O acordo ortográfico e eu

O meu texto de hoje no Observador, sobre ortografia com deriva literária.

‘Aviso já: a ortografia não me desperta emoções fortes. Não entendo a forma como muitas pessoas reagem à nova grafia como se um larápio lhes tivesse invadido a casa, roubado as jóias herdadas da avó e grafitado os retratos dos solenes antepassados. Tanto mais que (provavelmente porque ainda não ocorreu aos responsáveis do ministério das finanças) é perfeitamente possível continuar a escrever com a grafia antiga sem que tal constitua infração punível com multa.

A minha adoção do acordo ortográfico foi inteiramente utilitária. Tinha um limite máximo de 2000 caracteres com espaços para textos que escrevia para um jornal, bem como uma dissertação de mestrado a meio (no início, para ser sincera, e também com limite de caracteres) e, como sou tendencialmente palavrosa e pouco sintética (repararam na redundância?) e sofro sempre a cortar textos, lembrei-me: por que não livrar-me das consoantes mudas para poupar caracteres? Desde então a reação dos leitores não se fez esperar. As idiossincrasias da minha escrita sempre foram aceites como, bem, idiossincrasias da minha escrita. Nunca ninguém resmungou do meu uso de uma ou outra expressão em inglês, da minha queda para os advérbios de modo, da mania de observações entre parêntesis. Mas com a nova grafia, oh, não houve alma das tais que sente apaixonadamente a ortografia que não se manifestasse: no facebook amigos lamentaram o meu parco discernimento; no blog questionaram as minhas capacidades cognitivas, sugeriram pertença ao BE e garantiram-me que não mais leriam qualquer coisa que escrevinhasse, nem sequer uma lista de supermercado.’

O resto está aqui.

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Um par improvável (ou: regressando a coisas interessantes)

Já andei a publicitar isto noutros lados, mas seria um crime de, sei lá, genocídio literário não o partilhar também aqui. Mundo (ou, como sou obrigada a dizer quando tenho de apresentar as crianças cá em casa, ‘senhoras e senhores, meninas e meninos, bebezinhas e bebezinhos’ – e isto apesar de eu ser a única xx neste lar): apresento-vos Adam Smith ao encontro de Jane Austen. Confesso que não entendi as relações que se podem estabelecer entre A Teoria dos Sentimentos Morais e os livros da Jane. As heroínas dos seus livros (tirando Emma Wodehouse) são todas umas destituídas da vida que querem, mais que tudo, casar com um homem rico. E casam. Por amor, evidentemente, ou não fossem romances jorgianos ‘by a lady’ (que foi como inicialmente se publicaram). Também se pode dar o caso de ser mais um exemplo daquela descrição da aristocracia britânica que a Nancy Mitford faz no Noblesse Oblige, com encantadora parcialidade: os aristocratas britâncicos costumam casar com quem estão apaixonados e calha que se apaixonem por pessoas ricas. Mas, lá está, a Lizzie (do Pride and Prejudice) só começa a perceber (e a apaixonar-se) por Mr Darcy depois de ver Pemberley – i.e., de perceber quão rico Mr Darcy era. E a Fanny de Mansfield Park, quando volta a casa dos seus pouco abonados pais, depois de viver com os tios ricos, também conclui que há grandes incómodos na falta de dinheiro.

Claro que para redimir tanto amor pelo vil metal, lá temos a Lizzie que recusa as propostas de casamento de Mr Collins (o herdeiro da propriedade do seu pai) e de Mr Darcy, sabendo que este é rico mesmo que não saiba quão rico. E a Elinor de Sense and Sensibility também não se incomoda que o seu Edward Ferrars perca a sua herança para poderem ter o seu felizes para sempre. (E a própria Jane Austen recusou pelo menos uma proposta de casamento, sendo que tinha ainda menos dinheiro do que as suas heroínas.)

Mas isto não interessa nada, só quem tem a mania de ser crítico literário mas não percebe patavina do assunto pode desgostar de ler sobre Jane Austen e Adam Smith, emparceirados ou não. Em todo o caso, este texto foi motivo para arrumar as estantes. A Jane Austen estava ao lado da Nancy Mirford, do Evelyn Waugh, do Thackeray, do Dickens (e dos livros do Harry Potter) e A Riqueza das Nações e A Teoria dos Sentimentos Morais estavam perdidos no meio dos livros de Economia. Finalmente estão reunidos.

(Des)Amor com (des)amor se paga

Israel – como tudo na vida – não está acima de críticas. Nem na atual guerra com o Hamas em Gaza nem nos intervalos das erupções violentas. E tem lá dentro os intoleráveis judeus ultra-ortodoxos que são tão agradáveis para o género feminino (dou três exemplos) como as gentis almas que compõem o Hamas. Mas confesso que me espanta como há tanta gente que tem bitolas tão distintas para os dois lados. Israel não pode atacar (como faz agora e em resultado de ataques sofridos) mas também não se pode defender preventivamente (ai Jesus que construiram o muro); Israel não pode atacar mas ninguém se lembra que do tempo em que iam mandar os judeus ao mar (propósito que ainda tem o Hamas), das guerras que o lado palestiniano provocou e dos boicotes a qualquer tentativa de uma paz negociada – e tudo em prol de jogos de poder entre Hamas e OLP (e dentro de cada um), da manutenção de esquemas de corrupção que enriqueceram os líderes da OLP e para distrair os palestinianos da negligência e incompetência e corrupção dos governos de OLP e Hamas.

