No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O observador

Outro dia ouvi alguém dizer de outrem que de andar tão direito mais parecia um emproado. Achei piada ao comentário ouvido de passagem mas que me reteve a atenção. Na verdade, vivemos num mundo em que a imagem conta e a primeira impressão, dizem-nos, premeia-nos ou castiga-nos para sempre.

O engraçado é que o dito emproado deve ter-se esforçado. Talvez o seu esforço tenha valido a pena com outras pessoas que não aquela, para outros que viram nele confiança e não vaidade. Mas o que interessa aqui é que a imagem é fruto de múltiplos pequenos sinais, por vezes não mais que meras impressões, que se destacam logo de imediato ou ficam no nosso inconsciente e só se revelam mais tarde. É algo que não  controlamos porque depende, por vezes, mais da personalidade dos outros, das suas experiências, sucessos e frustrações que de qualquer outra coisa.

Temos os emproados; os de nariz empinado; os que nos olham nos olhos como para provar que não têm medo e até os que baixam o olhar; os que falam pelos cotovelos e os que se calam; os gabarolas e os falso modestos; os que só aceitam ser fotografados de um lado; os que forçam convites e os que se fazem caros, mas aceitam logo.

Com o desenrolar do tempo vamos aprendendo coisas destas. Se formos bons observadores, para o que só precisamos de estar atentos, há pequenos sinais, gestos, olhares, palavras, respostas, perguntas, que nos dizem mais sobre alguém que mil imagens. Não há que enganar, nem modo de sermos enganados.

Atormentar clientes como método de marketing

O meu texto de hoje no Observador.

‘Há poucos dias passava num corredor de um centro comercial em Lisboa e recebi uma proposta indecente. Um senhor, jovem, que trabalhava num quiosque de centro comercial, perguntou-me ‘posso hidratar-lhe as mãos?’ Este peculiar pedido junta-se à variante ‘posso ver as suas mãos?’ que veio do mesmo quiosque em passagens anteriores.

Esta é uma abordagem aos clientes que sempre me pareceu original. Desde logo porque, no meu caso, a única resposta que têm é um olhar gélido aos desconhecidos que, de súbito, querem escrutinar as minhas mãos. E o resultado tem sido garantirem que eu – consumidora frequente de vernizes, removedores de verniz e hidratantes para as mãos – fuja daquele local que vende produtos que eu compro com tanto afinco noutros lados. Porque para mim é só falta de educação e uma intromissão na minha esfera privada pedirem-me assim, sem mais, que eu lhes mostre uma parte de mim. Algo tão despropositado como ‘posso ver os seus poros?’, ‘posso saber a cor do seu soutien?’ ou ‘tem cócegas no pescoço?’.’

O resto está aqui.

Franco Atirador

Fui gentilmente convidado pelo Nuno Ramos de Almeida para participar no programa de estreia do Franco Atirador, uma iniciativa do Nuno e da Joana Amaral Dias.

Votos de bom sucesso neste desafio, é o que lhes desejo. Já politicamente falando, o Nuno conhece o que penso das suas ideias, conforme se depreende neste vídeo.

Incompreensão

Jorge Sampaio recebeu um doutoramento honoris causa na Universidade do Porto. Aproveitou a ocasião para demonstrar, mais uma vez, a sua invulgar capacidade para incompreender o mundo à sua volta. Disse Sampaio: «A questão está em saber como é que nós saímos deste colete-de-forças e como é que conseguimos crescer economicamente, socialmente mantermos a Europa com o sentido que ela sempre teve desde a sua fundação. (…) [A] União Europeia assiste hoje a inadmissíveis anátemas morais decretados por alguns Estados-membros e a uma triunfante cultura de ortodoxia financeira que tem conduzido a situações sociais insustentáveis, a uma preocupante deflação e à mácula desencorajadora projetada pelos seus milhões de desempregados. (…) [Estamos] longe do tempo em que se conciliava eficácia económica com coesão social e se declinava no plano das decisões, de vários modos, a palavra solidariedade. (…) [A Europa] precisa de encontrar uma linguagem que dê satisfação aos cidadãos em geral porque é disso que se trata.»

