O Insurgente

Maio 19, 2012

Michael Seufert: uma excepção à regra

Filed under: Insurgentes nos media,Insurgentologia,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 12:52

Felizmente, nem todos alinham pelo padrão de mediocridade geral na Assembleia da República: O que fazem os cinco deputados mais novos do Parlamento

Já Michael Seufert, deputado do CDS e líder da Juventude Popular, é solteiro e estuda Engenharia Electrotécnica e de Computadores. O centrista faz parte da comissão parlamentar de educação, ciência e cultura e traz na agenda preocupações com o pagamento das ex-SCUT para turistas ou a derrapagem com as parcerias público-privadas.

“É fundamental para os jovens encontrarem emprego, terem onde habitar e terem espaço para o seu projecto de vida. Julgaria importante um contrato de emprego mais flexível para os jovens”, diz o deputado do CDS. Michael Seufert defende também a liberalização das rendas e sublinha que o mais importante é que “o Estado deixe de se endividar à custa das gerações futuras que, por causa do endividamento passado, o vêem cada vez mais negro”.

Creio no entanto que a notícia está errada no que diz respeito à actual liderança da JP.

Maio 14, 2012

No Fio da Navalha

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

Sem Alemanha não há Europa

A alternativa à austeridade é a redução do peso do Estado ou um empobrecimento suave conseguido com a inflação. Estará Hollande disposto a tanto?

A vitória de François Hollande no último fim-de-semana está a ser analisada como um chumbo da França à política de austeridade de Angela Merkel. De acordo com os socialistas franceses e seus congéneres portugueses, a austeridade não chega e deve ser substituída por uma política de incentivo ao crescimento económico. Infelizmente, tal só se consegue de duas formas: ou reduzimos a despesa do Estado e descemos os impostos ao mesmo tempo que pagamos a dívida, ou carregamos no investimento público e o Estado volta a contratar pessoas e a pagar ordenados por inteiro. Ora se Hollande prefere a segunda solução como é que vai investir na economia se os estados estão endividados e o dinheiro lhes é emprestado a taxas de juros incomportáveis? Só há uma maneira: através da inflação e desvalorizando a moeda, pondo o BCE a emprestar dinheiro directamente aos estados, a um preço muito inferior ao praticado no mercado livre. No fundo, é levar à prática o que Paul Krugman anda a dizer há anos. Com esta solução, não só a dívida se reduz, porque vale menos, como os produtos ficam mais baratos e a inflação, num nível inicial, nos obriga a consumir. Com mais moeda a circular, achamos que temos mais dinheiro, que estamos melhor, apesar de mais pobres. É a receita do empobrecimento indolor que foi aplicada em Portugal, com o Bloco Central, em 1983. A receita que permitirá ao Estado continuar a gastar sem que os governos tenham de encetar as conhecidas reformas estruturais na lei laboral, na política fiscal e na redução do peso do Estado na economia. As medidas impopulares que tanto medo metem a quem está na política, mas que são as únicas capazes de levar ao crescimento da economia sem que se aplique, em cima de nós, um imposto disfarçado de correcção monetária e de inflação. Se o BCE emprestar dinheiro aos estados, o cidadão comum continua a não escapar à austeridade. Perde na mesma o seu dinheiro, com a diferença de que não sente. E porque não sente, os governos estão certos de que o convencem do quer que seja.

Não é difícil perceber por que motivo a solução de Hollande não agrada à Alemanha, que não precisa de desvalorizar a sua moeda para vender mais. Aquando da criação do euro, o governo e os sindicatos alemães acordaram, ao contrário do que sucedeu nos países do Sul da Europa, não subir os salários para níveis superiores ao da inflação. O custo do trabalho manteve-se baixo e a produção alta. Por isso os alemães não querem agora pagar a nossa dívida, que resulta de salários muito acima do valor que produzimos. Para piorar as coisas, a divisão entre a Alemanha e os países do Sul não se reduz a uma diferente perspectiva do problema. O grande dilema é o quanto a economia alemã se afastou da europeia. Conforme a BBC noticiou o mês passado, as exportações germânicas cresceram 3,4% em Janeiro e 1,6% em Fevereiro deste ano. Só em 2011, as vendas de produtos alemães ao estrangeiro aumentaram 13,2%, naquele que foi o melhor ano de sempre da indústria germânica, que vende cada vez mais para fora do mercado europeu. Números que contrariam quem diz que a Alemanha precisa da Europa para vender os seus produtos e que a austeridade serve apenas para manter o domínio alemão sobre o Velho Continente.

A maneira como Hollande vai lidar com este afastamento alemão é a grande incógnita dos próximos meses. Se o novo presidente francês quiser a dita solução do empobrecimento sem dor, esta será de uma injustiça comparável à da imposição à Alemanha da Paz de Versalhes, em 1919. Sucede que, ao contrário de então, os alemães não têm agora razões para ficar mais pobres. Da mesma forma que o projecto europeu surgiu para integrar a Alemanha na Europa, a penalização deste país pode ditar o fim da mesma Europa. Aquilo com que os políticos europeus se vão confrontar é saber se é possível salvar o Estado social europeu à custa da Alemanha, quando os dois estão intimamente ligados.

Maio 7, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:32

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

No país dos sovietes

A promoção do Pingo Doce no dia do Trabalhador foi uma dura resposta aos que exigiram um boicote àquela cadeia de supermercados.

Se não foi de propósito, merecia que tivesse sido. Merecíamos todos. Uns, porque se sentiram aliviados ao saber que ainda existe quem afronte o poder do Estado. Outros, porque levaram com a resposta que há tantos anos andavam a pedir. A promoção que o Pingo Doce ofereceu aos seus clientes no passado 1º de Maio não se trata apenas de uma desforra face aos apelos ao boicote àquela cadeia de supermercados, vindos dos que invocaram, em nome do país, interesses corporativos e particulares. É um pequeno ajuste de contas por tudo o que tem sido feito em detrimento do país, das nossas vidas, dos nossos negócios e da nossa esperança.

Durante anos, o país deixou-se levar por discursos de frases feitas e sentido nenhum que nos diziam ser importante regulamentar a lei laboral, impedir o despedimento, garantir o emprego na função pública, taxar o trabalho e o lucro, aumentar os encargos sobre os que criavam empresas e negócios e eram ambiciosos. Ganhar dinheiro só era positivo porque parte dele era encaminhado para os cofres do Estado. Trabalhámos não para nós, mas para todos nós. Para que o Estado tivesse dinheiro e os iluminados pela luz do poder o pudessem gastar a seu bel-prazer.

Esta catástrofe, que já dura há tantas décadas, ainda não terminou, mas recebeu no dia 1 de Maio um primeiro sinal de que o seu fim pode não estar longe. Há uma letargia que nos consome, que não permite à economia crescer, que nos fez aceitar como bons os milhões de euros gastos em investimentos públicos e que tem destruído os postos de trabalho. Aliás, o desemprego só não atingiu mais cedo as proporções de hoje porque a emigração não é de agora. Começou há cerca de dez anos, quando os primeiros sentiram os sinais de uma economia estagnada, sem futuro. Que algo não estava certo e que o desastre aguardava uma primeira oportunidade para se fazer sentir. Enquanto tal não sucedeu, a apatia que a lengalenga socialista provocou permitiu que a grande maioria se endividasse na compra de uma casa para viver, sem que ninguém tivesse a coragem de liberalizar a lei do arrendamento e facilitar a vida das pessoas. Que a justiça deixasse de funcionar a tempo e horas, e ninguém tenha sido capaz, ou saiba sequer, como resolver o problema. Permitiu-nos chegar a um ponto em que o Estado já nem as suas funções essenciais cumpre de forma digna. Andámos a cavar um buraco procurando uma saída do outro lado. As pás, essas, foram-nos dadas, entre sorrisos e promessas, pelos verdadeiros coveiros do Estado social.

O que sucedeu com a promoção do Pingo Doce é um exemplo do que deve ser feito para sairmos do buraco onde nos encontramos. É preciso confrontar a irracionalidade daqueles que, cheios de ideais, destroem as nossas vidas. Expô-los publicamente ao ridículo. Fazer com que se veja o que defendem e aquilo que pretendem. Pô-los a exigir que o Estado, reduzido que está a servi-los, impeça quem queira ou precise de ter acesso a produtos mais baratos. Fazê–los proclamar não ser justo baixar os preços, mesmo que isso seja do proveito da maioria das pessoas e, mais importante que qualquer outro argumento, apenas a elas diga respeito.

A ânsia que alguns poderes instalados no Estado têm de entrar nas nossas vidas e decidir, em nosso nome, o que é melhor para nós é um vício que atingiu os limites da falta de decoro. Veja-se o Partido Socialista, que exigiu à ASAE que investigue se houve concorrência desleal na promoção do Pingo Doce, não vá o país ter perdido com um benefício pontual concedido aos consumidores. Que a ASAE, um organismo público controlado não sabemos por quem, com ligações não sabemos a que poderes, uma entidade de quem, ao contrário do que sucede com qualquer supermercado, não podemos fugir, possa investigar o que quer que seja é, isso sim, um verdadeiro exemplo do que em Portugal, e fazendo minhas as palavras do líder da CGTP, precisa de ser posto no lugar.

Maio 5, 2012

O debate com Vítor Gaspar na Universidade Católica

O debate com o ministro Vítor Gaspar na Universidade Católica, organizado pelo Instituto de Estudos Políticos e pela Renascença, com moderação de Graça Franco e José Manuel Fernandes e no qual eu e o João Pereira Coutinho participamos como comentadores pode ser ouvido aqui.

Pela minha parte, dei o tempo por bem empregue e fiquei positivamente impressionado com Vítor Gaspar, ainda que mantenha as divergências em relação ao que me parecem ser os crescentes sinais de esgotamento do sector privado para suportar a carga fiscal e regulatória imposta, assim como no que diz respeito ao potencial de realização e sustentabilidade de reformas no sentido de uma maior auto-disciplina orçamental e abertura da economia à concorrência no contexto ideológico vigente em Portugal. Embora seja ainda relativamente cedo para ter posições definitivas a esse respeito, mantenho também o maior cepticismo relativamente à execução orçamental em curso, ainda que compreendendo que a posição pública do Ministro das Finanças dificilmente poderia ser diferente da que foi.

Pela positiva, saliento a resposta de sólida oposição a quaisquer tentações proteccionistas dada por Vítor Gaspar, assim como a sua postura anti-inflacionista, ainda que numa perspectiva neoclássica.

Em relação à política monetária, temo no entanto que Vítor Gaspar tenha uma posição demasiado optimista relativamente à capacidade do BCE para não ser (ainda mais) instrumentalizado ao serviço da despesa pública, colocando em causa a estabilidade monetária.

Globalmente, acho que foi um debate interessante e com saldo final positivo.

Maio 3, 2012

Novíssimo Recorde Insurgente!

Filed under: Blogosfera,Comentário,Insurgentes nos media,Insurgentologia,Nanny State Watch — Ricardo Campelo de Magalhães @ 00:20
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Ontem quebramos o recorde: de 7714 para 9216.
Quebramos as barreiras dos 8.000 e dos 9.000.

Hoje, quebramos de novo. De 9216 para 17.302.
Quebramos as barreiras dos 10.000, 11.000, 12.000, 13.000, 14.000, 15.000, 16.000 e dos 17.000. Voltou a haver um 7 nos milhares.
A todos, o nosso Muito Obrigado. Outra vez.

 Amanhã podem vir 50.000: por mim não há post de comemoração.
E como ontem fizeram piadinhas com as nossas caras, hoje ficam com esta imagem do conjunto Insurgente.

Maio 2, 2012

Novo Recorde Insurgente!

Filed under: Blogosfera,Comentário,Insurgentes nos media,Insurgentologia,Nanny State Watch — Ricardo Campelo de Magalhães @ 00:27
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Como podem ver, ontem, Dia do Trabalhador, O Insurgente teve o seu dia com mais visitas na sua história: 9216!

A todos os que visitaram O Insurgente desde o seu início, o nosso Muito Obrigado!

Olhando para a lista de artigos, só podemos dizer: Obrigado Pingo Doce!

O Insurgente é hoje uma referência na blogosfera Portuguesa.
Provam-no as visitas, as referências por toda a web, os convites a Insurgentes para tomadas de posição nos mais diversos assuntos da sociedade Portuguesa.
Numa sociedade onde parte da sociedade não tem interesse em discussão política, parte defende a posição fácil do “gaste-se sempre, agrade-se a todos os grupos de interesse” e a outra parte não é convicta o suficiente para defender publicamente os seus ideais, O Insurgente e outros blogs que lhe são próximos esforça-se por manter a defesa das causas difíceis. Aparentemente com sucesso.

