O euro: do dogma à tragédia

O meu artigo de hoje no Observador: A Grécia e o erro de Merkel

O euro não pode ser visto como um dogma de fé europeísta nem como uma varinha mágica para impor boas práticas governativas a povos indisciplinados. Sob pena de acabar como uma tragédia.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Ler+ é possível e promove a saúde e a economia

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Devemos agradecer ao autor de Tortura em Democracia, actualmente a residir em Évora.

Várias Câmaras Municipais financiaram o livro de José Sócrates que esteve, pelo menos, um mês em primeiro lugar em todas as livrarias. O Sexta às 9 descobriu que, em Lisboa, foram emitidas faturas em nome de autarquias do norte do país que compraram este livro às dezenas, várias vezes.

Mal sob o sol

Há uns anos ouvi um reputado especialista em sondagens dizer na televisão que normalmente nos meses de maio e junho os partidos de direita subiam e os partidos de esquerda desciam (ou atenuavam a queda e atenuavam a subida). A causa, segundo o senhor, era uma reação do centro moderado às celebrações extremadas e sectárias de alguma esquerda do 25 de abril.

Se calhar este ano sucedeu um fenómeno parcecido com o dia da mulher – que comprovei eu causa ataques de nervos nos mais sensíveis sistemas neurológicos masculinos: os senhores detentores da verdade, da sensatez e da virtude necessitaram de, depois da festa do mulherio inconsciente, vir repor a ordem natural das coisas. Que nós ainda nos habituávamos à atenção dada às nossas reclamações, e ainda corríamos o risco de achar que o reclamávamos servia para alguma coisa; de volta para a cozinha e para a limpeza do pó e, nos momentos intelectuais, para a telenovela, sff. E, por isso, fomos brindadas no início da semana com a informação de João César das Neves, num texto que certamente buscou inspiração na correspondência que provavelmente troca com algum ayatollah ou, pelo menos, com o presidente Erdogan, que a emancipação das mulheres nos masculiniza e que a liberdade sexual é a causa de todos os males do mundo. (A liberdade sexual das mulheres, bem entendido, que a dos homens sempre existiu sem causar grandes transtornos às cabecinhas como as de César das Neves).

O final da semana reservou-nos um treat ainda melhor, na forma da crónica semanal do reincidente José António Saraiva no Sol. Desta vez o diretor daquilo que eu até hoje pensava ser um jornal que almejava alguma respeitabilidade (ainda que com frequência tivéssemos que caridosamente afirmar interiormente que as crónicas do inventor do saco do Expresso eram apenas seus os substitutos possíveis das sessões de psicoterapia – fruto, quiçá, de a sua mãe nem sequer se ter conseguido apaixonar pelos filhos) revela-se um leitor atento da imprensa cor de rosa e dedica-se alegremente a contar-nos a vida sentimental de uma senhora (ou o que a imprensa cor de rosa diz ser a sua vida sentimental, o que qualquer pessoa pensante sabe não ser necessariamente correspondente à realidade).

E tal fascínio a vida sentimental da senhora causa no arquiteto que ele persistiu na sua descrição pormenorizada (ou etc. – ver o parágrafo acima) apesar da canseira que tal lhe provocou (ufa – desabafa às tantas). O que mais se nota de facto é este fascínio, acompanhado do prazer que qualquer criatura da estirpe e da fase evolucional do arquiteto tem em expor – em denunciar, no fundo – uma mulher que pensa que pode andar por aí a evidenciar outra coisa que não uma reiterada castidade. Que nos sirva de lição a todas: andamos por aí a apaixonamo-nos (e a fazer sabe-se lá mais o quê) e ainda acabamos a ser objeto de crónica do eminente arquiteto. Ou – se os homens seguirem os bons exemplos deste tão luminoso estandarte da moral e do curso saudável do amor – de alguma página de um pasquim local a denunciar as aleivosas.

Bom, que o inventor do saco do Expresso (e, estou certa, de todas as coisas seminais do jornalismo português) passe grande parte da sua crónica a citar a imprensa cor de rosa não espanta – afinal é assim mantida a qualidade normal dos seus escritos. Também nem vale a pena dizer que um texto daqueles é uma canalhice, de quem não tem educação nem maneiras. Porque a pergunta que apareceu nos meus neurónios femininos, ao ler a coisa, foi: terá a senhora alguma vez recusado, de forma desdenhosa e humilhante, os avanços de José António Saraiva?