Fica sempre bem dizer estas coisas. Uma pessoa parece sempre mais séria e profunda quando apela à solidariedade. Mesmo quando o que diz está pejado de equívocos:

  • Em primeiro lugar, as medidas com que a Europa se depara, particularmente países como Portugal, não são uma questão de “eficácia económica” mas antes de evitar o descalabro. Para alguém que usou a famosa expressão “há vida para além do défice” e precipitou a entrada em funções do coveiro do país, recomenda-se mais recato.
  • Se estamos num “colete-de-forças”, não será por termos entrado nele desavisados. Dificilmente sairemos seguindo o caminho que nos levou a entrar nele, por mais apelos à solidariedade que se façam e mais boa vontade que demonstremos.
  • Afirmar que estados soberanos defenderem os seus interesses é o decretar de “inadmissíveis anátemas morais” é, em si mesmo, um “inadmissível anátema moral”. Isto da moral dá para os dois lados.
  • Não é encontrando “uma linguagem” que se resolvem os problemas. Quanto mais não seja por ser notório que o actual secretário-geral do PS usa várias, diferentes consoante a plateia.

Ai Lello, recordar é viver

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José Lello não declarou conta de 658 mil euros Deputado do PS esteve 14 anos sem declarar este valor ao Tribunal Constitucional

Leitura complementar: Pode um homem que tenha falhado o pagamento de impostos no passado ser primeiro-ministro de Portugal?

Portugal e as heranças do Estado Novo

Mais uma reflexão interessante e desafiante de Gabriel Mithá Ribeiro: A polícia do espírito.

Anos e anos de trabalho de campo em Moçambique demonstraram que, face a assuntos sensíveis (como a herança colonial portuguesa), é muito mais ambivalente e complexo e, por isso, bem mais rico o pensamento dos humildes do que de certas elites escolarizadas. É nas últimas que é mais fácil antecipar, ao fim de poucos minutos de conversa, quem são os bons e os maus do planeta e da história, apesar do invólucro da fala polida. Quer dizer que de um lado está um amontoado de conhecimentos formais e discursos fluentes e, do outro lado, está a inteligência de senso comum na relação com o meio envolvente e com o sentido do tempo histórico.

Em Portugal, a relação com as heranças do tempo do Estado Novo – por ser uma época com carga traumática, mas também por estar longe de se esgotar nela, bem como por ser o referente fundador do tempo presente – instituiu os mais significativos recalcamentos que atormentam as mentes. Aí reside a fonte primordial das frustrações e falhanços da democracia portuguesa, uma vez que, por pressão dos que se sentem donos dela, aquela arvora-se em alter-ego ultrarradical do passado histórico imediato, no sentido de um antes todo ele ‘mau’ e um depois todo ele ‘bom’, sendo o ‘mau’ que sobra no presente herança do ‘espírito do antigamente’. Esta via dominada por generalismos grosseiros na gestão da memória coletiva de senso comum vai fazendo com que a democracia corra o risco de ela mesma se transformar numa caricatura de tanto caricaturar o passado imediato.

Um penso-rápido para tratar uma fractura exposta

Pirate Bay vai ser barrado em Portugal

«Tribunal da Propriedade Intelectual determinou que a Cabovisão, a Meo, a NOS e a Vodafone deverão passar a impedir os internautas portugueses de acederem ao endereço thepiratebay.se e também a outros 29 domínios sucedâneos»

Leitura dominical

As mentiras da oposição, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Agora é Jihadi John, nascido Mohammed Emwazi. De cada vez que se descobre a identidade de um psicopata, perdão, activista do Estado Islâmico, os noticiários enchem-se de desabafos biográficos, a explicar, em tom sempre surpreendido, que o psicopata, perdão, o activista de hoje em tempos foi uma criança, por regra afável e brincalhona. É isto necessário?

Não vejo para quê. O “lado humano” das notícias, um bocadinho irritante noutras matérias, é particularmente repulsivo em notícias sobre o lado desumano da vida. Salvo os tontinhos terminais, que imaginavam os psicopatas, perdão, os activistas a nascer com uma adaga nas mãos ou um “workshop” em ressentimento na cabeça, toda a gente já desconfiava de que os monstros um dia tiveram uma infância mais ou menos feliz, mais ou menos normal, mais ou menos idêntica à nossa.

