3 falácias sobre a Zona Euro

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Três ideias viraram pressupostos imutáveis, nunca questionadas, na discussão pública sobre a Zona Euro que sucedeu à crise das dívidas soberanas. São elas: 1) os Estados soberanos membros de uma zona monetária não podem/não devem falir; 2) uma união fiscal e/ou política preveniria a sua falência; 3) a Zona Euro não é óptima, pelo que não pode funcionar. São as três falsas.

  1. Os Estados soberanos devem falir

Os Estados soberanos podem e devem falir, assim limpando o seu balanço e começando de novo. O problema da falência no actual quadro institucional da União Europeia é que a falência do Estado soberano iria implicar a imediata insolvência da banca doméstica, e por sua vez uma necessidade de recapitalização. Vejamos porquê. Para que um banco possa solicitar liquidez ao Banco Central, este tem de ceder como colateral títulos de dívida pública do Estado soberano onde constituiu personalidade jurídica (*). Caso não os tenha, tem de os adquirir. Ora, se a taxa de juro desses títulos subir (i.e., o preço dos títulos baixou), isto irá gerar imparidades no balanço dos bancos. Por conseguinte, para que estes cumpram os rácios de capital serão obrigados a consolidar e a ceder menos crédito. A contracção do crédito arrefece a economia pelos canais habituais, reduzindo a receita fiscal e aumentando o défice orçamental, pondo em causa a sustentabilidade da dívida pública. Os juros sobem. Este círculo vicioso entre risco soberano e risco bancário, ou «loop diabólico», como Teixeira dos Santos gostava de lhe chamar nas suas aulas, é fruto, não da ausência de uma união política ou fiscal, mas sim da ausência de uma união bancária.

  1. Uma união fiscal e/ou política não previne a falência de um Estado

Os Estados Unidos conseguiram sobreviver sem uma união fiscal durante 140 anos, entre 1790, ano da criação do dólar, e 1930, e com uma união política em constante evolução. A união fiscal, atenuando embora o efeito de alguns estabilizadores automáticos no défice, como por exemplo os subsídios de desemprego, não resolve insolvências que resultem de problemas estruturais. Com efeito, e esquecendo Porto Rico, que é um Estado sem personalidade jurídica, a cidade de Detroit foi à falência, e o Estado de Illinois também poderá ir à falência. Lá como cá, o Banco Central não pode socorrer (bailout) um Estado. No entanto, a falência de um Estado nos EUA não implica que este tenha de sair da federação e efectuar pagamentos numa nova moeda. Porquê?

Porque, ao contrário da União Europeia, existe uma união bancária. Assim, os bancos não estão vinculados a um Estado soberano, e não estão obrigados a adquirir títulos de dívida pública de um soberano em particular por forma a obter liquidez junto do Banco Central. Ou seja, não existe perigo de bank run no caso de uma falência do soberano. Para que isto seja possível teria de ser instituída uma união bancária na Zona Euro, assim permitindo que qualquer residente europeu abra uma conta bancária em qualquer país da união sem requerer burocracia ou autorizações adicionais, e deixando de exigir que os bancos comprem títulos de dívida pública. Mais ainda, o Estado soberano deixaria de ser capaz de taxar os depósitos (bail in) ou alterar a moeda desses depósitos (do Euro para o Drachma, por exemplo).

Nestas circunstâncias, a falência do Estado grego conduziria apenas à necessidade de este ter saldos primários. Os bancos continuariam a operar normalmente, assim como o restante sector privado. Obviamente que existiria um impacto económico na falência do Estado, mas este não teria repercussões financeiras tão graves como a total desestabilização e potencial insolvência do sector bancário.

  1. A Zona Euro não é óptima

Segundo os critérios de optimalidade de Robert Mundell — o que inclui uma união fiscal, a inexistência de barreiras à migração, entre outros —, a Zona Euro não é uma zona monetária óptima. Mas isto não implica que uma zona sub-óptima seja disfuncional ou que não seja benéfica para os seus membros. Aliás, que sistema económico ou social funciona tal e qual como definido num equilíbrio Walrasiano? Os próprios EUA têm vários Estados que não cumprem os requisitos estipulados por Robert Mundell.

