Em campanha (2)

SIC Notícias: “Carlos César diz que algumas medidas do Syriza são iguais às do PS”

i online:Membro da direcção do PS [Sérgio Sousa Pinto] diz que “estamos num ciclo perverso sem saída”, atira culpas aos credores e vê “realismo” nas propostas do Syriza.

Plebiscito

A consulta convocada na Grécia não é um Referendo, é um Plebiscito, ao bom estilo da romana “Lex Hortensia”: uma forma de democracia direta utilizada por governos fracos que procuravam assim ratificar a sua atuação política junto da população. 

A democracia não é um fim em si mesmo (Kelsen), pouco vale se não houver “Rule of Law”, sociedades civis fortes e economias sólidas que a sustentem. E isso já os pensadores da Antiga Grécia o antecipavam. Quem conheça Platão sabe bem o que este pensava da democracia, ou que lugar Aristóteles lhe reservou, nas suas obras “A Política” e “Ética a Nicómano”, o de uma degenerescência na hierarquia das formas de governo, a meio caminho para a Tirania. Que diriam eles de Tsypras?

Nota 1: A democracia é uma condição necessária, mas não suficiente, para que haja Estado de Direito. Os gregos na Antiguidade nunca foram particulares fãs da democracia, olhando com desdém para aquilo que era a decisão de base popular. A democracia enquanto regime político só ganhou corpo e legitimidade com o liberalismo e com os movimentos constitucionalistas no século XIX. Daí que se fale com frequência, em democracias liberais (em sentido amplo). Num país em que a sociedade civil vive capturada por corporações e sindicatos, em que a economia está dependente do Estado, onde grassa a dívida e a pobreza, não há uma democracia liberal, tal como a conhecemos desde a Modernidade, mas sim uma mera sindicância do Poder por meio do voto.

Nota 2: Para que o acto convocado na Grécia pudesse ser classificado de “Referendo” o mesmo teria de ter uma importância decisiva para a celebração de um Acordo, ou seja, o mesmo teria de ter sido convocado antes do default ao FMI e do vencimento do programa de resgate. Sendo convocado já para lá do prazo, a única coisa que Tsypras está a fazer é a procurar num “Plebiscito” obter a legitimidade política de que necessita o “Não” que o seu governo já manifestou, à meia-noite de hoje, e que já está a produzir todos os seus efeitos.

Recordando histerias passadas

Lembram-se de há uns dias a imprensa ter noticiado que a Grécia queria baixar o orçamento da defesa em 400 milhões de euros e o FMI recusou? Lembram-se de ter usado este exemplo para demonstrar a cegueira ideológica do FMI?

Poucos dias depois, a Troika apresentou um novo plano à Grécia em que pedia os tais 400 milhões de euros de cortes na Defesa. A Grécia rejeitou e propos 200 milhões. Entretanto, os bancos fecharam, o país está à beira do colapso e, segundo a imprensa, Tsipras começou a ceder, pedindo apenas algumas alterações ao plano proposto pela Troika. Um desses pedidos? Que o corte na defesa seja mais baixo em 2016 do que o pedido pela Troika.

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Nota adicional: Fonte do governo grego veio a público recusar qualquer corte no orçamento da defesa, ao contrário do que Tsipras diz na carta à Troika.

Tarde demais?

António Costa: Governo grego foi de uma enorme imprudência”

Agora que é por demais evidente o desastre provocado pelo governo do SYRIZA é natural que o líder do PS queira colocar-se a uma distância de segurança para evitar “contágios”. No entanto, é difícil fazer esquecer o entusiasmo com que há 5 meses recebeu a eleição dos mesmos e a caução dada as suas políticas apesar de repetidos avisos para um final que já então se adivinha trágico.

