Índia (a Índia do planeta Darkover, certo?)

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Tenho gostado de ler A Batalha, que nos dá informações do que por aí se passa em tom de blogue bem conseguido (dois exemplos). Mas hoje dei com um texto hilariante sobre a Índia (ou sobre Goa, ou o que o autor acha que é e deveria ser Goa, ou sobre as várias supostas traições dos portugueses a Goa, é escolher).

O texto tem tanto de caricato que, por economia de post, não posso ir a todas. Começo por fazer uma declaração de interesses sobre a Índia. Estive lá umas tantas vezes em trabalho, uma dessas vezes fiquei lá (incluindo em Goa) mais umas duas semanas de férias. (Não sou, portanto, uma grande conhecedora da Índia; mas, neste caso, sou quanto baste). Rio às garagalhadas sempre que oiço alguém referir-se à Índia como ‘a maior democracia mundial’, agonia-me a forma como as mulheres são (mal)tratadas por lá, a pobreza da Índia é algo brutal e abjeto e antipatizo com o hinduísmo (que sustenta coisas como as castas e os abusos às mulheres). Considero que os meus amigos que vêem da Índia com conversas sobre a felicidade geral da população para além dos bens materiais, as cores dos saris e tretas semelhantes, uns alucinados. (Qualquer boa pessoa que vai à Índia só pode sair de lá com uma depressão). Detestava ter de fazer a profilaxia da malária e, de cada vez que lá ia (e ficava apenas um dia e meio) tinha como momento redentor da viagem aquele em que entrava no avião da Lufthansa, companhia com a qual, devido a tirar-me da Índia, desenvolvi uma relação muito afetuosa. Podia continuar, mas parece-me que já está claro que nada do que vou escrever é uma defesa da Índia. (Que sim, tem o Taj Mahal e outros edifícios lindos de morrer, e adoro os tecidos indianos, os móveis indianos, as jóias de prata com pedras coloridas, e a generalidade dos artesanatos indianos. Além de que gosto muito de alguns indianos.)

Regressando ao texto, não vou debater se a presença portuguesa na Índia foi colonialismo ou não, nem o facto de não se perceber o que reclama Luís Pistola ou o que tem a ver com as frases que cozinhou a exposição no Museu Nacional de Arte Antiga. Menos ainda o caso BNU ou se há ou não em Goa um sentimento generalizado de procura da independência face à União Indiana ou as causas da riqueza relativa goesa.

Diz o autor do texto coisas fabulosas. Por exemplo, pergunta: ‘De que tem medo o gigante indiano quando ainda hoje, volvidos mais de 50 anos da ocupação, teme e treme a cultura goesa, procurando indianizá-la a todo o custo, dificultando a difusão do português e do modo singular de viver lusitanamente na Índia?’ Eu, quando estive em Goa devo ter tido azar, porque não encontrei – e até tentei – uma única alma que proferisse a vontade de ‘viver lusitanamente’ (e que raio quer dizer isto?) ou de aprender português (e para que quereriam os goeses aprender português, a língua de um país com que nada têm a ver, quando há tantas outras línguas mais úteis para aprenderem?). O azar foi tanto que nem sequer houve quem se entusiasmasse (já nem se pedia que mostrasse saudades ou evidenciasse o amor que os goeses ‘sempre nos tiveram’) pelo facto de eu me identificar como portuguesa. E se em Goa os miúdos jogam futebol (em vez de críquete, como no resto da Índia), há muitas mulheres que se vestem com os vestidos que se usavam em Portugal há 50 anos, em vez de com saris, e a pobreza não é tão opressiva, se há coisa que se percebe é que aquela terra é infinitamente mais indiana do que portuguesa e só quem lá vai com palas carregadas de preconceitos não o vê. Quanto aos monumentos que a presença portuguesa por lá deixou, o que achei mais curioso foi o desapego que os goeses lhes tinham – ao contrário do que se passa no resto da Índia, onde os monumentos costumam estar apinhados de indianos (os bilhetes para nacionais que são para aí um décimo do valor do cobrado aos estrangeiros).

No texto também se compara a atitude da União Indiana para com Goa com a da China com os macaenses. Aqui estranho que não tenha havido também comparação com a relação de Portugal com a cidade de Santarém, já que entre Goa e Macau, e a forma da presença portuguesa em ambas, são tantas as diferenças que só por ignorância se pode estabelecer comparação. (Digo também que sou muito parcial para com a China e que a ‘ditatorial’ China tem liberdades de que eu gosto – poder andar de minissaia e alcinhas na rua, poder namorar na rua,… – que a ‘democrática’ Índia nem está perto de ter.)