No entanto, sabemos o que a Zona Euro permite — que os países-membros reduzam os custos de transacção, em particular o risco cambial, promovendo as transacções no mercado europeu. Permite também evitar que Estados abusem da alavanca da desvalorização cambial como forma de «resolver», ainda que de forma meramente ilusória, problemas de competitividade. Se a taxa de câmbio fosse solução para alguma coisa, a Grécia dos anos 80 ou 90 teria crescido exponencialmente e exportaria carros para Estugarda. Tanto assim não foi, que o crescimento pré-Euro da Grécia foi muito inferior ao crescimento pós-Euro, embora a Grécia e também Portugal não tenham sabido aproveitar a redução dos custos de financiamento que o Euro trouxe.

(*) Nota: após a crise financeira de 2007-08, o BCE criou um mecanismo que alargava o leque de activos que aceita como colateral para ceder liquidez. Esta operação foi semelhante ao Quantitative Easing, iniciado em Março de 2015, com a diferença que é estéril, isto é, não aumenta o balanço do Banco Central. No entanto, dado isto não ser um mecanismo convencional dos BCs, não substitui uma adenda aos estatutos do BCE, permitindo que, de forma permanente, os bancos não sejam obrigados a comprar títulos de dívida pública do próprio país (ht LT).

Novo Banco, desemprego & crescimento económico

A estatística é o que um socialista quiser. Os meus debates com o Marco Capitão Ferreira estão a ficar cada vez mais interessantes.

O lobby rentista dos manuais escolares

Um excelente texto de António Araújo sobre o escandaloso lobby rentista – patrocinado pelo Estado, como geralmente acontece nestes casos – dos manuais escolares “oficiais”: 42,70 €.

Os «cadernos de exercícios» ou «cadernos de actividades» são uma, entre muitas, das habilidades deste negócio milionário. O Ministério, no seu site, indica apenas o preço do manual. Mas depois todos os professores exigem o «caderno de actividades», sem o qual a aprendizagem da matéria é impossível. Sei bem que, nos termos da lei, é proibido obrigar a compra em conjunto do manual e do caderno de actividades. Também sei que quem já tenha o manual pode comprar só o caderno de actividades, ou vice-versa. Mas porque é que o MNE não publicita também o preço dos cadernos de exercícios e de actividades? No caso da Biologia, o livro custa 32,74€. Mas, depois, o «manual de auto-avaliação» carrega a factura com mais 9,96€.

Aliás, a pouca-vergonha é tanta que, regra geral, manuais e cadernos de actividades vêm ambos embrulhados no mesmo celofane. Se vou ao balcão de uma papelaria e peço «o livro de Biologia do 11º ano», entregam-me o manual mais o caderno de actividades, tudo por atacado. Chamam-lhe «bloco pedagógico». E depois apresentam a conta: 42 euros.

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A falácia do contributo do consumo e do crédito para o crescimento do PIB

Imagine o leitor que de um ano para o outro acontecia o seguinte na economia portuguesa:
1. Os portugueses consumiam mais 200 milhões de euros de carros importados
2. A corticeira Amorim vendia mais 100 milhões de euros em cortiça

O que aconteceria ao PIB neste caso? Seguindo a fórmula mais conhecida do PIB (Consumo Privado (C) + Consumo Público (G) + Investimento (I) + Exportações (X) – Importações (I)), o PIB cresceria os 100 milhões de euros correspondentes ao aumento de exportações da corticeira Amorim. O aumento do consumo em 200 milhões era totalmente eliminado pela parcela importações, já que todos os produtos foram importados. Intuitivamente, não é complicado perceber que o consumo de 200 milhões em carros importados não tem nenhum efeito na riqueza produzida no país. Também não é difícil perceber que produzir mais 100 milhões de euros em cortiça, aumenta o tamanho da economia portuguesa.

Se o leitor, principalmente se não for economista, percebeu a explicação simples do parágrafo anterior, ficará surpreendido de saber que para o INE não é bem assim. Na análise à situação anterior, os relatórios do INE diriam que o crescimento de 100 milhões da economia ocorreu graças a um contributo positivo do consumo no valor de 200 milhões de euros e negativo da procura externa líquida no valor de 100 milhões de euros. Isto acontece porque o INE não desconta à procura interna o valor dessa procura que resultou em importações, fazendo com que todo o peso do aumento das exportações recais sobre a categoria “procura externa líquida”. Esta confusão metodológica tem efeitos relevantes na discussão política e dá azo a demagogia de todo o tipo. Pior que isso: faz com que, por natureza, a procura interna contribua sempre positivamente para o crescimento do PIB em alturas de crescimento, dando a ideia aos mais desatentos que a única forma de crescer é estimulando a procura interna.

