Revolução francesa

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Revolução francesa

A França tem sido muito criticada pela sua imobilidade económica e política. É muito comum dizer-se que os franceses estagnaram perante os desafios que os assolam há vários anos. Paralisados, entorpecidos com a crueldade de um mundo que não se revê neles, os franceses enfiaram a cabeça na areia e ignoram o que se passa à sua volta, mesmo quando dentro das suas fronteiras. Mas isso já não é verdade.

Pelo menos desde há uns tempos a esta parte, a França está a reagir. E o rumo dessa reacção tem tanto de interessante quanto de relevante para o debate político português. Na verdade, a cultura política do nosso actual regime, e da geração que o moldou à sua imagem e semelhança, deve muito da sua essência à experiência, percepção e modo de pensar francês.

São vários os exemplos dessa mudança, desde as continuadas provocações de Éric Zemmour que culminaram com a publicação, em 2014, do seu último livro, Le Suicide français, no qual o autor culpa a geração de 68 pelo declínio do Estado francês e pelos problemas sociais, e raciais, que assolam aquele país. Mas também o filósofo Alain Finkielkraut com as suas críticas ao relativismo, ao progressismo e, novamente, ao Maio de 68.

A revista Le Point, cujos editoriais do seu director Franz-Olivier Giesbert têm um forte pendor liberal, fez há semanas primeira página deste assunto. Não se limitou a referenciar os líderes mais mediáticos deste fenómeno, mas apresentou outras individualidades que fazem a nova geração, bem como outras tendências dentro do, podemos defini-lo assim, movimento. Porque é disso que se trata: de uma verdadeira deslocação do discurso político francês para a direita.

Os partidos de direita, neste caso a UMP e o UDI, este fundado há pouco mais de dois anos por Jean-Louis Borloo, ainda não encontraram a melhor forma de integrar no seu discurso político o novo pensamento da direita. Mas será uma questão de tempo. O certo é que a força motora do debate político francês já não se joga à esquerda. A França do Maio de 68 acabou.

Não se espere, no entanto, grande originalidade. Afinal, trata-se da França especialista em revoluções que, sabemos também por experiência própria, mudam pouca coisa ou quase nada. Tirando alguns sector mais liberais, os intelectuais franceses que estão a levantar a voz em nome da direita, apelam ao conceito de um Estado forte que se imponha a todos.

As consequências em Portugal são evidentes, pois muito brevemente a esquerda portuguesa ficará politicamente órfã. Talvez por isso, o que se passa em Paris não seja notícia em Lisboa, o que revela o quanto esta nova realidade afectará o nosso regime. Aliás, se há político francês que interessa seguir é Manuel Valls. É que, ou o PS de António Costa deriva à esquerda, ou o líder do PSF é um bom prenúncio das escolhas ingratas que terão de ser tomadas no Largo do Rato.

Palavras e ventos de paz

IRAN-TURKEY-DIPLOMACY-KHAMENEI-ERDOGAN 

Turkey’s Erdogan says can’t tolerate Iran bid to dominate Middle East

Turkish President Tayyip Erdogan accused Iran on Thursday of trying to dominate the Middle East and said its efforts have begun annoying Ankara, as well as Saudi Arabia and Gulf Arab countries.

Turkey earlier said it supports the Saudi-led military operation against Houthi rebels in Yemen and called on the militia group and its “foreign supporters” to abandon acts which threaten peace and security in the region.

“Iran is trying to dominate the region,” said Erdogan, who is due to visit Tehran in early April. “Could this be allowed? This has begun annoying us, Saudi Arabia and the Gulf countries. This is really not tolerable and Iran has to see this,” he added in a press conference.

 

Entretanto, as reformas continuam a ser implantadas a bom ritmo.

Barrigas e peitos de aluguer

O meu texto de ontem no Observador sobre maternidade e amamentação de substituição.

‘A vida moderna está cheia de perigos. Isto é o que deve ter pensado Carrie Bradshaw, a personagem da série televisiva O Sexo e a Cidade, quando, num encontro casual nas ruas de Nova Iorque com um casal de gays, estes lhe propuseram o fornecimento de um óvulo. Queriam ter filhos, de espermatozóides não tinham falta, a barriga de aluguer já estava contratada e Carrie, achavam, produzia óvulos de boa qualidade. A proposta terminou com a entrega a Carrie do cartão de um deles: a escritora que lhes ligasse se afinal resolvesse alinhar.

