Exemplo de como fazer a diferença com o IRS

No anexo H existe um espaço, como podem ver na imagem abaixo, para deixar para a vossa ONG IPSS preferida. Ao preencher o IRS, usem o campo da Consignação de 0,5% do IRS. Não vos custa nada e é dinheiro que certamente será melhor gasto do que se não o preencherem.

Um dos ex que sugiro para preencher é a Helpo, uma IPSS como o número 507 136 845.
Fiquem com um exemplo recente de construção de uma estruturas escolar:

Fica aqui a sugestão, nesta fase em que se aproxima a entrega obrigatória do IRS.

Revelação e choque

Vladimir Putin

Em discurso na Duma no qual Vladimir Putin assinalou o momento histórico da anexação da Crimeia, não explicou a presença daquelas pessoas vestidas de verde que da Crimeia nos entravam televisão dentro e que não aparentavam serem adeptos de uma qualquer claque armada do Sporting, Celtic ou Moreirense. O Presidente russo, na altura, explicou que “as forças militares não entraram na Crimeia, já lá estavam ali em consequência de um tratado internacional. Falamos de 25 mil soldados.”  Hoje, o mesmo Putin realça o corajoso comportamento dos militares russos. O homem é excepcional.

A anexação de Putin e o estado da russofonia

More than 1,500 rallied on Independence Day in Minsk on March 25, carrying Belarusian and Ukrainian flags.

A ligação da Bielorrússia à Rússia é proveitosa dada a política de baixo preço de gás e combustíveis russos. Alexander Lukahsenko continua a administrar o país como se da sua casa se tratasse: sem um único opositor no Parlamento. Também aqui Alexander Lukahsenko será o ditador em exercício…enquanto a Rússia quiser.  Não foi preciso esperar muito para ver Alexander Lukashenko exprimir o apoio necessário à Rússia e permitir na sua coutada pessoal uma manifestação de apoio à Ucrânia. Com uma participação diminuta, não deixa de ser a maior desde a contestação interna, em 2011. Esta manifestação só é possível com a permissão de  Lukashenko. Algo está podre no império russófono.

Sobre a desigualdade

O Observatório das Desigualdades e outras intermináveis instituições costumam dar uma perspectiva incompleta da questão da desigualdade na distribuição de rendimentos em Portugal. Dado que uma vez mais se fala do tema e se conclui em auto-de-fé que os ricos são os déspotas do flagelo, talvez seja interessante dar uma outra abordagem ao tema.

Recuperando este artigo de Nuno Alves do Banco de Portugal (2012), que recorre a dados da EU-SILC 2010 e não inclui as sobretaxas de solidariedade, algumas estatísticas que ficam sempre por apresentar:

1) O último decil de rendimento bruto (os 10% “mais ricos” em rendimento auferido) pagam 43% do total dos impostos, o valor mais elevado da União Europeia. A progressividade apresenta um enviesamento mais acentuado que a média da UE, incidindo especialmente sobre os que obtêm maior rendimento:

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2) No panorama europeu, só existe um país em toda a União Europeia onde a fracção de imposto sobre o rendimento paga pelos dois últimos decis do rendimento bruto é superior à de Portugal, o Reino Unido. Para todos os outros países, incluindo a social-democracia nórdica, os ricos pagam bem menos. Na Suécia, os últimos dois decis pagam 43.6%, significativamente menos do que os 61.2% de Portugal.

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Posto isto, talvez seja necessário rever o julgamento popular anti-rico, a típica ostracização dos “ricos” e o discurso trauliteiro contra este ou aquele. Discurso este que vem dos idos ancestrais e que Almeida Garrett, para não citar nenhuma das centenas de opinadores que o fazem diariamente, tão bem sintetiza:

“E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”
– Almeida Garrett

Perceber que não é preciso condenar indivíduos à miséria ou ao trabalho desproporcionado para produzir um rico talvez seja um bom começo. Aqueles que produzem riqueza para o país não são a causa do problema, são parte da solução.

