Compreender o putinismo XIII

Foto: AP

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Na Rússia, a fome voltou a ser patriótica.

Russian Deputy Prime Minister Igor Shuvalov, speaking at the World Economic Forum in Davos, on Friday warned the West against trying to topple President Vladimir Putin and said that Russians are ready to sacrifice their wealth in Putin’s support.

Russia has for the past year been sliding into recession amid a slump in its energy export prices as well as Western sanctions against Moscow’s role in the conflict in Ukraine that has claimed more than 5,000 lives. Questions have been raised in Russia and abroad whether the price that ordinary Russians are having to pay for the annexation of Crimea is too high.

Shuvalov, who is believed to be one of the richest men in the government, said that what he considers the West’s attempts to oust Putin will only unite the nation further.

“When a Russian feels any foreign pressure, he will never give up his leader,” Shuvalov said. “Never. We will survive any hardship in the country — eat less food, use less electricity.”

Shuvalov’s comments triggered pithy remarks on Russia social media including an opposition activist who posted photos of Shuvalov’s Moscow, London and Austria homes to illustrate where the deputy prime minister would experience the hardships he described.

Críticos da Sétima Arte em alta

AE

Apesar da confusão do crítico oriundo da Coreia do Norte, a crítica ao filme “A Entrevista” não pode deixar de ser clara.

O filme A Entrevista já rendeu muita dor de cabeça à Sony, por provocar a ira do regime norte-coreano e de hackers que invadiram o sistema de segurança da empresa em novembro passado. Agora, o longa é responsável por tirar o sono dos organizadores do Festival de Cinema de Berlim, já que o governo de Kim Jong-un acredita que o filme terá sua estreia em Berlim durante o festival, porque ambos acontecem no mesmo dia, 5 de fevereiro. “Esse filme claramente instiga o terrorismo“, diz um trecho do comunicado em tom de ameaça emitido pela emissora estatal norte-coreana, que também afirma que se A Entrevista for para a Berlinale, a Alemanha será vista como uma aliada dos Estados Unidos. Entretanto, o evento já divulgou a sua lista de filmes, e A Entrevista não está entre eles.

De regresso à normalidade lunática II

Foto: Maan Images

Foto: Maan Images

Hamas e Fatah de costas voltadas. E ontem estavam tão bem. Em Julho do ano passado, uma vez mais, os dois principais movimentos palestinianos apesar de terem acordadado na construção de um governo de unidade nacional palestiniano regressam aos confrontos políticos. Na altura, um dos principais líderes do Hamas em Gaza, acusou o governo de unidade palestiniano de ignorar a Faixa de Gaza e reafirmou o que era esperado – é possível que o Hamas volte a retomar o controlo político e militar da área. O autor das ameaças foi Abu Marzouk, dirigente político do Hamas que negociou o acordo de reconciliação nacional com a Fatah. Abu Marzouk responsabilizou também o Presidente Mahmoud Abbas pelo agudizar do conflito.
Sete anos após a última guerra civil palestiniana, a 23 de Abril último, o movimento islamista Hamas e a Autoridade Palestiniana assinaram o acordo de reconciliação nacional que instituíu a 2 de Junho um governo de unidade nacional transitório formado por seis meses, composto por tecnocratas cujos obejectivos maiores passam por incrementar a economia local e preparar as eleições, prevista para… Janeiro de 2015.
De regresso ao mundo real, o que desplotou na altura as critícas do Hamas foram os incumprimentos financeiros aos mais de 50 mil funcionários públicos afectos ao Hamas na Faixa de Gaza que deixaram de receber os seus salários, anteriormente pagos pelos islamistas. O Hamas pediu ainda a demissão dos quatro ministros do governo de unidade nacional que se encontram colocados no território da Faxa de Gaza  em protesto pela falta de pagamentos e pelo facto de Mahmoud Abbas nunca ter visitado Gaza após o acordo de constituição do governo de unidade nacional.
A História tem todas as condições para voltar a repetir-se. Hoje um carro explodiu. já tinha acontecido este espisódio, Terça-feira.

União de facto

Quando os meios justificam os fins: a esquerda radical perante a jihad, a opinião de Rui Ramos no Observador.

