Carlos Silva fica no “Novo Banco” ou no “BES mau” ?

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Líder da UGT “preocupado” com 7000 postos de trabalho do BES

UGT: Governo diz que garante postos de trabalho do BES

Antes de ser candidato à UGT, o novo líder falou com Ricardo Salgado

“Fiz questão de ter uma reunião com o doutor Ricardo Salgado, a quem transmiti, de forma transparente, a minha intenção”. Segundo afirmou, Ricardo Salgado, “enquanto presidente da Comissão executiva do BES, desejou-me sorte e disse que era também um fator de prestígio para o BES ter um dos seus colaboradores como secretário-geral da UGT”.

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O 3º round da ‘narrativa’ sobre o desastre de supervisão do BES

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Eu até queria escrever sobre outras coisas, mas o mundo não deixa.

Nos últimos dias tenho ouvido e lido um choradinho (o último foi hoje nos poucos minutos – que a sanidade mental e o senso e o gosto não permitem aguentar mais do que uns poucos minutos seguidos dos comentadores televisivos – em que ouvi Marques Mendes) sobre a tremeeeeeeeenda injustiça que se está a fazer a Carlos Costa, coitadíssimo, que é ‘só’ governador do banco de Portugal, enquanto que o criminoso-mor Salgado está a passar pelos pingos da chuva. E, meus caros, deixem-me que vos diga que esta argumentação é indecorosa.

Salgado cometeu crimes enquanto administrador do BES? De tudo o que se tem lido, sim, e espero que, confirmando-se o que se tem escrito, os pague bem caros em pena de prisão. Algo que duvido que suceda porque quem faz o que faz nas várias empresas dos Espírito Santo não deixará de ter colecionado podres que pressionem outros poderes, pelo que, depois de atiçarem a fúria popular contra Salgado (para proteção própria), o poder político (e judicial) não deixará de promover a absolvição de Salgado.

Mas vamos ao Banco de Portugal. Eu sei que há muito para aí, dado o que argumentou por estes dias, quem acha normal e até gosta de ser enganado pelo estado (desde que o autor do engano seja o PSD). Esses estão way round the bend e nem vale a pena discutir esta questão com eles. Mas, aos restantes, dizem-me sff para que raio existe o regulador e supervisor bancário BdP? Não é precisamente para acautelar as situações que sucederam? É que se partirmos do princípio que sempre que há gestão danosa nos bancos o BdP nada consegue ver, nada consegue fiscalizar, nada consegue evitar, para que andamos a gastar dinheiro com a inutilidade? E o que está um senhor tão sério e eficiente como Carlos Costa (segundo os maluquinhos) a fingir que tem alguma utilidade, só para receber todas as benesses de ser governador do BdP? Uma pessoa séria não aceita estar a fingir que pode ser eficaz quando é apenas decorativa, pois não? Ainda para mais num caso em que mais perigoso do que não haver nenhuma regulação é não haver nenhuma regulação enquanto se assegura que sim, que há regulação e que esta é confiável; é dizer aos mercados que podem ter confiança em vez de dizer aos mercados que estão inteiramente por sua conta e que tomem as decisões com base nisso.

E há ainda outro ponto. Salgado pode ter cometido crimes, mas quem tinha a obrigação de zelar pelos interesses dos cidadãos portugueses era Carlos Costa, não Salgado. Por isso faz todo o sentido – e só num país de imbecis funcionais não será assim – que os cidadãos peçam explicações a quem os devia defender de por que não o fez.

A defesa (indefensável) de Carlos Costa está a ser feita evidentemente pelo governo, que também não quer ter sobre si o ónus de ter mantido em funções e ter até apoiado um governador do BdP que sabia que Salgado montou um esquema fraudulento no GES e o deixou continuar à solta no BES. Pior: deixou-o à solta no BES sabendo que tinha o tempo contado e que se havia maroscas para fazer, era fazê-las depressa. (A propósito: alguém se lembrou de testar o QI de Carlos Costa?) E a ver vamos se ministra das finanças e primeiro-ministro não sabiam também do ‘esquema fraudulento’ do GES e não foram cúmplices da manutenção de Salgado no BES. E evidentemente que sabiam, porque se Carlos Costa não lhes tivesse dado uma informação dessa relevância, tê-lo-iam demitido de imediato ao conhecê-la. Mas mesmo que num cenário impossível Costa não os tenha informado, certamente que Salgado informou o pm quando lhe foi pedir ajuda para o banco.

