Maio 27, 2012
Maio 22, 2012
Maio 17, 2012
Maio 16, 2012
Selecção Individual, Selecção de Grupo e Liberalismo Clássico
O reputado biólogo e fundador da sociobiologia E. O. Wilson acabou de lançar o seu mais recente livro intitulado “The Social Conquest of Earth”. O livro está a ser recebido com sentimentos díspares junto da academia e a principal razão para esse efeito é que Wilson, uma das grandes referências no campo da biologia, abandonou o paradigma que desde os anos 60 tem vindo a dominar o campo da biologia evolutiva: o paradigma da selecção individual. Desta forma, Wilson é mais um grande nome da disciplina a abraçar a força evolutiva da selecção de grupo como modelo explicativo do comportamento humano. Wilson não inventou a roda, limitou-se a reverter às ideias iniciais de Charles Darwin, que deixou escrito que a evolução se dava ao nível dos grupos, ou mais especificamente, ao nível de tribos mais fortes e adaptadas que suplantam tribos menos adaptadas.
“A tribe including many members who, from possessing in a high degree the spirit of patriotism, fidelity, obedience, courage, and sympathy, were always ready to aid one another, and to sacrifice themselves for the common good, would be victorious over most other tribes; and this would be natural selection. At all times throughout the world tribes have supplanted other tribes.” Darwin, em “The Descent of Man”
Nos anos 60 o paradigma mudou a favor da pura selecção individual (preconizada por autores como Richard Dawkins e o seu “Gene Egoísta”), esta postula que a selecção natural dos mais adaptados é feita apenas ao nível do indivíduo porque os seus genes são “egoístas” e como tal irão colocar-se sempre a si mesmos à frente dos interesses de qualquer grupo.
Este paradigma individualista influenciou as ciências sociais, que viram na selecção individual a confirmação do liberalismo, um mundo onde só existem indivíduos soberanos, genericamente auto-interessados e racionais, e onde não há lugar para grupos como unidades orgânicas.
Porém, sem negarem a força da selecção individual, cada vez mais autores a favor da selecção de grupo (mais especificamente da selecção multi-nível) estão a argumentar que nas situações onde a sobrevivência de um indivíduo depende do modelo organizativo da tribo, o interesse do indivíduo passa a estar alinhado com o da tribo, gerando o fenómeno da selecção de grupo. Por outras palavras, devido à possível ameaça de um grupo sobre outro, o grupo mais coeso, mais bem organizado, com mais altruístas e mais etnocêntrico irá prevalecer sobre o vencido em caso de disputa social ou territorial e irá passar os seus genes às próximas gerações. Em suma, podemos estar a assistir ao fim do paradigma analítico estritamente individualista que dominou a segunda metade do século XX.
Wilson foi muito claro quando escreveu que o legado genético dos humanos é o etnocentrismo e a propensão para pertencer a grupos e, se preciso, para lutar por eles.
“People are prone to ethnocentrism. It is an uncomfortable fact that even when given a guilt-free choice, individuals prefer the company of others of the same race, nation, clan, and religion. They trust them more, relax with them better in business and social events, and prefer them more often than not as marriage partners.” E. O. Wilson
As repercussões na filosofia política fizeram-se sentir no imediato. Os partidários do igualitarismo desgostam da destruição do mito universalista que está presente nesta real dinâmica de altruísmo (“in-group”) e antagonismo (“out-group”), mas não desgostam da ideia subjacente de que afinal o “bem do grupo/colectivo” existe. Já muitos liberais clássicos/libertários desgostam de praticamente tudo. A sua pré-disposição ideológica para ver apenas indivíduos e não grupos, etnias, nações ou colectivos leva a que muitos ignorem as evidências empíricas que os antropólogos e historiadores nos relevam: que o legado genético da humanidade é a história de tribos étnicas contra outras tribos étnicas, de grupos contra grupos. O maior receio deste liberais é que a aceitação da selecção de grupo signifique a aceitação do socialismo ou de outras formas estatizantes de colectivismo.
Curiosamente, F. A. Hayek, uma das grandes referências liberais clássicas contemporâneas, foi dos primeiros a abraçar a selecção de grupo ao aplicar o processo evolutivo à análise social. Na altura foi inclusivamente acusado por outros académicos liberais de estar a “trair” a lógica do individualismo metodológico e até dos princípios liberais. Porém, já depois de uma longa carreira, em “Law, Legistation and Liberty” e em “Fatal Conceit”, Hayek não hesitou em aplicar a selecção de grupo biológica às normas sociais. O académico austríaco postulou que os grupos com as normas sociais mais eficientes seriam materialmente mais prósperos, aumentariam comparativamente a sua reprodução populacional e conquistariam outros grupos que detenham normas sociais menos eficazes. Para Hayek é irrelevante se essa conquista se dava pela via da guerra ou da colonização migratória, o importante para ele é a percepção de que os grupos com normas sociais que favorecessem a prática mercantil, propriedade privada e cumprimento de contratos estariam na posição de vanguarda (e.g. a expansão dos europeus pelos continentes do mundo e conquista de novo território).
Por conseguinte, Hayek percebeu que a aceitação da selecção de grupo não teria necessariamente de negar o liberalismo clássico, apenas teria de o enquadrar num cenário realista que esteja de acordo com o legado evolutivo humano. Caso contrário, esta filosofia política poderia passar a ser um castelo construído no ar, baseada em indivíduos genericamente atomizados que não existem. O próprio Hayek não concordaria com o sentido literal da famosa frase de Margaret Thatcher “não existe tal coisa como sociedade, apenas indivíduos e famílias” pois tal sugere a inexistência de uma sociedade como força bio-cultural adaptativa.
Desta forma, e observando a actual mudança de paradigma em curso, torna-se importante salientar que F. A. Hayek demonstrou uma capacidade intelectual notável ao abraçar a selecção de grupo numa fase (70’s e 80’s) em que a selecção individual era o paradigma evolutivo em voga, contrariando as expectativas de todos os que seguiam o seu trabalho académico; especialmente no mundo liberal clássico onde o conceito de grupo era e é anátema para muitos. Isto demonstra a razão porque Hayek é possivelmente o pensador liberal clássico contemporâneo com mais reconhecimento no mundo académico: ao contrário do que costuma ser alegado, a razão não está simplesmente no facto de Hayek ser um liberal moderado que pode ser facilmente absorvido pelo status quo, mas sim porque, apesar de erros possíveis que possa ter cometido, era um pensador com flexibilidade intelectual suficiente para perceber muitos dos principais problemas que existem no seu campo político-filosófico.
O inevitável retorno da selecção de grupo promete mudanças consideráveis no pensamento filosófico do futuro. Ademais, em Harvard, quando E. O. Wilson ficou a saber que John Rawls não tinha qualquer conhecimento de sociobiologia, Wilson respondeu: “o tempo em que os filósofos não sabem nada de sociobiologia irá acabar”.
F. A. Hayek, naturalmente, esteve à frente desse tempo.
PS: Os biólogos como E. O. Wilson que estão a trazer de volta esta perspectiva de grupo renegada no pós-guerra, fazem-no numa altura especialmente relevante para a Europa: depois de 60 anos de engenharias sociais ao nível da U.E., onde se promoveu a destruição das identidades nacionais e do conceito de “nação” pela via das fronteiras abertas e do multiculturalismo (para abrir alas ao homem universal e atomizado sob a égide de um super-Estado), a verdadeira face da natureza humana irá erguer a sua cabeça, com consequências (im)previsíveis.
