Dan Brown’s Inferno

Don’t make fun of renowned Dan Brown

The critics said his writing was clumsy, ungrammatical, repetitive and repetitive. They said it was full of unnecessary tautology. They said his prose was swamped in a sea of mixed metaphors. For some reason they found something funny in sentences such as “His eyes went white, like a shark about to attack.” They even say my books are packed with banal and superfluous description, thought the 5ft 9in man. He particularly hated it when they said his imagery was nonsensical. It made his insect eyes flash like a rocket.

Continuar a ler

About these ads

Um duque que sobreviveu e um país que não mudou

500_9789722045056_memorias_do_duque_de_palmela-1

Portugal achava-se então num estado de tranquilidade completa. Pode considerar-se como feliz entre todos os países da Europa. Muito mais feliz ainda houvera sido, se os que o governavam soubessem aproveitar aquela era de prosperidade para fundar a fortuna pública sobre as bases sólidas de uma boa administração, da reforma dos abusos, sobretudo do melhoramento dos estudos e em geral da educação de todas as classes, de que muito se carecia. O Governo, porém, assim como a Nação, tinham adormecido no regaço da ventura. Quando chegou a época da adversidade, escassearam os recursos, assim como faltou a energia para lutar contra ela à medida que se exauriram as fontes donde, sem trabalho e com pouca indústria, provinha a riqueza nacional.

Memórias do duque de Palmela, p. 79.

As memórias do duque de Palmela, escritas em 1848, e apresentadas agora por Maria de Fátima Bonifácio, retratam na primeira pessoa a vida de um homem que marcou a política portuguesa da primeira metade do século XIX. D. Pedro de Sousa Holstein, nasceu em Turim e veio a primeira vez para Portugal já com 14 anos. Sabia várias línguas e foi um diplomata excelente. Talvez devido as esses dois factores, a sua carreira política ficou aquém do que se poderia esperar. O país que encontrou em 1795, quando chegou a Lisboa, esperava suspenso o abismo que chegaria anos mais tarde. O trecho do texto em cima refere precisamente isso. Palmela acabou por sobreviver a tudo. Tal como o país. As invasões francesas, a instabilidade política, a independência do Brasil, o regresso do rei, a guerra civil, os vintistas, os setembristas, os cartistas e por aí em diante. O país sobreviveu, mas não mudou. Como se pode ler do que Palmela nos lega, a felicidade que poderíamos ter tido, acaso os governos tivessem aproveitado os dinheiros vindos da Europa e reformado o estado de modo a não se ter endividado ao ponto de, refém de interesses diversos, se ver forçado a manter serviços e a distribuir benesses do agrado de alguns, continua uma miragem.

1795 não foi o único ano em que o país esteve suspenso. À espera. Já tinha acontecido e já voltou a suceder. Como agora. Como acontecerá daqui a uns anos. Tal como antes, sobreviveremos com os nossos filhos e netos prontos para contar a história. Infelizmente, essa, tal como a que Palmela nos descreve, não será bonita, nem vai ser fácil. Sobreviveremos, mas o país não mudará.

Amores e desamores reais: um filme e um livro

royal affairNão vi o filme Um Caso Real que João Quaresma recomenda – se não há filme infantil que passe sem peregrinação familiar ao cinema, já para os filmes de gente mais crescida, enfim, o cenário não é o mesmo – mas fiquei com a pulga atrás da orelha. Foi em A Royal Affair: George III and his Troublesome Siblings de Stella Tillyard que conheci a história do casamento da princesa britânica (bem, mais alemã que britânica) Caroline Matilda com Cristiano VII da Dinamarca e do seu affair extra-conjugal com o médico Struensee – romance ilícito que termina calamitosamente, qual tragédia grega ou livro dos escritores oitocentistas ditos realistas (que sucumbem sempre à tentação de matar as adúlteras das suas histórias), para todos os envolvidos, com mortes, torturas, exílios, separação forçada dos filhos da sua mãe e outros desgostos afins. Ao ler o livro de Tillyard – que tem tanto talento para contar histórias reais quanto lhe falha quando se aventura na ficção - recordo-me de pensar que os amores e desamores de Caroline Matilda eram excelente material para filme. Ainda bem que alguém concordou.