Já com o Hamas a complacência é total. A indignação com as mortes civis (e sobretudo de crianças) dirige-se toda para o exército israelita, mas o facto do Hamas preferir o apelo propagandístico das mortes de crianças e civis pelos israelitas, localizando-se onde faz mais mossa à população civil em caso de ataque, em vez de proteger os civis de Gaza já é de todo irrelevante e não lhe atribui nenhuma culpa na morte dos referidos civis. A pobreza em Gaza não interessa, os desrespeito pelos direitos humanos das mulheres likewise. E para o que acontece ao mesmo tempo na Síria e nos locais controlados pelo ISIS olha-se para o lado, que não é conveniente haver outros concorrentes à indignação que se quer oferecer toda a Israel.

Eu, se tiver de escolher lados, fico com Israel. Tem erros, tem exageros, tem mão militar pesada. Mas não festeja as vítimas do outro lado, não sacrifica vidas civis do seu lado à propaganda, não só não tem um total desrespeito pelas vidas do lado inimigo como não pretende provocar o maior número de vítimas – é isto o Hamas. Que, além disso, defende coisas que me são aberrantes. Aprecio tanto o Hamas como lá valorizam o que eu sou e represento: uma mulher ocidental independente.

Uma boa leitura para estes dias – e porque os dramas humanos naquela zona não começaram agora – é o Oh Jerusalem, da dupla Larry Collins e Dominique Lapierre. (Livro sobre o qual escrevi no primeiro jornal que deu guarida a textos meus – o Notícias do CUPAV – depois do assassinato de Ytzhaz Rabin, que era referido no livro nos seus tempos do Palmach, a 4 de novembro de 1995. Lembro-me perfeitamente de ter sabido desta notícia numa área de serviço da A1, já bem de noite no regresso de Coimbra, onde tinha ido à festa de 20 anos do CUMN.)

oh jerusalem

Tintinólogos do mundo, uni-vos

Vão a correr ler este texto maravilhoso do Paulo Tunhas no Observador, quase todo sobre Tintin – e Hergé (como se se pudesse escrever sobre um sem escrever também sobre o outro). Eu tenho mais ou menos a mesma relação com os livros do Tintin: when the things get tough, quando não há paciência para absolutamente mais nada, (re)lê-se os livros do Tintin, a melhor psicoterapia à disposição da humanidade.

blue lotusAcrescentava só um pequeno ponto, que é talvez o mais agridoce dos livros do Tintin: as suas incursões pela política. Destaco duas. A primeira do Lótus Azul, onde Hergé mostra a China repartida, não só pelas concessões das potências europeias nas grandes cidades (vê-se a de Shanghai) mas também pela invasão japonesa dos anos 30. Hergé foi mesmo acusado de ter escrito um livro político em vez de um livro para crianças. E nisto, como em tudo o resto (o humor, a amizade, os preconceitos,…), os livros de Tintin são de hoje. A China e o Japão continuam em zangas intermináveis à conta de minúsculas disputas territoriais de ilhotas. E não há vez que a China não use a carta ‘invasão japonesa’ e, sobretudo, a ‘violação de Nanjing’. (O Flowers of War, de Zhang Yemou dá-nos o vislumbre do que foi o evento.) Pelo seu lado, o Japão menoriza as atrocidades dos soldados japoneses pela Ásia oriental nos anos 30 e 40, o que enfurece a China e a Coreia. Como de costume, o presente só se entende através do passado – e as visões do passado só se entendem através do presente. E nestes casos de eventos históricos violentos, tal como nos traumas individuais e como diz Dori Laub (que eu estou a notar uma ausência de referências a autores relevantes há bastante tempo aqui no blog, o que me faz temer pelas nossas reputações), os traumas são eventos sem fim.

A segunda é ainda mais desiludida e assassina e calhou ser como termina a série do Tintin. Está no último quadradinho dos Pícaros, com o avião de Tintin e companhia a voar de regresso. Hergé repete a visão da capital de San Theodoros com o avião de Tintin e companhia sobrevoando a cidade antes de aterrar. Nos dois quadradinhos se vêem as lixeiras e as famílias que nelas vivem. Apenas mudaram – depois da transição política em que Tintin participou – os uniformes dos guardas armados que patrulham as lixeiras e os cartazes com o nome do ditador.

picaros

A Escola de Salamanca

The School of Salamanca

Um breve mas recomendável video de introdução à Escola de Salamanca.

