Fazer contribuintes

O meu artigo no Diário Económico sobre o relatório da natalidade apresentado pelo PSD. Os filhos virão quando a família passar a ser valorizada. Aliás, a forma como se olha hoje para as famílias numerosas, diferente da de há uns anos, vai ser um maior incentivo à natalidade que qualquer lei que este ou qualquer outro governo venha a aprovar.

Esparta

O relatório sobre a nataliade que o PSD encomendou e apresentou é demonstrativo da forma como se encara o papel do Estado em Portugal. Durante anos, a classe política rendeu-se às causas fracturantes da extrema-esquerda e apoiou políticas que minaram o conceito de família como elemento primordial e estruturante da sociedade portuguesa. Fez mais: concebeu o crescimento da economia baseado no consumo e na despesa, pressupondo uma ordem de valores socialista, onde a despesa vale mais que a poupança; Uma linha de raciocínio que tem o seu ponto fulcral na concepção de que o ensino deve ser gratuito, para que haja dinheiro para bens de consumo perecíveis, indiciadores de um nível de vida inexistente e ilusório.

O preço está a ser pago com menos crianças. Infelizmente, o que preocupa o poder político é a sustentabilidade da Segurança Social e do Estado. Não são as crianças. Não são as famílias. O Estado precisa desesperadamente de quem pague os impostos no futuro. E como no futuro estaremos todos mortos, o Estado precisa de crianças. Não podendo forçar as pessoas a isso, concede benefícios. Chama-lhe “o nosso futuro colectivo”. Esparta não faria melhor. Esparta não foi tão subtil. Esparta obrigava os seus cidadãos a ter filhos porque precisava de soldados; o nosso Estado incentiva a tal porque precisa desesperadamente de contribuintes.

Por que motivo um casal decide ter filhos? Não é, seguramente, para pagar contas. Menos ainda, por estar preocupado com a sustentabilidade do Estado ou o futuro colectivo do país. Uma família tem filhos porque se ama, porque ama, porque quer perseverar a família; passar o testemunho. Porque dá valor a uma série de factores que o Estado não tem em conta.

O Estado, com a visão que tem do problema, pode até conseguir um aumento da natalidade. Mas será pontual. Será baseado, não num querer, em algo que se deseje, mas numa mera decisão contabilística que, porque sustentada numa redução esporádica de impostos, que não se pode manter por muito tempo, cedo deixará de surtir os efeitos desejados.

Se os políticos desejam que as famílias tenham mais filhos, além dos benefícios fiscais, é a filosofia de vida que está por detrás das políticas seguidas nos últimos anos que terá de ser alterada. Precisamos de um Estado que não se imiscua na vida privada; que não difunda valores, mas respeite os estabelecidos pela sociedade; que seja poupado e reduza os impostos para todos. Em igualdade. E, mais importante ainda, que não gaste dinheiro em políticas públicas que desvalorizam e atacam o conceito de família. Não minando as verdadeiras bases do país, não precisará de discriminar portugueses incentivando a que tenham filhos prontos para pagar as contas que deixa para trás.

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O “bully” enfraquecido

(Artigo publicado no Diário Económico de ontem)

Num artigo no Sunday Times, o primeiro-ministro britânico afirmou que “é altura” dos países europeus tomarem uma posição firme contra a Rússia caso se confirmem as responsabilidades russas no desastre do voo MH17. Cameron tem razão, mas duvido que uma ameaça europeia e americana de isolar a Rússia, caso esta não cesse o seu apoio à insurreição no leste da Ucrânia, viesse a alterar o comportamento de Putin: é por sentir que a Rússia está já isolada que Putin age como age. Toda esta crise é um produto do enfraquecimento russo: nos anos 80 e 90, com a incapacidade do império de manter o controlo sobre as várias “nacionalidades” que o compunham; e recente, com a aproximação ucraniana à NATO e à UE.

Longe de ser a “afirmação do poderio russo” que por aí se anuncia, a desestabilização do leste ucraniano surge da percepção de que esse poder é cada vez menor. A Rússia é um país que vê os vizinhos quererem fugir da sua “esfera de influência”, numa gravíssima crise demográfica, e com um orçamento de Defesa quase insignificante quando comparado com os EUA. E a circunstância do regime ser (como escreveu Fraser Nelson) “uma gigantesca empresa energética com um exército” pode ter enriquecido os seus corruptos líderes, mas também os fragilizará, à medida que os EUA começarem a usar o emergente sector do gás de xisto para baixarem os preços no mercado energético global: não só verão a sua riqueza diminuída, como se arriscam a que uma economia atrofiada lhes retire o apoio popular.

Mas com as suas tropelias na vizinhança, Putin une os russos em torno do líder que os “protege” de um “Ocidente moralmente decadente” e dos “nazis” da Ucrânia. Sanções mais pesadas serão talvez a resposta necessária ao que se passou. Mas não deixarão de servir a Putin para conquistar apoio interno. Lidar com o Putin é como lidar com um “bully”: se ignorarmos os seus tormentos, estes continuarão porque ninguém lhes vai pôr fim. Se respondermos, estaremos a reagir como ele sempre quis. Façamos o que fizermos, jogaremos sempre o jogo dele.

John Blundell (1952-2014)

Foi com misto de surpresa e tristeza que tomei conhecimento do falecimento de John Blundell, ex-Director Geral do Institute of Economic Affairs, com apenas 62 anos. Tive oportunidade de conhecer o casal Blundell (John e Christine) durante os anos que vivi em Londres enquanto aluno de doutoramento na LSE.

Como muito bem referido por Steve Davies, o casal constituia uma “effective double team”, de cujo apoio tive a sorte de beneficiar por várias vezes. Relativamente a John Blundell, ele próprio um ex-aluno da LSE, destaco o interesse e apoio que sempre manifestou relativamente à LSE Hayek Society e que pude testemunhar pessoalmente nos dois anos em que fui membro da Direcção da mesma, assim como as suas extraordinárias capacidades de networking, das quais também beneficiei em vários momentos.

Com o desaparecimento de John Blundell, o movimento internacional de defesa da liberdade na perspectiva do liberalismo clássico perde uma das suas mais activas e influentes figuras das última décadas.

John Blundell R.I.P. Por Steve Davies.

With the passing yesterday of John Blundell, the movement for freedom and economic liberty on both sides of the Atlantic has lost one of its leading figures. John was for many years at the centre of that movement of people, institutions and ideas that promoted economic freedom. He leaves behind a legacy of organisations that he played an important part in building and also leaves behind lives that he touched and changed. He is best known here as the IEA’s long-serving Director General between 1993 and 2009 but he was deeply involved with many institutions and movements both in the UK and in the US and beyond.

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No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’ sobre a forma de protesto dos advogados junto às escadarias do parlamento.

Advogados em protesto

Na semana passada a Ordem e alguns advogados protestaram junto às escadarias da Assembleia da República contra o novo mapa judiciário. Devo dizer que estranho esta forma de protesto. O papel de um advogado cinge-se muito simplesmente a defender perante a lei, de forma consciente e sujeitando-se a princípios éticos irrepreensíveis, os interesses dos seus clientes. Perante a lei. Não defronte da escadaria do parlamento.

É suposto que os advogados acreditem que com negociação, diálogo, respeito e concessões várias se chegue a um compromisso para a resolução dos problemas. Mas não, quando se vive numa democracia ocidental, com palavras de ordem. Tendo em conta o papel muito específico do advogado enquanto conhecedor das leis e agente activo na sua interpretação e na defesa dos cidadãos, a sua saída à rua em forma de protesto é uma rendição.

