“Cartas Persas”

Persas entre nós

Foi com as “Cartas Persas”, agora publicadas em Portugal, que Montesquieu começou a sua carreira literária. Miguel Morgado olha para a obra de um dos pensadores mais influentes da Ciência Política.

Sobre a parcialidade dos manuais escolares

A semente fértil do subdesenvolvimento. Por Gabriel Mithá Ribeiro.

Ler os manuais de História aprovados pelo nosso sistema de ensino comprova a sua parcialidade. Andamos a alimentar uma tosca e caríssima engenharia social destinada ao subdesenvolvimento das mentes.

Margaret Thatcher, ícone do feminismo

And now for something completely different. Uma recensão minha – of sorts – dos dois primeiros livros da biografia autorizada de Margaret Thatcher por Charles Moore. Publicada ontem no Observador.

‘Enquanto lia os dois primeiros volumes da biografia de Margaret Thatcher por Charles Moore – Margaret Thatcher, The Authorized Biography, Volume One: Not for Turning e o recentemente publicado Volume Two: Everything She Wants – pensei amiúde como devia estar grata à biografada. Por várias razões – já lá vamos –, mas, acima de tudo por me ter feito crescer achando normal que uma mulher fosse uma política marcante, a líder de um dos grandes países europeus, e em igualdade, e às vezes até superioridade (e não só pela costumeira sobranceria britânica com os bárbaros ex-colonizados ou com os temperamentais europeus continentais), face aos pares masculinos. Thatcher tornou-se primeira-ministra britânica em maio de 1979, antes de eu ter idade para me lembrar destas felizes ocorrências. Pelo que durante a minha infância e adolescência Margaret Thatcher foi um dos ornamentos da minha vida como primeira-ministra britânica.

thatcher2Como Moore escreve no segundo tomo da biografia – que vai desde o tempo imediatamente anterior à vitória arrasadora de Thatcher em 1983 até à vitória em 1987 – durante o seu segundo mandato, no auge do thatcherismo, Margaret era vista como uma “brava campeã do Ocidente”: “todos a reconheciam; todos tinham opinião sobre ela.[…] Ela tinha-se tornado uma figura mitológica, o arquétipo da ‘mulher forte’ em todos os continentes”. Depois de uma viagem a Moscovo, Moore descreve-a como alguém que tem encontros excitantes com o presidente Gorbatchev, com “roupas glamourosas”, uma “superestrela global”, uma figura de “esperança, e também de força, uma mulher atraente, bem como a Dama de Ferro”.

 Donde: as crianças e adolescentes da minha geração, sem deixarem de notar que a maioria da política era (é) masculina e cinzenta (na melhor das alternativas com risca de giz ou azul escura), lá foram crescendo em idade e sabedoria sabendo que era inteiramente natural uma mulher gostar de política, ganhar eleições, governar o seu país de forma forte e determinada, tornar-se uma referência na política internacional (fazendo finca pé ao comunismo soviético e contribuir para a sua implosão), comandar uma guerra (nas Falklands). E, ao mesmo tempo, ter uma família e usar saias e roupa de cores vibrantes (com especial propensão para toda a panóplia de tons de azul).

Margaret Thatcher é boa candidata a ícone do feminismo e a símbolo da afirmação feminina. Nem se lhe pode apontar pecados em duas causas geralmente caras ao feminismo: apoiou a legalização do aborto e o fim das leis contra os atos homossexuais, que considerava uma “humilhante intrusão na privacidade” dos gays. Mas afinal não é. Parece, ainda hoje, que privatizar empresas públicas é mais determinante para (não) se ser feminista do que ter sido a única primeira-ministra britânica e, até hoje, a vencer três eleições seguidas para o Parlamento.’

O resto está aqui. Boa leitura. Do meu texto e dos livros. (No fim da recensão perceberão a escolha da fotografia.)

Lista actualizada dos lugares onde o socialismo funcionou

Dois documentos

Os que gostam de rock’n roll não podem perder estes dois documentos. A vida de uma das últimas estrelas do rock (já não restam muitos, assim de repente só me ocorre o Keith Richards). Godspeed Lemmy.

