A austeridade de esquerda é mesmo diferente

vitor_gaspar_mario_centeno

André Azevedo Alves: “O enorme aumento de impostos da ‘geringonça’”

A austeridade de esquerda é, no entanto, diferente. Em vez de se aplicar às “pessoas”, penaliza essencialmente os combustíveis, os automóveis e o tabaco (quem pagará a conta?). Um aumento de impostos que servirá para pagar a reposição dos salários na função pública para os níveis anteriores ao pedido de resgate externo e também a anulação dos cortes ainda em vigor nas pensões mais elevadas pagas pelo Estado.

As opções orçamentais são, obviamente, opções políticas e a este respeito a opção da “geringonça” é clara: retirar ainda mais recursos à população em geral para os canalizar para grupos com forte poder reivindicativo, nomeadamente os funcionários públicos e os pensionistas com rendimentos mais elevados.

Leitura dominical

 Os patriotas que vão acabar com a pátria, a opinião de Alberto Gonçalves no DN.

Um inglês célebre afirmou que o patriotismo é o último refúgio dos pulhas. Esqueceu-se de acrescentar que às vezes é o primeiro. Duzentos e tal anos depois, há aqui uma espécie de governo e uma espécie de maioria tão empenhados em arruinar-nos quanto em acusar de deslealdade os críticos da empreitada. É o velho método “gonçalvista” do “quem não está connosco está contra nós”, naturalmente aliado ao velho método salazarista da aversão à malévola influência “estrangeira”.

A ideia, hoje e ontem, é a de que as alucinações do PS e da extrema-esquerda, desculpem a redundância, passariam incólumes na “Europa” se não fosse a acção subversiva e o espalhafato da cáfila de “vende-pátrias” (termo curiosamente utilizado há meses pelo Avante!). Aliás, um conselheiro de Sua Ex.ª, o Senhor Primeiro-Ministro, esticou há dias a corda e a cabecinha para chamar precisamente isso aos “vendidos” que discordam desta vergonha: traidores, quase de certeza ao serviço da Alemanha.

Não admira que os jagunços do dr. Costa se prestem a tal papel. Admirável é haver jornalistas dispostos ao mesmo. No i, uma senhora com carteira profissional, Ana Sá Lopes, deixou fluir a imaginação e até lembrou a “quinta coluna” nazi, os míticos infiltrados de Berlim que, supostamente, derrotariam a partir do interior a Inglaterra na II Guerra. Nas televisões, vêem-se diversas glosas à tese por parte de comentadores isentos, liderados por Pacheco Pereira em matéria de isenção. Em alvoroço, garantem-nos que somos controlados por entidades não eleitas. E nem sequer se acalmam se lhes dermos razão e os recordarmos do 4 de Outubro.

Tudo isto a propósito do Orçamento do Estado e das respectivas exigências da Comissão Europeia. A troika, se quiserem chamar-lhe assim, reclama no fundo que gastemos de acordo com o que produzimos, ou só um pouco acima. O governo e a extrema-esquerda, se quiserem distingui-los, insiste na existência de uma alternativa à “austeridade”. Por acaso, como qualquer chefe de família perceberá, existem várias: o empréstimo a longo prazo, o roubo a curto prazo, o suicídio ou uma mistura dos três antecedida de ruidosa fanfarronice, género agarrem-me ou eles espancam-me.

Na semana anterior, o berreiro preparou o caminho. O horror suscitado em Bruxelas pelo rascunho de OE elaborado por rascunhos de economistas provocou, cá dentro, uma divertida pândega. Para consumo interno, o PS atacava a “direita” e o BE e o PCP avisavam o PS de que não tolerariam desvios à linha justa. Para consumo externo, sujeitos anónimos ameaçaram a “Europa” com referendos, “bombas atómicas” e outras armas cujo impacto era proporcional à brutal irrelevância dos guerrilheiros. Os que, por fé ou infantilidade irreversível, acreditaram nas bravatas depararam-se com uma autêntica demonstração de patriotismo: maluquinhos convencidos de que Portugal é tão maravilhoso que a União não vive sem ele. Após engraçadas correcções e vexames (de que o elogio da sra. Merkel a Passos Coelho nas barbas do dr. Costa constituiu a punch line), a CE lá tolerou o OE e os maluquinhos correram a proclamar o fim da “austeridade” e a agitar euforicamente o consentimento dos senhores da Europa, de súbito promovidos de tiranos do capital a avaliadores consagrados.

