A Impunidade Revisited

Já se passaram alguns anos desde que a impunidade – ou a falta dela – reinava como palavra de ordem dentro e fora das escolas.  Dos sindicalistas de plantão aos burocratas do ME, passando por uns quantos deputados – uns mais alfabetizados que outros – a impunidade dos alunos, esses delinquentes, incapazes de multiplicar de cabeça e de conjugar frases simples, esteve na ordem do dia. A impunidade era, para esses grupos, o que o crescimento hoje é para o Dr. Seguro e respectivos compinchas. O país mobilizou-se para acorrer à resolução da problemática do bando de acéfalos que parasitava as mais nobres instituições de ensino do país, envergonhando pais, professores e toda uma nação. Um professor do sindicato, mais atrevido e visionário, terá certamente magicado uma ideia genial, nunca professada por timidez ou moderação: ora faça-se a escola sem alunos, pois! Assim ninguém chateia. Genial.

De facto, tanto conversa de “direitos dos professores” fará um leitor mais desatento questionar-se se os professores servem para ensinar os alunos ou se os alunos lá estão para empregar professores.

De todas as reuniões, plenários, tertúlias, conferências, comissões e planos, alguém se terá esquecido de fazer uma pergunta incómoda, mas pertinente. E os professores ? Mas quem ousaria afrontar os professores ? Classe de prestígio, merecedora de respeito. Os professores não se avaliam, não se supervisionam, não se despedem. Os professores não são como os advogados ou os contabilistas, os pedreiros ou os jardineiros. O país precisa deles e quantos mais melhor. Se há demasiados professores para o número de alunos ? Não, nunca são demais. O ideal nogueirista seriam dois professores por aluno, o mestre e o assistente. Se não há dinheiro para pagar a tanta gente ? Azar, os outros desgraçados que trabalhem e descontem. E se não chegar, há sempre quem empreste. Se a escola pública está inundada de indivíduos sem conhecimentos ou capacidade oratória ou empatia ou estabilidade psicológica para dar aulas ? Claro que não. Isso são ideias de fascistas neo-liberais, a soldo dos privados (esses bandidos) empenhados em vender o ensino público.

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À consideração do TC: “Princípio da Igualdade”

Serve a presente para informar a minha entidade patronal que não aceito convocatórias para a reunião anual de avaliação e/ou outras diligências profissionais relevantes ou irrelevantes, ainda que ocorram em horário laboral, mesmo que respeitem a legislação em vigor, que não me sejam notificadas com pelo menos duas semanas de antecedência, já que tenho de me preparar adequadamente, do ponto de vista técnico e psicológico. Três dias úteis com um fim-de-semana pelo meio não são suficientes.

Reforço que apenas me sentirei notificado se a dita cumprir os requisitos formais de publicação em Diário da República. O correio electrónico ou o telemóvel não são meios adequados para que eu me sinta convocado. Acresce que o prazo de notificação deve respeitar o “princípio da apreciação prévia” e permitir, em conjunto com os meus colegas, com o JPP e com as estruturas sindicais, a avaliação da diligência, e se devo estar presente, ou fazer greve. Mais clarifico que o uso do direito à greve não deve ser visto como excepcional, mas utilizado como expediente corrente na relação com a minha entidade patronal, para impedir abusos, como isso de me sujeitar a avaliação, avisando-me só cinco dias antes.

Agradeço finalmente que não me peçam para me deslocar para o estrangeiro na véspera, ou que não convoquem reuniões com clientes essenciais com duas horas de antecedência, só porque tem de ser. E não me venham com essa que os mercados são competitivos, e que se não formos céleres arriscamos a falência. Os Direitos Sociais e a Dignidade do Trabalhador são inalienáveis, devendo ser preservada a sua integridade, algo que passa por “dar tempo ao tempo”. Porque é sabido, “o tempo tem tanto tempo quanto tempo, tempo tem”. Não venham cá com pressas.

Nota de imprensa (1): A FENPROF veio hoje clarificar que o bigode hipster e o blusão de couro do Mário Nogueira não se inspiram em nenhum filme da RTL dos anos 80, pré-queda do Muro de Berlim, nem apontam para registos estéticos a la Jeff Koons, starring Llona Staller. Quaisquer semelhanças são meras coincidências.

Nota de imprensa (2): A Heidi avisa que se a virem a fugir de um gajo com bigode e blusão de couro, é porque, just in case, pretende manter-se apenas no imaginário infantil, e não aderir a um registo polémico estilo Miley Cyrus.

 

O inteligente e os outros

JPP

Até podiamos desculpá-lo como a mais recente vítima da silly season não estive ele a debitar o mesmo discurso há largos meses. Três exemplos recentes.