Volte sempre!

(Nem imaginam como é difícil reunir todos os Insurgentes. Talvez se o Pingo Doce tivesse feito um pré-aviso XD )

Abril 30, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Política Fiscal,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:36

O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Liberdade

A liberdade também implica um Estado que gaste menos e não cobre tantos impostos.

Com o passar de mais um 25 de Abril, voltámos a ouvir que os portugueses não devem tolerar mais cortes nas ajudas, nos subsídios e na gratuitidade universal dos serviços do Estado. A austeridade está a acabar com a convicção de que o Estado é um poço sem fundo e que todos temos direito a tudo. Que fomos feitos para receber. De onde, de quem, pouco interessa, desde que o intermediário seja o Estado e ele trate disso por nós. Delegámos nele o jogo sujo de arranjar receitas de qualquer maneira. Se com mais impostos, taxas de juros mais baixas ou até com o fabrico, pelo Banco Central Europeu, de mais dinheiro, pouco importa. Desde que chegue ao nosso bolso. Foi assim que assumimos a pose de pessoas de bem e generosas. Uma generosidade imposta a todos, dispersa entre cada um de nós e, por isso, sentida por ninguém.

Esta posição é vergonhosa e indigna de ser decretada à conta do 25 de Abril. A revolução dos cravos visou pôr termo à guerra do ultramar, que destruía a vida de milhares de jovens, e pretendeu estabelecer uma democracia em Portugal. Que pudéssemos votar, ter opiniões contrárias à do governo e acesso a uma informação livre e imparcial. Comparar estes objectivos, dignos e gratificantes para quem a eles se propôs e por eles se bateu, com a mera exigência de mais direitos, à custa do esforço de outros, é um insulto. No entanto, há quem faça precisamente isso: exija do Estado a prestação de múltiplos serviços, alegando um direito baseado na mera existência. Existo, logo exijo. Foi para um país de cidadãos de mão estendida que se fez o 25 de Abril? Terá sido para esta falta de brio que saltámos de uma ditadura para uma democracia? Não me parece. Foi para quê, então?

Acima de tudo, pela liberdade. Não só de votarmos, mas de, através do voto, procurarmos soluções para os problemas e, dessa forma, vivermos melhor. De não ficarmos presos às decisões tomadas há 38 anos, mas conseguirmos decidir de acordo com as necessidades e as vontades de hoje. Por isso, além da escolha de um governo, a liberdade implica viver e decidir sobre os problemas que afectam a vida de cada um de nós, sem a interferência de terceiros. Esta liberdade, que Isaiah Berlin definiu como negativa, é aquela que devemos aprofundar em cada dia que passa das nossas vidas. Trata-se de um processo quase tão difícil quanto planear e levar a cabo uma revolução. Consiste num esforço diário, dissolve-se se não constar de uma prática habitual, implica uma vigilância constante da nossa parte. Obriga-nos a melhorar e a escolhermos o caminho mais difícil: o de assumirmos a responsabilidade das nossas vidas, de forma a não sermos um peso para os demais. E se tomarmos consciência da dimensão desta empreitada, reparamos que é um dever o que se nos impõe: sermos individualmente livres de forma que os outros também o possam ser. Se não o fizermos, a liberdade de que tanto se fala nestes dias será oca e pouco significado terá. Serão livres os que esperam e não os que procuram. A liberdade desaparecerá à primeira dificuldade e será trocada pelo que se apelida de segurança. Como se esta fosse possível sem que se respeite a vontade e os desejos de terceiros.

O apreço pelo trabalho do outro implica um esforço suplementar da nossa parte. O direito ao ensino e ao trabalho não pressupõe que estes nos sejam concedidos, mas que possamos lutar por eles. Da mesma forma, a gratuitidade de prestações sociais a quem as pode pagar, porque implicam um ónus sobre o trabalho dos restantes cidadãos, são uma farpa na sua liberdade individual. Na liberdade de trabalhar e usufruir, o máximo possível, dos seus rendimentos. Quanto mais subsídios recebemos, mais impostos pagamos e menos livres somos. Só uma sociedade respeitadora desta liberdade tem condições de ajudar quem precisa, os verdadeiros pobres, e não os que, em seu nome, se arrogam o direito de receber. É assim que a liberdade dos solidários passa mais por prescindir do que por impor obrigações.

Abril 27, 2012

Michael Seufert passou no exame da 4ª classe

Filed under: Educação,Insurgentes nos media,Política,Portugal,Videos — André Azevedo Alves @ 17:58

Aqui fica o video relativo à prestação do Michael Seufert no exercício que a Sábado promoveu dando o antigo exame da 4ª classe (de 1970) a fazer a vários políticos portugueses.

Michael Seufert – Sabado – Exame da Quarta Classe – 18.04.2012

É curioso que nenhum político de extrema-esquerda tenha participado no desafio. Terá sido uma (condenável) discriminação da Sábado ou efeito da conhecida aversão da extrema-esquerda a exames ?

Abril 23, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 10:56

O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Décroissance

A extrema-esquerda, que tem defendido uma redução da actividade económica para mudar o nosso modo de vida, devia estar satisfeita com esta crise.

Há um ano, o governo de Zapatero baixou o limite de velocidade nas auto- -estradas de 120 para 110 km/h. A ideia procurava reduzir o consumo de combustível, devido ao aumento do preço do petróleo que, na altura, atingia os 120 dólares por barril. Procurava também reduzir as emissões de carbono para a atmosfera e, dessa forma, proteger o planeta. Como é natural, esta imposição não teve sucesso. Ninguém cumpriu o limite imposto, tal como não houve qualquer redução no consumo dos combustíveis. Em Portugal, ainda se pensou fazer o mesmo, mas não foi necessário. A recessão económica chegou e fez o que faltava. De acordo com a Direcção-Geral de Energia e Geologia, o consumo de combustíveis está em queda desde Abril de 2011. Em Outubro último, o consumo de gasolina terá caído 8,1%, e o do gasóleo 3,4%. No início deste mês foi anunciada uma quebra de 47 milhões de litros de combustível vendidos. São cada vez menos os que andam de automóvel. E cada vez mais os que cumprem os limites de velocidade, por forma a pouparem combustível, e ainda os que preferem as estradas nacionais às auto-estradas, evitando as portagens. Estas notícias têm sido encaradas como inquietantes. Mas não foram estes os resultados que tantos queriam conseguir por força da lei? Menos carros, menos poluição, menor dependência do petróleo. O que a força não impôs, conseguiu-o a realidade.

O mesmo aconteceu com a construção civil. Lembra-se o leitor dos “patos bravos” de que o país estava cheio? A chatice que era construírem-se prédios em todo o lado, quando nenhuma colina verde escapava à fúria do betão? De acordo com os últimos dados, o sector da construção e do imobiliário vai perder 12 mil empresas só neste ano de 2012. O país dos “patos bravos” acabou, e com eles a construção desenfreada. Para quê então as notícias alarmantes sobre o assunto, agora que a economia está a ir ao encontro dos desejos de alguns que, sabemos agora, não sabiam bem o que significava aquilo que queriam? Os adeptos da teoria da décroissance, tão em voga entre certos sectores intelectuais da esquerda francesa e com forte influência na extrema-esquerda portuguesa, estão a ter o que sempre desejaram: menos consumo, menos poluição, menos construção. Se assim é, para quê então tanta crítica? Para quê os incentivos à revolta e o apelo à rua?

Apesar dos protestos, a extrema-esquerda sabe que o que sempre defendeu está a acontecer: a falência de um modo de vida que tem criticado ao longo dos últimos anos. Há nisto uma forte ironia que se traduz num círculo demasiado vicioso: o protesto contra um modo de vida que permitia à extrema-esquerda ser o que é, e que uma vez em causa a obriga a lutar para tudo volte ao que era, ao que nunca quis. Complicado? Não tanto, se considerarmos a extrema-esquerda como um grupo político, não de mero protesto, mas que visa sujeitar as nossas vidas à vontade do Estado. Que pretende impor-nos comportamentos, por muito simples que estes sejam, mas que já não os aceita quando advêm do nosso livre arbítrio. Por isso, circular a 110 km porque a lei nos diz para o fazer é bom, mas andar mais devagar para poupar gasolina já é uma consequência opressiva da austeridade. Poupar na electricidade para salvar a Terra é positivo, mas se devido à nossa escolha racional enquanto consumidores é de rejeitar. Como a maioria das nossas decisões enquanto homens livres: a escolha de uma escola para os nossos filhos, a prática de uma religião que nos torne conscientemente livres do arbítrio do poder político ou a liberdade de gastarmos o nosso dinheiro como quisermos. Aquilo porque se bate a extrema-esquerda não é a resolução dos nossos problemas, mas saber como determinar as nossas decisões. Fazer de nós, indivíduos e famílias, parte integrante de um todo estatal. Mesmo que isso implique o recurso à força e à violência na rua.

Abril 21, 2012

Os políticos e o exame da 4ª classe

Filed under: Educação,Insurgentes nos media,Insurgentologia,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 14:00

A Sábado deu o antigo exame da 4ª classe (de 1970) a fazer a vários políticos portugueses e o Michael Seufert teve a melhor nota. O que apenas vem confirmar que o dito exame era genuinamente fásssista.

Abril 16, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media — André Abrantes Amaral @ 18:04

O meu artigo para o jornal i deste fim-de-semana.

Titanic

Recordar o naufrágio do Titanic é homenagear as vítimas daquela que terá sido a primeira das muitas catástrofes do século xx

Em “À Procura de Sir Malcolm” (Meribérica), Jean Claude Floc’h e François Rivière falam-nos da dolorosa recordação que Francis Albany tem da viagem feita, quando criança e com os pais, a bordo do Titanic. O que se conta é muito mais que a história real do Titanic, cujo naufrágio serve de pano de fundo a uma intriga belíssima, com desenhos dignos da linha clara da banda desenhada franco-belga. Mas está lá tudo: o embarque, o fascínio de um grande navio, a travessia do Atlântico, o ambiente que uma viagem daquelas pressupunha e, claro está, os icebergues. O terror, o choque, o pasmo e o silêncio que se abateu sobre aquela gente num espaço de pouco mais de duas horas. Tudo aconteceu faz esta noite 100 anos.

O interessante no Titanic não é apenas o aviso simbólico do fim de uma época, que terminaria em 1914. É um acontecimento impressionante que, de tantas vezes estudado e contado, se tornou um momento de paragem na história, num seu ponto de referência. Assim sendo, e na medida em que a percepção que cada um tem do que seja justo e injusto, certo e errado, do que espera e deseja da vida, muda, mesmo que não de forma essencial, com os tempos, percebemos como os que estavam no Titanic foram dos primeiros que pensavam como nós. No meio da evolução intelectual, de valores e sentimentos, aqueles homens e mulheres foram os primeiros do século xx com as vidas registadas ao pormenor. Sabemos quase tudo o que se passou naquela noite. Se lermos o que deles se diz concluímos que nos revemos no que eram e naquilo em que se queriam tornar. Alguns dos que sobreviveram chegaram às décadas de 70 e 80. Deram o seu testemunho e viveram a nossa época. Contrariamente ao cidadão comum do século xviii, que é para nós um estranho, que ainda não conhecia a democracia, o conceito das liberdades e o liberalismo, os que viviam há um século tinham o nosso código de valores. Foram pessoas por quem sentimos empatia e de quem nos sentimos cúmplices.

Isidor Straus era um norte-americano de origem germânica, dono dos armazéns Macy’s em Nova Iorque. Ele e a mulher, Isadore, iam para os EUA, vindos da Alemanha. Ao contrário do habitual, não viajaram num barco alemão. Embarcaram no Titanic em Southampton, Inglaterra, rumo à América. Dois anos depois este mundo estava em guerra. Algo inimaginável para este casal sexagenário que se sentiria em casa no século xxi. Depois do choque com o icebergue e de se ter percebido que os botes de salvamento não chegavam para todos, Isidor recusou–se a ocupar um lugar, preferindo deixá-lo aos mais novos. A sua mulher não aceitou afastar-se dele. De acordo com os testemunhos, terá dito que da mesma forma que viveram juntos juntos morreriam. Perante esta decisão, Isidor ordenou à empregada da sua mulher que embarcasse. O que Ellen Bird fez e lhe permitiu viver até 1949. Houve outros actos heróicos, muitos desconhecidos, mas todos praticados por homens e mulheres sem treino militar, com amor à vida, alguns ricos, outros pobres, todos a sonhar com a vida que tinham pela frente. Homens e mulheres que aceitaram o inevitável quando, pouco tempo antes, tudo era expectativa e promessa de bem estar.