Para uma parte da esquerda radical europeia, os jihadistas são o elemento de confronto violento necessário para destruir a democracia liberal e o capitalismo. São os Baader-Meinhof com o Corão. (…)

À esquerda, o radicalismo assentou sempre no culto da violência, concebida como o grande recurso emancipador (George Sorel, em 1908, explicou o que havia a explicar a esse respeito). Fechada a loja dos Baader-Meinhof e das Brigadas Vermelhas, esse culto pôde parecer — como em Violence, de Slavoj Zizek (que, curiosamente, nunca cita Sorel) — um mero devaneio intelectual, sem passagem para a acção: uma espécie de American Psycho (ou, neste caso, Marxist Psycho). O fanatismo armado da jihad mudou tudo, como no poema de Yeats (“a terrible beauty is born”…). Zizek ainda espera substituir o Corão por Marx no bolso dos jihadistas. Mas isso seria apenas um bónus. O que o excita, no caso do Charlie Hebdo, é que, finalmente, há “paixão” contra a democracia liberal. Não são os “bons” (a esquerda radical doutorada em Marx e em Lacan) que manifestam essa paixão? Algumas das suas vítimas são até camaradas de radicalismo? Paciência. Sigamos a paixão, neste caso: o jihadismo. (…)

Ana Cristina Leonardo bem podia aprender a ler

Graças aos tags dos comentários que o António Parente me fez num post da Ana Cristina Leonardo no fb dei com esta maravilhosa caixa de comentários sobre o meu texto de hoje no Observador, cheia de gente encantadora que, apesar de não saber ler, mais que compensa a falha em tonitruantes manifestações de superioridade esquerdista e pacifista e insultos.

Ora bem, no meu texto, eu refiro ‘A Segunda Guerra Mundial tem alguns paralelos curiosos com o presente e os perigos do extremismo islâmico (e não apenas do terrorismo). Os nazis eram um grupo de loucos dispostos a tudo, com um tipo particular de fé ateia que não está muito longe da intransigência fundamentalista islâmica‘. Comparo, portanto, o nazismo com o extremismo islâmico. Ora a boa gente do parágrafo acima fez equivaler ‘extremismo islâmico’ ao ISIS (sabe-se lá por que devaneios) e dedicam-se com fúria a demonstrar como a situação do ISIS é diferente da da Alemanha da década de 30. E eu, claro, sou uma ignorante por não saber que o ISIS e a Alemanha de 1939 são coisas diferentes. Isto, claro, apesar de eu ter referido extremismo islâmico – presente (e quanto) no Irão, na Arábia Saudita, na Síria e em sei lá quantos mais lugares – e nunca ter feito qualquer equiparação entre ISIS e Alemanha. Gente maravilhosamente perspicaz, portanto.

No meu texto avanço depois para comparar 3 (três) pontos específicos dos ‘alguns’ paralelismos que tinha apontado – que, como toda a gente percebe, é equivalente a escrever ‘a situação do ISIS é igual, sem tirar nem por, ponto por ponto, à da Europa em 1939′ -: drones, moderados e apaziguamento de Obama. A conclusão do texto é:

‘Não que eu recuse de todo o apaziguamento. Por razões diferentes dos seus autores, com a sua incapacidade de perceber que do lado oposto estão loucos que não medem sucesso e falhanço pelo número de pessoas vivas e pela qualidade de vida das populações, como nós costumamos. Mas porque cada vez mais me convenço que uma guerra é tão maléfica como uma paz podre. A decisão por uma ou por outra não obedece a leis gerais mas a circunstâncias concretas.

Pelo menos aprenda-se com a Segunda Guerra Mundial que o apaziguamento é uma opção pela paz podre e não pela paz.’

Pessoas pensantes poderiam chegar à conclusão que a paz podre foi o que trouxe a primavera árabe e os resultantes governos islâmicos, foi o que fez nascer a al qaeda, foi o que fez florescer as ditaduras laicas mas sangrentas e apoiantes do terrorismo destronadas com a primavera árabe, e foi e é o que mantém situações dramáticas de supressão de direitos humanos de metade da população da zona – as mulheres – e de violência sobre elas. Uma paz podre não é inócua; é perigosa e mortífera. Mas, mesmo assim, eu digo claramente que não prefiro a guerra a isso.