Bom, tanto pragmatismo no meio da azáfama nova-iorquina tira romantismo à ideia de produção de descendência. Tal como as notícias dos profícuos dadores de esperma que acabam transmitindo o seu sorriso a largas dezenas de filhos. Ou a clínica de esperma dinamarquesa que tem exportado ‘bebés vikings’ para todo o mundo. Ou os filhos do esperma anónimo (no caso da Grã-Bretanha, não anónimo) que em adultos vão à procura de quem lhes deu metade do DNA.

Mas, em boa verdade, uma gravidez resultante de um preservativo que se rompeu num caso de uma noite também não é romântica. E um casal com problemas de fertilidade que se dedica mês após mês ao método tradicional de conceção de crianças acaba usando mais teimosia e voluntarismo do que desejo ou romantismo. Mais: o casamento por amor é uma realidade com pouco mais de um século e sempre houve numerosos filhos fora do casamento; não vale a pena exigirmos agora purismos às conceções que quantas vezes ocorreram distantes do ideal.’

O resto está aqui.

 

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje ‘i’.

A defesa da Europa

Foi há poucos dias, e perante a Comissão Europeia, que Manuel Valls apelou a que os 28 países da União Europeia (UE) se unissem e comparticipassem no custo da luta contra o terrorismo. Perante o esforço que o governo francês para fazer frente a esta ameaça, o primeiro–ministro francês chegou mesmo a dizer que “l’armée européenne existe, c’est la France”.

Quem diria. Quem diria há 15 anos que ouviríamos a França falar deste modo, chamando atenção para a necessidade de a Europa financiar a sua defesa. Na verdade, não é só o terrorismo que a ameaça. Os EUA têm outros desafios na Ásia e no Pacífico e a Rússia está novamente a levantar um muro que a separa do velho continente.

Sem esquecermos a Grécia, que, saindo do euro, cairá num limbo para o qual arrastará aquela zona do Mediterrâneo e afastará a Turquia do Ocidente. Não é por acaso que Obama se preocupa com a situação grega e apela a que a UE reconsidere  a cobrança da dívida daquele país.

Aquilo que os europeus estão a começar a perceber é que o guarda-chuva norte-americano já não é suficiente. A Europa precisa de fazer por si. O que cria um desafio militar acrescido, pois implica um aumento da despesa pública, precisamente quando a maioria dos estados europeus estão fortemente endividados. Como é que países com já tão pouca margem de manobra vão financiar o tão necessário armamento, aumentando o orçamento no sector da defesa? Como é que uma Europa atulhada em despesa investe na defesa?

Primavera persa, parte enésima

Youness Asakeree

Youness Asakeree

Iranian vendor dies after setting himself on fire

Youness Asakere, an Iranian fruit vendor who set himself on fire in front of the Khoramshahr municipality in protest after his fruit stand was confiscated by authorities, died March 22. His death, and the lack of broader attention by Iranian society, has stirred many questions among activists and analysts on social media.

Os amigos são para as ocasiões

Reforma do Mapa Judiciário

A lista VIP de Pinto Monteiro.

O novo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) ainda não tomou posse, mas lança já uma forte acusação. António Ventinhas diz que Pinto Monteiro não apoiava investigações a pessoas poderosas.

É uma acusação direta ao antigo Procurador-Geral da República Pinto Monteiro.

O recém-eleito presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, António Ventinhas, diz que o antigo PGR não apoiava investigações a pessoas poderosas e que muitos procuradores envolvidos em processos mediáticos enfrentavam processos disciplinares.

Na entrevista à jornalista da Antena 1 Cristina Santos, António Ventinhas afirma que o Ministério Público tem agora mais apoio por parte da Procuradoria. Algo que não acontecia no tempo de Pinto Monteiro.

 

YDreams: uma estória empresarial portuguesa

Porque falhou a YDreams? As explicações de António Câmara

Conta que houve o falhanço de expectativas que não teve a adequada resposta. A conjuntura também não ajudou. Estávamos em 2009 e as expectativas de vendas chegaram a ser de 20 milhões de euros. Estava tudo contratado e adjudicado. Principal cliente: o Estado.

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Leitura dominical

Agitação social, a opinião de Alberto Gonçalves no DN.