Ou seja: MLA e PPC, com toda a probabilidade, sabiam e foram coniventes com o contágio que Salgado estava a fazer ao BES dos problemas financeiros do GES. É para os salvar que se tenta convencer que Costa não podia ter feito mais.

É por isso que o primeiro spin da nacionalização do BES foi a suprema coragem que este governo teve de sacrificar os acionistas – essa gente ávida de dinheiro e burra que não tinha visto aquilo que era evidente para todos. Isto vem da estupidez ancestral (porque nunca lhe traz ganhos eleitorias nenhuns) do PSD – não resiste a mostrar as suas credênciais de partido esquerdista – e do uso que contavam fazer da proverbial inveja dos portugueses por quem tem dinheiro. Saiu-lhes o tiro pela culatra, porque se os contribuintes (até ver) e os depositantes ficaram aliviados por não serem (ainda mais) sacrificados, também entenderam bem que a maioria dos acionistas não tinha qualquer responsabilidade na gestão do BES e que tinha sido enganada à grande pelo supervisor (e governo), sobretudo na pornográfica vergonha que foi a permissão do último aumento de capital do BES.

O segundo spin foi lembrar que o culpado era Salgado, não Costa. Também não colhe e já referi algumas razões.

O terceiro spin, aparentemente, é culpar o BCE. (Não sei que contorcionismo vão adotar agora aqueles que até ao momento garantiam que a opção tomada fora boa, quando pelos vistos a nova ‘narrativa’ vai ser ‘a solução foi má mas fomos obrigados’.) Mas esta terceira ‘narrativa’ é ainda mais surreal, porque veio através de um escritório de advogados.

E aqui chegados, é o momento de lembrar que um dos (muito) poucos méritos deste governo era não ser o governo sócrates, quando aconteciam coisas que nos punham permanentemente de queixo caído. Mas até esse mérito este governo conseguiu destruir. Porque, lamento, mas ter: a) um governador do BdP que mantém na administração de um grande banco nacional quem sabe ter montado um ‘esquema fraudulento'; b) um pm e uma ministra das finanças que não demitem Carlos Costa, ou o convencem a demitir-se, ao saberem de tão grave incompetência do governador do BdP; c) os mesmos pm e ministra das finanças estão a banhos descontraidamente e agem como se tudo tivesse sido uma mera questão técnica que nada os implicou (apesar da mudança de leis à pressa para Costa implementar a sua decisão) e d) finalmente aparecer uma ata do BdP (sabe-se lá se verdadeira) numa newsletter de um escritório de advogados a apontar o novo culpado – bem, ter tudo isto é demasiado socrático para o meu sensível paladar. É que para ter o nível de falta de vergonha de sócrates de imitação, mais valia termos continuado com o sócrates verdadeiro. Eu, nos políticos como nas carteiras, prefiro sempre o original.

BCE obrigou Banco de Portugal a agir no caso BES

A confirmar-se, creio que a notícia só reforça o que escrevi aqui, em particular a parte relativa ao vilão: Banco Central Europeu obrigou Portugal a enterrar o BES

A decisão portuguesa de partir o BES foi forçada pelo Banco Central Europeu (BCE). Após a publicação dos enormes prejuízos do Banco Espírito Santo no primeiro semestre de 2014, na ordem dos 3500 milhões de euros,o BCE reagiu na sexta-feira 1 de agosto. Suspendeu o estatuto de contraparte que era devido ao BES e exigiu o reembolso imediato de 10 mil milhões de euros até ao fim do dia útil seguinte — 4 de agosto, segunda-feira.

Leitura complementar: BES: o bom, o mau e o vilão.

Imaginem que Ricardo Salgado fala

Um artigo em aparente forma de aviso: O pior dos pesadelos. Por Paulo Baldaia.