A minha parte preferida é esta: a da ‘Índia hindu unificada politicamente pelos ingleses’ (interrupção para nova gargalhada). Bom, por partes. 1) A Índia não é hindú. 15% da população é muçulmana (mais de 150 milhões de almas), uns 30 milhões são cristãos (mais do que os portugueses, sejam cristão, agnósticos, ateus, protestantes, new age, whatever), há para lá jainas, sikhs e uma panóplia de religiões tribais. A fricção religiosa é um assunto sério do país e, para quem se quiser lembrar, levou até à partição entre Índia e Paquistão e, mais tarde, à criação do Bangladesh. 2) A Índia não foi unificada politicamente pelos ingleses. Durante a época colonial britânica continuaram a existir, nuns casos apenas mais formalmente, noutros menos, os reinos dos famosos rajas e maharajas. Apenas em 1947, com a criação da União Indiana, estes reinos foram integrados no país (os monarcas negociaram a entrega da soberania dos seus territórios contra o pagamento de uma subvenção anual pelo estado indiano, que depois Indira Gandhi extinguiu). 3) A Índia é tudo menos unificada. Na verdade, na Índia o insólito é o que é normal e há uma infindade de crenças, castas, costumes locais, linguagens, atividades económicas que tornam a Índia porventura no país mais diverso e menos unificado do planeta – neste caso, a Terra. Daí que a especificidade goesa seja tudo menos extraordinária na Índia.

Para ir terminando, vou a estas frases (que ou pretendem ser enigmáticas ou estão num português pouco valorizado): ‘O mais incrível de tudo isto é que andamos continuamente a reproduzir aculturamentos estrangeirados cuja história não chega para contar um terço da nossa: Goa foi construída ao longo de quase 460 anos de cultura comum. Tomara os Estados Unidos da América poderem gabar-se de metade disso.’ Passe-se ao lado da bazófia com a longevidade da nossa história face a esses selvagens que são os norte-americanos – que é algo que, estou certa, tira o sono aos selvagens – para me questionar quem são os estrangeiros sem história que se veja que condicionam o nosso conhecimento sobre a Índia e a presença portuguesa. Os americanos não condicionam nada, e os indianos têm uma história que remonta à civilização do Vale do Indo, milénios antes da era cristã. Além de que – refira-se – a Índia era, à data em que os portugueses lá chegaram (e foi até à revolução industrial), bastante mais rica do que os países europeus.

Termino dizendo que a História portuguesa, incluindo as suas aventuras marítimas, é assombrosa. (Incluindo também os projetos que falhámos, que, como diriam os selvagens americanos que não têm história e não percebem patavina, desonra é não tentar, não é falhar.) Não merece as tonterias ‘nós somos os melhores do mundo e todos os povos que governámos nos amam’. Os indianos divinizaram as personagens do Mahabharata e do Ramayana; há quem queira divinizar os portugueses dos tempos dos descobrimentos. Mas fazem mal: como deuses seriam medíocres, como homens poderão ter sido admiráveis.

???????????????????????????????(As imagens foram escolhidas para dar ideia de como a arte indo-portuguesa é muito mais sumptuosa do que a arte indiana – num exemplo de arte particularmente hindu de um império que mais hindu não podia ser. De facto não se entende como os artífices indianos escolhem dedicar-se à arte indiana em vez de à arte produzida em Goa.)

Da série “os russos estão a ficar muito americanos” IV

As redes sociais não funcionam sem o excepcional Putin e a liberdade perde a graça sem o Snowden.

Russia’s largest social network is under the control of Putin’s allies

Earlier this month, Durov claimed that Russia’s intelligence agency, the Federal Security Service (FSB), had pressured him to hand over personal data on VK users involved in anti-government protests in Ukraine. Durov said he refused to do so, though he’s gradually ceded control of the company in recent months and has long butted heads with government authorities. Experts have speculated that the Kremlin is looking to tighten its grip over VK and other social networks in the same way it controls print and TV media. Many Russians used VK to organize widespread anti-Putin demonstrations in 2011 and 2012, when thousands took to the streets to protest allegedly rigged elections.

Leituras complementares: Isto deve dar um prémioDa série “os russos estão a ficar muito americanos” III.

Sufocar (e tirar o escalpe e mais umas coisas) ao lisboeta

O meu texto de hoje no Diário Económico, à volta da última ideia da luminária António Costa, nosso estimado presidente de câmara, que quer tornar a vida em Lisboa – para os residentes e para os que cá têm de trabalhar – muito mais penosa. (O que, em boa verdade, tem sido o seu programa municipal). E alguém me explica a que propósito o CDS sanciona esta ideia de municipalizar a gestão dos transportes públicos em vez de a privatizar?