Para corrigir esta situação, o Banco de Portugal alterou a sua metodologia de cálculo dos contributos para o PIB. Em vez de subtrair o valor das importações apenas ao contributo das exportações, aloca parte das importações ao consumo interno. No caso acima, como todo o aumento das importações se deveu ao consumo, as importações seriam subtraídas alocadas ao contributo do consumo fazendo com que fosse, acertadamente, zero. Uma grande diferença em relação ao que é reportado no INE.

A diferença entre usar uma metodologia acertada (a do Banco de Portugal) e uma completamente enganosa (a do INE) é gritante. Em 2014, por exemplo, o INE refere um contributo da procura interna para o crecimento do PIB de +2,0pp e o Banco de Portugal de apenas +0,3. Sete vezes menos! Da mesma forma, enquanto o INE reportou um contributo da procura externa líquida de -1,1pp, o Banco de Portugal fala num contributo positivo de +0,6 das exportações (o dobro da contribuição atribuída ao consumo interno).

Quando ouvirem um político dizer que o crescimento económico se deve ao consumo e ao crédito, lembrem-se desta explicação e dos três gráficos abaixo:

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(Fonte: INE e Banco de Portugal. Primeiros dois gráficos roubados ao João Miranda)

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A culpa é do hambúrguer

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Da página oficial de Facebook António Costa consta a imagem que antecede este texto. Como se a imagem não valesse só por si, a legenda que compõe o resto do post rebenta com a escala de confiança. E reza assim a legenda:

“António Costa e Fernanda Tadeu casaram há 28 anos. Não houve festa mas sim um hambúrguer rápido no Abracadabra na Rua do Ouro com os padrinhos Diogo e Teresa Machado, antes de seguirem viagem para Veneza em lua-de-mel. António sempre soube gerir a sua vida pessoal e profissional e Fernanda tem sido o seu maior apoio.”

Infelizmente para a confiança ganha com este monumento de comunicação, o post do hambúrguer no dia de casamento de António Costa desapareceu por questões técnicas.

Como a confiança merece ser apoiada, nacionalizei a imagem ao Telmo Azevedo Fernandes. Que faz justiça aos protagonistas.

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“Governo quer obrigar portugueses a pagarem leite mais caro”

Milk Numa visita a Chaves, o Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho veio dizer que o seu Governo está a procurar “sensibilizar a União a Europeia para a necessidade de ter uma alteração dos preços de referência” do leite, para assim impedir que “preços anormalmente baixos possam ocorrer”. O que são preços “anormalmente baixos” e o que os distingue de preços “normalmente baixos” ninguém sabe, muito menos o Primeiro-Ministro. O que ele sabe, e bem, é que os produtores de leite portugueses, parte integrante da “lavoura” tão querida do CDS e que este não se cansa de procurar proteger, dizem estar a viver uma “situação dramática” com a queda dos preços que se tem verificado desde o fim das quotas anteriormente estabelecidas pela União Europa. E sabe ainda melhor que estes lhe agradecerão todos os esforços no sentido de “corrigir” o problema.

Sem promoções no Pingo Doce para condenar, a Ministra da Agricultura logo veio consolar os produtores de leite, dizendo que a “preocupação” do Governo era fazer com que o preço do leite “pudesse subir”, para que assim fosse “efetivamente um mecanismo regulador, que neste momento entendemos que não está a ser”. Reunida com os seus congéneres de Espanha, Itália e França, Cristas explicou que iriam pedir na Europa “um aumento dos preços de referência, que permitem retirar produto do mercado quando o produto está em excesso – e que está a pressionar o preço para baixo – e com isso ajudar a regular o preço do próprio produto”. A crer no seu passeio a Chaves e o que lá disse, o Primeiro-Ministro dá o seu aval, e mais uma vez (não têm sido poucas) demonstra o quão infundadas são as acusações de que se trata de um “ultraliberal”.