É o reconhecimento, não de que o sistema deixou de funcionar, mas de que o advogado deixou de conseguir. Deixou de ser quem é: alguém a quem se pode recorrer porque consegue e pode agir de forma diferente.

Não se veja neste artigo uma defesa do governo, nem sequer da reforma do mapa judiciário. Não é disso que se trata aqui. Refiro-me apenas à forma como alguns advogados, em nome de todos, decidiram mostrar a sua discordância. Numa democracia um advogado usa a lei, usa a sua capacidade argumentativa e de raciocínio. Não grita palavras de ordem.

No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’ sobre a ecologia que serve para aumentar impostos.

Impostos Verdes

Em Janeiro o governo nomeou uma Comissão da Reforma da Fiscalidade Verde, que apresentou por estes dias 40 propostas de alterações ao sistema fiscal do país. E o que propõe a referida comissão?

Naturalmente, a subida de impostos e taxas. Entre estas salienta-se a criação de uma taxa de carbono, que aumentará o preço dos combustíveis entre 1% e 6,75%, um imposto de 10 cêntimos sobre o saco de plástico e uma taxa de 3 euros sobre os bilhetes de avião.

Se a ideia do imposto sobre os sacos de plástico ainda se pode explicar com vista à redução da sua utilização, já quanto à taxa do carbono e dos bilhetes de avião não creio que a ideia seja a diminuição do uso do automóvel e dos voos. Na verdade, tal teria sérias consequências económicas, o que seria prejudicial para o Estado, que é a única medida tida em conta pela maioria dos governantes.
Decisões deste género só se compreendem pela necessidade que os cofres públicos têm de dinheiro. Essa tem sido, há décadas, a principal preocupação dos governos: aumentar a receita para pagar a despesa. A diferença é que, se antes o nosso dinheiro servia para pagar obras públicas, agora limita-se a pagar dívida  pública.
O interessante nisto é o seguinte: da mesma maneira que os governos liquidaram, com capitalismo de Estado e pondo a política à frente da economia, a solvência do Estado social, vão também, com os impostos, dar cabo do discurso ecologista. É que não se aguenta tanta hipocrisia.

A extrema-esquerda com saudades de Francisco Louçã

Francisco_Louçã

Com tantas cisões bloquistas, prevejo que muitos académicos, analistas e jornalistas sistémicos se vejam confrontados com um dilacerante dilema sobre qual a facção a que deverão devotar o seu apoio.

Para já, o projecto partidário de Rui Tavares parece ir na linha da frente das preferências, mas a verdade é que tudo era muito mais simples nos tempos do absolutismo de Francisco Louçã…

Leitura complementar: Continuar a ler

Os “candidatos messiânicos”

José Pedro Aguiar Branco, de quem ninguém se lembrava ser ainda Ministro da Defesa, apareceu há dias a lamentar a atenção que tem sido dada aos que chamou de “candidatos messiânicos”, na sua sempre preocupada mas pouco ajuizada cabeça portadores de uma “instabilidade política” que só prejudica o país e os seus esforços para sair da crise. Aguiar Branco não nomeou os ditos “candidatos messiânicos”, mas a coisa tem sido, sem grande esforço, interpretada como tendo António Costa e Rui Rio como alvos. Tendo em conta que Aguiar Branco faz parte do Governo que os tais “candidatos” pretendem remover, compreende-se a sua preocupação. Mas o Ministro da Defesa deveria também compreender que, para lá Conselho de Ministros ou do Largo do Rato, poucos sejam os que a partilham.

Longe do que Aguiar Branco parece crer, o problema do país não está nos “candidatos messiânicos”, mas precisamente naqueles que eles se propõem substituir. Não ocorre a Aguiar Branco que António Costa e Rui Rio surgem – e surgem como messiânicos – precisamente porque os que eles pretendem substituir deixaram de ser solução. Não ocorre a Aguiar Branco que os candidatos messiânicos sejam, não a causa, mas um produto da “instabilidade política”, e que esta seja causada precisamente pela falência e descredibilização simultânea do Governo PSD/CDS e da liderança do PS.

Não sei se Costa e Rio estarão ou não à altura dessas esperanças que neles são depositadas (tenho as maiores dúvidas quanto a António Costa, e acho que Rui Rio terá de enfrentar enormes dificuldades para o conseguir), mas só um cego ou alguém comprometido com as respectivas causas é que não percebe que é o facto de tanto o Governo PSD/CDS como a actual liderança do PS não motivarem qualquer confiança nos eleitores de que poderão inverter o estado de coisas do país que faz com que estes depositem as suas esperanças em possíveis alternativas, como as simbolizadas por Costa e Rio.

É fácil de perceber a razão pela qual o PS não inspira a confiança dos portugueses. O governo de Sócrates pôs-nos no bonito estado em que estamos, e a actual liderança nunca viu grande mal nessa política. Agora que diz ter “saído da gaiola”, Seguro encena uma ruptura, mas a política que propõe em nada se distingue da que o “engenheiro” entendeu por bem seguir. Acresce que existe na generalidade da população a percepção – certa ou errada, suficiente para que ninguém preste grande atenção ao que diz e muito menos confie nas suas palavras – de que por muito que Seguro critique o Governo e prometa gritar com a “sra. Merkel” para que a Alemanha nos subsidie, não irá, caso receba as chaves de São Bento e do governo do país, conduzir uma política muito diferente da “austeridade” que Passos Coelho tem seguido.

A desconfiança dos portugueses no actual Governo, por sua vez, não é menos compreensível. Este bem pode ter conseguido evitar a bancarrota do país, mas não conseguiu evitar a sua própria falência. De resto, a única coisa que a coligação conseguiu foi mesmo desagradar aos eleitores, sem mudar grande coisa. O que se prepara para deixar é o exacto estatismo que encontrou em 2011, mais “austero” por força das circunstâncias, mas igualmente irreformado por falta de vontade ou capacidade. Com a “reforma do Estado” entre a gaveta e o documento rabiscado por Portas, a coligação conseguiu apenas o extraordinário feito de atrair para si o descontentamento popular que as reformas costumam atrair sem que tivesse tentado sequer fazê-las. Consegue garantir que entregará de volta o poder ao PS, sem ter mudado nada do que este lhe havia deixado.

A verdadeira “instabilidade política” nasce desta simultânea fraqueza do actual governo e do principal partido da oposição. Como escrevi após às europeias, a única solução política que poderia sair deste relativo impasse seria aquilo a que noutros tempos se chamava de uma “fusão”, ou com menor benevolência, de “pastel”, a chamada à governação em simultâneo do poder decrépito e da alternativa ainda em gestação. Embora aparentemente engenhosa – e atractiva para quem queira aparecer como sua eminência parda e superficialmente neutral – a “solução” não solucionaria grande coisa. Em vez de produzir um poder forte, conseguiria apenas trazer duas fraquezas para a sua sede, que não juntariam outra coisa além do desprezo generalizado de uma população que já o nutre por ambas as partes, e que tenderia a acentuá-lo se fizessem um cozinhado deste género. Além de que, o que não é irrelevante, traria para dentro do governo um conflito político que deveria estar fora dele, no parlamento e na sociedade em geral. Esta “solução” seria assim apenas provisória, e com a agravante de degradar as já de si muito precárias condições de exercício do poder num país com cada vez maior desconfiança na classe política. O “Bloco Central” pode ter servido em 83/85, mas convém não esquecer que a seguir veio a adesão à CEE e os seus abençoados fundos, um verdadeiro maná caído dos céus berlinenses que permitiu camuflar os nossos males internos e as querelas insanáveis que eles tendem a produzir. Mas em 2016 ou 2017 não virão fundos, antes exigências de “austeridade” e de medidas impopulares.