Costumes liberais e fait-divers II

All Men In North Korea Are Now Reportedly Required to Get the Same Haircut as Kim Jong Un

Sabemos que a crítica social dirigida à Coreia do Norte não é mesmo nada inocente. Espero que a crítica fashion-capilar o seja.

Crime e castigo

Porto de Mós, Lagos

Porto de Mós, Lagos

Apos ter visto que há quem promova de forma activa a recuperação de condenados, reparo na mesma lista da agremiação liderada por António José Seguro na presença de Júlio Barroso um ilustre filho de Lagos, premiado certamente por ter sido o obreiro da bancarrota da minha cidade. Quando pensava que a realidade atingira o fundo do abismo, choco de frente com a notícia factual de Armando Vara ter visto “o sonho de carreira” destruído pelo processo Face Oculta. Parece inesgotável o filão do humor repulsivo.

Há gente a quem foi lido, em pequena, o 1984 em vez da Branca de Neve

No verão do ano passado li The Fat Years, de Chan Koonchung. Este livro, publicado em 2011, é uma distopia que conta o futuro no ano de 2013 na China. Resumo o livro em poucas linhas, centrando-me no que quero iluminar e deixando de lado outros aspetos interessantes (para o meu atual trabalho sobre as memórias) como o mês esquecido cuja procura é o que conduz a ação. No início de 2011 houve uma nova crise financeira mundial, de maior dimensão do que a de 2008, e que enfraqueceu os países ocidentais, tendo a China passado incólume, entrando numa era de prosperidade e tornando-se a maior potência económica mundial. Que método diz esta distopia que foi usado para ultrapassar a crise financeira? Tornou obrigatório níveis mínimos de consumo pelos chineses, o que possibilitou o crescimento da procura interna chinesa em substituição da procura externa combalida pela crise. Resultado: abundância e prosperidade para a China, bem como felicidade universal, potenciada pelo fornecimento de drogas à população de forma encapotada.

Posto isto, alegremos-nos: somos um povo com igual imaginação à dos autores de distopias. Temos uma desvantagem (menor, claro, nada que faça mossa): é que esta imaginação, que algumas pessoas em países exóticos usam para as distopias, nós usamo-la para propostas sobre fiscalidade reputadas de sérias por gente que supostamente sabe do que fala. A minha preferida é a proposta de despesa privada obrigatória, aventada no ano passado, que é sem tirar nem pôr o que aparece na distopia sobre a China. Era o que faltava os indivíduos quererem poupar. E onde já se viu esta mania das pessoas decidirem por si o que fazer ao dinheiro que lhes fica depois de retirados o IRS e a constribuição para a segurança social. Se consomem, pagam IVA; se não consomem, pagam IVA na mesma. Eu diria que era de abolirmos a república e aclamarmos como nosso rei, se não mesmo divindade universal, a pessoa que fez uma proposta brilhante, cintilante, resplandescente como esta.

Apesar de nem todos conseguirem alcançar a pertinência da despesa privada obrigatória, alguns logram ficar perto. No Prós e Contras houve quem sugerisse o imposto sucessório (e o aumento de impostos é uma inevitabilidade da manutenção do status quo proposto pelos ‘nacional-relevantes‘). Teodora Cardoso sugere um novo imposto sobre levantamentos de dinheiro e transações bancárias. Não é evidente que também é brilhante? Levanta-se o dinheiro e é cobrado o imposto; depois compra-se o que se necessita e volta-se a pagar IVA (e se Gaspar tivesse levado a sua avante, o feliz consumidor ainda pagaria multa acaso se esquecesse da fatura na loja). Recebemos uma fatura da luz, da água ou do que seja, que já tem IVA e fazemos a transferência; pela transferência pagamos também imposto. Não é um admirável mundo novo?

Eu sou de opinião que uma imaginação ativa tem sempre melhor uso na criação de ficção do que na criação de impostos. Até nem me importaria que fosse gasto algum dinheiro dos contribuintes em incentivos de passagem de profissões na área da fiscalidade para a de romancistas – fazendo as contas aos impostos que esta gente é capaz de inventar e que, assim, deixaremos de ter de pagar porque têm a imaginação entretida elsewhere, mesmo com aumento de despesa os contribuintes ficam a ganhar. Para motivar estas pessoas de imaginação fiscal ativa, dou o exemplo de Asa Larson, que antes de escrever policiais era advogada na área da fiscalidade. Não desistam, portanto, que estão destinados à grandeza na literatura.