Traduzidas do “politiquês” que esta gente adoptou em detrimento da língua portuguesa, as palavras da Ministra da Agricultura querem dizer apenas o seguinte: uma vez removidos os obstáculos à produção e venda do leite, a oferta do dito produto aumentou, e a procura por ele não foi suficiente para que quem o vende o fizesse a preços mais altos que aqueles que se têm verificado; legítima e compreensivelmente preocupados com a sua vida e o seu ganha-pão, os produtores agradecem que o poder político, sediado em Lisboa ou em Bruxelas, arranje um mecanismo que permita diminuir a concorrência que enfrentam, e assim garantir que possam cobrar preços mais altos pelo que têm a vender; e como a “lavoura” constitui uma dilecta clientela da coligação, esta última não quer deixar de lutar (ou, no mínimo, parecer fazê-lo) para que seja satisfeita a vontade da primeira.

Ou seja, a coligação achou por bem partir para eleições passando (como agora horrivelmente se diz) “a mensagem” de que quer proibir os portugueses de pagarem, pelo leite que compram, os preços baixos que as livres oferta e procura presentemente lhes oferecem; e que se “a Europa” deixar e um número suficiente de eleitores a quiser alçar de novo a São Bento, pretende usar o poder e a lei para beneficiar arbitrariamente um grupo de pessoas em detrimento de outras, pela simples razão de que as primeiras se movimentam melhor que as segundas no mercado da influência política, o único que prospera em Portugal. Tendo em conta o desprezo generalizado da população por todo e qualquer indivíduo que exerça um cargo político, e que por isso convém aos partidos “mobilizarem” os fiéis e clientes a irem votar, já que poucos para além destes estarão dispostos a dar o seu voto a quem quer que seja, a tal “mensagem” talvez seja uma boa ideia como estratégia eleitoral e de manutenção do poder. Mas como modo de o exercer, e princípio de governação, dificilmente poderia ser pior.

A Venezuela não interessa a ninguém (3)

How Hugo Chavez Trashed Latin America’s Richest Economy

Chavez isn’t around anymore, but this is clearly his crisis. He took a country that was muddling along, and put it on course to become a basket case. There are worse kinds of rulers than that — those who massacre their own people or lead their nations into hopeless wars. But in terms of basic macroeconomic management Hugo Chavez has to go down as one of the most disastrous leaders the world has seen quite in a while.

(via Ricardo Valente)

No Fio da Navalha

O meu artigo para o Jornal ‘i’ de hoje.

A pólvora chinesa

As bolsas caíram a pique com as notícias vindas da China. Melhor: com a confirmação de que a economia chinesa se encontra com sérios problemas. O que está a acontecer na China é extremamente importante, não só porque este país é hoje um gigante económico, mas também, e como Miguel Monjardino já teve oportunidade de referir no “Expresso”, ditará os termos de um debate ideológico que terá lugar nos próximos anos.

É que o modelo chinês finalmente falhou. Finalmente, porque era de esperar. Não obstante as experiências históricas passadas, muitos foram os que acreditaram ter a China descoberto uma nova fórmula de desenvolvimento controlada pelo Estado, capaz de sobreviver à crise das economias ocidentais. O desejo da ordem a qualquer preço é a única explicação que conheço para um erro tantas vezes repetido.

A economia chinesa é uma enorme bolha que o poder político planeou a partir de Pequim, subsidiando-a através de estímulos keynesianos por via do banco central e demais bancos politicamente dependentes. Imagine-se a política monetária defendida por Obama nos EUA, e que certa esquerda pretende seja adoptada na Europa, mas para subsidiar empresas com objectivos delineados a régua e esquadro por um comité central sediado em Pequim.

Interessante será também ver o impacto que a quebra na produção chinesa terá nos preços no Ocidente. É que a baixa inflação de que temos beneficiado deve-se em muito aos produtos baratos vindos do Oriente. A inflação tão sonhada pelo BCE e pelo Fed pode tornar-se um pesadelo.

A Venezuela não interessa a ninguém (2)

Being the ex-President’s daughter pays off: Hugo Chavez’s ambassador daughter is Venezuela’s richest woman

Venezuela’s Food Shortages Trigger Long Lines, Hunger and Looting

In a national survey, the pollster Consultores 21 found 30% of Venezuelans eating two or fewer meals a day during the second quarter of this year, up from 20% in the first quarter. Around 70% of people in the study also said they had stopped buying some basic food item because it had become unavailable or too expensive.

Food-supply problems in Venezuela underscore the increasingly precarious situation for Mr. Maduro’s socialist government, which according to the latest poll by Datanálisis is preferred by less than 20% of voters ahead of Dec. 6 parliamentary elections. The critical situation threatens to plunge South America’s largest oil exporter into a wave of civil unrest reminiscent of last year’s nationwide demonstrations seeking Mr. Maduro’s ouster.