Exagera-se muito quando se acusa os portugueses de falta de consciência cívica. Só esta semana houve três admiráveis exemplos da nossa apetência para colocar o dedo na ferida, pôr os pontos nos is e repetir clichés. O primeiro foi o Congresso da Cidadania, Ruptura e Utopia, organizado pela Associação 25 de Abril, para pensar o estado do país. Naturalmente, pensou-se que o país vai mal. Entre os participantes, brilharam nomes como Marinho e Pinto (é um único indivíduo), Sampaio da Nóvoa (autodesignado “presidenciável”), o Sr. César dos Açores, o penteado de Paulo Morais e aquele rapaz do partido Livre. Melhor é difícil. Mas não impossível: o tal Dr. Nóvoa confessou dever a Abril tudo o que é (?) e declarou chegado “o tempo da coragem e acção”. Garcia Pereira, aplaudido com entusiasmo, mostrou–se contra a prisão de José Sócrates. E Vasco Lourenço, promotor da coisa, exigiu a “autoridade moral de quem nos dirige” e prometeu pela enésima ocasião nova insurgência, armada ou não. Em suma, ou o povo desata a votar nas sugestões deixadas pelo Congresso da Cidadania, Ruptura e Etc., ou o povo será endireitado à força. Se a democracia não aprendeu os democráticos valores de Abril, a democracia precisa assaz compreensivelmente de uma lição.

O segundo exemplo de indignação justa prende-se com o movimento Não Tap os Olhos, trocadilho que diz tudo e que só por si merecia um prémio de criatividade. O movimento juntou no Coliseu dos Recreios artistas que se opõem à privatização da companhia aérea. Uma fadista explicou que a TAP não pode ser privatizada porque é um “valor de bandeira”. Um fadista esclareceu que a TAP não pode ser privatizada porque um cunhado dele trabalhou lá. Carlos Mendes, Jorge Palma e Sérgio Godinho desfilaram sucessos. Maria do Céu Guerra cometeu a leitura de um poema. António-Pedro Vasconcelos falou em “delapidação do património”, ficando por apurar se se referia ao património da TAP ou ao dos contribuintes que a financiam indirectamente e ao dos passageiros que directamente pagam várias vezes o preço de um bilhete low cost. Certo é que cabe a cada português assegurar que os artistas citados não descem à ignomínia de viajar em empresas estrangeiras. Caso contrário, os artistas juntam-se aos restantes e hipotéticos 75 mil subscritores de uma petição à AR e, de modo a provar que não brincam com o dinheiro alheio, compram a TAP só para eles.

Porém, o maior exemplo de levantamento popular e espontâneo, até pela grandeza da causa, é o menos noticiado. Falo evidentemente do Movimento Cívico José Sócrates, Sempre, com vírgula e tudo. O MCJS,S foi fundado por um reformado da PSP, uma funcionária autárquica, uma antiga professora e o inevitável empresário da Covilhã, cujos filhos andaram, julgo que de livre vontade, ao colo do ex-primeiro-ministro. O grupo convenceu-se de que Sócrates é um “preso político”, encarcerado por um “plano da direita” e mantido fechado por “forças ocultas”. Nem de propósito, respondem com um hino de apoio que inclui versos tão belos quanto: “Liberdade não morre/Nem silêncio pesado/De um povo a entristecer/Por te saber tão magoado”.

Afinal, sob as grilhetas da troika e a opressão reaccionária, Portugal agita-se. E só um desmancha-prazeres diria que, para isto, mais valia estar quieto.

O Estado indiscreto é uma ameaça à liberdade e à justiça

A lista VIP: o que é uma coisa séria? Por Rui Ramos.

Esta caso da “lista VIP” lembrou-nos que o Estado português tem pelo menos uma coisa em comum com Polichinelo: a incapacidade de guardar um segredo. Dito isto, pode continuar a não parecer uma coisa séria. Não será o sigilo uma relíquia do passado, impossível de honrar na era dos “leaks” e dos “hackers”? Não estará a solução para a falta de confidencialidade em abolir a confidencialidade?

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A bestialidade de xiitas & sunitas

mesquita

 

Na última Sexta-feira, um grupo de idiotas carniceiros decidiu celebrar o dia santo do Islão, assassinando o maior número de pessoas. Os bombistas suicidas escolheram como alvo duas mesquitas xiitas. Morreram 142 pessoas. Há mais sírias para além da Síria.

Yemen is a battlefield for Saudi Arabia and Iran

The latest atrocity in Yemen, which claimed nearly 150 lives on Friday, appears part of a proxy war between the Middle East’s two superpowers

 

Leitura complementar: Aviso de 2004, do Rei Abdullah da Jordânia.

