Verdade ou mentira?

Como é que Afonso Camões se queixa de violação do segredo de justiça e de ser difamado com mentiras? Ou é mentira – e não há violação do segredo de justiça – ou, se há violação, então é verdade.

Charlie e nós

Charlie e eu. Por P. Gonçalo Portocarrero de Almada.

Se amanhã alguém metralhar uma sinagoga judia, eu serei, com eles e por eles, judeu. Se uma milícia massacrar os alunos de uma escola palestiniana, norte-americana ou paquistanesa, eu serei um desses estudantes. Se algum fanático matar, em nome de qualquer ideologia ou religião, uma prostituta, um toxicodependente, um sem-abrigo, um travesti, um pagão ou um fiel de outra religião, eu serei tudo isso, sem deixar de ser cristão. (…) Não faço minhas as declarações dos católicos que, por se considerarem justos, dão graças a Deus por … não serem Charlie. Eu também não o sou, mas estaria disposto a sê-lo, para defender a liberdade das vítimas, sejam ou não mártires. Não apesar de ser cristão mas, precisamente, porque o sou.

“socialismo é liberdade e abundância”

Tal como na Venezuela, na Coreia do Norte também não prestam a devida atenção a investigadores como Raquel Varela e por isso ainda não descobriram que “socialismo é liberdade e abundância”: Falta de comida e dinheiro estão a levar norte-coreanos a atravessarem fronteira com a China

Pode ser encarado como reflexo de desespero. A China enfrenta uma onda de assaltos violentos, que resultaram em algumas mortes, e os autores são, alegadamente, soldados norte-coreanos que estão a atravessar a fronteira em busca de comida e dinheiro. O fenómeno está a levar muitos chineses a abandonarem as localidades onde vivem.

Leitura complementar: Raquel Varela, o Povo e os porcos.

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Terrorismo e multiculturalismo

De joelhos… Por José Manuel Moreira.

Comprende-se a mediatização de proclamações como a do Presidente Hollande: “Os que cometeram estes actos terroristas, estes fanáticos, não têm nada a ver com o Islão.” Só que o mundo real é pouco dado a tais subtilezas, correndo-se o risco de entrar por caminhos em que as Cruzadas vão parecer uma brincadeira de crianças. Como se a melhor ajuda aos muçulmanos que chegam à Europa não fosse vincar a relevância da tradição europeia para a sua integração e protecção por leis e instituições próprias de uma sociedade aberta. Em vez de se fomentar um multiculturalismo que a tribaliza: dando azo à destruição da civilização ocidental tal como a conhecemos, com base numa falsa equivalência moral das visões em confronto.

Boaventura Sousa Santos e o terrorismo

Os dias difíceis do professor Boaventura. Por José Manuel Fernandes.

A surpresa do texto de Boaventura não é o seu conteúdo – é a sua timidez. É por isso que é “difícil”. Circulando pelas redes sociais e por alguns blogues radicais tropeçamos em cada esquina com “explicações” e “interpretações” semelhantes que só não tiveram mais projecção desta vez porque o Charlie Hebdo era uma publicação de esquerda, as vítimas eram jornalistas e a liberdade de expressão um valor profundamente entranhado na nossa cultura. Se o único atentado de Paris tivesse tido o do supermercado kocher e as únicas vítimas alguns clientes judeus, Ana Gomes não teria ficado isolada, antes teria comandado a carga dos que estão sempre pontos a culpar as vítimas e a desculpabilizar os bárbaros. O que o nosso pregador agora fez foi apenas tentar recuperar o terreno perdido para tratar de dizer, como sempre diz, que os bárbaros somos nós. Vale por isso a pena perder algum tempo com essa ideia de que a culpa é sempre nossa – nossa hoje, nossa no tempo da colonização e da descolonização (sobretudo se for a descolonização da Argélia), nossa desde o tempo da tomada de Ceuta, ou das Cruzadas, ou de D. Afonso Henriques, ou até de Júlio César.

Os hipócritas

Esta quarta-feira o humorista francês Dieudonné M’bala M’bala foi detido sob a acusação de “defesa do terrorismo”, revelou à AFP uma fonte judiciária próxima do caso. Na segunda-feira, tinha sido movido um processo contra o polémico humorista por se ter declarado “Charlie Coulibaly”, associando os nomes do jornal atacado e do autor do atentado à mercearia judaica em Paris.