 

Ontem, no Porto Canal e na RTP

Para os interessados, aqui fica o video do Especial Informação de ontem do Porto Canal dedicado aos 4 anos de Pedro Passos Coelho na liderança do PSD, no qual fui um dos convidados juntamente com Manuel Carvalho, do Público, e Pedro Bacelar de Vasconcelos, da Univ. do Minho.

No que diz respeito a aparições mediáticas insurgentes, mais ou menos à mesma hora, mas na RTP e com muito mais bom gosto, a Maria João Marques esteve no Prós & Contras, que pode ser visto aqui.

Entretanto, ontem pelas 19:00, também no Porto Canal, o Luís Aguiar-Conraria foi o convidado em estúdio no programa Testemunho Directo, que pode ser visionado aqui.

Last but not least – e mais uma vez no Porto Canal – Pedro Arroja teve o seu habitual espaço de comentário no Jornal Diário (mas não consegui encontrar video).

Erros, Previsões e Investimentos

É relativamente usual ouvirmos dizer que as previsões estão erradas. Falham as previsões macroeconómicas deste Governo ou do anterior (ou de todos os que os antecederam), falham as previsões meteorológicas que consultamos no Accuweather (que supostamente é “accurate”), falham as previsões do resultado do Porto-Benfica e falham as previsões sobre o aquecimento global que Al Gore vendeu a meia Humanidade num DVD altamente científico!

No caso das previsões económicas, é bem conhecida a citação de que “…os economistas prognosticaram 7 das últimas 3 recessões”. A par das previsões sobre os resultados de futebol, as previsões económicas são das que mais erros têm, ainda que as primeiras não tenham o famoso “enorme” impacto das segundas na nossa vida quotidiana. Uma análise sequencial das previsões de crescimento económico mundial ou regional, emitidas pela OCDE, ou pelo FMI entre o início de cada ano e o seu final  mostram bem o “erro sistemático”  que contêm, ainda que nem sempre no mesmo sentido.

Falhar previsões é o mais comum entre os economistas: a ciência usada para prever o futuro de algo que não tem uma relação causa-efeito física, é uma ciência dependente de relações de causalidade probabilísticas estáveis assentes em modelos de comportamento de factores sociais, humanos, psicológicos/comportamentais ou porventura desconhecidos ou não antecipados. O uso abundante da distribuição normal ou de outras distribuições com graus de probabilidade associados a cenários é uma forma muito rudimentar de fazer estas previsões. Mas nalguns casos é o que há.

Em Portugal fazemos da falha das previsões um problema de credibilidade sobre o emissor da previsão, seja do Ministério das Finanças, do Banco de Portugal, dos deputados da oposição ou de quaisquer outros que digam que o PIB crescerá X  e acabe por crescer Y. O uso das folhas de Excel, com modelos macroeconómicos associados a um conjunto vasto de variáveis para dar validade às previsões, são ferramentas intrínsecas a qualquer boa estimativa. Mas nunca são, por si só, suficientes num país como Portugal é, aberto aos choques externos e a uma dose de “(des)confiança económica” induzida pelo discurso político e mediático.

Para resolver uma parte das lacunas podem-se fazer estudos, como os “GrassRoots” da AGI (Allianz Global Investors), que procuram assentar as previsões acerca de marcas, sectores ou tendências com base em informação recolhida no terreno, com inquéritos e visitas locais que permite ter o acesso a uma informação detalhada que é impossível recolher nos Gabinetes de Estudos de Berlim ou de Lisboa. Mas tratam-se de informações muito dispendiosas e que são tardiamente reveladas.

