sócrates está mesmo a querer vender a ideia de que foi ele que quis a troika?!

bohlwinkel2Não vi o último programa de sócrates – já bem me custou ver o de há 15 dias, que se há coisa com que eu sou seletiva é com o tempo que gasto com tarefas e pessoas; pelo que li, o senhor comentador filósofo disse que o resgate da troika foi pedido não por necessidade, mas ‘por prudência’.

Mas que estranho. A pessoa que tanto acusava a oposição, antes de Abril de 2011, de querer o FMI por cá, esbracejando que isso seria uma clamorosa perda de face para Portugal, significaria anos sem acesso aos mercados dos bonds e que, segundo os seus defensores, lutou até ao fim para evitar um resgate financeiro internacional, afinal não recorreu a uma solução extrema como pedir esse mesmo resgate internacional apenas quando não teve outras alternativas menos dolorosas? afinal recorreu à solução que considerava calamitosa apenas ‘por prudência’? o pm que afirmou que reduziu o ordenado aos funcionários públicos por não ter mais soluções foi o mesmo pm que pediu ajuda à troika sem estar com a corda a pressionar o pescoço? então a troika, segundo sócrates, não foi o último recurso, foi, sim, uma opção sua, havendo outras, é isso? na verdade não tínhamos necessidade absoluta de um resgate internacional, mas sócrates achou por bem moldar a têmpera aos portugueses obrigando-nos a suportar todos os sacrifícios a que teríamos direito se precisássemos efetivamente do resgate – estou a perceber bem a argumentação?

Até aqui o argumentário – que tinha pelo menos algum mérito – era o da inevitabilidade da intervenção da troika depois da reprovação na AR do PEC4 (ocorrida por ser a última oportunidade de Passos Coelho vir a ser primeiro-ministro). É certo nem essa argumentação, no fundo, isenta de culpas o governo PS. Afinal foi o governo socrático que levou à necessidade do PEC4 e que falhou todos os PEC anteriores, bem como havia falhado desde 2006 qualquer redução do défice que não fosse feita através de aumentos de impostos. Mas pelo menos era uma maneira inteligente de partilhar as culpas. Agora, pelos vistos, não, sócrates não faliu o país, não estivemos à beira de não pagar salários e pensões, não houve traição de Teixeira dos Santos, lá agora, sócrates é que foi prudente devido ao risco de os mercados não quererem comprar os nossos títulos de dívida pública. E o risco, claro está, deveu-se todo, todinho, à crise financeira de 2008, e à crise das dívidas soberanas e do euro, não teve nada, nadinha, a ver com as contas públicas do tempo socrático.

Os estrategas para a campanha presidencial socrática lá saberão, mas eu diria que a argumentação ‘nós chamámos o FMI [e o mesmo é dizer 'vocês estão a ser saqueados pelo fisco, desempregados, com apoios sociais mais reduzidos,...'] sem estrita necessidade’ não é substancialmente melhor do que a evidência ‘nós levámos o país à falência e não tivemos outra solução se não chamar o FMI’.

bohlwinkel3(As imagens são do banqueiro Bohlwinkel, da Estrela Misteriosa, uma boa face para esses mercados malévolos, compostos por pessoas ruins entregues de alma e coração à causa do empobrecimento generalizado das populações, que provocaram tão curiosa ‘prudência’ em sócrates. E para mostrar como sócrates pode bem com os mercados, e lhes dá lições, a última imagem ilustra como os mercados ficam amedrontados sempre que alguém do gabarito de sócrates lida com eles.)

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A propósito da Suécia e do “milagre escandinavo”

Diz-se dos países nórdicos que são exemplos civilizacionais, a população é a mais feliz, a mais confiante, exalta-se a excelência da qualidade de vida, invejam-se os níveis de prosperidade e todo um certo bem estar social. Daquele nicho, controlam os prémios Nobel, o Ikea, a  H&M, petróleo suficiente para competir com a Arábia Saudita, o melhor sistema de educação, o melhor sistema de saúde, o melhor isto, o melhor aquilo. Constrói-se um mito, tiram-se lições e profundas conclusões e há sempre alguém disposto a alegar, em qualquer discussão, o modelo social nórdico e a respectiva “qualidade de vida”. Para mim, nascida e criada na melhor cidade para se viver (apesar de algumas desavenças com o bigode de Fernando Ruas, reconheço-lhe algum mérito enquanto autarca), isto é irritante. Até que aparece um inquérito como o da Agência dos Direitos Fundamentais da UE a concluir que a violência sobre as mulheres é elevadíssima nos países Escandinavos, uma notícia sobre o tratamento dos ciganos na Suécia ou um Michael Booth a revelar alguns factos. Entre idas e vindas por terras gélidas Booth, residente na Dinamarca e casado com uma dinamarquesa, desmonta, país por país (Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega e Islândia), a exaltação à volta das maravilhas daqueles hotspots da social democracia. Dos Dinamarqueses, escreve Booth que são os reis do endividamento privado (quatro vezes mais que os italianos – o suficiente para justificar uma advertência do FMI) e os responsáveis pela quarta maior pegada ecológica por habitante, a nível mundial. Quanto à igualdade económica, Booth explica que segundo o maior diário dinamarquês, “o número de pessoas que vivem abaixo do limiar de pobreza duplicou na última década“. Os Noruegueses, entre outras coisas, são comparados a traficantes de droga  por se vangloriarem pela utilização apenas de energias renováveis e, simultaneamente, vendendo combustíveis fósseis ao resto do mundo. A dependência de anti-depressivos também é um traço típico do cidadão Norueguês.  Da Finlândia, são conhecidas as bebedeiras de sexta-feira (o álcool é a principal causa de morte entre os homens) e as cenas de pancadaria, por isso não surpreende que seja o país com a taxa de assassinatos mais elevada da Europa Ocidental (o que talvez explique a invasão de literatura policial originária destas bandas).  Ainda, na última classificação do PISA (Programme for International Student Assessmen), a Finlândia caiu para os últimos lugares. Booth qualifica de “indulgente” o povo sueco e destaca que este país “neutro” é o maior exportador de armas do mundo. O desemprego jovem é mais elevado na Suécia do que no Reino Unido e ultrapassa a média europeia.