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Educar o Povo

Não o incluí na minha lista de recomendações de final de ano mas, tendo em conta os desenvolvimentos dos últimos meses no PCTP-MRPP, na candidatura presidencial de Sampaio da Nóvoa e no país em geral, esta sugestão do Rui A. tem também plena razão de ser.

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Porque ganham tanto os trabalhadores das empresas públicas? (II)

O Economista InsurgenteHouve um outro grupo de economistas que, apesar de não ter o currículo de um Mário Centeno, também explicou de forma simples porque é que as empresas públicas pagam tão bem e têm tão grandes prejuízos. Foi num livro lançado no ano passado, mas que ainda dará uma grande prenda de Natal este ano:
(…)Um outro foco de poder nas empresas de transportes públicos são os próprios trabalhadores. Ao contrário dos clientes, os trabalhadores podem causar efetivo dano aos membros da gestão da empresa, através de greves e manifestações. Os prejuízos de uma empresa de transportes têm pouco impacto na imagem dos governantes, mas uma grande greve que paralise cidades faz com que percam eleitores. Sem pressão do lado dos custos (suportados pelos contribuintes), a gestão de uma empresa de transportes públicos tenderá sempre a tentar agradar aos trabalhadores, para dessa forma evitar problemas para os políticos que os colocam à frente dessas empresas. Custe o que custar. E tem custado bastante: No final de 2013 a dívida acumulada das empresas públicas de transportes ultrapassava já os 17 mil milhões de Euros (Fonte: Jornal de Notícias), ou seja cerca de 1700 euros por português, ou cerca de 3400 euros por português a trabalhar.

Em resumo, temos um enorme problema de incentivos. A gestão de uma empresa de transportes públicos tem apenas incentivos a agradar ao poder político e, consequentemente, aos trabalhadores. Os trabalhadores, com tamanho poder negocial, têm fortes incentivos a exigir as melhores condições possíveis para si, independentemente do serviço prestado. O resultado desta situação é o esperado: As empresas de transportes públicos oferecem boas condições salariais e bons horários de trabalho aos seus funcionários, oferecem ainda um conjunto de cargos de gestão apetecíveis para quem consiga agradar aos partidos de poder. No final, as empresas de transportes públicos tornam-se num centro de custos que serve a todos os envolvidos (trabalhadores, gestores e políticos), excepto aqueles que deveria servir em primeiro lugar: Os clientes, e aqueles que suportam os custos, os contribuintes.(…)

Bruno Vieira Amaral ganha prémio José Saramago

primeiras coisasO melhor autor português das primeiras décadas do século XXI – parece pomposo mas é mesmo verdade, e como prova basta apresentar o livro As Primeiras Coisas, onde se passeia, carregadinho de ironia (mas também de bondade) e de forma que nos traz reminiscências de Alice Munro, o drama da vida quotidiana e dessa categoria que é a ‘pessoa comum’ -, o Bruno Vieira Amaral, ganhou o prémio José Saramago 2015.

(Finalmente alguma coisa para dar respeitabilidade à Fundação José Saramago, que está também ligada ao prémio.)

O meu texto desta semana do Observador.

‘É certo que em tempos normais nos esquecemos da estirpe de político mais mortífero e que torna os tempos incomuns: aquele que não aceita as derrotas eleitorais, subverte os resultados eleitorais (o socialista João Proença dixit) e expõe o país à traiçoeira extrema-esquerda (que nunca ficou conhecida no mundo pelos pergaminhos democráticos), a políticos que defendem a nacionalização da banca e a socialização dos meios de promoção, e às novas inclemências dos mercados. E tudo com o nobre objetivo de esbracejar pela sobrevivência do político trapalhão que conseguiu perder umas eleições fáceis de ganhar.

