Artigos de opinião de Milton Friedman

Milton Friedman published more than eight hundred popular and public policy columns and articles between 1943 and 2006.

This comprehensive listing of Milton Friedman’s commentary pieces, including his columns for the Wall Street Journal, New York Times, San Francisco Chronicle, and Newsweek, can be sorted by title, contributors, source, and date.

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Denial

kafkaEu, no Diário Económico de hoje

Apesar da negação, as pensões de reforma já estão indexadas à demografia e ao crescimento económico em toda a Europa, sendo que, se em alguns países já o perceberam e agiram em conformidade, em Portugal, mantemo-nos orgulhosamente no primeiro estágio do Modelo de Kübler-Ross. Parecemos não querer saber que a Segurança Social é um sistema de redistribuição e não se distribui o que não existe. Se há dois pães e duas pessoas a quem os distribuir há um pão para cada uma. Se houver três pães e quatro pessoas, não se distribui um pão a cada pela razão simples que só há três.

 

A minha reeducação está a dar frutos

O João Villalobos reagiu à bela prosa do presidente do sindicato dos estivadores. Obviamente o João, certamente eivado de contaminações empresariais, não foi capaz de apreciar o convincente argumentário do sindicalista. Dou alguns exemplos. Logo de início se entende bem que o sindicalista tem uma legitimidade democrática muito superior à do pm, afinal foi eleito diretamente pelos votos de 400 pessoas. Também é de cristalina evidência que, de facto, o pm ‘está agarrado ao poder’. Eu, antes da epifania provocada pela correspondência sindical aberta, estava convencida que o que atribuía legitimidade democrática a um governo era ser sustentado por uma maioria na AR democraticamente eleita. E que, nas democracias normais, um governo governa durante o tempo que intermeia entre eleições e que a vontade expressa em votos pelos eleitores conta mais do que, sei lá, birras de sindicalistas eleitos por 400 estivadores. Mas não. Claro que o pm está agarrado ao poder. Também me parece muito bonita a declaração de que o autor epistolar se preocupa com ‘as pessoas’, enquanto o malvado pm se preocupa com ‘as empresas’. Eu, no meu ser anterior não-esclarecido, pensava que ‘as pessoas’ viviam bastante mal nas sociedades onde não existem ‘as empresas’ e que, nas sociedades onde benevolentemente as empresas são deixadas existir, ‘as empresas’ são constituidas por ‘as pessoas’ (e, até ver, mesmo aqueles que contribuem para as empresas com o capital são também ‘pessoas’); em suma, costumava considerar que o bem de ‘as empresas’ e ‘as pessoas’ se interligava; que, por exemplo, a falência de uma empresa não costuma deixar deleitado de felicidade quem lá trabalhava. Mas agora, at long last, vejo que as duas realidades são mutuamente exclusivas.

Confesso que (talvez seja o mesmo mal que aflige o João) ainda me resta alguma desconfiança perante o sindicalista epistolar. Não é à toa que o discurso da falta de legitimidade do governo vem de setores afetos ao PCP. Ora pois; dos setores que têm um entendimento peculiar do que é uma democracia, o bem-comum ou a liberdade de expressão – que nos países onde a ideologia do sindicalista epistolar vigorou não se costumava tolerar estas saudáveis cartas abertas aos governantes. Ainda há um pedacinho não-esclarecido de mim que tem vontade de, segundo as palavras do filósofo sócrates, dizer ao sindicalista epistolar para ir dar lições de moral à tia.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no i.

Reformas

O FMI divulgou há dias o seu relatório Fiscal Monitor, no qual considera que os estados das economias mais avançadas deverão proceder a reformas estruturais. Estas deverão ter em vista a redução da despesa pública, não, como tem sido feito até agora, através dos cortes horizontais, ou seja, decididos em função do seu valor, mas de acordo com a função de cada trabalhador do Estado.

