Ontem, no Porto Canal e na RTP

Para os interessados, aqui fica o video do Especial Informação de ontem do Porto Canal dedicado aos 4 anos de Pedro Passos Coelho na liderança do PSD, no qual fui um dos convidados juntamente com Manuel Carvalho, do Público, e Pedro Bacelar de Vasconcelos, da Univ. do Minho.

No que diz respeito a aparições mediáticas insurgentes, mais ou menos à mesma hora, mas na RTP e com muito mais bom gosto, a Maria João Marques esteve no Prós & Contras, que pode ser visto aqui.

Entretanto, ontem pelas 19:00, também no Porto Canal, o Luís Aguiar-Conraria foi o convidado em estúdio no programa Testemunho Directo, que pode ser visionado aqui.

Last but not least – e mais uma vez no Porto Canal – Pedro Arroja teve o seu habitual espaço de comentário no Jornal Diário (mas não consegui encontrar video).

Resposta de José Rodrigues dos Santos às críticas sobre a entrevista a Sócrates

José Rodrigues dos Santos defende-se de críticas sobre entrevista a Sócrates

RESPOSTA DE JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS AOS COMENTÁRIOS PUBLICADOS NESTA PÁGINA À ENTREVISTA FEITA PELO JORNALISTA A JOSÉ SÓCRATES, NO DOMINGO, DIA 23 DE MARÇO DE 2014, NA RTP1:

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No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no i, sobre o longo caminho do PS em direcção à austeridade.

O alvo fácil

O PS, por via do vice-presidente da sua bancada parlamentar José Junqueiro, veio dizer que, caso seja governo em 2015, não reporá de um dia para o outro os salários cortados nos últimos anos. Esta afirmação é muito interessante. Porquê? Porque com ela dá-se o primeiro passo para que a classe política reconheça que, não estando interessada em fazer uma reforma do Estado que permita uma redução substancial da despesa pública, os salários não só não serão repostos como poderão ser novamente cortados.

O mesmo se diga dos impostos. Enquanto este, ou qualquer outro governo, não reformar o Estado, reduzindo substancialmente a despesa pública, os impostos terão de ser aumentados. O problema hoje já não é, como há dez anos, não haver espaço para a redução dos impostos. No ponto em que estamos, e porque se adiou o indispensável, só há espaço para que os impostos sejam aumentados.

O leitor dirá que não pode ser, que a economia não aguenta mais. É verdade, não aguenta. O que não quer dizer que não se siga por essa via. Veja-se bem o seguinte: já há muito tempo que a economia, as empresas e as pessoas não aguentam a carga fiscal e, apesar disso, esta tem aumentado. Porquê? Porque foi sendo a decisão mais fácil. É verdade que já muitos saíram do país, fugindo do estado que nos consome. No entanto, há sempre alguém que se esforça e consegue dar a volta. Alguém que se sacrifica e arranja umas economias. As pessoas tornaram-se o alvo fácil do socialismo.

sócrates ‘não vinha preparado’ para parar de mentir

O comentário-barra-entrevista da criatura socrática ontem, com José Rodrigues dos Santos, está a dar que falar. A expressão ‘não vim preparado para isto’ já entrou na cultura pop humorística, o que é bom, porque, de facto o melhor que se pode fazer com certos tiranetes é rirmo-nos deles.

Eu vi mais de metade (não consegui ver tudo, que eu tenho dois filhos pequenos que necessitam da mãe com sanidade mental) do vídeo que ontem estava no youtube do programa. Foi a primeira vez que vi o espaço de tempo de antena e reescrita da História recente da criatura socrática e verifiquei que está igual: sem vergonha na cara, mentindo, sem perceber que não é uma criatura predestinada a quem as regras dos comuns mortais não se aplicam. Disse coisas muito interessantes, a criatura socrática. Por exemplo, que governou sempre com rigor orçamental, ele que comprou as eleições de 2009 com um défice orçamental de 10% e que aumentou a despesa pública em termos absolutos todos os anos. Disse que sempre teve crescimento, apesar de em 2009 Portugal ter contraído quase 3%. E nos anos em que houve crescimento parece que pensa que tal se deveu à semi-divindade socrática em vez de às famílias e empresas. E, cereja no topo do bolo, justificou a austeridade em 2011 com o défice virtual recebido em 2006.

