Hergé e Jane Austen, dois autores a banir

Tintin Castafiore EmeraldAs alminhas(inhas) Tiago Ivo Cruz e Ana Bravo – que argumentam o racismo e a misoginia de Hergé – foram grandes perdas para o analfabetismo. E agora – pegando nesta infalível tese sobre a ausência de mulheres nos livros de Hergé, que não é mais do que um apagão ao mulherio – decidi-me a deixar de ler a Jane Austen. Como se sabe, ou TODAS as realidades do mundo estão contidas dentro de uma obra literária ou essa obra é negacionista disto e daquilo. Quer escrever um romance passado em 2015? Pois não pense descrever só êxtases sexuais, traições, lágrimas e por aí. Ou bem que inclui a descrição detalhada do período de ajustamento acordado com a toika, os números do desemprego (preferencialmente com gráficos mostrando os dados da Pordata) e uma ou outra notícia contestatária da austeridade ou nenhuma editora o publica, porque está a apagar a crise que se vive agora. E faz favor de incluir uma ou duas violações e uma mulher morta pelo ex-marido, que ainda é acusado de negacionismo da violência sexual e doméstica sobre as mulheres.

Mas regressando a Jane Austen, afinal aquilo tudo se passa ao mesmo tempo que as guerras napoleónicas e nem vislumbre delas nos livros (há uns militares a distraírem as irmãs Bennet em Pride and Prejudice e as meninas casadoiras – outro conceito que agora devia ser proibido de aparecer na literatura de todos os tempos, que como se sabe hoje uma mulher não tem de ter a ambição de casar – em Persuasion, mas nem uma batalha, nem a descrição da estratégia de Waterloo, népias). E com tanto romance, não há vestígio de sexo nos livros – eventualmente apenas a sugestão de que Charlotte preferia manter o marido, Mr Collins, clérigo e o maior lambe-botas da literatura, à distância. É certo que os desejos andam à solta (e as adaptações para televisão facilmente os evidenciam), mas de the real thing, nada. Proscreva-se Jane Austen das bibliotecas e das livrarias. JÁ.

Francis Fukuyama no Observador

Francis Fukuyama esteve em Portugal e foi o convidado especial do “Conversas à Quinta”. Discutimos, com Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto, o seu último livro: “Ordem Política e Decadência Política”.

Leitura complementar: Observador: um ano de serviço público.

O Economista Insurgente: “Porque é que é impossível ao Estado pagar a dívida pública?”

O Economista Insurgente

«A dívida acumulada tem uma dimensão, relativamente ao que é produzido anualmente em Portugal, que torna muito difícil que o Estado consiga honrar os seus compromissos. Se todos os gastos do Estado fossem cortados, incluindo prestações sociais, salários, etc., ainda assim demoraria cerca de 4 ou 5 anos a pagar. Se o PIB crescesse a 2% ao ano e o Estado tivesse um excedente orçamental de 1% do PIB, demoraria mais de 25 anos a reduzir a dívida para o limite previsto nos tratados europeus (60% do PIB). Num contexto de crescentes despesas, onde o orçamento do Estado é cronicamente deficitário, a tarefa torna-se impossível.

A única forma de poder ultrapassar a situação seria por via de um considerável crescimento económico, em que maior produção se traduziria em maior colecta fiscal, permitindo, por sua vez, amortizar a dívida; ou pelo menos reduzi-la em percentagem do PIB. Se, por exemplo, o Estado tivesse orçamentos equilibrados, seria preciso um crescimento médio de 3,5% ao ano durante quase 25 anos para a dívida baixar para os limites dos tratados europeus. Contudo, esse crescimento não poderá ocorrer enquanto a carga fiscal for tão pesada e os juros tão elevados, ambas as situações resultantes da crise orçamental.

Temos assim um problema de “pescadinha de rabo na boca”: É preciso juros e impostos baixos para que haja mais investimento – que resulta em crescimento económico; mas baixar impostos resultaria em défices ainda maiores no curto prazo, tornando os juros mais altos.