É por isto que uma mudança de liderança tanto no PS como no PSD (e já agora, no CDS) seria bem vinda, e é dessa forma aparentemente encarada pela generalidade das pessoas. O “messianismo” de que Aguiar Branco se queixa é apenas a consequência inevitável do facto dos portugueses não verem poder sair daqui qualquer solução para os seus problemas. O “messianismo” de Rui Rio e António Costa é um produto de eles serem alguém que não Passos Coelho e Seguro. Destes últimos, já nenhum português suspeita que possam ser solução para o que quer que seja. Em alguém que não eles, ainda poderão ter alguma esperança. Rio e Costa poderão frustrar essas esperanças, mas por enquanto, ainda é possível tê-las. Quem alguma vez as depositou no actual Governo ou na actual oposição certamente já as perdeu por completo.

No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no ‘i’ sobre as incongruências nas críticas ao capitalismo de mercado, e livre.

Incongruências

A par com a descoberta das irregularidades nas contas do Grupo Espírito Santo, surgiu a inevitável condenação pública do comportamento de Ricardo Espírito Santo. Não questiono essa condenação, após comprovados os factos. Pergunto-me apenas o seguinte: por que motivo os portugueses gostam tanto de empresas campeãs nacionais, mas se surpreendem, depois, quando percebem que o são à custa do favorecimento político?

Outra incongruência na reacção imediata à história à volta do Banco Espírito Santo (BES) é, uma vez mais, a condenação dos mercados. Como se o mercado bancário não contasse com a existência de um actor do Estado, de nome Caixa Geral de Depósitos; como se o BES não tivesse fortes ligações políticas que fomentaram o seu, sabemos agora, falso sucesso.

Não deixa de ser interessante a confusão feita entre capitalismo livre e capitalismo de Estado – uma confusão que, e este ponto ainda é mais curioso, favorece a ideologia de esquerda, politicamente beneficiada por esse mesmo capitalismo de Estado.

Como? De duas maneiras muito simples: a primeira é política, porque responsabiliza o mercado livre, que afinal não passa de um mercado condicionado, pelos erros governamentais. A segunda já é de ordem financeira, dando acesso ao capital necessário para pagar obras que apenas um capitalista com ligações políticas estaria disposto a financiar. Ora, esta confusão, que não é inocente, não devia passar incólume numa democracia de cidadãos esclarecidos.

Alexandre Soares dos Santos e a Fundação Francisco Manuel dos Santos (2)

Só hoje tomei consciência, na sequência de uma comunicação sobre outro assunto recebida do Presidente do Conselho da Administração (Nuno Garoupa) e do Director de Publicações (António Araújo) da FFMS, de que deveria ter feito um disclaimer adicional relativamente ao que escrevi sobre Alexandre Soares dos Santos e sobre a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A comunicação dá conta de alterações na revista XXI, cujo Conselho Editorial integrei desde a sua génese e que foi dirigida nos três primeiros números por José Manuel Fernandes. A revista da Fundação Francisco Manuel dos Santos passa agora a ser dirigida por António José Teixeira, procedendo-se também e naturalmente a uma renovação do Conselho Editorial, de que deixo de fazer parte.

Esta era a minha única ligação à Fundação Francisco Manuel dos Santos e, ainda para mais, bastante ténue e pontual, pelo que creio que a ausência dos disclaimer não terá constituído uma omissão grave.

Em qualquer caso, ao receber a comunicação recordei-me que não tinha incluído esse dado nem no que escrevi sobre Alexandre Soares dos Santos nem sobre a Fundação Francisco Manuel dos Santos e que seria oportuno referi-lo.

Nestas circunstâncias, sinto-me agora até mais à vontade para reiterar integralmente o que escrevi sobre Alexandre Soares dos Santos, que continuarei admirar no plano pessoal pelas razões aqui expostas, e sobre a Fundação Francisco Manuel dos Santos, cujas actividades continuarei a acompanhar com atenção.

Diálogo

O meu artigo no Diário Económico com as lições que Rodrigo da Fonseca e Duque de Palmela nos podem dar sobre o diálogo na política.

Diálogo

Além de objecto de estudo da parte de Maria de Fátima Bonifácio, Rodrigo da Fonseca Magalhães e Pedro de Sousa Holstein (Duque de Palmela) tinham em comum as tentativas para pôr termo às guerrilhas políticas da primeira parte do século XIX. O primeiro foi, inclusivé, um dos obreiros da Regeneração, período marcado por uma certa estabilidade que permitiu um relativo desenvolvimento do país.

Lembrei-me deles quando, terminado o Conselho de Estado da passada quinta-feira, Cavaco Silva pediu diálogo entre os partidos. O actual regime político está a ruir ao som das divergências e das lutas partidárias. Não é apenas a oposição e o governo que não se comprometem em equilibrar as contas públicas; até dentro do PS as acusações entre os seus militantes mostram profundas divisões, embora não de natureza política, mas de carácter meramente pessoal.

As história política do século XIX dá-nos pistas para os problemas de hoje, por sinal, muito semelhantes. Tanto Rodrigo da Fonseca, como o Duque de Palmela, tinham a particularidade de se encontrarem acima das lutas partidárias. Nenhum dos dois contava com uma falange de apoio à sua volta, mas apenas com as suas convicções e qualidades. Enquanto o primeiro tinha um jeito inato para fazer pontes entre partes desavindas, o segundo contava com excelentes ligações no estrangeiro, fruto dos anos vividos fora de Portugal. Ambos, tinham convicções: os dois pretendiam pôr termo à radicalização da esquerda que não queria evoluir, mas revolucionar. Tanto um como outro, defendiam a estabilidade do poder político como único modo de se auto-controlar, e dessa forma, ser limitado e liberal.

O que é interessante nos dois, quando comparados com a pequenez dos restantes políticos, é que eram as suas convicções que lhes capacitavam na procura de entendimentos. A fazerem concessões. Precisamente o contrário do que actualmente se pede e, por essa razão, sem qualquer sucesso. É que as concessões e os entendimentos não se fazem porque se deixa de lado aquilo em que se acredita. Obtêm-se, principalmente, porque se crê em alguma coisa, possível apenas quando se conhece a fundo a realidade em que se vive. A mensagem daqueles homens é esta: não há compromissos, sem convicções; não há convicções, mas mera obstinação, se não houver um conhecimento profundo e honesto da realidade e dos problemas.

Eurocepticismo

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Poucas semanas depois das últimas “europeias”, uma amiga minha, satisfazendo a minha curiosidade, dizia-me estar “desiludida” com a “Europa”. “Dantes”, disse ela, “acreditava mesmo no ideal europeu, mas agora não tenho grande esperança naquilo”.

O sentimento é compreensível. Em tempos, esse “ideal europeu” anunciava paz e cooperação a um continente que, até há poucas décadas, se entretinha não com noitadas de chefes de Governo discutindo a PAC, mas com guerras sucessivas e quase intermináveis, e o alargamento e “aprofundamento” da UE prometiam o fim dos “egoísmos nacionais” e a prosperidade generalizada. Hoje, se ainda prometem algo, ninguém acredita. E quanto mais a UE se “aprofundou”, mais se dividiu.