[…]

Sobre o caso, o primeiro-ministro, Manuel Valls, disse que “é preciso não confundir a liberdade de opinião e o anti-semitismo, o racismo e o negacionismo”.

Não demorou muito tempo.

Foram precisos mesmo poucos dias para confirmar (houvesse ainda necessidade de tal) a verdadeira natureza e o curso de acção do bando de hipócritas que percorreu em grupo uns quantos metros em ambiente controlado no passado Domingo em Paris. Os novo-descobertos “campeões da liberdade de expressão do ocidente” são afinal os que se têm ocupado a criminalizar, a reprimir e a censurar as “apologias”, os “incitamentos”, os “ódios”, as “ofensas” e os “negacionismos” que são, no fundo, a génese do próprio conceito de liberdade de expressão.

Se está do lado dos terroristas a suposta vontade e objectivo de acabar com essa liberdade e com os valores ocidentais que nos distinguem da “barbárie”, está do lado destes indivíduos o palmarés das acções e dos passos firmes dados para atingir esse desiderato. Porque são eles e as suas acções, e não acções dos terroristas, as batalhas vencidas da vitória retumbante do terror. E contam-se entre eles, e não nos terroristas, as principais ameaças efectivas à liberdade de expressão.

Ser ou não ser Charlie

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O Rui Carmo já aqui destacou este texto de António Costa, director do Diário Económico, na sua página do Facebook, mas não resisto a reproduzi-lo novamente, por espelhar exactamente – e com maior eloquência do que eu conseguiria – a minha própria posição neste assunto:

Vai uma grande confusão por algumas cabeças mediáticas, ou um grande cinismo e hipocrisia, o que é ainda pior. Ser Charlie não é concordar com os cartoons do Charlie Hebdo, é discordar, é detestar, é estar do outro lado, e mesmo assim defender a sua existência. E pôr de lado as nossas opções políticas e sociais para estar ao lado de quem foi alvo de um crime. Confundir este princípio absolutamente estruturante da liberdade de expressão com a ideia de que ser Charlie obriga a estar contra a austeridade, ou contra a Alemanha, ou concordar com todos os disparates que se dizem, ou ter a obrigação de dar espaço, por exemplo editorial, a todos os disparates, a todos os humoristas, cartoonistas e afins é outra coisa. É ser anti-Charlie. Não há donos da moralidade, embora pareça que esses querem impor essa moralidade aos outros, e não autorizar que todos sejamos Charlie. Diz muito do que pensam.

Leitura complementar: ‘I AM NOT CHARLIE’: Leaked Newsroom E-mails Reveal Al Jazeera Fury over Global Support for Charlie Hebdo.

Nova oportunidade para os críticos de cartoons VII

Gaddafi

A paródia do regime sírio tem pernas para andar. De acordo com a agência de notícias síria, o país condena o ataque terrorista ao jornal Charlie Hebdo. Deixando de lado as alucinações e de regresso à realidade, não deixa de ser assinalável o progresso humanista do regime de Assad no que toca ao cartoonista que ousou caricaturar (não o profeta mas) o querido líder. Alguns dos trabalhos de Ali Ferzat podem ser vistos aqui.

Lassana Bathily

Muslim shop worker Lassana Bathily tells how he hid shoppers in basement fridge unit

Muslim shop worker Lassana Bathily tells how he hid shoppers in basement fridge unit

Lassana Bathily, a 24-year-old Muslim from Mali, tells he hid customers into the cold store at the Hyper Cacher supermarket in Porte de Vincennes, where Ahmedi Couibaly had taken a number of people hostage

Terrorismo e relativismo

O problema não são os outros. Somos nós. Por Helena Matos.

As perguntas lançadas no Fórum da TSF são semelhantes a tantas outras formuladas nos últimos dias. São perguntas, frases e comentários que partem sempre do mesmo princípio: o problema da violência dos outros somos nós. Porque nós vemo-nos como responsáveis por tudo o que aconteceu e acontece no mundo: para tudo aquilo que os outros fazem há sempre um gesto ou uma decisão que nós ou os nossos antepassados tomámos agora ou há quinhentos anos e que explicam, justificam e de certa forma têm desculpado aos nossos olhos o terrorismo e os terroristas.