Perante todo este manancial de mentira, alienação e descaramento, os apoiantes da criatura dedicam-se a insultar José Rodrigues dos Santos – com o amor ao jornalismo livre que sempre se notou nas hostes socráticas – e a elogiar sócrates. O mesmo é dizer, elogiando a propensão para a mentira de sócrates. Há gente tão burra e tão sectária que merecia pagar a totalidade do empréstimo da troika que impuseram ao país.

O mundo é a minha aldeia

Claro que o mais incompreensível é o facto de a notícia mais escandalosa da visita da Michelle Obama à China não ser esta escolha de roupa da Michelle - para a qual não há explicação, justificação ou desculpa possível. Se as relações China-EUA se deteriorarem nos próximos meses, já todos sabemos o que culpar. Eu, por mim, pretendo escrever para a Vogue informando que se uma senhora que se veste assim voltar a aparecer na capa da revista, cancelo a assinatura.

Bom, chegando ao que interessa, li a notícia do DN sobre esta viagem de Michelle e sorri ao ler o último parágrafo: ‘As palavras de Michelle têm importância especial quando ditas na China, onde a censura mantém bloqueadas redes sociais como o Facebook e o Twitter, bem como páginas na Internet de vários meios de comunicação.‘ Isto é o que se chama euro-centrismo jornalístico. Ou, se nos sentirmos menos caridosos, ‘escrever umas coisas que ficariam bem numa redação do 9º ano mas são risíveis num jornal’. É o que dá escrever-se sobre uma realidade que se desconhece e aplicar-lhe os padrões ocidentais sem se perceber que lá há padrões diferentes. É mais ou menos o mesmo dos casos em que os jornalistas, para ilustrarem como os bens são caros na China, apesar do baixo rendimento médio, dão o exemplo do preço de um hamburguer no McDonald´s ou de um café no Starbucks – sendo que estes restaurantes e cafés são considerados na China, bem como as restantes marcas de fast food ocidentais, locais de luxo caríssimos frequentados pelos chineses ricos; o chinês médio tem à sua disposição restaurantes de comida local e casas de chá baratíssimos e mais próximos dos gostos gastronómicos chineses.

O parágrafo referido não tem nenhuma incorreção. Simplesmente não tem nada a ver com a realidade chinesa. Quem lê a notícia fica a pensar que os pobres dos chineses não têm redes sociais para comunicar e protestar. Ora os chineses, sobretudo os urbanos, têm uma participação fortíssima nas redes sociais, não são é o twitter e o facebook. A mais popular é o Sina Weibo, uma mistura entre blogue e twitter. E estas redes sociais têm tido uma grande influência na formação da opinião pública, na denúncia de casos de corrupção ou de incompetências governativas dos vários níveis do estado e, até, de notícias que a censura chinesa de outra forma ocultaria. O caso paradigmático é o do acidente de combóio de Wenzhou, de que se pode ler alguma coisa da importância das redes sociais na informação e crítica depois do acidente aqui e aqui. E como a política chinesa é sempre feita de jogos de sombras, a indignação nas redes sociais depois do acidente foi usada para os jogos de poder dentro do PCC e para afastar o responsável político do acidente.