Imaginem que Ricardo Salgado, tocado pelas santas palavras do Bispo de Roma, resolve redimir-se do seu capital pecado e confessar o carácter diabólico que presidiu às suas relações nas últimas décadas. É que não há banco do regime sem regime, nem regime sem titulares do poder, nem corruptores sem corruptos. Nós sabemos como, entre as migalhas e os grandes banquetes, muita gente comeu à mesa do último banqueiro.

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A preocupante perda de memória de Carlos Costa

Creio que serei insuspeito de simpatias políticas com o deputado João Galamba, mas nesta intervenção colocou várias questões relevantes a Carlos Costa, que lamentavelmente se mostrou genericamente incapaz de responder de forma satisfatória.

Carlos Costa: “Eu não referi fraude”, após a interpelação de João Galamba

“por último, gostaria de deixar uma nota que me parece importante, eu diria mesmo muito importante, para perceber os desenvolvimentos do bes ao longo do ultimo ano. o ges, através de entidades não financeiras e não sujeitas à supervisao do banco de portugal e situadas em muitos casos em jurisdições que são de difícil acesso, desenvolveu um esquema de financiamento FRAUDULENTO entre empresas do grupo.”

Um par improvável (ou: regressando a coisas interessantes)

Já andei a publicitar isto noutros lados, mas seria um crime de, sei lá, genocídio literário não o partilhar também aqui. Mundo (ou, como sou obrigada a dizer quando tenho de apresentar as crianças cá em casa, ‘senhoras e senhores, meninas e meninos, bebezinhas e bebezinhos’ – e isto apesar de eu ser a única xx neste lar): apresento-vos Adam Smith ao encontro de Jane Austen. Confesso que não entendi as relações que se podem estabelecer entre A Teoria dos Sentimentos Morais e os livros da Jane. As heroínas dos seus livros (tirando Emma Wodehouse) são todas umas destituídas da vida que querem, mais que tudo, casar com um homem rico. E casam. Por amor, evidentemente, ou não fossem romances jorgianos ‘by a lady’ (que foi como inicialmente se publicaram). Também se pode dar o caso de ser mais um exemplo daquela descrição da aristocracia britânica que a Nancy Mitford faz no Noblesse Oblige, com encantadora parcialidade: os aristocratas britâncicos costumam casar com quem estão apaixonados e calha que se apaixonem por pessoas ricas. Mas, lá está, a Lizzie (do Pride and Prejudice) só começa a perceber (e a apaixonar-se) por Mr Darcy depois de ver Pemberley – i.e., de perceber quão rico Mr Darcy era. E a Fanny de Mansfield Park, quando volta a casa dos seus pouco abonados pais, depois de viver com os tios ricos, também conclui que há grandes incómodos na falta de dinheiro.

Claro que para redimir tanto amor pelo vil metal, lá temos a Lizzie que recusa as propostas de casamento de Mr Collins (o herdeiro da propriedade do seu pai) e de Mr Darcy, sabendo que este é rico mesmo que não saiba quão rico. E a Elinor de Sense and Sensibility também não se incomoda que o seu Edward Ferrars perca a sua herança para poderem ter o seu felizes para sempre. (E a própria Jane Austen recusou pelo menos uma proposta de casamento, sendo que tinha ainda menos dinheiro do que as suas heroínas.)

Mas isto não interessa nada, só quem tem a mania de ser crítico literário mas não percebe patavina do assunto pode desgostar de ler sobre Jane Austen e Adam Smith, emparceirados ou não. Em todo o caso, este texto foi motivo para arrumar as estantes. A Jane Austen estava ao lado da Nancy Mirford, do Evelyn Waugh, do Thackeray, do Dickens (e dos livros do Harry Potter) e A Riqueza das Nações e A Teoria dos Sentimentos Morais estavam perdidos no meio dos livros de Economia. Finalmente estão reunidos.

O BES, o risco para os contribuintes e a credibilidade de Maria Luís Albuquerque

Não sei quanto tempo conta Maria Luís Albuquerque continuar como Ministra das Finanças mas, independentemente dessa variável (explicativa?), faria bem em parar de dizer que “não há qualquer risco” para os contribuintes associado ao resgate do BES.