Compreender o putinismo XXI

Está, Vladimir Putin?

Está, Vladimir Putin?

The Land of Magical Thinking: Inside Putin’s Russia , por P. J. O’Rourke.

(…)Nothing Is True and Everything Is Possible. And sit back and watch the Putin regime rot.

Exigência

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Exigência

Em 1918, Thomas Mann publicou as “Considerações de um Apolítico”. Trata-se de uma apologia da Alemanha de Guilherme II, contra a França, o Reino Unido e os EUA. Contra o Ocidente, a democracia, o liberalismo económico e político. Mann definiu-se nesta obra como apolítico porque não apreciava a política. Não só a política partidária, mas tudo o que esta significava de discussão, de debate, de liberdade, porque em detrimento da ordem, da incerteza; em prejuízo da estabilidade e da previsibilidade.

Quando o escreveu, Thomas Mann era um homem literariamente instruído e já tinha publicado ‘Buddenbrooks’ e ‘Morte em Veneza’. No entanto, quanto à política e no que dizia respeito à economia não se tinha cultivado. Não sabia, nem queria saber. Foi por isso que se definiu como apolítico: alguém sem ideias políticas. E foi também por essa razão que ao longo da sua vida contradisse o que defendeu em 1918. Thomas Mann não era mal-intencionado. Pura e simplesmente, não sabia. Quis-se alhear da realidade até perceber, para o que precisou de uma guerra mundial, o perigo de ser apolítico. O perigo de entregar o poder do conhecimento a outros.

Praticamente 100 anos passaram das considerações apolíticas de Mann, mas os riscos, embora não tão graves, têm a mesma génese. Da mesma forma que Mann beneficiou da paz que o liberalismo permitiu à Europa no século XIX, também a maioria de nós adormeceu pensando que a história tinha terminado. No entanto, durante esse mesmo período, a história desenrolou-se e caiu-nos em cima.

E aquilo com que nos deparamos agora é que enquanto a maioria, à semelhança de Mann, esteve adormecida e imersa nas suas vidas, os dirigentes políticos, beneficiando desse torpor e indiferença, seguiram, tal como há um século, políticas que à primeira vista eram inofensivas, mas que quando continuadas durante anos puseram em causa o equilíbrio alcançado.

Chegámos assim a um despertar do eleitorado que foi apanhado de surpresa. Um eleitorado que, por se ter desinteressado das questões políticas durante anos, vai cometer erros. Como Mann. Mas que também vai evoluir; vai-se instruir e irá exigir políticos com um discurso que vá além do mero amealhar de receitas para serem distribuídas de acordo com critérios tantas vezes subjectivos e que encaram o Estado como um conjunto de lugares a serem ocupados.

É frequente referir-se que o eleitorado já não se revê nos partidos. Ora, e contrariamente ao que se diz, tal não sucede por falta de interesse, mas precisamente porque os cidadãos agora querem saber. Exigem. E sejamos muito directos neste ponto: o eleitorado está à procura de novas soluções; de novos caminhos que estão a ser esboçados fora da classe política. Esteja, pois, esta atenta para se actualizar e ir ao encontro de um eleitorado que já não é mais apolítico, mas começou a exigir.

Revista de Imprensa Insurgente (2)

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Fonte: Sol

Comentário: Anti-sistema!? Eanes foi presidente 10 anos e é um dos “fundadores” do regime. Sampaio da Nóvoa foi reitor de uma das principais universidades. Carvalho da Silva liderou a CGTP, um dos principais pilares da organização corporativa do regime durante anos. Marinho Pinto foi bastonário da Ordem dos Advogados, outro pilar corporativo. Estão a gozar, só podem.

Y(pipe)dreams

A Ydreams, empresa portuguesa propagandeada como exemplo de sucesso e paradigma de inovação, solicitou a proteção de credores numa última tentativa de evitar a insolvência. Mais ou menos na brincadeira, costumo dizer que o primeiro passo para um empresa se dar mal é aparecer no Expresso e na SIC Notícias como exemplo de sucesso. A Ydreams é, neste caso, realmente paradigmática. O seu presidente, António Câmara, chegou a escrever regularmente no Expresso sobre inovação e empreendedorismo.