Os preconceitos da esquerda sobre a direita são sempre muito divertidos

Através do Estado Sentido fico a saber a opinião (enfim, sejamos caritativos e chamemos-lhe assim) de Sérgio Sousa Pinto sobre as pessoas que hoje vão esperar na sua chegada à RTP a criatura que faliu o país para a entrevista que este e a RTP, com o dinheiro dos contribuintes que pagam a falência, vão usar para tentar branquear os desgovernos da criatura. Diz Sérgio Sousa Pinto que «Sócrates vai enfrentar uma horda de queques parvos, que vagueiam órfãos, de causa em causa, desde o fim do clube T [...]. Aposto que vão arrancar os berloques dos mocassins e atirar ao ex-primeiro-ministro. A seguir quem será alvo desta ira bcbg?»

Ora eu declaro já que me devo andar a dar com gente assaz estranha (isto é, não bcbg) porque fiz um esforço e não me lembro de ter visto berloques nos mocassins de ninguém para aí no último ano. Nem mesmo nos almoços do Instituto Adelino Amaro da Costa, onde costuma estar uma direita conservadora com cuidado no vestir, vislumbrei os tais berloques. Mas, enfim, como Sérgio Sousa Pinto é um jotinha com pior CV ainda do que PPC, não se destingue pelo brilhantismo nos exames nem pela intensidade do trabalho enquanto membro do parlamento europeu (os mentideros contam que nem se dava ao trabalho de ir buscar à caixa de correio dos MEP os documentos que lhe eram enviados), pode ser que tenha de se agarrar aos seus preconceitos para dar algum sentido à sua vida, pelo que é caridoso não o desapontar.

noblesse oblige 2Assim, já sabem: façam lá o favor de ir desenterrar alguns mocassins com berloques (e é mesmo conveniente que sejam velhotes, para que arranquem sem excessivo peso na consciência os berloques para atirar a sócrates, que a direita é poupada, tem a mania de tratar bem todos os objectos para os deixar aos filhos e aos netos e não gosta de estragar sapatos em boas condições), não tenham outro assunto de conversa que não a última ida à neve, dêem só um beijinho e um ar alourado e bronzeado será um plus (ainda que este ar alourado e bronzeado seja mais prevalecente num grupo que geralmente escolhe fazer outras coisas do que ir atirar berloques a um ex-pm, pelo que ninguém necessita de ir descolorar o cabelo nem enfiar-se num solário). Para os (pouquíssimos) socialmente menos seguros, e visto que já não têm tempo de ler o Snobs de Julian Fellowes, é fundamental que leiam pelo menos um ou dois capítulos do Noblesse Oblige da Nancy Mitford. Dar um ar de que são as massas da classe média que vão protestar com sócrates é que, claro, não pode ser.

A história que vou usar quando um dia tiver de explicar aos meus filhos o ano de 2013

Em The American de Henry James (já não me lembro do nome das personagens e não estou em casa para ir espreitar o livro) há uma família aristocrática francesa que vive tempos de decadência – moral e pecuniária – que tudo faz para evitar o casamento da filha da família com um self made man americano (bom, ingénuo, generoso, como costumam ser os americanos da fase europeia de Henry James) que por ela se apaixonou. Apesar de reconhecer os benefícios pecuniários que poderiam advir do casamento da filha com o milionário americano, a família prefere continuar com o seu calvário financeiro, e até correr o risco de ver o americano mostrar ao mundo as provas do assassínio do pai da sua pretendida pela sua pretendida sogra, do que permitir que a filha e irmã da casa forme uma aliança com o plebeu e vulgar americano.

Isto vem a propósito de quê? Bem, é desta história que eu me tenho lembrado desde que li as notícias sobre um provável chumbo do TC a algumas medidas de redução da despesa constantes no OE2013. O tribunal constitucional, qual aristocrata arruinado, não se importa que o país tenha inadiável necessidade de reduzir a despesa pública, desinteressa-se pelo facto de a troika já ter dito que acabou o tempo de equilibrar as contas com aumentos das receitas fiscais, ignora os sacrifícios acrescidos que recairão sobre gente mais vulnerável do que os pensionistas premium que um chumbo do TC protegerá; enfim, o TC não quer saber se o estado vai ou não falir à conta das suas incursões pela política. O TC simplesmente impõe um imobilismo fundamentalista na esperança de congelar o país num mundo que já não existe.