Leitura complementar: E.O. Wilson: “Why do Humans Need Tribes?”
Maio 9, 2012
Edward O. Wilson – The Social Conquest of Earth: Why humans need tribes
The Social Conquest of Earth. Por Edward O. Wilson.
Biologist E.O. Wilson on Why Humans, Like Ants, Need a Tribe
Religion. Sports. War. Biologist E.O. Wilson says our drive to join a group—and to fight for it—is what makes us human.
The Antinomies of Conservative Thought
O mais recente número da Political Studies Review inclui um muito recomendável artigo de Joseph V. Femia no qual são analisados dez livros da colecção ‘Major Conservative and Libertarian Thinkers’, entre os quais The Salamanca School, que escrevi conjuntamente com José Manuel Moreira. Aqui fica a recomendação: The Antinomies of Conservative Thought.
Modern conservatism is the product of a gradual merger between traditional holism and liberal individualism. As a result, what we now call conservative thought embodies a number of contradictory values and principles. Even individual conservatives find it hard to be consistent, with some, for example, proclaiming their reverence both for national traditions and for universal moral truths. The books reviewed in this article illustrate the remarkable diversity of conservative ideology, though the article concludes by arguing that the familiar distinction between ‘left’ and ‘right’ remains valid.
Maio 7, 2012
Pandêgos (4)
Pândegos (3)
Leftism Revisited: From De Sade and Marx to Hitler and Pol Pot, de Erik von Kuehnelt-Leddihn.
Maio 2, 2012
A promoção do Pingo Doce e as reacções anti-capitalistas
Algumas sugestões de leitura:
Anti-Capitalistic Mentality, de L. von Mises.
Why Do Intellectuals Oppose Capitalism?, de R. Nozick.
The Intellectuals and Socialism, de F. A. Hayek.
The Fatal Conceit: The Errors of Socialism, de F. A. Hayek.
Socialism: An Economic and Sociological Analysis, de L. von Mises.
Maio 1, 2012
Filosofia Liberal – O Liberalismo definido
Abril 30, 2012
Quem Tem Mais Fobia da Ciência? A Direita (religiosa) ou a Esquerda?
Nesta entrevista, o sociobiólogo David Sloan Wilson (autor de obras como “Darwin’s Cathedral” ou “Unto Others”) entrevista o psicólogo social Jonathan Haidt (autor de obras como “The Righteous Mind: Why Good People Are Divided By Politics and Religion“) e discutem as posições anti ciência vindas da direita religiosa (e.g. criacionista) e da esquerda. Apesar de a direita religiosa ser promovida na imprensa como a principal facção anti-ciência, Jonathan revela que na realidade, e apesar de se apresentar sempre como “open minded”, a esquerda apresenta iguais níveis de antagonismo. À direita o dogma é conhecido: se a ciência revela dados diferentes do que está escrito na bíblia, (i.e. a idade do planeta), nega-se imediatamente. À esquerda, porque o seu dogma religioso é a igualdade, quando a ciência revela diferenças inatas entre sexos, populações ou diferenças hereditárias ao nível do QI, esta é a primeira a acusar a ciência de falsidade.
Ademais, eles discutem igualmente o papel da “revisão de pares” na academia e o que acontece a estes “checks and balances” quando em determinados campos das ciências sociais (como a psicologia social) quase 100% dos pares são de esquerda.
Abril 29, 2012
Uma biblioteca virtual do liberalismo e do conservadorismo
Recomendo uma visita à pequena – mas criteriosa – Biblioteca Virtual do Gabinete de Estudos Gonçalo Begonha.
Abril 15, 2012
Coming Apart: The State of White America, 1960-2010 – Charles Murray
Ainda não li, mas tendo em conta a entrevista e a restante obra de Charles Murray, deve ser um livro interessante: Coming Apart: The State of White America, 1960-2010
Uncommon Knowledge: White America Is ‘Coming Apart’
Outros livros de Charles Murray:
Losing Ground: 10th Anniversry Edition: American Social Policy, 1950-1980
In Our Hands: A Plan to Replace the Welfare State
Real Education: Four Simple Truths for Bringing America’s Schools Back to Reality
Bell Curve: Intelligence and Class Structure in American Life (A Free Press Paperbacks Book)
What It Means to Be a Libertarian
Human Accomplishment: The Pursuit of Excellence in the Arts and Sciences, 800 B.C. to 1950
Abril 14, 2012
The retreat from Classical Liberalism – Deepak Lal
Lost Causes: The retreat from Classical Liberalism
Uma breve recensão do livro está disponível aqui: Lost Causes: The Retreat from Classical Liberalism. Por Philip Booth.
Abril 12, 2012
Os Condes D’Abranhos
Só quem nunca leu Eça de Queirós pode abster-se de admirar a actualidade da sua obra. A política, essa constante galinha de ovos de ouro de um bando de provincianos de pendor intelectual duvidoso, está patente, em aberto ou nas entrelinhas, por todo o seu trabalho e as semelhanças, nos vícios e nas manhas, são inúmeras. O Conde D’Abranhos constitui o exemplo perfeito do desanque intelectual com que o romancista presenteou a classe política portuguesa. Acompanha a história de um idiota que por via de heranças e arranjinhos chega ao topo da hierarquia, mexendo os cordelinhos aqui e além, cacicando em prol do seu património, alavancando-se no jornalismo para singrar, espancando e bajulando governos e políticos como lhe convém, cambiando de opinião em função das marés e, finalmente, recebendo o direito de sentar o físico possante nas cadeiras da casa da democracia. Permitam-me, portanto, que vos cite umas passagens que expõe muito bem como os políticos, especialmente dentro dos partidos, encaram estas coisas da democracia. Não tendo comigo o livro – deixei-o por terras lusas, dando prioridade aos “virgens” na minha mala – fiz questão de citar de PDF. Perdoai-me portanto os puristas se me saír torta a brincadeira:
O Conde d’Abranhos, com a sua alta intuição, sentiu que se estava preparando uma nova política, que, condizendo com o seu temperamento, seria o elemento natural em que a sua fortuna medraria como num terreno propício. Ele bem sabia que o governo nada perdia do seu poder discricionário – mas que apenas o disfarçava. Em vez de bater uma forte patada no país, clamando com força: – Para aqui! Eu quero! – os governos democráticos conseguem tudo, com mais segurança própria e toda a admiração da plebe, curvando a espinha e dizendocom doçura: – Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!
Tomemos um exemplo: o eleitor que não quer votar com o Governo. Ei-lo, aí, junto da urna da oposição, com o seu voto hostil na mão, inchado do seu direito. Se, para o obrigar a votar com o Governo o empurrarem às coronhadas e às cacetadas, o homem volta-se, puxa de uma pistola – e aí temos a guerra civil. Para que esta brutalidade obsoleta? Não o espanquem, mas, pelo contrário, acompanhem-no ao café ou à taberna, conforme estejamos no campo ou na cidade, paguem-lhe bebidas generosamente, perguntem-lhe pelos pequerruchos, metamlhe uma placa de cinco tos-tões na mão e levem-no pelo braço, de cigarro na boca, trauteando o Hino, até junto da urna do Governo, vaso do Poder, taça da Felicidade! Tal é a tradição humana, doce, civilizada, hábil, que faz com que se possa tiranizar um País, com o aplauso do cidadão e em nome da Liberdade.