1. Aqui descobrimos que a queda do BE se deveu ao sucesso da propaganda governamental. Algumas mentes menos esclarecidas terão acreditado nela (ou então não lêem as crónicas de JPP) e não se juntaram às manifs. Ninguém sabe pensar pela sua cabeça exceptuando ele e os que como ele pensam.

2. Aqui. A propósito dos exames dos docentes contratados, Pacheco Pereira denuncia as artimanhas e indecências de Nuno Crato. Quanto às artimanhas e indecências da FENPROF que usa todos os meios legais e mesmo ilegais para impedir o exame, nada. Será apenas a normalidade sindical. E infelizmente no caso de muitas corporações até é. (via MAL)

3. Aqui. O governo que acabar com a “tropa”, com o “estado social”, com a função pública, etc. Pacheco Pereira confunde deliberadamente a adequação (muitas vezes insuficiente e muitissimas vezes preferindo aumentar os impostos a cortar na despesa) do estado aos recursos existentes com um plano malévolo para acabar com estado social. Mas isso não encaixa na tese por isso é ignorado. E diz ele que já nem podemos fazer estas escolhas pelo voto. Na verdade até podemos mas existe um grande problema. Com que recursos? Isso Pacheco Pereira também não revela.  Que o governo tenha sido eleito após a assinatura do MoU (pelo governo de José Sócrates, PS, PSD e CDS recordo) e que já nem dinheiro tinhamos para pagar à FP também não convem recordar.

FENPROF: sabotar para governar

O meu artigo no Observador sobre a prova dos professores (clique para ler o resto).

«Há muitos anos que a política educativa não é mais do um duelo permanente entre ministros e sindicatos – com destaque para a FENPROF. Não é por acaso, nem é de hoje ou de ontem. O sector da educação alberga cerca de metade dos funcionários da administração pública e a organização do sistema educativo parece ter sido decalcada do centralismo soviético – ou seja, quem governa é, mais do que ministro, director de todas as escolas do país. No fundo, o sonho de qualquer sindicalista, que para todos os males critica sempre o mesmo patrão. Não admira portanto que, mais do que sobre os alunos, o foco de interesse esteja nos professores. E se o sistema está ao seu serviço, como muitas vezes aparenta estar, não admiram também as dúvidas sobre quem manda realmente na educação nacional: o ministro ou os sindicatos. (…)»

Costa ou A visão do Vazio

“Tu quoque, Costa?” de Pedro Picoito (Nada os Dispõe à Acção)

António Costa deu hoje uma entrevista de fundo ao Público. Dita assim, a coisa não suscita especial entusiasmo à nação, sensatamente a banhos, mas acontece que metade do PS, ou mais, anda a dizer que Costa será o próximo Primeiro-Ministro. Ora a nação, sempre sensatamente, tem feito o que pode para se alhear do arremedo doméstico dos idos de Março conhecido por “primárias do PS”. Acontece que há mesmo uma certa hipótese de Costa lá chegar, o que recomendaria alguma atenção às suas entrevistas de fundo, tanto mais que a nação, antes de ir a banhos, o acusava de nada ter para dizer.

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A birra

Quase seis meses depois, os quadros de Miró continuam numa caixa. O estado, ou seja vocês os contribuintes, continua com uma dívida adicional de 30 milhões de euros para suportar isso. Nestes seis meses foram pagos cerca de meio milhão de euros em juros por essa dívida. Isto corresponde ao salário anual de 15 funcionários públicos. 15 empregos a menos por uma birra. Já não nos chegava a demagogia e a obstinação ideológica, hoje até as birras contribuem para afundar o país e empobrecer os contribuintes.

Porque no sábado à noite fui ver o Yves Saint Laurent

yslQue nem foi dos meus criadores preferidos (nada ultrapassa a estética anos 30 da Chanel ou as criações fabulosas do Tom Ford – que tem aquele dom raríssimo do toque de Midas: tudo o que cria é bom e belo, desde carteiras e perfumes ao cinema; acho que nem que se esforçasse criaria algo sem qualidade). Os anos insolentes de YSL foram antes do meu tempo e, de quando me lembro, o costureiro já estava demasiado institucionalizado. Mas YSL tinha, como eu, a mania de misturar cores fortes. Por isso, sempre que faço o mesmo (como hoje, que estou de jeans rosa schiaparelli, túnica roxa e casaco verde água), posso dizer que YSL foi o meu mentor.

(Além de que também gosto muito de Piet Mondrian.)

Em resumo

Caso ainda existissem dúvidas. O caso BES/GES/PT recorda-nos que os negócios em que a racionalidade económica é substituida por outra lógica, seja ela política ou “amiguista”, tem resultados desastrosos. Sejam eles no sector público ou privado.