Como a realidade, sobretudo a chinesa, tem várias camadas e inúmeros tons de cinzento, podemos ler o que diz Yu Hua, o meu escritor chinês preferido, sobre o assunto numa entrevista recente ao China File. ‘My friend Emily Parker [...] did research on the Internet in the U.S., in Russia, and in China. She says in the U.S. the Internet was boring, in Russia it was dull, but in China it was fascinating. Why? Because China’s strict censorship was forcing people to be creative. They skirted around sharp corners to launch their critiques of the government, they became masters of disguise and subterfuge. By the time the government figured out what they were really saying and came after them, they’d switched tactics. I wrote an article about this for The International Herald Tribune. I said in this kind of cat and mouse game, the “mice taunt their adversaries, they make sure to have a bolt-hole right next to them.” Ironically, at least in my mind, China’s censorship hasn’t suppressed people’s critiques, it has sharpened them.’ (A propósito dos seus livros, também diz mais umas coisas sobre liberdade de expressão na China e sobre aspetos da chineseness que geralmente escapam aos ocidentais.)

Um jornalista que saiba do que fala e pretende dar ideia do controle das redes sociais pelas autoridades chinesas não fala da inexistência do twitter e do facebook na China. Fala do recente crackdown das autoridades aos bloggers influentes (o camarada Xi é menos liberal do que se esperava), quer proibindo que se espalhem ‘rumores’ nas redes sociais (i.e., denúncias de maus comportamentos dos burocratas do PCC) ou penalizando os autores de entradas replicadas mais de 500 vezes, e que já levaram a prisões de bloggers e, inevitavelmente, à diminuição da participação nas redes sociais. Mas isso, lá está, é para quem sabe do que fala.

Escândalo para sócrates: alguém faz serviço público na RTP

Mas que aborrecido. Uma pessoa é convidada para um espaço de tempo de antena e reescrita da História recente, na televisão pública, aceita e acaba por ser confrontada com um jornalista que tem as ideias avariadas e pensa que fazer jornalismo não é deixar um ex-político – e aspirante a novo poiso político – dizer os disparates que lhe apetece, mas sim confrontar o dito com o que disse anteriormente e contradiz o que diz agora. Esta gente que tem a mania de fazer o seu trabalho é uma nuisance. A sorte do jornalista travestido é que o ex e wannabe-futuro político por agora não manda nada, que se mandasse o atrevido jornalista já ia ver que bem que sabe um exílio profissional.

 

«Sócrates irrita-se: “Não vinha preparado para isto”

 

[...]Rodrigues dos Santos foi ao “arquivo”, como se referiu o jornalista às notícias que trouxe com declarações de Sócrates para o confrontar com afirmações suas antigas, em que, por exemplo, defendia a necessidade de “consenso” ou de fazer “tudo o que for necessário” para atingir metas orçamentais.

Sócrates foi ficando cada vez mais irritado e explicando sempre as suas afirmações com o contexto da época – de um “governo sem maioria” ou apontado “a diferença” da política do seu executivo com a do Governo atual de Passos Coelho. “Sempre estimulei o crescimento económico”, contrapôs à ideia “perigosa” da austeridade “que conduz ao descontrolo da dívida”. “Por que é que um Governo que se concentra apenas na austeridade tem estes resultados?”, atacou, descrevendo que a dívida e o défice continuaram a aumentar. “Os seus arquivos também deviam dizer isto”, apontou o ex-primeiro-ministro.

No ajuste de contas entre passado e presente, Sócrates afirmou que “esta austeridade cega mata-nos”, recordando as “apostas” da sua governanção nas energias renováveis ou no parque escolar, por exemplo.»

Talvez seja bom, daqui a 15 dias, que JRS vá acompanhado não só dos seus arquivos, mas também de publicações do INE. Sempre seria interessante que a criatura socrática fosse confrontada com os resultados da sua preocupação com o crescimento económico, que parece que o melhor que conseguiu foi um acrescimento abaixo dos 2% em 2007. E que desde 2000 que Portugal está, nos bons anos, estagnado; nos maus está em crise. Se bem que sócrates pode sempre dizer – evidenciando pela primeira vez na vida uma réstea de gosto – que no meio de tanto Kant também leu o Pride and Prejudice e socorrer-se da citação da Lizzie: ‘But in such cases as these, a good memory is unpardonable.’