Neste contexto, ao longo dos últimos anos fomos supreendidos com a evolução do Comércio Externo português, que teve taxas de crescimento claramente acima do que estavam os economistas do Governo, da Troika e da oposição à espera. Porquê? Porque em resultado do comportamento racional, mas não antecipado, dos empresários portugueses face à contracção da procura interna, orientaram os seus esforços para as exportações. Além disso, uma alteração dos hábitos de consumo dos particulares obrigados a fazer contenção de despesas  sobretudo de bens importados criaram um alívio nas importações. Depois de acontecer esta surpresa, vieram as convicções semi-generalizadas de que tudo iria continuar a correr bem em matéria de ajustamento externo.

Também em 2013, houve a surpresa do Emprego e do Consumo Privado que depois de dois anos de contracção vieram a apresentar padrões de comportamente bem mais optimistas do que no ínicio do ano se antevia. Porquê? Porque depois do início da recuperação das exportações tivemos empresas criadoras de emprego, tivemos pessoas a emigrarem (usando a liberdade de circulação de pessoas dentro da UE) e tivemos um notável ano de Turismo, graças à turbulência em muitos países do Norte de África (algo também não era antecipável pelos modelos). Mais uma vez, parece ser um novo consenso que esta tendência na procura interna está para ficar.

E em 2014 ? Qual será a surpresa, ou erro da previsão económica, que a OCDE, o FMI, a UE, o Governo ainda têm acerca de Portugal ?

Tenho por adquirido que será a do Investimento Privado. A previsão para esta variável do Governo é a de que a taxa de crescimento de 2014 seja de 1,2%, e a previsão do Banco de Portugal para o crescimento da FBCF é de 1%, números ridiculamente baixos quando se pensa na redução que ocorreu ao longos dos últimos dois anos (-8.4% em 2013 e -14.3% em 2012: Fonte BdP) e quando se observa a evolução mensal de vendas de carros em Portugal. Acredito que o valor da taxa  de crescimento possa ser substancialmente superior.

É verdade que os níveis de confiança ainda são baixos entre os empresários, mas as taxas de juro oferecidas pelos bancos portugueses tiveram uma descida muito importante (em paralelo, e em acréscimo, à descida do prémio de risco da República nos mercados internacionais de dívida) estimulando a procura de novos financiamentos, os fluxos turísticos em alta continuam a gerar mais investimento hoteleiro, para além dos próprios estímulos criados pelo Governo que não deixarão de produzir os seus efeitos. Há ainda que recordar que o nível de investimento no PIB (16% de acordo com o BdP) se situa em taxas baixas em termos históricos, o que por si só gera a ideia de que o “stock de capital” precisa de ser renovado por parte das empresas portuguesas. Por último há que tomar em conta o novo quadro comunitário de apoio (QREN), que fará por si só muito, para estimular a procura de novo investimento.

O problema do ressurgimento deste Investimento Privado é o de que a nossa base de produção nacional de Bens de equipamento é pequena e tenderá a fazer retroceder uma parte do ajustamento externo que houve. É minha convicção que se terá aprendido com os erros do passado e os empresários apostarão num novo paradigma para Portugal, longe das obras de betão e mais orientada para o investimento reprodutivo em que haja uma recompensa por esse retrocesso “temporário” da Balança externa.

Em conclusão, falhar previsões económicas, não é por si só um problema grave e detrimental de credibilidade se o resultado for melhor do que o esperado graças à cautela com que foram feitas. Mas depois das supresas do Comércio Externo (2012-13), do Emprego e do Consumo Privado (2013-14), e se de facto houver uma surpresa no Investimento Privado (2014-15), quem ficará surpreendido com uma surpresa no Consumo Público (2015) em período pré-eleitoral ? 

Após a inicial prudência das previsões de um programa de assistência financeira e sem um programa cautelar, teremos provavelmente mais discursos com mais promessas e consequentemente com mais erros de Previsões. Daquelas que não gostaremos…

Saber não basta

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Dizia Rothbard que a iliteracia económica não é nenhum crime, observação por demais evidente. Penoso é permanecer nesse estado de ignorância e, obstante esse estado, assertar juízos e pareceres económicos que podem levar à tomada de más decisões ou desinformar terceiros.