Nós, europeus, temos um problema sério. Não com os terroristas que por mais chocante que seja escrevê-lo nestes dias não é a nós, ocidentais, que causam maior dor: enquanto na Europa se repetia “Todos somos Charlie”, na Nigéria o Boko Haram matava 2000 pessoas, na sua maioria mulheres, crianças e velhos sem que alguém se indignasse ou sequer admirasse.

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Uma estranha forma de “justiça”

Tem de indemnizar ladrão que ficou incapacitado de roubar

Quando tentava roubar a sucata, juntamente com seis cúmplices, o então toxicodependente Manuel Mendes acabou por cair nas armadilhas, ficando com uma incapacidade de 35%. Vai agora, receber uma indemnização por parte do homem que tentou roubar.

Nova oportunidade para os críticos de cartoons VI

MorgenPost

German paper hit by Hebdo arson attack.

A German tabloid that reprinted cartoons from the French satirical paper Charlie Hebdo lampooning the Prophet Mohammed was targeted in a firebombing on Sunday, police said.

Adenda: O jornal belga Le Soir foi evacuado após uma ameça de bomba. As autoridades marroquinas proibiram a distribuição dos jornais e revistas estrangeiros que tiveram a ousadia de publicarem os cartoons do jornal satírico Charlie Hebdo.

Terrorismo e liberdade

Da blasfémia ao terrorismo: um caminho sem retorno? Por P. Gonçalo Portocarrero de Almada.

O primeiro destes ataques terroristas foi um acto de retaliação a supostas blasfémias publicadas nas páginas do Charlie Hebdo. Por este motivo, há quem pretenda, senão justificar os doze nefandos assassinatos, pelo menos atenuar a responsabilidade dos criminosos que, neste sentido, teriam agido ao abrigo de uma legítima defesa dos seus interesses religiosos e culturais. Nada mais falso do que esta suposição que, de algum modo, condescende com o terrorismo. Uma sociedade que, de alguma forma, compreende qualquer crime contra a liberdade e os direitos humanos é uma sociedade refém do medo.

Mas, não é verdade que, nas páginas desse semanário, foram publicados textos e ‘cartoons’ pouco abonatórios para os seguidores de Maomé? Aliás, as suas peças eram também muito críticas de outras religiões, nomeadamente a cristã, cujos fiéis, pela mesma razão, poder-se-iam sentir igualmente ofendidos na sua fé. Sim, é certo, mas mais vale a liberdade de pensamento e de expressão, do que a censura ou a repressão. Não se combate o abuso da liberdade com a sua supressão.

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Menina de 10 anos usada como bomba-suicida na Nigéria

Nigéria: Menina de 10 anos usada como bomba-suicida

Pelo menos 20 pessoas morreram e 18 ficaram feridas quando uma bomba que uma menina de cerca de 10 anos carregava no corpo explodiu num mercado na Nigéria, durante o controlo das entradas no local. (…) Não houve ainda a reivindicação do atentado, mas os militantes do grupo terrorista Boko Haram têm usado frequentemente mulheres e meninas como bombas humanas na sua luta pela instauração de um Estado islâmico na maior economia africana, que já dura há seis anos. “A rapariga tinha mais ou menos dez anos e duvido muito que ela soubesse o que trazia amarrado ao corpo”, considerou à AFP o vigilante civil Ashiru Mustapha, que explicou que o engenho detonou quando os vigilantes procediam ao controlo das entradas no mercado.

Sair do Médio-Oriente

Uma visão liberal das relações internacionais, por Guilherme Marques da Fonseca do Instituto Mises:

(…) Mas agora que a coisa está preta no Médio-Oriente qual é a solução? Não tomar medidas precipitada que ponham a segurança internacional (ainda mais) em jogo. Seria catastrófico pensar que a retirada total e fulminante levaria à paz.A ponderação é a chave de qualquer problema, e nas relações internacionais não se pensa que todas as nações e os seus governantes são libertários: há o curto e o médio/longo-prazo.

A curto-prazo é preciso, mais do que envolver os “actores” regionais, passar-lhes o testemunho gradualmente, com apoios regrados e racionais. Alguém acredita que as monarquias sauditas e os aiatolas iranianos queiram os malucos do Estado Islâmico nas suas fronteiras? São os primeiros beneficiados na resolução do problema.