O que, perante isto, entende esta gente iletrada – perdão, esclarecida – que eu defendo? O evidente. Nas palavras de Ana Cristina Leonardo: ‘que o melhor era ir lá com uns tanques e depois fazer uma conferência em Potsdam para dividir o petróleo.’ Cinco minutos de palmas, sff.

Estas maravilhosas interpretações das minhas palavras – ou, na verdade, o que os macaquinhos na cabeça e os preconceitos da Ana Cristina Leonardo & friends os levam a interpretar das minhas palavras, e nem faz mal se for o contrário do que eu escrevo – estão no meio de outras considerações deliciosas. Uma senhora que não vislumbro quem seja diz que tem uma questão pessoalíssima comigo. Um tal de João José Cardoso diz que eu, por só ter referido livros britânicos, acho que a Segunda Guerra Mundial foi apenas britânica e que tudo revolveu à volta do Canal da Mancha. Ora bem, pessoas do mundo, ficam a saber, da parte do tal João José Cardoso: perante assuntos complexos que envolvam muitos países, línguas, culturas, datas, whatever, ai de quem se interessar mais por um ponto específico desse assunto. Ou leem sobre a totalidade ou NADA. Eu, presentemente, também tenho a casa a abarrotar de livros e papers sobre maoísmo. Ficam a saber – porque são obedientes e usam o fantástico método João José Cardoso -, assim, que para mim TODO o comunismo em qualquer país se resume ao maoísmo e que TODA a história da China, tanto quanto eu sei, existe apenas entre 1949 e 1976. Bravo pela estratosfericamente inteligente conclusão.

Este João José, que é uma pessoa certamente desempoeirada das ideias, também me chama ‘beata’. Ficam também a saber que qualquer pessoa que num estado laico tenha a falta de vergonha de se afirmar como católica é uma ‘beata’. Está ao lado dos imbecis passistas que usaram o mesmo argumento comigo, e dos invertebrados que dantes me associavam à Opus Dei e ao uso de cilícios. Não se preocupem, não vou cair no preconceito oposto e aconselhá-lo a tomar banho, pentear o cabelo, por um perfume, deixar de lado a t-shirt com o Che Guevarra e, enfim, abandonar o ar de rato de biblioteca que tanto esquerdista tem.

E ao estonteante senhor que afirma ‘esta Sarah Palin ilustra bem a diferença entre ser culta e debitar cultura a metro para o parecer…’, queria descansá-lo. Nunca na vida pretendi ser culta, era o que faltava. Até porque se sabe bem que as pessoas de direita nunca são cultas. Por muito conhecimento que adquiram, são sempre assim uns patos-bravos da cultura, de cada vez que se lhe referem é só exibicionismo e ostentação, aquilo não nos sai naturalmente como à boa gente de esquerda que se vê que bebeu cultura desde pequeninos. E na verdade nem sabemos bem, tal como o novo-rico desadaptado, o que é Cultura com C grande. Em vez de citar Chomsky, Zizek e outros autores que as pessoas cultas referem, falo em Churchill e Martin Gilbert. Vê-se à légua que o meu verniz cultural é muito fininho. Mas, lá está, como sou mansa e humilde de coração, queria aqui garantir que não pretendo dar-me ares de pessoa culta, nem pensar, e que olho com ar enlevado para a posição cultural muito mais elevada de Ana Cristina Leonardo e de este Humberto Baião.

Termino dizendo-me muito feliz com as gargalhadas que provoquei. Podia aqui agora citar o pai da Lizzie Bennet no Pride and Prejudice sobre rirmo-nos dos outros e os outros rirem-se de nós, que tem piada e era bastante apropriado, mas já me dei ares suficientes por hoje e é altura de não roubar protagonismo à gente verdadeiramente culta do país. E tempo de agradecer a experiência sociológica que o António Parente me ofereceu, que ver estas pessoas – que se calhar até votam – ajuda a explicar o estado do país. O problema nem é que sejam de esquerda ou profundamente preconceituosas. O problema, repetindo-me, é que não sabem ler.

