A Sério, Costa?

António Costa falou ontem sobre “três questões políticas” de curto prazo. A saber:

  1. ASerioCostaLutar por uma nova leitura do tratado orçamental que se ajuste às metas do ciclo económico de modo a “cumprir as necessidades da dívida mas também de investimento” – resumidamente, mais défice, mais dívida e condescendência da União Europeia.
  2. Pedir uma maioria absoluta, excluir o entendimento com os actuais PSD e CDS e abrir a porta a um entendimento com os partidos mais à esquerda – medo.
  3. Implementar “um plano de recuperação económica e social” que consiste em “travar a austeridade para dar confiança”, dar “estabilidade das pensões já formadas” e recorrer ao BCE, ao BEI e ao próximo Quadro Comunitário de Apoio para “capitalizar as empresas” – também mais défice e mais dívida ao mesmo tempo que se espera que a Europa continue a transferir indefinidamente fundos para cá.

A sério, Costa? É este o melhor calibre que o nosso sistema político consegue produzir?

A prostituição vista de um “país democraticamente decente”

A Suíça não é propriamente um país troglodita, atrasado e bacoco. Pelo contrário. Ora, neste baluarte da democracia, a prostituição é vista como uma qualquer atividade remunerada e reconhecida oficialmente, sendo encarada com toda a naturalidade. Mas não se pense que ela é exercida sem mais. Desde longa data que a lei contém diversas “disposições disciplinadoras”, sendo que a prostituição de rua é considerada ilegal: a mesma só pode ser exercida em bordéis licenciados, e em áreas específicas circunscritas, nas grandes cidades. Para não promover, provavelmente, o abandono escolar, ou dizem as más línguas, para poder assinar a Convenção do Conselho da Europa sobre a Proteção das Crianças contra a Exploração e os Abusos Sexuais, a Suiça decidiu, em 2011, alterar o seu Código Penal para que a prostituição legal só possa ser exercida por maiores de 18 anos, e não de 16, como ocorria até à data. Não deixa de ser curioso que nessa Meca da Democracia que é a Suíça esta alteração tenha demorado mais de dois anos até estar definitivamente aprovada na Câmara Baixa do Parlamento suíço (a iniciativa legislativa arrancou a 1 de Julho de 2011 mas só foi concluída a 10 de Setembro de 2013); tal possivelmente deveu-se ao grande respeito existente pelas jovens de 16 anos que, já em exercício, puderam desta forma completar 18 primaveras, antes de sofrerem os rigores das Leis Penais Suíças. Consta que Berlusconi prevaricou porque achava que estava na Suíça, e não nessa República das Bananas que dá pelo nome de “Itália”.

Estranho? Nada do que aqui é apresentado deve “manchar a manta”, já que há receitas fiscais, os ganhos chorudos advindos desta actividade altamente lucrativa são socializados e colocados parcialmente ao serviço do Bem Comum, numa virtuosa sociedade entre o “pimp” e o “cidadão carenciado” (no sentido sociológico do termo, perceba-se), encaminhados “a fins de utilidade pública, nomeadamente nos domínios cultural, social e desportivo”.

E mais: limitando e muito a acção das grandes redes internacionais e os seus poderosos interesses, que vão desde a Goldman Sachs ao Zezé Camarinha, os suíços não têm sido de modas, tornando mais assertiva a actividade em questão: veja-se a título de exemplo a inventiva que dá pelo nome de “garagens de sexo“, os novos “drive-in do sexo” (qualquer semelhança com um registo MacDonalds é mero enviesamento do leitor), que são já um sucesso – ou será que devemos dizer, um “susexo” – no país da Heidi e do chocolate Milka.

Não haja dúvidas, nisto, como noutras áreas de “risco moral”, como “país democrático decente” que é, a Suiça conseguiu “socializar o mal”, protegendo os cidadãos comuns dos perigosos “liberais”, impondo que clientes e prostitutas partilhem com a sociedade parte dos benefícios da sua relação contratual, neste particular, pondo “o sexo pago ao serviço do Bem Comum”. Ponto final! Acima de tudo, a Suíça está longe de ser, como se pode facilmente constatar, um pais troglodita, atrasado e bacoco.

 

 

Santos e Pecadores

Durante quase um século, Portugal, como bom católico, rezou aos Espírito Santo. O Regime – o novo – tem subsistido pela Fé na Santíssima Trindade da Banca, dos Empreiteiros e do Poder Político. Se Ricardo Salgado caiu na escadaria do poder, qual Júlio César no Senado, apunhalado pelos que lhe juraram fidelidade e cresceram debaixo do seu manto, o regime continua de saúde. Saem governos PS, entram governos PSD – e vice-versa. Encolhem os Santos de Lisboa, solidifica-se a hegemonia dos Santos de Luanda. Os que celebram a queda do “dono disto tudo”  depressa perceberão que as cadeiras do poder são as mesmas, apenas se vão trocando lugares. Os que celebram a tirada do tapete ao mesmo por parte do Governo como um sinal de independência podem muito bem permanecer tranquilos pois em breve terão uma ideia de quem deu a ordem. Como é dito em Il Gattopardo, de Giuseppe di Lampedusa, belissimamente adaptado por Luchino Visconti:

Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi” 

a procrastinação

“(…) Em Portugal, de acordo com informação do INE, existem apenas cerca de 1000 grandes empresas. Estas sociedades de grande dimensão representam 0,3% do número total de sociedades. Mas ao mesmo tempo, representam também quase 30% da empregabilidade do País e, mais ainda, cerca de 40% do volume de negócios e do valor acrescentado bruto no universo das sociedades não financeiras. Por outras palavras: o País depende fortemente deste reduzidíssimo grupo de empresas.”, no meu artigo de hoje no Diário Económico.