Mas nos tempos normais a estirpe de político que dá mais cuidados é outra e, para grande calamidade nacional, muito elogiada tanto pelo cidadão anónimo como pelos jornalistas e politólogos: o político que deixa obra. Para catástrofe de igual dimensão, é uma estirpe de político que abunda nos ministérios e nas câmaras municipais. Claro que toda a gente escarnece das rotundas, mas é para logo a seguir aplaudir a construção da pista de neve e do parque ‘natural’ para os ursos polares, do teatro de marionetes, do zoo de periquitos, do recinto de sumo, do museu de fatiotas que os costureiros famosos desenharam para a Barbie e do centro de congressos (onde se usaram só materiais adaptados a vegans). Os ideólogos destas infraestruturas são geralmente apelidados de visionários, competentes, fazedores, empreendedores.

É certo que nos últimos anos – depois daquela falência patriótica de esquerda de 2011 – houve quem moderasse elogios a tal vírus político. Que entendesse que algumas obras são desnecessárias e, sobretudo, consumidoras de recursos financeiros que o país não tem. Que em alguns casos são realizadas não para suprir necessidades das populações mas para propiciar esquemas de corrupção e de pagamento a clientelas partidárias. Que um país necessita de infraestruturas para se desenvolver, pois precisa, mas que o país de 2015 (ou de 2005) já não é o que Cavaco Silva encontrou em 1985 sequioso de obras públicas.

Perante o atual cenário funesto, presumo ter encontrado a solução: ensinarmos Taoismo a governantes e autarcas. E se forem renitentes na aprendizagem, é recorrer a algum estratagema de manipulação cerebral, ao estilo do filme Candidato da Manchúria (na versão com Frank Sinatra e Angela Lansbury). Em último caso, se não produzirem conversão em tempo útil, podemos ameaçar com a leitura obrigatória de todos os livros de Saramago e de Valter Hugo Mãe.’

O resto está aqui.

Obrigada, Andrew Davies

mr darcy 1995 2Foi com esta série da BBC que eu conheci e me apaixonei por Jane Austen (e, of course, também pelo Mr Darcy e, separadamente, pelo Colin Firth – o meu coração é muito grande). (Antes do Mr Darcy, as minhas paixões iniciadas desta forma tinham sido o Athos, de Os Três Mosqueteiros, e o Edmond Dantes, de O Conde de Monte-Cristo, ambos de Dumas.) Tenho, portanto, muito a agradecer ao Andrew Davies. Por ter tirado a Jane Austen das representações vitorianas que lhe eram habituais e a ter colocado (corretamente) nos ambientes mais sanguíneos e soltos dos tempos da Regência. E, segundo afirma o texto, por ter iniciado a moda de os protagonistas masculinos das séries históricas usarem pouca roupa. (Eu não vi, mas já me contaram que até Os Maias seguiu essa tendência.) Foi um grande serviço à igualdade de género.

‘“We wanted lots of energy in the show, and the book justifies it, because Elizabeth is always running about and going on long country walks and getting all flushed and sweaty and getting the bottom of her petticoat muddy, which seems to be quite a turn-on for Darcy. So we thought, let’s make it as physical as we can without being ridiculous about it. Let’s remind the audience that this isn’t just a social comedy – it’s about desire and young people and their hormones – and let’s try to find ways of showing that as much as possible. So for the girls I wrote a lot of scenes where they’re backstage, so to speak: they’re getting dressed, they’re in their nighties, talking about love. And we wanted the guys to be doing lots of physical things: riding horses, fencing, having baths, jumping in the lake. Any legitimate excuse to get some of that kit off.”’

‘Then I thought, ‘Let’s have Elizabeth on a hillside seeing these two tasty blokes galloping along, and something about them makes her skip down the hill’. I can remember writing those first pages and thinking, ‘This is a bit different from the usual Jane Austen adaptation’.’

