Está a correr de feição (3)

Standard & Poor’s ameaça cortar rating da Grécia

A agência considera que as medidas defendidas pelo novo Governo grego “são incompatíveis com a política acordada entre os anteriores Executivos e os credores oficiais”.

Ideias radicais-moderadas para um Syriza português

Sendo a França e instituições francesas os maiores credores de Portugal, acho que chegou a hora de cobrarmos a esses gauleses as indemnizações nunca liquidadas pelos danos causados durante as invasões napoleónicas, bem como pelo extenso património que Junot, Soult e Massena levaram do nosso país quando batiam em retirada. Assim por alto, se juntarmos um coeficiente de actualização monetária, ainda que conservador, somos capazes de chegar a qualquer coisinha próxima dos 80% do PIB. Se for preciso arredondar, para dar conta certa, podemos sempre entregar os Mirós.

Corrida aos bancos na Grécia?

Não sei porquê, mas não me espantava que dado o ímpeto reformista que se assiste na Grécia, amigo da descapitalização acelerada do sistema, pouco faltará para que o mesmo povo que elegeu o Syriza, chegada a ressaca, inicie uma corrida aos bancos, à caça dos seus euritos. Começo agora a perceber melhor a escolha do ANEL, e a atribuição de pastas dentro do novo governo, já que na hora de distribuir cacetada há que manter a tradição e deixar esse trabalho sujo para a Direita – de preferência, para a má Direita, Nacionalista e com um quid de Fascista.

Está a correr de feição

Jornal de Negócios

A dívida a três anos da Grécia regista o maior avanço entre as diversas maturidades e sobe 256,9 pontos base para 16,591%. Um avanço de 651 pontos base desde o início da semana.

No prazo de cinco anos, a taxa de juro avança 163,8 pontos para 13,438%, ampliando para 440 pontos a soma desde as eleições.

A dívida de referência a 10 anos avançou 204 pontos base em três sessões. Hoje está a somar 101,2 pontos para 10,488%.

Também no mercado de capitais os investidores estão a revelar o seu receio em relação ao futuro da Grécia. A bolsa de Atenas está a afundar 8,32% e já perdeu mais de 81% nas três últimas sessões.

 

Syriza e UE, ou como tentar misturar água com azeite

Do que tenho percebido, o Syriza é um partido que na sua origem agregou uma série de forças políticas, reunindo populistas de extrema-esquerda, ecologistas, maoístas, trotskistas, eurocomunistas e eurocépticos. Assim de repente, diria que todas estas pessoas acreditam, profundamente, nos “amanhãs que cantam”, em sociedades onde o Estado detém os meios de produção, e na autofagia do capitalismo.

Aquilo que se está a tentar fazer na Grécia, parece, é misturar água com azeite. O Syriza é incompatível com as regras mínimas de uma economia de mercado e com os pressupostos do Euro e da UE. Chegados ao Poder, pergunto-me que motivação tem o Syriza para não perseguir o seu programa ideológico, de ruptura com as democracias liberais e com a economia de mercado, e de aceleração e busca da sua Utopia: a destruição do modelo capitalista e a afirmação de uma sociedade Socialista.

O clima “sempre-em-festa” e o rasgar dos compromissos firmados com a UE instalou-se dez minutos depois do Syriza tomar o Poder: reposição do salário mínimo em 751 euros, suspensão do programa de privatizações, reintegração dos funcionários públicos. Aguardam-se novos capítulos desta saga, mas a sensação que dá é que o novo governo da Grécia irá continuar a ignorar um por um todos os acordos assinados, sem sequer esperar pelo dia em que é suposto sentar-se com os credores à mesa das negociações. E é com esta postura de desrespeito unilateral dos compromissos assumidos com os credores que o Syriza se irá apresentar para iniciar o que chamam de “renegociação da dívida”.