Esta diferença pressupõe que se pense antes de se cortar. Supõe uma reforma estrutural do Estado, uma definição de quais devem ser as suas funções essenciais. Para que este passo seja dado, e o que agora segue é conclusão minha, são necessários três pontos: em primeiro lugar lugar, que as contas públicas estejam equilibradas, um caminho que está a ser parcialmente percorrido; em segundo lugar, que a grande maioria dos cidadãos, percebendo as vantagens de se viver sem dívidas, não aceite governos que estimulem a economia com obras públicas, por outras palavras, com despesa e dívida.

Por fim, que a classe política seja pragmática. O país não pode regressar ao despesismo e à irresponsabilidade de outrora. Assim, será preciso que os políticos se sentem à mesa e discutam as ditas funções essenciais do Estado. O que é que é imprescindível? O que é que teremos de deixar cair para que não se perca o mais importante? A fórmula seguida nos últimos 40 anos não deu os frutos que a maioria esperava. Desta vez, mais que ilusões revolucionárias seria importante que se conseguisse algo de concreto e duradouro.

Leitura dominical

O país do respeitinho, a opinião de Alberto Gonçalves no DN.

Manuel Alegre acha que o 25 de Abril “não pode ser só mais uma data no calendário”. E, no que depender dele, não é. À semelhança dos campeonatos internacionais da bola, em que nunca lhe faltam uns versos dedicados a Figo ou a Cristiano Ronaldo, a cada aniversário do golpe de Estado o poeta ameaça soltar a lira. Desta vez, se calhar porque a lira anda desgastada sob a opressão datroika, fê-lo sob a forma de uma antologia poética (título: “País de Abril”) e respectiva sessão de lançamento.

Pelas descrições, a cerimónia, realizada no quartel do Carmo, deve ter sido belíssima. Na plateia, Maria de Belém, José Sócrates, António José Seguro, Almeida Santos, Vasco Lourenço e etc. ouviam embevecidos. No palco, os fantasmas de Francisco Fanhais e de Manuel Freire entoaram versões musicadas da obra em causa. O autor da obra recitou umas coisas, do gabarito de “Era um Abril de amigo/ Abril de trigo/ Abril de trevo e trégua e vinho e húmus/ Abril de novos ritmos novos rumos./ Era um Abril comigo/ Abril contigo” (título: “Abril de Abril”) e de “Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal” (título provisório: “País de Abril”). Nem a obsessão temática nem o recurso a “húmus” para rimar (?) com “rumos” levou a audiência às gargalhadas. Aquilo é gente séria.

E foi a sério que Manuel Alegre acrescentou uns comentários à situação actual. Para ele, as políticas de austeridade “cortam as dimensões da vida e a música das vogais”. Também tinha essa impressão. Fica, porém, uma palavra de esperança: “A poesia pode libertar a língua.” E, de facto, a língua travada é um aborrecimento, quase tão grande quanto o rancor de uma clique que sonhou fazer do “país de Abril” o seu quintal e, pelo caminho, deparou com uma população discordante. Ainda por cima, a população vota: assim não há democracia possível. Ou, nas palavras do bardo, arriscamo-nos a “perder Portugal como futuro do passado”, o que em português de gente é igual a mandar o povo chatear o Camões. Certo é que até dia 25 não faltarão lengalengas do género. E igualmente certo é que os donos do regime nem sempre mandam no regime, o que sem dúvida constitui uma ironia. Poética, se quiserem.

Da série “os russos estão a ficar muito americanos” II

palywoodurss

Pallywood, versão russa.

Pro-Russian protester and Maidan mercenary in one skin: Russian propaganda makes epic blooper (video)

E como cereja em cima do bolo, um tweet esclarecedor de Sergey Lavrov, Ministro russo dos Negócios Estrangeiros.

Lavrov

Da série “os russos estão a ficar muito americanos”

Roman Romanenko has had a swastika daubed on his door.

Roman Romanenko é a melhor prova.