A Impunidade Revisited

Já se passaram alguns anos desde que a impunidade – ou a falta dela – reinava como palavra de ordem dentro e fora das escolas.  Dos sindicalistas de plantão aos burocratas do ME, passando por uns quantos deputados – uns mais alfabetizados que outros – a impunidade dos alunos, esses delinquentes, incapazes de multiplicar de cabeça e de conjugar frases simples, esteve na ordem do dia. A impunidade era, para esses grupos, o que o crescimento hoje é para o Dr. Seguro e respectivos compinchas. O país mobilizou-se para acorrer à resolução da problemática do bando de acéfalos que parasitava as mais nobres instituições de ensino do país, envergonhando pais, professores e toda uma nação. Um professor do sindicato, mais atrevido e visionário, terá certamente magicado uma ideia genial, nunca professada por timidez ou moderação: ora faça-se a escola sem alunos, pois! Assim ninguém chateia. Genial.

De facto, tanto conversa de “direitos dos professores” fará um leitor mais desatento questionar-se se os professores servem para ensinar os alunos ou se os alunos lá estão para empregar professores.

De todas as reuniões, plenários, tertúlias, conferências, comissões e planos, alguém se terá esquecido de fazer uma pergunta incómoda, mas pertinente. E os professores ? Mas quem ousaria afrontar os professores ? Classe de prestígio, merecedora de respeito. Os professores não se avaliam, não se supervisionam, não se despedem. Os professores não são como os advogados ou os contabilistas, os pedreiros ou os jardineiros. O país precisa deles e quantos mais melhor. Se há demasiados professores para o número de alunos ? Não, nunca são demais. O ideal nogueirista seriam dois professores por aluno, o mestre e o assistente. Se não há dinheiro para pagar a tanta gente ? Azar, os outros desgraçados que trabalhem e descontem. E se não chegar, há sempre quem empreste. Se a escola pública está inundada de indivíduos sem conhecimentos ou capacidade oratória ou empatia ou estabilidade psicológica para dar aulas ? Claro que não. Isso são ideias de fascistas neo-liberais, a soldo dos privados (esses bandidos) empenhados em vender o ensino público.

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À consideração do TC: “Princípio da Igualdade”

Serve a presente para informar a minha entidade patronal que não aceito convocatórias para a reunião anual de avaliação e/ou outras diligências profissionais relevantes ou irrelevantes, ainda que ocorram em horário laboral, mesmo que respeitem a legislação em vigor, que não me sejam notificadas com pelo menos duas semanas de antecedência, já que tenho de me preparar adequadamente, do ponto de vista técnico e psicológico. Três dias úteis com um fim-de-semana pelo meio não são suficientes.

Reforço que apenas me sentirei notificado se a dita cumprir os requisitos formais de publicação em Diário da República. O correio electrónico ou o telemóvel não são meios adequados para que eu me sinta convocado. Acresce que o prazo de notificação deve respeitar o “princípio da apreciação prévia” e permitir, em conjunto com os meus colegas, com o JPP e com as estruturas sindicais, a avaliação da diligência, e se devo estar presente, ou fazer greve. Mais clarifico que o uso do direito à greve não deve ser visto como excepcional, mas utilizado como expediente corrente na relação com a minha entidade patronal, para impedir abusos, como isso de me sujeitar a avaliação, avisando-me só cinco dias antes.

Agradeço finalmente que não me peçam para me deslocar para o estrangeiro na véspera, ou que não convoquem reuniões com clientes essenciais com duas horas de antecedência, só porque tem de ser. E não me venham com essa que os mercados são competitivos, e que se não formos céleres arriscamos a falência. Os Direitos Sociais e a Dignidade do Trabalhador são inalienáveis, devendo ser preservada a sua integridade, algo que passa por “dar tempo ao tempo”. Porque é sabido, “o tempo tem tanto tempo quanto tempo, tempo tem”. Não venham cá com pressas.

Nota de imprensa (1): A FENPROF veio hoje clarificar que o bigode hipster e o blusão de couro do Mário Nogueira não se inspiram em nenhum filme da RTL dos anos 80, pré-queda do Muro de Berlim, nem apontam para registos estéticos a la Jeff Koons, starring Llona Staller. Quaisquer semelhanças são meras coincidências.