Chegamos assim a um cenário em que a única conclusão possível é que, perante o Estado que temos, a dívida é impossível de pagar. A qualificação de “Estado que temos” é importante, pois havendo vontade política de alterar significativamente o Estado, reduzindo assim os seus gastos, podem ser libertados os meios para equilibrar as contas públicas, ou mesmo gerar excedentes, e de reduzir a carga fiscal por forma a incentivar o investimento produtivo.

Tendo em conta o que já foi referido anteriormente neste capítulo, no que toca às áreas onde a despesa do Estado é maior, é inevitável concluir que apenas mexendo nas despesas sociais do Estado (segurança social, educação e saúde) é possível equilibrar as contas públicas.»

in “O Economista Insurgente”, Esfera dos Livros, 2014

Ler+ é possível e promove a saúde e a economia

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Momento de enorme felicidade do Autor e amigos.

Devemos agradecer ao autor de Tortura em Democracia, actualmente a residir em Évora.

Várias Câmaras Municipais financiaram o livro de José Sócrates que esteve, pelo menos, um mês em primeiro lugar em todas as livrarias. O Sexta às 9 descobriu que, em Lisboa, foram emitidas faturas em nome de autarquias do norte do país que compraram este livro às dezenas, várias vezes.

Livros recomendados

Alguns leitores pediram recomendações de leitura sobre liberalismo e o pensamento libertário. Fica aqui então uma lista bastante incompleta e sem grande ordem com algumas leituras recomendadas a quem só há pouco tempo começou a ler o Insurgente:

HAZLITT, Economics in One Lesson
FRIEDMAN, Free to choose
ORWELL, Animal Farm
HAYEK, The Road to Serfdom
HAYEK, The Constitution of Liberty
WOODS, Meltdown
SOWELL, Basic Economics
LINDSEY, The age of abundance
MISES, Socialism
SCHIFF, How an Economy grows and why it crashes
SOTO, A Escola Austríaca
MOREIRA e ALVES, O que é a Escolha Pública
MONIZ, PINTO, FRANCISCO, O Economista Insurgente

Boas leituras.

O Economista Insurgente: “De onde é que vem a dívida do Estado?”

O Economista Insurgente

«De um modo geral, a dívida pública aumenta porque o Estado tem mais despesas do que receitas. Ou seja, o orçamento do Estado apresenta défice. Para um Estado reduzir a sua dívida pública tem de ter um superavit; mais receitas que despesas. Em toda a história da democracia em Portugal, nunca houve um único orçamento que não tenha sido deficitário. Por isso, a dívida tem vindo a aumentar todos os anos, de forma consistente e sem alívio.

Para agravar a situação causada pelo défice crónico, o Estado tem sido obrigado a assumir uma série de dívidas que anteriormente não eram contabilizadas na dívida pública. Exemplo disso são dívidas contraídas por empresas públicas nas suas operações correntes e que implícita ou explicitamente são garantidas pelo Estado. Ou ainda contratos celebrados pelo Estado, por exemplo nas parcerias público-privadas, que implicam despesas futuras a que não é possível escapar e que constituem a chamada dívida escondida.

A juntar a esta dívida oficial, existem várias obrigações do Estado para com os cidadãos que são uma espécie de dívida. São responsabilidades do Estado (do inglês, liabilities) assumidas no decorrer de direitos sociais criados pelos sucessivos governos, como pensões, subsídios e outras transferências, cujo valor exato é difícil de estimar por depender de imponderáveis como a esperança de vida dos reformados, invalidez resultante de acidentes ou doenças, desemprego e outras situações de emergência que possam surgir.»

in “O Economista Insurgente”, Esfera dos Livros, 2014

Porque é que os médicos não gostam de genéricos e os farmacêuticos gostam?

