Só para lembrar

Um ou dois casos mediáticos em que eventuais práticas de corrupção poderão ter sido descobertas não significam que o sistema de Justiça português tenha deixado de ser um caos que atrapalha a vida de muita gente. A Autoridade Tributária ter sido instrumental na captura de um político corrupto não apaga a forma atentatória dos direitos dos cidadãos com que ela se comporta diariamente. Não é por um ex-Primeiro Ministro que destruiu o país estar de momento preso que o país e a vida dos que nele habitam passam a estar melhores. Por muito que uma chuva de artigos de opinião o digam, o país não mudou esta semana.

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Mudança de paradigma (3)

[João Soares] começa por dizer que não aceita “a prisão (“que pudicamente” designam por detenção”) de um antigo primeiro-ministro a não ser “por crime de sangue, em flagrante delito”.

2005 e 2014

Corre “pelos facebooks” (como diria Paulo Futre) uma grande alegria com a detenção do “engenheiro” José Sócrates. Compreende-se, dada a natureza “Sopraniana”, digamos, da figura. Mas gostava de saber quantos dos que tanto rejubilam com a sua detenção neste ano da Graça de 2014 se contavam entre os que, em 2005, lhe deram com a cruzinha no boletim de voto o poder que ele terá usado para fazer o que agora talvez lhe dê um bilhete de entrada no condomínio fechado da Carregueira. Tendo em conta que o senhor teve uma maioria absoluta, não devem ser poucos.

José Sócrates foi detido

O ex-primeiro-ministro, José Sócrates foi detido esta sexta-feira no aeroporto de Lisboa quando chegava de Paris, avança o SOL. Sócrates é suspeito de crimes de corrupção, fraude fiscal agravada, branqueamento de capitais e falsificação de documentos.

Na SIC Notícias: Imagens exclusivas da detenção de José Sócrates

Só pode: Para o sector abrantino é “o regresso do fascismo”.

Jean-Claude Trichet “Mais ninguém queria financiar Portugal”

“[A intervenção da toika] era absolutamente necessária porque, a certa altura, o resto do mundo não queria financiar mais Portugal”, começa por dizer o ex-presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, em entrevista exclusiva ao Expresso.

Mais uma vitória para o UKIP

EU Observer

Ukip candidate Mark Reckless took the Rochester and Strood constituency on the south-east coast on a swing of over 30 percent from David Cameron’s Conservative party. Reckless, whose defection from the Conservative party prompted the snap election, received 16,867 votes, 2,920 more than Conservative candidate Kelly Tolhurst’s 13,947.

Labour’s Naushabah Khan was a distant third on 6,713 votes, a 15 percent drop in support since the 2010 election in a seat that it held between 1997 and 2010.

The by-election was doubly embarrassing for Labour whose MP Emily Thornberry, the party’s shadow attorney general, resigned after tweeting a picture of a house in Rochester draped in St George’s flags, a move seen as snobbery towards working-class voters

Autoridade

(artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Quando Miguel Macedo anunciou a sua demissão do cargo de ministro da Administração Interna, esperava certamente estar a fazer um favor ao Governo a que até então pertencera. Afinal, apresentava-a por sentir que “a autoridade” necessária ao “exercício pleno das suas funções” estava “diminuída”: por muito que não tenha “qualquer responsabilidade pessoal” no caso dos vistos gold, Macedo sabia que as suas ligações pessoais a alguns dos suspeitos seriam alvo de abundantes suspeições e acusações por parte da oposição, fragilizando um Executivo tudo menos robusto.

No entanto, Macedo conseguiu apenas o contrário. Não por a sua opção ter merecido críticas, mas por ter sido universalmente elogiada, com António Costa (o do PS, não o do DE) a louvar uma “lucidez” que se “exigia” a “outros Ministros”, e Jorge Costa, do BE, a compará-la às “demissões que ficaram por fazer” para “vergonha” dos que (até aqui, pelo menos) não seguiram a via de Macedo: ao sair para poupar o Governo a clamores pela sua exoneração, Macedo acabou por dar força às vozes que pedem a saída de Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz depois das atribulações a que respectivamente presidiram. Ao se demitir por sentir não ter “autoridade”, apenas retirou a pouca que restava aos seus ex-colegas.