(Na fotografia o banho de Mr Darcy em Netherfield Hall.)

but somehow

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Tenho tido muito pouco tempo para escrever coisas (apesar de haver tanto assunto comentável agora, e tenho feito uns posts maravilhosos na minha cabeça, mas que falham depois no tempo disponível para serem concretizados no teclado), mas a propósito de Jeremy Corbyn – e das fantasias líricas que já provocou no PS português (ou não tivesse este sido assaltado por gente que nunca recuperou da fase marxista da adolescência) – deixo aqui um pedacinho de um dos livros que me têm ocupado o tempo. É o prefácio de um livro que conta a história da autora durante a Revolução Cultural chinesa. Descreve bem o socialismo, sobretudo na forma mais pura que Corbyn e os alucinados socialistas nacionais apreciam. Começa por querer mudar a natureza humana. But somehow – e este but somehow ocorre sempre – falha. E de caminho espalha miséria e infelicidade. E – como à autora deste prefácio – põe os jovens idealistas a assassinarem e torturarem supostos inimigos da revolução. É sempre um regime muito recomendável. E tem sempre muitos fregueses moralmente self-righteous a adorá-lo.

Jihadismo Global – Felipe Pathé Duarte

Um lançamento de um livro sobre um tema que continua infelizmente a estar na ordem do dia por parte do meu ex-colega – no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa – Felipe Pathé Duarte.

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O lobby rentista dos manuais escolares

Um excelente texto de António Araújo sobre o escandaloso lobby rentista – patrocinado pelo Estado, como geralmente acontece nestes casos – dos manuais escolares “oficiais”: 42,70 €.

Os «cadernos de exercícios» ou «cadernos de actividades» são uma, entre muitas, das habilidades deste negócio milionário. O Ministério, no seu site, indica apenas o preço do manual. Mas depois todos os professores exigem o «caderno de actividades», sem o qual a aprendizagem da matéria é impossível. Sei bem que, nos termos da lei, é proibido obrigar a compra em conjunto do manual e do caderno de actividades. Também sei que quem já tenha o manual pode comprar só o caderno de actividades, ou vice-versa. Mas porque é que o MNE não publicita também o preço dos cadernos de exercícios e de actividades? No caso da Biologia, o livro custa 32,74€. Mas, depois, o «manual de auto-avaliação» carrega a factura com mais 9,96€.

Aliás, a pouca-vergonha é tanta que, regra geral, manuais e cadernos de actividades vêm ambos embrulhados no mesmo celofane. Se vou ao balcão de uma papelaria e peço «o livro de Biologia do 11º ano», entregam-me o manual mais o caderno de actividades, tudo por atacado. Chamam-lhe «bloco pedagógico». E depois apresentam a conta: 42 euros.

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John Locke nasceu há 383 anos

lockeMiguel Morgado (via Facebook) sobre os 383 anos do nascimento de Locke:

Há 383 anos nasceu John Locke. Quando preparei a primeira edição portuguesa – por incrível que pareça era mesmo a primeira… – dos “Dois Tratados do Governo Civil” para as Edições 70, escrevi isto na contracapa:
“John Locke foi uma das figuras maiores da civilização ocidental moderna. Locke foi o pensador da subjectividade, dos direitos naturais, da crítica das ideias inatas, da tolerância religiosa, da separação radical entre o Estado e a(s) igreja(s), da liberdade racional, do governo representativo baseado no consentimento popular, da separação de poderes, da revolução contra a tirania, do direito de propriedade e do direito à acumulação de propriedade, do desenvolvimento económico e tecnológico assente na capacidade humana de transformação do mundo. Ele foi o filósofo da epistemologia, da política, da religião, da educação; o economista, o constitucionalista, o exegeta, o assessor político, o professor universitário e o médico. Com “Dois Tratados do Governo Civil”, Locke define um dos momentos mais importantes da história intelectual da Europa.”

O colapso chinês

collapse

Como tive oportunidade de referir há 5 anos, este livro de Gordon Chang é indispensável para perceber o que se está, e se vai passar na China. A bolha especulativa, os bancos estatais cheios de capital inventado na secretaria e por aí fora. Há anos que se fala do que agora se prepara para acontecer. No fundo, até os chineses sabiam. Ou achávamos nós que a procura do golden visa se devia apenas às casas, ao clima e ao acesso à Europa? A fuga dos mais sabidos começou há muito.