No final são mostrados os livros Faith and Liberty: The Economic Thought of the Late Scholastics, de Alejandro Antonio Chafuen e The Salamanca School, de que sou autor juntamente com José Manuel Moreira.

Leituras de férias, com incursão ao imbróglio russo-ucraniano

Lido hoje no Almost English da Charlotte Mendelson (que faz parte das melhores descobertas literárias dos últimos 12 meses), às páginas 130 a 133, e que mostra bem como em certas zonas da Europa central e oriental as nações estão bem definidas há séculos, não há cá ambiguidades nem sobreposições nem cinzentos. Diz Marina (uma das personagens), descrevendo a origem dos avós paternos:

«’They were born [...] in the Austro-Hungarian Empire’ [...] I can´t remember the actual place name. It kept changing around, I think, the barriers. Boundaries. They did their sums and reading in Russian and spoke Hungarian to their parents but the town was Czech [...] And they speak Hungarian now, amongst themselves, but they say trey’re fron Cz– the Czech republic. They call it Czecho. How can that be? [...] But now their town is in Russia. The Ukraine. No, Ruthen– Ruritania. Somewhere like that’»

(Eram da Transilvânia, afinal, que é sempre um bom local de onde ter antepassados.)

A literatura dá-nos sempre umas pistas

wigs on the greenAgora que o nazismo é referido a propósito de tudo no nosso país, que parece que não tem problemas nenhuns e se pode dedicar a inventar disparates, por gente que ama a liberdade dos outros se conformarem com os seus cânones, lá vou eu buscar a Nancy Mitford e o romance Wigs on the Green. Lá, Nancy – irmã da segunda mulher de Oswald Mosley, o líder da British Union of Fascists, e irmã da lunática Unity (com o profético segundo nome de Valkyrie), uma apaixonada por Hitler que foi viver para a Alemanha e se tentou suididar no dia em que a Grã-Bretanha declarou guerra ao seu país de acolhimento – com o seu talento para pôr nos seus livros a sua vida e a sua família, dava-nos a conhecer, em tom de caricatura, uma menina inspirada em Unity e um trauliteiro inspirado em Mosley. (E levou com a fúria das irmãs de seguida, obviamente). Estas personagens, tal como quem as inspirou, tinham dois ídolos políticos: Hitler e Roosevelt.

A realidade antes da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto tinha mais cinzentos do que por estes dias é conveniente (à esquerda) reconhecer.

(Aproveito para agradecer a Manuel Alegre as suas palavras. Sempre que o senhor se manifesta, a minha dissonância cognitiva por ter votado em Cavaco Silva reduz-se significativamente.)

Livro para quem gosta de histórias falhadas. E outro para quem não gosta.

Há uns anos recordo-me de ter lido um livro, com título há muito esquecido e atual localização na minha estante incerta, sobre as várias tentativas goradas do Almirante Canaris e da Abwerh de envio de espiões alemães para a Grã-Bretanha durante a WWII. (Eu sou como uma esponja para histórias de espionagem, sobretudo as da segunda guerra mundial, e literariamente íntima de M.R.D. Foot e outros historiadores do SOE, MI6 e afins.) O livro era fraquito – nem questionava a ineficácia de Canaris à luz da sua oposição a Hitler, que levou à morte do chief spy alemão e confirmou em Hitler o desprezo pelas gentes que se entregavam à outra mais velha profissão do mundo, a espionagem itself – e deixou-me sobretudo a pergunta ‘porque perdi tempo a ler sobre projetos falhados?’ Como estas histórias falhadas podem fazer os encantos de alguém, aqui fica o exercício simétrico que descobri na Spectator (só li a crítica, não li o livro): as histórias dos agentes do SOE que tentaram organizar as suas redes em Itália e foram mortos ou capturados e nenhum benefício trouxeram ao SOE durante a guerra.

Aproveitando a temática, um livro que junta histórias de espionagem com outro aspeto que eu compro sempre – uma história pessoal no meio dos eventos da grande História -, e na Península Ibérica, é este Papa Spy, de Jimmy Burns, sobre o trabalho do seu pai para o MI6 em Madrid – mas também em Lisboa, onde vinha de vez em quando fazer uma perninha a bem da espionagem aliada. (Outra história deliciosa da WWII, aflorada neste livro e desenvolvida em muitos outros, é a da quase deserção dos Duques de Windsor para o Eixo durante a sua estadia em Lisboa em 1940.)

papaspy(Às vezes repreendo-me por prestar mais atenção aos livros que vão saindo em Inglaterra, através das recensões da Spectator ou do que vai aparecendo na Amazon, em vez de ir experimentando autores portugueses – que só aceito ler uma meia dúzia e todos cuja escrita já conheça e aprecie, e escolho sobretudo os que vão saindo da blogosfera, que é onde de melhor se escreve neste país. Depois de ter assistido, espantada, a um encontro de escritores para onde foi convidado esse brilhante autor literário que é josé sócrates, fiquei irrevogavelmente convencida que a minha opção é a mais sensata e segura.)