Romanenko’s March 4 letter, which he posted on his Facebook page, has already earned him two interrogations by prosecutors, who are mulling pressing extremism charges against him.  The door of his apartment has been daubed with a swastika and leaflets have been stuffed in his neighbors’ letterboxes branding him a “scum” and a “Ukrainian Jew.”  Now, the medical charity that he runs is under threat.   On April 4, exactly one month after Romanenko penned his ill-fated letter, inspectors launched a spot check on the group, saying they suspected it of embezzlement and money laundering.   “We undergo mandatory audits and we’ve never received any complaints,” he told RFE/RL. “I believe these actions aim to damage the group’s reputation, because people think that if it’s being inspected then there must be grounds for suspicion.”

Leitura complementar: Dear Vladimir, I Speak Russian Too. Please Send Troops!.

As novas prioridades

O meu artigo no Diário Económico de hoje sobre as 59 novas prioridades do governo.

Prioridades

Perante as boas notícias dos últimos meses, o governo elegeu 59 projectos que considera prioritários para o país. Ao todo, estamos a falar de 6067 milhões de euros. Parte será paga por um Estado que não tem dinheiro; outra, através de fundos comunitários vindos de uma Europa que impôs precisamente o contrário do que se pretende fazer agora.

A crença do investimento público como motor da economia existe há muitos anos. Demasiados para nos fazer pensar duas vezes antes de entrarmos numa nova aventura. Até Salazar tinha essa convicção, quando lançou o seu plano de obras públicas para modernizar o país através do Estado, embora não prescindindo, num período inicial, dos excedentes orçamentais. Analisando os dados sem preconceitos, somos forçados a concluir que pouca coisa mudou na estratégia seguida; na própria ideia de investimento estratégico e indispensável para que se dê o salto em frente. Salto, esse, que nunca chegou. Talvez, por não ser esse o caminho.

Claro que é importante que haja estradas, portos, aeroportos e ferrovias. A sua prioridade não teria era de ser escolhida pelo Estado, nem essas obras representam crescimento económico, como já sabemos por experiência própria. Este depende de contas públicas equilibradas, de preferência excedentárias, e de um Estado que, interferindo pouco na economia, não a desvirtue com a intromissão de interesses que se dizem públicos, e estratégicos, mas que não passam de privados.

Estratégico é o apoio aos mais necessitados. Não investimentos que vão custar muito mais do que o inicialmente previsto, com as habituais desorçamentações, e cujo preço obrigará a mais sacrifícios. Seria importante que o país retirasse desta crise três lições essenciais: em primeiro lugar, o endividamento público, originário em grande parte do dito investimento estratégico, atrofia a economia e a vidas das pessoas. Destrói-nos. Em segundo lugar, o investimento público, principalmente em larga escala, retira crédito aos privados que deixam de poder investir. Fá-lo através de impostos, que têm de ser altos; da dívida que gera desconfiança e de um acesso ao crédito bancário que se torna mais difícil.

Por fim, que o investimento escolhido pelo Estado é ditado por motivos políticos. A incerteza que daí advém é razão de sobra para que receemos o que aí vem. Veja-se, a título de exemplo, o que já sucedeu com este plano agora apresentado pelo governo, onde inicialmente se contavam 30 projectos prioritários que rapidamente passaram a 59. Como é que se define prioridade? É económica; é financeira, ou é política? Se não há critérios objectivos, não há confiança económica. As pessoas sofreram demasiado para que tenha sido em vão.

No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no jornal i. O socialismo pressupõe consumismo e endividamento.

O socialismo e a dívida

É comum dizer-se que a crise se deveu às políticas neoliberais que desregulamentaram a actividade financeira. É certo que houve irresponsabilidade, e não apenas dos estados. Mas o erro desta concepção está na própria separação entre estado e mercados financeiros; entre dívida pública e dívida privada.

Nos anos 70, as democracias ocidentais estavam em crise. A estagnação económica e a inflação não ajudavam e as pressões sociais acentuavam-se. O que se fez nos anos 80 foi encontrar um meio de a economia voltar a crescer, sem pôr em causa o estado social. Foi assim nos EUA, no Reino Unido e até em França, com Mitterrand.