Distopia na Amazon

O meu texto de hoje no Observador.

‘Espero que os meus caros leitores estejam atentos ao presente abalo no mundo ocidental. Primeiro surgiu a notícia no New York Times, que falou com cem ex-funcionários da Amazon e contou pormenores próprios das zonas mais negras da imaginação de George Orwell: pessoas com problemas sérios de saúde com más avaliações por não aguentarem o ritmo de quando estavam saudáveis, críticas das chefias que põem o mais robusto a chorar publicamente, quotas assumidamente darwinistas de pessoas a despedir em cada ano, denúncias anónimas sobre colegas, incentivo a um ambiente de conflito entre colegas, horários de trabalho que impedem vidas familiares ou namoricos e pelos vistos até se corre o risco de receber um e-mail do chefe a meio dos one night stand possíveis.

As ondas de choque, obedientes, sucederam-se, que afinal a Amazon é um dos pilares da vida moderna. Um executivo da Amazon fez na sua página de Linkedin uma refutação sentida daquilo que vê como calúnia à sua empresa e até o dono e fundador, Jeff Bezos, escreveu um e-mail (que nem tinha nada o objetivo de escapar para os media) afirmando que a Amazon do artigo do NY Times não era a sua Amazon e se faz favor que lhe contassem por mail eventos semelhantes aos espalmados no jornal.

A muito esquerdista Salon não tem largado o osso da malvada Amazon. A um bocadinho menos esquerdista Slate tem sido mais ponderada, questionando se cem trabalhadores podem ser representativos de uma empresa com mais de 150.000 ou se o ambiente de trabalho por lá será pior do que noutras empresas tecnológicas. The Guardian saliva de contentamento.

Eu, fazendo uso de toda a ponderação disponível na minha personalidade, tenho de reconhecer: o artigo do NY Times pôs em causa o meu modo de vida.’

O resto está aqui.

verão chinês 2.0: sem a Revolução Cultural não se entende a China destes dias

shanghai redemption

É um cliché chinês dizer que sem Revolução Cultural não teria havido as reformas capitalistas de Deng Xiaoping da década de 80 (porque por um lado a RC escaqueirou a burocracia chinesa, que precisou de ser reconstruida e, por outro, horrorizou tanto a quase totalidade da população que ficaram todos mais que predispostos a aceitarem as soluções opostas às de Mao; da política até à literatura, os anos 80 chineses foram uma rejeição do coletivo e uma ode ao indivíduo). Mas não é só o capitalismo chinês que precisa da RC para ser entendido. Xi Jinping é também ele um rebento da RC, e o caído em desgraça Bo Xilai likewise (e a ‘nova esquerda’ que Bo liderava, então, era maoismo até à medula). Pormenor que eu adoro, porque ando por estes dias a escrever furiosamente sobre esta geração de jovens adolescentes que tiveram a sua vida revirada pela RC (os chineses de 3ª geração). É uma geração complexa, que, por ter levado com as maluquices maoistas, foi privada de educação formal. Primeiro as aulas das escolas foram suspensas para que os adolescentes se pudessem dedicar a espancar, torturar e até matar professores, secretários partidários e colegas das classes contrarrevolucionárias. E depois – porque o sucesso do socialismo é sempre inevitável e não havia empregos para tanta gente nas cidades, nem lugares nas escolas ou, sequer, livros escolares – foram enviados para ‘subir à montanha e descer à aldeia’ para se tornarem camponeses para o resto da vida nas zonas rurais chinesas. A consequência desta falta de educação formal foi o desemprego massivo desta geração nos anos 90 (porque não tinham qualificações para concorrer no mercado de trabalho da China capitalista). Depois de sacrificados pela RC, foram sacrificados pelas reformas capitalistas. Tough luck. Tirando uns poucos que escaparam a esta sorte e que tiveram destino oposto, tornando-se empresários multimilionários, artistas internacionalmente reconhecidos, autores de sucesso. Muitos expatriaram-se e vingaram nos países de acolhimento. Agora, são os senhores da política chinesa. E nota-se. Se Bo foi extirpado do PCC, na verdade Xi Jinping também tem muitos tiques maoistas.