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Grécia: a Europa é o dinheiro dos outros

Rui Ramos no Observador

Ainda hoje quase todos os cálculos políticos e exercícios analíticos consistem em tentativas de dramatizar este e aquele aspecto desta história, a fim de esconder o essencial. Somos convidados a recear um “passo atrás” na integração europeia, a tremer perante o “perigo de contágio”, a desconfiar das manobras de Putin. Vale tudo, para não pensarmos naquilo que mais importa: a corrupção da integração europeia, que é também a corrupção da democracia, como se vê agora na Grécia, onde o Syriza e os seus aliados de extrema-direita tentam convencer os gregos de que se podem outorgar a si próprios, através do voto, o direito de exigir aos outros contribuintes europeus que continuem a pagar-lhes as despesas. O que os gregos poderão ajudar-nos a todos a descobrir é que a Europa, como o socialismo, também acaba quando acaba o dinheiro dos outros.

Las diez vergüenzas de Grecia

Um excelente apanhado do Libremercado sobre a Culpa da situação Grega. Excerpto:

Y es que, el origen de la tragedia griega, muy al contrario de lo que defienden Syriza o Podemos, no radica en la pretendida austeridad, sino en su desbocado e insostenible sector público. Grecia fue el país de la UE que más aumentó su gasto público real (un 80% entre 1996 y 2008) y su deuda pública (un 400% superior a sus ingresos públicos en 2011) durante los felices años de la burbuja crediticia. Pero estas grandes cifras, siendo relevantes, se tradujeron en hechos muy concretos, cuya realidad ocultan hábilmente partidos como Syriza en Grecia o Podemos en España.

A continuación, se resumen las diez grandes vergüenzas de Grecia que la izquierda europea se niega a reconocer. La ruina helena es una historia llena de mentiras, despilfarros y una enorme hipocresía.

Sobre a crise das dívidas soberanas

Numa altura em que muito se escreve e simplifica sobre um eventual default grego, julgo ser oportuno recuperar algumas ideias-chave sobre o que está em causa na crise das chamadas dívidas soberanas no quadro da zona Euro, para dar algum corpo ao debate.

A nossa dívida é sustentável? Como ponto de partida, há que dizê-lo com clareza: países como Portugal, Grécia, e Irlanda têm níveis de dívida que, em condições de mercado, são difíceis de sustentar, razão pela qual estas economias têm beneficiado de especial atenção por parte das autoridades monetárias europeias e internacionais.

No rescaldo da crise bancária de 2008, os agentes do sistema financeiro internacional começaram a prestar especial atenção ao peso da dívida de países que haviam violado, por razões diferentes, o Pacto de Estabilidade e Crescimento e as regras basilares da Moeda Única. Os raides sobre a dívida de alguns países foi tão forte que, Estados como Grécia, Portugal e Irlanda foram forçados pelas condições a sair temporariamente dos mercados de financiamento; para terem acesso a dívida e liquidez sem a pressão dos juros altos a que estavam submetidos, estes países aderiram a Programas de Resgate Financeiro; estes programas foram acompanhados de pacotes de exigências dos credores, que visavam permitir a recuperação de uma série de condições de base para que os Estados regressassem aos mercados de dívida num quadro de normalidade.

Portugal está livre de perigo? Há que dizê-lo sem hesitações: Grécia, Portugal, Irlanda e outros países europeus estão a beneficiar de um acesso a dívida a preços artificiais – leia-se, com taxas de juro artificialmente baixas – completamente desfasados daquilo que é o risco implícito das suas economias reais, do Estado, das empresas e das famílias. Fora do quadro do Euro, nunca Portugal ou os países excessivamente endividados teriam acesso a crédito a taxas negativas, ou próximas de zero; pode até afirmar-se que dificilmente teriam acesso a crédito de curto prazo, quanto mais a cinco e dez anos, como tem ocorrido com Portugal. Portugal, Grécia ou Irlanda dificilmente teriam acesso a dívida com juros inferiores a 15%.

Mas e não devia Portugal exigir aos credores a reestruturação da sua divida? Portugal já tem vindo a reestruturar a sua dívida, de forma gradual, com a complacência dos parceiros europeus, obtendo financiamento a custos baixos, e alterando as suas maturidades para prazos mais longos. Acresce que boa parte da dívida está a ser tomada pelo BCE, que tem aceitado promover uma lógica clara de reembolso antecipado ao FMI. Desde logo, Portugal tem interesse em substituir a dívida ao FMI por dívida emitida no mercado, pois as taxas de juro são mais baixas, e as maturidades mais longas. Acresce que a dívida assim emitida está a ser tomada nos mercados secundários pelo BCE. Além das vantagens financeiras, a amortização integral dos montantes em dívida ao FMI facilita eventuais soluções políticas que tenham de ser decididas para aliviar os países sobre-endividados no quadro do Euro, nomeadamente, perdões parciais de dívida.