Depois de conhecer este trabalho de Booth e de ler o seu livro The Nearly Perfect People (cheio de humor), compreendem-se melhor as declarações de Sócrates quando, em 2005, dizia que o modelo que o inspirava era o da social-democracia nórdica. Por outro lado, oxalá Michael Booth não venha a Viseu, andam por aí uns mitos autárquicos por desvendar…

nórdicos

 

 

Há gente a quem foi lido, em pequena, o 1984 em vez da Branca de Neve

No verão do ano passado li The Fat Years, de Chan Koonchung. Este livro, publicado em 2011, é uma distopia que conta o futuro no ano de 2013 na China. Resumo o livro em poucas linhas, centrando-me no que quero iluminar e deixando de lado outros aspetos interessantes (para o meu atual trabalho sobre as memórias) como o mês esquecido cuja procura é o que conduz a ação. No início de 2011 houve uma nova crise financeira mundial, de maior dimensão do que a de 2008, e que enfraqueceu os países ocidentais, tendo a China passado incólume, entrando numa era de prosperidade e tornando-se a maior potência económica mundial. Que método diz esta distopia que foi usado para ultrapassar a crise financeira? Tornou obrigatório níveis mínimos de consumo pelos chineses, o que possibilitou o crescimento da procura interna chinesa em substituição da procura externa combalida pela crise. Resultado: abundância e prosperidade para a China, bem como felicidade universal, potenciada pelo fornecimento de drogas à população de forma encapotada.

Posto isto, alegremos-nos: somos um povo com igual imaginação à dos autores de distopias. Temos uma desvantagem (menor, claro, nada que faça mossa): é que esta imaginação, que algumas pessoas em países exóticos usam para as distopias, nós usamo-la para propostas sobre fiscalidade reputadas de sérias por gente que supostamente sabe do que fala. A minha preferida é a proposta de despesa privada obrigatória, aventada no ano passado, que é sem tirar nem pôr o que aparece na distopia sobre a China. Era o que faltava os indivíduos quererem poupar. E onde já se viu esta mania das pessoas decidirem por si o que fazer ao dinheiro que lhes fica depois de retirados o IRS e a constribuição para a segurança social. Se consomem, pagam IVA; se não consomem, pagam IVA na mesma. Eu diria que era de abolirmos a república e aclamarmos como nosso rei, se não mesmo divindade universal, a pessoa que fez uma proposta brilhante, cintilante, resplandescente como esta.

Apesar de nem todos conseguirem alcançar a pertinência da despesa privada obrigatória, alguns logram ficar perto. No Prós e Contras houve quem sugerisse o imposto sucessório (e o aumento de impostos é uma inevitabilidade da manutenção do status quo proposto pelos ‘nacional-relevantes‘). Teodora Cardoso sugere um novo imposto sobre levantamentos de dinheiro e transações bancárias. Não é evidente que também é brilhante? Levanta-se o dinheiro e é cobrado o imposto; depois compra-se o que se necessita e volta-se a pagar IVA (e se Gaspar tivesse levado a sua avante, o feliz consumidor ainda pagaria multa acaso se esquecesse da fatura na loja). Recebemos uma fatura da luz, da água ou do que seja, que já tem IVA e fazemos a transferência; pela transferência pagamos também imposto. Não é um admirável mundo novo?

Eu sou de opinião que uma imaginação ativa tem sempre melhor uso na criação de ficção do que na criação de impostos. Até nem me importaria que fosse gasto algum dinheiro dos contribuintes em incentivos de passagem de profissões na área da fiscalidade para a de romancistas – fazendo as contas aos impostos que esta gente é capaz de inventar e que, assim, deixaremos de ter de pagar porque têm a imaginação entretida elsewhere, mesmo com aumento de despesa os contribuintes ficam a ganhar. Para motivar estas pessoas de imaginação fiscal ativa, dou o exemplo de Asa Larson, que antes de escrever policiais era advogada na área da fiscalidade. Não desistam, portanto, que estão destinados à grandeza na literatura.

 

Escândalo para sócrates: alguém faz serviço público na RTP

Mas que aborrecido. Uma pessoa é convidada para um espaço de tempo de antena e reescrita da História recente, na televisão pública, aceita e acaba por ser confrontada com um jornalista que tem as ideias avariadas e pensa que fazer jornalismo não é deixar um ex-político – e aspirante a novo poiso político – dizer os disparates que lhe apetece, mas sim confrontar o dito com o que disse anteriormente e contradiz o que diz agora. Esta gente que tem a mania de fazer o seu trabalho é uma nuisance. A sorte do jornalista travestido é que o ex e wannabe-futuro político por agora não manda nada, que se mandasse o atrevido jornalista já ia ver que bem que sabe um exílio profissional.

 

«Sócrates irrita-se: “Não vinha preparado para isto”

 

[...]Rodrigues dos Santos foi ao “arquivo”, como se referiu o jornalista às notícias que trouxe com declarações de Sócrates para o confrontar com afirmações suas antigas, em que, por exemplo, defendia a necessidade de “consenso” ou de fazer “tudo o que for necessário” para atingir metas orçamentais.

Sócrates foi ficando cada vez mais irritado e explicando sempre as suas afirmações com o contexto da época – de um “governo sem maioria” ou apontado “a diferença” da política do seu executivo com a do Governo atual de Passos Coelho. “Sempre estimulei o crescimento económico”, contrapôs à ideia “perigosa” da austeridade “que conduz ao descontrolo da dívida”. “Por que é que um Governo que se concentra apenas na austeridade tem estes resultados?”, atacou, descrevendo que a dívida e o défice continuaram a aumentar. “Os seus arquivos também deviam dizer isto”, apontou o ex-primeiro-ministro.

No ajuste de contas entre passado e presente, Sócrates afirmou que “esta austeridade cega mata-nos”, recordando as “apostas” da sua governanção nas energias renováveis ou no parque escolar, por exemplo.»