Não é nada que não fosse expectável. Entre os vários países membros existem tamanhas diferenças que nenhuma entidade política pode governar sem negligenciar os legítimos interesses de uma parte significativa dos seus cidadãos, que, dependendo da proveniência, ora protestam a falta de “solidariedade” de uns, ou se queixam de pagar a “preguiça” e o “despesismo” dos outros. No meio do ruído, todos acabam por esquecer o que a UE nos traz de bom: sem a livre circulação de pessoas, serviços e bens que oferece, a vida como hoje a conhecemos seria impossível. Mas ao avançar demais na integração política, ao alargar o número de questões não sujeitas ao direito de veto dos países membros, a UE fez com que os cidadãos se sintam cada vez mais governados por um poder que lhes é “estranho”, no sentido de vir de outro lugar que não o seu. E assim, arrisca-se a que as pessoas prefiram abdicar do que a UE lhes oferece, em troca de sentirem que o seu país volta a ser dono do seu próprio destino.Por muito mau que esse destino possa ser.

Há dias, um grupo de eurodeputados virou as costas quando o hino da UE foi tocado. Mas é possível ser céptico em relação à UE sem ser “antieuropeísta”. Sou “eurocéptico”, mas na medida em que sou céptico em relação à política: quanto mais tentar fazer, piores resultados obterá, e por isso só uma UE que limite o seu diktat ao que de bom nos traz e na medida estritamente necessária, alargando o que cabe à esfera nacional, poderá permitir que a “Europa” e os “europeus” não fiquem mesmo de costas voltadas.

Por detrás do véu (2)

Maria João,

Tenho que admitir que, assim como tinhas as tuas anotações pendentes em relação a esta questão em concreto, o tema da liberdade de expressão é uma questão que desperta em muito o meu interesse, e que mesmo em relação a este tema já tenho também o meu cadastro de discussões sobre o assunto. Posto isto, flûte para aqui, flûte para acolá, aqui fica a minha réplica em relação aos teus pontos.

  1. A questão do nudismo no espaço público foi herdada do teu segundo artigo sobre o assunto. É aliás um argumento típico quando se pretende demonstrar a inviabilidade de uma interpretação absoluta do usufruto do direito à liberdade de expressão em espaço público, pretendendo demonstrar a necessidade de aceitar limitações e ponderações redutoras dessa liberdade invocando para isso os mais diversos objectivos, desde a protecção das crianças às minorias. Conjugado com as práticas sexuais em público, são um argumento recorrente que achei por bem rebater.
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Por detrás do véu

Maria João,

Acho que me vou candidatar a alguns dos prometidos nomes.

Na minha opinião, a decisão do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem não foi um momento para saudar, mas antes mais uma lamentável mensagem do tribunal aos estados signatários da convenção sinalizando a sua tolerância destes e doutros futuros avanços no sentido de limitar legalmente um conjunto base de liberdades. Pelo caminho, alimenta-se um discurso de moralismo por via legal, e a natural tentação populista de, ao invés de se resolverem os problemas concretos, se dar um passo em frente criando legislação avulsa cheia de propaladas boas intenções, com desfecho amplamente expectável e com vítimas também mais ou menos evidentes.

O que deveria estar em discussão, quando muito, deveria ser eventualmente sobre se é ou não legítimo aos estados legislarem no sentido de limitarem o exercício da anonimidade em público, ou seja, se é legitimo estes instituírem uma obrigação de os indivíduos serem identificáveis (visualmente ou até eventualmente de outras formas) pelos demais quando se encontram em locais públicos. Seria uma discussão sem dúvida interessante e porventura de alcance bem mais alargado, mas que parece ter sido mais utilizada como expediente do que propriamente com intenções defensáveis.
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António Costa e a “Doutrina Ruth Marlene”

Através da nossa Graça Canto Moniz, descubro que António Costa se debruçou, no âmbito da campanha interna do PS, sobre a “Doutrina Ruth Marlene”, demonstrando não só a sua particular consciência dos agudos problemas que o seu partido enfrenta como um irreprensível gosto musical:

“O maior sinal da fraqueza do PS, não sei se têm reparado, é que, nas últimas semanas, voltámos àquela discussão que eu já há muitos anos não ouvia, coligam-se à esquerda ou coligam-se à direita”, disse.

Por “há tantos anos” não ouvir abordar este tema, António Costa disse ter-se lembrado de um discurso antigo que proferiu “contra a política do pisca-pisca”, ou seja, sobre “se o PS pisca à esquerda ou se pisca à direita”.

Mas, frisou o candidato a secretário-geral socialista, o PS é um partido que “não pisca-pisca”, isto é, “não pisca nem à esquerda nem à direita”.

Já a dra. Marlene se lamentara do facto de “a moda do pisca-pisca” ser algo que “parecia estar a dar” e ter “vindo para ficar”. António Costa, esse, não quer contribuir para a preservação desse estado de coisas. Claro que seria útil saber a que tipo de coligações o PS estaria aberto caso o dr. Costa se torne líder do partido, e não venha a obter uma maioria absoluta em legislativas. mas Costa prefere fazer proclamações de que o PS “se dirige a todos”, mesmo que ao fazê-lo acabe por não lhes dizer nada. Mas corre riscos, para os quais a própria dra. ruth marlene já em tempos alertou: quando “eles vêm com ela fisgada” às vezes “não levam nada”.

A democracia portuguesa

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Nenhum político escapa a terminar a sua carreira em lágrimas, terá dito um dia um exemplar britânico da espécie. A crer na história dos governos da democracia portuguesa, a máxima parece ser verdadeira.

Em 1978, o mesmo descontentamento popular nascido da crise financeira e da “austeridade” exigida pelo FMI que levara o PS a alargar a sua base de apoio parlamentar juntando-se ao CDS, levou o presidente Eanes a criticar o Governo num discurso do 25 de Abril e o CDS a aproveitar a ocasião para sair do barco. Após o breve interregno dos executivos de iniciativa presidencial, o PS perderia as eleições para a AD. A crise económica, essa, continuava em cena, e a sua força fez-se sentir nas eleições autárquicas de 1982. O governo saiu derrotado, e de novo Freitas do Amaral fugiu de uma coligação a que havia aderido. Perante a necessidade de novo resgate do FMI, PS e PSD formam o Bloco Central, e terminados os anos de sacrifício, vieram Cavaco Silva e 7 anos de fundos europeus, crescimento económico e vitórias eleitorais. Mas em 1992, a crise voltaria a bater à porta, e só abandonaria o País dois anos depois.

Foi tarde de mais para evitar a derrota de Cavaco e a ascensão de Guterres, que governaria cinco anos de aparente prosperidade, até que em 2000, a Europa e o País pararam de crescer, e uma derrota nas autárquicas de 2001 levou Guterres a demitir-se. Sucederam-lhe Durão Barroso e as suas “medidas difíceis”, que lhe garantiram o ódio popular e o convidaram a exilar-se em Bruxelas, entregando o País a Santana Lopes e, de imediato, a Sócrates. Durante alguns anos, a propensão do homem para gastar dinheiro que não tinha criou a ilusão de que as coisas estavam a melhorar. Mas mal a crise o obrigou a aplicar “austeridade”, logo foi desalojado de São Bento. A “austeridade”, no entanto, continuou, e prepara-se agora para derrotar Pedro Passos Coelho.

O padrão é evidente e fácil de compreender: desde o seu nascimento que a democracia portuguesa trouxe consigo a promessa implícita da melhoria das condições de vida da população, e sempre que um governo parece incapaz de a cumprir, perde o poder. Como grande parte do eleitorado espera do Estado e da sua distribuição de recursos essa melhoria de condições de vida, e o País não pode pagar o Estado na sua actual dimensão, não se pode esperar nada de bom: qualquer governo precisará de reduzir o Estado, mas nenhum terá o apoio eleitoral para o fazer.