«António Costa é presidente (há seis anos) da câmara municipal mais endividada do país, notabilizando-se Lisboa por buracos não tapados, alterações de trânsito que visam infernizar a vida a quem tem de andar de carro, obras intermináveis (Ribeira das Naus) temporariamente dadas como terminadas por altura das eleições – e, ultimamente, montes de lixo não recolhido, devido à incapacidade de Costa em resolver as greves frequentes na empresa que tem a cargo a recolha e queima do lixo lisboeta.

Foi, ainda, ministro de um sector cujo funcionamento é unanimemente considerado um factor de atraso do país: a Justiça. É, também, alguém que profissionalmente sempre gravitou na esfera política e que, se um dia deixar esta actividade, irá para uma grande empresa que necessite de quem tenha os conhecimentos certos nos partidos de governo. Há quem considere este CV desejável num pm ou até num presidente. Eu discordo. E tremo de pavor sempre que me apercebo que Costa foi iluminado por nova ideia. Desta vez é a ideia da CML concorrer às concessões a privados da gestão da Carris e do Metro de Lisboa, e é uma ideia calamitosa.

A entrega da gestão destes transportes públicos a privados tem como vantagem a gestão mais eficiente (como em todas as empresas que foram privatizadas), controle de custos mais racional, gestores nomeados por mérito em vez de por proximidade política e impraticabilidade das greves quase contínuas que se têm visto nos transportes públicos lisboetas. A entrega das duas concessões à CML garante que nenhuma das vantagens se verifique.

Mas o pior da ideia de Costa não é, sequer, isso.»

O ‘pior’ – e é um pior catastrófico – está explicado aqui.

No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no jornal, sobre o 25 de Abril.

Há liberdade no socialismo?

Francisco Pinto Balsemão organizou na Gulbenkian uma conferência, “25 de Abril, 40 Anos depois”, para analisar se estes anos terão valido a pena. O objectivo não era voltar a discutir as questões quentes de outrora, mas proceder a um exame mais abrangente do regime. 40 anos depois da Revolução, onde estamos?

O leitor já terá consultado no Portal das Finanças o site “e-factura”. Através desse sistema, o Estado tem acesso às suas despesas de que tenha factura e, naturalmente, fica a saber aquilo em que, oficialmente, não gasta dinheiro. O estado sabe se cortou o cabelo e em que dia. Se jantou fora, e onde. Se vai ao médico, e a que tipo de consulta. Mas também fica a saber que, ou não costuma cortar o cabelo, jantar fora, ou, quando vai, não pede factura.

Tenha consciência do seguinte: a sua privacidade acabou. Mais: o Estado tem na posse meios para perguntar, caso precise de saber, porque não gasta dinheiro em certo tipo de bens e serviços. Esta realidade não tem a ver com este governo, nem com as novas tecnologias. Resulta do enorme endividamento do Estado, que precisa desesperadamente do nosso dinheiro.

É o desenrolar natural do socialismo, que pressupõe um desenvolvimento feito com consumo e investimento público que põe em causa a privacidade e a liberdade. 40 anos depois, em vez da crença num destino colectivo que leva ao descontrolo do Estado, cabe-nos perceber que a liberdade passa mais por nós que pelo poder político.

Ana Catarina Mendes e Adolfo Mesquita Nunes

Ana Catarina Mendes e Adolfo Mesquita Nunes entrevistados por Anabela Mota Ribeiro

São a geração de 70, nascida aquando da democracia. Não se envergonham de ser políticos porque tudo é política, como dizia Bertold Brecht. Isto num tempo em que ser político parece uma nódoa, e se vive a descrença nos agentes políticos e nas instituições. Como se chegou aqui? Quais foram os passos, quem foram os protagonistas?

O verso do dramaturgo alemão é trazido por Adolfo Mesquita Nunes, Ana Catarina Mendes concorda. Ele é secretário de Estado do Turismo, ela é deputada do PS. Não acham que os seus pais, a geração dos seus pais, tenha feito tudo fazendo a democracia. Abrindo a sua história, entram também na História do país, e do que é ser de esquerda e de direita nos 40 anos do 25 de Abril.

Artigos de opinião de Milton Friedman

Milton Friedman published more than eight hundred popular and public policy columns and articles between 1943 and 2006.

This comprehensive listing of Milton Friedman’s commentary pieces, including his columns for the Wall Street Journal, New York Times, San Francisco Chronicle, and Newsweek, can be sorted by title, contributors, source, and date.