Apesar da realidade dos factos, o Expresso ainda assim consegue dar a péssima notícia (para os investidores da empresa) com algum spin genial. Desde o “portfolio valioso” de propriedade intelectual aos inúmeros prémios e delegações espalhadas pelo mundo. Seria giro fazer uma auditoria séria ao dito “portfolio valioso” para perceber quantas das coisas anunciadas pela Ydreams são mesmo patentes e activos proprietários funcionais, em vez de marcas catchy, recauchutamento de ideias vagas de gurus sobre o futuro (sem qualquer implementação real) ou utilização de tecnologias alheias.

A Ydreams era um pet project apoiado por Ricardo Salgado, deslumbrado com o paleio de António Câmara, cuja visão aspiracional deve ser presumivelmente contagiante, mas a sua capacidade de execução, no melhor dos casos, insuficiente. Só assim se explica que uma empresa cujo passivo era há 4 anos o dobro das receitas, ao mesmo tempo que os prejuízos eram mais de um terço das receitas, tenha conseguido persistir até agora no consumo do capital dos seus investidores.

O triste nisto nem é que a imagem do empreendedorismo, tão importante para um país como o nosso, que é averso à iniciativa empresarial, saia beliscada pelo falhanço de um dos seus (alegados) porta-estandartes. O triste é que este exemplo mostra cruamente a falta de qualidade (ou falta, mesmo) da análise de viabilidade de investimentos por parte de alguns dos intervenientes no sector do capital de risco.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

Os servos

O caso de Passos Coelho com a Segurança Social e os seus atrasos na entrega das declarações ao fisco deve fazer-nos pensar. Poderá alguém que alguma vez tenha tido dívidas ao fisco e à Segurança Social ser primeiro-ministro? Ou mesmo ser titular de um cargo de cariz político?

A pergunta é pertinente porque as vastas funções que foram sendo atribuídas ao Estado, a elevada dívida que este contraiu para fazer frente às despesas resultantes dessas mesmas funções, torna indispensável o pagamento pontual dos impostos, das taxas e das contribuições à Segurança Social. Mais, e voltando à pergunta: como é que alguém que se atrasa com o fisco e a Segurança Social pode aumentar impostos e exigir o seu pagamento a tempo e horas?

Podemos ficar-nos por esta pergunta, mas também podemos ir um pouco além: será esta a sociedade que queremos? Uma sociedade centrada no Estado, em que tudo gira à sua volta e o chefe de governo mais não é que o líder máximo de algo mais parecido com uma grande organização, cujo funcionamento não pode ter falhas?

Não pretendo dar razão a Passos Coelho, até porque centenas de milhares de pessoas se esforçam por não ter dívidas nem se justificam com o desconhecimento da lei. No entanto, não deixamos de viver numa realidade em que antes de mais nada devemos ao Estado. E, como todos lhe devemos, a todos exigimos o pagamento do que se deve. Seja um cidadão comum ou um primeiro-ministro. Não é de mais concluir que estamos presos nesta lógica do servidor-pagador.

Das presumidas que querem ganhar tanto como os homens

O meu texto de ontem no Observador, sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

‘Não queria passar a vida (ou as semanas) a reincidir em temas femininos, mas afinal foi o dia internacional da mulher e, na verdade, a parte feminina da população é fonte inesgotável de temas interessantes. (A masculina também.) É certo que ocorreu aquele que ficará no top 5 dos eventos mais surreais do século XXI – refiro-me, claro, a José Sócrates acusando de ‘miséria moral’ alguém que não está condenado por homicídio ou violação (facto que, pensando bem, pode ser seminal para desenvolvimentos surpreendentes no conhecimento das personalidades nascisistas e egomaníacas) – mas decidi-me a escrever sobre a desigualdade salarial entre homens e mulheres.

Algo inútil, claro, porque não existe. Assim várias pessoas me garantiram no twitter no dia da mulher. Ou melhor: existe mas é inteiramente explicada por fatores económicos cristalinos. A história que me foi contada reza assim: as mulheres ganham menos porque trabalham menos horas, perdem tempo de carreira em gravidezes e licenças de maternidade, depois dos filhos nascerem as mulheres são menos comprometidas com a profissão.