A solução, em democracia, só poderá ser uma: em vez de procurar agradar aos eleitores e esconder deles as dificuldades que os esperam, um político que queira governar bem e ser premiado por isso terá de se apresentar a eleições prometendo apenas e só as tais inescapáveis dificuldades, e convencer os eleitores da sua necessidade. É difícil ganhar assim, mas de outra forma tudo estará perdido à partida.

Quilos de carne

Vindas de quem promove e incentiva a colonização e a ocupação ilegal de territórios que, aos olhos do direito internacional tutelado pelas organizações internacionais de que Israel escolheu fazer parte são zonas de interposição entre forças beligerantes, e vem tentando fazer pela força dos factos consumados aquilo que não consegue pela força dos argumentos e do cumprimento das regras que voluntariamente assumiu, só posso qualificar como lágrimas de crocodilo as que são vertidas pela morte de pessoas que, em primeiro lugar, não deveriam sequer estar no local onde sucederam os eventos que culminaram nesse desfecho.

Talvez da próxima vez em que o governo israelita quiser vir a publico anunciar a criação de uma nova vaga de colonatos em circunstâncias idênticas se possa lembrar, quando envia nova leva de civis armados para defender a sua guarda avançada no terreno, de quantos desfechos semelhantes está a promover e a incitar. Quantos são os quilos de carne dos seus que se propõe trucidar na máquina para comprar a sua vitória unilateral. Para depois tudo não ficar atolado na hipocrisia que transpira em declarações de circunstância como as que se ouvem na sequência do sucedido, quando o polícia, juiz e carrasco já investigou e se pronunciou inequivocamente em relação aos culpados. Isto depois da orgia de 10 mortos e 500 detidos com que se banqueteou depois do desaparecimento. Nas averiguações.

É que, se “o Diabo ainda não criou a vingança apropriada para o sangue de uma criança”, há alguns que deveriam por a mão na consciência e avaliar de todo o trabalho que andam a fazer por iniciativa própria nesse sentido.

Os jornais de amanhã

A crise que afecta a imprensa levou-me a escrever este artigo para o Diário Económico.

Os jornais de amanhã

Diz-se que o mundo está a mudar demasiado depressa. Não deixa de ser interessante, quando analisamos a fundo esta afirmação, reparar que o jornalismo se encontra no pelotão da frente dessa mudança. Não deve existir profissão mais à mercê das transformações, sejam estas tecnológicas ou políticas, sociais ou económicas, que a de jornalista.

Com o surgimento das novas tecnologias, a imprensa escrita tem perdido leitores que preferem ser informados na internet a comprarem jornais. Para quê ir à procura do que se quer nas páginas de um jornal, quando o que se pretende está à distância de um clique? As condicionantes da vida moderna não permitem que se adquiram todos os dias jornais, quando dos mesmos apenas uma pequena parte será lida.

Desde o início que o jornal tem sido a base da informação. Nem a televisão mudou esta realidade ao disponibilizar a informação de uma forma rígida. Precisamente o oposto da internet, onde os conteúdos são escolhidos pelo utilizador. A partir daqui, as pessoas só procurarão na imprensa escrita, aquilo que possa desenvolver a notícia recebida em primeira mão no seu aparelho.

Não é difícil imaginar o risco que tal representa. É que sem tratamento e desenvolvimento da notícias o que teremos são rumores. Rumores que destroem vidas, a confiança de uns nos outros e a credibilidade dos jornalistas. A situação é complicada não apenas para os jornais, mas para a própria democracia. A piorar a situação, os jornais refugiaram-se num nicho de mercado que é a realidade político-partidária. Talvez por isso se tenham reduzido, as mais das vezes, a meras formas de propagação de recados e arena para lutas partidárias, descredibilizando-se ainda mais.

Naturalmente que a solução não virá dos leitores. Estes já fizeram a sua parte mostrando o que querem. E o que pretendem é informação simples e concisa, com acesso ao seu tratamento mais desenvolvido e cuidado. Algo que dê consistência ao que se leu em primeira mão e comprove a confiança que devem depositar nos jornalistas. A oferta é, pois, a transmissão de uma notícia específica que o leitor possa ler sem perder tempo. As pessoas que, ao contrário do que se diz, querem estar informadas, poderão, eventualmente, estar interessados, não em comprar jornais diários, mas publicações de menor periodicidade e com um desenvolvimento mais cuidado dos assuntos.

Uma coisa é certa: a imprensa tem de ler depressa os sinais que os consumidores lhes enviam todos os dias quando o jornal não vende. Essa reacção é precisa porque a confiança no quarto poder implica seriedade, independência e distanciamento do poder político e económico. E para que tal aconteça, necessita de ser lucrativa. De ter leitores, ganhar dinheiro, pagar aos jornalistas, e não precisar de favores, quaisquer que estes sejam.

Alexandre Soares dos Santos e a Fundação Francisco Manuel dos Santos

Relativamente ao meu artigo de ontem no Observador (Liberdade, pluralismo e independência), parece-me conveniente esclarecer que a omissão de qualquer referência à Fundação Francisco Manuel dos Santos foi deliberada e não um lapso ou coincidência.

Com essa opção pretendi salientar que a apreciação devida a Alexandre Soares dos Santos se deve primariamente à forma como, ao longo da sua vida, deu cumprimento à sua vocação empresarial e à sua conduta enquanto empresário e cidadão no plano pessoal. Não tenho dúvidas de que, para Alexandre Soares dos Santos, a Fundação que criou, impulsionou e financia surgiu como mais uma extensão do seu empenho cívico, mas quis precisamente evitar confundir as duas esferas.

Independentemente da apreciação positiva ou negativa (eventualmente em alguns casos até muito negativa) que se possa fazer das actividades e do rumo institucional da Fundação Francisco Manuel dos Santos, essa apreciação não altera o essencial do louvor plenamente justificado a Alexandre Soares dos Santos.

Alexandre Soares dos Santos e o país

O meu artigo de hoje no Observador: Liberdade, pluralismo e independência

Seria óptimo para Portugal – e em particular para o combate à pobreza no país – ter mais empresários com a vocação, coragem e independência de Alexandre Soares dos Santos e menos intelectuais especializados em viver à mesa do Orçamento do Estado.

O Fim de Um Mundo

Franz Ferdinand in Sarajevo A 28 de Junho de 1914, o carro que transportava o Arquiduque austríaco Franz Ferdinand pela principal avenida de Sarajevo foi atingido por uma bomba que acabou por ferir outras vinte e duas pessoas. Saído ileso do atentado, o herdeiro do trono imperial austríaco pretendia visitar os feridos, quando o seu chaffeur se enganou no caminho para o hospital, e para seu azar, entrou na rua onde se encontrava um tal de Gravilo Princip, um membro da Crna Ruka (a “Mão Negra”), o grupo terrorista sérvio que tinha sido responsável pelo atentado à bomba a que o Arquiduque escapara, e que desta vez, não falharia. Um mês depois, o império declarava guerra à Sérvia. No dia seguinte, a Rússia czarista ordenava a mobilização das suas tropas contra os austríacos. A 1 de Agosto, a Alemanha declarava guerra à Rússia, e no dia 3, declararia guerra à França. No dia seguinte, seria a Bélgica a receber uma declaração de guerra do governo do Kaiser. Nesse mesmo dia, o Reino Unido declarava oficialmente a abertura das hostilidades contra a Alemanha.