Talvez seja bom, daqui a 15 dias, que JRS vá acompanhado não só dos seus arquivos, mas também de publicações do INE. Sempre seria interessante que a criatura socrática fosse confrontada com os resultados da sua preocupação com o crescimento económico, que parece que o melhor que conseguiu foi um acrescimento abaixo dos 2% em 2007. E que desde 2000 que Portugal está, nos bons anos, estagnado; nos maus está em crise. Se bem que sócrates pode sempre dizer – evidenciando pela primeira vez na vida uma réstea de gosto – que no meio de tanto Kant também leu o Pride and Prejudice e socorrer-se da citação da Lizzie: ‘But in such cases as these, a good memory is unpardonable.’

Literatices

A propósito desta notícia que o Rui Carmo deu a conhecer pelo sofisticado método de comunicação intra-insurgentes (tecnologia de ponta inventada por nós; estamos presentemente em negociações com uma delegação de terroristas separatistas ossetas e a NASA, a ver quem paga mais, para a vendermos; e, o que será ainda mais revolucionário do que o rearden metal – vou buscar este exemplo porque de vez em quando há que mostrar o devido apreço pelos randianos do blogue -, a invenção da comunicação telepática insurgente is just around the corner; vai ser assim algo parecido com o laran das Darkover novels, livros que eu descobri através de um empréstimo de uma lésbica feminista – o que também fica sempre bem dizer num blogue para verem como eu, afinal, até sou uma pessoa decente, tolerante, progressista, não-obscurantista e mais uns adjetivos que se aplicam àquelas pessoas mesmo, mesmo boas que insultam todos os que não concordam exatamente com elas), venho fazer uma sugestão de leitura aos escandalizados políticos ocidentais – que, para não serem acusados de não fazerem nada perante a anexação pela Rússia dessa milenar possessão ucraniana que é a Crimeia, planeiam congelar umas contas para não fazerem nada parecendo que fazem alguma coisa.

lecarrePara a versão nacional dos escandalizados, há tradução.

(Espero que tenham apreciado o meu esforço na escrita de uma frase cujo tamanho qualificaria de saramáguico se isso não fosse insulto que uma qualquer frase bem intencionada não merece.)

Ando viciada no The Daily Beast

Leio The Daily Beast desde que a Tina Brown criou a coisa e até suportei estoicamente durante algum tempo o enamoramento embevecido do site por Obama. Mas às tantas o meu bom senso e o meu bom gosto lá perderam a paciência com tanto apaixonado suspiro digital pelo presidente. (O texto mais imbecil que li sobre Obama foi escrito por Tina Brown para The Daily Beast, onde a editora garantia que Obama seria um excelente presidente porque – e preparem-se para uma razão groundbreaking – usava blackberry.) E a leitura tornou-se apenas ocasional e nem a junção com a Newsweek espicaçou a curiosidade. Nos últimos meses, no entanto, ressuscitaram os sinais de vida inteligente no site e tornou-se leitura diária obrigatória. Gosto de tudo, desde os textos sobre os hot topics de cada momento (os mais interessantes textos sobre as aventuras e desventuras recentes da Ucrânia e da Rússia foram lá lidos) até aos pedaços de curiosidades históricas – como o almirante americano que ajudou a Rússia a conquistar a Crimeia no século XVIII -, de curiosidades atuais – como o apreço dos americanos por bibliotecas, gosto inteiramente partilhado por mim, que adoro passar tempo rodeada de livros – até aos textos sobre livros – e aqui fica um excerto de uma entrevista a Anchee Min, autora muito minha conhecida, a propósito do seu último livro de memórias, The Cooked Seed. Onde se mostra que, no caso da China como noutros, para perceber o presente geralmente faz falta conhecer o passado.

«You worked so very hard to get there. You sent the manuscript out to 12 literary agents. That’s tenacious. Is it strange when you look at China today and it’s become this flourishing, capitalistic society? It’s so much different from your childhood.

 

The words that come to mind are “I’m not surprised.” Not surprised. Because the people who are managing China are people like me. You see, during my time, half of the country’s people were sent to the Cultural Revolution’s labor camps or the countryside. So we knew what did not work. Our whole generation was a disillusioned generation, therefore politically mature and very practical. So look at the streets of Shanghai during three different decades: the first decade, there was a lot of [praise of] Chairman Mao and carrying on the Cultural Revolution to the end. And the second decade was Deng Xiaoping’s “White cat, black cat, whichever catches mice is the great cat” capitalism. And then the third was, “Let’s build 18 million toilets in Shanghai, and borrowing to take a loan is not bad.” So I think this really reflects the Chinese middle-class mindset, which I think is the strength of my writing—I think I can easily penetrate that way of thinking.

What’s going on China, I have no problem comprehending, understanding. I see in my daughter, and she is so ill-prepared throughout the American education system, she was not prepared with any knowledge of China. As a country, as Americans, I feel we can no longer afford to ignore China. And I think that I’ve made it kind of my mission, to help Americans understand where China is going by showing where China is coming from.»

Leituras vagamente relacionadas com a Crimeia, a Ucrânia, a Rússia e o pandemónio que por lá se vive

Os inventores da Crimeia russa: Catherine the Great and Potemkin, The Imperial Love Affair, de Simon Sebag-Montefiore. (Que já foi objeto de umas palavras minhas no Farmácia Central sobre outro assunto que, bem, não é a conquista da Crimeia por Potemkin.)

catarina e potemkin

E Crimea, The Last Crusade, de Orlando Figes, sobre aquela que se arrisca a ficar conhecida como a Primeira Guerra da Crimeia. O Miguel Noronha, el comandante, também poderia fazer serviço público e vir aqui recomendar mais uns livros de Figes (que já leu e eu ainda não). Se ele não vier, já sabem, azucrinem-lhe o juízo. Orlando Figes esteve há pouco tempo envolvido numa polémica de umas críticas que fez sob pseudónimo na Amazon, para o seu livro do momento elogiosas e para os livros de autores rivais cheias de bílis. Ser historiador, como se sabe, não blinda ninguém contra ser uma pessoa pouco recomendável, mas os livros de Figes lêem-se bem.

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Fred Vargas

FredVargas

A direita portuguesa é hoje um pouco anti-francesa. Quem diria. Até quem leia a Le Point hoje em dia e associe a França a uma certa orientação política, conclui necessariamente que a Le Point é anti-francesa. Não há nada a fazer.