O Economista Insurgente

A relação próxima entre médicos e a indústria farmacêutica tem décadas. Durante anos, através dos chamados “delegados de propaganda médica”, a indústria incentivou das mais variadas formas os médicos no sentido de maximizar as suas vendas. Tempos houve em que as farmacêuticas davam prémios materiais (até automóveis!) aos médicos em função da quantidade de receitas que prescreviam os seus produtos. Era o chamado “fartar vilanagem”. Hoje em dia já não é fácil. Há mecanismos de controlo mais apertados tanto sobre os médicos como sobre os delegados. Até a designação mudou, para um mais politicamente correto título de “delegado de informação médica”.

Apesar disto, a relação é ainda muito forte e não pode ser quebrada. A indústria só consegue vender existindo prescrição, pelo que a simbiose é inevitável. Não existirão os prémios descarados de outrora, mas congressos com tudo pago nas caraíbas e outros locais aprazíveis continuam a fazer parte do cardápio. Independentemente de muitos médicos argumentarem de forma veemente que não existe o mesmo nível de controlo de qualidade na produção de genéricos face aos medicamentos originais cujo princípio ativo foi replicado, a realidade da diferença nos incentivos económicos subjacentes a medicamentos “de marca” e genéricos explica no quase totalidade as diferentes preferências de médicos e farmacêuticos. Incentivos económicos que são aplicados a quem tem o poder de decisão, leia-se. No caso dos médicos, a recomendação de um medicamento de marca específica; no dos farmacêuticos a possibilidade de escolher qual o genérico a vender, uma vez que a prescrição não indica marca.

A introdução dos genéricos alterou o balanço de poder entre médicos e farmacêuticos. A indústria passa a depender de farmacêuticos para a decisão que lhe permite vender, não de médicos. Logo aí fica explicada a diferença de preferências entre as duas classes profissionais. No entanto, uma análise económica aos incentivos mostra a magnitude do efeito dos genéricos na rentabilidade das farmácias; e explica a força que farmacêuticos fizeram e continuam a fazer, em termos de lobby, para conseguir e manter este novo poder de decisão.

No caso de medicamentos de marca, a concorrência é limitada por patentes. Existem monopólios legais, por força do estado, que permitem esta proteção aos laboratórios. Nos genéricos, a concorrência é real. Vários laboratórios podem fabricar medicamentos baseados no princípio ativo. Todos eles interagem com os farmacêuticos para vender o que é essencialmente o mesmo produto. Não há argumentos clínicos, provas científicas, congressos em Aruba. O preço é a chave. Mas como existem limites impostos pelo estado tanto aos preços como às margens das farmácias, este novo mercado exige criatividade. São as chamadas “dúzias de dezoito”, que em alguns casos chegam a ser “dúzias de vinte e quatro”.

Os laboratórios vendem uma dúzia de caixas de um determinado genérico à farmácia. Mas entregam dezoito (ou vinte e quatro). Daí a designação. Como as margens são fixadas, para as caixas faturadas nominalmente, a entrega de unidades não faturadas multiplica a margem efetiva da farmácia várias vezes. Imaginemos um medicamento X. O produto de marca, CaroX, tem um preço de 50 euros por caixa, sendo a margem da farmácia de 20%, ou seja 10 euros. Em alternativa, existe o genérico BaratoX, que custa 20 euros e deixa 4 euros de margem para a farmácia. Só que por cada caixa de BaratoX que a farmácia compra para stock, o laboratório entrega outra. Esta segunda caixa tem uma margem de 100%, ou seja 20 euros. A margem média é de 12 euros por caixa. Apesar do medicamento ser mais barato, o farmacêutico ganha mais vendendo o genérico. No limite, para casos sem comparticipação, pode mesmo tentar vender as caixas não faturadas pela “porta do cavalo”, poupando também em impostos. Embora no que toca a medicamentos a procura não seja propriamente elástica (as pessoas não vão comprar mais remédios só porque são mais baratos), a verdade é que o preço mais reduzido dos genéricos, quando não há comparticipação, pode permitir acesso ao medicamento a pessoas que de outro modo não o teriam. Nesse sentido, as farmácias só têm a ganhar com a mudança.

