercado, não podemos fugir, possa investigar o que quer que seja é, isso sim, um verdadeiro exemplo do que em Portugal, e fazendo minhas as palavras do líder da CGTP, precisa de ser posto no lugar.