Mas a França tem coisas boas que não apenas a volta em bicicleta e o Astérix, um dos poucos personagens da BD franco-belga verdadeiramente francês. Há pouco tempo descobri Fred Vargas, uma arqueóloga e historiadora que escreve policiais. Como aprecio o género, comprei o seu último livro, já de 2011, ‘L’Armée Furieuse.’ E o que gostei foi precisamente aquela história e aquele ambiente serem tão franceses. Vargas é uma historiadora especializada na Idade Média que, até por encontrar na psicologia humana o motivo de certos actos, baseia nos medos irracionais da época o cerne da sua narrativa. As suas histórias, esta foi a primeira que li mas muitas outras vão, pelo percebi, na mesma linha, partem de acontecimentos do foro policial mas com uma forte conotação fantasmagórica, fazendo da Normandia, local onde se desenrola este livro, um lugar de eleição. O enredo, os ambientes e as lendas fantasmagóricas fazem, aliás, lembrar Ric Hochet, o jornalista/detective da BD criado por Tibet, francês, e André-Paul Duchâteau, por acaso belga.

Além de historiadora, Vargas é ainda arqueóloga, mais especificamente estuda a história das relações naturais entre os homens e os animais e a domesticação destes por aqueles. Em françês chama-se de Archéozoologie e em português deve ser qualquer coisa como arqueozoologia, palavra que, para ser sincero, desconheço que exista. Mas o que me interessa aqui é realçar a interacção entre animais e as diversas personagens que Vargas inclui no decorrer do livro. São pormenores que se sucedem como se de acontecimentos de bastidores se tratassem, mas determinantes para a conclusão da obra.

Continuar a ler

Mais chinesices

A versão chinesa do A Oeste Nada de Novo.

oeste nada de novo chinês

«This Chinese version of the 1929 Erich Maria Remarque classic All Quiet on the Western Front was sold in serial form in Shanghai in 1930. [...] The Rauner Library’s blog writes that the Chinese government tried to ban the American movie, “because of a perception that its antiwar message would undermine national resistance to Japanese aggression.” [...] Called lianhuanhua (or “linked serial pictures”), small picture books were a Chinese tradition from the 1920s through the 1990s. The University of Hawaii at Manoa’s Hamilton Library has a website with a database of images from lianhuanhua dating from the ‘50s through the ’80s, as well as a good explanation of the historical roots of the tradition, which can be traced to romantic novels and traditional Chinese New Year’s prints.»

 

Lições mitfordianas de pronúncia de ‘Juan’

O Vítor Gorjão hoje à tarde, no facebook, deu umas lições para jornalistas e comentadores televisivos que andam por aí a falar de um enigmático Ruan Miró. De facto a pronúncia de Juan é tricky e, se não tivermos cuidado, lá parecemos josé sócrates, no comício do PSOE, falando algo que nem sequer vagamente semelhante era ao castelhano. Decidi, por isso, vir cá dar uma ajuda aos senhores jornalistas e comentadores televisivos.

Em primeiro lugar é necessário apaziguá-los e dar algum reforço à sua auto-estima. Não pensem, pessoas que têm falado de Ruan Miró, que estão sós nesta dificuldade. Não, o Lord Alconleigh, personagem dos livros de Nancy Mitford inspirada no (ou, melhor, decalcada do) seu pai também padecia da mesma tormenta pronunciativa, que ficou evidente quando a sua prima conhecida como ‘the Bolter’ (pelos sucessivos maridos que abandonou) lhe apareceu em casa, para uma estadia de vários meses, acompanhada do seu amante espanhol chamado Juan. (Esta personagem ‘the Bolter’, refira-se, é também um retrato ficcionado de uma prima afastada de Nancy Mitford, Idina Sackville, apelidada por todos de ‘the Bolter’ pelos mesmos motivos da ‘bolter’ da ficção. Tem a curiosidade de ser bisavó – ou trisavó? – de Frances Osborne, mulher de George Osborne do governo britânico. E andou pelos lados do Kenya no período entre as duas guerras mundiais do século passado, nos tempos do Happy Valley – assim chamado pela moral sexual descomprometida dos residentes brancos, que levou até ao assassinato irresolúvel de um dos ex-maridos da ‘bolter’ original à conta de um affair com uma loura deslumbrante, retratado no filme White Mischief que, não se preocupem, não tem o canibalismo do Black Mischief de Evelyn Waugh, grande amigo e correspondente da above mentioned Nancy. Idina cruzou-se pelo Kenya com a Karen Blixen, o Denys Finch-Hatton e o lord Delamere, o ‘D’ do Out of Africa. Este, por sua vez, é avô ou bisavô do herdeiro Delamere que deve estar ainda por agora nas prisões do Kenya pelo seu peculiar hábito de assassinar os nacionais de cor mais escura que encontrava nas vastas propriedades do seu pai e que os tais senhores de cor mais escura consideram terem sido roubadas aos seus antepassados. Enfim, as confusões normais do pós-colonialismo. E sim, os posts também são como as cerejas.)

Bom, regressando ao amante espanhol Juan e ao pintor espanhol Ruan, Lord Alconleigh resolveu o problema do nome esquisito do seu hóspede chamando-lhe ‘Gewan’. Não é a solução perfeita, mas ainda assim é mais suportável que Ruan. Além de ficar sempre bem aprender alguma coisa com a literatura.

Manias da comunidade feminina insurgente*

pg wodehouseComo dizia o Lord Goring, a única coisa sensata a fazer com um bom conselho é passá-lo a outra pessoa. Ora qualquer conselho meu seria inevitavelmente bom, pelo evito dá-los, sabe-se lá onde vão parar. Mas abro aqui uma exceção, que se tratam de coisas importantes. Vale a pena irem ler o que a Graça tem escrito no Rua Direita. Aqui têm uns mimos sobre o P. G. Wodehouse – e é condição necessária para entrar na sociedade secreta insurgente uma leve obsessão pelos livros de P.G. Wodehouse, somos obrigados a revelar quais os títulos preferidos de cada um (os meus são Aunts Aren´t Gentlemen e The Mating Season), está em avaliação a criação entre os insurgentes de um banco de segredos semelhante ao do sindicato dos mordomos, e já enviámos para os vários grupos parlamentares uma proposta de lei de criminalização das traduções de P.G. Wodehouse e para o internamento compulsivo de qualquer pessoa que leia o autor noutra língua que não a original. E já que estou em maré de dar conselhos, recomendo vivamente que se adquiram as novas edições da Everyman, que são lindas (está um exemplo ali em cima) e têm os livros todos, Wooster & Jeeves, Blandings Castle, Psmith e muitos etc.