Altivada pela condição de investigadora em história, historiadora (sic) e connoisseur de uma ciência económica mais lúgubre que o pior dos temores de Carlyle, Raquel Varela empandeira-se de assertividade para constatar o que não pode ser obviado:

“Se nós produzimos 100 e temos 130 para pagar, é óbvio que não é pagável.”

O JCD, o RAF e o AAA já comentaram e dilaceraram bem o assunto e a falácia incorrida, a de confundir variáveis de stock com variáveis de fluxo. Serve este artigo apenas para notar a ironia da fineza. Michał Kalecki, um economista neo-marxista que certamente estará próximo do perímetro ideológico de Raquel Varela, costumava dizer que a economia era “a ciência de confundir stocks com flows”. De facto, é. Kalecki não podia estar mais certo. E Raquel Varela domina essa ciência económica com admirável destreza.

Palestrantes para a 27ª edição do Fórum da Liberdade

Aqui fica a lista actualizada dos palestrantes confirmados para a 27ª edição do Fórum da Liberdade, que se realizará nos próximos dias 7 e 8 de Abril, mais uma vez na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no Brasil.

Já tendo tido oportunidade de assistir, considero o Fórum da Liberdade o mais impressionante evento deste tipo no mundo e será um prazer e uma honra participar este ano como palestrante.

Fórum da Liberdade – 26 anos de história

França, 2014

Apesar de se tratar de França e de eleições (municipais) os apelos para que os fiéis optem pela abstenção roçam o fantástico.

Anâ-Muslim is a nonprofit organisation recognised by the French state. Its members share their vision of Islam on the organisation’s website, on its Facebook and Twitter pages, and onYouTube. A few days ago, Anâ-Muslim called on Muslims to boycott French municipal elections, which will take place on March 23 and 30. They explain this decision by using various religious arguments and by saying that for a Muslim person, “voting is an act of submission … while abstaining is an act of resistance”.On its website, the organisation explains that this campaign is aimed at Muslim people between 18 and 40 years old. They argue that refusing to participate in French politics is a way to “preserve their faith”: “Voting means recognising the power of men on earth and giving them absolutely sovereignty to create their own laws that have nothing to do with Islam.” The organisation’s goal, as described in their mission statement, is to “teach Islam to Muslims … because Muslims are the only ones who can control their destiny … and contribute to Islam’s resurgence so that humanity may be saved”.

Raquel Varela: uma investigadora sintomática

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O JCD e o Rodrigo já comentaram (e bem) o caso, mas a enormidade dos disparates é de tal ordem que merece novo destaque e mais uma breve reflexão.

Entre a longa sequência de disparates, distorções e erros, destaco um que, pela sua natureza, deveria garantir um chumbo em qualquer cadeira de Introdução à Economia, Estatística, Metodologia, ou similar, de um primeiro ano de licenciatura:

“Se nós produzimos 100 e temos 130 para pagar, é óbvio que não é pagável.”

Que erros grosseiros como este passem sem qualquer reparo por parte dos jornalistas é lamentável, mas não surpreende, dada a falta de preparação e os enviesamentos ideológicos de grande parte dos profissionais da comunicação social.

O que é ainda mais sintomático é que a autora de erros absolutamente básicos e grosseiros como este seja investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, onde coordena o “Grupo de Estudos do Trabalho e dos Conflitos Sociais”.

Leitura complementar: Quem é Raquel Varela ?

Da social-mediatização da Crimeia

Link permanente da imagem incorporada

As far as I can tell from Fox News coverage, Obama just annexed Crimea and Putin is condemning him.

De facto, a Rússia não aguenta tanta pressão. Precisa de respirar. O Império é incapaz de se sentir à vontade com o avanço da débil União Europeia, a bater-lhe à porta. Não descubro as razões pelas quais se mantêm inalterados os 1000 quilómetros de fronteira com a Finlândia, membro do bloco económico europeu desde 1 de Janeiro de 1995.

O pior momento possível para não pagar a dívida

Muita gente parece ainda não ter percebido que os custos internos para Portugal de um default (ainda que parcial) da dívida aumentaram exponencialmente com o bailout. O melhor momento para considerar essa opção teria sido antes do pedido de ajuda externa, fosse em alternativa ao bailout ou como uma das condições subjacentes a esse mesmo bailout.