La dueña Dolorida

Don Quijote de la Mancha – Capítulo XL: De cosas que atañen y tocan a esta aventura y a esta memorable historia

Dice, pues, la historia que así como Sancho vio desmayada a la Dolorida, dijo:

—Por la fe de hombre de bien juro, y por el siglo de todos mis pasados los Panzas, que jamás he oído ni visto, ni mi amo me ha contado, ni en su pensamiento ha cabido, semejante aventura como esta. Válgate mil satanases, por no maldecirte por encantador y gigante, Malambruno, ¿y no hallaste otro género de castigo que dar a estas pecadoras sino el de barbarlas? ¿Cómo y no fuera mejor y a ellas les estuviera más a cuento quitarles la mitad de las narices, de medio arriba, aunque hablaran gangoso, que no ponerles barbas? Apostaré yo que no tienen hacienda para pagar a quien las rape.

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sócrates está mesmo a querer vender a ideia de que foi ele que quis a troika?!

bohlwinkel2Não vi o último programa de sócrates – já bem me custou ver o de há 15 dias, que se há coisa com que eu sou seletiva é com o tempo que gasto com tarefas e pessoas; pelo que li, o senhor comentador filósofo disse que o resgate da troika foi pedido não por necessidade, mas ‘por prudência’.

Mas que estranho. A pessoa que tanto acusava a oposição, antes de Abril de 2011, de querer o FMI por cá, esbracejando que isso seria uma clamorosa perda de face para Portugal, significaria anos sem acesso aos mercados dos bonds e que, segundo os seus defensores, lutou até ao fim para evitar um resgate financeiro internacional, afinal não recorreu a uma solução extrema como pedir esse mesmo resgate internacional apenas quando não teve outras alternativas menos dolorosas? afinal recorreu à solução que considerava calamitosa apenas ‘por prudência’? o pm que afirmou que reduziu o ordenado aos funcionários públicos por não ter mais soluções foi o mesmo pm que pediu ajuda à troika sem estar com a corda a pressionar o pescoço? então a troika, segundo sócrates, não foi o último recurso, foi, sim, uma opção sua, havendo outras, é isso? na verdade não tínhamos necessidade absoluta de um resgate internacional, mas sócrates achou por bem moldar a têmpera aos portugueses obrigando-nos a suportar todos os sacrifícios a que teríamos direito se precisássemos efetivamente do resgate – estou a perceber bem a argumentação?

Até aqui o argumentário – que tinha pelo menos algum mérito – era o da inevitabilidade da intervenção da troika depois da reprovação na AR do PEC4 (ocorrida por ser a última oportunidade de Passos Coelho vir a ser primeiro-ministro). É certo nem essa argumentação, no fundo, isenta de culpas o governo PS. Afinal foi o governo socrático que levou à necessidade do PEC4 e que falhou todos os PEC anteriores, bem como havia falhado desde 2006 qualquer redução do défice que não fosse feita através de aumentos de impostos. Mas pelo menos era uma maneira inteligente de partilhar as culpas. Agora, pelos vistos, não, sócrates não faliu o país, não estivemos à beira de não pagar salários e pensões, não houve traição de Teixeira dos Santos, lá agora, sócrates é que foi prudente devido ao risco de os mercados não quererem comprar os nossos títulos de dívida pública. E o risco, claro está, deveu-se todo, todinho, à crise financeira de 2008, e à crise das dívidas soberanas e do euro, não teve nada, nadinha, a ver com as contas públicas do tempo socrático.

Os estrategas para a campanha presidencial socrática lá saberão, mas eu diria que a argumentação ‘nós chamámos o FMI [e o mesmo é dizer 'vocês estão a ser saqueados pelo fisco, desempregados, com apoios sociais mais reduzidos,...'] sem estrita necessidade’ não é substancialmente melhor do que a evidência ‘nós levámos o país à falência e não tivemos outra solução se não chamar o FMI’.

bohlwinkel3(As imagens são do banqueiro Bohlwinkel, da Estrela Misteriosa, uma boa face para esses mercados malévolos, compostos por pessoas ruins entregues de alma e coração à causa do empobrecimento generalizado das populações, que provocaram tão curiosa ‘prudência’ em sócrates. E para mostrar como sócrates pode bem com os mercados, e lhes dá lições, a última imagem ilustra como os mercados ficam amedrontados sempre que alguém do gabarito de sócrates lida com eles.)