(in O Economista Insurgente, Esfera dos Livros, 2014)

Prazeres de fim de semana

Hogwarts

Aqui vai uma breve história do antissemitismo em Hogwarts. (Algo que, tendo sido eu dos maluquinhos que pré-encomendava com meses de antecedência os livros do Harry Potter na Amazon, não podia deixar de trazer para aqui. E aproveito para dizer aos adultos que se queixam da limpeza de sofrimento emocional das atuais histórias de crianças – filmes and so on – que se nota que nunca leram a série Harry Potter.)

‘Jews were admitted as early as 1878, when Headmaster Eupraxia Mole, after receiving a justly famous letter from the Chief Dybbuk of Poland, recommended it. Assimilated wizards of Jewish ancestry began making their mark at the school long before that—probably the best known being Disraeli’s wizard brother, Nigel (Ravenclaw, 1829)—and the Jewish influence at Hogwarts extends back even further. Maimonides was warmly received in 1191, and though Spinoza’s invitation to deliver a series of lectures, in 1652, was met with protests, organizers were careful to note that it was the philosopher’s virulent anti-wizarding stance that they objected to, not his Jewish extraction.’

O que está em curso não são meros lapsos ou incidentes…

Os “progressistas” eternos: Syriza, Podemos, Bloco de Esquerda e derivados. Por Gabriel Mithá Ribeiro.

Talvez seja tempo de os europeus ocidentais provarem do veneno que os seus intelectuais ajudaram a espalhar pelo mundo. Esperemos pela Grécia das próximas décadas para ver até que ponto desabrocharão na vida quotidiana as sementes de um ideário progressista exponenciado pelo exercício do poder, sobretudo se alimentadas pela imagem do novo herói revolucionário, mesmo que vá dando sinais de domesticação. (…) O que está em curso não são meros lapsos ou incidentes. É produto de uma loucura civilizacional pensada, programada, estudada, publicada. No seu âmago está o sistema universitário, o Cavalo de Troia do Ocidente. Em tempos de sociedades do conhecimento, é a partir dele que o resto é condicionado com muitas vantagens e sérias desvantagens.

Cerco ao Palácio de Cristal – 40 anos depois

Cerco ao Palácio de Cristal: as 12 horas mais longas da vida do CDS

“O Congresso não passará” e “morte aos fascistas” foram as palavras de ordem na noite de 25 para 26 de janeiro de 1975, junto ao Palácio de Cristal, no Porto. Lá dentro, onde já decorrera a sessão inaugural do I Congresso do CDS, estavam agora reféns mais de 700 militantes e convidados, enquanto cá fora estava montada uma batalha campal entre centenas de manifestantes e a polícia. Das 12 horas de impasse resultaram 16 feridos (sem mortes), alguns carros incendiados, a atenção dos meios de comunicação internacionais que temeram que Portugal estivesse a resvalar novamente para um regime autoritário e um susto para a vida. Aconteceu há 40 anos.

Charles Murray sobre Ayn Rand

Um excelente artigo de Charles Murray: How Ayn Rand Captured The Magic Of American Life: Ayn Rand was a philosophical hypocrite, but a magical novelist.

In 1991, the book-of-the-month club conducted a survey asking people what book had most influenced their lives. The Bible ranked number one and Ayn Rand’s “Atlas Shrugged” was number two. In 1998, the Modern Library released two lists of the top 100 books of the twentieth century. One was compiled from the votes of the Modern Library’s Board, consisting of luminaries such as Joyce Carol Oates, Maya Angelou, Edmund Morris, and Salman Rushdie. The two top-ranked books on the Board’s list were “Ulysses” and “The Great Gatsby.”

The other list was based on more than 200,000 votes cast online by anyone who wanted to vote. The top two on that list were “Atlas Shrugged” (1957) and “The Fountainhead” (1943). The two novels have had six-figure annual sales for decades, running at a combined 300,000 copies annually during the past ten years. In 2009, “Atlas Shrugged” alone sold a record 500,000 copies and Rand’s four novels combined (the lesser two are “We the Living” [1936] and “Anthem” [1938]) sold more than 1,000,000 copies.

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No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no ‘i’.