Para manter o nível depois do P.G. Wodehouse, de que poderia a Graça escrever de seguida? Acertaram: sobre o Colin Firth. De resto, sobre o primeiro avistamento de Colin Firth da minha vida, no Valmont, de Milos Forman (que claro que já teve direito a post meu noutros lados). E a maior evidência que alguma vez poderei apresentar de que os adolescentes são parvos é a minha preferência, nesses anos felizmente já ultrapassados, pelo Vicomte de Valmont de John Malkovich em vez do de Colin Firth. Quanto à cena do lago que a Graça refere: caros leitores (ou, pelo menos, leitoras) dirijam-se a este post aqui da sociedade secreta.

*(que estou certa que a Daniela e a Elisabete estão inteiramente de acordo com a Graça e comigo).

Porquê Hemingway?

A minha educação literária foi e é muito influenciada por Hemingway. Porquê? One word: “Fiesta” (ou “The sun also rises”, com uma fabulosa adaptação para o cinema, de 1957, com a Ava Gardner a representar uma estonteante Lady Brett Ashley).  A capacidade de Hemingway para compor uma história e omitir menções directas ao problema central  (a impotência sexual de Jake em “Fiesta”)  foi o que me conquistou. Mas, agora que leio o “Jardim do paraíso” (confesso que por mim, o filme de Jonh Irvin seria censurado por violar a memória de Hemingway com base no nível de foleirice intrínseca), percebo que não foi apenas isso mas, também, a facilidade com que este suicidazinho me manipula quando, no fim de uma página descritiva e quase – sublinhe-se o “quase” - boring, prestes a virar a página, leio a seguinte frase “no café pegou no jornal e pediu um fine à l’eau porque se sentia vazio e deprimido por ter feito amor”. Caramba.

(Ah, claro, depois vi o Clive Owen – suspiro prolongado – a representar um sensualíssimo e brutal Hemingway e percebi que adorava “Papa” porque me apresentou a Martha Gellhorn, uma mulher que “amava a Humanidade mas detestava pessoas”.)

Feminismo caviar

emmaAs pessoas são negligentes com a necessidade de ler Jane Austen e apercebem-se tarde de certas realidades. Já no Emma (aqui ao lado na minha encadernação preferida) Jane Austen punha a protagonista, Emma Woodhouse, informando a amiga Harriet que não pretendia casar porque não precisava, que teria uma boa herança e preferia ficar de fora, fazendo de casamenteira para os amigos sem comprometer a possibilidade de ficar para o resto da vida sem ter de dar satisfações a ninguém. E mais, garantia Emma: ficar solteira só tornava uma mulher ridícula, e a colocava em dificuldades, se além da falta de marido tivesse também falta de dinheiro. Como a definitivamente ridícula Miss Bates – que é, mais tarde na narrativa, objeto de uma monumental descompustura de Mr Knightley a Emma. Mas isso já nos faz sair do propósito do texto. Que é: as maluquices feministas anticasamenteiras – não confundir com o feminismo sensato, que sim, até se atura e apoia de vez em quando – vão bem acompanhadas de um little black dress e um par de Jimmy Choos. (Se bem que um LBD e um par de Jimmy Choos fiquem bem a acompanhar qualquer coisa, não se lhes leve a mal).

«Taking a stand against patriarchy is much easier if you’re well-educated, have a stable income, and live in a community where you could theoretically find an educated, employed man to marry. For poor, uneducated women, especially those who have kids, the question of whether to get married looks a lot different: It’s the choice between raising children on one or two incomes, between having someone to help with household chores and child-rearing alone while working multiple jobs.

And that’s the big difference: For a poor woman, deciding whether to get married or not will be a big part of shaping her economic future. For a wealthier woman, deciding whether to get married is a choice about independence, lifestyle, and, at times, “fighting the patriarchy.” [...]

Wanting a certain lifestyle, or even wanting to fight against societal pressures to marry, are both questions of privilege.

This is not to say that all low-income women should marry, that it’s their fault if they’re not married, or that marriage is the silver-bullet solution to solving income inequality, as Fleischer and his supporters might argue. But it is important for the resistance against “patriarchy” to be mixed with a recognition of statistical reality: Marriage is good for women economically.»

O resto na The Atlantic.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no i.

Os sonâmbulos da Europa

O último livro do historiador australiano Christopher Clark (The Sleepwalkers), sobre as causas da guerra de 1914-18, está a causar polémica entre os especialistas na matéria. Clark, que teve acesso aos arquivos das potências europeias, contraria o hábito, que vem de Versalhes, de culpar essencialmente a Alemanha pelo sucedido. Para ele, a causa principal que levou ao conflito armado, foi o estado de sonambulismo que afectou os líderes europeus e os levou a jogar o futuro da Europa num jogo de roleta russa.

O assunto é complexo e não vem aqui directamente ao caso. O importante é que a obra de Clark está a ter um enorme sucesso na Alemanha, pois permite aos alemães tirarem de cima dos ombros a culpa que lhes foi inculcada. Quase 100 anos passados sobre o início da primeira grande guerra, e quando as tensões na Europa se viram novamente contra o país mais populoso e que ocupa o centro do continente, o esforço intelectual deste historiador, que não é alemão, é da máxima importância.

Não há Europa sem Alemanha. Ora, esta verdade que, devido à irritação irracional para com Sra. Merkel, estamos a esquecer, não foi tida em conta pelos britânicos, franceses e russos do início do século XX. Também na altura ninguém esperava o pior; também na época poucos se deram ao trabalho de ir além do preconceito imediato e ninguém foi capaz de pôr termo ao sonambulismo que afectou a Europa. Espero que em 2014 nos  recordemos disto para que 1914 não tenha sido em vão.