Claro que quanto mais a “esquerda” exige estas demissões, menos Passos estará disposto a promovê-las, para não dar uma “vitória” à oposição. Oposição essa que sabe também sabe perfeitamente que assim é, e insiste nas saídas de Crato e Cruz não para que saiam, mas para “desgastar” o Governo: de um lado e de outro, todos agem de acordo com a sua coreografia no teatro mediático em que participam, sem pretenderem qualquer consequência prática na vida dos portugueses. No fundo, nem Governo nem oposição têm grande “autoridade” para dizerem o que quer seja. O que nunca foi suficiente para os demover

Fasci portoghese di combattimento II

Fasci-fullO que é grave e profundamente grave neste caso GALP/REN vs Fisco é a atitude e reacção do Estado personificada no Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Um reacção perfeitamente fascista mas que é prática comum tanto no personagem como na Autoridade Tributária. Quem se atreve a protestar contra a dita, a primeira coisa com que tem que se haver é com inspecções fiscais. E não interessa se o protesto tem qualquer implicação com situações anteriores. O que eles sabem é que é impossível ao contribuinte estar absoluta e totalmente livre de problemas. Usam assim, todo o poder do estado que no mínimo é esmagador para meter na ordem o contribuinte tresmalhado e fazê-lo servir de exemplo a eventuais insurgentes que se lembrem de ir contra o que a Autoridade Tributária decide extorquir-lhes esteja na lei ou não, seja legítimo ou não. E nós todos sabemos que é assim e raros somos os que podemos ou estamos dispostos a pagar o preço de afrontar o Leviatã.

Sem medo das palavras, o comportamento do Secretário de Estado (e não é de agora) é fascista do mais execrável. E neste Governo (em anteriores também mas neste é pior) os fascistas parecem ter roda livre.

Como eles eram em 2009

Por alguma razão misteriosa, apareceu-me no leitor de feeds este post do Simplex (o blog de campanha socialista nas legislativas de 2009). Repare-se a forma despreocupada com que se referiam ao endividamente público, ao PS como “o partido que mais fez para equilibrar as finançass públicas” e a confiança na “força” da zona euro.

simplexbcr250909

Aqui está o PS

No seguimento da polémica entre Francisco Assis e Tiago Barbosa Ribeiro, o primeiro responde hoje num artigo no Público

O autor deste texto, publicado nas redes sociais, é um jovem dirigente socialista portuense destinado a exercer a muito curto prazo altíssimas responsabilidades no plano local. Se o cito é porque descortino no seu pensamento algumas das principais características configuradoras da identidade de uma corrente política que me suscita enorme apreensão, pelas razões que passo a apresentar: insuportável arrogância moral, indisfarçável propensão para o simplismo doutrinário, preocupante valorização de uma linguagem emocional em detrimento da argumentação racional, inquietante incompreensão da realidade contemporânea. Se virmos bem, estamos perante um discurso construído a partir de clichés, de antagonismos puramente retóricos, de proclamações quase integralmente vazias.

Uma manifestação inequívoca da importância do serviço público de televisão

RTP paga 18 milhões e tira Champions à TVI

Foram 18 milhões bem empregues. De outra forma os jogos teriam sido transmitidos num canal privado em sinal aberto. Pago exlusivamente por publicidade.

ADENDA: Rodrigo Moita de Deus (31 da Armada)

O mesmo país que se indigna porque os assessores do governo ganham 1800 euros não se incomoda que a televisão pública pague 18 milhões de euros para vermos os jogos do Bate Borisov e do Shakhtar.Ficamos chocados com os ordenados dos deputados mas deixamos que estas coisas sejam anunciadas como se fossem normais. (…) Estão de parabéns todos aqueles que, há três anos, descobriram o “interesse do Estado” na integridade da RTP. Espero tenham percebido hoje a figura que fizeram. A rapaziada do costume agradece. Palermas.

O livre comércio e os seus opositores

Vital Moreira sobre o TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership) e a “agenda” dos seus opositores

Todavia, tal como noutros países, não faltam as vozes contrárias ao eventual acordo, quase sempre identificadas com a extrema-esquerda protecionista, a que se somam os grupos antiglobalização e “altermundialistas”, que sublinham os alegados riscos sobretudo em matéria de segurança alimentar e ambiental. A sua campanha já chegou a Portugal, a julgar pela imprensa, onde essas posições encontra amplo eco, sem a necessária contradita.