A “eficácia” da brutalidade

Brutalidade Há dias, no Observador, David Dinis escreveu um artigo sobre a polémica em torno da “lista de contribuintes VIP” que tem animado a classe política e os telejornais perante a indiferença ou incompreensão generalizadas da população. Após algumas considerações a propósito do caso, Dinis (pessoa que, pelo que leio e ouço, tenho em boa conta) escreve que “o Fisco é um dos trunfos maiores do ajustamento e modernização do Estado que temos para apresentar” tanto “aos credores” como “aos contribuintes” e que por isso “convinha muito não estragar o retrato”. Li e não acreditei no que li. Até que, vasculhando aquilo a que se convencionou chamar “as redes sociais”, deparei com várias comentários lamentando a circunstância deste caso vir “manchar” a “credibilidade” da Autoridade Tributária, “uma das poucas coisas que funcionam bem em Portugal”, dizia um dos opinadores.

É verdade que os vários governos que nos têm calhado em sorte desde que a dra. Manuela Ferreira Leite colocou o dr. Paulo Macedo a reformar a máquina tributária insistem em vangloriar-se da acrescida “eficácia” dessa mesma máquina no combate à evasão fiscal. Mas que sucessivos governos vivam noutro mundo que não o real não me surpreende. Já que portugueses comuns que são forçados a sujeitarem-se aos ditames das gentes que alternadamente nos pastoreiam acreditem nas balelas que nos tentam impingir é algo que acho bem mais preocupante. E para acreditar que o Fisco “funciona bem” e é um exemplo do melhor que “ajustamento” trouxe requer uma credulidade a um nível que está perto do humanamente impossível.

Não deve haver indivíduo que tenha tido o infortúnio de por via do nascimento ser cidadão português que não conheça, por experiência própria ou tenebrosos relatos de terceiros, os métodos a que a Autoridade Tributária/ex-DGCI (tal como com as polícias políticas do antigamente ou os serviços secretos russos, convém mudar o nome da coisa regularmente na esperança de que o facto de tudo continuar na mesma passe despercebido) recorre para “combater a evasão fiscal”. Todos os portugueses já receberam (ou conhecem alguém que recebeu) uma carta da AT/ex-DGCI a acusá-los de uma dívida que não têm, ameaçando-os de multas, penhoras ou processos judiciais caso esta não seja saldada, geralmente num prazo curto. Qualquer português que não ande a dormir sabe, mesmo sem pessoalmente ter tido o azar de passar por um semelhante calvário, como a AT/ex-DGCI (ou a Segurança Social) gosta de enviar notificações sobre situações fiscais de incumprimento que não correspondem à realidade do contribuinte ameaçado, na esperança de que ou a incompreensão do que lhe está a ser exigido (o português dessas notificações é deliberadamente ilegível) ou o receio dos custos inerentes a um longo processo no tribunal o levem a pagar sem protestar. Na prática, a AT/ex-DGCI declara o cidadão culpado até prova em contrário, e espera que por ignorância ou medo, o coitado admita a culpa ou não tente sequer provar a inocência, e se limite a “pagar e calar”, de forma a que o Estado vá conseguindo amealhar uns tostões aqui e ali para alimentar o “monstro” em que se tornou.

Mesmo o caso das “facturas” e a maior frequência com que os portugueses as pedem está longe de ser o sucesso que o Governo gosta de propagandear e em que David Dinis aparentemente acredita: convém não esquecer que os portugueses com pequenos negócios foram forçados a adquirir equipamento especial para processar essas facturas electronicamente, e que passados poucos meses foram novamente forçados a adquirir a versão actualizada, tudo do seu bolso. Em muitos casos (e só aqui em Caxias, onde vivo, me lembro de dois, e podem ter sido mais), donos de “pequenos estabelecimentos comerciais” tiveram de fechar o seu negócio por não conseguirem comportar esses custos. Os liberais-em-nome-apenas que proliferam por aí dirão que um negócio que não tem dinheiro suficiente para custos desses é um negócio que não tem condições para existir, mas mostram apenas a sua ignorância: não percebem, primeiro, que esse pequeno negócio tinha pelo menos a vantagem de dar trabalho a pessoas que, sem ele, ficam desempregadas. E em segundo lugar, ignoram que quando o outro senhor austríaco falou de “destruição criativa”, falava dos negócios que desapareciam por causa do mercado, não devido à imposição artificial de barreiras à livre interacção das pessoas pelo Estado. A destruição promovida pela AT/ex-DGCI, como qualquer destruição provocada pela visível e pesada mão do Estado, é tudo menos “criativa”.