Um pavão egocêntrico

pav_o_coloridoUma coisa que tem piada nesta fabricada indignação com algo que o Secretário de Estado do Turismo não disse é que nos dá a oportunidade de ver o egocentrismo de um pavão a funcionar. Juntamente com a sua sarcástica gargalhada facebookiana, Rui Moreira coloca quatro recortes de jornal onde supostamente aparece a promover a cidade do Porto. Os artigos sucedâneos que têm surgido mencionam esse facto, como prova inequívoca do mérito do presidente da CMP na promoção da cidade.

Acontece que uma olhadela mais cuidada sobre os quatro artigos em causa mostra que os mesmos nada promovem a cidade. Três são das semanas que se seguiram às eleições autárquicas e noticiam o facto inédito de um independente ter ganho a câmara do Porto. São os do (International) New York Times, do Libération e do El País. O quarto, da revista Monocle, é de Abril de 2014, sendo na essência uma “vanity piece” que nos dá a conhecer o ego de Moreira; e este deve realmente ser bastante grande, pois para apresentar estes artigos como exemplos do seu papel na promoção da cidade, ele terá de achar que a sua eleição é suficiente para trazer turistas a rodos para a cidade. Ou então que os 75 e picos mil leitores da Monocle ficarão tão impressionados com o seu perfil que farão uma incansável campanha word-of-mouth a promover o Porto.

Correia de Campos e Paulo Macedo: descubra as semelhanças

Excelente análise de Luís Aguiar-Conraria: Um novo Correia de Campos?

Isto é extraordinário. Nos anos anteriores, nunca ninguém morria nas urgências. O que também era extraordinário. Isto é tudo tão extraordinário que nem sei o que é mais extraordinário.

Isto faz lembrar os últimos tempos de Correia de Campos como Ministro da Saúde. Se bem me lembro, de um momento para o outro, as mulheres começaram a parir em barda nas ambulâncias. Penso que até houve um bebé que nasceu num helicóptero a caminho de uma maternidade. O mais fantástico deste fenómeno foi que mal o ministro caiu as mulheres deixaram de ter filhos nas ambulâncias. Uma explicação possível é a queda de natalidade.

Entretanto, no que diz respeito a notícias com base em dados estatiscamente significativos, a realidade é esta: Nunca morreram tão poucas crianças em Portugal

Em 2014 registaram-se em Portugal 238 mortes infantis, até ao primeiro ano de vida, o valor mais baixo de sempre em números absolutos.

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Verdade ou mentira?

Como é que Afonso Camões se queixa de violação do segredo de justiça e de ser difamado com mentiras? Ou é mentira – e não há violação do segredo de justiça – ou, se há violação, então é verdade.

Um atentado à portuguesa

Sim, temos de tirar os esqueletos do armário e exorcizar fantasmas daquela coisa podre que Mário Soares chama democracia. Para podermos, de facto, ter uma democracia.

‘E de facto, tudo o que é revelado no Correio da Manhã, mais o que consta há muito tempo, configura não só um padrão de actuação, mas uma filosofia: a de alguém para quem o essencial da política não é persuadir os cidadãos e debater com os adversários, como nas democracias, mas acumular meios de controle, manipulação e impunidade, como nas ditaduras.

Perante tudo isto, não basta tratar o Correio da Manhã como um jornal “sensacionalista”, e confundir estas notícias com as revelações sobre o fim do namoro do Ronaldo, de que não se fala nos salões bem-pensantes. Também não basta dizer que há uma investigação judicial a decorrer, e que não se pode tomar conhecimento do que transpira na imprensa. O regime tem a obrigação de esclarecer se o que corre sobre alguém que liderou um dos maiores partidos portugueses e governou este país durante seis anos – e que, no que é politicamente relevante, vai muito para além da chamada “Operação Marquês” — é ou não é verdade.