Derrota esmagadora para o Partido Socialista nas eleições municipais francesas

Le Parti socialiste à la peine

Mécontentement de ses électeurs, divisions au premier tour : l’issue du scrutin s’annonce, au mieux, mitigée pour le PS. Symboles du reflux qui se dessine : à Florange, localité emblématique des promesses puis des difficultés de François Hollande, le maire PS sortant Philippe Tarillon est battu dès le premier tour par l’UMP Michel Decker. Ville de gauche depuis soixante ans, Niort a également basculé à droite avec la victoire du radical Jérôme Baloge. Dans plusieurs autres villes importantes, les maires socialistes sortants sont devancés par leurs rivaux UMP ou UDI – comme à Toulouse, Limoges, Quimper, Amiens, Saint-Etienne, Laval ou encore Angers. Les alliances de l’entre-deux-tours pourraient néanmoins permettre à la gauche de rattraper son retard.

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Leitura dominical

A ternura dos setenta, a opinião de Alberto Gonçalves no DN..

Há pouco tivemos o manifesto pela “reestruturação” da dívida. Agora temos o BE, o PCP e o relevantíssimo pingente chamado PEV a pedir que as eleições europeias constituam um voto de protesto contra a austeridade. Sendo partidos parlamentares e pouco admiradores da democracia, não sei o que os leva a esperar pela decisão popular, inevitavelmente incerta e ambígua: a extrema-esquerda podia muito bem cortar caminho e submeter o voto de protesto à Assembleia da República. Com alguma sorte, e a abstenção ou a distracção de meia dúzia de deputados da maioria, talvez se conseguisse proibir a austeridade mediante decreto.

Aliás, é difícil perceber porque é que a austeridade, e não só a austeridade, ainda não foi abolida. Uma nação tão virtuosa e legalista já devia ter interditado por lei a austeridade, a dívida, o défice, a crise, a sra. Merkel, o FMI, a gripe sazonal e a família Carreira. Em contrapartida, urge considerar obrigatório: a felicidade; o salário médio luxemburguês; o crédito externo sem juros nem prestações; a solidariedade europeia; o direito às trufas; o Mercedes; o spa no jardim de casa; o jardim de casa; a casa e a abundância em geral.

É verdade que a Constituição já não anda longe de semelhantes desígnios, mas carece de uma ou duas revisões para consagrá–los. Excepto a realidade, o que nos impede?

Jorge Coroado na CMTV sobre as equipas de Lisboa e os árbitros

Jorge Coroado, no programa “Liga Futre” da CM TV (via Reflexão Portista: A “fruta” de Lisboa):

“O Benfica, à semelhança daquilo que faziam a maioria, a generalidade dos clubes, ao receber as equipas de arbitragem, naquele tempo, cá em Lisboa, as equipas de Lisboa levavam as equipas de arbitragem para um estabelecimento nocturno muito conhecido. E uma equipa de arbitragem, chefiada por um árbitro francês muito conhecido, foi para esse estabelecimento e quando estava lá dentro o árbitro tinha uma senhora na mesa, a acompanhar a equipa de arbitragem…”

O Livre e a estratégia para afastar Seguro

O Livre pode mesmo ficar Preso. Por Vitor Cunha.

O que faria eu se me pedissem uma estratégia para afastar Seguro rapidamente do Partido Socialista? Sugeriria fragmentar o mais possível o voto da esquerda, esvaziando a vitória de Seguro, criando-lhe o embaraço de não conseguir obter uma maioria arrasadora numa eleição que é tradicionalmente de voto de protesto.

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França, 2014

Apesar de se tratar de França e de eleições (municipais) os apelos para que os fiéis optem pela abstenção roçam o fantástico.

Anâ-Muslim is a nonprofit organisation recognised by the French state. Its members share their vision of Islam on the organisation’s website, on its Facebook and Twitter pages, and onYouTube. A few days ago, Anâ-Muslim called on Muslims to boycott French municipal elections, which will take place on March 23 and 30. They explain this decision by using various religious arguments and by saying that for a Muslim person, “voting is an act of submission … while abstaining is an act of resistance”.On its website, the organisation explains that this campaign is aimed at Muslim people between 18 and 40 years old. They argue that refusing to participate in French politics is a way to “preserve their faith”: “Voting means recognising the power of men on earth and giving them absolutely sovereignty to create their own laws that have nothing to do with Islam.” The organisation’s goal, as described in their mission statement, is to “teach Islam to Muslims … because Muslims are the only ones who can control their destiny … and contribute to Islam’s resurgence so that humanity may be saved”.