A realidade? O recurso a um arremedo da estratégia do inspirador Syriza, com os espectáveis resultados do Syriza. Através do Hélder Ferreira, que escreve no Diário Económico e que Pacheco Pereira apresentou na Quadratura do Círculo como exemplo das vozes que ultrapassam os limites (tradução: insultou os patriotas, pelo que é outro insanável traidor), soube que a negociação grega foi considerada a mais desastrada de 2015 pela Harvard Law School. Não é para menos: começa-se por falar grosso com aqueles de que se depende e termina-se a aceitar tudo e um par de botas de modo a não se ser escorraçado. Pelo meio, avança-se com esmero rumo à miséria. (…)

A descristianização e o suicídio da Europa

Viva a Vénus capitolina! Por P. Gonçalo Portocarrero de Almada.

Esconder a Vénus capitolina e outras estátuas clássicas, que são honra e glória da civilização europeia, foi uma atitude vergonhosa. Que respeito merece um país que não assume a sua cultura e valores?

Continuar a ler

As charlatanices orçamentais da “geringonça”

Artigo do André Azevedo Alves no Observador

A vontade de poder a qualquer custo de Costa depois da derrota eleitoral colocou o PS, o governo e o país reféns da extrema-esquerda. Os efeitos desse preocupante arranjo começam a tornar-se evidentes(…)

O resultado final, bem patente no duro parecer da Comissão sobre o esboço orçamental apresentado pelo Governo de António Costa, dificilmente podia ser mais claro: em poucos meses, a “geringonça” destruiu o (frágil) capital de credibilidade lenta e dolorosamente acumulado ao longo dos últimos 4 anos.

O descrédito é evidenciado desde logo na (expectável) rejeição da inacreditável tentativa de classificar como medidas temporárias a reposição de salários na função pública e a anulação dos cortes aplicados às pensões mais altas(…)

A vontade de poder a qualquer custo de António Costa depois de uma pesada derrota eleitoral colocou o PS, o governo e o país reféns da extrema-esquerda. Os efeitos desse preocupante arranjo – afinal a grande inovação da “geringonça” – começam a tornar-se demasiado evidentes. O caminho que leva das charlatanices orçamentais até uma nova bancarrota pode ser muito curto e a “geringonça” arrisca-se a sair muita cara aos portugueses.

quanto nos custa (em aumentos de impostos e de preços) o sonho de Costa?

Parte do meu texto desta semana no Observador.

‘Claro que o argumento (se alargarmos o conceito bastante para lhe dar este epíteto) é ‘aumentamos só os impostos aos «ricos» e aos bancos’. À parte essa entidade mítica que são «os ricos» por cá equivaler à classe média alta, o leitor que comprar este argumento deve ganhar juízo. Como aumentar os impostos sobre o rendimento dos «ricos» não será suficiente – não se está mesmo a ver Centeno ter força dentro do governo para impor contenção orçamental? – os impostos sobre o consumo (chegaremos ao IVA) serão chamados à liça. Já está prometido aumento no imposto de selo sobre o crédito ao consumo, no imposto sobre combustíveis e sobre tabaco.

Agora pense bem: quem vai pagar este acréscimo de imposto de selo? Quem necessita de se endividar para adquirir um certo bem de consumo ou quem consome com o seu dinheiro corrente? E quem acha que gasta em IVA (ou ISP) maior percentagem do seu rendimento? Quem ganha pouco e gasta todo o seu rendimento em consumo (porque não consegue poupar) ou quem usa 40% do seu rendimento em consumo e o resto aplica em produtos financeiros? Pois é: os impostos ao consumo penalizam mais os menores rendimentos. E o aumento do preço de TODOS os produtos (transportes públicos lá no meio) à solta no mercado, induzido pelo aumento do ISP, também afetará só «os ricos»?