Tenho pena dos gregos que se deixaram iludir por um bando de pirómanos, que vão por o País a arder. O fim desta história dificilmente vai deixar de ser trágico. A dúvida está em saber qual a extensão da desgraça que se avizinha, e que consequências vai ter nas redondezas…

 

Che

“Do percurso de vida de Alexis Tsipras, o novo primeiro-ministro da Grécia, sabe-se da sua licenciatura em engenharia civil, sabe-se do seu ateísmo, da sua já extensa carreira política – iniciada na juventude comunista –, e naturalmente também da sua admiração pelo revolucionário marxista Ernesto “Che” Guevara (ao ponto de um dos seus filhos se chamar Ernesto). Este é o ponto de partida do homem que promete devolver aos gregos a esperança perdida, após cinco anos de resgate financeiro e de depressão económica. E que, poucas horas depois de ter sido eleito, se coligou com a direita nacionalista para formar um governo cujo traço identitário será precisamente o seu carácter nacionalista.”, no meu artigo de hoje no Diário Económico.

Sobre os (maus) professores

teachers

Há uns meses, escrevi que temos maus professores. Hoje, no Observador, face aos últimos resultados da prova de avaliação de professores, regresso ao tema: Sobre os (maus) professores

«(…) Em Portugal, as coisas são diferentes. Os melhores alunos nas escolas secundárias não querem ser professores, o acesso aos cursos de ensino não é competitivo e, geralmente, quem frequenta esses cursos são os alunos que apenas obtiveram resultados medianos ou fracos no seu percurso escolar. Alunos que, em muitos casos, têm um perfil socioeconómico baixo, sendo sabido que há uma relação estatística entre o perfil social de um aluno e os seus desempenhos escolares – não é um fatalismo, há quem vença as estatísticas, mas é uma tendência. Ou seja, confiámos a missão de preparar os jovens do futuro àqueles que, hoje, estão entre os piores alunos da sua geração. Ora, também aqui os resultados estão à vista: nas comparações internacionais, Portugal continua muito aquém dos níveis de desempenho escolar na Finlândia e, entre nós, ser-se professor está longe de ser uma opção de carreira prestigiante. (…)»

 

Calotes gregos: reminder para portugueses de pouca memória

Convém recordar que a Europa tem feito pela Grécia o que não fez por mais nenhum Estado europeu, incluindo Portugal. Em 2011, por exemplo, a Grécia beneficiou de um extenso perdão de dívida, com a aplicação de um “haircut” em 50% da dívida, ou seja, quem detinha dívida grega, levou um calote de 50%. Em Portugal, por exemplo, BCP e BPI tiveram perdas de 590 milhões de euros pela sua exposição a dívida grega, dinheiro que certamente fez alguma falta ao nosso sistema financeiro.

Em troca deste perdão de dívida, a Grécia aceitou uma série de compromissos, que pelos vistos, chegados a 2015, parece que afinal não são para cumprir. Parece que por cá há quem ache isso muito bem. Só para lembrar que desta vez, se a Grécia não pagar, Portugal – ou seja, nós todos – ficamos a arder em mais de mil milhões de euros.

Para que se perceba a ordem de grandeza destes números, 1.700 milhões de euros corresponde a 4 vezes o saldo positivo que este ano a nossa Segurança Social gerou, dava para comprar 2 vezes os submarinos que tanta polémica têm gerado nos últimos 10 anos em Portugal, corresponde a 1,7 vezes a receita da sobretaxa do IRS, a 9 vezes a verba que destinamos em 2014 ao Ministério da Cultura, a 2 vezes a contribuição do Orçamento de Estado para a ADSE. Dava para sanear 4 buracos da TAP, e construir a totalidade da ligação ferroviária da Beira Interior, e a sua ligação a Espanha. E corresponde, se a memória não me falha, a 3 vezes o esforço que todos os anos fazemos em Portugal para financiar o Rendimento Social de Inserção, ou “Rendimento Mínimo”.

“Houve um pouco de ‘bluff’ da nossa parte” (2)

Um leitor do Insurgente aponta um interessante post  de 2012 (pouco antes das anteriores legislativas onde o Syriza era por muitos indicado como vencedor) no blog pessoal de Yanis Varoufakis. Indicado pelo Syriza para ministro das finanças.

Should we be afraid of Syriza’s ‘ultra-leftism’? My answer is a resounding No. I recommend that (even those who have Greek amongst their languages) you do not read their manifesto. It is not worth the paper it is written on. While replete with good intentions, it is hort on detail, full of promises that cannot, and will not be fulfilled (the greatest one is that austerity will be cancelled), a hotchpotch of policies that are neither here nor there. Just ignore it.