Se há um momento semelhante a este, terá ele ocorrido a 11 de Setembro de 2001. Também aí, e ainda hoje, vamos conhecendo actos heróicos e generosos de pessoas comuns. Talvez daqui a 90 anos alguém ainda lhes reserve uma crónica num jornal. O importante é a percepção do choque que deve ter sido idêntico para nós, que assistimos à queda das torres em directo na televisão, e para os que souberam do naufrágio do Titanic nos dias seguintes pelos jornais. O mesmo sentimento de impotência e de incompreensão. O mesmo assombro. A mesma aceitação. A história conta-nos que o mar estava calmo, não havia luar nem nuvens. O céu estava estrelado. Vinte minutos depois de o Titanic ter submergido, os gritos dos que caíram à água terminaram. O silêncio imperou de então para cá, faz esta noite 100 anos.

Abril 13, 2012

The Stateless Man

Dei em 21 de Março uma entrevista à Rádio Overseas Radio Network, e em particular ao Programa The Stateless Man do meu amigo Fergus Hodgson. Podem ver a lista e ouvir todos os arquivos, ou ir directamente ao ficheiro onde me podem ouvir neste MP3.

A ligação (por Skype) estava má e já reparei em pelo menos 2 palavras que desapareceram, mas creio que o essencial ficou dito.

Abril 9, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Educação,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Religião — André Abrantes Amaral @ 09:36

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana de Páscoa.

Ressurreição

Mais difícil que dar a alma por algo, é guardá-la. A Páscoa é também a festa do renascimento da vontade humana e das suas capacidades.

To sell your soul is the easiest thing in the world. If I asked you to keep your soul – would you understand why that’s much harder?

Ayn Rand, The Fountainhead.

Ayn Rand foi uma filósofa e escritora norte-americana, autora de diversos livros, dos quais os mais conhecidos são “Atlas Shrugged” e “The Fountainhead”. Neste último, Rand conta-nos a vida de Howard Roark, um arquitecto genialmente criativo, que adora o seu trabalho e não se rende ao que pelos outros foi convencionado como devia ser a arquitectura. Nem se deixa aliciar pela consagração fácil e rápida dos que trocam a realização pessoal pelo prestígio e uma vida fácil. Roark chegará a ter dinheiro, até um grande atelier, mas este pouco mais é para ele que o resultado do trabalho, uma forma de ser independente e não se sujeitar a quem quer que seja. O que gera a incompreensão dos seus colegas é o não compreenderem porque Roark não escolhe o caminho mais rápido para o sucesso. O não entenderem que para ele, o êxito é, não o reconhecimento social, mas estar liberto dos condicionalismos que tolhem o processo criativo. São muitos os que o receiam porque não valorizam o que apenas alguns conseguem almejar. Por não conseguirem conviver com alguém que busca o que para tantos nem sequer é um sonho. E não suportam o seu silêncio, o facto de não fazer sugestões, de não perder tempo a comentar as decisões dos outros. Não o faz, da mesma forma que agradece que não o façam consigo. Não o faz porque pressupõe que cada um procure viver da forma que lhe agrada, não imaginando que alguém troque a sua realização pessoal pelo reconhecimento alheio. Ou melhor: que alguém se realize por ser o que os outros desejam que seja. Que alguém deixe de ser quem é, desista da sua individualidade, da sua essência, natureza, para agradar a terceiros. A atitude de Roark, que muitos apelidam de egoísta, é tremendamente cristã. E é por essa razão que trago hoje, para este jornal e na Páscoa, a sua história.

Se houve mensagem que Cristo deixou foi a de não julgarmos os outros e não sermos escravos dos bens materiais. A concepção do indivíduo como algo sagrado, porque criado à imagem e semelhança de Deus; a imoralidade que é destrui-lo, não o deixar singrar na vida, ou pior, destruir-se em nome dos outros. A ilusão que é explicar os nossos fracassos, falhas, com os erros alheios. Culpabilizá-los pelo que fizemos e somos. Não assumirmos a responsabilidade de sermos aqueles em quem nos transformámos, porque nem sempre quisemos ser aquilo em que nos poderíamos tornar. O dever de não trocarmos a nossa realização pessoal pela busca do bem estar material, como sinal de afirmação na sociedade. E se encararmos a questão por este prisma, o altruísmo não será prescindirmos de nós em nome dos outros, mas fazermos o nosso melhor. A procura da felicidade torna-se um direito inalienável e a entrega já não será irmos contra a nossa vontade, mas usá-la para algo que nos deixe intimamente felizes. Porque só alguém feliz, realizado por fazer o que gosta, ou por lutar por fazer o que gosta, cumpre o papel divino que lhe foi destinado e é uma referência para quem lhe preste a devida atenção.

Se somos criados à imagem e semelhança de Deus, nada é mais valioso que a vida humana. Uma vida que só se dignifica com trabalho, independência e em liberdade, com a obrigação de fazermos o melhor, mesmo que desagrade a terceiros. De subirmos a parada dos nossos feitos. Assim sendo, a virtude medir-se-á não pelo que fazemos pelos outros, mas pelo que fazemos por nós. Se acreditarmos nas nossas capacidades, sem termos de pedir ajuda a quem quer que seja, encontramos a razão de ser da nossa existência e confiamos também na dos demais. Se tentamos, eles também podem tentar. O respeito pelo outro passa por este ponto tantas vezes esquecido que é não prescindirmos de nós e seguirmos com a nossa vida. O não nos deixarmos prender pela convenção aparente de entregar a nossa essência por algo que nos seja alheio.

Abril 2, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 10:21

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

O clima e a nossa responsabilidade

Enquanto os crédulos acreditam que o clima não muda, os oportunistas utilizam esse facto para fazer valer os seus projectos políticos.

Como não choveu no Inverno são muitas as referências ao aquecimento global, às secas que aí virão e à culpa do homem, que é imensa. Infelizmente, a memória é curta. Caso contrário, recordaríamos as chuvas do ano passado, bem como o Verão, que não foi o primeiro a ser fraco. Também não esqueceríamos como o Inverno deste ano foi rigoroso na Europa, enquanto cá não chovia. Como não choveu noutros Invernos, conforme também bem sabemos, se não quisermos ter memória curta. Mas o tema deste artigo não são as alterações climáticas, mas a responsabilidade do homem como sua causa principal, que tantos tomam por certa e que alguns pretendem usar para ditar políticas restritivas das liberdades individuais.

Em Janeiro de 2011, a “Swiss Federal Research Institute for Forest, Snow and Landscape” anunciou os resultados de um estudo baseado na observação dos anéis de mais de 7200 fósseis de árvores dos últimos 2500 anos, na Alemanha, em França, em Itália e na Áustria. Medindo a largura dos anéis das madeiras foi possível determinar as temperaturas e os níveis de precipitação numa base quase anual. E o que se comprovou foi algo que já se sabia: o clima sempre mudou e as suas fortes alterações terão até influenciado a história da Europa. Os Verões húmidos e quentes coincidiram com as épocas de expansão, enquanto os secos e frios ocorreram nos períodos de crise, como sejam a decadência do Império Romano e as migrações que forçaram a sua queda, a Peste Negra, em meados do século xiv e a Guerra dos Trinta Anos, na primeira metade do século xvii. O que para aqui interessa são as alterações climáticas que foram ocorrendo durante estes dois mil e quinhentos anos. Períodos prolongados de seca, a par de outros frios (que gelaram o Tamisa no Inverno de 1683-84), em contraponto com épocas quentes e chuvosas, que marcaram por exemplo o século xv, coincidentes com a expansão portuguesa e o início do Renascimento. Como se vê, um fenómeno constante e, julgo não estar errado, em nada resultante da actividade poluidora do homem.

Porque é aqui que bate o ponto: na responsabilidade humana. Do comportamento do homem que criou a sociedade industrializada, de serviços e consumista que permitiu o maior desenvolvimento jamais visto na qualidade de vida das pessoas. A atribuição de um sentimento de culpa por algo que tem sido positivo e que nos tem permitido viver melhor, saber e questionar mais, não aceitando de forma gratuita as imposições dos governantes e dos poderosos. Não deixa de ser interessante que seja entre a classe política e os que aplaudem o poder omnipresente do Estado que se encontrem os principais defensores da culpa do homem por algo tão natural e recorrente como as alterações do clima na Terra.

Há dois aspectos que nos devem chamar a atenção. O primeiro é o critério científico colado à tese da responsabilidade do homem quando a ciência se baseia, como nos disse Karl Popper, no confronto entre posições opostas e não na imposição de uma teoria como absoluta. Sendo a ciência a base de investigação por excelência, qualquer utilização da mesma para impor respostas definitivas devia ser uma afronta à nossa inteligência. O segundo é a humildade. Esta é utilizada pelos que culpabilizam o homem pelas alterações climáticas, alegando que se formos humildes percebemos que temos de mudar a nossa vida e não ferir o planeta. Mas se encararmos o fenómeno por outro prisma, se entendermos que as alterações climáticas são naturais, inevitáveis e independentes da actividade humana, nesse caso a humildade será aceitarmos que o homem é insignificante perante as alterações naturais do clima e que pouco ou nada pode fazer para as evitar, que não seja adaptar-se como sempre fez. Talvez parte daquilo a que assistimos não seja ao fim da vida na Terra, mas da crença de que o homem é omnipotente e tudo pode. Até impedir as mudanças no clima, que, por serem naturais, se tornam indispensáveis ao equilíbrio do planeta.

Março 26, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:47

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A crítica certeira

Devemos centrar as nossas críticas não nos que ganham dinheiro mas nos que vivem dos fundos públicos.

Quem acompanhe o processo eleitoral para a presidência dos EUA percebe o quanto este está marcado por um preconceito contra a riqueza, até há poucos anos impensável na América. Ser rico é um problema para quem queira ser político nos EUA e está a criar sérias dificuldades a Mitt Romney, o mais provável candidato republicano a correr contra Barack Obama. É fácil prever Obama a colar Romney à imagem de homem rico; uma riqueza de origem dúbia e, na melhor das hipóteses, desconhecida. Algo contrário à própria representação de Obama, nascido numa família sem posses, mas que estudou e chegou onde chegou. Claro que Obama tem mérito. O problema é que Romney também o tem, apesar dos esforços que Obama vai fazendo para lhe negar esse direito. Para Obama, se ser rico é um pecado, ser um político bem sucedido já é uma virtude. É muito interessante como um discurso vindo de Washington, num tempo em que a classe política goza de tão pouca consideração, vingou tão bem.

Este será o teor do discurso de Obama: quem queira o bem público, o único aceitável por pessoas de bem, trabalha para os outros. Como ele o fez quando foi voluntário em Chicago; como ele o faz agora, em comissão de serviço, como presidente dos EUA. A mensagem de Obama é, como foi em 2008, muito subtil, mas mortífera: ele quer ser presidente dos EUA, não porque seja ambicioso, mas porque pretende prestar um serviço. A partir daqui, a sua mensagem voltará a repetir-se: aqueles que trabalham para que o seu negócio cresça, os que estão imbuídos pela ideia do lucro, os que visam apenas os seus interesses devem ser travados. Travados, não no sentido de impedidos de continuarem a fazer o que fazem tão bem, que é criar riqueza, postos de trabalho e receitas fiscais, mas de serem canalizados para o bem comum, precisamente por aqueles que já abraçaram a causa pública. Se a hipocrisia subjacente a este raciocínio lhe faz impressão, peço-lhe que continue a ler o artigo. Caso contrário, por favor, pare. O que aqui está escrito não é para si.

Recomecemos com calma. que o assunto é delicado e sério. Não há nada de errado em seguir uma carreira pública. Ela é desejável e imprescindível num estado de direito. A dignidade que lhe está subjacente é de louvar e respeitar. Aqueles que a seguem devem procurar o equilíbrio, a estabilidade e a segurança de que qualquer sociedade necessita para que viva em liberdade. Este deve ser o objectivo do serviço público. Este. Não ultrapassar as suas funções para, em nome do Estado, ou seja, de todos, direccionar a economia, favorecendo sectores de actividade em detrimento de outros e, dentro desses, alguns empresários, discriminando os que não conseguem, ou não querem, ter “amigos” no poder. E também não passa, apenas porque as contas públicas estão em maus lençóis, por lançar suspeitas sobre os que, de fora da esfera pública, decidiram ganhar dinheiro. Infelizmente, apesar de errada, esta tendência ir-se–á acentuar no decorrer deste ano.