Mais Do Que As Palavras, Venham Os Actos

AlbuquerqueSegundo Maria Luís Albuquerque, a despesa pública representou cerca de 49% do produto interno bruto (PIB) em 2013. Para a ministra, “este valor traduz um peso excessivo do Estado na economia”. Excessivo, sustentou, “porque não permite libertar recursos para o investimento privado, excessivo porque em 2011 conduziu a uma situação de bancarrota iminente e em 2014 [esse peso] é suportado por uma carga fiscal reconhecidamente elevada – uma carga fiscal ainda necessária para equilibrar as contas públicas, mas que não incentiva adequadamente o trabalho e o investimento privado”. Foi neste contexto que a ministra considerou a redução da despesa um “imperativo” que possa abrir caminho à descida da carga fiscal.

Subscrevo por inteiro o diagnóstico e o tratamento. Mas muito mais importante do que as palavras, são os actos.

Mais um grande momento no Parlamento Europeu

Segundo o recém eleito presidente do PE, Martin Schulz, o candidato nomeado pelo governo britânico para a Comissão Europeia poderá ser rejeitado pelo PE por não ser suficientemene euro-entusiasta. Ainda bem que não foi a sra Merkel a dizer isto. Caso contrário seria uma grave ingerência nas competências que ainda sobra aos govenos dos países-membros.

Por cá as alternativas que vão aparecendo são assutadoras. Mas a sua extrema eurofilia garante que dificilmente serão recusados pelos eurodeputados.

O Mundo Perfeito (ou algumas notas sobre o Mundial e o Tintin)

capitaine-haddock

O meu primeiro mundial foi o de 1982. Claro está que acordar para a bola a sério com Zico, Sócrates, Éder e Falcão, deixa mossa. Fiquei imensamente triste com a derrota frente à Itália e com os 3 golos que Rossi enfiou nas redes brasileiras. Aquilo não se fazia num mundo perfeito que ainda era o meu. Jogadores daquele calibre deviam ser respeitados. Não era deixar ganhar. Os adversários deviam lutar, mas depois, como que por artes mágicas, aceitar que não conseguiam vencer. É engraçado como hoje não lamento aquela derrota. As minhas recordações, caso o Brasil tivesse ganho à Itália, não seriam as que guardo agora. O luxo de ficar triste por algo que não tem importância, aquele momento único duma límpida e inofensiva desilusão é algo devo a Zico & Co. E também a Rossi, claro.

A partir desse momento fiquei viciado no Brasil, melhor, na selecção brasileira. Durante os mundiais, eu fecho os olhos à realidade e dou-me ao luxo, durante este período muito particular, e apenas nos jogos do Brasil, de ser criança. Há quem seja do Benfica, do Porto ou do Sporting durante um ano inteiro. Eu rendo-me de 4 em 4 anos para voltar a ser conscientemente ingénuo. Não ver o mundo como na verdade é, mas carregar baterias para a dura (e boa) realidade que vivemos todos os dias. É bom, por uns tempos, fingir que a vida se reduz a toques de mágica numa bola. Mesmo quando se perde por 7 a 1.

Vem isto ao caso, não só porque o Mundial acabou, mas no seguimento do post da Maria João sobre o Tintin. E também porque, quando o jogo em que a Alemanha deu 7 ao Brasil terminou, dei por mim a ler um álbum desenhado por Hergé. Já não sei qual; um qualquer, que qualquer um servia para o efeito. Vezes sem conta faço o mesmo: regresso à realidade de Tintin. Nesta, que existe apenas no nosso imaginário, há maldade, há enganos, mas há também a coragem, a lealdade, a franqueza e a consciência limpa de Tintin. Há o Capitão Haddock que se irrita porque é genuinamente humano. Se irrita em nosso nome. Por todas coisas que temos de aguentar sem abrir a boca, ele vocifera, gesticula e esvazia a nossa raiva.

Há cerca de uns três meses a esta parte que o meu filho de dois anos e meio tem pegado nos livros do Tintin. Começou por ver o primo mais velho em casa dos avós e, chegado a casa, pegou na nossa colecção. Ele não lê, mas vê os desenhos e pede-me que lhe conte as histórias, as pequenas histórias contidas dentro de cada aventura. Ri-se quando o Haddock se senta em cima de um crocodilo, pensando que é o tronco de uma árvore (O Templo do Sol); dos Dupondt quando, com pressa, caem do barco que ainda está a atracar (A Ilha Negra); da Bianca Castafiore e da rosa que ela dá a cheirar ao capitão e que tem uma vespa que lhe pica o nariz (as Jóias da Castafiore). Gosta especialmente do mergulho do Milu no rio para se limpar da lama da chuva (O Segredo do Licorne). E enquanto ele que vai conhecendo estas histórias, vai-se familiarizando com aquele mundo. O mundo perfeito. O mundo em que um rapaz, sendo leal, corajoso e franco, nos mostra um dos segredos da vida: que o nosso melhor crítico somos nós mesmos, não significando isso que possamos fazer o que nos apeteça, mas que enquanto fizermos o que está certo, estamos bem. Esse sentimento, é o mundo perfeito. O mundo perfeito que o meu filho começa a guardar com ele.