Se for verdade, teremos de reconhecer que a democracia portuguesa enfrentou uma verdadeira conspiração a partir do poder, e que só a crise financeira de 2010-2011, ao arruinar o socratismo, poupou o regime ao domínio de uma facção sem escrúpulos e à confrontação política que fatalmente resultaria desse domínio. Desde há 40 anos, ensinaram-nos a reconhecer um golpe de Estado: o parlamento fechado com tanques à porta, e um general de óculos escuros, na televisão, a anunciar a proibição dos partidos e a censura à imprensa. Ninguém nos preparou para outra hipótese: a degradação por dentro do próprio regime, através de combinações entre os oligarcas para diminuir de facto a liberdade e a transparência da vida pública.’

Rui Ramos, num texto a ler completo aqui.

Charlie e nós

Charlie e eu. Por P. Gonçalo Portocarrero de Almada.

Se amanhã alguém metralhar uma sinagoga judia, eu serei, com eles e por eles, judeu. Se uma milícia massacrar os alunos de uma escola palestiniana, norte-americana ou paquistanesa, eu serei um desses estudantes. Se algum fanático matar, em nome de qualquer ideologia ou religião, uma prostituta, um toxicodependente, um sem-abrigo, um travesti, um pagão ou um fiel de outra religião, eu serei tudo isso, sem deixar de ser cristão. (…) Não faço minhas as declarações dos católicos que, por se considerarem justos, dão graças a Deus por … não serem Charlie. Eu também não o sou, mas estaria disposto a sê-lo, para defender a liberdade das vítimas, sejam ou não mártires. Não apesar de ser cristão mas, precisamente, porque o sou.

Dias difíceis no PS…

Além das sondagens (que insistem em não confirmar as expectativas criadas por altura da vitória que removeu António José Seguro da liderança do PS) e dos primeiros sinais públicos de contestação interna à liderança de António Costa, agora é o lançamento de António Vitorino na corrida presidencial a sugerir que se vivem dias difíceis e de crescente incerteza interna no PS.

“socialismo é liberdade e abundância”

Tal como na Venezuela, na Coreia do Norte também não prestam a devida atenção a investigadores como Raquel Varela e por isso ainda não descobriram que “socialismo é liberdade e abundância”: Falta de comida e dinheiro estão a levar norte-coreanos a atravessarem fronteira com a China

Pode ser encarado como reflexo de desespero. A China enfrenta uma onda de assaltos violentos, que resultaram em algumas mortes, e os autores são, alegadamente, soldados norte-coreanos que estão a atravessar a fronteira em busca de comida e dinheiro. O fenómeno está a levar muitos chineses a abandonarem as localidades onde vivem.

Leitura complementar: Raquel Varela, o Povo e os porcos.

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Rui Moreira, Adolfo Mesquita Nunes e o sucesso do turismo no Porto

O meu artigo de hoje no Observador: O sucesso do turismo no Porto, a iniciativa privada e os artistas.

O crescimento do turismo tem sido particularmente visível e importante no Porto. Para uma cidade e uma região que têm vindo ao longo das últimas décadas a perder vigor económico e a marcar passo na maioria das áreas relevantes, o sucesso turístico só pode ser visto como uma boa notícia. A atracção para o aeroporto do Porto de companhias low-cost – com destaque para a Ryanair – certamente contribuiu para este sucesso, mas o maior elogio deve ser dirigido à iniciativa privada portuense. De forma descentralizada e assumindo os próprios riscos, muitos investidores e empreendedores têm lançado novos negócios que simultaneamente tiram partido e incentivam o sucesso turístico da cidade e da região.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Nuvens no horizonte de António Costa…

Felizmente para António Costa, e ao contrário do que aconteceu com António José Seguro, a actual liderança do PS continua a contar com uma comunicação social dócil e amigável, mas nem mesmo essa realidade poderá valer-lhe se a sua liderança continuar a frustrar as expectativas criadas, como tem acontecido até agora: Sondagem PSD e CDS encurtam distância para PS de Costa

Em conjunto, os partidos da maioria crescem 2,3 pontos percentuais, enquanto os socialistas têm uma variação positiva de quatro décimas.

Quanto aos restantes partidos, os comunistas chegam aos 9,3%, o Bloco de Esquerda, atinge os 3,5%, enquanto as novas iniciativas políticas, o PDR, de Marinho e Pinto, e o Livre, de Rui Tavares, conseguem respetivamente 2,5% e 2%.