O discurso político maioritário é tão à esquerda que denomina de neoliberalismo aquilo que é neo-socialismo. Na verdade, a desregulamentação da actividade financeira, a dívida pública, a par com um aumento da dívida privada, foi o meio encontrado para se ter o crescimento económico indispensável para financiar o estado. O estado que se manteve presente, omitindo-se quando lhe covinha e continuando activo na concessão de monopólios e na aquisição do dinheiro necessário para o investimento público que garantia votos.

Como referiu o Ricardo Campelo Magalhães no blogue O Insurgente, o liberalismo defende a inexistência de dívida pública. Só assim se podem ter impostos baixos. Baixar impostos, incentivar o consumo, fazendo da dívida o motor da economia, não é liberalismo, mas neo-socialismo. Dada a dimensão do estado, o socialismo de hoje depende do endividamento.

Obituário da esperança socialista

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“Uma grande data para França, um novo início para a Europa e uma nova esperança para o mundo”. Foi assim que François Hollande qualificou a sua própria eleição, em Maio de 2012. A declaração tinha tudo para dar asneira. França já não é o centro do mundo, muito embora só os franceses disso não se tenham apercebido. E a megalomania de Hollande colidiria inevitavelmente com a realidade, sobretudo numa União Europeia (UE) pouco dada a euforias. Assim foi. E a queda fez um estrondo.

Na UE, em menos de um mês, ficou claro que Hollande não conseguiria renegociar o Tratado Orçamental Europeu, impor as eurobonds ou vencer a austeridade. No mundo, só os seus escapes nocturnos o tornaram popular. E, em França, a falta de alternativas à austeridade (principal promessa eleitoral) nunca lhe foi perdoada. Compreende-se – expectativas desmesuradas geram desilusões inultrapassáveis. Até porque esse foi apenas o maior de uma longa lista de fracassos. É que Hollande lida hoje com a necessidade de cortar 50 mil milhões de euros na despesa pública até 2017. Desdobra-se em explicações para os sucessivos pedidos de flexibilização das metas do défice (vem aí o terceiro em apenas 22 meses). E observa a subida do desemprego e da dívida pública para uns perigosos 95% do PIB. A derrota do PS francês nas eleições municipais – sem paralelo na história – não causa espanto.

A vantagem dessa derrota histórica é que tornou inequívoco o fracasso político de Hollande. Já nem o próprio o contesta. E após dois anos em que foi vítima da ilusão que ele próprio criou – a de que era a voz da alternativa à austeridade – o presidente francês tenta agora arranjar a sua saída limpa. Como? Desistindo. Das suas ideias, das suas promessas e, no fundo, de si próprio. É o que significa a nomeação de Manuel Valls para primeiro-ministro. Conhecido em França como um “socialista de direita” – defendeu a criação de um ministério da economia franco-alemão, preocupa-se com o que pensam os mercados, acha que a esquerda deve aproximar-se mais das empresas, e não gosta da palavra “socialista” – Valls representa tudo aquilo que Hollande rejeitou.

A surpresa não é total. Por um lado, é uma escolha táctica desesperada. Sendo Valls o mais popular dos ministros do Governo que caíra e também o mais liberal dos socialistas, a sua ascensão melhora a imagem do Governo, enquanto trava os danos políticos da subida da direita. Por outro lado, é a consequência inevitável para um governante que alcançou o poder prometendo o impossível. A realidade é sempre mais forte. Virar a agulha ideológica era apenas uma questão de tempo. Derrotado e resignado, foi o que Hollande fez. E, assim, o hollandismo, a fé socialista numa alternativa à austeridade, morreu pelas mãos do seu messias.

Partindo do pressuposto que não é possível manter a esperança num homem que já nem em si mesmo acredita, seria bom que alguém avisasse os seguidores do hollandismo deste suicídio. Em particular, António José Seguro que, seguindo as pisadas de Hollande, recentemente prometia pôr fim à situação dos sem-abrigo – alguém se lembra quando, em campanha, o francês se anunciou como o futuro presidente da “justiça contra a pobreza”? A “nova primavera para os povos europeus” não chegará de Paris. Nem chegará pelos socialistas. Simplesmente, não chegará. Hollande aceitou-o. Está na hora de Seguro o fazer.