Denial

kafkaEu, no Diário Económico de hoje

Apesar da negação, as pensões de reforma já estão indexadas à demografia e ao crescimento económico em toda a Europa, sendo que, se em alguns países já o perceberam e agiram em conformidade, em Portugal, mantemo-nos orgulhosamente no primeiro estágio do Modelo de Kübler-Ross. Parecemos não querer saber que a Segurança Social é um sistema de redistribuição e não se distribui o que não existe. Se há dois pães e duas pessoas a quem os distribuir há um pão para cada uma. Se houver três pães e quatro pessoas, não se distribui um pão a cada pela razão simples que só há três.

 

A minha reeducação está a dar frutos

O João Villalobos reagiu à bela prosa do presidente do sindicato dos estivadores. Obviamente o João, certamente eivado de contaminações empresariais, não foi capaz de apreciar o convincente argumentário do sindicalista. Dou alguns exemplos. Logo de início se entende bem que o sindicalista tem uma legitimidade democrática muito superior à do pm, afinal foi eleito diretamente pelos votos de 400 pessoas. Também é de cristalina evidência que, de facto, o pm ‘está agarrado ao poder’. Eu, antes da epifania provocada pela correspondência sindical aberta, estava convencida que o que atribuía legitimidade democrática a um governo era ser sustentado por uma maioria na AR democraticamente eleita. E que, nas democracias normais, um governo governa durante o tempo que intermeia entre eleições e que a vontade expressa em votos pelos eleitores conta mais do que, sei lá, birras de sindicalistas eleitos por 400 estivadores. Mas não. Claro que o pm está agarrado ao poder. Também me parece muito bonita a declaração de que o autor epistolar se preocupa com ‘as pessoas’, enquanto o malvado pm se preocupa com ‘as empresas’. Eu, no meu ser anterior não-esclarecido, pensava que ‘as pessoas’ viviam bastante mal nas sociedades onde não existem ‘as empresas’ e que, nas sociedades onde benevolentemente as empresas são deixadas existir, ‘as empresas’ são constituidas por ‘as pessoas’ (e, até ver, mesmo aqueles que contribuem para as empresas com o capital são também ‘pessoas’); em suma, costumava considerar que o bem de ‘as empresas’ e ‘as pessoas’ se interligava; que, por exemplo, a falência de uma empresa não costuma deixar deleitado de felicidade quem lá trabalhava. Mas agora, at long last, vejo que as duas realidades são mutuamente exclusivas.

Confesso que (talvez seja o mesmo mal que aflige o João) ainda me resta alguma desconfiança perante o sindicalista epistolar. Não é à toa que o discurso da falta de legitimidade do governo vem de setores afetos ao PCP. Ora pois; dos setores que têm um entendimento peculiar do que é uma democracia, o bem-comum ou a liberdade de expressão – que nos países onde a ideologia do sindicalista epistolar vigorou não se costumava tolerar estas saudáveis cartas abertas aos governantes. Ainda há um pedacinho não-esclarecido de mim que tem vontade de, segundo as palavras do filósofo sócrates, dizer ao sindicalista epistolar para ir dar lições de moral à tia.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no i.

Reformas

O FMI divulgou há dias o seu relatório Fiscal Monitor, no qual considera que os estados das economias mais avançadas deverão proceder a reformas estruturais. Estas deverão ter em vista a redução da despesa pública, não, como tem sido feito até agora, através dos cortes horizontais, ou seja, decididos em função do seu valor, mas de acordo com a função de cada trabalhador do Estado.

Esta diferença pressupõe que se pense antes de se cortar. Supõe uma reforma estrutural do Estado, uma definição de quais devem ser as suas funções essenciais. Para que este passo seja dado, e o que agora segue é conclusão minha, são necessários três pontos: em primeiro lugar lugar, que as contas públicas estejam equilibradas, um caminho que está a ser parcialmente percorrido; em segundo lugar, que a grande maioria dos cidadãos, percebendo as vantagens de se viver sem dívidas, não aceite governos que estimulem a economia com obras públicas, por outras palavras, com despesa e dívida.

Por fim, que a classe política seja pragmática. O país não pode regressar ao despesismo e à irresponsabilidade de outrora. Assim, será preciso que os políticos se sentem à mesa e discutam as ditas funções essenciais do Estado. O que é que é imprescindível? O que é que teremos de deixar cair para que não se perca o mais importante? A fórmula seguida nos últimos 40 anos não deu os frutos que a maioria esperava. Desta vez, mais que ilusões revolucionárias seria importante que se conseguisse algo de concreto e duradouro.

Leitura dominical

O país do respeitinho, a opinião de Alberto Gonçalves no DN.