No âmbito da popularidade das figuras políticas, apesar de se manter em terreno negativo, destaque para a classificação atribuída a Pedro Passos Coelho, que regista, entre todos os líderes, a maior subida. O líder do Governo e do PSD regista uma subida de 3,6 pontos.

Estratégia de António Costa questionada por deputados

A estratégia do novo secretário-geral, António Costa, à frente do PS já está a ser questionada dentro do próprio partido. Na última reunião da bancada parlamentar socialista, alguns deputados criticaram o silêncio do PS em algumas matérias e pediram mais intervenção na praça pública. Além disso, há quem peça uma maior atividade parlamentar com a apresentação de mais iniciativas na Assembleia da República.

Boaventura Sousa Santos e o terrorismo

Os dias difíceis do professor Boaventura. Por José Manuel Fernandes.

A surpresa do texto de Boaventura não é o seu conteúdo – é a sua timidez. É por isso que é “difícil”. Circulando pelas redes sociais e por alguns blogues radicais tropeçamos em cada esquina com “explicações” e “interpretações” semelhantes que só não tiveram mais projecção desta vez porque o Charlie Hebdo era uma publicação de esquerda, as vítimas eram jornalistas e a liberdade de expressão um valor profundamente entranhado na nossa cultura. Se o único atentado de Paris tivesse tido o do supermercado kocher e as únicas vítimas alguns clientes judeus, Ana Gomes não teria ficado isolada, antes teria comandado a carga dos que estão sempre pontos a culpar as vítimas e a desculpabilizar os bárbaros. O que o nosso pregador agora fez foi apenas tentar recuperar o terreno perdido para tratar de dizer, como sempre diz, que os bárbaros somos nós. Vale por isso a pena perder algum tempo com essa ideia de que a culpa é sempre nossa – nossa hoje, nossa no tempo da colonização e da descolonização (sobretudo se for a descolonização da Argélia), nossa desde o tempo da tomada de Ceuta, ou das Cruzadas, ou de D. Afonso Henriques, ou até de Júlio César.

do senhor ‘as caricaturas de Maomé foram uma ofensa’

Não é uma ilustração ao meu texto no Observador, mas podia bem ser. Foi a resposta da Revista Atlântico à posição do governo português è primeira publicação das caricaturas no jornal dinamarquês. A Lucy Pepper é a autora.

freitas bomba

Ser Charlie na Arábia Saudita e na Câmara de Lisboa

O meu texto de ontem no Observador.

‘Não sei se é a realidade se são as direções dos jornais europeus, mas alguma coisa está a dar argumentos às boas almas esclarecidas (que, aqui, é sinónimo de ateias prosélitas) que ensaiam novamente uma equivalência entre todas as malvadas religiões que, como se sabe, só provocam caos e mortandade. Tal como fizeram depois do 11 de Setembro. Ora vejam.

Um jornal judaico ultra-ortodoxo apagou as três líderes europeias do sexo feminino da fotografia da manifestação de Paris do último domingo. Parece que o corpo feminino não é modesto (que bom, diria eu, mas os senhores ultra-ortodoxos não concordam) e deve por isso ser tapado. Como as três senhoras estavam bastante agasalhadas, que estava frio, presumo que as caras femininas também não sejam modestas.

Na Arábia Saudita alcançou-se uma importante conclusão teológica: os bonecos de neve são anti-islâmicos. Incitam, por alguma razão misteriosa, à luxúria e ao eroticismo. (Talvez seja o facto de tanta mulher totalmente tapada levar até a entusiasmos com as formas arredondadas dos bonecos de neve, ou quiçá um eventual prazer sensorial enquanto se molda a neve com as mãos. Penso que é melhor não inquirirmos mais.) E as vozes dos que se convencionou chamar muçulmanos moderados (são os que não apregoam os benefícios de matar infiéis, incluindo os ultra-reacionários) já se fizeram ouvir com nova ofensa à conta da primeira capa do Charlie Hebdo depois do atentado. Sem perceberem que, a ser provocação, é muito pálida depois da gigantesca provocação que é um ato terrorista com mortes. Regressando à Arábia Saudita, país com tão simpático regime, o blogger contestatário Raif Badawi já recebeu as primeiras 50 chicotadas (públicas) e iniciou a pena de dez anos de prisão por ‘insultos ao islão’.