Mas não haja agravos: as clientelas partidárias do PS, PCP e BE vão ter os seus rendimentos aumentados, sustentados por estes maiores saques fiscais a quem vive desligado destes partidos e do estado. Nunca vi mais escancarada transferência de rendimentos de um grupo para outro. Orquestrada por um governo. Foi a isto que Friedrich Hayek chamou de ‘caminho para a servidão’. Graças ao PS, seremos escravos das clientelas da geringonça. Saravá, é o ‘tempo novo’.’

O texto todo está aqui.

Orgulhosamente sós

O meu artigo hoje no Diário Económico.

Orgulhosamente sós

Qual é o maior problema da economia portuguesa? O endividamento excessivo. Do Estado, que gasta mais do que recebe; e dos privados, estimulados que foram a gastar o que não tinham para que a economia crescesse mais depressa do que o Estado se endividava.

Pelo que se percebeu da sua prestação no debate quinzenal no Parlamento sobre o Orçamento, António Costa gosta de torrentes. Ora, e aproveitando a imagem de Costa, o endividamento excessivo é como uma torrente de água retida por um muro; um muro construído pela ‘troika’ que impede o colapso do Estado.

A esquerda quer que Costa bata o pé em Bruxelas. À mera referência de que o dinheiro que nos sustenta não é nosso, a esquerda estrebucha, indigna-se. Abre a boca, mas tapa os olhos e os ouvidos. Recusa ver a realidade, tal como Salazar fez com a guerra colonial e a necessidade de democratizar o regime. E, tal como o velho ditador, a velha esquerda acusa o estrangeiro. Para Salazar, o demónio era os EUA e as liberdades do Ocidente. Para o PS de Costa, com o PCP e o BE a dar-lhe força, os mercados, a Europa, os alemães e, porque é preciso um bode expiatório mais concreto, a Sra. Merkel.

40 anos depois voltamos a ser governados por políticos retrógrados. Por um governo que visa à força, contra a torrente de água que nos ameaça, manter o país à margem do que se passa no exterior. A ilusão de se governar um país alheado do mundo real, alheado da vida além fronteiras, do que de bom e de mau pode vir lá de fora, não é caso único em Portugal. A China vive também o custo que é o despertar para essa realidade. Perante as quedas bolsistas no início do ano, as grandes empresas estatais chinesas, mandatadas por Pequim, tentaram suster a torrente. Não conseguiram. Os factos têm mais força e o rio que os transporta impõe-se, a bem ou a mal.

Como se impõe quando os governos cegam com a ideologia e as ambições pessoais dos seus líderes. Mas o problema não é apenas o governo viver uma fantasia. Tal como a questão com Salazar não era só a sua discrepância com o exterior, mas essencialmente o sofrimento que impunha ao país. Como no passado, também agora estamos perante uma estratégia que nos prejudica.

Convençamo-nos do seguinte: com dívida não há investimento produtivo; não há capital, porque o que amealhamos serve para pagar o que devemos. Isto é uma luta tão importante como a de há 40 anos: com dívida não há liberdade. Não somos livres dos poderes corporativistas que dominam o Estado e beneficiam da lógica do endividamento nem dos discursos nacionalistas que se alimentam da pobreza que criam e de que nos libertámos há 40 anos, mas que a esquerda extremada está a ressuscitar.

O melhor Janeiro de sempre

Se 2015 foi o melhor ano de sempre d’O Insurgente, a verdade é que 2016 começa também com novos recordes: depois de a página d’O Insurgente no Facebook ter superado a marca das 10.000 pessoas (com um reach semanal consistentemente acima das 300.000 pessoas), Janeiro de 2016 estabeleceu-se (por larga margem) como o melhor mês de Janeiro desde a fundação do blogue e o segundo melhor mês de sempre, com mais de 430.000 visitas contabilizadas no site.

Obrigado a todos os leitores pela preferência.

Como se escreve uma boa crónica

30-10-05-Frauenkirche-Dresden

Não é frequente ler-se uma boa crónica. Menos ainda uma excelente. Tive essa sorte no número de Dezembro da revista ‘The Oldie’, num artigo de William Cook sobre a sua viagem a Dresden, na Alemanha. Ou melhor: sobre as suas muitas viagens àquela cidade descaracterizada pelos bombardeamentos aliados na Segunda Guerra Mundial e após 40 anos de ditadura comunista.