É que não há nada de errado em querer ganhar dinheiro e acumular riqueza. Se achamos que há, saberemos também que quem assim age perde mais do que julga ganhar. Ou seja, é algo que não nos diz respeito se quem ganha dinheiro o faz de forma não criminosa e sem favores políticos. Até porque nós precisamos de quem ganhe muito dinheiro. Precisamos das pessoas que têm o faro para a riqueza, o dito toque de Midas. E precisamos também de centrar a nossa crítica, não em quem enriquece por mérito, mas naqueles que o conseguem devido às boas relações que têm com o poder político. Na verdade, são estes últimos os ricos ilegítimos. Os ricos favorecidos que não merecem o nosso respeito. Se discernirmos esta diferença elementar, mas tantas vezes esquecida, compreenderemos como a luta dos próximos anos não deve ser entre ricos e pobres, mas entre os que trabalham de forma honesta e os que vivem dos dinheiros e dos favores públicos.

Março 19, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 09:39

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A moral ilegítima

Se os políticos escolherem cirurgicamente os que ficam de fora do Estado social, a moral que o justifica fica pelo caminho.

François Hollande, o homem que as sondagens indicam poder afastar Nicolas Sarkozy do Eliseu, promete criar uma taxa de imposto de 75% para os rendimentos acima de um milhão de euros anuais. Actualmente, a mais elevada é de 41% para os rendimentos acima dos 72 mil euros ano. De acordo com o “Le Monde”, o próprio director de campanha de Hollande, Pierre Moscovici, devido ao reduzido número de franceses abrangidos por esta taxa suplementar, considera a medida meramente simbólica e com poucos efeitos práticos. Ao que parece, a repercussão no défice das contas públicas será nulo. Independentemente de tudo isso, Hollande classificou a taxa especial de imposto como “um acto de patriotismo”. Porquê, se não vai dar resultados? Porque vira as massas contra um grupo anónimo, alvo de animosidade fácil. O que se retira da proposta de Hollande é que, para o candidato do PSF, é igual se a riqueza foi merecida ou se conseguida através dos bons contactos empresariais que alguns têm com o Estado francês. Para Hollande, é a quantidade que se recebe que determina a moral. Não o acto em si. Não é difícil imaginar o perigo que esta nova determinação do que seja certo ou errado representa.

Infelizmente, não é só Hollande que faz jogo sujo nas presidenciais francesas. Sarkozy, receando uma derrota humilhante em Abril, pisca o olho à extrema-direita, prometendo baixar a quota de entrada dos imigrantes. De repente, são estes estrangeiros os culpados pelo desemprego, o crime e a violência. Atente-se bem no raciocínio do presidente francês: não são os impostos, nem a burocracia estatal, nem as centenas de milhares de franceses que vivem à conta dos compatriotas que trabalham. Não. A justificação para uma economia estagnada há quase 15 anos está nos imigrantes, os que não podem votar, mas procuram uma nova vida naquele país. Outra massa incógnita. Outro alvo fácil do rancor. Um ressentimento que está a crescer à medida que as dificuldades aumentam e que os políticos direccionam de forma a atingir quem quer que seja que não seja o Estado. O objectivo é evitar quaisquer críticas às políticas socialistas que conduziram o Estado social à falência.

A semelhança entre as propostas de Sarkozy e Hollande é que ambas visam contornar problemas que resultam das políticas de solidariedade social. Para Sarkozy, os imigrantes, muitas vezes sem trabalho, acabam por beneficiar das regalias do Estado social serem terem feito os devidos descontos. Para Hollande, a própria concepção do que seja a solidariedade estatal é contrária à existência de ricos, sendo imoral haver quem ganhe tanto quando outros pouco têm. O resultado é que o Estado social, que se foi alargando a todas as classes sociais, visando a universalidade, se está a entrincheirar atrás de um eleitorado, ao mesmo tempo que aponta o dedo aos que vão ficando de fora. Mais: o socialismo vingou porque visava ajudar os mais pobres, permitindo-lhes o acesso ao trabalho, a uma rede de segurança que os apoiasse quando preciso. A sua força moral era essa e era imbatível. De tal forma que poucos a questionaram e muitos a ela se renderam. Aquilo a que assistimos agora são chefes de Estado a atacar grupos de cidadãos sem defesa, não em prol dos mais fracos, mas de um eleitorado ainda maioritário que teme assistir ao fim dos benefícios auferidos com o alargamento das funções do Estado. Um eleitorado que teve do seu lado a força do Estado para viver em segurança, mesmo que à custa do esforço dos que pagavam. Agora que os sucessivos défices públicos obrigam a cortes nas despesas, quando há uma luta desenfreada para não ficar de fora de um barco que já não aguenta tanta gente, a moral que fundamentava o socialismo desapareceu. Sarkozy e Hollande querem salvar o modelo social europeu. Esquecem-se de que ele se fez para integrar, e não para pôr de parte. Ao culparem uns para protegerem outros, acabam por questionar a própria moral socialista, tornando-a ilegítima.

Março 7, 2012

Hoje, às 23:00, no Porto Canal

Filed under: Educação,Insurgentes nos media,Portugal — André Azevedo Alves @ 16:59

Mais logo, às 23:00, no Porto Canal, serei um dos participantes no programa “Mentes que Brilham” , juntamente com Alexandre Quintanilha e João Barros. Não prometo dizer nada de brilhante mas tentarei na medida do possível fazer uso das minhas capacidades mentais.

Março 5, 2012

No Fio da Navalha

O meu artigo deste sábado para o jornal i.

A Dama de Ferro

Se Margaret Thatcher nos avisou quanto aos inconvenientes da moeda única, como é que a crise do euro põe em causa o seu legado?

“Where there is discord, may we bring harmony. Where there is error, may we bring truth. Where there is doubt, may we bring faith. And where there is despair, may we bring hope.”

Margaret Thatcher, citando S. Francisco de Assis, no dia da sua tomada de posse.

Quando Margaret Thatcher chegou ao poder, em 1979, o Reino Unido andava nas ruas da amargura. Tudo devido à inflação, a uma economia estagnada, a um tecido empresarial ultrapassado, a demasiadas empresas públicas e a um excessivo poder dos sindicatos. Um desastre resultante das políticas socialistas que visaram a colectivização dos meios de produção e foram levadas à prática durante as décadas de 50 e 60. Thatcher reconhecia esta realidade, sabia que a economia não crescia devido ao peso do Estado e foi citando S. Francisco de Assis, sobre a harmonia, a humildade e a esperança que entrou pela primeira vez no número 10 de Downing Street. Não temeu as dificuldades e não receou o julgamento do voto. Thatcher tinha noção do que tinha de ser feito. Fê-lo, apesar de todas as vozes contra. De todos os pedidos de que voltasse atrás. De todas as dificuldades que a sua política implicava para os britânicos. Pode parecer antagónica a referência a S. Francisco de Assis, mas apenas alguém capaz de perceber o seu conteúdo tem a força interior para levar a cabo a empreitada que Thatcher se propôs.

A ex-primeira-ministra britânica voltou a estar na boca do mundo com o filme que valeu o Óscar a Meryl Streep. E também devido à crise que vivemos, que tantos dizem pôr em causa o mundo que Thatcher ajudou a criar. Ora é aqui que deparamos com algo que não pode estar certo. Vamos por partes e comecemos com uma argumentação de mera lógica: se foi o fim das políticas estatizantes dos anos 50 e 60 que permitiu aos britânicos viver melhor, como é que a crise financeira do século xxi explica o fracasso da governação de Thatcher, 21 anos depois de esta se ter ido embora? Como é que a crise do euro justifica as medidas estatizantes que empobreceram o Reino Unido e legitima o que falhou no passado? Não há resposta para esta argumentação lógica. O que não impede que se continue a carregar na mesma tecla: a crise da dívida pública é um falhanço da governação de Thatcher.

A semana passada alertei para a necessidade de lermos com atenção os manuais da história norte-americana antes de concluirmos pela decadência daquele país. Volto à carga, desta vez sobre a governação da Dama de Ferro, entre 1979 e 1990. Thatcher não só reduziu a despesa pública, evitando os erros cometidos pelos governos que se lhe seguiram no Reino Unindo e na Europa, como sempre alertou para o perigo da moeda única. Se formos honestos, lembrar-nos-emos das fortes críticas que Thatcher teceu ao projecto da moeda única, nunca aceitando a adesão do seu país. Sempre avisou que uma moeda europeia não teria em consideração os diferentes níveis de produtividade dos países, as suas diversas culturas, as diferentes formas como o trabalho é encarado por cada povo. Preveniu que uma moeda única pressupunha transferir mais soberania para a Alemanha, pondo em risco as democracias. Alertou-nos, a quem a queria ouvir, para o que nos está a acontecer agora. Na altura, em que se sabia que o euro traria dinheiro barato e uma longa vida política aos governantes de então, ninguém quis saber. Fez-se aquilo a que nos fomos habituando: atirou-se o problema para o futuro. Para os outros, que somos nós. Thatcher foi apelidada de teimosa, obstinada, inflexível e caprichosa. Sabemos agora porquê. Mas em vez de reconhecermos que estava certa, preferimos acatar as justificações dos que não a quiseram ouvir e erraram. Continuamos a fechar os olhos. Talvez porque abri-los implica admitir o erro. E se individualmente consentir num erro é difícil, reconhecê-lo em colectividade é impossível. Até nisso lhe damos razão.

Fevereiro 27, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional — André Abrantes Amaral @ 10:15

O meu artigo para o i deste sábado.

O mito do fim

Devemos ler os livros de história antes de levarmos a sério o mito da decadência americana

Robert Kagan é historiador e um comentador habitual da política externa dos EUA. Como bom profissional que é, Kagan analisa os factos não esquecendo as lições do passado. É o que faz num artigo que publicou há dias na “New Republic”, sobre o seu novo livro, “The World America Made” (Knopf). Nele, Robert Kagan questiona a decadência americana, que tantos aceitam como certa, analisando cada uma das ideias preconcebidas que a justificam. Pelo caminho alerta para o perigo de, deixando-nos ir pelo raciocínio fácil, chegarmos a conclusões totalmente erradas.

Quem olhe para os EUA vê o forte endividamento do estado federal, a incapacidade de entendimento entre os membros do Congresso para a redução da despesa pública, os fracos índices económicos e o desemprego. Conclui, como algo inevitável nas sociedades ricas, que a decadência moral se apodera dos norte-americanos. Um declínio comparável ao do Império Romano, como se este não tivesse levado séculos a deixar de ser a potência que era. Olhamos para o que vemos hoje e esquecemos como foi no passado. Que a existência não se torna um paraíso apenas porque se tornou história e a vida não fica fácil só porque termina. Temos de analisar os acontecimentos em perspectiva, comparando-os com o que sucedeu ontem e perceber melhor a dimensão do que enfrentamos hoje.

Um das ideias mais frequentes é a da redução da quota-parte americana no PIB mundial. Que os EUA têm índices de crescimento económico muito inferiores aos das potências emergentes, sendo isso um sinal de cansaço e da falta de entusiasmo que marcou aquele país durante o século xx. Esta é a percepção comum. Mas se olharmos para a história o que vemos é que o PIB norte-americano representa 1/4 do PIB mundial desde 1969. Valores que não se têm alterado, apesar da crise, e ainda que a China e a Índia apresentem resultados surpreendentes. O mesmo tipo de raciocínio terá de ser feito relativamente à política externa. É dado assente que os EUA perderam influência e já não conseguem o que querem, como quando o mundo era um tabuleiro de xadrez, sem um adversário do outro lado da mesa. Novamente, uma análise cuidada do que aconteceu no passado ajuda-nos. Na verdade, e como Kagan lembra, nunca os EUA foram uma potência hegemónica. Até na década de 50, os anos de Eisenhower, do boom económico, os EUA tiveram de aceitar o golpe comunista chinês de 1949, apenas conseguiram meia vitória na Coreia e viram a URSS fabricar a bomba atómica. Houve mesmo o receio de que a URSS estivesse a crescer a um nível superior ao dos EUA. Algo ridículo, agora que sabemos a história toda. Assustador para quem vivia na altura. Algo que nos deve servir de lição quando damos como certo o sucesso chinês. Foi assim na altura e também nos anos 90, depois do fim da URSS, quando os EUA não conseguiram impedir que a Coreia do Norte e o Irão avançassem com o seu programa nuclear, nem sequer impor a paz no Médio Oriente. Para quem punha e dispunha do mundo, é muito pouco. Tal como sempre foi pouco o soft power americano. Ou não eram muitos os que na Europa preferiam o regime soviético ao do Uncle Sam? E não foram os anos 60 o tempo da decadência da juventude sem valores e sem disciplina? Em que Kennedy e Luther King foram mortos a tiro? Se a sociedade está em decadência agora, que nome damos ao que acontecia naquele tempo?