O pequeno Mohammed queria, ao que consta, ser futebolista. E depois? Hitler queria ser pintor. Estaline queria cantar. Átila queria decorar interiores (alguns estudiosos discordam). O essencial não é investigar o momento em que os dementes se converteram à demência, mas a maneira de impedir as consequências desta. Revelar que um psicopata, perdão, activista nasceu é uma redundância: urgente é saber quando morre.

A lei da cópia privada e o rentismo em Portugal (2)

jorge_barreto_xavier

Na sequência do meu artigo de ontem no Observador (“A nova lei da cópia privada: uma vitória do rentismo”), o deputado do PS José Magalhães publicou no seu Facebook um comentário com respostas às cinco perguntas que reproduzo no final do artigo.

Aqui fica, na íntegra, o texto integral do deputado José Magalhães, para memória futura:

CÓPIA PRIVADA – PERGUNTAS COM RESPOSTA

Concordo no essencial e no secundário com este ponto de vista e foi por isso mesmo que votei contra o texto final. A expectativa de que houvesse correcções em Comissão gorou-se. As perguntas referidas no texto têm resposta cruel: Continuar a ler

Compreender o putinismo XIX

Boris Nemtsov. Imagem via FB do Nuno Rogeiro

Boris Nemtsov. Imagem via FB do Nuno Rogeiro

After Boris Nemtsov’s Assassination, ‘There Are No Longer Any Limits’, por Julia Ioffe.

Even if one of these theories were true, none of Moscow’s embattled liberals would be convinced. “I will never believe it,” Yevgenia Albats, editor of the liberal magazine New Times and an old friend of Nemtsov, told me. “This is not about some domestic affair. These were absolute professionals.” Ilya Yashin, a member of Nemtsov’s Solidarity Party, was of the same mind. “It’s totally obvious for me that it’s a political killing,” he said. “I don’t have the slightest doubt about that.” Maxim Katz, another opposition activist, claimed on Twitter that, any way you slice it, Putin is responsible: “If he ordered it, then he’s guilty as the orderer. And even if he didn’t, then [he is responsible] as the inciter of hatred, hysteria, and anger among the people.”

It’s hard to argue with this last point. Putin’s aggressive foreign policy, his increasingly conservative domestic policy, his labeling the opposition a “fifth column” and “national traitors,” his state television whipping up a militant, nationalistic fervor — all of this creates a certain atmosphere. Putin, after all, has a history of playing with fire, only to have the flames get away from him. After years of the Kremlin tacitly supporting ultranationalist, neo-Nazi groups, the same skinheads staged a violent protest at the foot of the Kremlin walls in 2010 while riot police officers stood by and watched helplessly. Today, a rabid nationalism has swallowed up most of the country, and it is no longer clear that Putin can control it. “In this kind of atmosphere, everything is possible,” Pavlovsky told me. “This is a Weimar atmosphere. There are no longer any limits.”

Until relatively recently, the risks opposition activists knew they were taking on were not generally thought to be life-threatening. The government was likely to hassle activists and make their lives uncomfortable, but mostly it just marginalized them, like the town fool. This began to change with the arrests of protesters in the summer of 2012. When Navalny was sentenced to five years in prison a year later, it came as a shock; this had never been done before. Even after the sentence was suspended, it seemed to be a warning to the opposition.

Nemtsov’s assassination took that warning to its logical conclusion. Now, “we live in a different political reality,” tweeted Leonid Volkov, a prominent opposition activist. “The fact that they killed him is a message to frighten everyone, the brave and the not brave,” Yashin said. “That this is what happens to people who go against the government of our country.” Anatoly Chubais — who, like Nemtsov, served in the Yeltsin government, and who remains close to Putin — visited the site of the shooting this morning. “If, just a few days ago, people in our city are carrying signs that say ‘Let’s finish off the fifth column,’ and today they kill Nemtsov,” he said in astatement, referring to the Kremlin-sponsored anti-Maidan protest in Moscow last weekend, “what will happen tomorrow?” Or, as Albats put it, “Hunting season is open.”