Manuel Alegre acha que o 25 de Abril “não pode ser só mais uma data no calendário”. E, no que depender dele, não é. À semelhança dos campeonatos internacionais da bola, em que nunca lhe faltam uns versos dedicados a Figo ou a Cristiano Ronaldo, a cada aniversário do golpe de Estado o poeta ameaça soltar a lira. Desta vez, se calhar porque a lira anda desgastada sob a opressão datroika, fê-lo sob a forma de uma antologia poética (título: “País de Abril”) e respectiva sessão de lançamento.

Pelas descrições, a cerimónia, realizada no quartel do Carmo, deve ter sido belíssima. Na plateia, Maria de Belém, José Sócrates, António José Seguro, Almeida Santos, Vasco Lourenço e etc. ouviam embevecidos. No palco, os fantasmas de Francisco Fanhais e de Manuel Freire entoaram versões musicadas da obra em causa. O autor da obra recitou umas coisas, do gabarito de “Era um Abril de amigo/ Abril de trigo/ Abril de trevo e trégua e vinho e húmus/ Abril de novos ritmos novos rumos./ Era um Abril comigo/ Abril contigo” (título: “Abril de Abril”) e de “Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal” (título provisório: “País de Abril”). Nem a obsessão temática nem o recurso a “húmus” para rimar (?) com “rumos” levou a audiência às gargalhadas. Aquilo é gente séria.

E foi a sério que Manuel Alegre acrescentou uns comentários à situação actual. Para ele, as políticas de austeridade “cortam as dimensões da vida e a música das vogais”. Também tinha essa impressão. Fica, porém, uma palavra de esperança: “A poesia pode libertar a língua.” E, de facto, a língua travada é um aborrecimento, quase tão grande quanto o rancor de uma clique que sonhou fazer do “país de Abril” o seu quintal e, pelo caminho, deparou com uma população discordante. Ainda por cima, a população vota: assim não há democracia possível. Ou, nas palavras do bardo, arriscamo-nos a “perder Portugal como futuro do passado”, o que em português de gente é igual a mandar o povo chatear o Camões. Certo é que até dia 25 não faltarão lengalengas do género. E igualmente certo é que os donos do regime nem sempre mandam no regime, o que sem dúvida constitui uma ironia. Poética, se quiserem.

Da série “os russos estão a ficar muito americanos” II

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Pallywood, versão russa.

Pro-Russian protester and Maidan mercenary in one skin: Russian propaganda makes epic blooper (video)

E como cereja em cima do bolo, um tweet esclarecedor de Sergey Lavrov, Ministro russo dos Negócios Estrangeiros.

Lavrov

Da série “os russos estão a ficar muito americanos”

Roman Romanenko has had a swastika daubed on his door.

Roman Romanenko é a melhor prova.

Romanenko’s March 4 letter, which he posted on his Facebook page, has already earned him two interrogations by prosecutors, who are mulling pressing extremism charges against him.  The door of his apartment has been daubed with a swastika and leaflets have been stuffed in his neighbors’ letterboxes branding him a “scum” and a “Ukrainian Jew.”  Now, the medical charity that he runs is under threat.   On April 4, exactly one month after Romanenko penned his ill-fated letter, inspectors launched a spot check on the group, saying they suspected it of embezzlement and money laundering.   “We undergo mandatory audits and we’ve never received any complaints,” he told RFE/RL. “I believe these actions aim to damage the group’s reputation, because people think that if it’s being inspected then there must be grounds for suspicion.”

Leitura complementar: Dear Vladimir, I Speak Russian Too. Please Send Troops!.

As novas prioridades

O meu artigo no Diário Económico de hoje sobre as 59 novas prioridades do governo.

Prioridades

Perante as boas notícias dos últimos meses, o governo elegeu 59 projectos que considera prioritários para o país. Ao todo, estamos a falar de 6067 milhões de euros. Parte será paga por um Estado que não tem dinheiro; outra, através de fundos comunitários vindos de uma Europa que impôs precisamente o contrário do que se pretende fazer agora.

A crença do investimento público como motor da economia existe há muitos anos. Demasiados para nos fazer pensar duas vezes antes de entrarmos numa nova aventura. Até Salazar tinha essa convicção, quando lançou o seu plano de obras públicas para modernizar o país através do Estado, embora não prescindindo, num período inicial, dos excedentes orçamentais. Analisando os dados sem preconceitos, somos forçados a concluir que pouca coisa mudou na estratégia seguida; na própria ideia de investimento estratégico e indispensável para que se dê o salto em frente. Salto, esse, que nunca chegou. Talvez, por não ser esse o caminho.