O pior momento possível para não pagar a dívida

Muita gente parece ainda não ter percebido que os custos internos para Portugal de um default (ainda que parcial) da dívida aumentaram exponencialmente com o bailout. O melhor momento para considerar essa opção teria sido antes do pedido de ajuda externa, fosse em alternativa ao bailout ou como uma das condições subjacentes a esse mesmo bailout.

Luís Aguiar-Conraria sobre os erros dos manifestos: Erros Manifestos

Qualquer que seja o eufemismo escolhido – renegociação honrada, perdão de juros, perdão de dívida, alargamento das maturidades, períodos de carência de juros, etc. – manda a honestidade intelectual que se diga que uma reestruturação da dívida implica sempre perdas de capital para os detentores dos títulos de dívida. Quem suporta essas perdas? Há uns anos, ameaçar com o incumprimento da dívida seria, também, ameaçar bancos estrangeiros. Hoje, o que devemos à troika é cerca de 40% da nossa dívida e, dos restantes 60%, a maioria está em bancos portugueses. Nós somos os nossos próprios credores. Podemos ameaçar que somos nós os principais ameaçados.

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Tudo rapazes encantadores, amigos do seu amigo, ajudam as senhoras de idade a atravessar a rua e por aí adiante

«To celebrate the Persian New Year on Friday, Iran’s Supreme Leader Ali Khamenei decided it was an opportune time to again deny the existence of the Holocaust. Speaking in Mashhad, he declared that “the Holocaust is an event whose reality is uncertain and, if it happened, it’s uncertain how it happened.”»

«In what many Twitter users in Turkey called a “digital coup”, Telecom regulators enforced four court orders to restrict access to Twitter on Thursday night, just hours after the prime minister, Recep Tayyip Erdogan, vowed to “eradicate” the microblogging platform in an election speech.

The disruption followed previous government threats to clamp down on the social media and caused widespread outrage inside and outside Turkey.»

Porquê?

O meu artigo no Diário Económico sobre a Jardim Gonçalves e a prescrição.

Porquê?

Uma vez mais, uma prescrição atirou para debaixo do tapete, uma vileza que dificilmente vai ser esclarecida. Neste caso da prescrição das contra-ordenações do Banco de Portugal a Jardim Gonçalves, questiono-me da rapidez com que as acusações foram lançadas para a praça pública e o prestígio de um banco foi atirado para a sarjeta; da lentidão com que se lidam com os assuntos quando estes já não se encontram na ordem do dia, ou para piorar o cenário, os estragos já estão feitos.

Mais do que a multa que ficou por pagar é a gravidade do que ficamos sem saber. Por que motivo se foi tão célere, no decorrer de 2007 e 2008, na acusação das actividades bancárias de Jardim Gonçalves dentro do BCP, e agora estas prescrevem? O que é que interessava à época que já não é importante agora?

Magistrados e Banco de Portugal já trocam acusações sobre quem foi o responsável pela prescrição do processo. É mais lenha num fogo perigoso que queima a credibilidade do sistema judicial e alimenta a ideia de favorecimento de poderosos. Desconheço se houve ou não esse favorecimento no caso concreto, mas o certo é que, tendo havido, terá este existido no passado quando as queixas e acusações foram lançadas? Ou indo um pouco mais ao fundo da questão, será ainda legítimo que se pergunte: se houve agora favorecimento com a prescrição, o que se terá passado há sete, oito anos quando esta história começou?

Infelizmente, a resposta não virá dos tribunais, mas da história que será escrita mais tarde e que, esperemos, seja devidamente fundamentada. A história que investigue e que nos descreva, não só os episódios à volta do que se passou com a administração do BCP, mas também os referentes à forma como o estado e a Caixa Geral de Depósitos conseguiram entrar no maior banco privado português.