E agora as coisas importantes do dia: parabéns Tintin

bule tintinEu sou assim ligeiramente fanática por all things Tintin. Os quartos dos miúdos têm quadros do Tintin, candeeiros com Tintins em madeira e outras variadas formas de serem condicionados ao gosto da mãe. Quando casei, as mesas da festarola tinham nomes e imagens das personagens do Tintin. O único livro em francês que me dei ao trabalho de ler foi o das entrevistas do Numa Sadoul ao Hergé. E, claro, de tempos a tempos tenho de regressar aos livros para saborear as piadas com o talho Sanzot, as confusões acústicas de Girassol, os disfarces dos Dupondt, as diabruras de Abdallah, a maldade (crescente) de Rastapopoulos, a invasão japonesa da China, os vilões, os terroristas do Irgun (que, em edição posterior, foram renomeados), a passagem da Bordúria de um estado parecido com a Alemanha nazi a outro semelhante à URSS estalinista. E as quedas e desgraças sortidas e palavrões de Haddock, a sua tentativa de se tornar um gentleman farmer depois da descoberta do tesouro de Rackham e da recuperação de Moulinsart, as fugas da Castafiore, as fúrias com o mundo inteiro. Haddock – esse bêbado recuperado pela amizade de Tintin, que não hesitava em manipulá-lo, quando necessário, com uma módica dose de álcool. E, para mim, os livros de Tintin são sobretudo isso, livros sobre a amizade – o melhor livro sobre amizade que já li foi o Tibete, o livro psicanalítico que Hergé escreveu para expiar a culpa que sentia pelo seu divórcio – tanto melhores por não serem amizades perfeitas, mas amizades com zangas, incompreensões, fúrias, manipulações, necessidades de distância, segredos, teimosias.

Enfim, comparado com a tintinologia, só mesmo o meu vício do chá. Pelo que aqui vai a foto de um bule igual ao meu bule do Tintin, um dos meus objetos mais adorados – a dimensão é ideal (dá para umas sete ou oito chávenas de chá, todas para mim, claro), o bico é perfeito – e que necessitará de luto prolongado caso alguma vez se parta.

Umas palavras de conforto para José Sócrates

trauma questionAnda por aqui gente maldosa a elaborar teorias sobre uma coisa normalíssima como esta de inventar memórias, que sucede a qualquer pessoa de bem, pelo que me vejo na obrigação de vir defender a honra desse ex-pm que sempre nos habituou a ter nas suas afirmações a verdade mais cristalina. Como estou precisamente a estudar as questões da memória, concretamente a memória de trauma, posso garantir que há valentes discussões sobre a validade da memória, especialmente quando se trata de memórias recuperadas (nos casos de abuso sexual em criança). Mas também, e devido aos processos de fixação da memória, quando a memória não é exatamente correspondente aos factos (que se podem comprovar, pelo menos). Terá valor esta memória? E, para além do valor legal, qual o valor cultural desta memória? Vale a memória para além dos factos?

Assim, e caso sócrates se sinta algo confuso com este seu pequeno erro – não que isso suceda, claro está, que sócrates faz parte da estirpe de pessoas que tem como lema nunca reconhecer erros, mesmo os mais evidentes, e ainda há pouco tempo afirmava que reconhecer erros é errar duas vezes – aconselho a leitura do livro acima, que refere estas interessantes questões sobre a memória e a sua validade. Ou, se os neurónios socráticos estiverem demasiado esgotados com tanta leitura de Kant, pelo menos a leitura deste texto da The Atlantic. Para não se sentir desacompanhado nisto de inventar memórias. Não que o querido líder necessite de companhia, que ele é uma pessoa com mais valor que os demais. Sobretudo da companhia daqueles inúteis descerebrados incapazes de ver a genialidade socrática.

Em todo o caso este episódio permite-nos ficarmos seguros de algo: as memórias de sócrates sobre eventos importantes – ocorre-me, sabe-se lá porquê, o caminho governamental até ao pedido de resgate pela troika, a eficácia do PEC4 e anteriores PEC e por aí – são tão fidedignas como a memória de sócrates sobre Eusébio. E talvez fosse mais avisado sócrates tomar decisões de carreira para áreas onde se valorize a capacidade de inventar – pode-se tornar um autor célebre no campo da autoficção (conceito abordado no livro acima), por exemplo – e se esquive de áreas onde maior fidelidade à verdade se aconselhe. Sei lá, ocorre-me a política.

‘Contagem Descrente’

Amanhã será o lançamento do livro de John Wolf. Desta vez não conheço pessoalmente o autor – só da bloga e do facebook – mas conheço a Antonieta Lopes da Costa, que apresenta o livro, do tempo do Descubra as Diferenças na Rádio Europa, e o Gonçalo Martins, da Chiado Editora, que tive o prazer de conhecer noutras bandas. E, os dois, são recomendação mais do que suficiente. Além de, obviamente, os escritos do autor.

Foi no Ramalhete…

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Foi no Ramalhete, entre os périplos que conduziam Carlos a Maria, entre o intrincado manto de detalhes e de retalhos que tão bem caracteriza Eça. Entre a descrição das paredes, dos corredores, dos aparatos e dos criados, todos eles, os mudos e os demudos, que testemunharam, como eu, o que os aproximava. Foi no Ramalhete que li e vivi um romance que transformava relatos em vivências. Foi nessa casa que compreendi o alcance das palavras que tornam eternas as memórias e histórias que ficam com eles e comigo. Foi nesse mesmo Ramalhete que enquanto Carlos se declarava a Maria, eu me apaixonava incondicionalmente. Foi com Eça, no Ramalhete, que me entreguei à literatura.

E foi entre Eça e Pessoa, da casa à mensagem, porque estava na hora, acreditava eu declamando e não dizendo, orgulhosamente, que se desfizesse o fado e se cumprisse, como n’O Infante estava escrito, Portugal. Foi na força imensa do mar português que senti o que não pode ser dito, apenas lido.