A propósito da Suécia e do “milagre escandinavo”

Diz-se dos países nórdicos que são exemplos civilizacionais, a população é a mais feliz, a mais confiante, exalta-se a excelência da qualidade de vida, invejam-se os níveis de prosperidade e todo um certo bem estar social. Daquele nicho, controlam os prémios Nobel, o Ikea, a  H&M, petróleo suficiente para competir com a Arábia Saudita, o melhor sistema de educação, o melhor sistema de saúde, o melhor isto, o melhor aquilo. Constrói-se um mito, tiram-se lições e profundas conclusões e há sempre alguém disposto a alegar, em qualquer discussão, o modelo social nórdico e a respectiva “qualidade de vida”. Para mim, nascida e criada na melhor cidade para se viver (apesar de algumas desavenças com o bigode de Fernando Ruas, reconheço-lhe algum mérito enquanto autarca), isto é irritante. Até que aparece um inquérito como o da Agência dos Direitos Fundamentais da UE a concluir que a violência sobre as mulheres é elevadíssima nos países Escandinavos, uma notícia sobre o tratamento dos ciganos na Suécia ou um Michael Booth a revelar alguns factos. Entre idas e vindas por terras gélidas Booth, residente na Dinamarca e casado com uma dinamarquesa, desmonta, país por país (Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega e Islândia), a exaltação à volta das maravilhas daqueles hotspots da social democracia. Dos Dinamarqueses, escreve Booth que são os reis do endividamento privado (quatro vezes mais que os italianos – o suficiente para justificar uma advertência do FMI) e os responsáveis pela quarta maior pegada ecológica por habitante, a nível mundial. Quanto à igualdade económica, Booth explica que segundo o maior diário dinamarquês, “o número de pessoas que vivem abaixo do limiar de pobreza duplicou na última década“. Os Noruegueses, entre outras coisas, são comparados a traficantes de droga  por se vangloriarem pela utilização apenas de energias renováveis e, simultaneamente, vendendo combustíveis fósseis ao resto do mundo. A dependência de anti-depressivos também é um traço típico do cidadão Norueguês.  Da Finlândia, são conhecidas as bebedeiras de sexta-feira (o álcool é a principal causa de morte entre os homens) e as cenas de pancadaria, por isso não surpreende que seja o país com a taxa de assassinatos mais elevada da Europa Ocidental (o que talvez explique a invasão de literatura policial originária destas bandas).  Ainda, na última classificação do PISA (Programme for International Student Assessmen), a Finlândia caiu para os últimos lugares. Booth qualifica de “indulgente” o povo sueco e destaca que este país “neutro” é o maior exportador de armas do mundo. O desemprego jovem é mais elevado na Suécia do que no Reino Unido e ultrapassa a média europeia.

Depois de conhecer este trabalho de Booth e de ler o seu livro The Nearly Perfect People (cheio de humor), compreendem-se melhor as declarações de Sócrates quando, em 2005, dizia que o modelo que o inspirava era o da social-democracia nórdica. Por outro lado, oxalá Michael Booth não venha a Viseu, andam por aí uns mitos autárquicos por desvendar…

nórdicos

 

 

Há gente a quem foi lido, em pequena, o 1984 em vez da Branca de Neve

No verão do ano passado li The Fat Years, de Chan Koonchung. Este livro, publicado em 2011, é uma distopia que conta o futuro no ano de 2013 na China. Resumo o livro em poucas linhas, centrando-me no que quero iluminar e deixando de lado outros aspetos interessantes (para o meu atual trabalho sobre as memórias) como o mês esquecido cuja procura é o que conduz a ação. No início de 2011 houve uma nova crise financeira mundial, de maior dimensão do que a de 2008, e que enfraqueceu os países ocidentais, tendo a China passado incólume, entrando numa era de prosperidade e tornando-se a maior potência económica mundial. Que método diz esta distopia que foi usado para ultrapassar a crise financeira? Tornou obrigatório níveis mínimos de consumo pelos chineses, o que possibilitou o crescimento da procura interna chinesa em substituição da procura externa combalida pela crise. Resultado: abundância e prosperidade para a China, bem como felicidade universal, potenciada pelo fornecimento de drogas à população de forma encapotada.

Posto isto, alegremos-nos: somos um povo com igual imaginação à dos autores de distopias. Temos uma desvantagem (menor, claro, nada que faça mossa): é que esta imaginação, que algumas pessoas em países exóticos usam para as distopias, nós usamo-la para propostas sobre fiscalidade reputadas de sérias por gente que supostamente sabe do que fala. A minha preferida é a proposta de despesa privada obrigatória, aventada no ano passado, que é sem tirar nem pôr o que aparece na distopia sobre a China. Era o que faltava os indivíduos quererem poupar. E onde já se viu esta mania das pessoas decidirem por si o que fazer ao dinheiro que lhes fica depois de retirados o IRS e a constribuição para a segurança social. Se consomem, pagam IVA; se não consomem, pagam IVA na mesma. Eu diria que era de abolirmos a república e aclamarmos como nosso rei, se não mesmo divindade universal, a pessoa que fez uma proposta brilhante, cintilante, resplandescente como esta.