Cook intitula a sua crónica de ‘Dresden’s miracle rebirth’. Ele começa-nos por contar que o seu pai nasceu naquela cidade durante a guerra e sobreviveu aos bombardeamentos de 1945. A primeira vez que Cook conheceu Dresden foi em 1995 e viu uma cidade cheia de 50 anos feridas. No entanto, foi regressando ao longo dos anos e sempre que o fazia encontrava-a melhor. Mais animada, mais arrumada, mais organizada, desenvolvida. Um sítio onde o bem-estar e a melhoria do nível de vida se sentia (e se sente) ao virar de cada esquina. A partir daqui, Cook guia-nos pelas principais atracções da cidade. Algo que faz muito rapidamente até porque o artigo não é longo, duas páginas apenas, ainda por cima com uma enorme fotografia da Frauenkirche de Dresden numa, e um anúncio à The Oldie Travel Insurance, na outra.

É a partir de certa altura, já perto do fim, quando Cook nos conta que no decorrer da sua última viagem decide visitar a casa onde o pai nasceu que a crónica atinge o seu auge. Ele esclarece-nos que, como a casa fica nos arredores, não foi atingida pelas bombas e ainda existe. Depois de convencer os seus actuais donos a entrar, dirigiu-se e deixou-se estar por uns momentos no quarto onde o pai nasceu e a avô assistia aos bombardeamentos pela janela. Ela fê-lo até ao dia em que apanhou o último comboio para Hamburgo antes da chegada do Exército Vermelho. Nessa outra cidade alemã, a avó partiu para Inglaterra onde viveu, o pai de Cook cresceu, mais tarde conheceu a mãe deste e ele depois nasceu. E é quando o cronista nos conta isto, ao mesmo tempo que contempla o quarto da avô e pensa na sorte que teve em existir e ser feliz, que nos tira o tapete do pés e nos faz perceber que está a compreender porque razão se encontra ligado a Dresden e a tem visitado tantas vezes durante tantos anos. É que, ao mesmo tempo que escreve, e se assim não é assim o parece, Cook compreende que, tal como aquela cidade, também a sua família, a sua avô, o seu pai e ele próprio renasceram. Naquele quarto, sobreviveu-se; noutro país, na Inglaterra, a vida surgiu novamente e seguiu o seu rumo até chegar aquele momento em que Cook e Dresden se encontram e se revelam no destino comum que os une.

É nesta altura, bem no fim da crónica, na última linha, que percebemos que o que acabámos de ler, apesar de inserido na rubrica de viagens, depois de um artigo sobre uma estância de esqui e antes doutro sobre uma viagem ao Japão, que não estivemos a ler um texto sobre um destino turístico, mas uma viagem pessoal, interior, de um homem e de uma cidade. Sabemos que fomos enganados e ficamos agradecidos por isso. Porque são partidas deste género que fazem uma boa crónica, que causam uma surpresa que vale a compra de uma revista.

Leitura dominical

Uma experiência chamada Portugal, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

 

Se bem percebi, o alegado governo que nos caiu em cima enviou à Comissão Europeia um rascunho do Orçamento do Estado, o qual, segundo quem sabe do assunto, ganharia em ter sido produzido por dois cangurus munidos de uma “folha” de Excel. A CE, horrorizada com tamanho caldo de inépcia, trafulhice, alucinação e certificada desgraça, devolveu o papel acompanhado de uma carta que se esforça por manter a polidez protocolar embora não esconda certa falta de paciência para as artimanhas de burgessos.

O dr. Costa e os serviçais do governo reagiram através da desvalorização da carta, até porque, garantiam eles, as objecções da CE prendem-se com ligeirezas técnicas e, por favor não se engasguem, “não têm relevância política”. Em simultâneo, um teórico do “costismo” (o equivalente em sofisticação ao atendedor de chamadas do professor Bambo) acusou a CE de “tentar tramar o governo português”. A acreditar nos socialistas, o Conselho Económico e Social, o Conselho das Finanças Públicas, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental, quatro agências de rating, a UEFA e um vizinho meu também aderiram à conspiração.