Claro que é importante que haja estradas, portos, aeroportos e ferrovias. A sua prioridade não teria era de ser escolhida pelo Estado, nem essas obras representam crescimento económico, como já sabemos por experiência própria. Este depende de contas públicas equilibradas, de preferência excedentárias, e de um Estado que, interferindo pouco na economia, não a desvirtue com a intromissão de interesses que se dizem públicos, e estratégicos, mas que não passam de privados.

Estratégico é o apoio aos mais necessitados. Não investimentos que vão custar muito mais do que o inicialmente previsto, com as habituais desorçamentações, e cujo preço obrigará a mais sacrifícios. Seria importante que o país retirasse desta crise três lições essenciais: em primeiro lugar, o endividamento público, originário em grande parte do dito investimento estratégico, atrofia a economia e a vidas das pessoas. Destrói-nos. Em segundo lugar, o investimento público, principalmente em larga escala, retira crédito aos privados que deixam de poder investir. Fá-lo através de impostos, que têm de ser altos; da dívida que gera desconfiança e de um acesso ao crédito bancário que se torna mais difícil.

Por fim, que o investimento escolhido pelo Estado é ditado por motivos políticos. A incerteza que daí advém é razão de sobra para que receemos o que aí vem. Veja-se, a título de exemplo, o que já sucedeu com este plano agora apresentado pelo governo, onde inicialmente se contavam 30 projectos prioritários que rapidamente passaram a 59. Como é que se define prioridade? É económica; é financeira, ou é política? Se não há critérios objectivos, não há confiança económica. As pessoas sofreram demasiado para que tenha sido em vão.

No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no jornal i. O socialismo pressupõe consumismo e endividamento.

O socialismo e a dívida

É comum dizer-se que a crise se deveu às políticas neoliberais que desregulamentaram a actividade financeira. É certo que houve irresponsabilidade, e não apenas dos estados. Mas o erro desta concepção está na própria separação entre estado e mercados financeiros; entre dívida pública e dívida privada.

Nos anos 70, as democracias ocidentais estavam em crise. A estagnação económica e a inflação não ajudavam e as pressões sociais acentuavam-se. O que se fez nos anos 80 foi encontrar um meio de a economia voltar a crescer, sem pôr em causa o estado social. Foi assim nos EUA, no Reino Unido e até em França, com Mitterrand.

O discurso político maioritário é tão à esquerda que denomina de neoliberalismo aquilo que é neo-socialismo. Na verdade, a desregulamentação da actividade financeira, a dívida pública, a par com um aumento da dívida privada, foi o meio encontrado para se ter o crescimento económico indispensável para financiar o estado. O estado que se manteve presente, omitindo-se quando lhe covinha e continuando activo na concessão de monopólios e na aquisição do dinheiro necessário para o investimento público que garantia votos.

Como referiu o Ricardo Campelo Magalhães no blogue O Insurgente, o liberalismo defende a inexistência de dívida pública. Só assim se podem ter impostos baixos. Baixar impostos, incentivar o consumo, fazendo da dívida o motor da economia, não é liberalismo, mas neo-socialismo. Dada a dimensão do estado, o socialismo de hoje depende do endividamento.

Obituário da esperança socialista

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“Uma grande data para França, um novo início para a Europa e uma nova esperança para o mundo”. Foi assim que François Hollande qualificou a sua própria eleição, em Maio de 2012. A declaração tinha tudo para dar asneira. França já não é o centro do mundo, muito embora só os franceses disso não se tenham apercebido. E a megalomania de Hollande colidiria inevitavelmente com a realidade, sobretudo numa União Europeia (UE) pouco dada a euforias. Assim foi. E a queda fez um estrondo.

Na UE, em menos de um mês, ficou claro que Hollande não conseguiria renegociar o Tratado Orçamental Europeu, impor as eurobonds ou vencer a austeridade. No mundo, só os seus escapes nocturnos o tornaram popular. E, em França, a falta de alternativas à austeridade (principal promessa eleitoral) nunca lhe foi perdoada. Compreende-se – expectativas desmesuradas geram desilusões inultrapassáveis. Até porque esse foi apenas o maior de uma longa lista de fracassos. É que Hollande lida hoje com a necessidade de cortar 50 mil milhões de euros na despesa pública até 2017. Desdobra-se em explicações para os sucessivos pedidos de flexibilização das metas do défice (vem aí o terceiro em apenas 22 meses). E observa a subida do desemprego e da dívida pública para uns perigosos 95% do PIB. A derrota do PS francês nas eleições municipais – sem paralelo na história – não causa espanto.