Os incorrigíveis

Uma fotografia de cientistas indianas a congratularem-se com a entrada na órbita de Marte de um satélite lançado pelo seu país recordou-nos a complexa realidade da Índia e lembrou-me V. S. Naipaul, escritor britânico de origem indiana mas nascido na ilha de Trinidad.

Naipaul emociona-nos com a descrição da luta das suas personagens contra o infortúnio, que de forma fatal sobre elas se abate; descreve a pobreza de maneira seca e crua, sem os paternalismos de quem facilmente se indigna; faz-nos ver como o sonho, apesar de simples, pode ser grandioso.

É surpreendente que o autor de “In a Free State” seja conhecido pela frieza com que trata as mulheres. São conhecidas as suas tiradas machistas e a forma como tratou a sua primeira mulher, facto que, aliás, Paul Theroux trouxe a público, pondo termo a uma longa amizade entre os dois.

Naipaul não gostou de ter sido exposto por Theroux, mas quis contar praticamente a mesma verdade na sua biografia, intitulada “The World Is What It Is”, por sinal a primeira frase do, para mim, seu melhor livro, “A Bend In The River”. Naipaul nunca escondeu a sua má vontade, como se não se importasse de não estar à altura da sua escrita.

A tal ponto é assim que, poucos dias após Theroux e Naipaul terem feito as pazes no Hay Festival of Literature & Arts, no País de Gales, este voltou à carga dizendo não conhecer nenhuma mulher com qualidade literária. Há homens incorrigíveis, cuja complexidade não lhes permite conhecer o alheio.

The Daily Beast está muito atento ao que se escreve aqui no blog

Mais achas para a discussão da existência histórica ou não de Jesus (enquanto homem, não enquanto Deus, que isso são outros quinhentos).

Antes de vos deixar com a prosa escorreita e bem humorada dos autores do texto, aproveito para dar um exemplo de uma boa dose de gente que (segundo os positivistas para quem só sucedeu aquilo que há prova – e de testemunhas idóneas e neutras, que não se admitem relatos com parcialidade) não tinha existido até ter passado a ter existido. Trata-se de gente pertencente a uma seita judaica, com vida monacal, composta por homens, mulheres e (inevitavelmente) crianças, e com algumas semelhanças (e muitas diferenças) com os rituais dos cristãos (o batismo pela água, por exemplo). Foram contemporâneos de Jesus e nada se sabia sobre eles – supõe-se que sejam os misteriosos essénios – até se descobrirem num imensamente feliz acaso em 1946 os Manuscristos do Mar Morto em Qumran.

«Michael Paulkovich, author of No Meek Messiah, has proclaimed that Jesus never existed. In his book, the author details his shocking discovery of “one-hundred-twenty-six authors from the time of Jesus who should have, but did not record anything about the Christian godman.”

Paulkovich’s case rests on three main pillars. First, the discovery that no ancient writers from the first few centuries CE mention Jesus. Second, the assumption that most writers should have mentioned Jesus, since he was the Son of God and all that. Third, the keen observation that Jesus never wrote anything himself. Although an undeniably compelling trinity of argumentation, it is not without its logical problems.

Let’s get one thing straight: There is nigh universal consensus among biblical scholars—the authentic ones, anyway—that Jesus was, in fact, a real guy. They argue over the details, of course, as scholars are wont to do, but they’re pretty much all on the same page that Jesus walked the earth (if not the Sea of Galilee) in the 1st century CE.

So that brings us to Paulkovich’s list: 126 ancient writers, 0 references to Jesus. The list has a few issues. Although everyone on it is indeed ancient, some are a little too ancient—as in, lived-a-hundred-years-before-Jesus too ancient (Asclepiades of Prusa, for example).

A great many of the writers are philosophers, some quite famous (Epictetus). Philosophers aren’t really known, now or then, for their interest in current events. Some writers are mathematicians, rhetoricians, satirists, poets, or epigrammatists (Martial). Unless we’re looking for an ancient limerick about Jesus, these are probably the wrong authors to be reading.