Lloyd George, o então Ministro das Finanças britânico, lamentava-se acerca de como um “furacão” conduzira “as nações” para o interior de um “caldeirão em ebulição”. Ao contrário do que pensara, nenhum “furacão” fora do controlo humano lançara “as nações” para a guerra. Mas a sua visão de um “caldeirão em ebulição” era particularmente feliz. Dentro do “caldeirão” que era o continente europeu “ferviam” demasiados ingredientes a uma temperatura demasiado alta. A uma dada altura, o “caldeirão” começou a transbordar, e de lá de dentro saíram milhares de soldados. A “Grande Guerra” em que iriam participar, essa, só terminaria quatro anos depois, e grande parte deles não durou tanto tempo.

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Na véspera da declaração de guerra, ninguém sabia se o Reino Unido se juntaria ao conflito continental. Quando, em finais de Julho de 1914, a Alemanha pediu a neutralidade britânica, deixara bem claras as suas intenções de atacar a França. Aparentemente, não era nada que incomodasse Edward Grey, o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, desde que a Alemanha se mostrasse “ansiosa por preservar a paz europeia” e russos e franceses fossem “irrazoáveis” quanto às suas pretensões, ou seja, que a França se mantivesse neutral e a Alemanha respeitasse essa neutralidade. Como Churchill viria a descrever, o seu companheiro de Gabinete queria “fazer com que os alemães percebessem” que não poderiam ignorar a vontade inglesa, mas “sem fazer com que a França ou a Rússia sentissem que” a Inglaterra “estava no seu bolso”. Acabou por não conseguir nenhuma das duas, e os dois blocos agiam como se a Inglaterra lhes tivesse dado as garantias que cada um deles pretendia, a Alemanha acreditando que o Império Britânico se manteria neutral, França e Rússia confiantes de que em caso de guerra não seriam deixadas sozinhas.

O próprio governo parecia não saber muito bem que caminho ia seguir. Nem todos os membros do Gabinete concordavam com Grey, e nem a declaração de guerra da Alemanha à Rússia foi suficiente para sanar a divisão. A neutralidade continuava a ser a opção preferida de muitos deles, e só quando o Chefe do estado-maior alemão Helmuth von Möltke lançou um ultimato à Bélgica, exigindo liberdade de circulação por todo o território da Bélgica para as tropas alemãs, os mais renitentes se deixaram convencer. Já em 1906, o cenário de uma violação da neutralidade belga era previsto como passível de arrastar a Inglaterra para uma guerra continental. Se, como garantia o Primeiro Ministro Asquith, nada a obrigava a nela participar, os riscos de se manter de fora pareciam demasiado elevados. A anexação da Bélgica e da Holanda fazia com que a Alemanha tivesse acesso aos portos da costa do Canal, em posição de atacar as ilhas britânicas, juntamente com a – como avisava então um memorando do Estado-Maior britânico – a “elevada indemnização imposta à França”, colocariam a Alemanha numa “posição dominante” no continente, que poderia “deixar ao seu alcance” uma futura “preponderância naval”. A tradição estratégica britânica sempre procurara limitar a fraqueza do seu exército expedicionário através de duas linhas essenciais: a primeira, como o Sir Humphrey de Yes Minister diz, “manter a Europa dividida”, para que a sua superioridade naval (a segunda) não fosse posta em causa por uma potência hegemónica que a pudesse suplantar. Aliás, o receio de Grey de que a França e a Rússia se poderiam passar para o outro lado mostra bem como a prioridade da política externa britânica era a de impedir a supremacia continental de uma das potências. A Inglaterra entrava na guerra não por um mero chiffon de papier (como o Chanceller alemão Bethmann Hollwegg se lamentaria), mas pelo desejo de manter o equilíbrio da balança de poder.

Num dos seus livros, o historiador escocês Niall Ferguson argumenta que caso a Inglaterra tivesse ficado de fora, “mesmo que apenas por algumas semanas”, o resultado poderia ter sido o de uma união aduaneira “semelhante à União Europeia dos nossos dias” e que teria tido a vantagem de não “esgotar” o império colonial britânico como veio a aontecer com duas Guerras Mundiais. Para Ferguson, a Inglaterra errou ao ver numa “Europa Teutónica” o monstro que a iria devorar. De facto, Möltke ameaçava “instigar uma revolta na Índia” apenas no “caso de a Inglaterra tomar uma posição” enquanto “opositora da Alemanha”. E em Julho, os (provisórios) objectivos de guerra alemães não previam ainda a anexação da Bélgica e da França. Mas Ferguson desvaloriza o potencial impacto da transferência da França para a esfera de influência alemã, prevista desde logo, bem como o enfraquecimento russo, que em conjunto deixariam a Inglaterra isolada. Em 1957, quando essa união aduaneira acabou mesmo por avançar, era do interesse inglês a entrada da Alemanha para a esfera francesa. Por um lado, tanto a Alemanha como a França estavam absolutamente aniquiladas, enquanto em 1914 uma “união” dos dois países deixaria esse bloco como uma ameaça ao Reino Unido. E por outro, a Rússia aparecia então como uma ameaça, não um aliado enfraquecido como seria em 1914. E mesmo assim, o Reino Unido só acabaria por aderir à “Europa” em 1972. Mas acima de tudo, Ferguson desvaloriza o que representaria a inacção da Inglaterra perante a violação da neutralidade belga. Se perdesse o “seu bom nome”, a Inglaterra arriscava-se a “destruir” a sua “posição no mundo”. Ao não respeitar uma aliança, arriscava-se a que, no futuro, os seus aliados seguissem o mesmo caminho, deixando-a isolada numa hora de necessidade como ela lhes teria feito a eles.

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A entrada da Alemanha numa guerra com a Rússia e a França tornava assim dificilmente evitável a participação britânica no conflito. Em plena “Crise de Julho”, a Alemanha daria ao seu velho aliado austro-húngaro um “cheque em branco” que declarava que este último podia contar com a Alemanha enquanto “um aliado e um amigo – fosse qual fosse a decisão”. Este “cheque em branco” parece ser um exemplo de um supostamente ambicioso “imperialismo militarista” alemão, ansioso por entrar em guerra para demonstrar a sua superioridade e, como dizia Lenine, “saquear” os concorrentes em “decadência”. Mas se alguém estava em decadência, era a própria Alemanha. Se é verdade que a média do crescimento anual do seu PIB per capita, no período 1870-1913, fora de 1,6% (apenas inferior ao dos Estados Unidos), representando um crescimento absoluto na ordem dos 84% (mais do dobro do inglês), também é verdade que a despesa pública crescia ainda mais (entre 1890 e 1913, a despesa pública alemã, em percentagem do PIB, cresceu 2%). Devido à dificuldade em cobrar impostos (continuava a ser, como dissera o futuro Chanceller Bernard von Bulow em 1890, “um pobre viajante” obrigado a “bater à porta dos estados individuais à procura de subsistência”), a Alemanha tornava-se dependente da contracção de dívida (60% do produto antes da guerra, 21 679 milhões de marcos em comparação com os 8 566 de 1887), ao mesmo tempo que tornava esse endividamento mais caro, devido à falta de confiança dos credores na capacidade alemã de saldar essa dívida (o preço dos títulos de dívida pública vendidos pelo Estado alemão caiu em 26,5% entre 1886 e 1913, enquanto as compensações pagas aos seus credores subiram de 3,56% para 4,06%, o que significa que os seus credores lhe entregavam menos dinheiro em troca de garantias mais elevadas). Em caso de guerra, os custos do esforço militar seriam, temiam, insuportáveis.