Nemtsov had been confiding to friends of late that he was growing frightened. This summer, he went to Israel to hide out for a few months, fearing arrest. He told Albats that he worried he wouldn’t be able to withstand a stint in a Russian penal colony. In the fall, he filed a police report because of threats he was receiving on social media. It didn’t seem to go anywhere. Recently, he even let his bravado slip in public, telling an interviewer two weeks ago that he was scared Putin would kill him.

And yet, he didn’t let up. According to Albats and Yashin, Nemtsov was working on a particularly incendiary report that he planned to call “Putin and Ukraine,” which would trace the stream of weaponry flowing from Russia to separatists in the Donbass. He was meeting with the families of Russian men who had died fighting with the separatists. He kept up his withering attacks on Facebook and Twitter. He kept traveling to Ukraine and meeting with president Petro Poroshenko, something that couldn’t have gone unnoticed by the Kremlin’s security agencies. And still, Nemtsov never hired a bodyguard. He walked home through Moscow late at night unprotected.

And he almost made it. His apartment building was visible from the bridge. “From his window, where he worked out in the mornings, you can see the place where he was killed,” Romanova told me. “For many years, he saw the place where they would kill him.”

Oremos pelo príncipe Carlos

Prince Charles

We can only pray that our sick planetary patient might be placed on a road to recovery, in the process bringing gains for human well-being.

“Failure to write the prescription, however, might leave us contemplating the death certificate instead.

A lei da cópia privada e o rentismo em Portugal

jorge_barreto_xavier

O meu artigo de hoje no Observador: A nova lei da cópia privada: uma vitória do rentismo.

Alguns observadores poderão estranhar a razão de tanta contestação em torno de um agravamento fiscal de “apenas” 15 a 20 milhões de euros por ano, mas a importância da nova lei não se resume aos montantes que serão cobrados e às rendas que serão distribuídas. Além da questão de princípio, a nova lei da cópia privada é relevante por se tratar de um caso exemplar de proveitos rentistas gerados e assegurados politicamente. Compreender a nova lei da cópia privada é compreender um exemplo em estado quase puro das múltiplas iniciativas rentistas bem sucedidas, com apoios estrategicamente transversais no sistema partidário, que minam todos os dias tanto o funcionamento do Estado como o do mercado em Portugal. Promover o desenvolvimento em Portugal passa muito mais por limitar e eliminar as rendas de grupos de pressão politicamente influentes do que pela proliferação de iniciativas bem intencionadas sobre “empreendedorismo”, “clusters estratégicos” ou “novos paradigmas”.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Leitura complementar: A nova Lei da Cópia Privada: uma mancha notável; A abominável Lei da Cópia Privada ataca de novo; Uma vitória para a AGECOP, uma derrota para o país.

A preocupante falta de memória de Zeinal Bava (3)

Bava não guarda memória, os portugueses sim. Por António Costa.

Bava sabia, e essa afirmação diz (quase) tudo sobre o que era a relação entre o GES e a PT. É claro que ninguém imaginava a falência do grupo, mas em Maio de 2013, Bava tinha a obrigação de saber onde estava a meter o dinheiro, e nessa data também ele reforçou a aplicação no GES para 750 milhões de euros. A diversificação de risco era um conceito, mas não era uma prática na PT. Já tínhamos percebido, sim.

Zeinal Bava e Henrique Granadeiro já entraram em contradição, e vai agravar-se quando este último for à comissão de inquérito. São as duas faces da mesma moeda, que estava no porta-moedas de Salgado. Os portugueses, disso, vão guardar memória.

A preocupante falta de memória de Zeinal Bava (2)

O estranho caso do super gestor que perdeu a memória. Por Paulo Ferreira.

Zeinal Bava tem qualidades invulgares. Foi com essas características, difíceis de encontrar na mesma pessoa, que fez a sua carreira de gestor até atingir um raro nível de reconhecimento internacional. Não é um medíocre que entrou na PT à boleia de um apelido sonante, por tráfico de influências, permuta de favores ou proximidade partidária. Ao contrário de outros que o antecederam na PT, não precisou desses expedientes para atingir lugares de destaque.