Fully fourteen of the 126 are doctors, including a dermatologist, an ophthalmologist, and a gynecologist (Soranus). We can first point out that Jesus was supposed to have a gift for healing, so he probably didn’t take his annual checkup seriously. Also, even if Jesus did visit a doctor or fourteen, and even if they kept records of the savior’s health, we could never have access to those records because, you know, HIPAA.

There are some authentic historians on the list, though we can probably assume that someone writing a biography of Alexander the Great (Curtius Rufus) might not find an appropriate place to slot Jesus into that story. The vast majority of the authors listed, however, have none of their writings preserved for us, or mere fragments at most. It’s hard to say that a writer didn’t mention Jesus when all we have of that writer are a few lines quoted in someone else’s work.

We do have the writings of Sextus Julius Frontinus—but what he wrote was a treatise on aqueducts. Jesus may have been the fountain of life, but it was the Romans who had the decent delivery system.»

O resto está aqui.

O acordo ortográfico e eu

O meu texto de hoje no Observador, sobre ortografia com deriva literária.

‘Aviso já: a ortografia não me desperta emoções fortes. Não entendo a forma como muitas pessoas reagem à nova grafia como se um larápio lhes tivesse invadido a casa, roubado as jóias herdadas da avó e grafitado os retratos dos solenes antepassados. Tanto mais que (provavelmente porque ainda não ocorreu aos responsáveis do ministério das finanças) é perfeitamente possível continuar a escrever com a grafia antiga sem que tal constitua infração punível com multa.

A minha adoção do acordo ortográfico foi inteiramente utilitária. Tinha um limite máximo de 2000 caracteres com espaços para textos que escrevia para um jornal, bem como uma dissertação de mestrado a meio (no início, para ser sincera, e também com limite de caracteres) e, como sou tendencialmente palavrosa e pouco sintética (repararam na redundância?) e sofro sempre a cortar textos, lembrei-me: por que não livrar-me das consoantes mudas para poupar caracteres? Desde então a reação dos leitores não se fez esperar. As idiossincrasias da minha escrita sempre foram aceites como, bem, idiossincrasias da minha escrita. Nunca ninguém resmungou do meu uso de uma ou outra expressão em inglês, da minha queda para os advérbios de modo, da mania de observações entre parêntesis. Mas com a nova grafia, oh, não houve alma das tais que sente apaixonadamente a ortografia que não se manifestasse: no facebook amigos lamentaram o meu parco discernimento; no blog questionaram as minhas capacidades cognitivas, sugeriram pertença ao BE e garantiram-me que não mais leriam qualquer coisa que escrevinhasse, nem sequer uma lista de supermercado.’

O resto está aqui.

Um par improvável (ou: regressando a coisas interessantes)

Já andei a publicitar isto noutros lados, mas seria um crime de, sei lá, genocídio literário não o partilhar também aqui. Mundo (ou, como sou obrigada a dizer quando tenho de apresentar as crianças cá em casa, ‘senhoras e senhores, meninas e meninos, bebezinhas e bebezinhos’ – e isto apesar de eu ser a única xx neste lar): apresento-vos Adam Smith ao encontro de Jane Austen. Confesso que não entendi as relações que se podem estabelecer entre A Teoria dos Sentimentos Morais e os livros da Jane. As heroínas dos seus livros (tirando Emma Wodehouse) são todas umas destituídas da vida que querem, mais que tudo, casar com um homem rico. E casam. Por amor, evidentemente, ou não fossem romances jorgianos ‘by a lady’ (que foi como inicialmente se publicaram). Também se pode dar o caso de ser mais um exemplo daquela descrição da aristocracia britânica que a Nancy Mitford faz no Noblesse Oblige, com encantadora parcialidade: os aristocratas britâncicos costumam casar com quem estão apaixonados e calha que se apaixonem por pessoas ricas. Mas, lá está, a Lizzie (do Pride and Prejudice) só começa a perceber (e a apaixonar-se) por Mr Darcy depois de ver Pemberley – i.e., de perceber quão rico Mr Darcy era. E a Fanny de Mansfield Park, quando volta a casa dos seus pouco abonados pais, depois de viver com os tios ricos, também conclui que há grandes incómodos na falta de dinheiro.