Dear Vladimir, I Speak Russian Too. Please Send Troops!

Volgda newspaper editor Roman Romanenko: "We all totally speak Russian here, and our rights are frequently violated."

Se a carta chegar a Putin, acredito que a lerá. Roman Romanenko também tem esperança.

“We’ve learned that you want to send troops to Crimea to defend the rights of the Russian-speaking population,” Romanenko typed. “In relation to that, we have a big request — to send troops into Vologda. We all totally speak Russian here, and our rights are frequently violated.” (…) “You’re planning to spend a lot of money to normalize life in Crimea,” he hinted gingerly. “I hate to ask, but is there any chance you could spend that money on normalizing life in Vologda?”

Adenda: Mudei de opinião. Na Crimeia, finalmente há justiça. Tem um nome e 33 anos.

Receita de molho tártaro segundo o chef Putin

We have asked the Crimean Tatars to vacate part of their land, which is required for social needs” .

Rustam Temirgaliyev, Primeiro Ministro da Crimeia.

Ao que tudo indica, as narrativas mudaram. Ontem, Vladimir Putin anunciou no Parlamento russo que  a decisão de anexar “representa todas as origens étnicas da Crimeia”, prometendo que na península “se falará russo, ucraniano e tártaro”. São os pensadores neo-conservadores da Europa, EUA e Japão. que delinearam este remake histórico de recolocação de tártaros por imperativos sociais. Acreditemos.

Há oito dias escrevia n’A BatalhaReferendo em molho tártaro.

 

A guerra surreal de Assad & co

Link permanente da imagem incorporada

Síria cria uma agência espacial.

Three years into its bloody, unending civil war, the Syrian government has deciced to approve the creation of a space agency “with the goal of using space technology for exploration and observing the earth.” The Syrian Space Agency, according to state-run news service SANA, will do work “of a scientific research nature.”

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no i. Salazar empobreceu o país para pagar os excedentes orçamentais que visavam financiar a economia; este regime empobrece-nos para pagar o endividamento que visou financiar a economia. Quando é que paramos?

Os filhos de Salazar

A biografia “Salazar”, de Filipe Ribeiro de Meneses, descreve a difícil situação financeira que Salazar encontrou no seu mandato nas finanças e a solução que propôs ao país. Para Salazar, estamos em 1928, o problema era de índole financeira, económica, social e política, ordem pela qual deveria ser resolvido.

Já com o orçamento equilibrado, Salazar entendia que o crescimento económico passava pelo aumento das exportações, a disponibilidade do crédito e o investimento em infra-estruturas vitais, como portos e estradas (p. 75). Tirando o défice, veja-se como a receita é em tudo idêntica à da actual classe política, que visa um acordo sobre os investimentos públicos para assegurar o crescimento económico, e do manifesto dos 70, que querem reestruturar a dívida pública por entenderem ser o Estado o motor da economia.

O Estado na base do país. Ou da nação, porque, tirando o nome, estamos onde estávamos em 1928. Para ter crédito, Salazar reformou a Caixa Geral de Depósitos (CGD) que se tornou numa instituição que financiava investimento público. CGD ou banco de fomento, a lógica não difere.

A única diferença é que, se para ter dinheiro Salazar empobreceu o país, a actual classe política faz o mesmo, endividando-o. O que une os dois regimes é a pobreza. Pobre, o país não se desenvolveu com Salazar, prejudicando as gerações futuras. Endividado, Portugal empobrece, deixando uma pesada factura aos nossos filhos. Os nossos, porque os de Salazar estão nos partidos desta democracia.

Livrem-nos deste liberalismo, que do socialismo livramo-nos nós

O meu pequeno contributo no campo da opinião política nacional, n’A Batalha.

Sabemos que caminhamos seguramente para uma desgraça ainda maior, quando o líder da oposição António José Seguro se refere ao actual governo como o “Governo mais ultra-liberal da História do país”.