Se, posteriormente, se rendeu a essa cultura para ascender ao topo, já é outra história. Teve obviamente que fazê-lo, tornando-se um gestor de equilíbrios e, para todos os efeitos, também um “homem do BES”. Podia não ser um entusiasta, mas também não afrontava.

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Liderança de António Costa reconhecida internacionalmente…

… ainda que não talvez da forma que o próprio e os seus apoiantes desejassem: Reuters: Opposition leader in pre-election hot water for lauding Portugal’s progress

Portugal’s main opposition Socialist candidate for prime minister has drawn criticism within his party and ridicule by the ruling coalition after lauding the country’s progress over the past four years – none of it under the Socialists.

The Socialists lead in opinion polls before the autumn general election but their support has levelled off short of a majority after a jump late last year when they picked popular Lisbon Mayor Antonio Costa as their leadership candidate.

Costa made his comments last week at an event for Chinese businessmen and they were not meant for broader audiences.

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Prioridades governativas do Syriza

Grécia consegue extensão por quatro meses, preocupação em Atenas com falta de liquidez

Fundo de resgate europeu confirma extensão do programa até 30 de junho. Alexis Tsipras reuniu com a equipa económica para debater baixa tesouraria, com as receitas com impostos a caírem 22,5%.

Governo da Grécia vai reabrir televisão pública

O Governo grego vai apresentar uma proposta de lei ao Parlamento para a reabertura da televisão pública ERT e a readmissão de todos os trabalhadores despedidos que queiram reintegrar a estação.

Compreender o putinismo XVIII

 

Foto: Wikipedia

Foto: Wikipedia

O político russo Boris Nemtsov suicidou-se foi assassinado no centro de Moscovo com quatro tiros no peito. Opositor político de Putin, era um dos organizadores da marcha anti-guerra prevista para 1 de Março. Parece claro que estava ao serviço e foi morto pela CIA.

Boris Nemtsov: Yes, I’m afraid that Putin will kill me (entrevista de 10 de Fevereiro)

Adenda: Entretanto, Putin auto-nomeou-se chefe da investigação. O homem não tem descanso na defesa da sua honra.

Vladimir Putin has already proposed a theory about Boris Nemtsov’s assassination — that his killing was a provocation presumably (according to this theory) to make the Kremlin look guilty. The Russian state-operated TASS reports (translated by The Interpreter):

“Putin noted that this cruel murder had all the hallmarks of a contract job and bears an exclusively provocational character,” said Peskov [Putin’s press secretary – The Interpreter].

According to him, “the head of state has instructed the leaders of the Investigative Committee of the Russian Federation, Interior Ministry and FSB to create an investigative group and to keep the course of the investigation of this crime under his personal control.”

James Miller, Pierre Vaux

BorisNemtsov

Imagem de arquivo que capta Boris Nemtsov com a bandeira ucraniana na mão, ladeado pela ex-PM ucraniana Yulia Tymoshenko e ao fundo, o actual Presidente Petro Poroshenko.

António Costa: Portugal está diferente (video)

António Costa fala de um Portugal diferente à CCTV

(via Miguel Abrantes)

Leitura complementar: Acreditar em Portugal.