Kagan refere também que os EUA são aliados da Índia e próximos do Brasil, como foram do Japão e da Alemanha nos anos 80, quando estes países, em vez de ameaçarem o poderio americano, o fortaleceram. Sabemos como as boas alianças são importantes para os países dominantes. E para potência decadente os EUA parecem bem acompanhados. Se, como diz George Steiner, um dos axiomas do Ocidente é a consciência do fim, a história ajuda-nos a não tirar conclusões precipitadas. É um instrumento valioso contra a dedução fácil, que devemos ter sempre presente para não cairmos nos lugares-comuns.

Combate de blogs

Este sábado estive novamente no Combate de Blogs com Nuno Ramos de Almeida e o jornalista Filipe Caetano, a discutir as coisas do costume: Grécia, dívida e para não ser apenas austeridade, a iniciativa da carta de Cameron a Bruxelas. A terminar, um pequeno comentário sobre a seca e a Síria.

 

Fevereiro 21, 2012

Adolfo Mesquita Nunes sobre as reformas e a troika

Filed under: Economia,Insurgentes nos media,Política,Portugal,Videos — André Azevedo Alves @ 18:52

Adolfo Mesquita Nunes comenta reunião com elementos da ‘troika’

Fevereiro 19, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 21:57

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

O custo do verdadeiro egoísmo

Ao adiar a mudança do que estava errado, fomos colectivamente egoístas e nunca chegámos a ser individualmente generosos.

O fim da tolerância de ponto para os funcionários públicos, na terça-feira de Carnaval, é apenas mais um passo na mudança a que estamos a assistir. As críticas são imensas, e muitas mais ouviremos nos próximos anos. Uma coisa é certa: virão maioritariamente dos que perdem privilégios. Dos que têm regalias sem qualquer contrapartida. Sem nada que as compense ou sequer as justifique. Não deixa de ser interessante que se lamente tanto o fim dos feriados e tão pouco o mais de um milhão de pessoas que não têm trabalho. Qualquer sociedade com o mínimo de sensibilidade sentiria vergonha. Mas aquela em que grande parte dos seus membros é apaparicada pelo Estado em troca de votos, em que tantos escolheram um emprego com o único critério de ser para sempre, é uma sociedade que não guarda nada para o outro. Uma sociedade onde o jargão socialista da solidariedade social é encarado como algo suave, indolor e brando. Algo que não afecta a pessoa que partilha, pois transferiu essa aptidão para uma entidade intangível e inatingível. Um Estado que, por ser responsável por todos, pouco liga ao indivíduo. Pouco faz por quem precisa.

O egoísmo prega-nos a partida de ter dois sentidos, consoante a perspectiva em que encaramos o problema. Não serão hoje egoístas os que se queixam do fim de alguns feriados quando tantos não têm trabalho? Não será egoísmo que metade do país tenha emprego garantido no Estado, no Estado que vive dos impostos que pagamos e da dívida que contrai lá fora e nos onera a todos, enquanto a outra metade receia perder o trabalho? Se discuta o fim dos subsídios de férias e de Natal na função pública e não se refiram os que já há tanto tempo não o recebem? Aqueles a quem a crise não chegou em 2012, mas antes, quando os primeiros avisos de que algo não ia bem, não quiseram ser ouvidos pelo governo e pelo eleitorado.

O Estado social foi criado sobre a premissa de ajudar quem precisa. Mas o que faz ele agora? Vive à custa de quem trabalha. E o mais grave é que não só se transformou numa máquina que sustenta quem a ele pertence e explora os que de fora entregam a dízima, como já nem é social. Desvirtuou-se. Foi muito além do objectivo salutar que é ajudar os mais desfavorecidos e transformou-se num monstro burocrático que nos consome. Estamos cada dia que passa mais pobres, porque considerámos egoísta qualquer crítica ao Estado social. Como uma apreciação baseada em princípios interesseiros, algo que não podíamos aceitar porque feria a nossa boa consciência. Afinal a boa consciência que escondia uma forma de egoísmo. A boa consciência de quem vivia bem num sistema que se esperava durasse para sempre.

Não durou. Como nada dura, e acaba quando menos se espera. E agora que acabou podemos pensar em termos que até há pouco julgámos impróprios. Podemos construir um Estado mais justo, que não viva à custa da habilidade dos cidadãos, deixe de ter empresas, faça menos negócios e se concentre no cumprimento do que devem ser as suas funções essenciais e de soberania. O problema de termos adiado este repensar do que o Estado dever ser é que hoje vivemos tempos de emergência. Que serão de calamidade quando na Primavera a Grécia sair do euro. Não haverá tempo para edificar o que quer que seja, mas apenas para sobrevivermos. O cada um por si vai doer. O desespero e a angústia leva as maiorias a preferir a ordem à justiça. A preferir o previsível ao imprevisto. A Grécia pode cair nas mãos da extrema-esquerda nas eleições de Abril. O que suceder a partir daí é uma incógnita. O egoísmo comodista deu nisto: uma colossal incerteza. Em 1989, tinha eu 16 anos, disse- -me o professor Agostinho da Silva, sobre a dívida que havia no mundo e quem a ia pagar, que o barco ia abanar e o importante era não enjoar a bordo. Agarremo-nos então todos e fixemos bem os olhos no horizonte.

Fevereiro 13, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 09:55

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A força do Atlântico

Depois de David Cameron ter vetado a proposta de alteração dos tratados europeus, o “Wall Street Journal” publicou, no final do ano passado, um artigo que defendia uma aproximação entre o Reino Unido e os EUA. Os seus autores, ambos norte-americanos, entendem que a integração do Reino Unido na Europa foi feita à custa dos laços naturais que partilha com os EUA e demais países de língua inglesa. Foi algo que trouxe benefícios aos britânicos, mas, com a crise do euro e as propostas de aprofundamento da União Europeia, implica um custo muito elevado.

A CEE, dentro da qual o primeiro- -ministro Edward Heath conseguiu fazer admitir o seu país, que visava um mercado de livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais, e sem um poder supranacional não eleito, já não existe. Pelo contrário, transformou-se num muro que cerca a Europa, por se ter querido fazer dela um paraíso kantiano fechado a quatro chaves. A União Europeia, pressionada pela crise do euro e pelas decisões políticas de Merkel e Sarkozy, caminha para a criação de um megaestado centralizado, que visa controlar a vida política dos países-membros. O que sucede na Grécia e na Itália, onde o governo eleito foi substituído por líderes próximos de Bruxelas, o desejo de colocar em Atenas um comissário europeu que vistorie as contas gregas, aprove ou chumbe as decisões do seu governo, apontam para o possível fim das democracias e das soberanias nacionais. Que estados recentes como a Grécia e a Itália, habituados ao longo da sua curta história a vergar-se à vontade de potências estrangeiras, aceitem as imposições que lhes estão a ser feitas, não é de estranhar. Mas que outros, como a Espanha e o Reino Unido, o façam, já será muito difícil. Se o aprofundamento e o alargamento da União foi conseguido com relativo sucesso quando havia dinheiro, o que se quer levar a cabo para salvar o euro conduzirá o velho continente ao desastre. Uma federação criada numa época de crise, em que a capacidade negocial é mínima, em que qualquer solução é imposta, não tem futuro. Só criará ressentimentos que conduzirão ao colapso daquilo que tantos anos levou a construir.

Continuando o raciocínio do artigo referido no primeiro parágrafo, a solução preconizada não é assim tão descabida. Na verdade, o Reino Unido tem outras soluções além da Europa. Bem vistas as coisas, a Europa também. Aliás, a resolução dos problemas europeus foi sempre encontrada noutros continentes. O que foram os Descobrimentos senão uma abertura dos europeus ao mundo, buscando outras formas de obter os produtos de que necessitavam? O que foi o desbravamento de novos territórios senão a procura de espaços para se viver? O que seria da Europa sem a entrada dos EUA nas duas guerras mundiais? Onde está hoje a força de alguns países europeus, se não entre os países que falam as suas línguas? Que seria de Portugal sem o Brasil, Angola e Moçambique? Do Reino Unido sem os EUA, o Canadá e a Austrália? Da França sem a sua influência no Magrebe, no Sudeste Asiático e no Pacífico? Da Espanha sem o continente sul-americano?

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, afirmou há dias que, com a procura de investimento angolano, o futuro de Portugal é o declínio. Apesar de não agradar a forma como os empresários angolanos fazem dinheiro, para alguns países europeus o regresso ao Atlântico é uma alternativa natural. Por isso já há tantos portugueses em Angola. Durante anos o aprofundamento dos laços com o Brasil foi preterido devido ao risco que tal implicava para a Europa, como aconteceu com a obtenção dos vistos. Precisamos todos de dinheiro e sangue novo. Uma vez mais, ele está lá fora e vai ter profundas implicações no equilíbrio europeu. Quais, não podemos prever. Como no passado, o mundo bateu à porta da Europa e vamos ter de a abrir.

Fevereiro 6, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Cultura,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 09:42

O meu artigo para o jornal i de sábado que, a partir deste fim de semana, passa a ser semanal.

Sopa de letras

Quem estuda a língua, estuda a sua evolução; não a muda. Se o português é uma língua viva, não precisa ser mudada por decreto

It’s a beautiful thing, the destruction of words.
1984, George Orwell

Vasco Graça Moura ordenou a não aplicação, no CCB, das regras do Acordo Ortográfico que desde do início do ano passaram a ser aplicadas nos documentos do Estado. De 2009, ano em que o acordo entrou em vigor, até 2015, foi-nos dado um tempo de adaptação às novas regras. Regras difíceis para quem sempre procurou não dar pontapés na gramática. Custosas de compreender para quem procura ler o que está escrito. Porque o problema do acordo é precisamente esse: mudar a nossa forma de escrever e, se lermos convenientemente, de falar. Uma das várias alterações será a eliminação das consoantes mudas, mesmo quando estas servem para abrir a vogal anterior. Veja-se a título de exemplo, as palavras como projecto, exacto, acção e directo, que lemos acentuando as vogais que antecedem a consoante muda. Com as novas regras, deveremos lê-las como projeto, exato, direto e ação, assim mesmo como lhe sai da primeira vez que as vê, que é a natural, sem acentuar as vogais ‘e’ e ‘a’. Muda a forma como fala, não muda? Ou não mudará se contornar as regras básicas do português para fingir que tudo está igual.

É este o grande senão do acordo ortográfico. Mudar ao mesmo tempo que faz de conta que fica na mesma. Ao contrário do que se passou com a eliminação do ‘ph’ que já se lia com o som da letra ‘f’, em que adequámos a forma de escrever ao modo de falar, vamos agora a mudar a forma de falar porque estamos a alterar o modo de escrever. Enquanto na reforma ortográfica de 1911, as alterações visaram adequar a escrita à fala, à rua, que, com o tempo e o uso, tinha simplificado a língua, o que se pretende hoje é forçar uma facilitação decidida por decreto. Por isso, em 1911, os dígrafos de origem grega foram substituídos por grafemas simples: ‘th’ e ‘ph’ passaram a ‘f’; ‘rh’, foi substituído por ‘r’, ou ‘rr’, conforme os casos. Não houve uma mudança, mas uma adaptação da teoria à prática. Ao que se falava na rua.

Precisamente o contrário do que se quer com o acordo ortográfico que é decretar a rua a seguir os gabinetes. Ora, que mais não é uma língua que muda por decreto, que uma língua morta?

Syme era um inteligente funcionário do Ministério da Verdade que, no célebre ‘1984’ de George Orwell,  trabalhava no aperfeiçoamento do dicionário da nova língua conhecida por Newspeak. Syme não compreendia porque existiam tantas palavras com significados semelhantes. Não percebia a razão de ser dos sinónimos. Para ele, estes serviam apenas para criar confusão, permitir, através de palavras de significado semelhante, dizer coisas diferentes. O que em qualquer língua é a sua riqueza, para ele não tinha razão de ser. Pelo contrário, era algo que impedia o entendimento entre os cidadãos. Podia criar dúvidas que, para alguém que via a língua como uma mera soma de palavras, era desnecessário e até perigoso. Por isso, deliciava-se em destruir palavras. Em reduzi-las ao ponto de para cada facto, objecto, sentimento, haver apenas uma possível. A eficiência na sua máxima expressão e Syme era eficiente.