Mas apesar dessa reestruturação, porque razão a nossa dívida cresce todos os dias? Portugal está a evoluir muito rapidamente de um cenário de défices crónicos persistentes desde 1974 para um modelo onde passe a gerar superavits. A dívida não só tem de parar de crescer, como Portugal tem de demostrar que consegue ter alguma capacidade de reembolso. Agora, é inevitável que venha a haver um perdão parcial da dívida ou, perante uma escalada dos juros, Portugal corre fortes riscos de claudicar. Existe uma consciência quase geral que, das duas, uma, ou há um perdão, algures no futuro, contratualizado no quadro do Euro, ou aumenta o risco de default. A dúvida que se coloca é, assim, se esse perdão se faz no quadro do Euro, ou se, pelo contrário, algures no percurso ele é declarado unilateralmente, por parte dos devedores, por via de um default (como está a acontecer na Grécia)

E qual dos caminhos é o mais adequado? Faz sentido estarmos no Euro? Importa notar que nenhum dos dois cenários – seja uma reestruturação negociada, seja um default – é particularmente atrativo. Temos em Portugal e na Europa políticos de La Palisse que defendem sem o dizer assumidamente que, bom, bom, seria continuar a viver com base nos recursos transferidos pelos nossos parceiros europeus, indefinidamente, alimentando uma economia artificial. Esse cenário, porém, que não depende de nós, parece pouco viável, já que é óbvio que os nossos credores estão muito mais atentos, pelo que não há terceira via. Assim, ou contratamos com os credores condições o mais favoráveis possíveis, e tentamos beneficiar da protecção que hoje o Euro representa, ou decidimos que é preferível regressar ao Escudo, assumindo por esta via o impacto de competirmos abertamente, também do ponto de vista monetário, no mercado global.

Muito se discute se Portugal devia ou não ter entrado no Euro. Esse debate, muito interessante, é hoje irrelevante no desenho das soluções a seguir no futuro. Ao contrário do que se lê muito por aí, a decisão de entrada no Euro, só por si, não foi necessariamente boa ou má para países como Portugal, Grécia, Espanha ou Itália. O Euro tem vantagens e desvantagens; tem, sobretudo, regras próprias que após a nossa entrada, deveríamos ter sido capazes de respeitar, a bem da nossa viabilidade económica e salvaguarda da soberania. Portugal e a Grécia, em especial, colocaram-se numa posição de grande fragilidade, ao acumularem dívidas elevadíssimas, sem que isso se tenha traduzido num aumento relevante da competitividade das suas economias.

Na prática, usou-se a almofada da dívida para financiar economias artificiais, alimentar o Estado Social e clientelas políticas. Se Portugal tivesse iniciado em 2000 a alteração do perfil da sua economia, e procedido à reforma do Estado e das Pensões, algo que só arrancou com a chegada da Troika, e não tivesse acumulado um tão elevado endividamento, hoje estaria numa situação muito favorável para aproveitar o pós-crise. Quando lemos que antes da crise Portugal e Grécia viviam melhor, e que, no caso grego, as medidas da Troika foram responsáveis pela destruição de 26% do PIB, estamos a deixar-nos cair na velha falácia, “com a verdade me enganas“: é que o PIB grego, aliás como o português, estava inflacionado por uma atividade económica que não era resultado da capacidade produtiva dos países, mas apenas do influxo de dívida e da capacidade que esta tem de alimentar uma economia artificial e não sustentável a prazo.

Dito isto, e estando já no Euro, defendo ser preferível que Portugal faça as alterações necessárias ao seu funcionamento no quadro da moeda única, em vez de evoluir para um default.