Happy Birthday Master Insurgente

happy birthday

O Insurgente fez dez anos e está de parabéns. Ao meu mau feitio e à minha língua viperina (mas tudo o resto é encantador) os insurgentes aturam-nos há seis anos e estou-lhes muito grata por esta experiência. Por escrever com eles, por nos divertirmos na nossa hiperativa lista de mails (e às vezes discutirmos ferozmente sem que tenha havido sequelas nas relações pessoais), pela companhia para os almoços a meio caminho entre o Porto e Lisboa e para os gins à beira Tejo, por nos termos tornado amigos, por impedirem que me sinta um alienígena neste país de esquema mental socialista onde a valorização da liberdade nunca ocorre no primeiro momento (mas lá chegaremos). Lembro-me perfeitamente de quando li o mail com convite indecente do André Azevedo Alves para me juntar aos insurgentes. Estava acampada em casa dos meus pais na semana da mudança da minha casa anterior para a minha casa atual, nas primeiras semanas da gravidez da criança mais nova (e cuja personalidade, não certamente por acaso, pode muito justamente ser descrita como a de um insurgente). Gostei muito do convite, fiz muito bem em aceitá-lo e os planos insurgentes de dominarmos o mundo estão de vento em popa. (Temos infiltrados na assembleia da República e em vários departamentos governamentais, tomámos conta do turismo nacional, e estamos agora em reuniões secretas com os americanos para decidirmos quem se candidatará às primárias para as presidenciais americanas de 2016). Em suma: let’s keep up the good work.

E, nesse espírito, deixo aqui o meu texto de 4ª feira no Observador, sobre os dramas exagerados à volta de uma barbearia com uma estratégia de promoção parva.

‘É uma pena Patricia Arquette não viver em Portugal. Assim, em vez de no seu discurso de agradecimento pelo Oscar falar de minudências como o diferencial nos ordenados pagos aos homens e às mulheres, com uma especial menção para as mães (cujos sacrifícios em termos de carreiras e rendimentos por causa da maternidade são conhecidos), teria referido assuntos importantes que ocupam algumas feministas portuguesas. Exemplo: impedir que uma barbearia privada não receba só no seu interior homens e cães.’

O resto está aqui.

Procura-se consciência na Câmara de Lisboa

Roseta diz que Salgado tinha “perfeita consciência” dos 4,6 milhões.

A presidente da Assembleia Municipal de Lisboa diz que o vereador Manuel Salgado “tem perfeita consciência” de que a isenção de taxas e compensações urbanísticas que a Câmara de Lisboa propôs que fosse concedida ao Benfica é de 4,6 milhões de euros e não de 1,8 milhões. Então por que é que o autarca nunca corrigiu o valor que tem sido divulgado? “Isso pergunte-lhe a ele”, responde Helena Roseta, recusando fazer uma leitura desse facto.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O sonho

Com o lançamento de um novo romance, Miguel Real concedeu uma entrevista ao “Público” na qual afirmou que “Portugal desenvolveu um imenso sentimento de medo em relação ao futuro”. Para aquele professor de Filosofia, o país terá deixado “de sonhar e de criar utopias”.

Durante várias décadas o país sonhou a utopia de que se podia desenvolver sem se preocupar com o futuro. Ora a despreocupação, ou a negligência, conforme o ponto de vista, não é igual a não ter medo. É falta de cuidado, imprudência, inconsciência. Quer queiramos quer não, o que o país teve, se é que é possível colectivizar desta forma milhões de individualidades, foi falta de cuidado.

Bem sei que é aborrecido falar de assuntos comezinhos como este. Mas, se a arte de sonhar está em não deixar de ter os pés bem assentes na terra, não podemos perder a consciência de que a presente crise resulta da acumulação de dívida, da inconsciência com que se encarou o futuro.

Até porque há sempre espaço para sonhar. Eu, por exemplo, gostaria de viver num país cujo Estado não estivesse endividado e não precisasse de ajuda externa para levar a cabo as suas funções essenciais. Que, com as contas públicas equilibradas, tirasse partido de uma moeda forte, que é o melhor instrumento para um desenvolvimento com salários altos. Um país onde o poder político fosse contido e as pessoas livres do fardo que são as frases feitas como as proferidas por Miguel Real, que, ao mesmo tempo que nos falam do futuro, nos tiram os meios de o encarar.

Rua e lenços revolucionários

Maduro

Enquanto o povo se prepara para defender a revolução nas ruas, a política económica revolucionária de Maduro continua a frutificar.

Exercícios intelectuais nas fronteiras do conhecimento e da paz

Rússia anuncia manobras militares na fronteira com Estónia e Letónia,

Polónia não aprecia comemorações.

 Suécia e a Finlândia assinaram um pacto militar entre si como resposta à crescente ameaça da Nato.

I Have Never Left Russia“.