Isto tudo a propósito do mais recente livro de Qiu Xiaolong, Shanghai Redemption, sobre a queda do neo-maoista Bo Xilai. Qiu escreve romances policiais. Eu sou fã do género, mas não é a qualidade do enredo que me faz ler Qiu Xiaolong desde aquele momento que comprei o Death of a Red Heroine na Waterstones de Guildford (sim, eu preservo estas memórias relacionadas com os meus livros). O que me vicia em Qiu é a forma como conta os meandros da vida de Shanghai, os pântanos políticos em que o Inspetor Chen se move para resolver os mistérios que lhe são muitas vezes impostos pelas autoridades partidárias, a descrição dos petty city dwellers das cidades chinesas, todos aqueles pormenores muito chineses que dificilmente um ocidental conseguiria descrever com a mesma autenticidade.

Um tema que perpassa por todos os livros de Qiu (sobretudo em Death of a Red Heroine) é o da classe social e da aristocracia partidária que o comunismo (oh, surpresa) criou. Que não é nada de novo da era da reforma, porque a classe social e os benefícios que advinham de se fazer parte de uma família da elite partidária comunista são assunto que também atravessou esse movimento de suposta igualitarização radical da sociedade que foi a Revolução Cultural. Em suma, os romances policiais de Qiu Xiaolong são uma muito boa introdução à estrutura social que o Partido Comunista Chinês criou.

Um bocadinho de uma entrevista de Qiu Xiaolong sobre Shanghai Redemption: ‘What really alarmed me was his grab for more power through the “Chongqing model,” which was informed with Maoist discourse and practice, including governmental directives for people to sing “red songs” in praise of Mao and the party in the pre-reform years. I shuddered at the memory of me standing helpless beside my father, who was ruthlessly beaten by Red Guards as those songs were originally sung. But my feelings had to do with much more than personal remembrance.’

Hergé e Jane Austen, dois autores a banir

Tintin Castafiore EmeraldAs alminhas(inhas) Tiago Ivo Cruz e Ana Bravo – que argumentam o racismo e a misoginia de Hergé – foram grandes perdas para o analfabetismo. E agora – pegando nesta infalível tese sobre a ausência de mulheres nos livros de Hergé, que não é mais do que um apagão ao mulherio – decidi-me a deixar de ler a Jane Austen. Como se sabe, ou TODAS as realidades do mundo estão contidas dentro de uma obra literária ou essa obra é negacionista disto e daquilo. Quer escrever um romance passado em 2015? Pois não pense descrever só êxtases sexuais, traições, lágrimas e por aí. Ou bem que inclui a descrição detalhada do período de ajustamento acordado com a toika, os números do desemprego (preferencialmente com gráficos mostrando os dados da Pordata) e uma ou outra notícia contestatária da austeridade ou nenhuma editora o publica, porque está a apagar a crise que se vive agora. E faz favor de incluir uma ou duas violações e uma mulher morta pelo ex-marido, que ainda é acusado de negacionismo da violência sexual e doméstica sobre as mulheres.

Mas regressando a Jane Austen, afinal aquilo tudo se passa ao mesmo tempo que as guerras napoleónicas e nem vislumbre delas nos livros (há uns militares a distraírem as irmãs Bennet em Pride and Prejudice e as meninas casadoiras – outro conceito que agora devia ser proibido de aparecer na literatura de todos os tempos, que como se sabe hoje uma mulher não tem de ter a ambição de casar – em Persuasion, mas nem uma batalha, nem a descrição da estratégia de Waterloo, népias). E com tanto romance, não há vestígio de sexo nos livros – eventualmente apenas a sugestão de que Charlotte preferia manter o marido, Mr Collins, clérigo e o maior lambe-botas da literatura, à distância. É certo que os desejos andam à solta (e as adaptações para televisão facilmente os evidenciam), mas de the real thing, nada. Proscreva-se Jane Austen das bibliotecas e das livrarias. JÁ.