Inverno Chinês

Mao_unknown_story

O livro que Francisco José Viegas aqui publicita – a tradução, publicada pela Quetzal, de Mao: The Unknown Story, cuja compra e leitura recomendo já – deu azo a um episódio da divertida novela das batalhas académicas que se têm travado sobre a história do maoísmo.

Em versão rápida: Mao, The Unknown Story (de Jung Chang, autora de Cisnes Selvagens, e do seu marido, o historiador Jon Halliday) apresenta novos materiais sobre Mao Zedong, baseando-se sobretudo em testemunhos pessoais obtidos pelos autores em entrevistas a este mundo e o outro; o livro pinta Mao das piores cores que os autores conseguem e é evidente que é essa a intenção. Mas como a produção da História do maoísmo ainda tem o seu quê de batalha campal (o que é muito apropriado, dado o objecto), vários académicos, todos eles ausentes da bibliografia do livro de Chang, reuniram as suas recensões (de mais ou menos negativas – de Lowell Dittmer ou Jonathan Spence, ele próprio biógrafo, em minha opinião nada bem sucedido, de Mao – a muito negativas – de Mobo Gao, que chamou ao livro ‘escândalo intelectual’) e publicaram Was Mao Really a Monster?: The Academic Response to Chang and Halliday’s “Mao: The Unknown Story”, acusando Chang e Halliday de ignorarem investigação anterior (a destes autores) e apresentarem informação selectivamente . Inevitavelmente terminam apontando o dedo acusatório à parte da juventude de Chang como Guarda Vermelho durante a Revolução Cultural. O que também já é um clássico nos autores mais benevolentes com o maoísmo, que, incomodados com a existência crescente e o sucesso editorial de relatos autobiográficos das desventuras pessoais ou familiares durante o maoísmo, sobretudo da Revolução Cultural, não deixam sempre que possível de apontar a cumplicidade (efectiva, que estamos em terrenos ambíguos) dos autores desses relatos no sofrimento provocado a terceiros, indo desde as memórias do comum adolescente guarda vermelho que participa em actos de violência contra os ‘inimigos da revolução’ antes de ser enviado ele próprio para trabalhar numa aldeia remota e viver no limiar da sobrevivência, até às memórias da filha de Deng Xiaoping sobre as atribulações do seu pai durante a Revolução Cultural onde não consta o apoio inicial de Deng à RC antes de ter percebido que ele e os restantes quadros mais antigos do PCC eram os principais alvos da grande revolução cultural proletária.

Reincidindo, Mobo Gao, num livro apropriadamente intitulado The Battle For China’s Past: Mao and the Cultural Revolution, responde de uma assentada a Chang e Halliday, a Li Zhisui (médico de Mao que uma vez fora da China publicou as suas memórias sobre a sua vida com o famoso paciente) e a todos os memorialistas que têm andado a ofender a herança maoísta com as suas sortidas histórias de perseguições. Curiosamente Gao usa a mesma subjectividade de que acusa Chang (até a personalidade ‘fria’ de Lui Shaoqi parece ser justificação para a perseguição e morte de Liu) e assegura que as vítimas do Grande Salto em Frente terão sido, no máximo, 30 milhões de chineses (poucos, portanto), contra os 38 milhões aventados por Chang (Frank Dikotter coloca-as em, pelo menos, 45 milhões).

O mais interessante disto? É espelhar a batalha pelo futuro, e não pelo passado, da China que por lá se passa actualmente entre os que pretendem dar continuidade às reformas económicas e se assumem como herdeiros da Teoria de Deng Xiaoping e os que desejam um regresso aos tempos maoístas e vão buscar ao Pensamento de Mao Zedong legitimidade política – e que teve no ano passado com a prisão do maoísta Bo Xilai e a ascensão de um Xi Jinping, que decidiu ter como um dos primeiros actos de presidente uma viagem a Shenzhen que emulou uma outra famosa viagem de Deng, um deveras dramático (i.e., à chinesa) desenvolvimento.

Choose Life – De Trainspotting a Porno

Um novo Trainspotting, 20 anos depois

Vinte anos depois, a cidade em que o realizador do oscarizado Quem Quer Ser Bilionário trilhou o seu caminho do culto para o mainstream deve voltar a ser filmada, em formato sequela. Danny Boyle está a planear voltar a Trainspotting em 2016, quando o filme baseado no romance homónimo de Welsh cumpre o seu 20.º aniversário.