Quantas vezes me disse o Conde ser este o segredo das Democracias Constitucionais: «Eu, que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente a Soberania ao povo, que é forte e simples. Mas, como a falta de educação o mantém na imbecilidade, e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito… E quanto ao seu proveito… adeus, ó compadre!
Ponho-lhe na mão uma espada; e ele, baboso, diz: eu sou a Força! Coloco-lhe no regaço uma bolsa, e ele, inchado, afirma: eu sou a Fazenda! Ponho-lhe diante do nariz um livro, e ele exclama, de papo: eu sou a Lei! Idiota! Não vê que por trás dele, sou eu, astuto manejador de títeres, quem move os cordéis que prendem a Espada, a Bolsa e o Livro!»
E cá está esta ex libris da ironia e do sarcasmo, dedicada aos jornalistas ( e aos bloggers, tivesse sido escrito hoje) feitos políticos, não por grande mérito seu, mas por uma reconhecida capacidade de “falar bem” sem dizer nada:
Os fundadores da Bandeira, moços ambiciosos que rondavam em torno das repartições do Estado, tinham encontrado um patrono num homem político, alta figura de relevo na história Constitucional, o conselheiro Gama Torres. A protecção que dispensava porém à Bandeira este homem notável, era, como dizia finamente o Conde – platónica, toda platónica! Não lhe dava dinheiro, porque, chefe de família, entendia, e muito bem, que a política não deve sorver fortunas, mas, pelo contrário, produzi-las. Não dava tão pouco ideias, porque, apesar da sua alta ilustração, que o torna um dos nossos grandes contemporâneos, a sua prudência, a sua reserva eram tais, que raras vezes se lhe tinha ouvido uma opinião nítida.
Sabia-se que aquela fronte um pouco calva, de entradas largas, estava recheada de ideias; somente conservava-as como um tesouro escondido. Era, por assim dizer, um avaro intelectual. As suas ideias eram para si; no silêncio do seu gabinete, agitava-as como o velho Grandet agitava o seu ouro, regalando-se do seu brilho e da sua sonoridade. Mas se alguém entrava de repente, aferrolhava tudo à pressa no cofre do cérebro, e a sua larga testa, de entradas altas, não oferecia mais que uma fachada impenetrável e monumental, que impressionava a todos e não aproveitava a ninguém.
Por fim, faço questão de, nestes tempos de nojo geral – palavra simples mas adequada – perante o brilhantismo em meia luz da política governamental e dos seus ilustres ministérios, aqui fica uma das frases mais citadas do livro:
“E imenso como torpeza; mas nós aplaudimos, porque um ministério que assim procede, inspira, ipso facto, um nojo genérico. Este governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina, – porque é uma nódoa!”
Março 27, 2012
Thinking, Fast and Slow – Kahneman
Um interessante apontamento do Luís Aguiar-Conraria sobre o livro Thinking, Fast and Slow, de Daniel Kahneman.
Março 26, 2012
A teoria política de Thomas Jefferson
No site The Future of Freedom Foundation, Thomas E. Woods Jr. resenha o livroLiberty, State, & Union: The Political Theory of Thomas Jefferson, de Luigi Marco Bassani:
Those who would question the view of Jefferson as a Lockean natural-rights theorist on property contend that he viewed property not as a natural right that may never be curtailed, but as a purely conventional right that individuals enjoy at the sufferance of the community. One way of advancing that claim is by making an argument from omission: in the Declaration of Independence, such critics point out, Jefferson substituted “pursuit of happiness” for “property” in the familiar triad of “life, liberty, and property.” That is supposed to indicate that Jefferson wished to remove property from the list of rights man enjoys by nature. Bassani takes on that argument convincingly, providing an impressive body of evidence showing that the enjoyment of property was one of the indispensable ingredients of a truly happy human life.
Março 25, 2012
A Tábua Rasa, a Escola de Frankfurt e a “Broken Britain”
Em resposta ao meu texto “Democracia, “Common Law” e Broken Britain” onde abordo o declínio acentuado das tradições britânicas, o Samuel de Paiva Pires escreveu um texto onde tenta explicar com eloquência o ataque contemporâneo à tradição recorrendo a Roger Scruton e John Gray e aos abusos do racionalismo. Adicionalmente, nesse texto deixa-me a seguinte pergunta:
Que papel teve o pensamento da Escola de Frankfurt nesta destruição da “Britishness”?
Naturalmente que a actual situação de perda de identidade britânica pela via da imigração (não-europeia) em massa tem mais do que uma causa e não podem todas ser reduzidas a uma corrente de pensamento produzida por intelectuais. Para além do poder destas ideias no poder político, entre outros factores contextuais, juntam-se os lobbies pró-imigração de grupos de minorias étnicas, de activistas humanitários, de instituições supranacionais como o Concelho da Europa ou a ONU e de grandes empresas interessadas em mão de obra barata ou em mercados internos alargados para os seus produtos (e.g. sector da construção imobiliária).
Porém, sem a força das ideias por trás deste processo, nunca se teria chegado a um ponto onde muitas das principais cidades inglesas terão uma minoria de britânicos nativos num curto espaço de tempo. Mas que ideias foram estas?
As mais importantes foram a crença na tábua rasa e os postulados da Escola de Frankfurt.
A Tábua Rasa
A crença na tábua rasa (a ideia de que os seres humanos não têm cruciais pré-disposições comportamentais de origem genética) começou-se a desenvolver na ciência contemporânea com autores como Franz Boas, um judeu alemão que foi para os EUA e que por volta dos anos (19)20 fundou a escola de antropologia na academia americana com mais impacto até aos dias hoje. Franz Boas dedicou a sua vida académica a tentar mostrar que não existiam quaisquer diferenças inatas entre populações e grupos humanos e que as diferenças observáveis eram puramente culturais, esteve ligado a movimentos de extrema esquerda e sempre combateu a ideia de “evolução por meios de selecção natural” como explicação para essas diferenças, temendo que elas fossem usadas para fins políticos (como veio a acontecer na Alemanha). Os seus estudos postulavam que tribos primitivas de Samoa tinham muito para ensinar aos ocidentais (que na altura se julgavam civilizacionalmente superiores), dando assim o pontapé de saída para o relativismo cultural pós-moderno que equipara as obras de Beethoven a estátuas de barro de tribos da Samoa. As bases teóricas para uma nova fundação de um igualitarismo radical estavam assim formadas.
Este pensamento atingiu um dos seu pontos altos com o precursor do Behaviorismo John B. Watson, académico que proferiu a famosa frase onde afirmava que seria capaz de transformar qualquer criança no que quer que fosse (médico, bombeiro, professor, mendigo, etc…) para mostrar como a educação ou socialização era praticamente tudo o que definia o ser humano e não as suas pré-disposições genéticas.
A crença na tábua rasa alastrou-se a todas as disciplinas das ciências sociais e, com algumas excepções, perdura até hoje. O principal impulsionador desta crença é a ideia reconfortante de que é possível melhorar a natureza do homem e assim transformá-lo em algo novo, algo que o socialismo latente na academia via como vital para os seus ideais.