Apesar de nem todos conseguirem alcançar a pertinência da despesa privada obrigatória, alguns logram ficar perto. No Prós e Contras houve quem sugerisse o imposto sucessório (e o aumento de impostos é uma inevitabilidade da manutenção do status quo proposto pelos ‘nacional-relevantes‘). Teodora Cardoso sugere um novo imposto sobre levantamentos de dinheiro e transações bancárias. Não é evidente que também é brilhante? Levanta-se o dinheiro e é cobrado o imposto; depois compra-se o que se necessita e volta-se a pagar IVA (e se Gaspar tivesse levado a sua avante, o feliz consumidor ainda pagaria multa acaso se esquecesse da fatura na loja). Recebemos uma fatura da luz, da água ou do que seja, que já tem IVA e fazemos a transferência; pela transferência pagamos também imposto. Não é um admirável mundo novo?

Eu sou de opinião que uma imaginação ativa tem sempre melhor uso na criação de ficção do que na criação de impostos. Até nem me importaria que fosse gasto algum dinheiro dos contribuintes em incentivos de passagem de profissões na área da fiscalidade para a de romancistas – fazendo as contas aos impostos que esta gente é capaz de inventar e que, assim, deixaremos de ter de pagar porque têm a imaginação entretida elsewhere, mesmo com aumento de despesa os contribuintes ficam a ganhar. Para motivar estas pessoas de imaginação fiscal ativa, dou o exemplo de Asa Larson, que antes de escrever policiais era advogada na área da fiscalidade. Não desistam, portanto, que estão destinados à grandeza na literatura.

 

Escândalo para sócrates: alguém faz serviço público na RTP

Mas que aborrecido. Uma pessoa é convidada para um espaço de tempo de antena e reescrita da História recente, na televisão pública, aceita e acaba por ser confrontada com um jornalista que tem as ideias avariadas e pensa que fazer jornalismo não é deixar um ex-político – e aspirante a novo poiso político – dizer os disparates que lhe apetece, mas sim confrontar o dito com o que disse anteriormente e contradiz o que diz agora. Esta gente que tem a mania de fazer o seu trabalho é uma nuisance. A sorte do jornalista travestido é que o ex e wannabe-futuro político por agora não manda nada, que se mandasse o atrevido jornalista já ia ver que bem que sabe um exílio profissional.

 

«Sócrates irrita-se: “Não vinha preparado para isto”

 

[...]Rodrigues dos Santos foi ao “arquivo”, como se referiu o jornalista às notícias que trouxe com declarações de Sócrates para o confrontar com afirmações suas antigas, em que, por exemplo, defendia a necessidade de “consenso” ou de fazer “tudo o que for necessário” para atingir metas orçamentais.

Sócrates foi ficando cada vez mais irritado e explicando sempre as suas afirmações com o contexto da época – de um “governo sem maioria” ou apontado “a diferença” da política do seu executivo com a do Governo atual de Passos Coelho. “Sempre estimulei o crescimento económico”, contrapôs à ideia “perigosa” da austeridade “que conduz ao descontrolo da dívida”. “Por que é que um Governo que se concentra apenas na austeridade tem estes resultados?”, atacou, descrevendo que a dívida e o défice continuaram a aumentar. “Os seus arquivos também deviam dizer isto”, apontou o ex-primeiro-ministro.

No ajuste de contas entre passado e presente, Sócrates afirmou que “esta austeridade cega mata-nos”, recordando as “apostas” da sua governanção nas energias renováveis ou no parque escolar, por exemplo.»

Talvez seja bom, daqui a 15 dias, que JRS vá acompanhado não só dos seus arquivos, mas também de publicações do INE. Sempre seria interessante que a criatura socrática fosse confrontada com os resultados da sua preocupação com o crescimento económico, que parece que o melhor que conseguiu foi um acrescimento abaixo dos 2% em 2007. E que desde 2000 que Portugal está, nos bons anos, estagnado; nos maus está em crise. Se bem que sócrates pode sempre dizer – evidenciando pela primeira vez na vida uma réstea de gosto – que no meio de tanto Kant também leu o Pride and Prejudice e socorrer-se da citação da Lizzie: ‘But in such cases as these, a good memory is unpardonable.’

Literatices

A propósito desta notícia que o Rui Carmo deu a conhecer pelo sofisticado método de comunicação intra-insurgentes (tecnologia de ponta inventada por nós; estamos presentemente em negociações com uma delegação de terroristas separatistas ossetas e a NASA, a ver quem paga mais, para a vendermos; e, o que será ainda mais revolucionário do que o rearden metal – vou buscar este exemplo porque de vez em quando há que mostrar o devido apreço pelos randianos do blogue -, a invenção da comunicação telepática insurgente is just around the corner; vai ser assim algo parecido com o laran das Darkover novels, livros que eu descobri através de um empréstimo de uma lésbica feminista – o que também fica sempre bem dizer num blogue para verem como eu, afinal, até sou uma pessoa decente, tolerante, progressista, não-obscurantista e mais uns adjetivos que se aplicam àquelas pessoas mesmo, mesmo boas que insultam todos os que não concordam exatamente com elas), venho fazer uma sugestão de leitura aos escandalizados políticos ocidentais – que, para não serem acusados de não fazerem nada perante a anexação pela Rússia dessa milenar possessão ucraniana que é a Crimeia, planeiam congelar umas contas para não fazerem nada parecendo que fazem alguma coisa.

lecarrePara a versão nacional dos escandalizados, há tradução.