Trainspotting [DVD]

Trainspotting [paperback]

Porno [paperback]

Continuar a ler

Portugal na hora da verdade

É uma pena que quem fez estas sugestões nunca tenha chegado a ser ministro: Impressões. Por José Pedro Lopes Nunes.

Citação do dia – 1
“Publicação na internet de todos os salários dos funcionários públicos, e dos trabalhadores em todas as entidades e organismos públicos e empresas do Estado” (*). Ora aqui está uma boa proposta, de preferência substituindo “salários” por “vencimentos anuais” (incluindo horas extra, bónus, etc.).

Continuar a ler

Pelo direito das mulheres à futilidade

anita loos

Como a lamechice a que se chega no dia internacional da mulher não se atura – e assim, e felizmente, assuntos sérios como a pobreza atingir mais mulheres que homens em todo o mundo, a privação de direitos humanos às mulheres em tantos países (com os países muçulmanos à cabeça), o perigo mortal que ainda é engravidar e passar por um parto em muitas zonas do globo e um etc. destes assuntos assaz levezinhos (passando, de caminho, pela tolerância europeia face aos maus-tratos às mulheres dentro das comunidades muçulmanas residentes na Europa) ficam para (espera-se que todos) os restantes dias do ano – cabe-me vir aqui contrariar a lamenchice e recomendar uma leitura hilariante: Gentlemen Prefer Blondes, dessa percursora da chick lit que foi a Anita Loos. Garanto: mais vale ler Anita Loos do que a Betty Friedan ou a Mary Wollestonecraft, umas gargalhadas ajudam sempre e previnem rugas – e como se vê pelo livro aconselhado uma mulher atraente que saiba usar o que a torna atraente é sempre uma mulher inteligente.

(A imagem é de uma edição em francês porque era a mais gira, mas claro que o livro é para ler em inglês: a piada do dialecto de Lorelei não é traduzível).

Incursão pela austenmania

Ainda não foi referido aqui n´O Insurgente – e por negligência inteiramente minha – o mais importante acontecimento do ano 2013: obviamente o bicentenário da publicação do Pride and Prejudice. Teremos oportunidade de voltar ao tema, mas por agora deixo aqui um teaser retirado da série emitida pela BBC em 1995 (depois da qual ninguém remotamente ligado a cinema ou televisão deveria ter a ousadia de filmar, ou sequer pensar filmar, nova versão do livro). Escolho, claro, e porque segundo The Daily Beast sou uma ‘Colin Firth fanatic’ (eu corrigiria para ‘alguém de extremo bom gosto’), a cena do mergulho de Mr Darcy no lago de Pemberley, que curiosamente não faz parte do livro, mas lá não destoaria, sendo uma criação genial de Andrew Davies, o argumentista (e só não lhe teço os elogios de antes porque ainda não lhe perdoei as galinhas na cena final da sua última adaptação televisiva de Sense and Sensibility).

Aviso: para este e para futuros posts sobre Jane Austen ou Pride and Prejudice, e porque a minha tolerância é escassa neste capítulo, não se aceitam comentários de pessoas suspeitas de terem dado por tempo e dinheiro bem gastos os usados para assistir àquela mistela – na verdade um filme que só pode ter sido concebido para testar o amor à liberdade de expressão de quem o visse – com a Keira Nightley e um senhor que graças a Deus não fixei o nome que passou por nova adaptação para o cinema do PP e que já tive o prazer de destratar aqui.

Sobre as Contas Politicamente Incorrectas de Ricardo Arroja

Quando, em plena capital londrina, o Ricardo me falou das ideias que ele tinha veiculado no seu novo livro “As Contas Politicamente Incorrectas da Economia Portuguesa”, percebi que a sua abordagem económica era distinta. Agora que o li, não tenho dúvidas: este é um livro muito recomendável, mesmo aos que acham que já conhecem bem a situação económica portuguesa.

Claro que um céptico dirá que eu teria necessariamente de dizer bem deste livro, visto ser amigo do autor. Por certo, uma acusação justa. Porém, neste caso, a minha impressão não seria diferente se não o conhecesse. Deixem-me apresentar as razões.