[publicado no i]

Leitura dominical

O mistério da fé, a opinião de Alberto Gonçalves no DN.

António José Seguro vive aflitíssimo com as “questões essenciais”, ou os “assuntos que realmente interessam aos portugueses”. E a prova de que não se trata de conversa fiada é o projecto de lei agora apresentado pelo PS no Parlamento, com vista a proibir os sacos plásticos gratuitos no comércio, a bem do ambiente e dos consumidores. Gosto principalmente da preocupação com os consumidores, que se têm visto forçados a trazer as compras do supermercado em sacos providenciados à borla, com todos os desgostos daí resultantes: se, de acordo com a disposição da maioria neoliberal, o projecto for aprovado, esse será um problema a menos. Outro problema a menos será a utilidade dos deputados, autarcas, dirigentes e militantes de partidos mortinhos por proibir coisas, que até aqui ninguém sabia para que serviam e que daqui em diante poderão servir para nos levar as compras ao parque de estacionamento.

Contas à PS: é preciso uma Europa mais solidária e participativa

Contas ajustadas à  imagem e personalidade do Tó-Zero, o inseguro.

PS com erro de 3,6 milhões de euros nas contas

As contas do PS vivem dias de vacas magras desde que Seguro dirige o partido.

Sou claramente uma criançofóbica.

Eu começo por apresentar o meu protesto pela sucessão vertiginosa de assuntos que envolvem a criançada que têm aparecido nos blogues e jornais, nem dando tempo para uma mãe com compulsão opinativa vir aqui dizer de sua justiça.

Começando pelo mais recente. Daniel Oliveira escreve outro texto exemplar (isto começa a ser preocupante) sobre a mania irresponsável de muitos pais recusarem vacinar os filhos e do ressurgimento de doenças a que isso tem levado (ainda há pouco tempo houve um surto de sarampo em Nova Iorque). De facto este é um assunto que está na fronteira entre aquilo que deve ser a proteção do estado às crianças e o espaço de decisão dos pais no que aos filhos diz respeito e aceito que as opiniões sejam diferentes. Eu estou pela obrigatoriedade da vacinação. Não tanto pelos benefícios coletivos que isso traz, mas pela proteção às crianças. E não vejo que isto belisque o liberalismo; os pais não devem poder tomar decisões que sejam altamente lesivas para os seus filhos, como é claramente o caso da recusa da vacinação. Por muito elitistas que sejam, não deve ser permitido aos pais pôr deliberadamente em risco a saúde dos filhos.

Agora a polémica que opôs o João Miguel Tavares à Pipoca Mais Doce, com contributo da Inês Teotónio Pereira. E estou do lado da Pipoca. Mas claro que os hoteis devem poder não aceitar crianças, segundo a sua política comercial. Tal como devem poder aceitar só casais (há muitos hoteis por esse mundo fora que estão especializados em férias românticas e não aceitam pessoas sozinhas, nem trios, nem, lá está, crianças, só mesmo casais). E o mesmo digo para restaurantes. Imaginem um restaurante que se especializa em despedidas de solteira e só aceita grupos de mulheres para lá tomarem as suas refeições. Também não pode? Tem de aceitar homens e crianças? Tal como há hoteis que se especializam em férias (ou fins de semana) para pessoas com mais de 15 anos e, por isso, não aceitam crianças, também os há – e em muito maior número – que se destinam ao imenso mercado das famílias. Não estamos propriamente num cenário em que os pobres pais não conseguem encontrar um hotel que acolha os seus rebentos. Temos mesmo de começar com conversa de discriminação à conta disto? E porque paramos nos hoteis? Ou nos restaurantes? Porque não aplicar esta mania não-discriminatória a tudo? Por exemplo um spa. Tendo as vantagens das massagens para bebés sido bastante difundidas nos últimos anos, fica claro que um spa não se pode destinar apenas a tratamentos de bem-estar para adultos; é obrigatório que faça massagens a crianças. Um spa geralmente tem um ambiente relaxado e silencioso que combina mal com o barulho dos bebés? Pois temos pena, discriminar os bebés é que não pode ser. E as residências para idosos que têm aparecido pelo país? Presumo que qualquer lar de terceira idade deva ser obrigado a aceitar um rapaz de 40 anos de boa saúde que lá queira passar uma temporada, não? E uma loja de roupa? Porque diabo uma loja de roupa de crianças pode existir nas versões atuais? Ficamos quedos perante esta discriminação de adultos? E os cabeleireiros para adultos onde nāo há quem saiba cortar o cabelo a crianças irrequietas? É fechar. E aquelas fotógrafas que se especializam em grávidas e discriminam as restantes mulheres? Inaceitável.  Mais uma – esta tem muito potencial fraturante -, e as lojas de roupa feminina que só têm números para mulheres magras?