No que toca aos partidos comunistas que de facto mandam no circo, e que nem com a queda do muro aproveitaram para fugir do hospício, instigam o dr. Costa a enfrentar a “Europa dos interesses” com, engasguem-se à vontade, firmeza. Catarina Martins avisa que a CE “está a assaltar-nos”, mas na verdade o arranjinho que a dra. Catarina integra é que o fez em Outubro – e agora julgasse ser igualmente fácil assaltar os contribuintes alemães. Para distinguir o PCP do Bloco, o sr. Jerónimo repete a lengalenga do Bloco.

De seguida, o dr. Costa, cuja fluência na própria língua de facto levanta interrogações acerca da comunicação com estrangeiros, voltou à carga com redobrado delírio, mais a consideração de que as previsões do governo são “conservadoras e realistas” e a denúncia de que Passos Coelho – o “senhor primeiro-ministro”, nas palavras do alegado – enganou Bruxelas.

Entretanto, há infelizes que com as melhores intenções vão à televisão comentar a “situação” como se a “situação” merecesse comentários. É, evidentemente, uma trabalheira inglória: nada que saia das infantis cabeças que nos governam (força de expressão) exibe um pingo de racionalidade e pode ser levado a sério. Séria só a desgraça em que concorrem para nos deixar, de que eles escaparão com típica impunidade. E que nós pagaremos com típica resignação e, desconfio, sofrimento inédito. Portugal é hoje uma experiência, à escala real, para averiguar quanto tempo um país resiste nas mãos de transtornados. Eis uma previsão conservadora e realista: pouco.

O efeito “Tempo Novo”

Sampaio da Nóvoa

O meu artigo desta semana no Observador: “Tempo Novo” deu vitória a Marcelo.

Infelizmente para Nóvoa e para o PS, por cada activista progressista numa companhia teatral ou num obscuro departamento de humanidades ou ciências sociais a quem a mensagem radical-progressista do “Tempo Novo” entusiasmou a ponto de cegar e fanatizar, terá havido muitas pessoas comuns assustadas com o que ouviam que por isso decidiram votar no “Professor Marcelo”. Assim, mesmo com a tentativa de equiparar Nóvoa a uma espécie de messias (socialista, laico e republicano) do “Tempo Novo”, não houve desta vez equivalências que valessem ao candidato perante o juízo dos eleitores.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Até já

Até ao fim do mundo. Por David Dinis.

É hoje, 6ª-feira, dia 29 de janeiro de 2016, que saio do Observador. É hoje que me despeço de si, com lágrimas a correr pela cara. São lágrimas, sim, de orgulho, de amor. Este é o meu até já.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’.

O cerco aperta-se

É já para a semana que têm lugar os caucuses do Iowa, dando-se assim ao tiro de partida no processo de escolha do próximo presidente dos EUA. E a coisa está feia tanto do lado Democrata como do Republicano. Se entre os primeiros, Hillary Clinton está novamente a ser surpreendida por um outsider, desta vez de nome Bernie Sanders, já os segundos começaram a fazer contas e a pensar como minimizar o impacto negativo que a nomeação de Donald Trump trará ao partido.

O que está a causar divisões. A conservadora National Review fez sair uma edição muito crítica de Donald Trump (não deixa de ser curioso que sejam os conservadores os mais avessos ao fenómeno Trump), comparando-o a um ditador sul-americano liberto das amarras que são as ideias conservadoras que tornam sensato qualquer pessoa que, com humildade, reconheça os seus limites. O problema entre os republicanos é que quase todos odeiam Ted Cruz, o melhor posicionado para destronar Trump.

A somar a esta confusão, Bernie Sanders pode, caso ganhe como previsto no New Hampshire, vir a ser o candidato dos Democratas à presidência. Sanders é um socialista, dos verdadeiros, e um confronto eleitoral deste com Trump não deixaria de ser inquietante. São dois demagogos que rejeitam a ideia do governo limitado que deu origem aos EUA e, em nome de paixões políticas de cariz mediático, querem impor a sua visão de sociedade aos outros. Tal como na Europa, com Tsipras, Jeremy Corbyn, Marine Le Pen,  Pablo Iglesias e António Costa, a demagogia aperta o cerco nos EUA.