“Quantitative Easing” – o seu real impacto

Tem havido um deslumbramento, na minha opinião, excessivo, em relação ao sentido e alcance das medidas anunciadas pelo BCE que, não sendo novas (já em Setembro haviam sido apresentadas), impressionam pelos valores equacionados (60 mil milhões de euros por mês) e pela possibilidade dentre os activos tóxicos considerados poder incluir-se dívida pública.

Há uma incompreensão alargada na nossa opinião publicada, seja a protagonizada por agentes políticos, seja por jornalistas, em relação ao que tecnicamente representa este “quantitative easing e como se processa a capitalização do sistema financeiro.

Em primeiro lugar, como já havia referido em Setembro, no Diário Económico, a ausência de crédito na nossa economia não se deve tanto ao custo do capital ou à sua facilidade de acesso por parte da banca mas ao risco implícito dos balanços das empresas, que as desqualificam para a obtenção de crédito face às regras apertadas de solvência impostas nomeadamente por Basileia III e pelas diversas Directivas comunitárias de governação bancária sucessivamente aplicadas pelos que defendem “mais regulação”.

Há em Portugal bancos que estão com menor tracção na concessão de crédito, não porque tenham falta de capital para emprestar, mas por míngua de empresas com bons projectos que qualifiquem na brutal malha de risco que as regras prudenciais lhes impõem. As medidas de Draghi beneficiam alguns, nomeadamente vão possibilitar a melhoria dos rácios dos bancos, na medida em que permitem que muitos possam securitizar alguns activos que hoje penalizam os rácios de capital (v.g., activos imobiliários, obrigações corporate mais depreciadas). Agora, não se vê como tal securitização vai servir para cumprir a euforia geral que se sente em Portugal, nomeadamente como possa alterar significativamente a atribuição de crédito à economia, que não pela via lenta da qualificação das empresas em termos de risco, algo que o “quantitative easing” não resolve. A assunção de activos dos bancos pelo BCE, conjugada com uma política de juros baixos abre em qualquer caso uma oportunidade de “revolving” das dívidas das empresas mais alavancadas, possibilidade essa que não me parece que vá ser aplicada em toda a sua extensão, pois os bancos vão tentar incorporar o mais possível a margem financeira das operações.

As medidas do BCE destinam-se mais aos países com economias solventes e tecidos empresariais mais equilibrados, e pretendem combater a deflação (logo se verá com que efeitos), e não tanto a países como Portugal, embora uma parte da nossa economia já possa qualificar para o acesso ao crédito em condições vantajosas; em nenhum caso pretendem esconder as debilidades das empresas ou aligeirar as reformas estruturais que cada Estado tem de cumprir.

Uma nota adicional: entre a apresentação do programa de quantitative easing, em Setembro, e o mais recente anúncio, agora em Janeiro, o BCE alargou o programa de compras a dívida pública em mercado secundário, com a seguinte extensão:

“The ECB will buy bonds issued by euro area central governments, agencies and European institutions in the secondary market against central bank money, which the institutions that sold the securities can use to buy other assets and extend credit to the real economy. In both cases, this contributes to an easing of financial conditions.”

Esta medida pode permitir que algumas instituições mais expostas a dívida pública libertem os seus balanços, para comprar mais dívida pública; ou, quiçá, assegurar que o BCE está preparado para intervir rapidamente, em caso de default de algum Estado-membro, absorvendo activos que entretanto se tornem tóxicos (vem-me à cabeça a dívida grega que ainda possa estar a “pairar” por aí, nos balanços de bancos e fundos).

Boas ou más, mais ou menos eficientes, o que há que referir é que estas medidas estão muito longe de serem “expansionistas”, no sentido que alguma esquerda lhe tem dado, e não representam nenhuma viragem significativa nas políticas seguidas pela Europa, sendo antes uma forma do BCE procurar combater a deflação e estar (ainda mais) preparado para algum problema que a Grécia possa criar ao Euro.

“Houve um pouco de ‘bluff’ da nossa parte”

Dois dias após as eleições gregas e o Syriza já começa a recuar. Sinceramente tinha esperança que levassem a cabo a sua desastrosa ambiciosa promessa de denúncia unilateral do pagamento da dívida.