Humor inconsciente

Pedro Bráz Teixeira sobre a proposta de reestruturação de Francisco Louçã et al.

Imagine-se também que o governo português apresentava esta proposta aos credores fixando um prazo, ainda assim curto, de 30 dias para chegar a acordo. Durante esse período, teríamos subidas vertiginosas das taxas de juro da dívida portuguesa, o colapso da bolsa, a começar pelas acções dos bancos, fuga generalizada de depósitos para o exterior ou para debaixo do colchão, levantamento em massa de certificados de aforro. A partir de dada altura, os bancos e o próprio Estado deixariam de poder fazer pagamentos. No meio deste caos, os autores do documento ainda conseguem a maior piada do texto (p. 69): “O país pode reestruturar a banca nacional sem necessitar da ajuda do BCE.”

Um começo auspicioso

Juncker calls for minimum wage in all EU countries

Jean-Claude Juncker to take the EU on the ‘attack’

Juncker elected: promises more social EU, more political commission

Juncker called for a binding energy efficiency target and more renewable energy across the 28-state bloc.

Europe should invest €300bn (£238bn) over the next three years to revive the economy and stimulate growth and jobs creation, says designated European Commission President Jean-Claude Juncker

Liberdade, Igualidade e Solidariedade

Estão abertas as inscrições para os simpatizantes do PS participarem nas eleições internas do partido para escolherem o candidato a primeiro-ministro.

PrimariasPS

Além do grande dilema existencial que envolve a escolha entre Seguro e Costa que certamente fará os simpatizantes passarem muitas noites em claro, estes simpatizantes devem ainda concordar integralmente com a declaração de princípios do partido. Na linha de grandes filósofos e poetas, esta declaração rege-se pelos valores da liberdade, igualdade e solidariedade… se bem que quem os redigiu deveria explicar melhor o que significa igualdade (perante a lei? igualdade de oportunidades? igualdade de resultados?, outro?) e também deveria saber que solidariedade coerciva não é solidariedade; e que a coercão é incompatível com a liberdade.

O peculiar percurso de Ana Drago

Miguel Madeira sobre a cisão do “Fórum Manifesto”

Bem, e após esta longa introdução, o que tenho eu a dizer da nova cisão? Pelo menos uma coisa – que no caso da Ana Drago, se ela realmente sair do Bloco, não percebo muito bem como, em seis meses, alguém passa de membro da direção de um partido a ex-aderente do partido (sem sequer passar pela posição intermédia, de se candidatar contra a atual direção); isto é, se alguém se manteve anos na direcção e a apoiar a lista maioritária, parte-se do principio que não tinha diferenças significativas com a direção e as que tinha achava possivel tentar mudar as coisas a partir de dentro, em vez de apoiar uma candidatura alternativa; de repente (ou em seis meses) chega à conclusão que, não só as suas divergências com a direção são muito grandes, como até as divergências com o conjunto do aderentes do partido serão tão grandes que nem sequer vale a pena apresentar uma moção e listas oposicionistas (ainda mais que vai haver uma convenção daqui a quatro meses)? Sinceramente, parece-me a atitude de alguém que está à espera que as coisas lhe caiam no colo já feitas (“Se os órgãos dirigentes não concordam com as minhas ideias, não tento mudar as coisas, vou-me embora”), ou de quem vê a política mais como acordos e negociações de bastidores de que como uma luta aberta pelas suas ideias (o que, confesso, não era nada a ideia que eu tinha da Ana Drago), e portanto acha que, se não consegue convencer a “elite” do partido, então não há nada a fazer… (para falar a verdade, até ontem eu estava convencido que muito provavelmente a Ana Drago iria derrotar a atual direção na próxima convenção do BE).

Et tu UDP?

No Público

Luís Fazenda, líder de outra das três correntes iniciais do BE, a UDP, criou uma nova corrente, a Esquerda Alternativa, a que aderiram também o líder parlamentar, duas deputadas e uma dirigente nacional.(…) Fonte próxima da direcção do BE explica ao PÚBLICO que “há agora duas UDP’s, estão divididas”. E que “Luís Fazenda, que sempre teve uma posição interna forte, percebendo a polémica, tentou esvaziá-la e criar outra”. Mas que polémica? “Luís Fazenda quis libertar-se dos seus velhos camaradas que acusa de serem adeptos de uma aliança com o PS”, diz um dirigente que pede para não ser identificado