Bocas revolucionárias, uni-vos

maduroboca

No seguimento da revolução perpétua venezuelana, a camarada Ministra da Saúde educa o Povo a não se vergar aos pérfidos desejos dos profissionais que estão ao serviço do capitalismo selvagem e do consumismo em estado puro. A curto prazo, sorrir pode vir a não ser o melhor remédio para os venezuelanos mas os revolucionários devem permanecer unidos no combate à crise económica. A receita é tão simples: basta não usar escova e pasta de dentes mais do que uma única vez por dia. Já a revolução é feita 365 dias por ano.

La ministra de Salud, Luisana Melo, aseguró que la escasez de crema dental en el país se debe a que la gente se cepilla los dientes tres veces al día, cuando según ella “con una vez es más que suficiente”.

 

Adenda: O texto é humorístico. A Ministra da Saúde referiu-se ao excesso de consumo.de medicamentos,  para justificar a sua escassez no mercado. Torna-se cada vez mais difícil distinguir ficção da triste realidade na Venezuela.

je suis estátua romana com nu

O meu texto de hoje no Observador.

‘Já tinha um texto escrito, só a precisar de revisão e apuro do tom cáustico e irónico, a verberar os moralistas anti-abstenção que atacam em cada ato eleitoral, e a explicar como a abstenção é, algumas vezes, mesmo aquilo que os políticos e os partidos merecem e de forma nenhuma um desinteresse pela política e pela participação. Mas não estava destinado a ser, porque de repente apanhei no twitter a notícia de que o governo italiano tinha coberto as estátuas de nus do Museu Capitolini para que estas não ofendessem o suscetível presidente do Irão, pelas Europas em visita oficial.

E depois de se ter dissipado o encarnado que tomou conta do meu campo de visão com esta notícia, lá me decidi que afinal devia escrever sobre os governantes que temos que teimam em esterilizar – ou, se calhar, deformar seria melhor palavra – a realidade em que vivemos na prossecução dos seus objetivos progressistas.

Neste caso do presidente do Irão versus as estátuas de nus romanas, há que ser taxativa.

1) Cabe-nos defender e orgulharmo-nos da cultura europeia, e proclamar que é, até ver, a mais justa, decente e (sim, não tenho medo da palavra) civilizada que o mundo produziu. O facto de ter falhas e imperfeições e potencial de ser melhorada não nos pode levar a um relativismo amoral de fazer equiparar – ou, em alguns casos, denegrir – a nossa cultura ocidental aos barbarismos mais ou menos declarados de outras zonas do globo. E se dizia no outro dia que para defender a Europa temos de defender o Natal, também é verdade que temos de defender as esplendorosas estátuas de nus renascentistas que o génio europeu produziu. É degradante cobrirmos as expressões artísticas da nossa cultura e da nossa História para agradar a um visitante.

2) Se o presidente do Irão não consegue conviver mantendo a sanidade (supondo que a tem) com estátuas de nus, que fique no Irão. Ou, querendo fazer negócios com os europeus e mante relações diplomáticas, engole os puritanismos e aprende a desviar os olhos das partes baixas das estátuas italianas. Ou – já que os progressistas barra lunáticos apreciam tanto ensinar os outros – destaca-se um guia para ensinar ao presidente Rouhani que o mal das estátuas está todo, afinal, no conservador iraniano. Há dois anos estive em Florença com as minhas crianças, que também aproveitaram para se escandalizar (e rir) muito com as estátuas renascentistas de pessoas despidas pelas ruas da cidade. E lá levaram a necessária lição de que os meus filhos querem-se cosmopolitas e não puritanos. Forneço com gosto o conteúdo dos ensinamentos para crianças sub 10 que ofereci às minhas, que aparentemente aproveitaria ao presidente iraniano.’

O resto está aqui.

Renascimento moderado

estatuas

Itália cobre estátuas de nus na visita de líder iraniano.