Com a segunda guerra mundial e com o uso erróneo das ideias evolucionistas pelos nacionais socialistas, estas foram praticamente ignoradas na academia, ficando até hoje remetidas quase exclusivamente para as ciências naturais, nomeadamente a Biologia.
A Escola de Frankfurt
A Escola de Frankfurt foi uma escola de pensamento baseada num instituto criado na Alemanha em 1923, constituído por marxistas judeus que visavam aprofundar o marxismo académico. Entre estes, os nomes com mais proeminência foram Herbert Marcuse, Theodore Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin. No início, o instituto dedicava-se essencialmente a estudos económicos clássicos marxistas, mas rapidamente virou o seu foco para a cultura. Antes desta viragem, já outros marxistas como Antonio Gramsci e György Lukács tinham notado que apesar da primeira Guerra mundial, o proletariado não se tinha revoltado na Europa e que a razão para tal estava nos valores culturais do ocidente. Com base no conceito de “ideologia” de Karl Marx, eles consideravam que os valores e instituições culturais do ocidente eram resultado de propaganda capitalista destinada a cegar o povo e manter o poder da burguesia (i.e. do grande capital). Lukacs chegou mesmo a perguntar “quem é que nos salva da cultura ocidental?”.
Os académicos da Escola de Frankfurt viram a 2ª Guerra mundial acontecer e chegaram à mesma conclusão; isto é, perguntaram-se como foi possível que o proletariado se tenha entregue ao fascismo e nacionalismo em vez de se rebelar contra o capitalismo? A resposta foi a mesma: eram a cultura e os valores ocidentais que estavam no caminho da revolução comunista. Como tal, lançaram-se numa carreira cujo fim último seria derrubar as instituições culturais do ocidente.
A “arma” intelectual que criaram denominou-se “teoria crítica”. O seu objectivo era em linhas gerais criticar, colocar em questão todas as instituições da civilização ocidental: a família, o papel das mulheres e dos homens em sociedade, os valores cristãos, os conceitos de beleza, etc…
Estes académicos fugiram de Hitler a caminho dos EUA, onde continuaram o seu trabalho, e encontraram por lá aquilo que consideravam ser uma cultura fascista burguesa que reprimia os indivíduos. Recorrendo à psicanálise de Freud, Marcuse usou o conceito de “repressão sexual” para mostrar como os americanos eram controlados pelos detentores do capital via uma doutrina burguesa de repressão sexual e família. Sem surpresa, Marcuse tornou-se no “poster boy” intelectual dos movimentos “paz e amor livre” da “new left” dos anos 60.
Ao aperceberem-se que a classe trabalhadora nunca se iria rebelar e estava satisfeita com o sistema capitalista, o alvo a atingir mudou. Era preciso gerar novos indignados para gerar revolução, e foi neste ponto que o foco se virou para as minorias raciais oprimidas, homossexuais e as mulheres. Marcuse foi muito claro quando revelou que se as mulheres se rebelassem, grande parte do trabalho teria sido feito, pois com mais de 50% da população “em libertação do machismo” seria possível mudar com certeza os valores ocidentais. Assim, boa parte da sua esperança estava no feminismo.
A forma de promover esta revolução baseou-se no aprofundamento da tábua rasa; ou seja, no veicular a ideia de que todas as diferenças entre os vários grupos humanos são “construções sociais” e que devem ser combatidas. Não há raça, não há mulheres nem homens, não há homossexuais ou heterossexuais, o que há são imposições e doutrinações burguesas que fazem com que os indivíduos tenham os comportamentos que têm em sociedade. Nada é natural e inato, tudo é produto da cultura que, no seu entender, tinha de ser mudada para libertar todas essas pessoas das construções sociais para onde foram remetidos.
Com isto desenvolveu-se o relativismo e o pós modernismo, pois nada tem assim um valor objectivo nem qualquer função, e todas as culturas são boas e más ao mesmo tempo. Qualquer juízo de valor é uma forma de intolerância.
Marcuse definiu em particular aquilo que veio a marcar o zeitgeist (espírito dos tempos) até aos dias de hoje quando escreveu que a verdadeira tolerância implica intolerância contra qualquer discurso de direita que se baseie em salientar as diferenças de uma cultura sobre outra, de uma etnia sobre outra, de o mérito de uma pessoa sobre outra, de um sexo sobre outro, etc… Isto transformou-se no que hoje chamamos de doutrina do politicamente correcto ou, como também é conhecida, marxismo cultural. Desta forma, qualquer debate que envolva uma das partes a alegar que existem desigualdades inatas e naturais entre seres humanos é imediatamente encerrado. Em discurso político, não existe liberdade de expressão para quem não acreditar na tábua rasa.
Broken Britain
Esta filosofia acabou por dominar a academia do mundo anglo-saxónico e dos países do norte/centro da Europa. Quando o genial precursor da sociobiologia (agora mais conhecida como psicologia evolutiva) Edward O. Wilson lançou nos anos 70 a disciplina que estuda as diferenças no comportamento humano à luz da evolução genética e cultural, este foi atacado por grande parte da academia e inclusivamente ,numa conferência, terminou literalmente com um balde de água na cabeça, presente de um grupo anti-racista da new-left americana. Wilson, claro, não incitou qualquer forma de ódio racial, mas o simples facto de ter lançado uma disciplina que rejeita a tábua rasa foi o suficiente para ser atacado pelo “establishment” inquinado à esquerda.
Apesar de este hostil ambiente académico nas ciências sociais permanecer, geneticistas, biólogos, psicólogos evolutivos não têm dúvidas de que existem profundas diferenças entre humanos de natureza inata e evolutiva, que não têm origens na cultura ou na socialização, seja ela burguesa ou de qualquer outro cariz. Porém, são os cientistas sociais que lançam as ideias “políticas” para a sociedade, onde são depois promovidas por jornalistas (“second hand dealers of ideas”) e políticos (“second hand followers of ideas”), e estes académicos são ainda os herdeiros da escola de Frankfurt, ocupados com estudos de género, estudos africanos, estudos multiculturais, estudos de desenvolvimento, estudos feministas, entre outros. Por outras palavras, estudos marxistas aplicados à cultura, numa era em que quase ninguém acredita no marxismo económico.
Foi neste ambiente intelectual dos últimos 70 anos que se desenvolveu a progressiva perda de identidade britânica, assim como a respectiva balcanização cultural e étnica da Grã Bretanha. Imbuídos nesta nova cultura de rejeição dos valores tradicionais ocidentais, os políticos britânicos promoveram a imigração em massa não-europeia alegando que todas as culturas devem ser encaradas como iguais e que, tal como Marcuse deixou escrito, tudo o que é necessário é tolerância para com elas e intolerância para com os que se opõem a esta destruição cultural. Para o combate a quem se opunha a este processo estavam (e estão) reservados epítetos de fascista, extremista, racista e a imposição de quotas e multas. Em suma, autoritarismo “anti-direita”. Assim, a direita política main-stream transformou-se em esquerda, incapaz de contrariar este novo ambiente intelectual e social. Tal como Andrew Neather (o conselheiro de Tony Blair) relevou, a esquerda quis esfregar o nariz da direita na “diversidade”.