Há pelo menos 2 fortes razões veiculadas neste livro que justificam o seu título e a sua relevância, pois estas chocam frontalmente contra o que os donos da 3ª República veiculam há quase 40 anos em defesa do seu regime. A primeira razão apresentada é que a economia portuguesa do período do Estado novo era comparativamente superior à do actual período democrático. A segunda razão é que a União Europeia e o mercado único foram, nas palavras do Ricardo “uma prenda envenenada” para Portugal. Ambas estas ideias são anátemas para o actual regime. Durante décadas, os portugueses foram “educados” na ideia de que tudo é melhor em democracia e de que a União Europeia é o presente e o futuro que nos levará ao nirvana da prosperidade e modernidade.

Para consubstanciar estas ideias, o Ricardo oferece inúmeros dados “politicamente incorrectos”. Vejamos alguns em relação ao Estado Novo vs Democracia:

“No índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas, que mede a qualidade de vida dos países em 2011, figurávamos no 41.º lugar. Em 1975, um ano depois de Abril de 1974, estávamos em 24.º” (p. 30).

Politicamente incorrecto? Sim; mas apenas para quem não tem tomado atenção aos números da economia portuguesa. Continuemos:

“ O Estado Novo foi um período de enorme convergência para os padrões de vida de uma Europa mais rica, tendo o PIB per capita português passado de 30% da Europa rica em 1930 para mais de 50% imediatamente antes do 25 de Abril. Desde então, no espaço de outros 40 anos, a convergência não foi além de 10 pontos percentuais, de 50% para 60% do norte da Europa. E desde 2000 tem sido até uma história de divergência económica, ao ponto de hoje estarmos pouco melhor que em 1974” (p. 150).

Este período de divergência com a Europa coincide, claro está, com a entrada de Portugal no euro; e sobre a União europeia em geral o Ricardo tem muito a dizer, principalmente sobre a forma como o mercado único e as políticas de Bruxelas foram determinantes na destruição do nosso tecido produtivo, quer no sector da industria, como nos sectores das pescas e agricultura. Como resultado, diz-nos o Ricardo:

“O défice na balança de bens é esclarecedor: entre 1996 e 2008, ano em que se atingiu um défice recorde de  (…) cerca de 14% do PIB, a diferença entre importações e exportações aumentou 200%” (p. 35).

A destruição produtiva destes campos é tão pronunciada que, no sector das pescas, Portugal importa agora 60% do seu pescado, sendo um país com o mar à sua frente. Parece que até a República Checa, sem tradição piscatória, consegue produzir 3 vezes mais que nós. Com as limitações de produção impostas por Bruxelas, os resultados na agricultura são semelhantes.

Já os efeitos da aventura “Europeísta” na indústria portuguesa foi igual: A indústria emprega hoje menos de 15% da população activa quando em 1970 representava mais de 30%. Ademais, na década do euro, a desindustrialização acentuou-se, tendo o emprego na indústria diminuido ao ritmo de 2.7% ao ano (p. 49).

Resumindo, Portugal tem hoje um sector produtivo debilitado que não consegue servir as ambições dos portugueses. Para compensar esta falta de produção, Portugal endividou-se tanto ao nível privado como ao nível público, respondendo aos incentivos perversos do crédito barato e fundos europeus com que a União Europeia seduziu o país. Assim, terminámos endividados e governados pelo exterior.

Juntamente com o período de Marques de Pombal, o Estado novo foi dos períodos onde as contas nacionais estiveram em ordem e a economia teve boas prestações. Períodos não-democráticos com certeza. O que nos leva a considerar que as pressões democráticas das massas contribuíram consideravelmente para o actual descalabro. Porém, o Ricardo não advoga o fim das liberdades políticas, apesar de não desenvolver soluções políticas para este problema.

Já no campo económico, há soluções apresentadas. O Ricardo considera que Portugal tem de reaver os seus instrumentos de soberania para poder defender a economia nacional (tal como aconteceu nos períodos áureos supracitados). Nomeadamente, que são precisas medidas de protecção de determinados sectores nacionais em competição no comércio internacional, visto que este último tem-se mostrado destruidor da nossa actividade produtiva. No campo monetário, advoga que é necessária uma desvalorização a curto prazo para restabelecer o investimento nacional e relançar a economia, apesar de, a longo prazo, uma moeda forte ser um objectivo primordial.

Isto, podemos dizer, implica em larga medida a saída do euro e do mercado único, ou pelo menos implica a renegociação de medidas que tragam de volta determinados instrumentos de soberania.