A “eficácia” do Fisco é, na realidade, muito pouco eficaz. Consegue cobrar mais, é verdade, mas cobra mais de forma indiferenciada, independentemente das pessoas efectivamente deverem ou não. Consegue cobrar mais, porque aterroriza os cidadãos a pagarem o que a AT/ex-DGIC lhes diz que devem antes de terem ainda mais complicações e para que não se arrisquem a ter de pagar ainda mais, por muito inocentes que sejam à partida. Consegue cobrar mais, não por actuar de forma mais “moderna”, mas por recorrer à brutalidade. Ao contrário do que David Dinis escreve, não há qualquer perigo de se “estragar o retrato”. Há muito que a pintura está já bem borrada.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’ é sobre o dia do pai.

Dia do Pai

Na edição do seu 90.o aniversário, a revista “The New Yorker” publicou um pequeno artigo sobre duas crianças, uma de seis e outra de dez anos, que foram vistas a andar sozinhas no estado do Maryland. Várias pessoas ficaram alarmadas e chamaram a polícia. Esta levou-as para casa, onde repreenderam o pai, Alexander Meitiv, físico no National Institutes of Health, com sede naquele Estado.

Os pais das crianças, que fazem parte de um movimento chamado Free Range Kids (FRK), sabiam que os filhos vinham nesse dia a pé para casa, seguindo um percurso anteriormente feito com eles. O FRK considera que os pais actuais estão sujeitos a uma cultura do medo histérica que vê um raptor em cada esquina. Assim, as crianças devem aprender a ser responsáveis, independentes e a crescer em liberdade. Apesar disso, a agência governamental Child Protective Services (CPS) considerou os pais responsáveis de negligência infundada. É preciso um certo esforço para perceber o que significa, porque o objectivo é precisamente ser indecifrável.

Com seis anos eu comecei por comprar o pão e fazer pequenas compras no supermercado perto de casa. Levava dinheiro, pagava e trazia o troco. Graças aos meus pais, que não quiseram ter a preguiça de me proteger em demasia, fui educado a ser responsável, conhecendo os riscos. A paranóia de agora, fomentada por entidades públicas, que impede os pais de educarem os seu filhos como desejam, evidencia o risco em que se encontra a liberdade fundamental de ser pai e que não se corrige num dia.

Os portugueses imaginários de PS e PSD

O meu texto de ontem no Observador.

‘Nestes últimos anos temos verificado uma persistente sintonia entre PSD e PS: nenhum dos partidos entende aquela categoria que dá pelo nome de ‘os portugueses’. Os portugueses reais estão para PS e PSD mais ou menos como a lógica aristotélica para quem fez uma operação dolorosa e foi sedado com morfina. E a argúcia dos dois partidos no conhecimento de ‘os portugueses’ equipara-se ao bom senso e à capacidade de lidar por si próprio com as adversidades da vida de Bertie Wooster, de P. G. Wodehouse, que só conseguia escapar-se dos noivados contrariados, das sovas dos apaixonados das suas noivas e das armadilhas das tias pela ação de Jeeves, o mordomo.

Comecemos pelo PS. Tal como uma seita new age espera num santuário dos Andes pelas naves intergaláticas que a vai levar a dançar entre as estrelas, ou como os cubanos e os venezuelanos esperam pela abundância que traz o socialismo, os socialistas nacionais ainda estão à espera que ‘os portugueses’ se levantem violentamente contra o atual governo. Que – segundo vários socialistas, alguns deles ainda não na fase Alzheimer – fez o país regressar a níveis de pobreza piores do que os de 1974. E procurou diligentemente o empobrecimento do país (tudo porque são pessoas pérfidas que todas noites abrem garrafas de Bollinger Brut para celebrar o sofrimento generalizado da população portuguesa).’

O resto das confusões dos dois maiores partidos sobre nós, os queridos cidadãos portugueses, está aqui.

Ainda há margem para piorar

O copy/paste a que temos direito.