Está explicado, então, não é? Não, não está. O argumento das horas trabalhadas não explica a diferença salarial que permanece considerando o valor pago por hora. E tendo em conta o declínio da taxa de natalidade nos países desenvolvidos e a quantidade de mulheres que escolhe não ter filhos, não são necessárias histerias feministas para concluir que o período de interrupção na carreira das mães não será muito diferente dos períodos de interrupção da carreira dos homens com um acidente de trabalho (e os homens ocupam profissões mais propensas a acidentes de trabalho) ou um ataque cardíaco (maleita que afeta maioritariamente quem tem o cromossoma y).’

O resto – e o gender wage gap excluindo todas as desculpas tradicionais – está aqui.

Nova oportunidade para os críticos de cartoons XI

2015-03-11

 

Fonte: Jesus and Mo.

A new low: Charlie Hebdo’s murdered staff receive an ‘Islamophobe of the Year’ award

 

Ser grego é ser syris@

Da auto-palhaçada patrocionada pela carteira dos contribuíntes.

Less than 50 of Parliament’s 300 deputies refused the privilege of a complimentary car that they are entitled to as elected MPs but which Prime Minister Alexis Tsipras had exhorted them to reject during his presentation of the government’s policy program.

Via Jorge Costa.

Compreender o putinismo XX

Foto: Vladimir Filonov/MT

Foto: Vladimir Filonov/MT

Na Rússia de Vladimir Putin, um museu sobre os Gulag irá reabrir com a particularidade de ignorar os crimes do ditador Pai Josef Vissarionovitch Stalin.

Gulag Museum to Reopen But Proof of Stalin Crimes Removed, Director Says

Perm-36 museum director Viktor Shmyrov said the “memorial won’t disappear, but the museum has been taken over by other people appointed by the new authorities, who have totally changed the content,” BBC Russian Service reported Wednesday.

“Now it’s a museum about the camp system, but not about political prisoners. They don’t talk about the repressions or about Stalin,” he was quoted as saying.

Arseny Roginsky, president of Russia’s leading human rights group Memorial — which founded the museum two decades ago — said the new management included former prison camp guards, AFP reported.

“The museum’s format is being completely changed,” Roginsky was quoted as saying. “It’s tragic that a museum to Soviet terror will be transformed into a museum to the penal system.”

The takeover of Perm-36, which is located in the Perm region, comes as an increasing number of Russians express favorable views of Stalin and amid the government’s glorification of its Soviet past.

NYT “crop” de referência

bush

George W Bush cropped out of New York Times front cover image of Selma march

US newspaper accused of “liberal bias” after using image of Selma anniversary march on front page showing Barack and Michelle Obama, but with George and Laura Bush missing

Os casos fiscais de Pedro Passos Coelho e António Costa

O resumo dos casos recentes envolvendo Pedro Passos Coelho e António Costa oportunamente elaborado pelo Carlos Guimarães Pinto já contabiliza mais de 1000 partilhas no Facebook.

Leitura complementar: Da ditadura fiscal à miséria moral.

Leitura dominical

Um perfeito político, a opinião de Alberto Honçalves no DN.

Isto é tudo muito simples. A ex-deputada do Bloco de Esquerda (BE) Joana Amaral Dias saiu do movimento Juntos Podemos (JP) para fundar o grupo Agir (A). Recorde-se que o JP era uma “plataforma de cidadãos” fechada a partidos que num ápice se transformou em partido, sobretudo por intervenção do Movimento Alternativa Socialista (MAS), que dantes dava pelo nome de Ruptura/FER (R/FER) e integrava dissidentes do BE que ainda andavam pelo BE. Para início de conversa, se não se desintegrar antes, o A vai promover daqui a 15 dias uma conferência internacional em Lisboa, a qual curiosamente contará com a presença de membros do Tempo de Avançar (TA), outra candidatura cidadã que integra cidadãos dos partidos e movimentos antipáticos Livre (PL), MIC–Porto (MIC-P), Renovação Comunista (RC) e Fórum Manifesto (FM).

Não tem nada que saber. O PL é, sucintamente, aquele antigo eurodeputado do BE que se zangou com Francisco Louçã e, por honradez, abandonou o partido mas não o emprego. O MIC-P deriva regional e obviamente do Movimento Intervenção e Cidadania (MIC), que por sua vez resulta da candidatura presidencial de Manuel Alegre, aquela que em tempos se demarcou da formação da organização Nova Esquerda (NE), que ninguém sabe onde pára. Quanto à RC, trata-se dos dissidentes do PCP que apoiaram o PS nas “europeias”. E o FM surgiu da corrente Política XXI (PXXI) que esteve na formação do BE, pelo que não deve ser confundido com o Movimento 3D (M3D), que também saiu do BE para se reunir com todas as siglas acima e falir de seguida. Pelo meio, ou por outro lado qualquer, também há o Movimento Esquerda Alternativa (MEA – antes Rupturavizela) e o MAS (antes R/FER), que podem ser ou não a mesma quadrilha. O importante é que as coisas sejam assim claras. E que a esquerda esteja unida.