Nota de imprensa (2): A Heidi avisa que se a virem a fugir de um gajo com bigode e blusão de couro, é porque, just in case, pretende manter-se apenas no imaginário infantil, e não aderir a um registo polémico estilo Miley Cyrus.

 

O inteligente e os outros

JPP

Até podiamos desculpá-lo como a mais recente vítima da silly season não estive ele a debitar o mesmo discurso há largos meses. Três exemplos recentes.

1. Aqui descobrimos que a queda do BE se deveu ao sucesso da propaganda governamental. Algumas mentes menos esclarecidas terão acreditado nela (ou então não lêem as crónicas de JPP) e não se juntaram às manifs. Ninguém sabe pensar pela sua cabeça exceptuando ele e os que como ele pensam.

2. Aqui. A propósito dos exames dos docentes contratados, Pacheco Pereira denuncia as artimanhas e indecências de Nuno Crato. Quanto às artimanhas e indecências da FENPROF que usa todos os meios legais e mesmo ilegais para impedir o exame, nada. Será apenas a normalidade sindical. E infelizmente no caso de muitas corporações até é. (via MAL)

3. Aqui. O governo que acabar com a “tropa”, com o “estado social”, com a função pública, etc. Pacheco Pereira confunde deliberadamente a adequação (muitas vezes insuficiente e muitissimas vezes preferindo aumentar os impostos a cortar na despesa) do estado aos recursos existentes com um plano malévolo para acabar com estado social. Mas isso não encaixa na tese por isso é ignorado. E diz ele que já nem podemos fazer estas escolhas pelo voto. Na verdade até podemos mas existe um grande problema. Com que recursos? Isso Pacheco Pereira também não revela.  Que o governo tenha sido eleito após a assinatura do MoU (pelo governo de José Sócrates, PS, PSD e CDS recordo) e que já nem dinheiro tinhamos para pagar à FP também não convem recordar.

FENPROF: sabotar para governar

O meu artigo no Observador sobre a prova dos professores (clique para ler o resto).

«Há muitos anos que a política educativa não é mais do um duelo permanente entre ministros e sindicatos – com destaque para a FENPROF. Não é por acaso, nem é de hoje ou de ontem. O sector da educação alberga cerca de metade dos funcionários da administração pública e a organização do sistema educativo parece ter sido decalcada do centralismo soviético – ou seja, quem governa é, mais do que ministro, director de todas as escolas do país. No fundo, o sonho de qualquer sindicalista, que para todos os males critica sempre o mesmo patrão. Não admira portanto que, mais do que sobre os alunos, o foco de interesse esteja nos professores. E se o sistema está ao seu serviço, como muitas vezes aparenta estar, não admiram também as dúvidas sobre quem manda realmente na educação nacional: o ministro ou os sindicatos. (…)»

Costa ou A visão do Vazio

“Tu quoque, Costa?” de Pedro Picoito (Nada os Dispõe à Acção)

António Costa deu hoje uma entrevista de fundo ao Público. Dita assim, a coisa não suscita especial entusiasmo à nação, sensatamente a banhos, mas acontece que metade do PS, ou mais, anda a dizer que Costa será o próximo Primeiro-Ministro. Ora a nação, sempre sensatamente, tem feito o que pode para se alhear do arremedo doméstico dos idos de Março conhecido por “primárias do PS”. Acontece que há mesmo uma certa hipótese de Costa lá chegar, o que recomendaria alguma atenção às suas entrevistas de fundo, tanto mais que a nação, antes de ir a banhos, o acusava de nada ter para dizer.

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A birra

Quase seis meses depois, os quadros de Miró continuam numa caixa. O estado, ou seja vocês os contribuintes, continua com uma dívida adicional de 30 milhões de euros para suportar isso. Nestes seis meses foram pagos cerca de meio milhão de euros em juros por essa dívida. Isto corresponde ao salário anual de 15 funcionários públicos. 15 empregos a menos por uma birra. Já não nos chegava a demagogia e a obstinação ideológica, hoje até as birras contribuem para afundar o país e empobrecer os contribuintes.

Porque no sábado à noite fui ver o Yves Saint Laurent

yslQue nem foi dos meus criadores preferidos (nada ultrapassa a estética anos 30 da Chanel ou as criações fabulosas do Tom Ford – que tem aquele dom raríssimo do toque de Midas: tudo o que cria é bom e belo, desde carteiras e perfumes ao cinema; acho que nem que se esforçasse criaria algo sem qualidade). Os anos insolentes de YSL foram antes do meu tempo e, de quando me lembro, o costureiro já estava demasiado institucionalizado. Mas YSL tinha, como eu, a mania de misturar cores fortes. Por isso, sempre que faço o mesmo (como hoje, que estou de jeans rosa schiaparelli, túnica roxa e casaco verde água), posso dizer que YSL foi o meu mentor.

(Além de que também gosto muito de Piet Mondrian.)

Em resumo

Caso ainda existissem dúvidas. O caso BES/GES/PT recorda-nos que os negócios em que a racionalidade económica é substituida por outra lógica, seja ela política ou “amiguista”, tem resultados desastrosos. Sejam eles no sector público ou privado.