Qual a razão de ser do acordo ortográfico? Dizem os seus defensores que é para facilitar o comércio com o Brasil, ou aproveitar a influência que este vai ter no mundo. Eficiência. A sempre velha eficiência, não ao ponto de eliminar palavras, mas as destruir, eliminado letras. Apagando as suas especificidades. Os seus vários significados que estão na posse de quem gosta da língua e a aprende e a usa em todo o seu potencial. O objectivo do acordo é esse: não tendo a língua segredos, não haja quem os descubra. Todos a falar e a escrever o mesmo. O gosto pelo poder que dá obrigar, em poucos anos, o que só se consegue em séculos: mudar o modo como os outros se expressam. Falam e escrevem. Comunicam. Um poder imenso na mão de técnicos que encaram a língua como um sopa de letras e não parte da nossa vida. Técnicos de uma língua morta, mas que não é a nossa.

Fevereiro 3, 2012

Há quem resista no Parlamento à lei da Cópia Privada

Uma posição que merece ser destacada e elogiada: CDS-PP vai chumbar a revisão da lei da Cópia Privada

Michael Seufert, deputado à Assembleia da Republica pelo CDS-PP, avançou hoje ao SAPO Notícias que o partido que representa não vai apoiar o projeto de Lei da Cópia Privada, do Partido Socialista, em discussão na Assembleia da República, porque a compensação que introduz para os artistas “não é justa”.

Janeiro 30, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Política,Política Fiscal,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:33

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

Caro senhor primeiro-ministro

É preciso reduzir depressa a despesa pública, para pôr fim à política de austeridade

Quando venceu as eleições, em Junho passado, as expectativas não eram muito altas, tão grandes eram os desafios. Independentemente disso, acreditei e votei em si. Depois de tanta mentira rebuscada, estava disposto a acreditar em alguém que não escondesse a verdade. E a verdade é dura, como o senhor primeiro-ministro já deve ter percebido. Não me arrependi. E é precisamente por não me ter arrependido que lhe dirijo esta crónica.

Quero recordar-lhe os perigos que corremos caso o seu governo falhe. O desastre que será não reduzirmos a despesa do Estado e regressarmos às políticas que nos trouxeram até aqui. As políticas que implicam cobrar impostos altos à população com vista a satisfazer os interesses privados de alguns. De poderosos com fácil acesso ao poder que nos querem convencer serem no nosso proveito os seus projectos privados. Passarem por público um interesse que mais não é que corporativo. Se estes são os riscos do seu falhanço, o que podemos conseguir com o seu sucesso?

Antes de mais nada, um país de cidadãos livres. Onde a liberdade não se reduza a votar, mas se estenda à vida do dia–a-dia. Livres de darem o destino que queiram ao dinheiro que ganham com o seu trabalho. De investir, poupar, gastar, comprar e vender, sem que isso implique um motivo para terceiros, através do poder estatal, se imiscuírem. Um Estado livre das chantagens corporativas. Um país livre do estrangulamento legal que essas chantagens implicam. Um Estado presente em nome de todos e não de alguns. Um país onde as pessoas percam o vício de esperar do Estado aquilo que apenas podem conseguir por elas próprias. Onde a educação seja um direito, mas acima de tudo um dever. Um dever que cada cidadão tem de seguir e assumir. Essa é a única forma de os jovens não serem encaminhados para cursos que tanto jeito dão aos que conseguiram a licença para os ministrar. Um país onde haja menos empresas públicas e menos empresas a viver com o beneplácito do Estado. Empresas que, desvirtuando as regras dos mercados, que são as do cidadão comum, impedem que os produtos se vendam a preços mais baixos e competitivos. Um país onde o sucesso já não seja conseguir um emprego para a vida, mas ter um trabalho que seja uma mais–valia para os outros. Precisamos que o Estado gaste menos e isso implica uma forte redução da sua actividade. Só isso permite que a despesa pública baixe para níveis que possibilitem descer os impostos. Porque apenas a redução dos impostos fará a economia voltar a crescer. Criarmos mais postos de trabalho. Vivermos melhor e não ter de haver tantos a ir embora.

Se não conseguir esta mudança, o senhor falhou. E o senhor não pode falhar, porque, se isso acontecer, a alternativa da oposição é mais despesa pública e mais impostos. Mais pobreza. Porque não pode falhar, o senhor não pode perder mais tempo. Tem de cortar seriamente na despesa do Estado. Tem de fechar departamentos, direcções-gerais e regionais, gabinetes, comissões de estudo e de análise. Tem de pôr um ponto final em muitas das funções do Estado. Vai ter de despedir funcionários públicos, porque em 2013 já não lhes poderá dizer que não paga os subsídios de férias e de Natal. Fazê-lo não seria justo para os muitos que trabalham no sector público e que são precisos. Vai ter de privatizar escolas, para que o Estado possa reabrir as que fechou no Interior. São medidas duras e o senhor terá de ser duro. Não vai ser fácil, mas ninguém lhe pediu que fosse primeiro-ministro. Foi o senhor que quis este trabalho. É o senhor que terá de o levar a cabo. Vai ter de tomar estas medidas, pois, caso contrário, os sacrifícios que os portugueses estão a fazer serão inúteis. Uma mera perda de tempo. E, senhor primeiro-ministro, nós estamos fartos de perder o tempo das nossas vidas à volta desta história da dívida pública.

Austeridade, recessão e CGTP no Combate de Blogs

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:30

  O Combate de Blogs deste sábado, com Marta Rebelo e o jornalista Filipe Caetano, sobre a austeridade e as suas implicações na economia, pode ser visto aqui.

Janeiro 28, 2012

André Abrantes Amaral no Combate de Blogs da TVI24 – 23:00

Filed under: Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 19:29

Esta noite, a partir das 23:00, o insurgente André Abrantes Amaral vai estar no Combate de Blogs da TVI24 para participar num debate sobre a austeridade e a recessão.

Janeiro 16, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:45

O meu artigo deste sábado no jornal i.

Pare, escute e olhe

As críticas à ida de Soares dos Santos para a Holanda, só beneficia os culpados da triste situação em que nos encontramos.

A sociedade Fernando Soares dos Santos, detentora da maioria do capital da Jerónimo Martins, decidiu mudar a sede social para a Holanda. De acordo com Alexandre Soares dos Santos, esta decisão deveu-se à instabilidade fiscal em Portugal e às boas condições que a Holanda oferece às empresas. A quem investe, monta um negócio e cria postos de trabalho. Algo a que, descobrimos nos últimos dias, a Holanda dá imenso valor. Algo que, atentas as críticas de tantos comentadores e os boicotes tentados ao Pingo Doce, me leva a concluir que não prezamos muito.

Nos últimos 25 anos, o estado português sobreviveu à custa de um aumento gradual dos impostos e de um endividamento ao exterior que, para ser pago, nos levou às medidas de austeridade que conhecemos. Foram muitos os avisos de que quanto mais o estado exige a quem trabalha, menor é a vontade de trabalhar. É a velha máxima de quanto maior a tributação, menor é a competitividade. Infelizmente nenhum governante se preocupou com esta situação, ou alterou a forma como geria os interesses do país. Porquê? Porque acreditavam no que faziam. Melhor: porque faziam aquilo em que queriam acreditar. Porque queriam que o Estado fosse o motor da economia e que quanto mais este investisse e regulasse a actividade económica, melhor. Melhor para o país, já vimos que não. Mas melhor para o conceito de vida política que impregna o íntimo dos nossos governantes. Os convence do direito de, conquistado o poder político, terem acesso ao poder económico. Distribuir benesses, repartir favores. Serem influentes, não à custa do que conseguiram com o trabalho, mas do dinheiro que cobram aos cidadãos.

O ruído à volta da decisão de Alexandre Soares dos Santos tem sido muito aproveitado pelos políticos de esquerda. Depois de tanta asneira cometida que nos obriga passar pelas dificuldades que conhecemos hoje, não há nada como atirar poeira para cima dos outros. E é aqui que precisamos ter cuidado. Que devemos parar, escutar e olhar com atenção para o que se passa. Para o porquê das coisas. A crítica à mudança da sede de uma sociedade, perfeitamente legal e que já aceitaríamos de bom grado se nos beneficiasse, é irracional e susceptível de ser conduzida por interesses que não nos dizem respeito. Por motivos que apenas interessam a quem tanto nos prejudicou nos últimos anos. Vivemos tempos difíceis com o desemprego, os salários em atraso e as poupanças a serem destruídas. Tempos que vão agudizar ódios e ressentimentos; sentimentos propícios para discursos oportunistas e demagógicos. Próprios de quem instiga a inveja e a animosidade, como forma de justificar o seu discurso ultrapassado e estatizante.

Os políticos que criticam Soares dos Santos são os que andaram de mãos dadas com empresários, orgulhosos por os terem a investir em Portugal. São os que criticam a escolha de Catroga para a EDP, mas esquecem que a única forma de isso não acontecer é o estado sair por completo das empresas. Agora, em que a forma de cativar investimento é reduzindo o poder do estado, estes políticos estão assustados. Assustam-se porque receiam perder influência sobre os escolhidos. Porque a alternativa que sugerem, de impedir decisões como as da deslocação da sede de uma sociedade para o estrangeiro, implica o estabelecimento de um estado policial onde tudo é proibido, desde que não seja em prol do estado. Do poder político, mascarado de patriotismo. Ou já nos esquecemos como nasce o nacionalismo bacoco? Assim, antes de reagirmos a quente, precisamos pensar muito bem nos motivos de quem nos atira poeira para os olhos. Por que o fazem e com que objectivos. Temos de ser mais cuidadosos na análise da informação que nos chega. Na verdade, além de pagarmos impostos, também servimos para pensar.

Janeiro 6, 2012

José Tomaz Castello Branco na EconómicoTV sobre o Irão

Filed under: Insurgentes nos media,Videos — André Azevedo Alves @ 19:21

O insurgente José Tomaz Castello Branco na EconómicoTV, com Felipe Pathé Duarte, a comentar a situação no Irão.

Negócios Estrangeiros ep.62 (P1)

(mais…)

Janeiro 2, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:45

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

A bolha chinesa

Em 2012, podemos assistir ao início do fim do milagre chinês.

Há um ano, Robert Kaplan, jornalista norte-americano e assessor do Departamento de Defesa dos EUA, publicou ‘Monsoon’ (Random House). Um livro sobre os equilíbrios estratégicos no Oceano Índico e o futuro do poderio norte-americano naquela região. Para Kaplan, as águas que outrora Afonso de Albuquerque quase conseguiu dominar, voltam a ser vitais porque banham uma série de países que fazem fronteira com a China. Um país com um regime que, se em 1989 tremeu quando estudantes fizeram frente a uns tanques, se está agora a tornar numa potência mundial. Compra empresas pelo mundo fora, dívida pública europeia e, claro está, armas.

Não há norte-americano que não se preocupe com o investimento chinês nas forças armadas. Se há países que com dimensão são por natureza potências mundiais, a China é um deles. No mundo globalizado em que vivemos, onde os negócios estão interligados, numa comunhão que integra já não apenas a Europa, EUA e o Canadá, mas todas as regiões do globo, a dimensão da China conta. Conta ao ponto de um problema chinês ser também um problema nosso. E a China, ao contrário do que muitos possam supor, tem demasiados problemas.

Gordon G. Chang é um advogado chinês, há décadas a viver nos EUA, que tem alertado para o iminente colapso da China. No seu livro, ‘The Coming Collapse of China’, editado em 2001, Chang prevê que os 4 grandes bancos chineses, todos eles propriedade do estado e endividados até à medula por satisfazerem os interesses privados da elite comunista, podem ser os grandes causadores da catástrofe que se adivinha naquele país. Não se trata apenas da corrupção, inevitável quanto mais o estado intervém na economia, mas dos variadíssimos projectos megalómanos que estão ser levados a cabo na China, sem qualquer retorno. Cidades desertas que custaram balúrdios. Construções totalmente inúteis, que nunca serão pagas, nem cujas perdas serão contabilizadas, pois onde não há escrutínio, tudo se apaga ao ponto de nunca ter existido. Conforme nos explica Chang, cerca de 2 a 3 por cento do crescimento económico chinês é excesso de produção. Produtos que jamais serão consumidos, de que nada servem, mas que consomem recursos, dinheiro, tempo e energias que seriam melhor aplicados noutras actividades. Excessos que pressionam o surgimento da inflação. Gastos supérfluos que estão a criar muitas bolhas, cujo rebentamento terá um impacto talvez maior que aquele que nos atinge neste momento.