Perante isto, o que se fez do lado da Igreja Católica por estes dias? Bem pior.’

O resto está aqui.

Leitura recomenda sem “mas”

O ódio ao indivíduo, de Paulo Tunhas no Observador.

De Dominique de Villepin a Ana Gomes, a nossa querida especialista acional no desporto da não-subtileza, não faltou gente para pôr nas nossas sociedades a culpa pelos atentados de Paris. No fundo, os terroristas não passam de criancinhas de que não soubemos cuidar devidamente. Como sempre, a culpa é dos pais, isto é, da sociedade. Que tão grandes génios sejam incapazes de pensar de outro modo que não seja pela mais barata cartilha sociológica só pode surpreender quem andar mesmo muito distraído.

Mas disto já falaram, e bem, várias pessoas, tal como dos muitos “mas…” que se ouviram logo a seguir ao atentado. “Sou a favor da liberdade de expressão, mas…” – e a seguir vem qualquer cláusula que impõe limites. Bom, qualquer pessoa que pense pensa com “mas…”, senão não pensa, o problema é quais são os “mas…”. E neste caso são maus “mas…”. São “mas…” que vêm do medo, sem dúvida, que dita um nunca visto respeito pelas outras culturas. Não duvidemos por um só instante que não fosse o medo esse respeitinho completamente fingido não existia. Mas vêm também da rejeição daquilo que se afirma como singular, da individualidade.

Essa rejeição é um factor potente nos “mas…” que se ouviram, tal como nas explicações “sociológicas”. No primeiro caso teme-se literalmente a liberdade que faz os indivíduos. Se alguns dos desenhos do Charlie tinham graça era exactamente porque exibiam uma liberdade que reflectia a individualidade do autor. No segundo caso, também é a individualidade que se nega, na medida em que se reduz os terroristas a puros produtos da nossa sociedade, sem vontade autónoma. Dir-se-ia que há muita gente que não gosta de indivíduos. Os terroristas certamente não gostam. Os que acham que a sociedade é inteiramente responsável pelas acções de cada um e aqueles que têm medo de tudo aquilo que se distingue do fundo comum – que individualiza, precisamente – parece que também não.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’. Onde se fala de Houellebecq, Zemmour, do regresso dos franceses ao campo e de como a França se está a ver grega para lidar com a imigração.

França

O meu artigo na semana passada versava sobre a imigração e foi enviado à redacção deste jornal ao mesmo tempo que os irmãos Kouachi atacavam a redacção do “Charlie Hebdo”, assassinando 12 pessoas. Apesar de tudo, o tema não podia ser mais pertinente. A imigração, na Europa, e naturalmente em França, vai estar no topo da agenda de 2015.

Disse-o Franz-Olivier Giesbert quando escreveu na “Le Point” sobre o novo romance de Michel Houellebecq, “Soumission”. Ou até Éric Zemmour, no seu ensaio ‘Le suicide français’, saído em Outubro último e que aponta o dedo ao declínio do Estado francês, de que o autor considera como principal responsável a geração saída do Maio de 68. Zemmour lamenta que o Estado não consiga já controlar quem entra no território francês.

Contrariamente ao que defendi há oito dias, Éric Zemmour opõe-se à imigração e às suas consequências, diz ele, nefastas para a entidade francesa. Quem esteja atento ao que se passa em França sabe que o regresso dos franceses ao campo está em voga e há quem veja nisso uma vontade de regresso às origens, à identidade do país.

Não retiro uma linha do que escrevi sobre as vantagens da imigração. Saliento apenas que as surpreendentes e magníficas manifestações no Domingo apelando ao pluralismo dentro da unidade, salientando o que de melhor há na imigração, estão, infelizmente, fortemente minadas por sentimentos que, longe da emoção, podem fazer-se valer. A realidade é muito mais complexa do que a aparência e a França não é excepção.

Parabéns, Charlie Hebdo

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Mohammed Hussein, o Grande Mufti de Jerusalém, condenou como um insulto o novo cartoon que retrata o Profeta Maomé. na edição recorde do jornal satírico Charlie Hebdo.