O deputado do Syriza Yanis Varoufakis, apontado como provável novo ministro das Finanças, afastou hoje a saída da Grécia do euro e assegurou que o partido não procurará “a confrontação”.

Em declarações ao programa radiofónico Today, da BBC, Varoufakis disse que o novo Governo grego liderado pelo Syriza negociará construtivamente uma restruturação da dívida do país com Bruxelas.

“Houve um pouco de ‘bluff’ da nossa parte”, declarou o parlamentar de dupla nacionalidade grega e australiana, acrescentando que “o que realmente importa agora é sentarmo-nos a falar” sobre a melhor maneira de reorganizar o pagamento da dívida grega.

Não deixa de ser significativa que o “bluff” seja exposto em tão curto espaço de tempo.

Acima de qualquer suspeita (edição argentina)

Na Argentina, outra heroína do povo diz serem “irracionais” quaisquer suspeitas contra si e contra o seu governo. Mesmo depois de um procurador ter sido encontrado morto na véspera de ir testemunhar no processo do atentado contra a Associação Mutualista Israelita Argentina que o seu governo é acusado de encobrir em troca de uns favores petrolíferos de Teerão.

Russia downgraded

Reuters

Ratings agency S&P cut Russia’s sovereign credit rating to junk status on Monday, bringing it below investment grade for the first time in a decade.

Warning of difficult times ahead for Russia’s economy, S&P said it had cut the rating from BBB- to BB+ and that Russia’s economic growth prospects, hit by low oil prices and Western sanctions over the Ukraine crisis, had worsened.

As Vantagens Das Empresas Públicas Para Os Contribuintes

Perdas das empresas públicas sobem 130% para 840 milhões de euros.
No entanto, não se pode olhar exclusivamente para os números. É necessário contabilizar o benefício público intangível da Joana Amaral Dias poder viajar para o Recife sem escalas.

QED

Diário Económico

A taxa de juro das obrigações helénicas a 10 anos, o prazo de referência, subia 35,8 pontos base até aos 8,769%. (…) No caso português, por exemplo, o risco alivia em praticamente todas as maturidades. Nas obrigações a 10 anos a taxa recua para 2,358%, cotando muito próxima do seu mínimo histórico.

Como asseguravam alguns comentadores, a vitória do Syriza irá certamente fazer “vergar” os mercados.

A sublimação da responsabilidade na vontade (II)

Dando a vitória ao Syriza, ratificando o seu programa, os gregos sinalizam que querem que a Europa mude, sem que nada de substantivo mude na Grécia.

A vitória do Syriza prova ainda como o socialismo moderado caiu em crise profunda, não oferece soluções, estando refém do discurso radical. O PASOK desapareceu do mapa, em França o Partido Socialista perde terreno para os nacionalistas de Marine Le Pen, o mesmo acontece na Hungria; em Espanha, o Phodemos Podemos cresce no espaço político do PSOE. Quem confia que o renascimento das cinzas do socialismo europeu está nas mãos da capacidade que venha a demonstrar um grupo de 9 partidos de extrema-esquerda (que inclui pelos vistos maoistas, verdes, trotskistas e quejandos) liderados por um Tsypras sem experiência de gestão administrativa inverter a agonia de uma economia paralisada, profundamente corrupta e avessa a mudanças, aplicando um programa que objectivamente não é financiável, é no mínimo optimista.

Acresce que o Syriza vai ter de mostrar capacidades hercúleas para gerir, ao mesmo tempo, as distintas sensibilidades de 9 partidos que suportam a coligação interna, a sua relação com os credores – que dificilmente vão aligeirar as exigências de reforma – e com uma máquina administrativa, burocrática e, sobretudo, militar-policial, colonizada pelos partidos do sistema durante mais de 40 anos.

O que se desenha na Grécia, a despeito da mui nobre vontade do povo grego, é uma Tragédia que dificilmente terá um final feliz.

O modelo comum da esquerda portuguesa

A esquerda parlamentar portuguesa saúda entusiasticamente a vitória do Syriza.