E no médio e longo-prazo? Aí entra a solução libertária. Uma política de livre-comércio, paz e amizade honesta pode dar condições para essas sociedades florescerem, criarem uma classe-média forte e se tornarem fortes parceiros na comunidade internacional. Este é um desígnio que, depois de décadas de intervencionismo falhado, já deveria ser consensual.

A guerra e o intervencionismo falharam. Vamos dar uma oportunidade à paz (mas sem descuidos pelo caminho).

Das religiões que são superiores aquilo da liberdade

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Por “insultar o Islão” e “criar um forum liberal na internet”,  um tribunal saudita condenou em Agosto o blogger Raif Badawi, que já se encontrava preso, a uma pena de 10 anos de prisão e a ser chicoteado mil vezes. Para complementar a  pena, Raif Badawi pagará uma multa que ultrapassa os 190 mil euros. A sentença foi produzida após Raif Badawi, ter contestado a primeira condenação, de sete anos de prisão e a servir de poiso ao chicote por 600 vezes. Apelar da sentença nem sempre se revela ser  uma boa solução.
A iberdade de expressão é um conceito mais largo que o Oceano Pacífico e Badawi, está a pagar a ousadia a coragem e a afronta

Counterterrorism Experts On Charlie Hebdo

Counterterrorism Experts On Charlie Hebdo: Paris Is Waking Up To The Terrorist Threat. Por Alejandro Chafuen.

Understanding a culture and its conflicts is usually an academic task for anthropologists. But it is also relevant for efforts to protect life and property from attack. The purpose of government, according to great Frenchman Frederic Bastiat (1801-1850), is “to secure to everyone his own, and to cause justice and security to reign.” Life and property are necessary for liberty; protecting them, as we saw in this week, is not easy.

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Nova oportunidade para os críticos de cartoons V

Imagem de Pat McGrath / Ottawa Citizen

Imagem de Pat McGrath / Ottawa Citizen

Imtiaz Ahmed, o imã da mesquita de Ottawa precisa de ouvir o que o imã de Lisboa tem para dizer e deixar-se de purezas legais.. Até porque a criminalização e punição por blasfémia no Corão não existe. Ou melhor, esta legislação divina foi produzida centenas de anos depois da morte de Maomé, em tempos de guerra e durante a época Medieval. Passa a aplicar-se quando dá jeito. Agora é o momento para os extremistas.

Em relação à onda de terror que acontece em França é para mim seguro, de uma forma bastante clara, que assassinar (mesmo por delito de opinião) não é permitido e juntar-lhe a questão do gosto é, no minímo, de mau gosto.  Deus nos livre  que o insulto à religião passe a ser considerado como uma ameaça global à paz e à segurança como pretendem boa parte dos estados muçulmanos desde 1999.

A eficácia do terror

Morrer de pé em Paris. Por Rui Ramos.

Charb, Cabu, Tignous, Wolinski e os seus colegas da Charlie Hebdo nunca aceitaram limites. Eram “anarcas” de antes do politicamente correcto, que nem ao bom gosto faziam concessões. Podiam-se ter ficado pelos presidentes franceses, pela extrema-direita local ou pelo papa – alvos relativamente pachorrentos. Mas não. Tiveram de gozar o Islão e os seus jihadistas, porque, como explicou Charb, para ele, Deus não existia e Maomé não era, obviamente, o seu profeta. Acabaram, por isso, a desenhar sob protecção policial – uma suprema ironia: Maio de 68 defendido pelos gendarmes. No fim, nada lhes valeu.

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A intolerância dos tolerantes*

je_suis_charlieVale a pena reflectir um pouco sobre como estariam a ser as reacções de alguns à esquerda se, em vez de jornalistas do Charlie Hebdo, as vítimas do abjecto atentado terrorista tivessem sido militantes ou dirigentes da Front National: Objet d’une polémique sur sa présence à la marche parisienne, le FN n’ira pas

Plusieurs élus de gauche refusent la présence du FN, qui n’a pas encore été officiellement convié. Marine Le Pen annonce qu’elle ne se déplacera pas. A l’UMP, plusieurs voix dénoncent l’exclusion du FN.

(*o título do post foi roubado ao Pedro Pestana Bastos)

Je suis Charlie

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Contra a bárbarie e contra todos quantos tentam oportunisticamente justificar o injustificável: Hoje somos todos Charlie Hebdo. Por José Manuel Fernandes.