“(…) O jornal israelita Haaretz aponta as grandes surpresas das eleições em Israel. A primeira é (…)
Como segunda surpresa apontada pelo diário Haaretz (…)
Outra das surpresas apontadas pelo diário israelita foi (…)
De acordo com o diário Haaretz (…)
O fracasso total das sondagens é a outra das surpresas apontadas pelo diário Haaretz (…)”

O socialismo volta a funcionar

Maduro

E bem, na Venezuela.

Venezuela Is On the Brink of Collapse por Tom Rogan.

(…)The problem is that Chávez, Maduro, and company have only ever wanted personal power. They see themselves as reincarnations of Simón Bolívar. But where Bolívar opposed the tyranny of the Spanish empire, Maduro opposes the “tyranny” of free enterprise.

The Chávistas have always been crackpots, but, until recently, high oil prices enabled them to paper over their failings. No longer. Plummeting oil prices have eviscerated government budgets. In response, Maduro is doubling down on insanity. Contemplate the comrade’s magnificent crisis plan: Rather than accepting that shortages in goods are caused by his price controls and collapsed currency, Maduro blames hoarders and foreign conspirators (a favorite regime scapegoat), while he restricts shopping days. Rather than recognizing that his neglect means that medical professionals can’t replace their tools, Maduro blames greed. Rather than admitting that Mad Max criminality contributes to police corruption and low morale, Maduro rants about the ills of “individualism” and “consumerism.” Rather than tolerating scrutiny, Maduro attacks freedom of the press. Rather than pursuing dialogue with the political opponents, Maduro imprisons them and cuddles North Korea.

As I say, Chávezville is an asylum. (…)

O Insurgente goes to Mais Mulher (again)

Só agora reparei que ainda não coloquei aqui o link do vídeo da participação da Daniela Silva e minha no Mais Mulher da SIC Mulher. Aqui vai. Falámos da Grécia – novela que ainda persiste. E brevemente vai haver mais.

Acção de defesa socialista

O senhor advogado do 44 precisa de menos acção socialista e de mais e melhores conselhos em termos de asessoria de imprensa.

Notícia o Observador:

O Correio da Manhã vai interpor um processo contra o advogado de defesa de José Sócrates, João Araújo, que esta manhã aconselhou uma jornalista daquele jornal a “tomar mais banho porque cheira mal”. Tudo se passou à porta do Supremo Tribunal de Justiça, na Praça do Comércio, em Lisboa, quando o advogado do ex-primeiro-ministro saía da audiência sobre o habeas corpus que apresentou.

Perseguido por alguns jornalistas, João Araújo recusou fazer comentários. “Desampare-me a loja”, disse o advogado à jornalista Tânia Laranjo, do Correio da Manhã, que transmitiu toda a cena em direto na televisão. “A senhora devia tomar mais banho porque cheira mal”, afirmou de seguida, à medida que ia sendo questionado pela jornalista. “Esta gajada mete-me nojo”, diria ainda, sempre a ser acompanhado pela equipa de reportagem da CMTV.

 

Um balanço também ele moderado II

State Executions Rise to Two Per Day in Iran.

Executions in Iran have soared under president Rouhani, according to an Oslo-based Iranian human rights group, with an average of two now being carried out every day.

Leituras complementares: Cepticismo imoderadoUm balanço também ele moderado

Leitura dominical

O estado engraçado de António Costa, a opinião de Alberto Gonçalves no DN.

Enquanto o seu colega da Defesa ameaça abrir as fronteiras e encher a Europa de terroristas islâmicos, o Sr. Varoufakis das Finanças afirma que a sua determinação nas reuniões do Eurogrupo irrita os restantes negociadores. De facto, é assaz irritante aturar as condições de um sujeito que, caso não seja maluquinho, sabe não poder pôr nenhuma. Falta apurar se o Sr. Varoufakis regula bem. Infelizmente, a julgar pela sessão fotográfica que concedeu à revista Paris Match, o diagnóstico é sombrio.

Na sessão, o Sr. Varoufakis e a esposa, que aprecia “estar nos braços do novo herói grego” (sic), posam na casa que partilham, perdão, no “ninho de amor aos pés da Acrópole”. Quando não está a mudar de roupa (género casual) ou a saltar de alegria, o casal Varoufakis está a sorrir à mesa, posta no terraço e abrilhantada com vinho branco. Tudo muito lindo. Instado pelo repórter a falar da fama, o novo herói grego é categórico: “Desprezo o sistema do estrelato. É sempre o corolário de um défice democrático e de um défice de valores.” Fora dos retratos, que incluíram cena ao piano e à frente da estante, ficou o lendário sofrimento do povo grego, por quem o Sr. Varoufakis luta sempre que não se encontra a adiar promessas eleitorais ou a ser fotografado no ninho de amor.