Independentemente do infundado das críticas ao acordo, a campanha assenta numa óbvia fraude política, pois a oposição não é ao TTIP em especial mas sim a todo e qualquer acordo de liberalização comercial. Eles são contra o comércio internacional em geral porque são anticapitalistas, antiliberais e antiglobalização. O seu ideal não confessado seria a Coreia do Norte, Cuba ou os regimes “bolivarianos”.

Engana-se, porém, quem julga que o caso do TTIP está ganho à partida, bastando as suas esperadas vantagens económicas e a sua mais-valia geoestratégica para Portugal. A verdade é que esses grupos são assaz “vocais”, exploram o desconhecimento e receios atávicos, gozam de simpatias fáceis na imprensa e não têm escrúpulos no combate político e ideológico.

Por isso, os partidos e as organizações empresariais e sociais que justificadamente veem no TTIP uma grande oportunidade para Portugal não podem limitar-se oferecer o “mérito da causa”. Têm de lutar por ele.

Regresso às origens

Tiago Barbosa Ribeiro, um ex-bloquista convertido ao sócratismo, reage violentamente à entrevista de Francisco Assis e defende que a vitória de António Costa implica a adopção de várias “bandeiras” da extrema-esquerda:

Porque a «proximidade ideológica» que Assis vê entre PS e PSD é para mim um mistério. Eu quero um PS concentrado na recusa do Tratado Orçamental, numa reforma fiscal que pese mais no capital do que no trabalho, numa revisão profunda do Código de Trabalho, na recuperação da iniciativa estatal, na regulação económica sobre sectores-chave, na renegociação da dívida impagável. E isto não é retórica, é mesmo para ser feito.

O potêncial de desilusão é tremendo.

“He’s a lumberjack and he’s OK”

A propósito desta notícia do Observador sobre os “lumbersexuals”(“a nova tendência da moda é uma ode à virilidade e tem inspiração nos lenhadores americanos. São os lumbersexual e querem acabar com a artificialidade”), só me ocorre lembrar um famoso sketch de Monty Python’s Flying Circus:

a floresta

“(…) É, pois, o momento de a estrutura de financiamento da economia portuguesa evoluir no sentido do mercado de capitais. Bem sei que em face da evolução recente do PSI20 o “timing” desta afirmação dificilmente poderia ser pior, mas como afirmava há dias Alberto Charro, administrador do BBVA em Portugal, “todos os bancos estão a tentar emprestar às mesmas empresas”. Isto sucede porque, encontrando-se o sector bancário muito concentrado, o mercado de capitais não consegue desenvolver-se, prejudicando o financiamento global da economia.”, no meu artigo de hoje no Diário Económico.

Venezuela “em defesa do mercado”

Pois. Não é bem assim:

Estamos a coordenar uma reunião especial de países OPEP e não OPEP para breve, para tomar decisões em defesa do petróleo, dos preços do petróleo e do mercado petrolífero mundial”, disse [Nicolas Maduro].(…)

Para a Venezuela o preço justo do petróleo é de 100 dólares o barril.

O petróleo venezuelano estava segunda-feira cotado a 70,80 dólares por barril

Com a metódica destruição do tecido económico, a economia bolivariana só subsiste graça às extração de petróleo. E o preço mínimo necessário para equilibrar as contas públicas é cada vez maior.

de alto quilate (2)

Ontem à noite na RTP Informação, teve lugar nova emissão do magnífico “Barca do Inferno” que, como os leitores deste blogue bem sabem, é hoje em dia o meu programa favorito. E entre tantas coisas interessantíssimas, então não é que ficámos a saber que Raquel Varela também é contra a taxa sobre os turistas em Lisboa…

Devo dizer que, cada vez mais, a Raquel deixa-me desconcertado. E ontem saiu mesmo do seu “script” habitual, tendo ido para terrenos diversos. E que terrenos! De defensora da tese “há que reduzir o horário de trabalho sem redução salarial” saltou agora para a tese “os portugueses têm sido as-fi-xi-a-dos com impostos”. Registo com agrado a evolução do pensamento de Raquel, não deixando contudo de questionar a sua coerência. Mas voltando à emissão de ontem, destaco a sua intervenção do minuto 36, um estupendo momento de “infotainment” e que, sem prejuízo de uma ou outra imprecisão, me prendeu ao écran.