A vantagem dessa derrota histórica é que tornou inequívoco o fracasso político de Hollande. Já nem o próprio o contesta. E após dois anos em que foi vítima da ilusão que ele próprio criou – a de que era a voz da alternativa à austeridade – o presidente francês tenta agora arranjar a sua saída limpa. Como? Desistindo. Das suas ideias, das suas promessas e, no fundo, de si próprio. É o que significa a nomeação de Manuel Valls para primeiro-ministro. Conhecido em França como um “socialista de direita” – defendeu a criação de um ministério da economia franco-alemão, preocupa-se com o que pensam os mercados, acha que a esquerda deve aproximar-se mais das empresas, e não gosta da palavra “socialista” – Valls representa tudo aquilo que Hollande rejeitou.

A surpresa não é total. Por um lado, é uma escolha táctica desesperada. Sendo Valls o mais popular dos ministros do Governo que caíra e também o mais liberal dos socialistas, a sua ascensão melhora a imagem do Governo, enquanto trava os danos políticos da subida da direita. Por outro lado, é a consequência inevitável para um governante que alcançou o poder prometendo o impossível. A realidade é sempre mais forte. Virar a agulha ideológica era apenas uma questão de tempo. Derrotado e resignado, foi o que Hollande fez. E, assim, o hollandismo, a fé socialista numa alternativa à austeridade, morreu pelas mãos do seu messias.

Partindo do pressuposto que não é possível manter a esperança num homem que já nem em si mesmo acredita, seria bom que alguém avisasse os seguidores do hollandismo deste suicídio. Em particular, António José Seguro que, seguindo as pisadas de Hollande, recentemente prometia pôr fim à situação dos sem-abrigo – alguém se lembra quando, em campanha, o francês se anunciou como o futuro presidente da “justiça contra a pobreza”? A “nova primavera para os povos europeus” não chegará de Paris. Nem chegará pelos socialistas. Simplesmente, não chegará. Hollande aceitou-o. Está na hora de Seguro o fazer.

[publicado no i]

Leitura dominical

O mistério da fé, a opinião de Alberto Gonçalves no DN.

António José Seguro vive aflitíssimo com as “questões essenciais”, ou os “assuntos que realmente interessam aos portugueses”. E a prova de que não se trata de conversa fiada é o projecto de lei agora apresentado pelo PS no Parlamento, com vista a proibir os sacos plásticos gratuitos no comércio, a bem do ambiente e dos consumidores. Gosto principalmente da preocupação com os consumidores, que se têm visto forçados a trazer as compras do supermercado em sacos providenciados à borla, com todos os desgostos daí resultantes: se, de acordo com a disposição da maioria neoliberal, o projecto for aprovado, esse será um problema a menos. Outro problema a menos será a utilidade dos deputados, autarcas, dirigentes e militantes de partidos mortinhos por proibir coisas, que até aqui ninguém sabia para que serviam e que daqui em diante poderão servir para nos levar as compras ao parque de estacionamento.

Sou claramente uma criançofóbica.

Eu começo por apresentar o meu protesto pela sucessão vertiginosa de assuntos que envolvem a criançada que têm aparecido nos blogues e jornais, nem dando tempo para uma mãe com compulsão opinativa vir aqui dizer de sua justiça.

Começando pelo mais recente. Daniel Oliveira escreve outro texto exemplar (isto começa a ser preocupante) sobre a mania irresponsável de muitos pais recusarem vacinar os filhos e do ressurgimento de doenças a que isso tem levado (ainda há pouco tempo houve um surto de sarampo em Nova Iorque). De facto este é um assunto que está na fronteira entre aquilo que deve ser a proteção do estado às crianças e o espaço de decisão dos pais no que aos filhos diz respeito e aceito que as opiniões sejam diferentes. Eu estou pela obrigatoriedade da vacinação. Não tanto pelos benefícios coletivos que isso traz, mas pela proteção às crianças. E não vejo que isto belisque o liberalismo; os pais não devem poder tomar decisões que sejam altamente lesivas para os seus filhos, como é claramente o caso da recusa da vacinação. Por muito elitistas que sejam, não deve ser permitido aos pais pôr deliberadamente em risco a saúde dos filhos.