Qualquer caipira do cançonetismo nacional faria – e frequentemente faz – figura igualzinha na imprensa cor-de-rosa. Mas quantos dos nossos caipiras trazem consigo o gene da revolução e de uma nova Europa? É por estas e por outras que Portugal não é a Grécia.

 

Varoufakis e a Paris Match

varoufakis_paris_matchVaroufakis faria bem melhor em arrepender-se publicamente das políticas ignorantes e irresponsáveis que defende do que de um exercício de vaidade idiota, mas inofensivo: Varoufakis arrependeu-se da sessão fotográfica do Paris Match

“Gostaria que aquela sessão fotográfica não se tivesse realizado, arrependo-me dela”, disse este domingo Yanis Varoufakis à Alpha TV, citado pelo britânico Guardian. O professor de economia de 53 anos acrescentou ainda que não concordou com a “estética” das imagens divulgadas. Já antes, no decorrer da sessão fotográfica, disse não gostar de atenção mediática: “Eu desprezo o sistema do estrelato”.

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O euro: do dogma à tragédia

O meu artigo de hoje no Observador: A Grécia e o erro de Merkel

O euro não pode ser visto como um dogma de fé europeísta nem como uma varinha mágica para impor boas práticas governativas a povos indisciplinados. Sob pena de acabar como uma tragédia.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Ler+ é possível e promove a saúde e a economia

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Devemos agradecer ao autor de Tortura em Democracia, actualmente a residir em Évora.

Várias Câmaras Municipais financiaram o livro de José Sócrates que esteve, pelo menos, um mês em primeiro lugar em todas as livrarias. O Sexta às 9 descobriu que, em Lisboa, foram emitidas faturas em nome de autarquias do norte do país que compraram este livro às dezenas, várias vezes.

Mal sob o sol

Há uns anos ouvi um reputado especialista em sondagens dizer na televisão que normalmente nos meses de maio e junho os partidos de direita subiam e os partidos de esquerda desciam (ou atenuavam a queda e atenuavam a subida). A causa, segundo o senhor, era uma reação do centro moderado às celebrações extremadas e sectárias de alguma esquerda do 25 de abril.

Se calhar este ano sucedeu um fenómeno parcecido com o dia da mulher – que comprovei eu causa ataques de nervos nos mais sensíveis sistemas neurológicos masculinos: os senhores detentores da verdade, da sensatez e da virtude necessitaram de, depois da festa do mulherio inconsciente, vir repor a ordem natural das coisas. Que nós ainda nos habituávamos à atenção dada às nossas reclamações, e ainda corríamos o risco de achar que o reclamávamos servia para alguma coisa; de volta para a cozinha e para a limpeza do pó e, nos momentos intelectuais, para a telenovela, sff. E, por isso, fomos brindadas no início da semana com a informação de João César das Neves, num texto que certamente buscou inspiração na correspondência que provavelmente troca com algum ayatollah ou, pelo menos, com o presidente Erdogan, que a emancipação das mulheres nos masculiniza e que a liberdade sexual é a causa de todos os males do mundo. (A liberdade sexual das mulheres, bem entendido, que a dos homens sempre existiu sem causar grandes transtornos às cabecinhas como as de César das Neves).

O final da semana reservou-nos um treat ainda melhor, na forma da crónica semanal do reincidente José António Saraiva no Sol. Desta vez o diretor daquilo que eu até hoje pensava ser um jornal que almejava alguma respeitabilidade (ainda que com frequência tivéssemos que caridosamente afirmar interiormente que as crónicas do inventor do saco do Expresso eram apenas seus os substitutos possíveis das sessões de psicoterapia – fruto, quiçá, de a sua mãe nem sequer se ter conseguido apaixonar pelos filhos) revela-se um leitor atento da imprensa cor de rosa e dedica-se alegremente a contar-nos a vida sentimental de uma senhora (ou o que a imprensa cor de rosa diz ser a sua vida sentimental, o que qualquer pessoa pensante sabe não ser necessariamente correspondente à realidade).