Luís Aguiar-Conraria sobre os erros dos manifestos: Erros Manifestos

Qualquer que seja o eufemismo escolhido – renegociação honrada, perdão de juros, perdão de dívida, alargamento das maturidades, períodos de carência de juros, etc. – manda a honestidade intelectual que se diga que uma reestruturação da dívida implica sempre perdas de capital para os detentores dos títulos de dívida. Quem suporta essas perdas? Há uns anos, ameaçar com o incumprimento da dívida seria, também, ameaçar bancos estrangeiros. Hoje, o que devemos à troika é cerca de 40% da nossa dívida e, dos restantes 60%, a maioria está em bancos portugueses. Nós somos os nossos próprios credores. Podemos ameaçar que somos nós os principais ameaçados.

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Coisas tão devastadoras quanto o ébola

Acho sempre piada quando alguns liberais ou os que para aí gostam de se inclinar – mesmo aqueles que não se converteram à religião gaspárica, assente, como se sabe, em aumento de impostos para ‘sanear’ as contas públicas (que esses estão way round the bend) – confundem liberalismo com defesa intransigente das empresas. Quando são uma espécie de socialistas – que pensam que para minorar os efeitos nefastos da ação desses trastes que são os indivíduos há que pôr em ação os trastes dos indivíduos que trabalham para o estado, como se o estado tivesse poderes mágicos de purificação daqueles que agem em seu nome – ao contrário. Há liberais para quem uma empresa (e os seus empresários, gestores ou administradores), sobretudo se for lucrativa, is without fault. Em vez do estado, para os socialistas, é o lucro, para alguns liberais, que purifica a ação individual. E quem questionar estas empresas, ai jesus que são inimigos do lucro e da iniciativa privada. Isto ganha especial potencial de divertimento quando é feita a defesa de empresas que atuam em setores que, seja pelas barreiras à entrada seja pela legislação, atuam em contexto longe da concorrência. O preço da gasolina é igual ao cêntimo em todas as marcas? Ora isso são acasos da mais perfeita concorrência e, quando muito, culpa daquela ideia socrática de pôr cartazes nas auto-estradas com indicação dos preços; cartelização e combinação de preços? vade retro, criatura satânica que difama desta forma empresas respeitáveis. Os bancos inventam taxas, uns atrás dos outros, para cobrar aos clientes que respiram dentro das suas agências? é a concorrência em ação e quem não gosta que guarde o dinheiro debaixo do colchão.

Isto para dizer que nas empresas também há bons patifórios, e estas empresas que funcionam perigosamente perto do estado são um chamariz para os patifórios que se dão bem a tirar proveito da influência tanto quando estão a soldo das empresas como quando estão a soldo do estado. Logo, não merecem ser defendidas com grande paixão.

Não venho aqui defender maior regulação, que não tenho grande fé nos que fiscalizam. Dê-se o exemplo das agências de regulação em Portugal, que são risíveis; existem para defender a posição destas empresas de setores protegidos dos malvados consumidores; e para acrescentar variedade à carreira profissional daqueles que se passeiam pelos meandros governativos, reguladores da área que tutelaram e empresas da área que tutelaram e fiscalizaram. Venho mesmo só constatar que o estado de coisas atual sucks. Um estado gordo e anafado e um sistema judiciário de faz de conta são uma combinação mortal. Isto tudo não só por causa das prescrições do caso BCP – e vale a pena ler, além do André, o José Meireles Graça sobre estas iguarias político-jurídicas aqui e aqui – como por, só um exemplo que deve ter sido a maior escandaleira de tráfico de favores feito à vista de toda a gente, termos a CGD a fazer empréstimos com risco mal medido a Berardos e a Finos que, depois e enquanto accionistas do BCP, votaram a solução do governo para a administração daquele banco.