Claro que para redimir tanto amor pelo vil metal, lá temos a Lizzie que recusa as propostas de casamento de Mr Collins (o herdeiro da propriedade do seu pai) e de Mr Darcy, sabendo que este é rico mesmo que não saiba quão rico. E a Elinor de Sense and Sensibility também não se incomoda que o seu Edward Ferrars perca a sua herança para poderem ter o seu felizes para sempre. (E a própria Jane Austen recusou pelo menos uma proposta de casamento, sendo que tinha ainda menos dinheiro do que as suas heroínas.)

Mas isto não interessa nada, só quem tem a mania de ser crítico literário mas não percebe patavina do assunto pode desgostar de ler sobre Jane Austen e Adam Smith, emparceirados ou não. Em todo o caso, este texto foi motivo para arrumar as estantes. A Jane Austen estava ao lado da Nancy Mirford, do Evelyn Waugh, do Thackeray, do Dickens (e dos livros do Harry Potter) e A Riqueza das Nações e A Teoria dos Sentimentos Morais estavam perdidos no meio dos livros de Economia. Finalmente estão reunidos.

(Des)Amor com (des)amor se paga

Israel – como tudo na vida – não está acima de críticas. Nem na atual guerra com o Hamas em Gaza nem nos intervalos das erupções violentas. E tem lá dentro os intoleráveis judeus ultra-ortodoxos que são tão agradáveis para o género feminino (dou três exemplos) como as gentis almas que compõem o Hamas. Mas confesso que me espanta como há tanta gente que tem bitolas tão distintas para os dois lados. Israel não pode atacar (como faz agora e em resultado de ataques sofridos) mas também não se pode defender preventivamente (ai Jesus que construiram o muro); Israel não pode atacar mas ninguém se lembra que do tempo em que iam mandar os judeus ao mar (propósito que ainda tem o Hamas), das guerras que o lado palestiniano provocou e dos boicotes a qualquer tentativa de uma paz negociada – e tudo em prol de jogos de poder entre Hamas e OLP (e dentro de cada um), da manutenção de esquemas de corrupção que enriqueceram os líderes da OLP e para distrair os palestinianos da negligência e incompetência e corrupção dos governos de OLP e Hamas.

Já com o Hamas a complacência é total. A indignação com as mortes civis (e sobretudo de crianças) dirige-se toda para o exército israelita, mas o facto do Hamas preferir o apelo propagandístico das mortes de crianças e civis pelos israelitas, localizando-se onde faz mais mossa à população civil em caso de ataque, em vez de proteger os civis de Gaza já é de todo irrelevante e não lhe atribui nenhuma culpa na morte dos referidos civis. A pobreza em Gaza não interessa, os desrespeito pelos direitos humanos das mulheres likewise. E para o que acontece ao mesmo tempo na Síria e nos locais controlados pelo ISIS olha-se para o lado, que não é conveniente haver outros concorrentes à indignação que se quer oferecer toda a Israel.

Eu, se tiver de escolher lados, fico com Israel. Tem erros, tem exageros, tem mão militar pesada. Mas não festeja as vítimas do outro lado, não sacrifica vidas civis do seu lado à propaganda, não só não tem um total desrespeito pelas vidas do lado inimigo como não pretende provocar o maior número de vítimas – é isto o Hamas. Que, além disso, defende coisas que me são aberrantes. Aprecio tanto o Hamas como lá valorizam o que eu sou e represento: uma mulher ocidental independente.