Então um post no dia da mulher

saltos luis xiv

Como prometido ontem no facebook, cá vai a resposta feminista ao post do Mário com o Nelson Évora.

Começo por fazer a declaração de interesses. Também não sou adepta da igualdade de género naquela parte em que anula as diferenças entre homens e mulheres. Acho o mundo muito mais divertido com a existência destas diferenças. Precisamente por haver diferenças é tão importante a participação das mulheres em todas as esferas (se fôssemos indistintos, tanto faria se fôssemos respresentados por homens ou por mulheres). E, de resto, uma das minhas lutas (se isto não soar excessivamente commie) feministas é precisamente recusar tanto a uniformização dos géneros como não aceitar que, mantendo-se a diferença, a maneira masculina de fazer as coisas seja o padrão e a maneira feminina um desvio que as mulheres devem corrigir para serem aceites. E, não nos enganenos, no nosso mundo ocidental livre e women-friendly esta forma de obrigar ar mulheres a aceitarem o padrão masculino (onde não estão tão à-vontade ficando, assim, em desvantagem) é o último (e mais insidioso) reduto do machismo.

Mas já não me convencem que as diferenças entre os sexos sejam motivo – e quantas vezes são usadas para isso – para limitar ocupações e tarefas de cada um dos sexos. As mulheres não são naturalmente adequadas à realização de tarefas domésticas, nem ao cuidado dos filhos e dos doentes da famíla, nem às atividades profissionais de cuidadoras. Eu, que me tenho por muito feminina, não acho qualquer piada a limpezas domésticas ou a tratamento de roupas ou, sequer, a cozinhar. Também não vejo que a minha natureza ditasse que a mudança das fraldas dos meus filhos, ou os banhos ou os períodos sem dormir à noite me fossem destinados em exclusivo (ou em maioria). Eeeeeeeetc.

E – e chegamos ao post do Mário – coisas como saltos altos também não são naturais ao sexo feminino. (Digo eu que uso quase sempre saltos altos; e gosto.) Nem exclusivas. Ao longo dos tempos muitos homens usaram saltos altos. Luís XIV era conhecido por usar saltos altos. Nelson Évora está apenas a fazer algo que muitos outros antes dele fizeram. E quanto ao simbolismo da fotografia, é um ótimo exercício de empatia. Aquela ideia de usar os sapatos do outro para o compreendermos. E sim, é um exercício que faz falta no que toca aos assuntos femininos (que, lá está, são menorizados e apenas para os fóruns femininos – porque os assuntos importantes e que merecem discussão geral, de homens e mulheres, são os que interessam aos homens). Pelo que Nelson Évora não está nada ridículo na capa da Máxima; está admirável. (Tanto que uma coisa que eu vou já ensinando aos meus dois filhos é que as cabeças e os corações femininos têm um soft spot para homens empáticos; para que assim desenvolvam a capacidade e a aproveitem.)

saltos homens

(Já agora quanto a este post do João Cortez, também acho um enorme disparate estas disposições legais. Mas acharia muito bem que fosse obrigatória a publicidade da percentagem de mulheres nos conselhos de administração e nos corpos de gestão das grandes empresas, por exemplo. Porque é uma informação relevante e nós somos meninas para, sabendo isso, boicotar os bens e serviços vendidos por empresas com exiguidade de mulheres no topo.)

P.S. Este post é conversa europeia (também poderia ser norte-americana). Que não nos faça esquecer os tantos sítios onde as mulheres nem veem respeitados os seus direitos humanos, tanto nas leis como nos hábitos culturais. E como tantos aceitam que este desrespeito pelos direitos humanos das mulheres seja importado para a Europa em nome da tolerância para com os imigrantes.

Ditadura fiscal e miséria moral

O meu artigo de hoje no Observador: Da ditadura fiscal à miséria moral.