A solução para este problema poderá parecer simples: não entrar em guerra. Grey tinha essa expectativa. Mas se porventura a Alemanha viesse no futuro imediato a ser alvo de uma agressão externa, a progressiva degradação da sua situação financeira apenas agravaria a fragilidade que sentia em 1914. Longe de se ver como uma potência em ascensão, a Alemanha, dizia von Bulow, sentia-se “cercada”. Em 1909, Moltke chegara à conclusão de que a Alemanha não poderia vencer uma guerra com a Inglaterra, e em 1914, o Kaiser achava-se já “contorcendo isolado na teia” em que o seu país se via enredado. Foi aliás por se verem a si próprios como fracos que os responsáveis militares alemães alteraram o famoso “plano Schlieffen”, reduzindo o número de tropas a serem mobilizadas para a frente de batalha. E era por esperar que a Alemanha ficasse “esgotada” em caso de conflito que Grey não acreditava que esta desencadeasse um ataque “agressivo e ameaçador” à Rússia. Mas talvez precisamente devido a essa hipótese, a Alemanha, alertava o financeiro Max Warburg, não podia “esperar” mais: por um lado, não se podia dar ao luxo de abandonar o aliado austríaco, o único que lhe restava, por outro, temia a ameaça que a França e a Rússia poderiam vir a constituir dois anos mais tarde.

Estes dois países, por sua vez, tinham também razões para preferirem uma guerra logo naquele Verão de 1914. A França estava obrigada, pelo tratado assinado em 1893, a aliar-se com a potência czarista em caso de guerra – além de que via nas atribulações austríacas uma oportunidade de expansão do poderio alemão, que compreensivelmente temia desde a humilhação da “guerra franco-prussiana”. A Rússia, por seu lado, avisara já os austríacos de que se a Áustria “corresse para a guerra”, a Rússia se sentiria “compelida” a defender a Sérvia. Em 1908, deixara-a “anexar” a Bósnia-Herzegovina – que a Áustria de facto já administrava como protectorado – e enfurecera os nacionalistas sérvios que esperavam dos seus “irmãos eslavos” protecção e ajuda. Agora não faria o mesmo, e só admitia suspender a mobilização de tropas se a Áustria se mostrasse disponível para “eliminar” do seu ultimato as exigências que “infringiam os direitos de soberania da Sérvia”. O problema estava em que eram precisamente esses “direitos” que a Áustria pretendia “infringir”. O “factor político” da Sérvia, dizia o Imperador, tinha de ser “eliminado”.

Talvez não fossem meras palavras de um pai desgostoso com a morte de um filho às mãos de um bando de assassinos. Afinal, já outro membro da família real, a Imperatriz Elizabeth, havia sido assassinada, esfaqueada em Genebra por um anarquista no ano 1898, e nenhuma guerra resultara daí. A diferença estava nas ambições sérvias, e na pressão que estas colocavam sobre o Império. A sua defesa implicava mais despesas militares, que implicavam a cobrança de mais impostos, que por sua vez implicavam maior descontentamento nas regiões de onde a instabilidade vinha. Por a “monarquia ter sido apanhada pelo pescoço”, e “não como vingança pelo assassinato” do Arquiduque, dizia Conrad von Hotzendorff, chefe do estado-maior do Império, este tinha de “optar entre permitir que fosse estrangulado ou fazer um último esforço para impedir a sua desintegração”.

A Sérvia era, realmente, um “factor político” complicado para o Império dos Habsburgos. Em 1898, em conversa com um diplomata britânico, um jornalista sérvio confessava que a ele e aos seus compatriotas “de forma alguma” interessava “o desarmamento” – ou seja, o fim da tensão entre as potências – “na esperança de ganhar alguma coisa com conflagração geral”. A crescente decadência do Império Otomano conduzira à independência sérvia após o Congresso de Berlim de 1878, e permitia-lhe alimentar ambições de expansão e união eslava, com a bênção e as armas da Rússia. Com o apoio russo, a Sérvia criou uma Liga Balcânica com o objectivo de expulsar definitivamente os Otomanos da região, e em 1912, na primeira “Guerra dos Balcãs”, acabariam por consegui-lo. Pelo meio, tratariam de invadir a Albânia, um pequeno estado cuja independência o Império Austro-Húngaro se havia comprometido a garantir. No governo da Sérvia estava Nikola Pasic, o Primeiro-Ministro que chegara ao poder na sequência do regicídio de 1903, que arrancara o rei Alexander do poder e vários pedaços do corpo à rainha Draga, e fora já criada a “Mão Negra”; um dos seus fundadores, “Apis”, era agora o chefe dos serviços secretos sérvios. Se em 1898 os sérvios olhavam com esperança para a “conflagração geral”, agora pareciam procurar activamente fazê-la deflagrar. A visita do Arquiduque a Sarajevo oferecer-lhe-ia a oportunidade.

O império Austro-Húngaro não fizera nenhum favor a si próprio ao “anexar” o território bósnio: se na prática já o controlava, a oficialização do domínio surgia como um acto puramente provocatório, e assim foi recebido não só pelos sérvios como pelos seus patronos russos, sem os quais a Liga Balcânica teria sido impossível. E não custa imaginar como, do lado sérvio, tendo recentemente escapado ao domínio Otomano, se olhava para o gigantesco vizinho austríaco e se temia passar para debaixo da sua alçada. Por outro lado, ao conspirarem um atentado contra Franz Ferdinand, o estado sérvio – na pessoa de “Apis” – e a “Mão Negra” garantiam que uma resposta austríaca não poderia nunca deixar as autoridades do estado eslavo incólumes. Grey viria mais tarde a dizer que “a Alemanha estava com medo do futuro”. Na realidade, estavam todos. A Áustria temia que ele trouxesse a sua desintegração, às mãos do terrorismo sérvio e das ambições independentistas das suas minorias. A França e a Rússia, a destruição da Sérvia e a afirmação do rival germânico nos Balcãs. A Alemanha, a afirmação russa, e a degradação da sua própria situação interna. E a Inglaterra, paradoxalmente, temia a afirmação do poderio alemão. E assim, todos arriscaram um presente imediato sangrento, na expectativa de um evitarem um futuro ainda pior. Não tiveram grande sorte. Em plena crise, Bethmann Hollweg avisava para a possibilidade de um “conflito generalizado” conduzir a uma “revolução de todas as condições existentes”. As convulsões que marcariam a vida do continente europeu nas décadas seguintes mostram como estava certo. No Verão de 1914, milhares de soldados partiram para os campos lamacentos que marcariam as suas vidas nos anos seguintes, ou no pouco tempo que lhes restou. Quando partiram, foi-lhes prometido que estariam de volta no Natal seguinte. Nesse Natal de 1914, as trincheiras foram palco de confraternizações de soldados inimigos, jogos de futebol, missas pelos mortos de ambos os lados. Nos Natais seguintes, esse cenário não se repetiu. Até Novembro de 1918, os que haviam sobrevivido estavam demasiado ocupados tentando matar-se uns aos outros. Depois de 1918, o mundo que haviam deixado para trás nunca mais regressou.

Precipício 1914

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Esse mundo havia sido, dizia com saudade e tristeza John Maynard Keynes, um “extraordinário episódio” na História humana. Tinha-se perdido um “paraíso” em que o grau de liberdade de circulação de bens e pessoas permitia a um número considerável delas gozar de “confortos” que haviam estado “fora do alcance dos mais ricos e mais poderosos monarcas de outrora”. Depois dele, vieram “as restrições”, os monopólios, a “exclusão” e “os projectos e as políticas de militarismo e imperialismo”. Mas ao contrário do que Keynes dizia, esse mundo que recordava com saudade não chegara “ao fim em Agosto de 1914”. Essa data foi apenas aquela em que o fim desse mundo se fez notar. O “paraíso” de Keynes era um mundo de uma Europa de Impérios, e tudo mudara já décadas antes, quando a decadência do Império Otomano fez com que nas fronteiras com o Império Austro-Húngaro passasse a estar, não outro império capaz de controlar os vários grupos étnicos no seu interior, mas um pequeno estado, suficientemente homogéneo para alimentar anseios de unidade racial (tanto mais problemáticos quanto menor era a capacidade do império austro-húngaro de os acalmar no seu interior, ou de obter os recursos para suprimir eficazmente as veleidades que pudessem surgir), mas demasiado fraco para não precisar de arrastar as outras grandes potências na sua defesa. A “Grande Guerra” não trouxe o fim de um mundo. Antes foi o fim desse mundo que tornou a “Grande Guerra” possível.