Independentemente do que se possa pensar em relação às propostas apresentadas neste livro, há uma viragem importante em relação ao pensamento universalista e globalista que a esmagadora maioria das análises económicas das últimas décadas nos trouxeram. O foco de preferência altruísta do Ricardo não é o mundo, ou a Europa, mas sim os portugueses. O objectivo não é que todos fiquem melhor, mas que os portugueses fiquem melhor. Tal como o filósofo Michael Sandel argumenta, nós como indivíduos com identidade temos legitimidade moral de dar  preferência à nossa comunidade, aos que nos estão directamente relacionados.

Este livro aponta para a tradição como o melhor indicador das soluções para os problemas actuais. A tradição de sucesso portuguesa, é-nos dito, passa por uma abertura gradual ao comércio internacional, mas sempre com as protecções necessárias que garantem a coesão e sustentabilidade produtiva nacional.

Os teóricos económicos irão discordar ou concordar com tais soluções, mas o que este livro nos relembra é que a política faz-se de escolhas e prioridades; ou seja, depois da febre internacionalista do pós-guerra, está na hora de voltar a moralidade política para a nação.

The Salamanca School, nova edição em 2013

Três anos depois da primeira edição – e devido ao facto de esta ter tido bom acolhimento – está prevista para o início de 2013 uma nova edição, agora em paperback e a um preço bem mais acessível, do livro The Salamanca School, de que sou autor conjuntamente com José Manuel Moreira.

Face ao preço proibitivo da edição hardcover (que infelizmente seguiu uma prática comum nas colecções de referência destinadas priotariamente ao mercado das bibliotecas universitárias) foi com muito agrado que recebi a notícia de que a editora havia exercido o direito de opção para uma nova edição paperback. Não só (embora também) pelo sucesso da primeira edição, mas principalmente por isso significar que o livro poderá ter a partir de agora uma difusão mais significativa.

A nova edição encontra-se já disponível para pré-encomenda na Amazon.

The Triumph of Christianity


The Triumph of Christianity: How the Jesus Movement Became the World’s Largest Religion

Mais um oportuno e corajoso artigo de João César das Neves: A grande fraude.

No seu recente livro The Triumph of Christianity (HarperOne, 2011) o reputado sociólogo da religião Rodney Stark faz um resumo de 40 anos de carreira e de uma impressionante lista de trabalhos de outros autores. O tema explícito é o paradoxo a que dedicou grande parte da sua atenção: “como foi possível que uma obscura seita judia se tenha tornado na maior religião do mundo?” (p.1). Só que, apesar de cobrir esparsamente os dois mil anos de história, pode dizer-se que o verdadeiro assunto do volume é bem diferente: derrubar uma enorme quantidade de mitos, erros e manipulações que a historiografia dos últimos séculos acumulou sobre a Igreja.

Continuar a ler

Depois do Porto, Lisboa e Madeira

O lançamento no Porto do livro do Ricardo Arroja foi um notável sucesso. Sala cheia na FNAC de Santa Catarina, uma boa apresentação do Luciano Amaral (que a meu ver pecou apenas por não ter sido mais incisivo nas críticas às propostas de pendor proteccionista) e a habitual simpatia, sobriedade e capacidade comunicacional do Ricardo.

Faço votos de que as sessões em Lisboa e na Madeira corram igualmente bem.

Adalberto Dias de Carvalho, o Observatório dos Recursos Educativos, a Porto Editora e os manuais escolares

Uma verdade inconveniente. Por António Araújo.

Fala-se há muito num sistema de empréstimos de manuais escolares. Existe uma entidade independente que estudou o assunto. Chama-se Observatório dos Recursos Educativos (ORE), com sede no Porto (Apartado 4173). O ORE tem produzido vários estudos, um dos quais tem por título «O Manual Escolar no Século XXI», da autoria do Professor Doutor Adalberto Dias de Carvalho e do Doutor Nuno Fadigas. Além de investigador do Observatório, o Professor Adalberto Dias de Carvalho é catedrático de Filosofia da Educação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É autor de vários livros, tais como: «Educação Social. Fundamentos e Estratégias» (ed. Porto Editora), «Novas Metodologias em Educação» (ed. Porto Editora), «Utopia e Educação» (ed. Porto Editora), «A Educação e os Limites dos Direitos Humanos» (ed. Porto Editora).

Continuar a ler