 

O cemitério das alternativas

Que Portugal tem elites viciadas em despesa pública, já sabíamos. Agora descobrimos que também tem elites viciadas em manifestos. É compreensível porquê. Os manifestos são uma forma de fazer política com grandes atractividades – dão pouco trabalho a redigir, aparecem discutidos em todos os jornais, promovem a inclusão numa espécie de bando com uma causa e, mais importante que tudo, são inconsequentes. O vício não é de hoje. Manifestos, já os houve para todos os gostos. Uns por mais investimento público (leia-se mais endividamento), outros contra. Uns pelo crescimento económico, outros contra a austeridade alemã. E todos, apesar do maior ou menor impacto mediático, com o mesmo destino: o esquecimento.

O mais recente é o denominado “manifesto dos 70”, em defesa da reestruturação da dívida pública. Escreve-se nos jornais que este manifesto é diferente. Que não é como os outros. Ou seja, que este é mesmo a sério. Mas será que é? Nem por isso.

Há que ir directo ao assunto: a reestruturação de parte da dívida faz algum sentido, tanto para mais que, nestes últimos dois anos, o próprio Governo já conseguiu negociar uma reestruturação (aumentou a maturidade dos empréstimos, prolongou empréstimos em 7 anos e reduziu a taxa de juro). Mas, também por isso, a reestruturação da dívida não é, só por si, um projecto político. Não implica uma mudança de rumo. E não é uma alternativa à austeridade. Sugeri-lo, tal como acontece no manifesto, não é sério.

Os subscritores sabem-no. Se o Governo pedisse agora uma reestruturação da dívida, os juros subiriam em flecha, forçando um novo resgate e mais austeridade. E mesmo que as entidades internacionais aceitassem essa reestruturação, teríamos de lhes dar algo em troca: mais medidas de austeridade. E, por isso, em termos políticos, o objecto do manifesto limita-se a promover a fantasia de que a esquerda (com os ressentidos da direita) formulou uma alternativa política à austeridade. É essa a ilusão que surge claramente no texto. Primeiro, afirmando que “sem reestruturação da dívida, o Estado continuará enredado e tolhido na vã tentativa de resolver os problemas do défice orçamental e da dívida pública pela única via da austeridade”. Segundo, insistindo que “há alternativa”.

Só que a esquerda está enganada: o que propõe não é alternativa. E não é a primeira vez que muitos destes subscritores nos prometem alternativas que não o são. Já houve manifestos, congressos e encontros. Tentou-se de tudo. Era a aposta no investimento público, como ainda fez Sócrates (aumentando a dívida). Era parar com a austeridade e apostar no crescimento (garantindo que eram incompatíveis). Era a introdução dos eurobonds. E era esperar que Hollande virasse o rumo da política europeia, com a sua “austeridade inteligente”. Mas, sem surpresa, todos esses caminhos falharam. E face aos mais recentes dados do INE, também caiu por terra a tese socialista, de que foram os chumbos no Tribunal Constitucional a promover o crescimento da economia. O que resta?

Resta a reestruturação – uma proposta originalmente da esquerda radical, que defende uma reestruturação pela força do “não pagamos”, agora limada desses excessos anti-europeus. Compreende-se o desespero. Mas não será a insistência no erro que produzirá um resultado certo. É que o problema desta alternativa é o mesmo das anteriores. E igual será também o seu destino.

[publicado hoje no jornal i]

Leitura dominical

O manifesto atraso de vida, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

“Nova série de rockets lançada de Gaza atinge zonas portuárias”, lia–se num site informativo. Engraçado. Quando Telavive responde às investidas dos seus amáveis vizinhos, algumas manchetes não cessam de notar que Israel “atacou” – com requintes de malvadez, sugere-se nas entrelinhas – as crianças e os velhinhos árabes mais à mão. Quando os ataques de facto são perpetrados pelos simpáticos senhores do Hamas, certos media preferem insinuar que os mísseis (ou rockets, que soa menos letal) partem de Gaza por vontade própria, quase como se alminha nenhuma os tivesse enviado. Para cúmulo, só afectam zonas portuárias e terrenos baldios, já que no fundo não querem magoar ninguém.