O passo lógico a seguir a isto tudo? Registar na constituição como direito fundamental a dormida em hoteis, idas aos spas e aos restaurantes e por aí fora.  E fazer um pronunciamento de inconstitucionalidade para as orientaçōes comerciais das empresas que se destinam a nichos de mercado. Em Portugal, uma empresa ou serve toda a gente ou vá para países amigos da discriminaçāo comercial (e do bom senso).

O mundo – e a política – são maiores do que o quarto

O texto do Daniel Oliveira (a que cheguei através do facebook do Bruno Mascarenhas Garcia) é o que de mais inteligente se escreveu sobre estes outings que apareceram a seguir à votação da coadoção em casais do mesmo sexo. Porque a estupidez destes outings não reside apenas nas questões da privacidade. Reside também naquilo que Daniel Oliveira constata: lá por se ser homossexual não se tem de ter determinada opinião política e as pessoas não se definem (na política e em tudo o resto) exclusivamente pela sexualidade. E mais: era o que faltava alguém ter a obrigação de andar a declarar publicamente a sua orientação sexual, sob pena de acusação de hipocrisia ou de cobardia se não o fizer, como se ser homossexual tornasse um indivíduo devedor a outros que com ele partilham a orientação sexual. Não aceitar isto é, de facto, uma perseguição aos homossexuais.

No Fio da Navalha

A saída de Mário Crespo da SIC Notícias e a massificação político-partidária dos canais noticiosos portugueses, é o tema do meu artigo desta semana no jornal i.

Os partidos políticos e a informação

Mário Crespo deixou a SIC Notícias. Fê-lo de forma emocionada, visando impressionar. Na parte que me toca, aprecio o jornalismo claro e clarificador. Informar não é apenas relatar. Implica pôr os factos no contexto, ou seja, dar-lhes um significado. Por isso não acredito no jornalismo que se quer isento. E, olhando para o seu percurso, podemos concluir que Mário Crespo também não.

Dito isto, devo referir que não apreciava o Jornal das 9. Por vezes os convidados interessantes eram inteligentemente conduzidos numa conversa de conteúdo e forma raras em Portugal. Pelo menos na televisão. Fora isso, o Jornal das 9 não fugiu à massificação político-partidária que domina os canais noticiosos portugueses, reduzindo-os a um espaço de debate estéril.

Olhemos para a BBC News e a France 24, que são os internacionais que acompanho com mais frequência. Ao contrário do que se passa nestes canais, através dos quais sabemos o que acontece por esse mundo fora, quem siga a informação televisiva em Portugal fica com a ideia de que estamos sozinhos no mundo. Façam a experiência e verão que, tirando as catástrofes, Portugal continua orgulhosamente só.

A África francófona combate o terrorismo islâmico, enquanto os equilíbrios na Ásia estão a mudar. A América já não é a mesma. O mundo é enorme, mas a televisão portuguesa só fala de partidos. Gostava de Mário Crespo. Infelizmente, ele não fez, no Jornal das 9, a diferença em favor de uma informação mais adequada ao mundo em que vivemos.