Mas porquê estar no Euro, se tantos defendem que a austeridade está a destruir a nossa economia e o emprego? Um dos maiores mitos que fez o seu caminho nos últimos anos é de que a austeridade é uma opção para os países sobre-endividados, como alternativa a uma forma de fazer política, menos exigente para as contas públicas, e por isso mais amiga do emprego e da economia. O processo de ajustamento de uma economia artificial para uma economia real tem consequências óbvias no emprego e no tecido produtivo. Agora, o que permitirá recuperar a economia e o emprego não é regressar ao crescimento artificial, nem são sequer medidas monetárias expansionistas. Haverá emprego se as nossas empresas forem capazes de produzir coisas que os portugueses e, em especial, os estrangeiros, estejam dispostos a pagar por elas. Se isso acontecer, poderemos dispor da riqueza – própria – necessária para pagar salários, saúde, educação, pensões, justiça, segurança e defesa, e importar os bens que por cá não temos ou não produzimos na quantidade procurada. E essa capacidade produtiva tanto é necessária no Euro como num cenário de regresso ao escudo. Agora, estarmos no Euro tem-nos permitido aceder a condições monetárias que seriam impensáveis caso estivéssemos fora do Euro: juros artificialmente baixíssimos, com impacto direto no financiamento do Estado, das empresas e das famílias, e reflexos no consumo e na procura interna; uma moeda estável que até desvalorizou significativamente nos últimos anos (de 1,575, face ao dólar, em 1/6/2008, para 1,113, em 1/6/2015), o que favorece as nossas exportações; e um enorme mercado interno. Fora do Euro, Portugal teria tido mais dificuldade em preservar muito do emprego que resistiu à crise, e em alterar tão rapidamente o perfil da sua economia produtiva (hoje muito mais virado para a exportação e para os bens transacionáveis, e menos para engordar uma procura interna de bens não transacionáveis, alimentados à base de dívida). Convém recordar que, se o cenário da austeridade foi exigente para Portugal, ainda assim o seu impacto foi menor do que seria caso tivesse havido, em 2011, um default, e Portugal tivesse ficado entregue a si próprio, no quadro da economia global onde os portugueses, queiram ou não queiram, têm de se afirmar, se querem manter e melhorar o nível de vida a que rapidamente nos habituámos.

É verdade que a Troika e os credores são entidades predadoras ao serviço dos malfadados mercados e do grande capital? As pessoas que integram as instituições credoras são por definição burocratas; são, na sua maioria dos casos, algo maçadoras, seguramente muito aborrecidas, e só lateralmente preocupadas com aquilo que é o bem-estar de Portugal e dos portugueses. Convém contudo recordar que a Troika interveio em Portugal, Grécia e Irlanda a pedido dos países devedores. Nenhuma das instituições se impôs. A vinda da Troika deu um jeitão, permitiu que Portugal não fosse obrigado a declarar falência, assumindo um default com consequências à época difíceis de avaliar, mas que, no curto prazo, passariam pelo menos pelo não pagamento integral de salários públicos e pensões. Alguns anos volvidos, é possível afirmar que a relação mantida com os credores foi globalmente favorável para Portugal. Graças à ação das instituições europeias, a economia portuguesa viveu sob um escudo protetor – acesso a juros baixos para as famílias, empresas e Estado, moeda estável, acesso a um forte mercado interno, resgate aos bancos – que, apesar das dificuldades impostas pelo ajustamento, permitiram preservar boa parte do nosso tecido económico e muito emprego que doutra forma seria imediatamente destruído, e iniciar uma recuperação, com resultados difíceis de atingir fora da moeda única.

E no futuro? No futuro próximo Portugal deve continuar a procurar poder dar sinais de recuperação, para assim continuar a ter acesso às melhores condições possíveis de financiamento que o Euro patrocina; ao mesmo tempo, deve trabalhar politicamente para que haja condições para, no quadro do Euro, beneficiar, dentro de determinados pressupostos, de um perdão de dívida, sem que tal resulte de uma lógica de confronto, mas sim da confiança dos parceiros face ao cumprimentos dos objectivos impostos pelas regras da União Monetária.

O Futuro da TAP é Azul

O meu artigo de ontem no Diário Económico:

Até 2015, o futuro da TAP era negro. Com o Estado proibido de injectar capital, com uma dúzia de sindicatos fortes que ostensivamente provocava prejuízos, com muitos clientes desiludidos e com uma gestão interessada em satisfazer ‘slogans’ políticos, a empresa definhava.

