O CDS está hoje numa posição extraordinariamente privilegiada que poucos alvitrariam até à contagem final dos votos. Mas o privilégio, na medida em que pode viabilizar a constituição de uma coligação (de incidência governamental ou parlamentar) de maioria absoluta constitui um risco.
A decisão estratégica é clara, mas muito delicada.
Da viabilização o CDS pode reforçar a sua imagem de partido do chamado “arco governativo”. Ontem com o PSD, amanhã com o PS, o CDS pode tornar-se no “marido ideal”, como diria Wilde, dos casamentos políticos em Portugal. Nesta linha o CDS poderá afirmar-se como um parceiro de confiança, mas estará sempre numa posição precária — esta é uma posição normal em sistemas como o alemão, o belga ou o holandês, mas que não tem história em Portugal.
Por outro lado, da inviabilização, o CDS pode capitalizar nos votos da oposição ao centro-direita do PS, tornando-se na força política de referência quando o ciclo governativo socialista chegar ao fim.
A tentação da primeira hipótese pode ser enorme, mas o risco não é menor. A opção pela segunda hipótese pode parecer mais aliciante — sobretudo para líderes ambiciosos como Portas –, mas comporta a incerteza da contenda que PS e PSD irão travar no contexto das eleições presidenciais.
Em qualquer caso, a estratégia do CDS não pode deixar de passar por um esforço de ocupação da terra queimada pelo PSD. Cabe ao CDS demonstrar que, ao contrário daquilo a que este país está habituado, não fará sentido manter vivos dois partidos sociais-democratas no activo. A tarefa é hercúlea. Temo bem que impossível. Mas, foi este cenário que se abriu hoje ao CDS. Oportunidades destas não se repetem muitas vezes.
Sobretudo porque, como hoje ficou bem visível, o PSD parece um partido desorientado, orfão, sem uma liderança política forte e carismática capaz de entusiasmar e mobilizar as suas hostes. E, como a história o demonstra à saciedade, nenhum partido português depende tanto do seu líder como o PSD. Em boa verdade, o PSD pode até ainda não se ter apercebido disso, mas pode muito bem estar hoje a ser entalado numa tenaz que acabará por asfixiá-lo.