Os oito erros que levaram a Ucrânia a invadir várias regiões da Rússia.

Showbiz (arquivo cultural-caridoso do então PM russo).

Métodos Socráticos

Os tiques de Sócrates ainda estão entranhados na cultura política portuguesa e custam a sair. Em reacção ao episódio chinês de António Costa, Vieira da Silva esclareceu que Costa usou a palavra “diferente”, não especificando se estava “melhor” ou “pior”. Já Luis Montenegro elogiou a falta de “botabaixismo”.

Os apoios de António Costa

O próprio messias no Casino da Póvoa.

O Terceiro excluído, por João Cardoso Rosas.

(…) Os partidos da social-democracia, que sempre constituíram a primeira ou segunda força política europeia, estão em crise profunda. Não se trata de pensar agora no caso português e na ambiguidade da liderança do PS – António Costa pode andar por aí a repetir as vacuidades que quiser porque na Europa não sabem sequer que ele existe. O que deve fazer pensar são os casos da Alemanha ou da Holanda, onde os social-democratas alinham inteiramente pela política de austeridade. Nos Governos de França ou da Itália, eles pareciam ter uma visão diferente, mas acabaram por não ser consequentes.

O actual debate na Europa é muito importante e dele depende não só o futuro da Grécia, ou de Portugal, mas também o destino do projecto europeu. Neste debate o aspecto político mais surpreendente é, sem dúvida, a auto-exclusão do centro-esquerda.

Entretanto no PCTP/MRPP

Já não s@m@s Syris@.

Adenda: Por um qualquer motivo revolucionário que me escapa, os camaradas do site do PCTP/MRPP removeram o link para o vídeo. No entanto, a revolução do Garcia Pereira continua por aqui. Divirtam-se.

Lata estanhada

Ontem, no Prós e Contras, argumentei que a escolha política que se colocava aos países em bancarrota era entre austeridade extrema imediata com défice zero ou pedido de ajuda e correspondente austeridade suavizada mas mais prolongada no tempo. Pedro Lains afirmou que ainda assim se deveria ter optado por uma dose menor de austeridade, para minimizar o impacto negativo. Eu retorqui que o contexto de elevado stock de dívida e défices enormes (mais de 10% em Portugal e na Grécia, como ponto de partida) impossibilitavam esse cenário. Em resposta, Francisco Louçã disse que não era assim: Portugal tinha tido défices de 9% na altura de Cavaco Silva, estando portanto as minhas “contas” erradas.

Na verdade eu não apresentei contas algumas. Mas deixando esse detalhe de lado, é possível realmente apresentar uma conta simples que ilustra o meu raciocínio: Com um stock de dívida tão elevado, superior a 100% do PIB, só os juros a pagar são suficientes para não cumprir o acordado no Tratado de Maastricht (3%). Assim sendo, a espiral de crescimento da dívida torna-se um problema de emergência e é inevitável ou a bancarrota ou doses intensas de austeridade (o meu ponto inicial).

Mas o erro na argumentação de Louçã é ainda mais grave que esta simples aritmética. Vejo-me novamente na posição ingrata de defender Cavaco Silva, depois do episódio Clara Ferreira Alves na semana passada. Efectivamente, houve um ano da governação de Cavaco em que o défice público foi de 9%. Foi em 1985. Nesse ano, Cavaco ganhou as eleições a 6 de Outubro, tendo tomado posse um mês depois, a 6 de Novembro. Por mais má vontade que se tenha contra ele, parece-me de díficil justificação atribuir-lhe responsabilidade pelo défice nesse ano. Além disso, logo no ano seguinte o défice baixou para 6% e iniciou uma rápida recuperação que culminou em cerca de 2% em 1989, antes de piorar novamente, sem nunca exceder cerca de 6%. Cavaco Silva nunca escondeu ser Keynesiano.

Ainda importante de salientar é que os défices de Cavaco existiram num contexto de inflação elevada (20% em 1985, baixando depois, mas sempre por volta do dois dígitos até 1992) e de stock de dívida pública incomparavelmente mais baixo do que na presente crise (mais uma vez reforçando o meu ponto inicial).