A tragédia não é só do Charlie Hebdo, nem só dos parisienses ou dos franceses. É do jornalismo mundial. É de todos os homens livres. Tenhamos pois coragem, não cedamos à intimidação e ao medo.

Nova oportunidade para os críticos de cartoons IV

Charlie Hebdo

Pelo menos 12 mortos num ataque terrorista ao jornal satírico francês Charlie Hebdo. As ameaças foram agora concretizadas.

A imagem faz parte do último tweet do jornal antes do ataque. É talvez a oportunidade para os afamados críticos dos cartoons se exprimirem em liberdade.

A narrativa da defesa de Sócrates

Sócrates, em resposta escrita à TVI, avança a base da sua defesa (meus destaques):

Pergunta 1: Foi confrontado com provas, quando foi interrogado pelo juiz Carlos Alexandre?

Essa é a questão essencial. Não, não fui – nem confrontado com factos quanto mais com provas. E isto é válido para todos os crimes que me imputam, que considero gravíssimos para quem exerceu funções públicas.

Tomemos, por exemplo, e por economia de resposta, o crime de corrupção que é, para mim, o mais detestável, o mais ignominioso que pode ser imputado a um ex-governante. Pois bem, apesar da minha insistência, nunca, em nenhum momento, nem a acusação nem o juiz foram capazes de me dizer quando e como é que fui corrompido, onde ou sequer em que país do Mundo essa corrupção aconteceu, nem por quem, a troco de quê, qual a vantagem que obtive ou qual a que concedi, lícita ou ilícita. Nada, rigorosamente nada!

Esta é a verdade. Por estranho que pareça – e deve parecer estranho porque não conheço nenhum caso semelhante – a corrupção em nome da qual me sujeitaram à infâmia desta prisão preventiva é uma pura invenção, uma “hipótese de trabalho” teórica da investigação, um crime presumido, sem qualquer concretização ou referência no tempo ou no espaço e do qual não há, nem podem existir, indícios ou provas. E por uma razão simples: porque não aconteceu. O que afirmo, portanto, é que fui detido e preso (preventivamente) sem me terem sido referidos nem factos, nem provas de que tenha cometido quaisquer crimes, a começar pelo crime de corrupção que estaria na origem de tudo. A partir daí, este processo é todo ele uma caixinha de presunções, em que as presunções assentam umas nas outras numa construção elaborada mas absolutamente delirante. Começando por presumir, sem qualquer sustentação digna desse nome, que o dinheiro do Engº Carlos Santos Silva é afinal meu, deu-lhes para presumir, embora sem qualquer prova ou indício, que obtive esse dinheiro através de corrupção, sabe-se lá quando nem onde. E é com base nesta teoria, toda ela inventada, que presumem também os outros crimes porque, a partir daí, todas as movimentações financeiras daquele dinheiro são entendidas como operações minhas que configuram branqueamento de capitais e fraude fiscal. É uma imaginativa cascata de presunções. Mas não passa disso.

 

Esta “narrativa” da defesa de Sócrates já tinha sido confirmada por anterior violação do segredo de justiça que, por curiosidade, não foi incluída no rol acusatório da carta do ex-primeiro-ministro:

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Leituras complementares:
Corrupção e branqueamento de capitaisO martírio do preso número 44

Outlook 2015, no Diário Económico

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Fui um dos convidados a contribuir para a edição especial de hoje do Diário Económico, dedicada a 2015. Como o título deixa antever, não estou particularmente optimista: Tempestade perfeita.

“Aos amigos tudo! Aos inimigos, a lei.”

Um excelente artigo do João Pereira Coutinho sobre as concepções de Estado de Direito e igualdade perante a lei reveladas por alguns socialistas: Cabeças de vento.

A lei é para ser aplicada aos outros, não aos nossos. (…) Arnaut tem inteira razão. Como dizia um socialista célebre, a lei é para ser aplicada aos outros, não aos nossos. No caso de Arnaut, a cadeia de Évora devia suspender a lei e promover um sarau literário, tipo Natal dos Hospitais, destinado a comemorar o ‘pai’ dos respectivos. Portugal é uma democracia, sim, mas convém não abusar na dose.

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(Imagens via João Miranda: Mais um atentado aos direitos de cidadania)