Leituras complementares: Cepticismo imoderadoUm balanço também ele moderado e Um balanço também ele moderado II.

Moody’s, o eterno défice e presidenciais

Como tem sido habitual à terça-feira, vou estar hoje pelas 12.10, no Económico TV. Os temas desta semana são a Moody’s e o OE 2016, o défice de 2015 e ainda os resultados das presidenciais.

Comparação entre votações de Marcelo e PaF

Os jornalistas do Observador Catarina Falcão, Miguel Santos e Rita Dinis deviam ter mais cuidado com as contas:

Agora, Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu 52% dos votos e teve 2.410.130 pessoas a escolherem-no para Presidente. Isto também significa mais meio milhão de votos do que PSD e CDS conseguiram alcançar nas legislativas.

Na verdade, PSD e CDS tiveram cerca de 2 milhões e 100 mil votos nas últimas legislativas. Bem sei que, por várias razões, muitas vezes se simplifica na comunicação social, mas apesar de tudo, entre 300.000 e meio milhão ainda vai uma diferença que não é irrelevante…

Leitura dominical

O suicídio é constitucional, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

De vez em quando, o povo descobre com espanto que os políticos – os exactos políticos que uma parte do povo ainda tolera em comícios, “arruadas” e urnas de voto – defendem os próprios interesses e não o mítico bem comum. Agora temos o pífio escândalo das subvenções vitalícias aos deputados, com trinta destes senhores (e senhoras), na vasta maioria socialistas, a protestarem o “corte” junto do Tribunal Constitucional. O TC deu-lhes razão, sob o misterioso argumento do “princípio da confiança” e o divertido argumento de que ex-políticos não devem ser um encargo para as respectivas famílias (à imagem dos doentes graves, presume-se). Ficam, pois, ao cuidado do contribuinte e ficam muito bem.

O que fica péssimo é a sugestão de santidade dos partidos que, como o BE e o PCP, criticam as subvenções. Por acaso, o BE não possui um único deputado em condições formais de receber as ajudinhas, o que lembra o sujeito que recusa o prémio do Euromilhões sem sequer ter registado uma aposta. E o PCP aceita as ajudinhas para financiar a luta pelos trabalhadores, e lembra o vencedor do Euromilhões que promete usar o prémio para combater o vício do jogo. A título de punch line, BE e PCP condenam em teoria a atitude concreta de abundantes membros da bancada parlamentar a que se aliaram e de pelo menos dois ministros do governo que apoiam. Não sei se os políticos são todos iguais: sei que alguns simulam mal e porcamente a diferença.

Sobretudo em certa área ideológica, aliás, as diferenças são hoje um bem escasso. Enquanto as indignações do Facebook se distraem com os trocos das subvenções, a Frente Popular espatifa o que resta do país com uma pujança difícil, embora não impossível, de prever. Com típico primitivismo, Catarina Martins diz que Bruxelas não percebeu que a esquerda ganhou as eleições. Portugal começa a perceber. Não foi só a campanha das “presidenciais” a demonstrar que o PS actual – leia-se o PS que conta – é mais do que um parceiro circunstancial dos extremistas: 50 dias de governo bastaram para exibir a jovialidade com que o PS abraçou o extremismo. Pode-se discutir se é o oportunismo ou a cegueira ideológica a promover a semelhança de tudo o que se move para lá de, digamos, Francisco Assis. O que não se discute é a desgraçada miséria que, a breve prazo, o arranjinho convocará. Pelos vistos, o suicídio é constitucional.

Sobre as presidenciais na Folha de São Paulo

Artigo sobre as eleições presidenciais portuguesas na Folha de São Paulo com comentários meus e do meu colega Gonçalo Almeida Ribeiro: Comentarista de direita é favorito em eleição presidencial em Portugal.

Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (8)

Sampaio da Nóvoa, no livro Política de Vida, publicado em Dezembro de 2015 (p. 103):
licenciatura_sampaio_da_nóvoa_2

Sampaio da Nóvoa, em esclarecimento publicado na sua página oficial do Facebook (e aqui reproduzido) dia 20 de Janeiro de 2016:
licenciatura_sampaio_da_nóvoa_esclarecimento

Mais uma vez, discrepâncias no mínimo curiosas (estas assinadas na primeira pessoa) mas que, sabe-se lá porquê, parecem não ter suscitado a curiosidade da comunicação social ao longo da campanha, salvo uma ou outra tímida excepção.