Francis Fukuyama no Observador

Francis Fukuyama esteve em Portugal e foi o convidado especial do “Conversas à Quinta”. Discutimos, com Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto, o seu último livro: “Ordem Política e Decadência Política”.

Leitura complementar: Observador: um ano de serviço público.

O Economista Insurgente: “Porque é que é impossível ao Estado pagar a dívida pública?”

O Economista Insurgente

«A dívida acumulada tem uma dimensão, relativamente ao que é produzido anualmente em Portugal, que torna muito difícil que o Estado consiga honrar os seus compromissos. Se todos os gastos do Estado fossem cortados, incluindo prestações sociais, salários, etc., ainda assim demoraria cerca de 4 ou 5 anos a pagar. Se o PIB crescesse a 2% ao ano e o Estado tivesse um excedente orçamental de 1% do PIB, demoraria mais de 25 anos a reduzir a dívida para o limite previsto nos tratados europeus (60% do PIB). Num contexto de crescentes despesas, onde o orçamento do Estado é cronicamente deficitário, a tarefa torna-se impossível.

A única forma de poder ultrapassar a situação seria por via de um considerável crescimento económico, em que maior produção se traduziria em maior colecta fiscal, permitindo, por sua vez, amortizar a dívida; ou pelo menos reduzi-la em percentagem do PIB. Se, por exemplo, o Estado tivesse orçamentos equilibrados, seria preciso um crescimento médio de 3,5% ao ano durante quase 25 anos para a dívida baixar para os limites dos tratados europeus. Contudo, esse crescimento não poderá ocorrer enquanto a carga fiscal for tão pesada e os juros tão elevados, ambas as situações resultantes da crise orçamental.

Temos assim um problema de “pescadinha de rabo na boca”: É preciso juros e impostos baixos para que haja mais investimento – que resulta em crescimento económico; mas baixar impostos resultaria em défices ainda maiores no curto prazo, tornando os juros mais altos.

Chegamos assim a um cenário em que a única conclusão possível é que, perante o Estado que temos, a dívida é impossível de pagar. A qualificação de “Estado que temos” é importante, pois havendo vontade política de alterar significativamente o Estado, reduzindo assim os seus gastos, podem ser libertados os meios para equilibrar as contas públicas, ou mesmo gerar excedentes, e de reduzir a carga fiscal por forma a incentivar o investimento produtivo.

Tendo em conta o que já foi referido anteriormente neste capítulo, no que toca às áreas onde a despesa do Estado é maior, é inevitável concluir que apenas mexendo nas despesas sociais do Estado (segurança social, educação e saúde) é possível equilibrar as contas públicas.»

in “O Economista Insurgente”, Esfera dos Livros, 2014

Ler+ é possível e promove a saúde e a economia

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Devemos agradecer ao autor de Tortura em Democracia, actualmente a residir em Évora.

Várias Câmaras Municipais financiaram o livro de José Sócrates que esteve, pelo menos, um mês em primeiro lugar em todas as livrarias. O Sexta às 9 descobriu que, em Lisboa, foram emitidas faturas em nome de autarquias do norte do país que compraram este livro às dezenas, várias vezes.

Livros recomendados

Alguns leitores pediram recomendações de leitura sobre liberalismo e o pensamento libertário. Fica aqui então uma lista bastante incompleta e sem grande ordem com algumas leituras recomendadas a quem só há pouco tempo começou a ler o Insurgente:

HAZLITT, Economics in One Lesson
FRIEDMAN, Free to choose
ORWELL, Animal Farm
HAYEK, The Road to Serfdom
HAYEK, The Constitution of Liberty
WOODS, Meltdown
SOWELL, Basic Economics
LINDSEY, The age of abundance
MISES, Socialism
SCHIFF, How an Economy grows and why it crashes
SOTO, A Escola Austríaca
MOREIRA e ALVES, O que é a Escolha Pública
MONIZ, PINTO, FRANCISCO, O Economista Insurgente

Boas leituras.