Pode eventualmente até vir a não haver custo para os contribuintes. Mas risco obviamente que há. E não é pouco.

Ondas de choque BES na PT

PT pede auditoria para “apurar todas as responsabilidades” sobre investimentos no BES

Objetivo é avaliar como evoluíram as relações financeiras entre a empresa e o Grupo Espírito Santo desde abril de 2000, data da assinatura da parceria estratégica entre as duas partes.

PT confirma saída de Granadeiro e marca AG para 8 de setembro

A Portugal Telecom confirmou a renúncia de Henrique Granadeiro aos cargos que ocupava na operadora, tendo marcado para 8 de setembro a assembleia geral de acionistas onde vai ser votado o novo acordo de fusão entre a PT e a Oi.

O custo dos bancos para os contribuintes – um resumo

Com o anúncio da devolução de parte do empréstimo obrigacionista do Estado ao BCP, fica aqui um resumo actualizado do custo dos bancos para os contribuintes desde 2008. Esta exposição é dividida em 3 categorias de risco por ordem decrescente: capital, obrigações convertíveis (Co-Cos) e empréstimos ao fundo de resolução. Por exemplo, os 4,4 mil milhões de exposição ao Novo Banco implicam um risco bastante mais baixo de injecções directas de capital. Ou seja, há uma maior probabilidade do capital ser recuperado no caso do BES do que no caso das injecções de capital na Caixa, no BPN (já perdido) ou no BANIF.

Bancos

Crime e castigo. Ou, se quiserem, chamem-lhe karma.

1. Por estes dias houve um fartote anti-acionistas e anti-investidores que um observador desatento terá pensado provir do PCP. Mas não, veio da áera política do governo, supostamente de direita. E se pensam que este enjoo e desprezo pelas pessoas que são capazes de investir e de arriscar, que caiu que nem ginjas no país pequenino, invejoso, avesso ao risco e que não suporta o sucesso alheio que somos, proveniente da áera política onde era suposto estas pessoas serem valorizadas, não vai sair cara, desenganem-se.

Nos últimos dias houve uma radical atualização dos dicionários. ‘Acionista’ passou a significar ‘criaturas imorais que querem ganhar dinheiro à conta da especulação financeira, desprovidas de qualquer noção de prudência, ignorantes e imbecis que não se informam sobre as empresas onde investem e, simultaneamente, ignorantes e imbecis por se informarem e aceitarem como boa a informação de reguladores e governo que são quem tem a melhor informação; ainda: gente que merece tudo de mal e é bem feita que regulador lhes tenha mentido para aprenderem a não se julgarem melhores do que os outros e capazes de arriscar e ganhar dinheiro’.

Poupanças, em vez de significar a proção do rendimento com que as famílias ficam depois das suas despesas de consumo, passou a significar não sei bem o quê, talvez umas notas que se enfiam numa peúgas velhas e se escondem num fundo de cómoda, porque o dinheiro que se gasta na compra de ações não é ‘poupanças’ – será certamente proveniente de transferências interplanetárias de marcianos bondosos.

Posto isto tudo, pergunta 1: Portugal (e pelos vistos a UE ao assumir o modelo BES para salvar bancos) tornou a compra de ações de bancos um negócio mais arriscado (e dos outros setores também, porque se intitucionalizou a arbitrariedade estatal e a expropiração como princípio de governo). Logo, os investidores só vão aplicar as suas tais transferências interplanetárias se a rentabilidade esperada tiver também aumentado. Julgam que isto não vai – mesmo depois dos mercado acalmarem do choque BES – tornar mais difícil a capitalização dos bancos?

Pergunta 2: acham que o dinheiro que os investidores aceitam alocar à compra de ações de um banco (tornando-se assim acionistas, essa gente moralmente viciada que joga na bolsa e que Ribeiro e Castro certamente também reprovará) não influencia decisivamente a capacidade dos bancos de financiar a economia? Aquela coisa que é necessária para o crescimento económico?