Quando se trata dos donos do regime, o respeitinho é muito bonito. Nem que isso implica uma gritante duplicidade de critérios relativamente a situações similares e uma total falta de escrutínio.

Leitura complementar: Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa; Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (2); Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (3); Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (4); Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (5); A direita e as presidenciais: alternativas de voto; Sampaio da Nóvoa e a liberdade: uma relação ambivalente.

Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (7)

Biografia de António Sampaio da Nóvoa (O Candidato Improvável, por Filipe S. Fernandes), publicada em Novembro de 2015 (p. 46):
licenciatura_sampaio_da_nóvoa

Sampaio da Nóvoa, em esclarecimento publicado na sua página oficial do Facebook (e aqui reproduzido) dia 20 de Janeiro de 2016:
licenciatura_sampaio_da_nóvoa_esclarecimento

Discrepâncias no mínimo curiosas mas que, sabe-se lá porquê, parecem não ter suscitado a curiosidade da comunicação social ao longo da campanha, salvo uma ou outra tímida excepção…

Leitura complementar: Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa; Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (2); Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (3); Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (4); Dúvidas sobre a licenciatura de Sampaio da Nóvoa (5); A direita e as presidenciais: alternativas de voto; Sampaio da Nóvoa e a liberdade: uma relação ambivalente.

“examples of breath-taking stupidity”

guia-imigrantes

“Na Alemanha não se dão palmadas no traseiro das mulheres”. O novo guia para imigrantes

A Alemanha tem sido um dos destinos de eleição para a maioria dos refugiados que têm chegado à Europa, naquela que é a maior vaga de imigração desde a Segunda Guerra Mundial. Por isso, foi lançada uma aplicação que serve de guia de comportamento aos migrantes que cheguem ao território germânico.

Por exemplo, explica-se que na Alemanha quando duas pessoas se cumprimentam dá-se os bons dias e olha-se nos olhos. Para além disso, não se dão palmadas no traseiro das mulheres e tanto homens como mulheres podem escolher livremente com quem formam casal ou que religião praticam.

Não acontece muitas vezes, mas neste caso vou recorrer a um artigo de Zizek com que concordo parcialmente: Slavoj Žižek: The Cologne attacks were an obscene version of carnival

This is why the naive attempts to enlighten immigrants (explaining to them that our sexual mores are different, that a woman who walks in public in a mini skirt and smiles does not thereby signal sexual invitation, etc.) are examples of breath-taking stupidity – they know this and that’s why they are doing it. They are well aware that what they are doing is foreign to our predominant culture, but they are doing it precisely to wound our sensitivities. The task is to change this stance of envy and revengeful aggressiveness, not to teach them what they already know very well.

Pacheco Pereira, as presidenciais e o Observador (5)

pacheco_presidente

O Pacheco Pereira que iria a eleições seria naturalmente o cidadão livre, descomprometido, estudioso e admirador do dr. Cunhal, esse grande modelo de resistência ao Fascismo e respeito pelos direitos, liberdades e garantias e promotor da sociedade aberta.

Infelizmente para os superiores interesses do Povo português, dificilmente essa candidatura terá no entanto condições objectivas para se concretizar. Ao contrário do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que beneficiou anos a fio de tempo de antena mediático no qual ganhou notoriedade e popularidade, as oportunidades de exposição mediática colocadas à disposição do potencial candidato Pacheco Pereira têm – como é sabido – sido muito injustamente exíguas e mal remuneradas.

Ser um baluarte da pureza da social-democracia contra a direita radical e troglodita tem os seus custos. Do ponto de vista pessoal, o recém-nomeado administrador da Fundação Serralves certamente suporta-os com um sorriso desafiador nos lábios, ainda que lamentando a perda que daí resulta para o Povo português e muito em particular para os trabalhadores, os jovens, os pensionistas e os micro, pequenos e médios empresários.