Uma boa leitura para estes dias – e porque os dramas humanos naquela zona não começaram agora – é o Oh Jerusalem, da dupla Larry Collins e Dominique Lapierre. (Livro sobre o qual escrevi no primeiro jornal que deu guarida a textos meus – o Notícias do CUPAV – depois do assassinato de Ytzhaz Rabin, que era referido no livro nos seus tempos do Palmach, a 4 de novembro de 1995. Lembro-me perfeitamente de ter sabido desta notícia numa área de serviço da A1, já bem de noite no regresso de Coimbra, onde tinha ido à festa de 20 anos do CUMN.)

oh jerusalem

Tintinólogos do mundo, uni-vos

Vão a correr ler este texto maravilhoso do Paulo Tunhas no Observador, quase todo sobre Tintin – e Hergé (como se se pudesse escrever sobre um sem escrever também sobre o outro). Eu tenho mais ou menos a mesma relação com os livros do Tintin: when the things get tough, quando não há paciência para absolutamente mais nada, (re)lê-se os livros do Tintin, a melhor psicoterapia à disposição da humanidade.

blue lotusAcrescentava só um pequeno ponto, que é talvez o mais agridoce dos livros do Tintin: as suas incursões pela política. Destaco duas. A primeira do Lótus Azul, onde Hergé mostra a China repartida, não só pelas concessões das potências europeias nas grandes cidades (vê-se a de Shanghai) mas também pela invasão japonesa dos anos 30. Hergé foi mesmo acusado de ter escrito um livro político em vez de um livro para crianças. E nisto, como em tudo o resto (o humor, a amizade, os preconceitos,…), os livros de Tintin são de hoje. A China e o Japão continuam em zangas intermináveis à conta de minúsculas disputas territoriais de ilhotas. E não há vez que a China não use a carta ‘invasão japonesa’ e, sobretudo, a ‘violação de Nanjing’. (O Flowers of War, de Zhang Yemou dá-nos o vislumbre do que foi o evento.) Pelo seu lado, o Japão menoriza as atrocidades dos soldados japoneses pela Ásia oriental nos anos 30 e 40, o que enfurece a China e a Coreia. Como de costume, o presente só se entende através do passado – e as visões do passado só se entendem através do presente. E nestes casos de eventos históricos violentos, tal como nos traumas individuais e como diz Dori Laub (que eu estou a notar uma ausência de referências a autores relevantes há bastante tempo aqui no blog, o que me faz temer pelas nossas reputações), os traumas são eventos sem fim.

A segunda é ainda mais desiludida e assassina e calhou ser como termina a série do Tintin. Está no último quadradinho dos Pícaros, com o avião de Tintin e companhia a voar de regresso. Hergé repete a visão da capital de San Theodoros com o avião de Tintin e companhia sobrevoando a cidade antes de aterrar. Nos dois quadradinhos se vêem as lixeiras e as famílias que nelas vivem. Apenas mudaram – depois da transição política em que Tintin participou – os uniformes dos guardas armados que patrulham as lixeiras e os cartazes com o nome do ditador.

picaros

A Escola de Salamanca

The School of Salamanca

Um breve mas recomendável video de introdução à Escola de Salamanca.

No final são mostrados os livros Faith and Liberty: The Economic Thought of the Late Scholastics, de Alejandro Antonio Chafuen e The Salamanca School, de que sou autor juntamente com José Manuel Moreira.

Leituras de férias, com incursão ao imbróglio russo-ucraniano

Lido hoje no Almost English da Charlotte Mendelson (que faz parte das melhores descobertas literárias dos últimos 12 meses), às páginas 130 a 133, e que mostra bem como em certas zonas da Europa central e oriental as nações estão bem definidas há séculos, não há cá ambiguidades nem sobreposições nem cinzentos. Diz Marina (uma das personagens), descrevendo a origem dos avós paternos:

«’They were born […] in the Austro-Hungarian Empire’ […] I can´t remember the actual place name. It kept changing around, I think, the barriers. Boundaries. They did their sums and reading in Russian and spoke Hungarian to their parents but the town was Czech […] And they speak Hungarian now, amongst themselves, but they say trey’re fron Cz– the Czech republic. They call it Czecho. How can that be? […] But now their town is in Russia. The Ukraine. No, Ruthen– Ruritania. Somewhere like that’»

(Eram da Transilvânia, afinal, que é sempre um bom local de onde ter antepassados.)