Na realidade, como é facilmente observável, diferentes grupos de pessoas geram culturas diferentes e geralmente de socialização incompatível no mesmo espaço geográfico. Ignorando esta evidência, mergulhados no espírito da tábua rasa, economistas e demais cientistas sociais continuam a temer o decrescer da população nativa e a incentivar mais imigração para aumentar a extensão do mercado (como postulava Adam Smith) e assim manter o crescimento económico (da mesma forma que temem a deflação monetária). Porém, em sociedade partidas culturalmente, com baixos níveis de confiança e ressentimento entre grupos étnicos, o mercado será sempre primeiro a sofrer e o autoritarismo a recrudescer.
Olhando para o Reino Unido, mas igualmente para outros países europeus, ficamos com poucas dúvidas sobre o sucesso que este grupo de académicos de Frankfurt teve na destruição das instituições culturais ocidentais e, em termos gerais, na progressiva destruição de uma civilização.
Março 20, 2012
Democracia, “Common Law” e a “Broken Britain”
O meu caro amigo e colega Samuel escreveu um texto onde procurou clarificar que não há apenas um liberalismo monolítico mas sim vários, e fê-lo com a sua eleição pessoal e apologia do modelo liberal clássico de F.A. Hayek.
Apesar de considerar Hayek um autor extremamente interessante e multifacetado (que tal como eu se dedicou ao estudo da evolução, psicologia e economia), nunca me poderia considerar Hayekiano como o Samuel o fez. Havendo muitas razões para tal, irei agora apenas debruçar-me sobre um ponto que considero importante no seu pensamento: o governo limitado democraticamente e a “Common Law”.
O Samuel descreveu a posição Hayekiana neste campo da seguinte forma:
“Hayek insere-se numa linha de pensamento que perspectiva a democracia como um método que se preocupa essencialmente em limitar o poder de quem governa, o que é uma concepção característica da teoria e prática da democracia de origem anglo-saxónica, por oposição à concepção de origem francesa e continental que vê a democracia assente em princípios como o bem comum e a vontade geral. (…) As leis, se partirmos do jusnaturalismo, não emanam no Estado, e no sistema de direito anglo-saxónico são descobertas através de um processo análogo ao do mercado, por tentativa e erro.”
De facto, Hayek considerava a democracia ilimitada como uma das piores formas de governo (a tirania da maioria); porém, a forma como defende a democracia como meio de limitar o governo e como aliado do liberalismo é igualmente questionável, principalmente na sua consistência epistemológica. Todas as democracias (liberais) representativas ocidentais são constitucionalmente limitadas e, no entanto, poucas ou nenhumas conseguem limitar o governo de forma substancial. A questão torna-se mais grave quando observamos a “teoria e prática” do mundo anglo saxónico. Para onde nos levou a tal “common law” britânica baseada na tradição em que Hayek se baseia para suportar a sua ideia? Levou-nos para um país (Reino Unido) que em muitos sentidos está infinitamente pior que Portugal. Economicamente, tal como escreveu Niall Ferguson, o RU está numa situação tão má ou pior que os PIIGS (“outpigging the piigs”), revelando que o BIS projecta uma dívida pública para 2040 de valores entre os 300 e os 500% do PIB. (dívida necessária para suportar o indomável Estado Social). Isto é tudo menos uma governação limitada pela democracia e apoiada pela tradição. A vitalidade financeira da City e o facto de estarem fora do euro compram algum tempo, mas a médio/longo prazo este é um caminho insustentável.
Em termos culturais a questão é muito pior, os últimos 60 anos foram um ataque à tradição cultural britânica, e esta está em muitos sentidos praticamente morta. A imigração em massa promovida pelos partidos políticos desde 1945 alterou a cultura britânica de forma irreparável. Em Londres, já só se encontram (segundo dados oficiais) cerca de 50% de nativos britânicos (“white british”) e, pelo resto do país, em muitas outras cidades britânicas como Birmingham ou Leicester estes passarão igualmente a ser minorias nas suas localidades. Com a natalidade e imigração do seu lado, os imigrantes de matrizes essencialmente não-europeias que os vão substituir terminarão com o que resta da cultura britânica dentro de vários anos. Por outras palavras, a ilha será apenas geograficamente europeia com um extenso povo não-europeu e balcanizado. Os próprios britânicos começam a fugir das cidades para viverem no campo ou a saírem do país de todo por já não sentirem que as cidades têm uma cultura que lhes é familiar, tal como o Morrissey (vocalista dos The Smiths) ou John Cleese (Monty Phyton) disseram e fizeram. Ademais, a tradição da liberdade de expressão começa a diminuir progressivamente, com as multas, penas de prisão e penas diversas para todos os que se queixam do processo de integração multicultural forçada. Por conseguinte, a curto prazo, a forma de manter de pé uma sociedade culturalmente partida (a célebre “Broken Britain”) é através da crescente subsidiação dos inadaptados e através do autoritarismo; que hoje em dia se manifesta na imposição de leis anti-racistas/anti-xenófobas que afectam todo o discurso humano e dão enorme poder a burocratas que fiscalizam desde crianças a pais, até jogadores de futebol. Ademais, o governo tenta actualmente proibir o uso de símbolos cristãos no emprego (como a cruz ao pescoço) para remover os restos identitários da nação. Conhecendo bem a realidade de ambos os países, neste momento arrisco dizer que Portugal usufrui de uma maior liberdade de expressão.
Sem surpresas, a independência escocesa em curso vem no seguimento deste processo de perda identitária.
Para quem (como eu) estudou ciência política/direito e teve de recitar (como gospel) a diferença entre a tradição legal britânica de “common law” (feita de baixo para cima) e a continental francesa (de cima para baixo), vale a pena constatar que na prática a diferença sob processo democrático representativo é quase nula. Ou seja, vale a pena tirar a cabeça de alguns livros de teoria política clássicos e olhar para a realidade actual, pensando o fenómeno político através de outras lentes metodológicas.
Desta forma, o que pretendo mostrar é que não é a democracia ou a “common law” de origem britânica que limitam o governo tal como Hayek postula, mas sim as pessoas que limitam os efeitos negativos da democracia e do governo através da sua proximidade ao governo, seja qual for a forma deste governo. O pequeno e descentralizado Liechtenstein é dos poucos países europeus onde o governo está limitado (apesar de ser uma monarquia quase absoluta) e na Suíça a democracia directa nunca limitaria o governo como o faz se não fosse o elevado grau de descentralização cantonal. Claramente, é sim a variável da descentralização e governo local que é relevante nesta questão e não a democracia. A democracia (liberal) de larga de escala nunca limitará absolutamente nada; tal como postula a teoria da escolha pública, ela será invariavelmente capturada pelos grupos de interesse que concentrarão os benefícios em si mesmos e dispersarão os custos sobre a extensiva população desorganizada e racionalmente ignorante sobre política.
O Reino Unido que o diga…
Março 19, 2012
Março 17, 2012
God’s Choice: Pope Benedict XVI and the Future of the Catholic Church
God’s Choice: Pope Benedict XVI and the Future of the Catholic Church, no Instituto Acton.