Com a privatização, o futuro da TAP é azul. Movido pelo retorno do investimento, a conversa mudou completamente: dezenas de novos aviões, dezenas de novas rotas, centenas de milhões de investimento. Para reduzir custos sem despedimentos, avança-se com crescimento e eficiência. A companhia está de cara lavada e representará em breve o país em mais cidades americanas e brasileiras.

Esta é a diferença entre uma liderança cujo património pessoal não paga o preço do erro e uma liderança cujo património beneficia directamente da qualidade da sua gestão e da energia positiva que injecta na companhia. Para os donos da TAP ganharem, os clientes têm de ganhar. No fim, o que vai fazer a diferença é este foco no cliente.

Não percebo se a polémica é a avença ou a conclusão

Pelos vistos há quem tenha ficado indignado com um estudo encomendado pela Segurança Social que conclui (espanto!) que esta é insustentável no modelo actual. Pela quantidade de reformas “definitivas” que foram feitas nos últimos 20 anos e pelas que se prometem pensava que isto não fosse surpresa para ninguém.

Grécia: revisão da matéria dada – O resgate e o ajustamento

Escrevi ontem aqui sobre os anos anteriores à crise da dívida soberana na Europa. Nos 7 anos anteriores à crise, a economia grega tinha crescido bastante acima dos seus pares europeus graças a uma injecção brutal de dívida. Chegados a 2007, uma boa parte da economia grega estava dependente da capacidade do governo continuar a acumular dívida indefinidamente. Mesmo sem a crise de 2008, este acumular de dívida algum dia teria que parar. Algum dia a economia teria que ajustar, e a parte da economia que sobrevivia apenas à custa da dívida pública teria que desaparecer. Esse momento foi despoletado com a crise de 2008.

O lento resgate

Muitos comentadores, mesmo alguns mais moderados, afirmam que o nível de austeridade imposto à Grécia foi demasiado severo e rápido. Se a austeridade fosse mais suave a aplicada lentamente, afirmam os comentadores, teria tido um efeito menos devastador e o país teria recuperado mais rápido. Mas será mesmo assim? Para testarmos esta hipótese, poderemos olhar para o que aconteceu em 4 outros países que atravessaram uma crise semelhante, mas fora do Euro: os 3 países bálticos e a Islândia. Em baixo, podemos ver a evolução do consumo das famílias (um bom indicador do padrão de vida) nos 5 países.

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Como podemos ver no gráfico, todos os países ajustaram brutalmente logo em 2009. Enquanto o consumo na Grécia caía um pouco mais de 1% em 2009, na Islândia caiu 10% e nos países Bálticos mais de 15%. Mesmo nos anos seguintes, nunca a Grécia teve um ano de ajustamento tão forte. O máximo que o consumo caíria num ano seria 11% em 2011. Terá isto causado danos irreversíveis nas economias dos países bálticos e na Islândia? O gráfico demonstra o contrário: depois de terem sofrido um nível de austeridade mais forte e rápido, estes países recuperaram rapidamente. Um ajustamento rápido e violento permitiu que a economia eliminasse a distorção acumulada sem levar a economia saudável atrás. Já a Grécia demoraria 5 anos a voltar a crescer. O problema do ajustamento lento versus “front-loading” é sentido particularmente na questão do desemprego. No gráfico em baixo, pode-se ver a evolução da taxa de desemprego nos anos de crise.

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A Grécia, poupada a uma austeridade tão brutal como a da Islândia e países bálticos não teve um aumento tão rápido do desemprego no início da crise. O resultado disso foi um crescimento constante do desemprego durante 5 anos. Quem perdeu o emprego nos primeiros dois anos tem grandes probabilidades de estar ainda desempregado 3 anos depois. Quando os trabalhadores ficam desempregados por mais de 3-4 anos, não perdem apenas o emprego, perdem a profissão. Não é grave que uma economia tenha temporariamente taxas de desemprego de 25%-30%, se puder rapidamente baixá-las para 10%. É bem mais grave para os indivíduos afectados pelo desemprego que uma economia tenha de forma permanente taxas de desemprego nos 15-20%. Uma economia com taxas de desemprego altas e estáveis condena os seus desempregados à incapacidade profissional.