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Fé na matemática

O meu texto de ontem no Observador.

‘Quando li esta deliciosa crítica de Alexander Masters ao livro The Universe in Your Hand lembrei-me do famoso e infame modelo macroeconómico do PS com os seus 207.000 empregos em quatro anos. E, nem de propósito, ontem Stephen Hawking contou-nos aquilo em que ‘acredita’: que a informação se transforma em holograma quando passa num buraco negro. O que me deixou muito feliz, uma vez que estou muito familiarizada com todas as possibilidades permitidas aos hologramas, pela via mais óbvia, a das séries infantis que os meus filhos vêem na televisão. Há uma destas séries que tem um avô preso num universo alternativo e cujo vilão atua por meio de hologramas. Acho que amanhã, para as impressionar (há que aproveitar enquanto não chega a adolescência), digo às minha crianças que provavelmente os buracos negros tiveram o seu papel na separação de avô e neto.

Como refere Alexander Masters, há um grupo numeroso de cientistas respeitáveis, ferozmente ateus, deliberadamente descrentes dessas fábulas que são as religiões, cujo intelecto não se contenta com menos do que uma cristalina prova científica. Misturam-se a custo com os simplórios beatos ou new age que acreditam num Deus criador ou numa energia harmoniosa universal com que comunicam através de mantras e meditação. Oferecem a esses beatos e new agers o tratamento merecido: a chacota. E no meio de tanta teoria exótica e improvável, nunca lhes ocorreu ponderar se o apelo espiritual da grande maioria da população mundial é afinal resposta a alguma lei natural ainda não descoberta. Ou se a procura de resposta aos ‘porquê?’ e ‘para quê?’ é, hélas, tão racional como o encantamento que as personalidades científicas têm com a beleza (fria) do ‘como?’, que é ao que a ciência responde.

Em todo o caso, eu, que como católica sou alvo de chacota das personalidades científicas, fiquei satisfeita com o que li dessas teorias (todas mais veneráveis do que qualquer religião) que, entre surpreendentes outros, concebem universos dentro de universos. Porque quando eu era criança vivia fascinada com a imagem do Atlas carregando o mundo nos ombros. (Mal sabia eu que décadas mais tarde faria parte de um grupo que tem no seu cânone um livro chamado Atlas Shrugged.) Bom, a criança Maria João também vivia convencida que o nosso mundo era um brinquedo num mundo de gigantes, tal como os globos terrestres são brinquedos no nosso. Pelo que, dou já aqui como provado de forma cristalina, as imaginações infantis são uma ótima fonte de explicações cosmológicas.’

O resto (até chegar aos números do PS) está aqui.

Ainda sobre os abusos do fisco

Com uns dias de atraso relativamente à publicação, aqui fica o meu artigo mais recente no Observador: Os abusos do fisco não acontecem por acaso.

Respeito!

Apesar dos esforços dos cartazes e cartas do António Costa. Grande Líder só há um. O Kim e mais nenhum.

“‏@DPRK_News
Davos World Economic Forum proclaims 14 traits shared by great leaders. All such traits are possessed by Supreme Leader Kim Jong-Un!”

Compreender o putinismo XXVIII

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Oleg Sentsov é um cineasta ucraniano. Foi condenado a passar duas décadas na prisão por um tribunal militar russo que deu como provadas as acusações de dirigir uma célula terrorista na Crimeia em 2014. Dentro das actividades subversivas dadas como provadas, está o plano de Oleg Sentsov fazer explodir uma estátua de Lenine.

Se descontar as honradas tradições que fazem do Putinismo aquilo que é, achar curioso que um tribunal militar russo profira sentenças sobre uma guerra inexistente, no sentido em que não participou com um único militar e passar uma esponja sobre a natural oposição à anexação russa da Crimeia, ser levado a acreditar que durante o tempo que esteve preso Oleg Sentsov não foi tocado por ninguém das forças de segurança russas e que as queixas de tortura que apresenta são resultado de práticas sadomasoquistas, diria que Oleg Sentsov merecia um louvor.