António Costa Vitória de Syriza é “mais um sinal da mudança” na Europa

PCP Vitória do Syriza é “derrota” de quem tem governado o país

Catarina Martins Bloco saúda “vitória da democracia” conquistada pelo Syriza

A sublimação da responsabilidade na vontade

A propósito da vitória do Syriza, muitos são expeditos em afirmar que esta é uma resposta do povo grego à Alemanha e às instituições europeias, que não deixou que a sua “vontade” fosse condicionada pelas “ameaças” lançadas pelos defensores da “austeridade”. E que está em curso uma “mudança” na política europeia, a partir da revolta grega.

Convém recordar os mais esquecidos que a democracia é apenas uma forma dos eleitorados escolherem os seus representantes e validarem políticas. A legitimidade democrática, porém, não tem por si um carácter regenerador, nem o condão de resolver os problemas miraculosamente. Entre “vontade” e “realidade” há um espaço amplo, onde alguma esquerda projecta o sonho.

A Grécia ao longo dos anos tomou opções que colocaram o país no caos. O facto de terem escolhido um partido que defende o fim da austeridade, a aplicação de medidas de grande impacto social (bastante caras) e a renegociação da dívida, não é crível que permita resolver muita coisa, pois o país não tem os meios para aplicar aquilo a que aspira. Acresce que a Grécia, sendo o país que se encontra em pior situação no panorama europeu, tem sido aquele que menos reformas estruturais conseguiu implementar, vivendo dependente do funcionalismo público, num ambiente corrupto e avesso a mudanças.

O Syriza é a síntese mais clara do socialismo, que vende a vontade paga com o dinheiro dos outros.

Atenas e Berlim

António Costa, líder do PS, diz, a propósito da vitória do Syriza, que “cada povo deve ser livre de fazer as suas próprias escolhas”. E tem toda a razão. O povo grego pode escolher não se sujeitar às exigências da Alemanha, da Finlândia, e dos restantes países mais “austeritários”. E os eleitores alemães, finlandeses e dos outros países mais “austeritários” têm todo o direito de escolher não pagar aos gregos os custos das escolhas que estes últimos fazem. O que está em causa no conflito entre Atenas e Berlim não é um confronto entre “democracia” e “autoritarismo”. É, isso sim, um conflito de interesses de duas democracias, uma incompatibilidade entre duas vontades igualmente legítimas das respectivas maiorias eleitorais de cada um destes dois regimes democráticos. Por isso é que o problema é grave e complicado de resolver, independentemente dos méritos ou deméritos das duas posições.

Leopardos e camaleões

O dr. Paulo Portas, interrompendo as prolongadas férias que de há uns anos para cá anda a gozar a expensas do Orçamento Geral do Estado, escreveu um artigo no Observador sobre Winston Churchill. O texto, com o estilo retórico habitual na personagem (fazendo com que só os mais pacientes o consigam ler na íntegra), “argumenta” (tanto quanto o uso da palavra se pode aplicar a Portas) que “Churchill talvez não sobrevivesse aos tempos e aos modos da política contemporânea”. Por uma vez na vida, concordo com Portas: também eu temo que políticos como Churchill talvez não fossem bem sucedidos na política tal como ela hoje se pratica. Afinal, na política moderna proliferam e prosperam políticos precisamente da estirpe do dr. Portas, para infelicidade e desgraça de todos nós. Embora no seu caso concreto talvez isso esteja perto de deixar de ser verdade.

Dias de reflexão

Portugal tem um “dia de reflexão” nas vésperas das eleições. A Grécia tem um “dia de reflexão” nas vésperas das eleições. O desgraçado estado a que ambos estes países (cada um à sua maneira e grau) chegaram é prova mais do que suficiente que o tal “dia” não serve de muito.

A Deflação Maligna e Os Unicórnios

DMarioDraghiepois do anúncio do Mario Draghi de compra por parte do BCE de activos no valor de cerca de um bilião de euros, parece existir já muita gente a esfregar as mãos com as perspectivas de aumentar o endividamento de forma mais fácil.