Os comunistas em Pequim têm um medo de morte de perder o poder. Por isso, além de incitarem o sentimento nacionalista, tudo controlam, ignorando as correcções que, em qualquer sociedade onde o estado pouco intervenha, são feitas através de um diálogo diário e silencioso, entre consumidores e produtores. Como reconhecer o erro é, naquele regime doentio, meio caminho andado para ser posto em causa, o partido comunista chinês joga tudo por tudo numa fuga para a frente. O tal passo em frente em direcção ao precipício. Não há falências, porque é mais fácil ignorar as regras de contabilidade. Mais fácil, mas mais doloroso. Para a China e para nós.

Termina hoje o ano em que o Ocidente pôs as mãos na consciência e se deu conta de quanto custa a interferência dos estados nas decisões económicas das pessoas. O ano em que contabilizámos o dinheiro que se gastou e a riqueza que não se produziu, porque os decisores políticos planearam como a vida na Europa devia ser orientada. No ano novo é tempo de recearmos o que vai acontecer na China, fruto desses mesmos erros, mas numa escala maior. O regime chinês tem um dilema: para sobreviver precisa de estabilidade que depende de um forte crescimento económico que, por ser artificial, gera instabilidade. Em 2012, a China pode complicar mais com os seus problemas que com a sua força. A história não acabou em 1989, nem em 2008. Na verdade, ainda tem muitas reviravoltas para dar.

Dezembro 26, 2011

Sobre a mensagem de Natal do Primeiro Ministro

Filed under: Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 18:59

Hoje participei no programa Antena Aberta da Antena 1. A edição de hoje do programa está disponível aqui.

Dezembro 20, 2011

UE precisa de “desregulamentação radical”

O Telegraph publica uma carta aberta com 16 signatários, cada um representando o seu respectivo país, sobre a crise e a necessidade de reformas urgentes na UE. A carta é também citada neste artigo sobre Cameron, onde se inclui uma referência ao IEA. Um dos signatários da carta é André Azevedo Alves, PhD pela London Schoool of Economics e professor da Universidade de Aveiro e da Universidade Católica Portuguesa, a quem me cabe a distinta tarefa de dar os Parabéns pela honra que lhe foi atribuída.

O texto da carta é o que se segue:

As economists from 16 EU states, we don’t all hold the same view on whether the euro was a good idea, nor any particular view on David Cameron’s veto of a possible EU treaty. However, we are staunch believers in the free movement of goods, services, people and capital as enshrined in the Treaty of Rome. 

Though only one person from each country has signed this letter, our views are not far out of line with those of many fellow economists. The EU should not focus on Mr Cameron’s actions. It should, instead, look at the underlying arguments about the future of the EU and the euro. 

Unless there is radical deregulation of the labour and product markets and lower taxation, the euro can never work and the EU can never be a thriving economic area again.
These are the challenges, but the EU and its member governments are moving in the wrong direction. We see no sign that those discussing how to deal with the euro crisis understand the actions that need to be taken. 

Whether or not the euro survives, this attitude will lead to gradual decline and increased social conflict within the EU. It may ultimately lead to the disintegration of both the single currency and the EU. 

Prof Pascal Salin
University Paris-Dauphine, France

Prof Pedro Schwartz
Universidad San Pablo CEU, Spain

Prof Philip Booth
Institute of Economic Affairs, UK

Prof Roland Vaubel
University of Mannheim, Germany

Prof Sean Barrett
Trinity College, Dublin, Ireland

Dr Christian Bjørnskov
University of Aarhus, Denmark

Dr Fredrik Erixon
European Centre for International Political Economy, Sweden

Prof Barbara Kolm
University of Dona Goriza and Friedrich von Hayek Institute, Austria

Dr Piotr Zientara
University of Gdansk, Poland

Dr André Azevedo Alves
Universidade de Aveiro, Portugal 

Dr Alberto Mingardi
Istituto Bruno Leoni, Italy

Rūta Vainienė
Lithuanian Free Market Institute, Lithuania

Prof Gabriel Mursa
University of Iasi and Friedrich von Hayek Institute, Romania

Dr Žiga Andoljšek
Katoliški Inštitut, Slovenia

Petri Kajander
Libera, Finland

Svetla Kostadinova
Institute for Market Economics, Bulgaria

Dezembro 19, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 10:34

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A ferida da Europa

A Europa liquidou-se quando matou a diversidade e destruiu a sua riqueza interior. Para este mal, não há euro que lhe valha.

A vida não reflectida, não é digna de ser vivida.

George Steiner

Até à segunda guerra mundial, existiam na Europa estados com muitos povos, e povos que se distribuíam por muitos estados. A Europa tinha, acima de tudo, cidadãos que se misturavam, mudavam de uns países para os outros e não se agarravam a qualquer deles. Eram judeus, ciganos, húngaros, checos, polacos, bascos, povos que pertenciam a algo mais profundo que o poder político e militar. Claro que hoje há quem saia do seu país e vá para outro. Mas é do seu país que sai e não de um local onde vive. Se antes as pessoas estavam, à superfície, politicamente unidas pelo poder do rei, existia também, como que de uma forma subterrânea, uma ligação cultural e espiritual com as que viviam em estados diferentes. Em Portugal, um dos Estados-nação mais antigos do mundo, temos dificuldade em perceber o fenómeno. Mas ele existe e marcou a Europa durante séculos.

Em 2004, George Steiner, também ele um judeu, nascido em Paris, filho de pais austríacos e a viver no Reino Unido, proferiu uma palestra sobre a Europa (A Ideia de Europa – Gradiva). Nesta sua intervenção, Steiner (um dos últimos europeus vivos), procurou definir a Europa através do café, como local conspirativo, de convívio e conversa que só existe neste continente; da paisagem demasiado humana que permite atravessar o continente sem dificuldades de maior e dos nomes que damos às ruas e às praças, em memória do passado. Referiu também a herança de Atenas e Jerusalém que permitiu aos europeus não apenas descobrir, mas questionar. De como o diálogo com o Deus Judaico, conduziu os europeus à ideia de consciência social e de justiça, como sendo algo mais valioso que o orgulho e a honra. A arte, a arquitectura, a filosofia, a literatura, a música europeias tem disto tudo um pouco. A busca do belo, da harmonia a partir da audácia que tudo questiona, que nada encara como perene. A consciência de que a sua própria existência tem um fim, é, aliás, o último axioma que Steiner utiliza para definir a Europa.

Foi esta diversidade que desapareceu no século XX. Foi um processo longo e lento, talvez começado quando Napoleão uniu os franceses à volta do Estado e os europeus contra os franceses. A partir daí, a história europeia é mais sobre estados que sobre povos. Um processo que culmina na Segunda Grande Guerra, com o extermínio dos judeus e o fim da diversidade. Do espírito de comunhão que nos unia a todos. Com as duas grandes guerras, a Europa não perdeu apenas os impérios, mas a sua força interior. A diversidade que a unia. A capacidade de conseguir ser uma casa para tantos. A riqueza espiritual que nos obrigou a reflectir, a questionar, a descobrir novos conceitos, sistemas políticos, filosofias que mudaram a vida. Se antes existiam monarcas com laços familiares, a par do espírito comum que unia os europeus, restam hoje, políticos de topo que procuram juntar cidadãos que pouco têm a ver uns com os outros. E fazem-no da única forma que conhecem: através de uma união política que enfrente os desafios que vêm de fora. A Europa já não desafia o desconhecido, mas segue os que copiaram o que ela inventou.  Esta ferida europeia é mais grave que a do euro e não se resolve numa cimeira.

Voltando a Steiner, o que ele nos propõe é o regresso ao espírito que outrora fez a Europa. Perante os desafios do fanatismo islâmico, do autoritarismo chinês, poderá a Europa apontar soluções? Poderão aqui surgir as respostas para os problemas que nos afectam no início deste século? Hoje, que só se fala de invenções técnicas, esquecemos a mudança que as correntes filosóficas trouxeram ao mundo, permitindo aos homens darem um salto gigantesco no caminho do desenvolvimento humano. Quem sabe, não pode novamente ser esse o papel da Europa. Um espaço de liberdade, de livre circulação de pessoas, bens e serviços; de bem estar, mas também de utilização da herança cultural como modo de contestar o que existe. De reflectir, tornando-nos a todos, dignos de viver.

Dezembro 5, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 16:13

O meu artigo no jornal i deste sábado.

É o fim do mundo como nós o conhecemos

Se o mundo em que nascemos está a acabar, o que decidirmos e fizermos agora vai definir o que deixaremos aos nossos filhos.

No início do século XX, a vida na Europa era um mar de rosas. Ou assim as pessoas na época julgavam, esquecendo os avisos de perigo que se iam repetindo. O equilíbrio de poder europeu perdera elasticidade e a genialidade de Bismarck não era para todos. Até o naufrágio do Titanic, em 1912, foi um aviso: as máquinas não só eram vencíveis, como se podiam virar contra o homem. E assim foi, dois anos depois, quando milhões correram eufóricos em direcção a uma guerra que, cedo se percebeu, não iria ser como as demais. O século XIX, a ingenuidade e candura daqueles tempos terminaram de repente. Há quem diga que a Europa também. E quem observe as fotografias dos soldados naquela primeira grande guerra, o que vê é o olhar da incredulidade. Como foi possível que o progresso os tivessem conduzido até ali?

Não estamos à beira de uma guerra, mas próximos de uma mudança igualmente abrupta. A vida segura e previsível que tivemos até aqui acabou. O conceito de emprego estável e certo não será para nós. O ensino pago por todos e gratuito para quem dele aufere vai deixar de ser possível. Até aquela ideia de que o Ocidente é o centro do mundo pode passar à história, com esta a ser escrita por potências emergentes como China e Índia. O que até há pouquíssimo tempo era inimaginável será amanhã provável. São mudanças que vão ocorrer, não porque queiramos, mas porque têm de acontecer. Por mera necessidade. Foi a necessidade que criou o Estado social, quando as famílias, que tinham muitos filhos, além de sobreviver passaram a exigir melhores condições de vida. É outra vez a necessidade, porque vivemos mais anos e há menos crianças, que porá ponto final no Estado que toma conta de todos. É a necessidade de enfrentar a concorrência vinda de outros continentes que nos está a obrigar a mudar. A ceder às exigências de outros povos e credos. Vivemos tempos interessantes em que o desconhecido se apresenta aos nossos olhos e vemos o equilíbrio que conhecíamos tão bem desmoronar-se. As fundações nas quais os nossos pais (e falo para os leitores de todas as idades) alicerçaram as suas vidas não servirão mais para nós. E daqui a muitos anos, os nossos bisnetos olharão para estes tempos como nós encaramos a linha de fronteira que foi o princípio da I Grande Guerra. O tempo do fim de um século e o início de outro.

Como vai ser o século XXI, ninguém sabe. Mas sabemos os riscos que corremos. Todas as mudanças abruptas trazem insegurança e esta leva à exigência de ordem que, a maioria das vezes, pressupõe restrição das liberdades. Mário Soares, numa entrevista a este jornal, chegou a referir que os Estados soberanos estão a ser substituídos pelos mercados. Sucede que, devido à sua falência financeira, mais Estado implica uma forte desvalorização da moeda e inflação. Ora, se foi a inflação que acabou com as democracias nos anos 30, a proposta de Mário Soares é perigosa. Veja-se a desconfiança que já mina a Europa, como se no Norte todos fossem excelentes trabalhadores e, no Sul, preguiçosos. Estamos a esquecer as particularidades de cada indivíduo e a generalizar conceitos e características, alargando-os a cada povo. Tal como aconteceu no passado. Como vamos evitar a repetição da História? Como vamos lidar com os mais pobres quando o Estado social acabar?

Para que nos sintamos bem com o que vamos deixar, cada um de nós terá de assumir a responsabilidade pelo que faz. Se o Estado não pode, fá-lo-emos nós. Os governos devem trabalhar, quanto antes, com as inúmeras organizações de solidariedade, religiosas e laicas, para que estas alarguem o seu campo de acção. Para que grupos criem mais escolas e um espírito de pertença substitua o de colectividade. Menos Estado não é o caos, mas pode ser mais justiça. Porque se estamos a assistir ao fim de um mundo, presenciamos também o nascimento de outro. O nosso.