Transcrição de um artigo no sítio do Instituto Acton sobre o livro com o nome escrito acima indicado:

George Weigel
New York: HarperCollins, 2005 (320 páginas)O diálogo Górgias de Platão (428-347 a.C.) começa com Sócrates dizendo a Querofonte para perguntar a Górgias quem ele é. Eric Voegelin (1901-1985) chamou esse diálogo de a chave para a pergunta existencial – quem és tu. No início do século XX, a Europa se depara com a mesma pergunta e crescem as evidências de que não sabe respondê-la. A rejeição da herança católica na Constituição Européia foi um exemplo do que Marcello Pera chamou de “auto-aversão”, e a crise demográfica de uma população, cada vez mais velha e que não se renova, revela um misto de falta de esperança no futuro e de auto-obsessão. Esse não é só um problema europeu. Cada geração deve enfrentar novamente as questões fundamentais da vida e nenhuma cultura ou civilização é impenetrável ao declínio e à desintegração. Historiadores, como Oswald Spengler (1880-1936), afirmaram que o declínio era inevitável. Arnold Toynbee (1852-1883) rejeitou a tese determinista de Spengler e afirmava que uma civilização pode resistir ao declínio, mas suas esperanças repousam em indivíduos extraordinários, ou naquilo que ele chama de minorias criativas. O livro de George Weigel, God’s Choice: Pope Benedict XVI and the future of the Catholic Church [A escolha de Deus: o Papa Bento XVI e o futuro da Igreja Católica], trata de dois indivíduos extraordinários e da missão de reconstruir a cultura: João Paulo II e Bento XVI, líderes intelectuais e morais cujas vidas foram dedicadas a pregar a liberdade, a esperança e a alegria baseadas na verdade sobre o homem e sobre Deus.
O livro God’s Choice realmente é a seqüência do tour de force biográfico de João Paulo II escrito por Weigel chamado Witness to Hope [Testemunho da esperança]. Weigel começa detalhando das últimas semanas da vida de João Paulo II, a memorável vigília na janela de seus aposentos durante os momentos finais na véspera da festa da divina misericórdia, e o funeral, acompanhado por uma multidão e assistido por milhões em todo o mundo.
Weigel concentra-se no tema dos últimos anos do pontificado de João Paulo II – a realidade do sofrimento e da fragilidade humanos. O Papa via seu sofrimento como um sinal de Cristo e Imago Dei – uma verdade a que ele dedicou o intelecto e, por fim, o próprio corpo para comunicá-la ao mundo. Ao contrário dos campos de concentração do século XX, João Paulo II afirmou a dignidade de cada pessoa, independente de sua condição ou utilidade. No fim de sua vida, o frágil e trêmulo pontífice incorporou a passagem de São Paulo “Agora eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” (1Col 1,24).
Março 16, 2012
Março 13, 2012
Nassim Taleb
Nassim Taleb (Wiki EN, Wiki PT) é um Professor em Ciências da Incerteza (um dos meus tópicos preferidos) na Universidade de Massachusetts e, tal como eu, um ex-trader.
Libanês Cristão Ortodoxo, vive há muito nos EUA onde conhece os mercados financeiros como poucos.
É autor dos Livros Cisne Negro (Wiki PT) (Wiki EN) e Iludido pelo Acaso (Wiki EN) (livros técnicos) (Site)
Para quem gostar de teoria, aconselho ler a “Distribuição de Taleb” (Wiki EN).
Recentemente falou à CNBC sobre política e as opções de políticas fiscal e monetária possíveis.
Eu já o conhecia e tenho os 2 livros dele e esta entrevista fez-me revisitar os seus vídeos.
Não é perfeito nas políticas a fazer (IMHO), mas percebe a questão do Risco como ninguém!
Sobre Ron Paul, acha que tem a posição certa sobre Défices, Reserva Federal, Militarismo, Espírito Empreendedor. Aqui fica o vídeo:
Deixo-vos com uma descrição do momento actual:
“Globalization creates interlocking fragility, while reducing volatility and giving the appearance of stability. In other words it creates devastating Black Swans. We have never lived before under the threat of a global collapse. Financial Institutions have been merging into a smaller number of very large banks. Almost all banks are interrelated. So the financial ecology is swelling into gigantic, incestuous, bureaucratic banks – when one fails, they all fall. The increased concentration among banks seems to have the effect of making financial crisis less likely, but when they happen they are more global in scale and hit us very hard. We have moved from a diversified ecology of small banks, with varied lending policies, to a more homogeneous framework of firms that all resemble one another. True, we now have fewer failures, but when they occur ….I shiver at the thought.”
“The government-sponsored institution Fannie Mae, when I look at its risks, seems to be sitting on a barrel of dynamite, vulnerable to the slightest hiccup. But not to worry: their large staff of scientists deem these events “unlikely”.”
- Nassim Taleb, Black Swan (2006)

Vídeos: Nassim apoia Ron Paul, Nassim sobre a Regulação, Ben Bernanke endorsa (ao dizer que não o lê), Nassim fala ao Congresso (2ª parte), com Roubini na CNBC, sobre Incerteza e as suas consequências na Dívida, sobre Bernanke.
Artigos: sobre Ben, Tim & Nobel, sobre Soros e Buffet, sobre Ron Paul.
Março 12, 2012
Direito, Legislação e Liberdade em português (do Brasil) e disponível na internet
Livro altamente recomendável de F. Hayek, Direito, Legislação e Liberdade está disponível na internet graças ao valioso trabalho do Portal Libertarianismo.
O livro foi publicado no Brasil em 1985 pela editora Visão, do empresário Henry Maksoud Plaza, que escreveu o texto de apresentação da obra e supervisionou a tradução, financiada pelo Instituto Liberal e realizada por Anna Maria Capovilla, José Ítalo Stelle, Manoel Paulo Ferreira e Maria Luiza X. de A. Borges.
Fevereiro 25, 2012
Fevereiro 23, 2012
Fevereiro 22, 2012
The ethics of war and cosmopolitan war
Comentário do leitor H. ao post O caos e a bancarrota da Grécia não são responsabilidade de Israel (2):
A tese de que as guerras preemptivas são necessariamente injustas é que, sendo popular nos dias de hoje, nunca antes foi tida como aceitável por qualquer doutrina da guerra justa com alguma respeitabilidade. St. Agostinho – “a iniquidade da parte adversa é que impõe ao homem sábio que empreenda a guerra justa” – e St. Tomás ficariam estarrecidos com a ideia de que iniciar a guerra é moralmente reprovável; ditto para Vitória ou Suarez e mesmo Grotius.
Mesmo admitindo uma “presunção contra a guerra” como ponto de partida, iniciar uma agressão militar pode ser tão moralmente justo ou injusto como não o fazer.
Relativamente à discussão ética sobre conflitos armados, recomendo esta selecção de textos clássicos e contemporâneos, que inclui, entre muitos outros, textos de Tucídides, Platão, Aristóteles, Cícero, S. Tomás de Aquino, Maquiavel, Lutero, Vitoria, Molina, Suárez, Hobbes, Pufendorf, Kant e Anscombe: The Ethics of War: Classic and Contemporary Readings
Sobre o mesmo tema, e apesar de ainda não ter lido a versão final na sua totalidade, estou certo de que o novo livro de Cécile Fabre com publicação prevista para Maio deste ano será também uma leitura muito interessante: Cosmopolitan War.
Fevereiro 18, 2012
Direita, Esquerda e QI (2)
Algumas sugestões de leitura na sequência deste interessante post do Filipe Faria:
The Fatal Conceit: The Errors of Socialism, de F. A. Hayek.
The Counter-revolution of Science: Studies on the Abuse of Reason, de F. A. Hayek.
The Sensory Order: Inquiry into the Foundations of Theoretical Psychology, de F. A. Hayek.