O problema da Troika não foi ter imposto demasiada austeridade, mas sim não ter imposto uma austeridade mais violenta logo no início do ajustamento, que resolvesse o problema da economia mais rapidamente, de uma vez por todas, e que permitisse que o crescimento viesse mais cedo.

O ajustamento

O ajustamento demorou, mas em 2014 tinha sido atingido em boa parte. Depois de 5 longos anos de recessão, a Grécia começou a crescer de forma ténue. Com boa parte do ajustamento já feito, o crescimento da economia saudável já permitia compensar o pouco ajustamento que ainda havia a fazer. Foi isso que aconteceu em 2014 quando a Grécia apresentou um ténue crescimento económico. Apesar de ténue, este crescimento era sustentável. Ao contrário da fase de crescimento entre 2001-07, este crescimento era feito sem aumentar défices públicos e acumular dívida externa.

Mas afinal, onde é que o ajustamento levou a Grécia? O gráfico abaixo, com a evolução do PIB grego em democracia, ajuda-nos a ter alguma perspectiva sobre a evolução da economia grega:

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A austeridade trouxe a economia grega de volta ao ponto onde estaria se tivesse seguido a sua tendência de crescimento de longo prazo. O ponto onde estaria uma economia com grandes deficiências estruturais (como admitem economistas de esquerda e de direita) se nunca tivesse tido acesso fácil à dívida.

Foi com a economia a crescer, sem défices primário e externo, e com boa parte do ajustamento já feito que o Syriza assumiu o poder. Veremos o que faz com ele.

“As pernas dos banqueiros alemães até tremem”

Jornal de Negócios, 15/12/2011

Pedro Nuno Santos, vice-presidente do grupo parlamentar do PS, defende que Portugal deve ameaçar com a bomba atómica da suspensão do pagamento da dívida para obter, em troca, melhores condições de ajustamento. Carlos Zorrinho considera palavras algo excessivas , mas concorda como o seu vice.

“Estou marimbando-me para os bancos alemães que nos emprestaram dinheiro nas condições em que nos emprestaram. Estou marimbando-me que nos chamem irresponsáveis. Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses. Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos a dívida” e se o fizermos “as pernas dos banqueiros alemães até tremem”.

O “Grexit” e o contágio

No Marginal Revolution, Tyler Cowen analisa os possíveis problemas para Portugal e para a eurozona decorrentes da crise grega.

If you put Greek total debt in perspective, it’s smaller than that of many other EU nations, including Portugal. And that is as a percentage of gdp. Furthermore most of the remaining Greek debt is held by public sector institutions.

The difference of course is that Greece is being run by The Not Very Serious People. Portugal is often described as the next weakest link in the eurozone, but Portuguese politics are not nearly so…vivid. The amount of fiscal consolidation they have done is more or less accepted by the public. That makes Portugal more likely to survive, and it also makes the EU more willing to bail out Portugal, and extend any bailout if needed.

The performance of Syriza won’t encourage European voters to take chances on other less tested, left-wing parties, and that also militates against contagion.

A asneira é LIVRE

Naturalmente incomodados com o desmoronar dos radicais gregos a quem sempre conferiram o seu apoio e depositaram as suas esperanças o Grande Educador do LIVRE procura desviar a atenção e atribuir inusitadas responsabilidades.

O cabeça de lista do Livre/Tempo de Avançar por Lisboa, Rui Tavares, acusou hoje o Governo PSD/CDS-PP de “irresponsabilidade histórica” pela forma como se posicionou nas negociações europeias sobre o futuro da Grécia

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Christine Lagarde dá Portugal como bom exemplo de união perante a crise

Diário de Notícias

“Espero que todos os partidos políticos [gregos] se possam justamente inspirar nos exemplos dados pelos partidos políticos em Portugal e na Irlanda. Está a chegar um momento em que as rivalidades políticas devem ser postas de parte no interesse do país”, afirmou

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