“This insult has hurt the feelings of nearly two billion Muslims all over the world. The cartoons and other slander damage relations between the followers of the (Abrahamic) faiths,” he said in a statement.

The mufti, who oversees Jerusalem’s Muslim sites including Islam’s third holiest, the Al-Aqsa mosque compound, slammed the “publishing of cartoons ridiculing the Prophet Mohammed, peace be upon him, and the disregard for the feelings of Muslims.”

O longo braço da Mossad implica com a estética na China

Foto: Athit Perawongmetha/Reuters

Foto: Athit Perawongmetha/Reuters

The capital of China’s most Muslim region has banned residents from wearing the burqa in “an effort to curb growing extremism”.

Ser ou não ser Charlie

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O Rui Carmo já aqui destacou este texto de António Costa, director do Diário Económico, na sua página do Facebook, mas não resisto a reproduzi-lo novamente, por espelhar exactamente – e com maior eloquência do que eu conseguiria – a minha própria posição neste assunto:

Vai uma grande confusão por algumas cabeças mediáticas, ou um grande cinismo e hipocrisia, o que é ainda pior. Ser Charlie não é concordar com os cartoons do Charlie Hebdo, é discordar, é detestar, é estar do outro lado, e mesmo assim defender a sua existência. E pôr de lado as nossas opções políticas e sociais para estar ao lado de quem foi alvo de um crime. Confundir este princípio absolutamente estruturante da liberdade de expressão com a ideia de que ser Charlie obriga a estar contra a austeridade, ou contra a Alemanha, ou concordar com todos os disparates que se dizem, ou ter a obrigação de dar espaço, por exemplo editorial, a todos os disparates, a todos os humoristas, cartoonistas e afins é outra coisa. É ser anti-Charlie. Não há donos da moralidade, embora pareça que esses querem impor essa moralidade aos outros, e não autorizar que todos sejamos Charlie. Diz muito do que pensam.

Leitura complementar: ‘I AM NOT CHARLIE’: Leaked Newsroom E-mails Reveal Al Jazeera Fury over Global Support for Charlie Hebdo.

Nova oportunidade para os críticos de cartoons VII

Gaddafi

A paródia do regime sírio tem pernas para andar. De acordo com a agência de notícias síria, o país condena o ataque terrorista ao jornal Charlie Hebdo. Deixando de lado as alucinações e de regresso à realidade, não deixa de ser assinalável o progresso humanista do regime de Assad no que toca ao cartoonista que ousou caricaturar (não o profeta mas) o querido líder. Alguns dos trabalhos de Ali Ferzat podem ser vistos aqui.

Lassana Bathily

Muslim shop worker Lassana Bathily tells how he hid shoppers in basement fridge unit

Muslim shop worker Lassana Bathily tells how he hid shoppers in basement fridge unit

Lassana Bathily, a 24-year-old Muslim from Mali, tells he hid customers into the cold store at the Hyper Cacher supermarket in Porte de Vincennes, where Ahmedi Couibaly had taken a number of people hostage

Terrorismo e relativismo

O problema não são os outros. Somos nós. Por Helena Matos.

As perguntas lançadas no Fórum da TSF são semelhantes a tantas outras formuladas nos últimos dias. São perguntas, frases e comentários que partem sempre do mesmo princípio: o problema da violência dos outros somos nós. Porque nós vemo-nos como responsáveis por tudo o que aconteceu e acontece no mundo: para tudo aquilo que os outros fazem há sempre um gesto ou uma decisão que nós ou os nossos antepassados tomámos agora ou há quinhentos anos e que explicam, justificam e de certa forma têm desculpado aos nossos olhos o terrorismo e os terroristas.

Nós, europeus, temos um problema sério. Não com os terroristas que por mais chocante que seja escrevê-lo nestes dias não é a nós, ocidentais, que causam maior dor: enquanto na Europa se repetia “Todos somos Charlie”, na Nigéria o Boko Haram matava 2000 pessoas, na sua maioria mulheres, crianças e velhos sem que alguém se indignasse ou sequer admirasse.

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