Da condenação das taxas e taxinhas de António Costa, às recomendações que fez à secretaria de Estado do turismo, à forma como denunciou a brutal cobrança de impostos que os portugueses têm vindo a suportar desde o 25 de Abril (com direito a um gráfico Medina Carreira “style”, olé!), passando ainda pela referência a figuras da cultura popular portuguesa como o galo de Barcelos, sem esquecer, obviamente, o bife da Rua Augusta (“fotografado”!)…foi um momento memorável de live TV, que em baixo transcrevo ipsis verbis, e cujo vídeo recomendo vivamente.

Raquel Varela: “Eu acho que os turistas devem ser bem recebidos, de braços abertos, e não cobrando-lhes seja o que for. Acho que isso é completamente errado. O problema é que é assim…o problema é que os turistas…quer dizer, nós também temos de pensar que turismo é que queremos…esta coisa de o turista chega aqui, paga, e depois a gente vende-lhe um galo de Barcelos made in China e um bife com batata frita ali na Rua Augusta fotografado…humm…nós também temos de pensar na forma como queremos receber os outros. E a mim parece-me que essa é uma questão de princípio, nós somos conhecidos por receber bem os outros e não por tornar tudo vendável. Quer dizer, nós estamos também a falar de relações que nós estabelecemos com os outros. A segunda questão que me parece importante é que eu acho surpreendente ver no século XXI taxas medievais, que é a taxa de circulação de passagem na cidade, que é uma coisa incrível, não é? Que tinha sido abolida e agora é reposta. Dizer que eu sou contra o princípio (…) o problema é abrir a porta a um mau princípio, e é um mau princípio estar a cobrar uma taxa quando já há uma caixa comum de impostos para pagar estes serviços (…) porque existem impostos para as pessoas pagarem os serviços públicos. E aliás, 75% dos impostos já são pagos todos pelo factor trabalho em Portugal apesar de…há um gráfico que eu trouxe…eu não sei se pode mostrar…que eu gostava que as pessoas vissem, basta olhar para o gráfico…isto é [o gráfico] a cobrança de impostos desde o 25 de Abril…impostos directos e indirectos…basicamente os portugueses têm sido asfixiados com impostos e depois, à parte, cobram-se taxas para pagar aquilo que não é utilizado nos impostos porque os impostos são utilizados para pagar rendas fixas, parcerias público privadas, juros da dívida pública, e outras diversões. Portanto, aquele gráfico é o gráfico da cobrança brutal de impostos que cai em cima dos portugueses nos últimos quarenta anos.”

Et voilà, é assim mesmo Raquel: as-fi-xi-a-dos com impostos. Quanto ao pagamento dos juros da dívida pública como diversão, bem, deixemos essa imprecisão para outra ocasião porque por agora há que reter a imagem do esbulho fiscal…e a do galo de Barcelos a comer o bife com batata frita da Rua Augusta…que isso sim, é muito bom!

Saudações do Norte, estimada Raquel, saudações do Norte!

gotas

Há dias, a minha querida esposa enviou-me numa missão especial: despistagem oftalmológica da nossa mais velha. Chegado à unidade privada, eu e a mais velha, lá percorremos o circuito que à mesma hora outros percorriam. À minha, de forma tentativa, foi diagnosticada uma ligeira hipermetropia. Vai daí: gotas – “para confirmarmos que não há mesmo problema”. Gotas foram – 9, 3X3, de 20 em 20, para ser rigoroso.

Passado uma hora e pouco, a minha piquena, e mais 4 ou 5 que à mesma hora lá foram fazendo o mesmo – gotas -, regressámos ao especialista. Sentámos a menina na cadeira mágica, e tudo estava óptimo – “só precisa de regressar aos 10 anos”. Ao lado, as restantes meninas e meninos iam saindo com ar de quem também só precisava de regressar aos 10.

Terminada a manhã de sábado na unidade privada de saúde, fui pagar. Munido do meu seguro de saúde “corporate” paguei cerca de 25 euros; ao meu lado, uma outra utente, munida de ADSE, pagou pelo mesmo serviço, menos de 10 euros. Perguntei então à menina da facturação: “e se eu tivesse vindo sem seguro, quanto teria pago?”. Resposta: “230″. Glup! Perante a minha estupefacção, acrescentou a funcionária com um sorriso meio maroto meio cínico: “Só as gotas…”. Ah pois! Et voilà, por isso é que todos os miúdos a levaram. Sorri de volta, e rematei: “a seguradora paga e vocês, pois claro, agradecem”. Silêncio – que novo sorrisinho nem pensar. Ah que ricas gotas!