Derrota esmagadora da esquerda nas eleições municipais em França

Os resultados da segunda volta das eleições municipais francesas confirmam e acentuam a derrota esmagadora do Partido Socialista: Municipales : la déroute se confirme pour le PS

Une abstention toujours forte, de nouvelles mairies Front national, de grandes villes perdues par les socialistes : le second tour des municipales accentue les tendances du premier.

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Leitura dominical

A pobreza observada, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Segundo dados do INE, a taxa de risco de pobreza em Portugal aumentou em 2012 para 18,7%. Dito assim, parece justificado o alarme geral e a presença nas televisões de estudiosos aflitos. Porém, ao acrescentar-se, de modo a acentuar as sombras, que a taxa é a mais elevada desde 2005, obtém-se o efeito inverso ao desejado e a coisa muda de figura. Se não erro, em 2005 os poderes públicos tinham acabado de construir uma resma de úteis campos da bola (e organizado o “melhor Europeu da História”), planeado o TGV e prometido o futuro aeroporto de Lisboa, entre outros desígnios nacionais que nos haveriam de conduzir à felicidade eterna. Os tempos, pois, eram risonhos, tão risonhos que o facto de o número de pobres de então superar o actual não incomodava ninguém, ou quase ninguém. E achava-se importantíssimo lembrar que os portugueses, incluindo os menos afortunados, não são números: são pessoas.

Infelizmente, as pessoas em causa vêem-se transformadas em números logo que os seus alegados paladinos necessitam de agitar estatísticas. As dramáticas condições de vida de perto de dois milhões de cidadãos, de resto uma quantidade relativamente estável ao longo da última década, constituem a garantia de uma vida desafogada para as centenas ou milhares que “combatem” a pobreza como se o salário deles dependesse disso.

E o engraçado é que depende. Não falo dos sindicatos, que há muito desistiram de investir conversa fiada nos desvalidos e passaram a ocupar-se dos funcionários do Estado. Nem falo das organizações caritativas, religiosas ou laicas, as quais, com boas ou duvidosas intenções, conseguem alimentar e vestir quem precisa. Falo das fundações, redes, associações e “observatórios” (?) dedicados, assaz naturalmente, a observar a desigualdade e a pobreza – à distância, claro.

Não gostaria de ofender essas prestimosas entidades, mas desconfio do empenho em salvar os pobres quando os salvadores carecem dos mesmos para se alimentar, vestir, pagar a renda, viajar (os voos para reuniões em Bruxelas são indispensáveis) e, em suma, existir. Se não faz sentido um observador de pássaros pretender dizimar as populações de rouxinóis, estorninhos e toutinegras, também não se compreenderia que os observadores da pobreza desejassem genuinamente a erradicação desta. Ou, se quisermos um exemplo familiar ao capitalismo “selvagem” que tanta indignação suscita, seria estranhíssimo que a Pizza Hut se mostrasse preocupada com o avolumar de apreciadores de queijo derretido.

Donde a perversidade da retórica em voga: espreita-se o “telejornal” e leva-se com “técnicos” autodesignados para “analisar” os pobres (da maneira que se analisa os aminoácidos), enquanto desfiam percentagens que “provam” o respectivo crescimento (a pobreza, nova ou velha, envergonhada ou indecente, escondida ou escancarada, cresce independentemente das circunstâncias). A terminar, lançam meia dúzia de “conclusões”, embora sobretudo concluam a urgência em reforçar os apoios às fundações, redes, associações e “observatórios” a que pertencem. A observação da pobreza não pode ficar entregue a pés-rapados.

Entretanto, no mundo real, os pobres melhor ou pior subsistem. Por culpa do azar no berço ou na vida e da ancestral confiança na acção divina ou política, incontáveis (salvo pelo INE) desgraçados andam e sempre andaram por aí, curvados sob o peso da miséria e o olhar estudioso de oportunistas.