Solução keynesiana para a crise chinesa

Dentro da lógica keynesiana, uma solução para a crise chinesa seria estimular a procura agregada (armadilha para os keynesianos: não são todas as crises fruto de uma contração da procura agregada?) através do investimento público. Em quê? Bom, em mais umas quantas cidades edificadas inorganicamente. Já têm Paris, falta-lhes Londres ou São Francisco. Seria o equivalente moderno ao atirar garrafas com notas num buraco e convidar as pessoas a destapá-los. Made in China.

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O colapso chinês

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Como tive oportunidade de referir há 5 anos, este livro de Gordon Chang é indispensável para perceber o que se está, e se vai passar na China. A bolha especulativa, os bancos estatais cheios de capital inventado na secretaria e por aí fora. Há anos que se fala do que agora se prepara para acontecer. No fundo, até os chineses sabiam. Ou achávamos nós que a procura do golden visa se devia apenas às casas, ao clima e ao acesso à Europa? A fuga dos mais sabidos começou há muito.

Corbynomics apoiada

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De acordo com a última tendência a Corbynomics é moderada e humana. O fanatismo está na austeridade. Quem o diz é a Academia.

Leituras recomendadas: Retratos de mais um messias canhotoJeremy Corbyn: o messias na graça dos deuses do proletariadoJeremy Corbyn and Daniel Hannan on Socialism

O difícil puzzle das pensões

Reforma das pensões: há soluções técnicas, não há solução política. Por Margarida Corrêa de Aguiar.

Não deveríamos estar condenados à recorrente adopção de ajustamentos avulsos ou paramétricos agravando a iniquidade intergeracional e reduzindo a adequação das pensões sem ultrapassar em definitivo as ameaças à sustentabilidade do sistema de pensões, como tem sido a experiência dos últimos dez anos.

Persistir na pedagogia da reforma estrutural, como não me canso de fazer, funciona como um antídoto, embora reconheça a sua duvidosa eficácia.

O Diabo está nos detalhes

A 10 de janeiro de 2005:
“Sócrates promete criar 150 mil empregos se for primeiro-ministro”

A 19 de Agosto de 2015:
“PS promete a criação de 207 mil empregos até 2019”

A 20 de Agosto de 2015:
“Eu não prometo 207 mil postos de trabalho, eu comprometo-me com um conjunto de medidas de política que tendo por prioridade a criação de emprego têm um estudo técnico a suportá-lo que estima um conjunto de resultados, na dívida, no crescimento, na redução do défice e também no emprego” (…) “convém não confundir promessas com aquilo que são estimativas dos resultados das promessas”

Sobre as “estimativas dos resultados das promessas”, o Carlos levantou já questões pertinentes.
Quanto à criação de emprego, tem António Costa razão em clarificar a diferença face a anteriores candidatos do PS. Ele não pode prometer o que apenas os empresários podem realizar. São eles que investem e criam empregos. Os governos ajudam não expoliando empresários e trabalhadores, saindo da frente, não aumentando mas diminuindo o número e valor dos vencimentos e estipêndios estatais e outros consumos da riqueza e poupança produzidas.
Não tenho a certeza que o PS de 2015 já tenha adquirido total compreensão deste pormenor diferenciador entre o papel do governo e dos empresários.

Corações ao alto

Da exclusiva responsabilidade dos EUA, Israel e restantes mal-intencionados.

The Iranian-Saudi Proxy Wars Come to Mali

In schools, mosques, and cultural centers, Shiites and Sunnis are battling for African hearts and minds.

(…)

Neither Iran nor Saudi Arabia has explicitly promoted violence in Mali. Diabaté, along with his Sunni counterparts, makes it clear that “Shiites, like everyone else, know that extremist groups in the north show no mercy.” Yet the creation of previously nonexistent sectarian identities for political ends leads to divisions that become associated with political agendas.

Imam Baba Diallo, another member of the High Islamic Council of Mali, said he wants to organize interfaith dialogue between the different sects but has yet to find funding. He looks grave as he talks about the potential consequences of inaction.

“If we fail [to heal the divide], the next war will be between Sunni and Shiite,” he said.

Porque esconde o PS as suas contas? Os erros já encontrados e os grandes riscos ainda escondidos.