(…) a Autoridade Tributária (uma designação que em si mesma é já todo um programa…) que impõe prazos e obrigações declaratórias aos cidadãos é a mesma entidade que frequentemente não cumpre prazos e falha nas notificações. Acresce que, por via do alegado “combate à evasão” (o tal que supostamente propiciaria baixas de impostos que ainda ninguém viu), o ónus da prova está hoje cada vez mais invertido, de tal forma que em muitos casos, na prática, é já o cidadão que tem de provar a sua inocência face à máquina fiscal.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Leitura recomendada

Tradições do império, por Vasco Pulido Valente.

Boris Nemtsov acabou com quatro tiros nas costas, porque tinha sido vice primeiro-ministro e chefe de partido; porque era conhecido e um activista; e porque naturalmente se opunha à louca e maléfica aventura de Putin. E é curioso que o próprio Putin, como Estaline, declare agora que o assassinato de Nemtsov foi um crime político, porque isso lhe permite daqui em diante descobrir conspiração atrás de conspiração e liquidar mansamente quem se atrever a contrariar os seus desígnios, à capa de um pretexto embaraçoso para o Ocidente. Alexandre Navalny, apesar de preso, declarou que Putin dera a ordem para matar Nemtsov. A lógica das coisas sugere que sim. E, por mim, acredito que a continuação da história provará que sim. Nemtsov é o Kirov do nosso tempo.

Método socrático: Conhece-te a ti mesmo

think-before-you-speakInterpretar a referência de Passos a não ter enriquecido no exercício de um cargo público como uma crítica a Sócrates diz mais sobre o juízo que o intérprete faz de Sócrates do que sobre o juízo que Passos fará do mesmo.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O observador

Outro dia ouvi alguém dizer de outrem que de andar tão direito mais parecia um emproado. Achei piada ao comentário ouvido de passagem mas que me reteve a atenção. Na verdade, vivemos num mundo em que a imagem conta e a primeira impressão, dizem-nos, premeia-nos ou castiga-nos para sempre.

O engraçado é que o dito emproado deve ter-se esforçado. Talvez o seu esforço tenha valido a pena com outras pessoas que não aquela, para outros que viram nele confiança e não vaidade. Mas o que interessa aqui é que a imagem é fruto de múltiplos pequenos sinais, por vezes não mais que meras impressões, que se destacam logo de imediato ou ficam no nosso inconsciente e só se revelam mais tarde. É algo que não  controlamos porque depende, por vezes, mais da personalidade dos outros, das suas experiências, sucessos e frustrações que de qualquer outra coisa.

Temos os emproados; os de nariz empinado; os que nos olham nos olhos como para provar que não têm medo e até os que baixam o olhar; os que falam pelos cotovelos e os que se calam; os gabarolas e os falso modestos; os que só aceitam ser fotografados de um lado; os que forçam convites e os que se fazem caros, mas aceitam logo.

Com o desenrolar do tempo vamos aprendendo coisas destas. Se formos bons observadores, para o que só precisamos de estar atentos, há pequenos sinais, gestos, olhares, palavras, respostas, perguntas, que nos dizem mais sobre alguém que mil imagens. Não há que enganar, nem modo de sermos enganados.

Atormentar clientes como método de marketing

O meu texto de hoje no Observador.

‘Há poucos dias passava num corredor de um centro comercial em Lisboa e recebi uma proposta indecente. Um senhor, jovem, que trabalhava num quiosque de centro comercial, perguntou-me ‘posso hidratar-lhe as mãos?’ Este peculiar pedido junta-se à variante ‘posso ver as suas mãos?’ que veio do mesmo quiosque em passagens anteriores.

Esta é uma abordagem aos clientes que sempre me pareceu original. Desde logo porque, no meu caso, a única resposta que têm é um olhar gélido aos desconhecidos que, de súbito, querem escrutinar as minhas mãos. E o resultado tem sido garantirem que eu – consumidora frequente de vernizes, removedores de verniz e hidratantes para as mãos – fuja daquele local que vende produtos que eu compro com tanto afinco noutros lados. Porque para mim é só falta de educação e uma intromissão na minha esfera privada pedirem-me assim, sem mais, que eu lhes mostre uma parte de mim. Algo tão despropositado como ‘posso ver os seus poros?’, ‘posso saber a cor do seu soutien?’ ou ‘tem cócegas no pescoço?’.’

O resto está aqui.