Esta curiosa demonstração de neutralidade jornalística talvez explique a omissão, em boa parte dos noticiários, das declarações recentes do chefe da Força Aérea da Guarda Revolucionária iraniana, que se afirmou pronto para “destruir Israel” à primeira ordem. Provavelmente, os jornalistas estão a estudar a melhor maneira de apresentar o sr. Hossein Salami enquanto um “moderado”. Ou até, quem sabe, um “reformista”. Não é fácil, mas, na sua longa batalha contra o que designa por “estado judaico”, o “quarto poder” é capaz de tudo – excepto de disfarçar um ódio tão velho quanto o Ocidente.

Quando Nova Iorque se transforma em Gaza

pallywood

E um ataque terrorista a Israel é ilustrado com imagens do trágico resultado de uma fuga de gás na “cidade que nunca dorme”.

Pelas histórias de encantar que nunca desiludem, obrigado, Pallywood.

Ando viciada no The Daily Beast

Leio The Daily Beast desde que a Tina Brown criou a coisa e até suportei estoicamente durante algum tempo o enamoramento embevecido do site por Obama. Mas às tantas o meu bom senso e o meu bom gosto lá perderam a paciência com tanto apaixonado suspiro digital pelo presidente. (O texto mais imbecil que li sobre Obama foi escrito por Tina Brown para The Daily Beast, onde a editora garantia que Obama seria um excelente presidente porque – e preparem-se para uma razão groundbreaking – usava blackberry.) E a leitura tornou-se apenas ocasional e nem a junção com a Newsweek espicaçou a curiosidade. Nos últimos meses, no entanto, ressuscitaram os sinais de vida inteligente no site e tornou-se leitura diária obrigatória. Gosto de tudo, desde os textos sobre os hot topics de cada momento (os mais interessantes textos sobre as aventuras e desventuras recentes da Ucrânia e da Rússia foram lá lidos) até aos pedaços de curiosidades históricas – como o almirante americano que ajudou a Rússia a conquistar a Crimeia no século XVIII -, de curiosidades atuais – como o apreço dos americanos por bibliotecas, gosto inteiramente partilhado por mim, que adoro passar tempo rodeada de livros – até aos textos sobre livros – e aqui fica um excerto de uma entrevista a Anchee Min, autora muito minha conhecida, a propósito do seu último livro de memórias, The Cooked Seed. Onde se mostra que, no caso da China como noutros, para perceber o presente geralmente faz falta conhecer o passado.

«You worked so very hard to get there. You sent the manuscript out to 12 literary agents. That’s tenacious. Is it strange when you look at China today and it’s become this flourishing, capitalistic society? It’s so much different from your childhood.

 

The words that come to mind are “I’m not surprised.” Not surprised. Because the people who are managing China are people like me. You see, during my time, half of the country’s people were sent to the Cultural Revolution’s labor camps or the countryside. So we knew what did not work. Our whole generation was a disillusioned generation, therefore politically mature and very practical. So look at the streets of Shanghai during three different decades: the first decade, there was a lot of [praise of] Chairman Mao and carrying on the Cultural Revolution to the end. And the second decade was Deng Xiaoping’s “White cat, black cat, whichever catches mice is the great cat” capitalism. And then the third was, “Let’s build 18 million toilets in Shanghai, and borrowing to take a loan is not bad.” So I think this really reflects the Chinese middle-class mindset, which I think is the strength of my writing—I think I can easily penetrate that way of thinking.

What’s going on China, I have no problem comprehending, understanding. I see in my daughter, and she is so ill-prepared throughout the American education system, she was not prepared with any knowledge of China. As a country, as Americans, I feel we can no longer afford to ignore China. And I think that I’ve made it kind of my mission, to help Americans understand where China is going by showing where China is coming from.»