Duas notas finais. A primeira é para lembrar que, para compensar a largueza nos setores que frequentemente lesam consumidores e contribuintes, os legisladores aplicam a sua fúria controleira nos setores onde os empresários não são amigos dos governantes e as empresas não têm dimensão para verem as suas queixas aparecerem nos jornais. Nos produtos mais, digamos, simples, as empresas apanham multas pesadíssimas se não chamam estúpidos aos consumidores através de avisos que são obrigados a fazer, por exemplo informando que não se deve acender uma vela em local acessível a crianças ou animais de estimação (nunca se tinham lembrado disto, pois não? pois é, é para isso que cá está o papá protetor estado).

A segunda é para avisar os leitores mais quadriculados que não tenho nada contra o lucro, sobretudo se for meu, nem contra os bancos nem o lucro dos bancos, sobretudo quando pagam dividendos.

Manifesto de ignorância

Quando se fala da reestruturação de dívida (grega ou portuguesa) começa a ser habitual alguém argumentar com o perdão da dívida alemã nos anos 50 do século passado. Surpreendeu-me, no entanto, ler o mesmo raciocínio no designado “manifesto dos 70″:

De agora até 2017 o reembolso da dívida [portuguesa] de médio e longo prazo atingirá cerca de 48 mil milhões de euros. Alongamentos da mesma ordem de grandeza relativa têm respeitáveis antecedentes históricos, um dos quais ocorreu em benefício da própria Alemanha. Pelo Acordo de Londres sobre a Dívida Externa Alemã, de 27 de Fevereiro de 1953, a dívida externa alemã anterior à II Guerra Mundial foi perdoada em 46% e a posterior à II Guerra em 51,2%. Do remanescente, 17% ficaram a juro zero e 38% a juro de 2.5%  Os juros devidos desde 1934 foram igualmente perdoados. Foi também acordado um período de carência de 5 anos e limitadas as responsabilidades anuais futuras ao máximo de 5% das exportações no mesmo ano.  O último pagamento só foi feito depois da reunificação alemã, cerca de 5 décadas depois do Acordo de Londres. O princípio expresso do Acordo  era assegurar a prosperidade futura do povo alemão, em nome do interesse comum. Reputados historiadores económicos alemães são claros em considerar que este excepcional arranjo é a verdadeira origem do milagre económico da Alemanha.

Tal como em muitos outros acontecimentos, é importante sabermos qual o contexto histórico em que ocorreu este Acordo. Na era da informação é, pois, lamentável que ainda se assista a uma considerável preguiça em, pelo menos de forma genérica, conhecer os factos recolhidos na enciclopédia online Wikipedia. Abaixo fica um resumo:

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Ascensão e Declínio

Um estudo financiado pela NASA conclui que a civilização industrial está condenada ao colapso irreversível. Parece que o estudo começa por apontar o óbvio («The fall of the Roman Empire, and the equally (if not more) advanced Han, Mauryan, and Gupta Empires, as well as so many advanced Mesopotamian Empires, are all testimony to the fact that advanced, sophisticated, complex, and creative civilizations can be both fragile and impermanent.»), passando depois para o requentado («… accumulated surplus is not evenly distributed throughout society, but rather has been controlled by an elite. The mass of the population, while producing the wealth, is only allocated a small portion of it by elites, usually at or just above subsistence levels.»).

As civilizações, de facto, ascendem e declinam. A história ensina-nos isso. Parece-me é pouco provável que a civilização industrial acabe à conta de causas inerentes à repetição pouco original de argumentação marxista. Acho bastante mais provável que a civilização industrial acabe por governos, através de agências supostamente dedicadas à investigação e exploração aero-espacial, financiarem estudos da treta a pessoas cujo objectivo político é precisamente o fim da civilização industrial…

Precisamente por isso

Escreve o subscritor posterior por incúria do manifesto dos jarretas: «No entretanto encolhemos, empobrecemos, subjugamo- nos e, como de costume, quem paga esse preço nem sequer terá tempo de vida para receber as benesses possíveis

Precisamente, Pacheco Pereira. Por isso algumas almas avisadas estão há anos a chamar a atenção para como a governação desastrosa de socialistas de esquerda e de direita levaria inevitavelmente a uma conta a ser paga pelas gerações futuras. As tais que levam com a conta sem nunca receber nenhuma benesse em troca. As tais que lhe deram a si e aos restantes jarretas uma vida confortável a que provavelmente não terão elas próprias acesso, a não ser que fujam. É por isso um atentado à inteligência que pessoas responsáveis pelo estado calamitoso do país venham colocar-se numa posição moralista sobre os sacrifícios que estão a cair sobre as gerações dos seus filhos e netos; especialmente numa altura em que salta à vista que grande parte da motivação para tal vem apenas dos cortes nas suas próprias reformas.