Novembro 22, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:06

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

O canto da sereia

Através do investimento público, o Estado privilegia uns em detrimento de outros, algo indesejável num Estado de Direito.

No meio da convulsão que vivemos há meses, em que assistimos impávidos, mas nem sempre serenos, à derrocada do projecto de construção europeia, chega-nos aos ouvidos o canto da sereia. Diz-nos este, numa primeira estrofe, que as políticas de austeridade seguidas pelos Estados são más e recessivas. Destroem postos de trabalhos, fontes de rendimento, conduzindo muitos à ruína e ao desespero. E depois de nos apontar a catástrofe, indica-nos a solução que está em fabricar dinheiro, imprimir moeda para que os Estados possam continuar a investir, substituindo o investimento privado que se está a retrair. Se a primeira parte deste canto é parcialmente verdadeira, já a segunda é falsa e perigosa. Comecemos por esta.

Os benefícios do investimento do Estado na economia é dos maiores mitos de que há memória. Se é indispensável que o Estado leve a cabo certas funções, ele já se torna corrosivo quando se alarga a outras. Não só porque condiciona o comportamento das pessoas, como sucedeu com a bolha imobiliária, fruto de uma lei do arrendamento penalizadora dos proprietários e de benefícios fiscais resultantes do crédito à habitação, mas também, ao necessitar de financiamento para esses mesmos investimentos, concorre com os privados na sua obtenção, dificultando-lhes o acesso ao crédito. Não deixa de ser irónico que uma política que visa incentivar a economia, acabe por dificultar o acesso dos privados ao dinheiro e, consequentemente, a criação de postos de trabalho. Mas o pior de tudo é a conluio entre Estado e empresários que resulta deste tipo de investimento. Para o Estado investir são precisos empresários que façam o trabalho contratado e estes serão, necessariamente, os mais bem relacionados com o governo. Uma fotografia ao lado de um político pode valer ouro porque, mais importante que ser empreendedor, é conhecer os meandros do poder. Algo perverso, não apenas para a economia, mas também para a democracia e o conceito de Estado de Direito que queremos que prevaleça apesar dos tempos difíceis.

É natural que os cortes nas despesas que os governos estão a impor aos Estados, sejam negativos para as pessoas. Vivemos numa sociedade dependente do Estado onde poucos são os que conseguem ir longe se não forem coniventes com a administração pública. Até mesmo quem sempre lutou para ser independente do Estado, não trabalhando para ele, é prejudicado com os cortes na despesa pública, pois o seu trabalho depende do bem estar da economia e esta encontra-se condicionada pelas políticas seguidas no Terreiro do Paço.

Os problemas que atravessamos não resultam apenas da dívida, mas da falta de crescimento económico. Se o país que queremos tem de ser menos dependente do Estado é preciso, não que o Estado faça, mas que deixe fazer. Que se liberalize a actividade económica, para que os privados trabalhem sem a intromissão sufocante do poder político. É necessário que o governo facilite a vida das pessoas. Não de algumas, mas de todas. Um modo de o conseguir é através da liberalização da lei do arrendamento que permite a milhares de jovens iniciar a sua vida adulta, sem que tal implique uma dívida de 40 anos. A milhares de pessoas mudar de emprego e de cidade sem ter esperar por quem compre as suas casas. Uma nova lei do arrendamento, juntamente com a liberalização do mercado do trabalho, será uma fonte de financiamento da economia sem os juros cobrados no exterior e os custos inerentes ao investimento público. É uma das muitas medidas com que o governo deve avançar o mais rapidamente possível. O importante é que nunca repitamos o erro de favorecer empresários politicamente bem relacionados, como sucede com o investimento público. Em vez de estarmos sempre a ouvir que os políticos confiam na capacidade de sacrifício dos Portugueses, é altura de o governo aceitar que as pessoas sabem melhor que ninguém o que precisam para si, permitindo-lhes exercer os seus direitos sem condicionalismos de qualquer espécie.

Novembro 17, 2011

Michael Seufert – Intervenção no debate do Orçamento de Estado

Filed under: Insurgentes nos media,Insurgentologia,Política,Portugal,Videos — André Azevedo Alves @ 19:51

Michael Seufert – Intervenção no debate do Orçamento de Estado – Juventude – 15.11.2011

Novembro 14, 2011

Combate de Blogs

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 10:06

A minha participação no Combate de Blogs (TVI24), deste sábado com Rodrigo Moita de Deus, Rui Pedro Esteves e José Castro Caldas, sobre o orçamento de estado e a demissão de Berlusconi.

Novembro 7, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Livros,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 11:04

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A Vitória dos Buddenbrooks

A Alemanha que venceu a Europa não foi a das armas, mas a dos comerciantes que Thomas Mann descreveu no seu livro Os Buddenbrooks.

Se ainda não o fez, o leitor devia ler Anna Karenina de Lev Tolstoi (Relógio d’Água), e Os Buddenbrooks de Thomas Mann (D. Quixote). Os dois romances retratam bem a vida, em pleno século XIX, de duas realidades europeias distintas. A Rússia e a cidade livre de Lubeck, esta antes e após a sua integração no Império Alemão em 1871. O que encontramos nestes romances, a vida das personagens neles descritas, os seus sonhos, ambições, desejos, frustrações e sucessos, medos, angustias, derrotas e vitórias, as casas onde vivem, o modo como lidam com os seus iguais, com os criados e os camponeses, dizem muito do que foram uns e outros. Bastante do que é, hoje ainda, um país como a Rússia e outro, como a Alemanha.

Enquanto no romance de Mann os Buddenbrooks detinham um negócio de importação e exportação que procuravam passar aos seus descendentes, permitindo-lhes a continuação de uma fonte de rendimento que os sustentasse e os fizesse ser uma mais valia na cidade onde viviam, na obra de Tolstoi a realidade é outra. Neste, ou são altos funcionários do Estado, ou nobres de antiga linhagem, os que constituem a elite política e intelectual. Apenas um, Koysta Levin, representa a falta que Tolstói tanto lamentava entre as elites russas: o gosto pelo trabalho com vista a ajudar os mais desfavorecidos, fazendo o que é justo. O que faltou em Tolstoi, como aliás em Dostoiévski, foi nunca ter conseguido juntar o gosto pelo lucro e pela realização pessoal, à solidariedade. Reconhecer a necessidade de ajudar os outros como sendo o resultado inato do sucesso, fruto desse mesmo trabalho. Para Tolstoi, um benemérito tinha de ser um santo. Um místico. Um homem sem falhas. Talvez por isso, o homem bom que era Levin fosse agricultor, mas nunca um comerciante. Já os Buddenbrooks são demasiado homens para serem santos. Veja-se o exemplo de Johann Buddenbrook que apenas porque quer levar o sogro para casa, conversa com os revoltosos de 1848 e os convence a desmobilizar. Ajuda-os. Resolve o problema que afecta a cidade, não por ser um super-homem, mas como homem simples que é e que procura o bem estar da sua família.

O tempo foi aumentando esta confusão entre benemérito e santo. Só quem se supera, consegue visar o lucro ao mesmo tempo que  procura o bem. Por termos caído nessa crença do homem perfeito, grandioso e inexistente, substituímos os homens normais por instituições longínquas. A crise de hoje, é também de confiança. De suspeita perante Merkel e Sarkozy que não se portam como esperamos se comportem os líderes: de modo magnânimo e capazes de resolver, de um dia para o outro, todos os problemas, quanto mais não seja pela sua simples presença. E também porque deixámos de acreditar que com esforço, pessoas normais conseguem grande feitos, fomos vivendo numa sociedade como a descrita por Tolstoi, na qual as elites nada produzem, vivendo tranquilo quem alinha com o Estado e se encosta a ele. Tal qual os endinheirados em Anna Karenina que pouco mais fazem que não seja preencher papelada e gerir comissões. Elites que discriminam os fracos pelas suas origens, ao contrário dos comerciantes de Lubeck que apenas desprezam quem não trabalha. São elites como as descritas por Tolstoi, que alinharam com os erros que nos conduziram até aqui, as que estão hoje a ser postas em causa.

A linhagem dos Buddenbrooks acaba por desaparecer, mas a sua ética, o seu espírito, que era o espírito capitalista daquelas cidades livres e mercantis, que Max Weber tão bem explicou, continuou noutras famílias. Continua hoje, por muito que nos doa admiti-lo, nas economias nórdicas e holandesa que pouco sofrem com a crise mundial que vivemos. O trabalho e o esforço compensam. O lema dos Buddenbrooks, “Nunca fazer negócios durante o dia que te tirem o sono durante a noite”, retrata como o valor dado ao trabalho, obriga à honestidade e como dessa honestidade, surge a consciência social. Como vamos ter de mudar e estar mais atentos aos Buddenbrooks.

Outubro 24, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:53

O meu artigo para o i deste fim de semana.

Outubro Quente

Nada é inevitável se não nos for cortado o dom da liberdade e do direito de sermos individualmente responsáveis pelas nossas escolhas

No início do século XVII, os Invernos europeus foram exageradamente frios. Choveu, nevou abundantemente e até o Tamisa gelou. As colheitas foram fracas e, com a fome, foram vários os avisos de fim do mundo. Entretanto, de medo em medo, os dias, semanas, meses e anos foram passando e, porque a vida continuou, a temperatura voltou a subir e as colheitas a ser colhidas. Daí em diante, e em vez do fim do mundo, assistimos a uma notável melhoria nas condições da vida humana.

As altas temperaturas de Outubro convidam a devaneios parecidos, alimentados pela crença cega num aquecimento global como sendo o preço a pagar pelo pecado de o homem ferir a Terra. Esta inevitabilidade, a ideia de uma força superior que determina o comportamento humano e dita as suas consequências, e que Isaiah Berlin revelou ter passado para as mãos de um deus não religioso, já serviu para sustentar as maiores atrocidades do século XX e diz-nos agora que o planeta não aguenta que continuemos como até aqui. A evoluirmos e a vivermos melhor. Depois dos comunismos e dos fascismos não terem conseguido estancar a força criadora do homem, diminuindo-lhe a liberdade, a tese da inevitabilidade histórica volta em força para nos tolher a responsabilidade pelos nossos actos e nos dizer como temos de nos comportar. Não deixa de ser relevante como muitos dos crentes na teoria das alterações climáticas, seja pelo aquecimento global ou por via de uma nova idade do gelo, que chegou a ser prevista no início deste ano, tendem a minimizar a responsabilidade individual, transferindo a causa para forças impessoais, como as potências poluidoras e as grandes empresas. Qualquer coisa, menos nós. A catástrofe é tão inevitável que pouco mais podemos fazer que não seja exigir medidas aos verdadeiros culpados, deixando de fora a nossa capacidade para, enquanto seres livres e individualmente responsáveis, descobrirmos uma solução inovadora. Por isso são tantos os que se preocupam com as alterações das temperaturas, mas incapazes de desligar o interruptor quando saem da sala.

Também neste mês de Outubro, o governo revelou o fim do subsídio de férias e de Natal para muitos funcionários públicos. Fê-lo para evitar o colapso do que resta da credibilidade do Estado, enquanto entidade omnipotente que emprega e não deixa cair os seus. Mesmo sabendo que devia despedir 50 a 100 mil funcionários, Vítor Gaspar prefere não o fazer. O custo de despedir é tão grande que mais vale continuar no erro que corrigi-lo. Quando algo de semelhante sucede numa empresa privada, esta entra em processo de falência. Com o Estado parece ser diferente, até porque foi nisto que o socialismo o tornou: um local de onde não se pode ser despedido nem despromovido, onde se está protegido por uma teia de leis cuja mudança traria consequências tão letais que o melhor é nada fazer.

Sucede que, não se cortando o mal pela raiz, só se vai acentuar a falta de dinheiro do Estado. A tal ponto que não creio que o pagamento dos subsídios de férias e de Natal sejam retomados. Junte-se esta sentença à obrigatória redução do número dos que trabalham no sector público e é fácil imaginar a revolução nas mentalidades a que teremos de assistir para sairmos desta situação. Aquele emprego seguro que era para a vida acabou. Desta crise só se sai mudando a forma de pensar. Um Estado impessoal vai deixar de tomar conta de todos e nós passaremos a contar uns com os outros. A recessão vai ser forte, mas o resultado não é necessariamente pior. Conscientes das nossas responsabilidades, livres da inevitabilidade estatal, encontraremos soluções. Podemos aceitar que a sociedade não é o Estado e o desenvolvimento não se centra nele. Que nada se determina e tudo se reinventa. Tanto na Terra como na despesa.

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