Agora a polémica que opôs o João Miguel Tavares à Pipoca Mais Doce, com contributo da Inês Teotónio Pereira. E estou do lado da Pipoca. Mas claro que os hoteis devem poder não aceitar crianças, segundo a sua política comercial. Tal como devem poder aceitar só casais (há muitos hoteis por esse mundo fora que estão especializados em férias românticas e não aceitam pessoas sozinhas, nem trios, nem, lá está, crianças, só mesmo casais). E o mesmo digo para restaurantes. Imaginem um restaurante que se especializa em despedidas de solteira e só aceita grupos de mulheres para lá tomarem as suas refeições. Também não pode? Tem de aceitar homens e crianças? Tal como há hoteis que se especializam em férias (ou fins de semana) para pessoas com mais de 15 anos e, por isso, não aceitam crianças, também os há – e em muito maior número – que se destinam ao imenso mercado das famílias. Não estamos propriamente num cenário em que os pobres pais não conseguem encontrar um hotel que acolha os seus rebentos. Temos mesmo de começar com conversa de discriminação à conta disto? E porque paramos nos hoteis? Ou nos restaurantes? Porque não aplicar esta mania não-discriminatória a tudo? Por exemplo um spa. Tendo as vantagens das massagens para bebés sido bastante difundidas nos últimos anos, fica claro que um spa não se pode destinar apenas a tratamentos de bem-estar para adultos; é obrigatório que faça massagens a crianças. Um spa geralmente tem um ambiente relaxado e silencioso que combina mal com o barulho dos bebés? Pois temos pena, discriminar os bebés é que não pode ser. E as residências para idosos que têm aparecido pelo país? Presumo que qualquer lar de terceira idade deva ser obrigado a aceitar um rapaz de 40 anos de boa saúde que lá queira passar uma temporada, não? E uma loja de roupa? Porque diabo uma loja de roupa de crianças pode existir nas versões atuais? Ficamos quedos perante esta discriminação de adultos? E os cabeleireiros para adultos onde nāo há quem saiba cortar o cabelo a crianças irrequietas? É fechar. E aquelas fotógrafas que se especializam em grávidas e discriminam as restantes mulheres? Inaceitável.  Mais uma – esta tem muito potencial fraturante -, e as lojas de roupa feminina que só têm números para mulheres magras?

O passo lógico a seguir a isto tudo? Registar na constituição como direito fundamental a dormida em hoteis, idas aos spas e aos restaurantes e por aí fora.  E fazer um pronunciamento de inconstitucionalidade para as orientaçōes comerciais das empresas que se destinam a nichos de mercado. Em Portugal, uma empresa ou serve toda a gente ou vá para países amigos da discriminaçāo comercial (e do bom senso).

O mundo – e a política – são maiores do que o quarto

O texto do Daniel Oliveira (a que cheguei através do facebook do Bruno Mascarenhas Garcia) é o que de mais inteligente se escreveu sobre estes outings que apareceram a seguir à votação da coadoção em casais do mesmo sexo. Porque a estupidez destes outings não reside apenas nas questões da privacidade. Reside também naquilo que Daniel Oliveira constata: lá por se ser homossexual não se tem de ter determinada opinião política e as pessoas não se definem (na política e em tudo o resto) exclusivamente pela sexualidade. E mais: era o que faltava alguém ter a obrigação de andar a declarar publicamente a sua orientação sexual, sob pena de acusação de hipocrisia ou de cobardia se não o fizer, como se ser homossexual tornasse um indivíduo devedor a outros que com ele partilham a orientação sexual. Não aceitar isto é, de facto, uma perseguição aos homossexuais.

No Fio da Navalha

A saída de Mário Crespo da SIC Notícias e a massificação político-partidária dos canais noticiosos portugueses, é o tema do meu artigo desta semana no jornal i.

Os partidos políticos e a informação

Mário Crespo deixou a SIC Notícias. Fê-lo de forma emocionada, visando impressionar. Na parte que me toca, aprecio o jornalismo claro e clarificador. Informar não é apenas relatar. Implica pôr os factos no contexto, ou seja, dar-lhes um significado. Por isso não acredito no jornalismo que se quer isento. E, olhando para o seu percurso, podemos concluir que Mário Crespo também não.

Dito isto, devo referir que não apreciava o Jornal das 9. Por vezes os convidados interessantes eram inteligentemente conduzidos numa conversa de conteúdo e forma raras em Portugal. Pelo menos na televisão. Fora isso, o Jornal das 9 não fugiu à massificação político-partidária que domina os canais noticiosos portugueses, reduzindo-os a um espaço de debate estéril.

Olhemos para a BBC News e a France 24, que são os internacionais que acompanho com mais frequência. Ao contrário do que se passa nestes canais, através dos quais sabemos o que acontece por esse mundo fora, quem siga a informação televisiva em Portugal fica com a ideia de que estamos sozinhos no mundo. Façam a experiência e verão que, tirando as catástrofes, Portugal continua orgulhosamente só.

A África francófona combate o terrorismo islâmico, enquanto os equilíbrios na Ásia estão a mudar. A América já não é a mesma. O mundo é enorme, mas a televisão portuguesa só fala de partidos. Gostava de Mário Crespo. Infelizmente, ele não fez, no Jornal das 9, a diferença em favor de uma informação mais adequada ao mundo em que vivemos.