O PS orgulha-se de ter sido o único partido a apresentar contas do impacto das suas medidas. Ontem, depois de apresentarem uma revisão ao seu plano com apenas 4 meses, os líderes do PS voltaram a enfatizar que apenas o PS fez os cálculos ao impacto das suas medidas. Seria um bom motivo de orgulho, e um bom exemplo para as outras forças políticas, se provassem que as fizeram realmente. A questão é que até hoje ainda não provaram. Mostraram uns números finais, é verdade, mas os cálculos para chegar a esses números estão ainda por revelar. Em resumo, o PS diz que fez um estudo que não disponibiliza e que, convenientemente, prova que as suas medidas eleitorais vão ter um impacto positivo no país. Suspeito? O Gato Fedorento explica melhor. Até conseguirem provar que fizeram os cálculos, só se pode concluir que não só não fizeram as contas (o que os coloca lado-a-lado com os outros partidos), como mentiram (algo que nenhum dos outros partidos fez).

Esta falha em mostrar os cálculos é ainda mais relevante pelo facto de ser Mário Centeno o coordenador do plano. Mário Centeno não foi chamado pelo PS por ser militante, pescador ou benfiquista. Foi chamado por ser um economista e um académico respeitado. Foi chamado para dar respeitabilidade ciêntífica ao plano. Como académico respeitado tem a obrigação redobrada de fazer com que os seus estudos sejam replicáveis e os dados publicamente disponíveis. Esta transparência é particularmente importante porque, como provou o famoso exemplo de Rogoff-Reinhart, mesmo os melhores académicos cometem lapsos.

Apesar de não darem acesso aos cálculos, ontem já foi possível vislumbrar um erro colossal no plano macroeconómico do PS. Embora eu gostasse muito que os números na caixa vermelha abaixo fossem correctos, a verdade é que estão completamente errados. A carga fiscal é 10 vezes superior ao que o PS mostra no seu plano. Mesmo revelando apenas uma ínfima parte do seu modelo, é possível encontrar um erro desta dimensão (ver abaixo).

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(retirado da página 28 do documento macroeconómico do PS às 9.30 do dia 20 de Agosto)

Mas gralhas de Excel à parte, há uma razão ainda melhor para que o Ps mostre os seus cáclulos: todo o plano macroeconómico do PS assenta no pressuposto de que as medidas terão um impacto positivo no PIB. O cálculo desse impacto no PIB está completamente escondido na folha de cálculo. E se o impacto não acontecer? E se o PS fizer toda aquela despesa pública que promete e o PIB não se mexer. Em baixo, podem ver o que acontecerá se o PS cumprir com o seu plano para a despesa e receita, mas o crescimento prometido (e que não dizem como calcularam) não acontecer:

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dividasc

Se o crescimento que o PS garante que vai acontecer mas não revela como calculou não se concretizar, o défice continuará sempre acima de 3% e a dívida pública será 8pp superior ao que está no plano. No último ano, o défice será mais do dobro do que o PS tem no seu plano, algo dificilmente aceite pelas entidades europeias.

Finalmente o leitor poderá questionar-se sobre o porquê de eu ter dúvidas sobre a forma como foi calculado o crescimento económico no plano macroeconómico do PS. É simples: apesar de afirmarem que a economia portuguesa está destroçada, o PS promete já daqui a dois anos um nível de crescimento que Portugal não tem há 15 anos.

Por isso, repito aqui o meu apelo a Mário Centeno: se confia realmente nos cálculos que fez, disponibilize-os ao público, como um bom académico e homem de ciência. Mostre que não está apenas a contribuir para que o país afunde novamente daqui a uns anos.

P.S.: Como forma de dar o exemplo, e apesar de isto ser apenas um blog, fica aqui disponível a simples folha de cálculo utilizada para calcular os impactos acima. Cálculos disponíveis para todos verem e criticarem, se acharem conveniente.

Do imperialismo chega o golfinho

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O mamífero marinho foi apanhado pelo Hamas em plena actividade subversiva. Terá sido presente a juíz e aguarda a presença de um tradutor.

Leitura complementar: Do imperialismo chega o cisne.

 

 

Quando a ditadura fiscal nos bate à porta (2)

O João Miguel Tavares respondeu no Público ao meu artigo desta semana no Observador (Quando a ditadura fiscal nos bate à porta).

Tentarei voltar ao tema se arranjar tempo para escrever alguma coisa em condições. Eventualmente no meu próximo artigo para o Observador.