E tal fascínio a vida sentimental da senhora causa no arquiteto que ele persistiu na sua descrição pormenorizada (ou etc. – ver o parágrafo acima) apesar da canseira que tal lhe provocou (ufa – desabafa às tantas). O que mais se nota de facto é este fascínio, acompanhado do prazer que qualquer criatura da estirpe e da fase evolucional do arquiteto tem em expor – em denunciar, no fundo – uma mulher que pensa que pode andar por aí a evidenciar outra coisa que não uma reiterada castidade. Que nos sirva de lição a todas: andamos por aí a apaixonamo-nos (e a fazer sabe-se lá mais o quê) e ainda acabamos a ser objeto de crónica do eminente arquiteto. Ou – se os homens seguirem os bons exemplos deste tão luminoso estandarte da moral e do curso saudável do amor – de alguma página de um pasquim local a denunciar as aleivosas.

Bom, que o inventor do saco do Expresso (e, estou certa, de todas as coisas seminais do jornalismo português) passe grande parte da sua crónica a citar a imprensa cor de rosa não espanta – afinal é assim mantida a qualidade normal dos seus escritos. Também nem vale a pena dizer que um texto daqueles é uma canalhice, de quem não tem educação nem maneiras. Porque a pergunta que apareceu nos meus neurónios femininos, ao ler a coisa, foi: terá a senhora alguma vez recusado, de forma desdenhosa e humilhante, os avanços de José António Saraiva?

Compreender o putinismo XXI

Está, Vladimir Putin?

Está, Vladimir Putin?

The Land of Magical Thinking: Inside Putin’s Russia , por P. J. O’Rourke.

(…)Nothing Is True and Everything Is Possible. And sit back and watch the Putin regime rot.

Exigência

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Exigência

Em 1918, Thomas Mann publicou as “Considerações de um Apolítico”. Trata-se de uma apologia da Alemanha de Guilherme II, contra a França, o Reino Unido e os EUA. Contra o Ocidente, a democracia, o liberalismo económico e político. Mann definiu-se nesta obra como apolítico porque não apreciava a política. Não só a política partidária, mas tudo o que esta significava de discussão, de debate, de liberdade, porque em detrimento da ordem, da incerteza; em prejuízo da estabilidade e da previsibilidade.

Quando o escreveu, Thomas Mann era um homem literariamente instruído e já tinha publicado ‘Buddenbrooks’ e ‘Morte em Veneza’. No entanto, quanto à política e no que dizia respeito à economia não se tinha cultivado. Não sabia, nem queria saber. Foi por isso que se definiu como apolítico: alguém sem ideias políticas. E foi também por essa razão que ao longo da sua vida contradisse o que defendeu em 1918. Thomas Mann não era mal-intencionado. Pura e simplesmente, não sabia. Quis-se alhear da realidade até perceber, para o que precisou de uma guerra mundial, o perigo de ser apolítico. O perigo de entregar o poder do conhecimento a outros.

Praticamente 100 anos passaram das considerações apolíticas de Mann, mas os riscos, embora não tão graves, têm a mesma génese. Da mesma forma que Mann beneficiou da paz que o liberalismo permitiu à Europa no século XIX, também a maioria de nós adormeceu pensando que a história tinha terminado. No entanto, durante esse mesmo período, a história desenrolou-se e caiu-nos em cima.

E aquilo com que nos deparamos agora é que enquanto a maioria, à semelhança de Mann, esteve adormecida e imersa nas suas vidas, os dirigentes políticos, beneficiando desse torpor e indiferença, seguiram, tal como há um século, políticas que à primeira vista eram inofensivas, mas que quando continuadas durante anos puseram em causa o equilíbrio alcançado.

Chegámos assim a um despertar do eleitorado que foi apanhado de surpresa. Um eleitorado que, por se ter desinteressado das questões políticas durante anos, vai cometer erros. Como Mann. Mas que também vai evoluir; vai-se instruir e irá exigir políticos com um discurso que vá além do mero amealhar de receitas para serem distribuídas de acordo com critérios tantas vezes subjectivos e que encaram o Estado como um conjunto de lugares a serem ocupados.

É frequente referir-se que o eleitorado já não se revê nos partidos. Ora, e contrariamente ao que se diz, tal não sucede por falta de interesse, mas precisamente porque os cidadãos agora querem saber. Exigem. E sejamos muito directos neste ponto: o eleitorado está à procura de novas soluções; de novos caminhos que estão a ser esboçados fora da classe política. Esteja, pois, esta atenta para se actualizar e ir ao encontro de um eleitorado que já não é mais apolítico, mas começou a exigir.