(Espero que tenham apreciado o meu esforço na escrita de uma frase cujo tamanho qualificaria de saramáguico se isso não fosse insulto que uma qualquer frase bem intencionada não merece.)

Ando viciada no The Daily Beast

Leio The Daily Beast desde que a Tina Brown criou a coisa e até suportei estoicamente durante algum tempo o enamoramento embevecido do site por Obama. Mas às tantas o meu bom senso e o meu bom gosto lá perderam a paciência com tanto apaixonado suspiro digital pelo presidente. (O texto mais imbecil que li sobre Obama foi escrito por Tina Brown para The Daily Beast, onde a editora garantia que Obama seria um excelente presidente porque – e preparem-se para uma razão groundbreaking – usava blackberry.) E a leitura tornou-se apenas ocasional e nem a junção com a Newsweek espicaçou a curiosidade. Nos últimos meses, no entanto, ressuscitaram os sinais de vida inteligente no site e tornou-se leitura diária obrigatória. Gosto de tudo, desde os textos sobre os hot topics de cada momento (os mais interessantes textos sobre as aventuras e desventuras recentes da Ucrânia e da Rússia foram lá lidos) até aos pedaços de curiosidades históricas – como o almirante americano que ajudou a Rússia a conquistar a Crimeia no século XVIII -, de curiosidades atuais – como o apreço dos americanos por bibliotecas, gosto inteiramente partilhado por mim, que adoro passar tempo rodeada de livros – até aos textos sobre livros – e aqui fica um excerto de uma entrevista a Anchee Min, autora muito minha conhecida, a propósito do seu último livro de memórias, The Cooked Seed. Onde se mostra que, no caso da China como noutros, para perceber o presente geralmente faz falta conhecer o passado.

«You worked so very hard to get there. You sent the manuscript out to 12 literary agents. That’s tenacious. Is it strange when you look at China today and it’s become this flourishing, capitalistic society? It’s so much different from your childhood.

 

The words that come to mind are “I’m not surprised.” Not surprised. Because the people who are managing China are people like me. You see, during my time, half of the country’s people were sent to the Cultural Revolution’s labor camps or the countryside. So we knew what did not work. Our whole generation was a disillusioned generation, therefore politically mature and very practical. So look at the streets of Shanghai during three different decades: the first decade, there was a lot of [praise of] Chairman Mao and carrying on the Cultural Revolution to the end. And the second decade was Deng Xiaoping’s “White cat, black cat, whichever catches mice is the great cat” capitalism. And then the third was, “Let’s build 18 million toilets in Shanghai, and borrowing to take a loan is not bad.” So I think this really reflects the Chinese middle-class mindset, which I think is the strength of my writing—I think I can easily penetrate that way of thinking.

What’s going on China, I have no problem comprehending, understanding. I see in my daughter, and she is so ill-prepared throughout the American education system, she was not prepared with any knowledge of China. As a country, as Americans, I feel we can no longer afford to ignore China. And I think that I’ve made it kind of my mission, to help Americans understand where China is going by showing where China is coming from.»

Leituras vagamente relacionadas com a Crimeia, a Ucrânia, a Rússia e o pandemónio que por lá se vive

Os inventores da Crimeia russa: Catherine the Great and Potemkin, The Imperial Love Affair, de Simon Sebag-Montefiore. (Que já foi objeto de umas palavras minhas no Farmácia Central sobre outro assunto que, bem, não é a conquista da Crimeia por Potemkin.)

catarina e potemkin

E Crimea, The Last Crusade, de Orlando Figes, sobre aquela que se arrisca a ficar conhecida como a Primeira Guerra da Crimeia. O Miguel Noronha, el comandante, também poderia fazer serviço público e vir aqui recomendar mais uns livros de Figes (que já leu e eu ainda não). Se ele não vier, já sabem, azucrinem-lhe o juízo. Orlando Figes esteve há pouco tempo envolvido numa polémica de umas críticas que fez sob pseudónimo na Amazon, para o seu livro do momento elogiosas e para os livros de autores rivais cheias de bílis. Ser historiador, como se sabe, não blinda ninguém contra ser uma pessoa pouco recomendável, mas os livros de Figes lêem-se bem.

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Fred Vargas

FredVargas

A direita portuguesa é hoje um pouco anti-francesa. Quem diria. Até quem leia a Le Point hoje em dia e associe a França a uma certa orientação política, conclui necessariamente que a Le Point é anti-francesa. Não há nada a fazer.