Não aconteceu mas podia ter acontecido…

Para provar o Princípio da demanda efetiva, Paul Krugman pula do segundo andar (via LA-C)

No mundo acadêmico, existe um acirrado debate entre keynesianos e economistas reacionários que acreditam ser impossível consumir mais do que se produz. Segundo a linha keynesiana, o meio mais eficaz de se aumentar a poupança de um país é gastando dinheiro, visto que o investimento gera poupança. A ideia, que seria análoga a um moto perpétuo na física, foi batizada pelos keynesianos de ” princípio da demanda efetiva “.

Reacionários, por outro lado, acreditam ser necessário cortar gastos caso se deseje aumentar a poupança de um país.

Para encerrar o debate, e provar definitivamente o ” princípio da demanda efetiva “, o economista Paul Krugman pulou do segundo andar de sua casa e tentou voar puxando o próprio cabelo para cima.

Retratos de mais um messias canhoto

Corbyn

Corbynomics: A path to penury, de Adam Memon.

(…) As John Maynard Keynes once said, this is ‘an extraordinary example of how, starting with a mistake, a remorseless logician can end up in bedlam’. Of course many markets are not functioning as we would like them too. More often than not the fault rests with poorly targeted and excessive state intervention, and anti-competitive corporatism. Many markets need to be reformed but increasing state power, control and ownership is the antithesis of the reforms that are needed. In areas from tax policy to monetary policy, Corbynomics can only lead to chaos and calamity.  (…)

 

E Jeremy Corbyn’s Magical Mystery Tour, por Charles Crawford.

(…)  If the Labour Party chooses Corbyn as leader, it will be a power-play by the worst collectivists in our society to poison the well of intelligent public thought in favour of witchcraft.

Corbyn’s success will shift public debate towards anti-semitic populist collectivism, with an implied menace of fascist street violence and trades union bullying.

What in fact stands between one of the world’s leading economies and a brisk slump to Venezuelaisation? Maybe not much.

 

O BCP e a Ongoing

BCP ficou com 6,2% da Pharol depois de executar penhor sobre ações da Ongoing

O BCP passou a deter uma participação qualificada de 6,1689% da Pharol, antiga PT SGPS. Este reforço resultou de uma execução de um penhor sobre ações da operadora dadas como garantia por um acionista que não é identificado no comunicado enviado esta madrugada à Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). No entanto, o Observador sabe que os títulos eram detidos pela Ongoing de Nuno Vasconcellos, uma das maiores acionistas da Pharol. (…) Segundo a edição da semana passada do jornal Expresso, o BCP estaria prestes a executar garantias sobre a Ongoing, que é uma das maiores acionistas da Pharol. A dívida da empresa liderada por Nuno Vasconcellos ao banco ascenderá a mais de 230 milhões de euros. Para além das ações na antiga PT, também o Diário Económico, outro ativo da Ongoing, estará em processo de venda, uma operação que está a ser liderada pelo BESI. O BCP e o Novo Banco estão entre os maiores credores da Ongoing.

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Celebro efusivamente

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O João Miguel Tavares queixa-se em artigo no Público do assédio fiscal que alegadamente sofre por parte da Autoridade Tributária. Queixa-se ao mesmo tempo que escreve “Eu celebro efusivamente o aperto da malha tributária e a capacidade de pôr mais gente a pagar impostos”, certamente convicto (quando foi a lobotomia colectiva? eu devia estar no estrangeiro nesse dia) que o Estado e a AT, sendo pessoas de bem não assediariam ou atropelariam o mais elementar bom senso e civilidade.

Posto isto resta-me a mim celebrar efusivamente o assédio a que o JMT é sujeito pela AT e desejar que integre a lista pública de devedores ao fisco em lugar de destaque e a bold. E que lhe vão sendo exigidas coimas e cauções o mais possível. Que mil notificações e ameaças te inundem a caixa de correio caro JMT.

Movimento Brasil Livre visto dos EUA

Brazil’s economic freedom fighters are an example for Americans

To harvest the anti-Rousseff energy into free market advocacy, FBR makes the case that big government is more vulnerable to corruption. That’s why FBR isn’t a supporter of the opposition Brazilian party either. Kataguiri and Ostermann say that party’s not very ideologically different than Rousseff’s Workers’ Party.

(…)

Ostermann blames the high level of indoctrination in Brazilian universities for the dominance of big government ideas. Having briefly studied at Georgetown University, he knows leftist ideas dominate American universities as well. “If people here don’t take care of what they’re doing in the battle of ideas, I think the U.S. might end up going in the same direction,” Ostermann said.