Why Do Intellectuals Oppose Capitalism? Por R. Nozick.
Anti-Capitalistic Mentality, de L. von Mises.
Socialism: An Economic and Sociological Analysis, de L. von Mises.
Fevereiro 17, 2012
Se não quer arranjar problemas, nunca questione dogmas progressistas
Ir lá fora ver se chove. Por Helena Matos.
Essa averiguação do politicamente correcto aplicada a obras não contemporâneas pode levar a que se considerem racistas ou machistas livros como A Peregrinação, Os Lusíadas , o Auto da Barca do Inferno… e acabaríamos a restringir a circulação de obras como a Odisseia.
(…)
Ir lá fora ver se chove quando o assunto é aquilo que os jornais definem como polémico – ou seja quando o visado não pensa aquilo que o jornalista acha que ele devia pensar – tornou-se um modo de fazer política.
Fevereiro 5, 2012
Going Galt
Ayn Rand escreveu um livro chamado Atlas Shrugged, que recentemente foi passada a filme (trailer da Parte I, notícia da Parte II - site).
Qual é a história? Basicamente, é esta:
“Limonaid!”, Outros Vídeos. Ayn Rand Institute. Who is John Galt?
E já agora, o trailer dum documentário para perceber melhor:
Site. Ayn Rand explica pessoalmente. Gosto da ideia segundo a qual “Se é correcta a Separação entre Estado e Igreja – e é – então também é correcta a Separação entre Estado e Economia”.
A novidade hoje é que muitos Americanos estão a fazer mesmo o que Ayn Rand previu: A abandonar o seu país! Vejam o excerto do final do artigo (depois de terem dado vários casos concrectos):
And then there are those who are just disappearing altogether without a fare thee well. John Gaver, editor of Action America, wrote that there is a “vast and increasing number of wealthy US citizens who are just ‘dropping out’ — taking all of their wealth and leaving the US without renouncing. They just disappear off the US tax rolls and appear on some other country’s tax rolls.”
The number disgusted with how America treats its successful citizens continues to grow. As Bugnion of ACA notes, “It is a sad outcome, but I personally feel that we are now seeing only the tip of the iceberg.”
![]()
Portugal e Espanha – Holanda – Inglaterra – Estados Unidos.
A história repete-se: Ascensão, Enriquecimento, Perseguição, Queda.
Tem mesmo que ser assim?
Como diria Ayn Rand,
Government “help” to business is just as disastrous as government persecution… the only way a government can be of service to national prosperity is by keeping its hands off.
Janeiro 16, 2012
Uma grande perda
Para além do papel determinante que teve em vários momentos decisivos na política espanhola, Manuel Fraga Iribarne realizou também, enquanto académico, importantes contributos para o estudo da Escola de Salamanca e, em particular, do pensamento de Luis de Molina, que foi aliás o tema da sua tese de doutoramento.
Dezembro 31, 2011
Investir no mercado de arrendamento em Portugal – riscos políticos e ideológicos
De facto, a dominância em Portugal – desde o Bloco de Esquerda a amplos sectores do PSD e do CDS – das ideias subjacentes a este texto do Daniel Oliveira é a chave para compreender a impossibilidade de ter um mercado de arrendamento a funcionar em boas condições.
Enquanto não se conseguir afastá-la – e há infelizmente poucos indícios de que tal venha a ser possível a curto ou mesmo médio prazo – este tipo de ideologia intervencionista continuará a garantir a manutenção do desastre económico e social associado à falta de um mercado de arrendamento eficiente em Portugal: Aviso ao investidor. Por João Miranda.
Estão lá todos os riscos a que deve estar atento:
Preços tabelados – A qualquer momento pode ver o preço das suas rendas tabeladas, sendo forçado a disponibilizar o seu produto a preços abaixo daqueles que seriam de esperar dada a escassez de habitação para arrendar.
Impostos – As suas propriedades poderão vir a ser sujeitas a novos impostos. O maior risco está nos investimentos em prédios devolutos para recuperação a pprazo. Não se meta nisso. O risco de aumento de IMI é elevado e ninguém lhe garante que conseguirá contornar todos os obstáculos burocráticos à reconstrução antes do aumento.
Velhos e pobres – Evite arrendar casas a velhos, pobres, deficientes e jovens. Estas classes de pessoas adquirem facilmente direitos especiais que o farão perder dinheiro.
Dezembro 23, 2011
“Homossexuais no Estado Novo”
Mesmo considerando que a autora é São José Almeida e que em Portugal quase tudo é permitido à extrema-esquerda, isto é mau demais: Irei cuspir-vos no túmulo. (via Paulo Marcelo)
Convém dizer, antes de mais, que a gravidade moral desta empresa jornalístico-historiográfica é adensada por um facto singelo, mas decisivo: na sua esmagadora maioria, as fontes orais a que recorreu São José Almeida reservaram para si o absoluto anonimato. «O que está nestas páginas é […] fruto da recolha de depoimentos de pessoas que são homossexuais e que me deram o privilégio de me confiar as suas experiências, conhecimentos e reflexões, a grande maioria das vezes sob reserva de absoluto anonimato» (pág. 23, itálico acrescentado). Por outras palavras, os homossexuais que falaram com São José Almeida salvaguardaram a sua intimidade. Mas não tiveram pudor em revelar a intimidade de terceiros, já falecidos, sem que a estes, como é evidente, haja sido dada a possibilidade de contraditarem (ou confirmarem) o que sobre eles é dito. Fizeram sair do armário gente morta e indefesa, mas mantiveram-se lá dentro, acobertados, no calorzinho confortável da sua vidinha «normal». E isto, note-se, em tempos democráticos, onde a tolerância social face à homossexualidade é muito maior. Mesmo agora, em nossos dias, muitos optaram pelo anonimato. Que alguém não queira assumir em público a sua orientação sexual é perfeitamente legítimo. Mas quem assim procede não pode – ou não deve – dizer que Beltrano e Sicrano eram homossexuais.
Dezembro 7, 2011
Naomi Klein and The Shock Doctrine
Johan Norberg vs. Naomi Klein and The Shock Doctrine
Leitura complementar: In one sense, we’re all Hayekians now
Dezembro 3, 2011
“A Era de T. S. Eliot” de Russell Kirk – dia 8 em São Paulo; dia 10 no Rio de Janeiro
Um convite de Alex Catharino, via Facebook, que me parece oportuno reproduzir tendo em vista os leitores d’O Insurgente residentes no Brasil:
Convido todos os amigos para o lançamento do livro “A Era de T. S. Eliot: A Imaginação Moral do Século XX” de Russell Kirk. O livro foi traduzido por Márcia Xavier de Brito, tem uma apresentação do Prof. Dr. Benjamin G. Lockerd Jr. (catedrático de Literatura Inglesa da Grand Valley State University e ex-presidente da International Eliot Society) e uma longa apresentação minha sobre a vida e a imaginação de Russell Kirk. Tanto no evento de São Paulo, dia 8 de dezembro (quinta-feira) a partir das 19h, quanto no do Rio de Janeiro, em 10 de dezembro (sábado) a partir das 18h, haverão palestras ministradas por Annette Kirk, viúva do autor e presidente do Russell Kirk Center for Cultural Renewal, e por mim.