Laughing out very loud: crise diplomática porque se chamou fáceis às polacas

Ainda não parei de rir desde que dei há minutos com esta reação ao texto do Henrique Raposo (via Paulo Pinto Mascarenhas e, nos inícios dos inícios, o João Villalobos). Vamos lá por partes. Também não gostei do texto do Henrique. Não por causa da facilidade comparativa mas por se dizer que as portuguesas se arranjam pouco. O Henrique correu o risco de levar com um e-mail a chamar-lhe nomes ou de uma conversa com a sua mulher a encomendar-lhe uma descompustura, se não mesmo a aconselhá-la a uma greve de sexo, até que o Henrique escrevesse que as mulheres portuguesas são perfeitas, conseguem sem esforço o equlíbrio entre o elegante e o sexy e por aí adiante. Vamos por partes, e resumidamente, que tenho pouco tempo.

Alínea a. Obrigada, embaixada da Polónia. Fizeram o meu dia.

Alínea b. As mulheres são objetos sexuais. (Os homens também.) O problema não está em serem objetos sexuais. Está em serem apenas vistas e tratadas como objetos sexuais. (Tal como há problema em serem vistas e tratadas como seres assexuados existentes para darem filhos ao seu marido, à sua religião ou ao seu país.)

Alínea c. Estaremos muito mal quando os homens deixarem de ver as mulheres como objectos sexuais. (E o mesmo com os géneros ao contrário.) (Link via Ana Margarida Craveiro.)

Alínea d. É mesmo hilariante que alguém acuse o Henrique – que, refira-se, não fez qualquer juízo negativo sobre as polacas – de sexismo ao mesmo tempo que se empenha em defender a virtude sexual das mulheres do seu país. Bye bye revolução sexual.

Alínea e. Se a diplomacia portuguesa alguma vez se deparar com acusações de facilidade às mulheres portuguesas, façam-me o favor de não gastarem o dinheiro dos contribuintes com reações a isso.

Acrescento ali para a alínea d: estão mesmo a ver que, se alguma cronista de um jornal de referência escrevesse que os polacos são uns garanhões sempre prontos a satisfazer o mulherio, a embaixada da Polónia também reagiria do mesmo modo, não estão?

Revelação e choque

Vladimir Putin

Em discurso na Duma no qual Vladimir Putin assinalou o momento histórico da anexação da Crimeia, não explicou a presença daquelas pessoas vestidas de verde que da Crimeia nos entravam televisão dentro e que não aparentavam serem adeptos de uma qualquer claque armada do Sporting, Celtic ou Moreirense. O Presidente russo, na altura, explicou que “as forças militares não entraram na Crimeia, já lá estavam ali em consequência de um tratado internacional. Falamos de 25 mil soldados.”  Hoje, o mesmo Putin realça o corajoso comportamento dos militares russos. O homem é excepcional.

A anexação de Putin e o estado da russofonia

More than 1,500 rallied on Independence Day in Minsk on March 25, carrying Belarusian and Ukrainian flags.

A ligação da Bielorrússia à Rússia é proveitosa dada a política de baixo preço de gás e combustíveis russos. Alexander Lukahsenko continua a administrar o país como se da sua casa se tratasse: sem um único opositor no Parlamento. Também aqui Alexander Lukahsenko será o ditador em exercício…enquanto a Rússia quiser.  Não foi preciso esperar muito para ver Alexander Lukashenko exprimir o apoio necessário à Rússia e permitir na sua coutada pessoal uma manifestação de apoio à Ucrânia. Com uma participação diminuta, não deixa de ser a maior desde a contestação interna, em 2011. Esta manifestação só é possível com a permissão de  Lukashenko. Algo está podre no império russófono.

Costumes liberais e fait-divers II

All Men In North Korea Are Now Reportedly Required to Get the Same Haircut as Kim Jong Un

Sabemos que a crítica social dirigida à Coreia do Norte não é mesmo nada inocente. Espero que a crítica fashion-capilar o seja.