Foi mérito de Eça e Pessoa ter dado o benefício da dúvida e arriscar pegar n’A Metamorfose — que sabemos nós com 15 anos? aliás, que sabemos nós? — para, com imensa estranheza mas profunda admiração, comentar Kafka. Foi mérito de Eça e Pessoa ter levado Cervantes debaixo do braço enquanto viajava durante um ano e acompanhava, como se fossem minhas, as aventuras de D. Quixote. Foi mérito deles, honra minha, querer ler A Divina Comédia enquanto vivia por escrito, tão próximo quanto as palavras permitem e a imaginação alcança. Foi honra minha, mérito deles, deixar-me absorver pelos Três Mosqueteiros de Dumas.

É, portanto, com uma profunda tristeza que leio que a Associação de Professores de Português considera um retrocesso voltar à leitura de Eça, Camões e, bárbaros!, Pessoa, Padre António Vieira ou Alexandre Herculano. Considerará, por extensão, um retrocesso ler também Dante, Cervantes, Dumas ou Shakespeare, escritores que, aproprio-me com desfaçatez das palavras de José Mendonça da Cruz, são enormes. E, afirmo-o eu, não existem prémios Nobel que algum dia comprem ou ofusquem aquilo que estes, e poucos mais, um dia fizeram.

Mas porque neste mundo pautado pela mediocridade dos comissariados e dos pareceres o fora-da-lei é aquele que está certo, porque A é A, o sincero, que muitos, ouso sonhar demasiados, continuem a mostrar àqueles que, como eu, agradecem ter um dia lido Eça e Pessoa. Porque se isto é progresso, prefiro o retrocesso. Porque o mérito é deles e a honra é minha. Porque, Senhor, não é com aquela gente, mas com esta, que só assim se poderá um dia fazer cumprir Portugal.

Q&A sobre Descobrimentos

100 perguntas

Passo a vida (bom, quando me lembro) a arengar com a necessidade de haver alguém a escrever, de forma legível e credível, história portuguesa para o grande público - deixo só um exemplo das minhas resmunguices, e aproveito para esclarecer que o livro The Last Crusade já me foi desaconselhado, não ficasse algum leitor mais sugestionável com ideias de ir a correr comprá-lo. No mundo anglo-saxónico há inúmeros académicos com talento para a pena (ou para o teclado) que escrevem para fora da academia e sempre alimentei uma pouco saudável inveja, em nome dessa mesma história portuguesa, por tais eventos editoriais. Assim de repente, lembro-me de John Lukacs e dos seus livros sobre a segunda guerra mundial ou, mais perto dos meus estudos atuais, Frank Dikotter e os seus Mao´s Great Famine e o recentíssimo The Tragedy of Liberation, ou Roderick MacFarquhar e Michael Schoenhals com Mao´s Last Revolution – todos de simpática leitura. Felizmente há uma boa notícia para os que penavam, como eu, com esta lacuna e que, apesar de terem umas dezenas de livros aguardando leitura (fora material de estudo), ainda se dedicavam a cogitar o que gostariam de ler de diferente: já está à venda Os Portugueses Descobriram a Austrália? – 100 Perguntas sobre Factos, Dúvidas e Curiosidades dos Descobrimentos, de Paulo Pinto.

Adeus Maxmen, foi bom…

Aparte

Campaigners meet with MPs to push for Tescos lads’ mags ban:

Feminist campaigners are meeting with MPs today, in a bid to force supermarket chains to stop stocking copies of lads’ mags featuring images of bikini-clad women.The parliamentary meeting will be led by Green MP Caroline Lucas, alongside rights groups UK Feminista and Object.Campaigners are using legal and political pressure to push supermarkets into banning the magazines, which they say breach equality legislation.It comes as a survey by ITV’s Daybreak revealed 45% of people believe the magazines encourage sexism.

I think that women in the 21st century can aspire to more than being sex objects for the titivation of men”.

Alice Munro, nobel da literatura: yeah!

O meu primeiro livro de Alice Munro foi-me oferecido pela Ana Margarida Craveiro (não te importas pela denúncia, pois não, Ana?), A Vista de Castle Rock. É um livro de contos – Munro escreve sobretudo contos – e, como prefiro as longas empreitadas dos romances, não sei se o teria lido se não tivesse tanta confiança no literary taste da Ana, que nos leva a ter gostos comuns (como, um exemplo, a Kate Atkinson). Mas li, fiquei viciada e já li mais uns tantos livros de contos de Munro. Curiosamente nunca li o único romance que escreveu e, coisa rara para os autores que escrevem em inglês, li sempre as traduções da Relógio D´Água. Se tivesse mesmo de escolher, diria que o meu conjunto de contos preferido é o Fugas.

Alice Munro não escreve thrillers, nem tratados filosóficos, nem O grande romance. Escreve sobre situações quotidianas e pessoas comuns. E é aqui que reside a genialidade – e é mesmo genialidade – de Munro: na forma como nos revela as motivações, as emoções, as intensidades submersas presentes nos comportamentos mais triviais das pessoas mais normais, aqui ou ali salpicado de algum drama também ele quase corriqueiro. Agora que têm surgido estudos que apontam para a capacidade da ficção nos tornar mais empáticos, pode-se dizer sem grande exagero que os contos de Alice Munro são as melhores lições de empatia.

(Começo a preocupar-me: depois de Mo Yan no ano passado e com Alice Munro este ano, já são dois anos seguidos em que acho que se nobelizou dois grandes escritores e que foram escolhidos, de facto, pela qualidade literária e não por posições políticas. Como deve suceder com o Nobel da Literatura, que não é, nem deve ser – mas já foi, é só pensar em Saramago – um Nobel do Ativismo Político).

No Fio da Navalha

O meu artigo de ontem no jornal i.

Erros passados, desafios futuros

Em 1980, Larry Collins e Dominique Lapierre escreveram “O Quinto Cavaleiro”, no qual estes dois autores (“Oh Jerusalém” e “Esta Noite a Liberdade”) imaginaram um atentado terrorista árabe que destruiria a cidade de Nova Iorque. Em 1980, ainda na administração Carter, o terrorismo fazia das suas, temendo-se a sua escalada para um nível de destruição total. A leitura deste livro, com a descrição da preparação do atentado, levado a cabo por quem já estava na cidade, causa arrepios agora que sabemos do 11 de Setembro: a ficção vira realidade vezes de mais.