Franco Atirador

Fui gentilmente convidado pelo Nuno Ramos de Almeida para participar no programa de estreia do Franco Atirador, uma iniciativa do Nuno e da Joana Amaral Dias.

Votos de bom sucesso neste desafio, é o que lhes desejo. Já politicamente falando, o Nuno conhece o que penso das suas ideias, conforme se depreende neste vídeo.

Incompreensão

Jorge Sampaio recebeu um doutoramento honoris causa na Universidade do Porto. Aproveitou a ocasião para demonstrar, mais uma vez, a sua invulgar capacidade para incompreender o mundo à sua volta. Disse Sampaio: «A questão está em saber como é que nós saímos deste colete-de-forças e como é que conseguimos crescer economicamente, socialmente mantermos a Europa com o sentido que ela sempre teve desde a sua fundação. (…) [A] União Europeia assiste hoje a inadmissíveis anátemas morais decretados por alguns Estados-membros e a uma triunfante cultura de ortodoxia financeira que tem conduzido a situações sociais insustentáveis, a uma preocupante deflação e à mácula desencorajadora projetada pelos seus milhões de desempregados. (…) [Estamos] longe do tempo em que se conciliava eficácia económica com coesão social e se declinava no plano das decisões, de vários modos, a palavra solidariedade. (…) [A Europa] precisa de encontrar uma linguagem que dê satisfação aos cidadãos em geral porque é disso que se trata.»

Fica sempre bem dizer estas coisas. Uma pessoa parece sempre mais séria e profunda quando apela à solidariedade. Mesmo quando o que diz está pejado de equívocos:

  • Em primeiro lugar, as medidas com que a Europa se depara, particularmente países como Portugal, não são uma questão de “eficácia económica” mas antes de evitar o descalabro. Para alguém que usou a famosa expressão “há vida para além do défice” e precipitou a entrada em funções do coveiro do país, recomenda-se mais recato.
  • Se estamos num “colete-de-forças”, não será por termos entrado nele desavisados. Dificilmente sairemos seguindo o caminho que nos levou a entrar nele, por mais apelos à solidariedade que se façam e mais boa vontade que demonstremos.
  • Afirmar que estados soberanos defenderem os seus interesses é o decretar de “inadmissíveis anátemas morais” é, em si mesmo, um “inadmissível anátema moral”. Isto da moral dá para os dois lados.
  • Não é encontrando “uma linguagem” que se resolvem os problemas. Quanto mais não seja por ser notório que o actual secretário-geral do PS usa várias, diferentes consoante a plateia.

Ai Lello, recordar é viver

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José Lello não declarou conta de 658 mil euros Deputado do PS esteve 14 anos sem declarar este valor ao Tribunal Constitucional

Leitura complementar: Pode um homem que tenha falhado o pagamento de impostos no passado ser primeiro-ministro de Portugal?

Portugal e as heranças do Estado Novo

Mais uma reflexão interessante e desafiante de Gabriel Mithá Ribeiro: A polícia do espírito.

Anos e anos de trabalho de campo em Moçambique demonstraram que, face a assuntos sensíveis (como a herança colonial portuguesa), é muito mais ambivalente e complexo e, por isso, bem mais rico o pensamento dos humildes do que de certas elites escolarizadas. É nas últimas que é mais fácil antecipar, ao fim de poucos minutos de conversa, quem são os bons e os maus do planeta e da história, apesar do invólucro da fala polida. Quer dizer que de um lado está um amontoado de conhecimentos formais e discursos fluentes e, do outro lado, está a inteligência de senso comum na relação com o meio envolvente e com o sentido do tempo histórico.

Em Portugal, a relação com as heranças do tempo do Estado Novo – por ser uma época com carga traumática, mas também por estar longe de se esgotar nela, bem como por ser o referente fundador do tempo presente – instituiu os mais significativos recalcamentos que atormentam as mentes. Aí reside a fonte primordial das frustrações e falhanços da democracia portuguesa, uma vez que, por pressão dos que se sentem donos dela, aquela arvora-se em alter-ego ultrarradical do passado histórico imediato, no sentido de um antes todo ele ‘mau’ e um depois todo ele ‘bom’, sendo o ‘mau’ que sobra no presente herança do ‘espírito do antigamente’. Esta via dominada por generalismos grosseiros na gestão da memória coletiva de senso comum vai fazendo com que a democracia corra o risco de ela mesma se transformar numa caricatura de tanto caricaturar o passado imediato.