Continuem a destratar e a desvalorizar como se destrata e desvaloriza em Portugal – e nos últimos dias se exponenciou, e à direita – quem tem capacidade e vontade de investir e depois queixem-se. Continuem a pensar que quem tem dinheiro para investir fica cá a insistir que os deixem investir e a pedir que os tratem bem e que gostem deles, em vez pegar as poupanças/transferências interplanetárias e as investir onde estas sejam bem acolhidas, e depois espantem-se com o resultado que andam a cozinhar.

2. A solução da semana passada foi a melhor ou, sequer, a possível para os cidadãos como um todo? Não sei. Sei que não confio em Carlos Costa, nem em Maria Luís Albuquerque nem em Passos Coelho. O primeiro está a ver se se escapa da imagem de incompetência, incúria, negligência, etc. que adotou nos últimos tempos face ao BES. Os segundos estão a tratar da sua imagem política e são tolos o suficiente para julgarem que uma expropriação lhes trará votos à esquerda, e para confiarem que a imagem de implacáveis lhes ganhará o apreço dos eleitores. E todos enganaram os mercados – e os cidadãos – sobre a situação do BES.

salmão(A imagem é da próxima encarnação do trio maravilha do parágrafo acima: salmões de aquacultura.)

O que é o PSI20?

O PSI20, um índice das maiores empresas cotadas que deveria representar a saúde do capitalismo em Portugal, é o melhor reflexo de que, na verdade, ele nunca existiu. Das 20 empresas que compõem o índice:

- 2 estão suspensas (BES e ESFG)
– 3 outras são bancos (BCP, BPI e BANIF), o sector mais regulado e neste momento com forte presença pública no capital
– 2 empresas de construção (Mota-Engil e Teixeira Duarte), fortemente dependentes do estado e das obras públicas para a sua sobrevivência (hoje menos que há uns anos)
– 4 empresas de energia (EDP, EDPR, GALP e REN), antigos monopólios estatais, num outro sector hiper-regulado, com preços controlados e cujos resultados dependem bastante da benevolência do regulador e legislador
– 2 empresas de telecomunicações (PT e NOS), num outro sector com preços e parte da estrutura de custos definidos pelo regulador
– Os CTT, outro anterior monopólio estatal

Ou seja, 12 das 18 empresas ainda cotada do PSI20 têm o seu futuro dependente de decisões política, regulatórias ou não existiriam não fosse a privatização de monopólios estatais. Continuemos a olhar para as 6 que faltam:

- Impresa, uma empresa que não me recordo ter alguma vez distribuido dividendos e cujo valor total está, digamos, fora do balanço
– As 2 empresas de distribuição: SONAE e Jerónimo Martins. Tivemos que passar por 15 empresas até chegarmos às duas primeiras que se assemelham a algo parecido com capitalismo. Empresas de capital privado e construídas de raiz por privados. Um sector regulado quanto baste, mas cujos resultados operacionais dependem mais do mérito da gestão do que da vontade política ou da regulação.

Um ponto em comum das 17 empresas revistas até agora? Os seus resultados em Portugal dependem exclusivamente do mercado interno (empresas como a Jerónimo Martins já têm grande parte do seu valor fora do país, mas os seus resultados em Portugal continuam a depender do mercado interno). São 17 em 20, e representam 95% do valor do índice. Sobram 3 empresas exportadoras, todas elas ligadas à silvicultura: Portucel, Semapa e Altri. Apenas 3 empresas cujos resultados das operações em Portugal não dependem exclusivamente da procura interna. Não estamos aqui a falar dos EUA ou a China, países com grandes mercados internos. Estamos a falar de um país com 10 milhões de habitantes, que faz parte dos grandes acordos de comércia internacional, mas que só consegue ter grandes empresas se dependerem do mercado interno e, em grande parte dos casos, directamente do Estado.

Há quem chame a isto capitalismo.

O estado está demasiado ocupado para poder vigiar bancos

O meu texto de hoje no Observador, surripiando histórias ao Helder.