Neste ano de 2013, o jornalista e especialista de política internacional francês Éric Laurent escreveu “La Conspiration de Wao Yen” (Flammarion). Aí prevê um golpe mortal da China na hegemonia norte-americana: convencendo a Arábia Saudita a pôr termo à sua aliança com os EUA e a assinar um acordo de fornecimento exclusivo do petróleo à China, Pequim expõe a fraqueza dos EUA, viciados em dívida e totalmente dependentes de terceiros que exploram e não respeitam. O enredo passa-se em Março de 2014 e a impotência da administração Obama para enfrentar este desafio é confrangedora.

Do livro de Éric Laurent não se espera, até porque julgo ainda só existir a edição francesa, a mesma projecção que a das conhecidas obras de Collins e Lapierre. No entanto, a fraqueza dos EUA, deixando de ser o local onde se vivia do trabalho e não do consumo, está a deixar marcas no mundo que se irão agravar.

O verdadeiro Karl Marx

Apesar de alguns grayismos, John Gray escreveu uma recensão muito interessante do livro Karl Marx: A Nineteenth-Century Life, de Jonathan Sperber: The Real Karl Marx.

Sperber’s subtly revisionist view extends to what have been commonly held to be Marx’s definitive ideological commitments. Today as throughout the twentieth century Marx is inseparable from the idea of communism, but he was not always wedded to it. Writing in the Rhineland News in 1842 in his very first piece after taking over as editor, Marx launched a sharp polemic against Germany’s leading newspaper, the Augsburg General News, for publishing articles advocating communism. He did not base his assault on any arguments about communism’s impracticality: it was the very idea that he attacked. Lamenting that “our once blossoming commercial cities are no longer flourishing,” he declared that the spread of Communist ideas would “defeat our intelligence, conquer our sentiments,” an insidious process with no obvious remedy. In contrast, any attempt to realize communism could easily be cut short by force of arms: “practical attempts [to introduce communism], even attempts en masse, can be answered with cannons.” As Sperber writes, “The man who would write the Communist Manifesto just five years later was advocating the use of the army to suppress a communist workers’ uprising!”

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Mal Educados

Ao indivíduo que repete constantemente uma mentira no anseio de que esta se transforme em verdade podemos chamar de demagogo ou de mentiroso mas não, necessariamente, de burro. Muito pelo contrário. A lenga-lenga da destruíção da Escola Pública, repetida em governos que vão do socialismo ao centro-direita – como aponta e bem o Henrique Monteiro – tem convencido dentro e fora da escola. E se é certo que muitos os há que contestaram o timing desta greve, poucos serão os que não estão convencidos da agenda fascista deste ministro, que certamente quer retornar os padrões de ensino à Idade das Trevas.

Eu bem sei que tudo isto é chato. É chato que esta greve tenha provado a eficiência do ensino privado sobre o público. Não admira que a FENPROF esnobe constantemente o ensino privado. Pode dar-se o caso de que alguém repare que a coisa funciona e os ponha realmente a trabalhar. E isso é capaz de ser chato. É chato que os professores, esses pilares da sabedoria, se vejam numa situação que não lembra a um trabalhar de um país civilizado: a possibilidade de serem despedidos.

Mas sobretudo, o mais chato é o povo, com a sua humildade intelectual, que não tendo sido alertado atempadamente para as virtudes da via revolucionária, se viu a votar neste conjunto de reformas tão contestadas. A democracia, essa coisa chata, parece não gostar dos professores.

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O que se vê e o que não se vê

Segundo a RTP (a mostrar como está sempre pronta a fazer propaganda), um estudo do Observatório do QREN chegou à conclusão de que empresas que recebem apoios públicos criam em média mais dois postos de trabalho, e que nos últimos três anos, cerca de 8000 postos foram criados por empresas beneficiadas por estes “incentivos”. O tom da coisa era grandioso, como se com um singelo minuto e meio de reportagem o estatismo tivesse sido redimido e provado verdadeiro, em toda a sua glória.

Se fosse vivo, um certo senhor francês (imagine-se) faria a gentileza de lhes explicar como o dito estudo fala apenas do positivo efeito “que se vê”, mas ignora olimpicamente o negativo custo “que não se vê”. Satisfeitos por verem os “incentivos” públicos permitirem às empresas que os receberam criar empregos, tendemos a esquecer que o dinheiro para pagar os ditos “incentivos” teve que vir de qualquer lado – tendo em conta que o “negócio” do Estado é obter receita dos cidadãos, todo e qualquer “apoio” que este dê é proveniente do dinheiro dos indivíduos e empresas que, com os seus impostos, financiam a “generosidade” pública. Esse dinheiro que tanto jeito deu aos que dele beneficiaram terá certamente feito alguma falta aos que dele tiveram de abdicar. Infelizmente, o estudo não diz quantos empregos se perderam por um restaurante ter perdido dinheiro com a subida do IVA, ou por uma empresa não poder suportar os descontos para a Segurança Social de um dos seus empregados.

O estudo ignora também um outro aspecto pernicioso desta aparentemente positiva criação de postos de trabalho: ela resulta apenas e só da decisão política de atribuir a esta ou àquela empresa o “apoio”, em detrimento de outra. Enquanto que numa “normal” situação de “mercado”, uma empresa é “premiada” através da preferência individual de cada um dos “clientes” que a ela recorrem, sempre que o Estado escolhe dar o seu “apoio” a uma e não a outra, está a fazê-lo independentemente dessas livres preferências das pessoas. A obtenção do “apoio” depende assim, não da satisfação dos interesses dos potenciais clientes, mas (na melhor das hipóteses) da navegação eficaz no mar burocrático que o Estado português traz para tudo o que faz, ou (na pior das hipóteses) na satisfação dos agentes do “mercado” de “influências”, que pelos vistos nunca está em crise no nosso país. Aqueles 8000 postos de trabalho são, é verdade, 8000 pessoas que estão empregadas e têm a sua vida melhorada em resultado disso. Mas as incontáveis que viram o seu rendimento diminuir ou o seu emprego desaparecer também. E não é por não darem jeito à propaganda que têm menos importância.