Novembro 14, 2011
A apropriação indébita da tradução portuguesa de A República, de Platão
Platão plagiado
Caros,
A editora Martin Claret, plagiadora notória, aprontou mais uma das suas: apropriou-se indevidamente da conceituada tradução da República de Platão, assinada por ninguém menos que Maria Helena da Rocha Pereira e publicada pela Fundação Gulbenkian. Na edição da torpe Martin Claret, a tradução é creditada a um certo Pietro Nassetti — que decerto não existe. Por favor, divulguem, indignem-se, façam alarde e barulho. É simplesmente inacreditável que não fechem a Martin Claret, figurinha carimbada nos tribunais, vira e mexe acusada de plágio e apropriação indébita. É uma vergonha.
E um escândalo editorial.
Novembro 7, 2011
No Fio da Navalha
O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.
A Vitória dos Buddenbrooks
A Alemanha que venceu a Europa não foi a das armas, mas a dos comerciantes que Thomas Mann descreveu no seu livro Os Buddenbrooks.
Se ainda não o fez, o leitor devia ler Anna Karenina de Lev Tolstoi (Relógio d’Água), e Os Buddenbrooks de Thomas Mann (D. Quixote). Os dois romances retratam bem a vida, em pleno século XIX, de duas realidades europeias distintas. A Rússia e a cidade livre de Lubeck, esta antes e após a sua integração no Império Alemão em 1871. O que encontramos nestes romances, a vida das personagens neles descritas, os seus sonhos, ambições, desejos, frustrações e sucessos, medos, angustias, derrotas e vitórias, as casas onde vivem, o modo como lidam com os seus iguais, com os criados e os camponeses, dizem muito do que foram uns e outros. Bastante do que é, hoje ainda, um país como a Rússia e outro, como a Alemanha.
Enquanto no romance de Mann os Buddenbrooks detinham um negócio de importação e exportação que procuravam passar aos seus descendentes, permitindo-lhes a continuação de uma fonte de rendimento que os sustentasse e os fizesse ser uma mais valia na cidade onde viviam, na obra de Tolstoi a realidade é outra. Neste, ou são altos funcionários do Estado, ou nobres de antiga linhagem, os que constituem a elite política e intelectual. Apenas um, Koysta Levin, representa a falta que Tolstói tanto lamentava entre as elites russas: o gosto pelo trabalho com vista a ajudar os mais desfavorecidos, fazendo o que é justo. O que faltou em Tolstoi, como aliás em Dostoiévski, foi nunca ter conseguido juntar o gosto pelo lucro e pela realização pessoal, à solidariedade. Reconhecer a necessidade de ajudar os outros como sendo o resultado inato do sucesso, fruto desse mesmo trabalho. Para Tolstoi, um benemérito tinha de ser um santo. Um místico. Um homem sem falhas. Talvez por isso, o homem bom que era Levin fosse agricultor, mas nunca um comerciante. Já os Buddenbrooks são demasiado homens para serem santos. Veja-se o exemplo de Johann Buddenbrook que apenas porque quer levar o sogro para casa, conversa com os revoltosos de 1848 e os convence a desmobilizar. Ajuda-os. Resolve o problema que afecta a cidade, não por ser um super-homem, mas como homem simples que é e que procura o bem estar da sua família.
O tempo foi aumentando esta confusão entre benemérito e santo. Só quem se supera, consegue visar o lucro ao mesmo tempo que procura o bem. Por termos caído nessa crença do homem perfeito, grandioso e inexistente, substituímos os homens normais por instituições longínquas. A crise de hoje, é também de confiança. De suspeita perante Merkel e Sarkozy que não se portam como esperamos se comportem os líderes: de modo magnânimo e capazes de resolver, de um dia para o outro, todos os problemas, quanto mais não seja pela sua simples presença. E também porque deixámos de acreditar que com esforço, pessoas normais conseguem grande feitos, fomos vivendo numa sociedade como a descrita por Tolstoi, na qual as elites nada produzem, vivendo tranquilo quem alinha com o Estado e se encosta a ele. Tal qual os endinheirados em Anna Karenina que pouco mais fazem que não seja preencher papelada e gerir comissões. Elites que discriminam os fracos pelas suas origens, ao contrário dos comerciantes de Lubeck que apenas desprezam quem não trabalha. São elites como as descritas por Tolstoi, que alinharam com os erros que nos conduziram até aqui, as que estão hoje a ser postas em causa.
A linhagem dos Buddenbrooks acaba por desaparecer, mas a sua ética, o seu espírito, que era o espírito capitalista daquelas cidades livres e mercantis, que Max Weber tão bem explicou, continuou noutras famílias. Continua hoje, por muito que nos doa admiti-lo, nas economias nórdicas e holandesa que pouco sofrem com a crise mundial que vivemos. O trabalho e o esforço compensam. O lema dos Buddenbrooks, “Nunca fazer negócios durante o dia que te tirem o sono durante a noite”, retrata como o valor dado ao trabalho, obriga à honestidade e como dessa honestidade, surge a consciência social. Como vamos ter de mudar e estar mais atentos aos Buddenbrooks.
Novembro 2, 2011
Outubro 6, 2011
Responsabilidade social da empresa, ética e governação: equívocos, tensões e desafios
Para os interessados em ética empresarial e no frequentemente equívoco tema da responsabilidade social das empresas, dou conta de um capítulo de que sou co-autor com José Manuel Moreira: “Responsabilidade social da empresa, ética e governação: equívocos, tensões e desafios”, pp. 537-563 na recém-publicada obra colectiva Responsabilidade Social – Uma Visão Ibero-Americana (Almedina / CES, 2011). No mesmo livro, recomendo também os capítulos “Uma reflexão sobre o Estado”, de José Manuel Moreira (pp. 659-666) e “Repensar a responsabilidade social: da lógica individual à lógica de rede”, de Maria João Santos (pp. 565-580).
Agosto 22, 2011
O Mar
(…)
“nós não vimos a DonaLibânia chorar com o susto e mesmo assim ter ido preparar chá com restos do bolo de banana que foi servido na varanda da AvóDezanove a todos que quiseram mas especialmente aos que ajudaram a apagar o fogo, nós não vimos porque estávamos longe, do outro lado da bomba de gasolina, do outro lado do largo, depois da areia, depois da cerca das obras, depois dos pontos cardeais que tínhamos inventado, nós estávamos lá, a tirar a roupa, a rir, a gritar pelo EspumaDoMar que não veio, a preparar os corpos para mergulhar, as bocas para sorrirem e as gargantas para gritar, como fazíamos às vezes, debaixo de água, a rir de contentes, nessas vozes molhadas de gritos nenhuns e brincadeira inventada e descoberta à toa, até um dia alguém ter dito que esses eram ‘gritos azuis’
e assim de corpos nus a sentir um pequeno vento, a olhar os papagaios que sobrevoam o nosso largo da PraiaDoBispo, eu, a Charlita e o Pi, (…) saltámos as conchas e os buracos dos caranguejos que fugiram assustados connosco em busca de sentir a água salgada nos nossos corpos ansiosos da espuma branca no mar escuro àquela hora de festas e risos, nós estávamos lá, em busca da zona um pouco mais funda onde os nossos corpos podiam dançar devagarinho com o ar nos pulmões a ser poupado para os nossos gritos, e eu lembrei dos mais-velhos, de tantos mais-velhos que eu já tinha conhecido e não sabem às vezes acreditar nos segredos simples das crianças, (…).”