Aqui há dias, o Pacheco Pereira chamou a atenção para que os decisores políticos de hoje estão a tomar decisões que afectam a futuro. Um futuro em que já não estarão por aí para responder pelas decisões. Se fosse verdade, seria óptimo. Infelizmente, a julgar pelo tempo de antena dado aos irresponsáveis que puseram Portugal no seu actual estado, desenvergonhadamente continuando nas mesmas argumentações e falácias estafadas, nunca assumindo a responsabilidade pelas asneiras, e desfacetadamente a sugerir que o nada que propõe resolveria alguma coisa, vemos que está errado. Continuam por aí, incluindo o próprio Pacheco Pereira, e nunca se calam.

Vá lá, vá lá, prolonguem a greve por muito tempo, pleeeeease!

Que o país está a necessitar de boas notícias como esta:

«O presidente da Associação Sindical dos Funcionários da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASF-ASAE), Albuquerque do Amaral, disse à agência Lusa que o sindicato decretou greve para os inspetores poderem participar na manifestação, que tem já confirmada a presença de mais de 100 profissionais de todo o país.

Segundo o sindicato, que representa 204 associados dos 238 inspetores da ASAE, a greve vai afetar toda a atividade operacional da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, como operações de fiscalização, diligências processuais e inspeções baseadas em denúncias, além de ações de formação que estão a decorrer.»

No DN.

Literatices

A propósito desta notícia que o Rui Carmo deu a conhecer pelo sofisticado método de comunicação intra-insurgentes (tecnologia de ponta inventada por nós; estamos presentemente em negociações com uma delegação de terroristas separatistas ossetas e a NASA, a ver quem paga mais, para a vendermos; e, o que será ainda mais revolucionário do que o rearden metal – vou buscar este exemplo porque de vez em quando há que mostrar o devido apreço pelos randianos do blogue -, a invenção da comunicação telepática insurgente is just around the corner; vai ser assim algo parecido com o laran das Darkover novels, livros que eu descobri através de um empréstimo de uma lésbica feminista – o que também fica sempre bem dizer num blogue para verem como eu, afinal, até sou uma pessoa decente, tolerante, progressista, não-obscurantista e mais uns adjetivos que se aplicam àquelas pessoas mesmo, mesmo boas que insultam todos os que não concordam exatamente com elas), venho fazer uma sugestão de leitura aos escandalizados políticos ocidentais – que, para não serem acusados de não fazerem nada perante a anexação pela Rússia dessa milenar possessão ucraniana que é a Crimeia, planeiam congelar umas contas para não fazerem nada parecendo que fazem alguma coisa.

lecarrePara a versão nacional dos escandalizados, há tradução.

(Espero que tenham apreciado o meu esforço na escrita de uma frase cujo tamanho qualificaria de saramáguico se isso não fosse insulto que uma qualquer frase bem intencionada não merece.)

Dear Vladimir, I Speak Russian Too. Please Send Troops!

Volgda newspaper editor Roman Romanenko: "We all totally speak Russian here, and our rights are frequently violated."

Se a carta chegar a Putin, acredito que a lerá. Roman Romanenko também tem esperança.

“We’ve learned that you want to send troops to Crimea to defend the rights of the Russian-speaking population,” Romanenko typed. “In relation to that, we have a big request — to send troops into Vologda. We all totally speak Russian here, and our rights are frequently violated.” (…) “You’re planning to spend a lot of money to normalize life in Crimea,” he hinted gingerly. “I hate to ask, but is there any chance you could spend that money on normalizing life in Vologda?”

Adenda: Mudei de opinião. Na Crimeia, finalmente há justiça. Tem um nome e 33 anos.