‘Há dois organismos estatais pelos quais eu nutro um amor desmedido: a ASAE e a Autoridade para as Condições de Trabalho. São duas ‘autoridades’ (só o nome incita à rebelião) dedicadas à mais nobre função do estado português: multar empresas – mesmo (ou sobretudo) quando as empresas não têm comportamentos lesivos para consumidores ou trabalhadores. Manda a seriedade dizer aqui que por ‘comportamentos lesivos’ não estou a considerar a definição de ‘lesivo’ do estalinista médio, para quem a mera existência de empresas e consumidores já é lesiva.

Para ilustrar a ASAE socorro-me de casos que o blogger Helder Ferreira contou sobre clientes seus que foram multados aos milhares de euros. Os pecados fulminantemente mortais? As etiquetas do preço de umas carteiras estavam dentro das próprias carteiras, um sinal de proibido fumar estava pousado num móvel em vez de afixado na parede e óculos exibidos num expositor fechado cuja etiqueta com o preço (são pequeninas) não era visível fora do expositor.’

O resto está aqui.

Parque Jurássico

bes_paginaHans Monderman não gostava de sinais de trânsito. “Uma estrada com muitos sinais”, dizia este antigo engenheiro responsável pelo planeamento de trânsito de uma região holandesa, “conta uma história: está a dizer, força, não se preocupem, andem tão depressa quanto quiserem, não há necessidade de prestarem atenção”. Quanto mais seguras as pessoas se sentirem, argumentava Monderman, mais descuidadas se tornam: se lhes retirarem os sinais de trânsito das estradas que lhes dizem que podem estar á vontade, elas terão de prestar mais atenção ao que está á sua volta, e consequentemente adoptarão uma postura mais cuidadosa. O comportamento humano arriscado e perigoso, pensava Monderman, é muitas vezes um produto de nos ser dito que não temos nada a temer.

É um princípio que se pode aplicar, não apenas às estradas da Holanda, mas ao sistema financeiro. Imaginemos – e não é preciso grande esforço da nossa parte – que sempre que um banco, fruto de opções ruinosas da sua gestão, fica à beira da falência, o Estado corre a salvar o banco de semelhante destino. Será que os outros bancos passariam a adoptar um comportamento prudente, ou sentir-se-ão à vontade para arriscar – e pôr em risco todo o sistema – sabendo que, em última análise, o Estado estaria sempre pronto a amparar eventuais quedas?

No seu livro The Ascent of Money, o historiador Niall Ferguson escreve a dada altura que “a história financeira é essencialmente o resultado de mutação e selecção natural institucional”, um processo de “especiação e destruição criativa”: tal como no mundo natural, alguns exemplares da espécie bancária estão melhor adaptados ao ambiente em que vivem do que outros. Os que estão melhor adaptados conseguem sobreviver, ou até prosperar, enquanto os outros irão falhar e entrar em falência. Se aqueles que forem “too big too fail” forem salvos pelo Estado depois de entrarem em crise e nenhum privado tiver condições de pegar neles e salvá-los, mesmo depois de ter ficado evidente que deixaram de estar “adaptados” ao “ambiente” em que vivem, estaremos a dizer que não há uma necessidade prévia de fazerem um esforço de “adaptação” a esse “ambiente”; estaremos a dizer a todos os bancos que não precisam de ser bem geridos para sobreviverem. E “sem a destruição completa” das “existências irremediavelmente associdadas à inadaptação”, uma economia não ficará em bom estado. Se dissermos aos que são ao mesmo tempo “too big to fail” e “too bad to succeed” que “vamos salvá-los aconteça o que acontecer”, ninguém terá um incentivo para não se comportar da forma que os fez serem incapaz de serem bem sucedidos. E todo o sistema ficará parecido com um conhecido filme de Steven Spielberg.

Não sei avaliar se a solução encontrada para os problemas do Banco Espírito Santo transformado em “Novo Banco” é boa ou não. Mas sei que um dos critérios para a avaliar terá forçosamente de ser o de qual é a mensagem que ela passa para o sistema: se está a dizer, como os sinais de trânsito que Monderman criticava, “não têm nada com que se preocupar”, ou pelo contrário, se diz “é melhor que olhem à vossa volta e tenham cuidado”.