Os papagaios keynesianos que repetem até à exaustão que a deflação é maligna e deve ser combatida a todo o custo devem estar de facto satisfeitos. Até a respeitada Bloomberg publica esta aberração: Why Falling Prices Are Actually a Really Bad Thing (embora os comentários dos leitores desse artigo me façam recuperar alguma esperança na humanidade). Em Portugal também são inúmeros os comentadores que partilham da leitura da deflação como algo maligno que é preciso ser combatido fervorosamente (por exemplo aqui e aqui), e cito: “O objetivo do BCE é garantir um nível mínimo de inflação, que é indispensável para não asfixiar o crescimento e dar espaço ao aparecimento de novas tecnologias (mais caras). Um cenário de deflação (inflação negativa prolongada no tempo) é muito difícil de inverter porque se autoalimenta: o consumo é adiado a aguardar por preços mais baixos, o investimento cai porque a procura está estagnada, as empresas não vendem e vão à falência, aumenta o desemprego e a procura continua a cair.”

O Carlos Guimarães Pinto já aqui fez uma boa análise sobre a deflação assim como Rui Santos aqui, mas neste post gostava de realçar alguns pontos:

  • A inflação e o índice de preços no consumidor são coisas diferentes. A inflação é por definição o aumento da massa monetária. Havendo mais euros em circulação para os mesmos bens e serviços, os euros valerão necessariamente menos. Pode-se imprimir toda a moeda que se quiser, mas é impossível imprimir riqueza. Aliás, se a criação de moeda gerasse riqueza, o Zimbabwe seria o país mais rico do mundo. A emissão de moeda é pura e simplesmente um processo de transferência de riqueza, penalizando aforradores e beneficiários de rendimentos fixos (por exemplo: salários e pensões) em favor dos devedores e as instituições financeiras que recebem o dinheiro “fresco” antes do resto da população. E quem são os maiores devedores do planeta? Precisamente os estados através dos seus governos (José Sócrates: hello?).
  • Numa economia normal, a redução do nível geral de preços é um processo normal que resulta dos aumentos de produtividade que por sua vez resultam quer dos progressos tecnológicos quer de investimentos em bens de capital. Embora o nível de preços geral tenda a baixar, mesmo com a massa monetária constante, os preços de bens e serviços individuais estão sujeitos a variações na oferta e procura relacionados com factores demográficos, alterações nas preferências dos consumidores assim como da abundância ou escassez na disponibilidade de matérias primas (por exemplo por razões relacionadas com o clima ou pela descoberta de novas fontes de produção). Resumidamente, mesmo num cenário de redução geral do nível de preços, existirão alguns preços a aumentar e outros a baixar.
  • Não se pode adiar o consumo indefinidamente. As pessoas precisam de comer, de se vestir, de se deslocar. E mesmo a redução do preço em determinado momento do tempo não significa que irá ocorrer uma redução constante e permanente do mesmo. Existe um factor de incerteza e de risco em que mesmo num cenário de redução de preços geral, o preço do bem ou serviço específico aumente. Além disso, quando se consume é para usufruir desse consumo. Entre consumir no presente ou consumir no futuro, é preferível consumir no futuro. Ao se adiar a compra na expectativa de uma redução de preço, está se a abdicar do usufruto desse consumo pelo mesmo período. Por exemplo, se eu adiar a compra de um automóvel por um ano, vou abdicar do usufruto do automóvel durante esse ano, e ainda me arrisco a que o automóvel aumente de preço no final de um ano (por exemplo devido a um aumento do preço do alumínio, ou devido a um aumento de impostos – por exemplo, “impostos verdes”.
  • A lei da oferta e da procura, e realço a palavra “lei”, implica que a um preço menor, a procura será maior. O melhor exemplo tem a ver com a tecnologia onde se verificam as maiores reduções de preços: desde computadores, telemóveis, máquinas fotográficas digitais, dispositivos de armazenamento de memória e televisões LED. Se no início estes bens eram praticamente inacessíveis ao cidadão comum, hoje são acessíveis a quase todos. A procura “explodiu” e os consumidores não adiam indefinidamente o consumo na expectativa de uma redução do preço.
  • Além do ponto anterior, uma redução generalizada dos preços resulta num aumento do poder de compra por parte dos consumidores que potencia mais consumo. Como se verificou recentemente com a queda do preço dos combustíveis, os consumidores ficam com mais rendimento disponível que podem utilizar para efectuar consumos adicionais que de outra forma não seriam capazes de realizar.
  • De onde vem o valor mágico de 2% como objectivo para a inflação? Se 2% é bom, porque é que 3% não é melhor? Ou 4% ou 5%?

Visualização complementarInflation Propaganda Exposed (o vídeo abaixo)