Mas a França tem coisas boas que não apenas a volta em bicicleta e o Astérix, um dos poucos personagens da BD franco-belga verdadeiramente francês. Há pouco tempo descobri Fred Vargas, uma arqueóloga e historiadora que escreve policiais. Como aprecio o género, comprei o seu último livro, já de 2011, ‘L’Armée Furieuse.’ E o que gostei foi precisamente aquela história e aquele ambiente serem tão franceses. Vargas é uma historiadora especializada na Idade Média que, até por encontrar na psicologia humana o motivo de certos actos, baseia nos medos irracionais da época o cerne da sua narrativa. As suas histórias, esta foi a primeira que li mas muitas outras vão, pelo percebi, na mesma linha, partem de acontecimentos do foro policial mas com uma forte conotação fantasmagórica, fazendo da Normandia, local onde se desenrola este livro, um lugar de eleição. O enredo, os ambientes e as lendas fantasmagóricas fazem, aliás, lembrar Ric Hochet, o jornalista/detective da BD criado por Tibet, francês, e André-Paul Duchâteau, por acaso belga.

Além de historiadora, Vargas é ainda arqueóloga, mais especificamente estuda a história das relações naturais entre os homens e os animais e a domesticação destes por aqueles. Em françês chama-se de Archéozoologie e em português deve ser qualquer coisa como arqueozoologia, palavra que, para ser sincero, desconheço que exista. Mas o que me interessa aqui é realçar a interacção entre animais e as diversas personagens que Vargas inclui no decorrer do livro. São pormenores que se sucedem como se de acontecimentos de bastidores se tratassem, mas determinantes para a conclusão da obra.

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Mais chinesices

A versão chinesa do A Oeste Nada de Novo.

oeste nada de novo chinês

«This Chinese version of the 1929 Erich Maria Remarque classic All Quiet on the Western Front was sold in serial form in Shanghai in 1930. [...] The Rauner Library’s blog writes that the Chinese government tried to ban the American movie, “because of a perception that its antiwar message would undermine national resistance to Japanese aggression.” [...] Called lianhuanhua (or “linked serial pictures”), small picture books were a Chinese tradition from the 1920s through the 1990s. The University of Hawaii at Manoa’s Hamilton Library has a website with a database of images from lianhuanhua dating from the ‘50s through the ’80s, as well as a good explanation of the historical roots of the tradition, which can be traced to romantic novels and traditional Chinese New Year’s prints.»

 

Lições mitfordianas de pronúncia de ‘Juan’

O Vítor Gorjão hoje à tarde, no facebook, deu umas lições para jornalistas e comentadores televisivos que andam por aí a falar de um enigmático Ruan Miró. De facto a pronúncia de Juan é tricky e, se não tivermos cuidado, lá parecemos josé sócrates, no comício do PSOE, falando algo que nem sequer vagamente semelhante era ao castelhano. Decidi, por isso, vir cá dar uma ajuda aos senhores jornalistas e comentadores televisivos.

Em primeiro lugar é necessário apaziguá-los e dar algum reforço à sua auto-estima. Não pensem, pessoas que têm falado de Ruan Miró, que estão sós nesta dificuldade. Não, o Lord Alconleigh, personagem dos livros de Nancy Mitford inspirada no (ou, melhor, decalcada do) seu pai também padecia da mesma tormenta pronunciativa, que ficou evidente quando a sua prima conhecida como ‘the Bolter’ (pelos sucessivos maridos que abandonou) lhe apareceu em casa, para uma estadia de vários meses, acompanhada do seu amante espanhol chamado Juan. (Esta personagem ‘the Bolter’, refira-se, é também um retrato ficcionado de uma prima afastada de Nancy Mitford, Idina Sackville, apelidada por todos de ‘the Bolter’ pelos mesmos motivos da ‘bolter’ da ficção. Tem a curiosidade de ser bisavó – ou trisavó? – de Frances Osborne, mulher de George Osborne do governo britânico. E andou pelos lados do Kenya no período entre as duas guerras mundiais do século passado, nos tempos do Happy Valley – assim chamado pela moral sexual descomprometida dos residentes brancos, que levou até ao assassinato irresolúvel de um dos ex-maridos da ‘bolter’ original à conta de um affair com uma loura deslumbrante, retratado no filme White Mischief que, não se preocupem, não tem o canibalismo do Black Mischief de Evelyn Waugh, grande amigo e correspondente da above mentioned Nancy. Idina cruzou-se pelo Kenya com a Karen Blixen, o Denys Finch-Hatton e o lord Delamere, o ‘D’ do Out of Africa. Este, por sua vez, é avô ou bisavô do herdeiro Delamere que deve estar ainda por agora nas prisões do Kenya pelo seu peculiar hábito de assassinar os nacionais de cor mais escura que encontrava nas vastas propriedades do seu pai e que os tais senhores de cor mais escura consideram terem sido roubadas aos seus antepassados. Enfim, as confusões normais do pós-colonialismo. E sim, os posts também são como as cerejas.)

Bom, regressando ao amante espanhol Juan e ao pintor espanhol Ruan, Lord Alconleigh resolveu o problema do nome esquisito do seu hóspede chamando-lhe ‘Gewan’. Não é a solução perfeita, mas ainda assim é mais suportável que Ruan. Além de ficar sempre bem aprender alguma coisa com a literatura.