Leituras Recomendadas

T.C.W. Blanning (org.), The Nineteenth Century, 2000

Christopher Clark, The Sleepwalkers, 2014

Norman Davies, Europe: A History, 2007

Niall Ferguson, The Pity of War, 1998
- Virtual History, 1997
- The War of the World, 2006

A.J.P Taylor, The Struggle for Mastery in Europe, 1848-1918, 1954

Portugal fora do mundial, com muita tranquilidade

Não obstante a vitória no último jogo, dificilmente a participação portuguesa no Mundial poderia ter sido globalmente mais decepcionante, mas pelo menos nesta apreciação Paulo Bento tem toda a razão: Paulo Bento: “Tivemos aquilo que merecemos”

Resta esperar que todos os envolvidos, desde os jogadores e a equipa técnica até à estrutura directiva da Federação Portuguesa de Futebol saibam retirar as devidas consequências do desastre ocorrido no Brasil.

No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’ de hoje tem os despedimentos nos jornais da Controlinvest, como pano de fundo.

O futuro dos jornais

A Controlinvest, detentora, entre outros, do “Diário de Notícias”, vai despedir perto de 160 trabalhadores. Os jornais estão a atravessar um processo de transformação de tal forma doloroso que a razão para o despedimento já não é a incompetência de quem neles trabalha, mas o desfasamento dos projectos editoriais da realidade.

São cada vez menos os que compram jornais diários. Para quê, se a informação que se obtém com a edição impressa está nos sites desses mesmos jornais? Atenção: não estou a dizer que ficamos mais bem informados se nos ficarmos pela internet. Apenas que, com o tempo que cada um tem disponível, o que se lê na internet é mais do que se consegue ler num jornal.

O tempo é uma coisa tramada. E não dá para tudo. Não dá para se ler um jornal como se fazia há 20 anos. Essa falta de tempo, aliada às novas tecnologias, está a matar a leitura do jornal diário. As notícias destes lêem-se nos tablets e nos smartphones. É pouco? Sem dúvida. Mas é o possível para o tipo de vida que os clientes dos jornais têm.

É por essas e por outras que os jornais diários em papel tenderão a desaparecer. Aconteceu o mesmo aos vespertinos. As pessoas ficarão menos informadas? É um risco para a democracia? Não sabemos. Da mesma maneira que o público lê menos diários, poderá estar muito interessado (e necessitado) de publicações de menor periodicidade, mas de maior profundidade. A informação será sempre precisa. Basta saber como é que o público quer que esta lhe seja transmitida.

Há jornalistas a molestar crianças

“Há empresas a proibir mulheres de engravidar”, foi mais ou menos assim que foi noticiado um pouco por toda a imprensa. Que empresas? Há provas disso? Não importa. De um momento para o outro, todas as empresas, todos os empresários, passaram a estar sob suspeita. Ninguém irá investigar, ninguém irá tentar saber se este é mais um exemplo de um académico à procura de protagonismo, se é um caso isolado ou se é prática comum e, nesse caso, em que sectores. Lançar a suspeita chega para mais uma vez passar a mensagem de que os empresários são uma espécie de terroristas sociais sem os quais seríamos todos muito mais felizes.
Depois do Verão haverá mais um despedimento colectivo na imprensa. Não há dinheiro porque parece que os empresários não gostam de investir em Portugal. Vai-se lá perceber porquê.

Basta!

António Costa recebeu o apoio duma auto-proclamada elite, tão comum em algumas comunidades, e que também existe no PS. Às tantas, terá dito: “Basta, é preciso pôr termo a esta política. Acabar com a dúvida permanente sobre qual é o imposto que amanhã vai subir, ou qual é o salário que amanhã vai ser cortado.”

Costa não defende apenas a criação de riqueza para resolver a crise. Julga ainda que Basta subir impostos e cortar salários. Passaram mais de 10 anos sobre o célebre «Há mais vida além do défice» de Jorge Sampaio, e o PS não aprendeu nada.

E pergunta-se: porquê? O grande dilema do PS (e dos socialistas, no PSD e no CDS) é que para que haja mais vida além do défice, para que a economia seja mais que finanças públicas, é preciso pôr o socialismo na gaveta. Para que esta dúvida permanente sobre qual é o imposto que amanhã vai subir, ou qual é o salário que amanhã vai ser cortado desapareça, é indispensável que o estado deixem de gastar mais do que recebe.

Para que se adira ao apelo de Costa, Basta (!) que o PS deixe de ser o PS e os seus militantes de ser quem são.

A conta para os contribuintes segue dentro de momentos

Reitores voltam a cortar relações com o Governo
Reitores quebram diálogo com Governo. Faltam verbas nas universidades
Reitores alertam: funcionamento das universidades pode ficar comprometido
Reitores pedem reforço de 85 milhões de euros

O final do filme deverá ser o habitual: mais uma vez o Governo cederá a um dos mais poderosos lobbies do país e a conta será, como sempre, passada para os contribuintes, não obstante a delicadíssima situação das contas públicas e a sobrecarga fiscal.

Ao abrigo da peculiar jurisprudência constitucional portuguesa sobre o princípio da igualdade, enquanto o sector privado pode sempre ser forçado a pagar mais impostos (e a pagar também em falências e desemprego…), para os agentes mais bem instalados na captura de rendas é apenas business as usual.

Não ter tido a coragem ou a capacidade de reformar o modelo de financiamento do ensino superior, promovendo maior competitividade e real autonomia auto-financiamento das instituições ficará como uma das principais manchas deste Governo.

Leitura complementar: Continuar a ler

Rui Rio acusado de gerir bem demais

É uma pena que o país no seu todo não tenha este tipo de “problemas” de gestão, mas a notícia – e em especial a mentalidade subjacente – ajuda a compreender o estado a que Portugal chegou:

O PS considera que o resultado positivo obtido pela Câmara Municipal do Porto em 2013, 23,6 milhões de euros, mostra que “Rui Rio não foi tão bom gestor como isso, porque podia ter feito mais pela cidade e não fez”.

Mudanças

(Artigo publicado no Diário Económico de hoje)

Na passada semana, em entrevista ao director do Diário Económico, Teixeira dos Santos lançou a ideia de que caso não haja o “acordo” partidário em torno das “reformas indispensáveis ao país” pedido pelo Presidente, este poderia convocar eleições para a partir daí “constituir as bases do compromisso”. Duvido que desse bom resultado.

Em primeiro lugar, porque PSD, PS e CDS não só não querem chegar a acordo algum, como menos ainda desejam “reformar” o Estado que lhes serve de instrumento de distribuição de benesses, e como tal, de meio de sobrevivência. Em segundo lugar, porque eleições antecipadas nos próximos meses seriam a maior garantia de que nenhuma reforma se fará.

Em democracias como a nossa, com um Estado que mal evade a falência, os eleitores votam essencialmente para não perderem o pouco que ainda não lhes foi retirado por governos que pouco ou nada querem mudar, mas que têm de se curvar perante a avassaladora força das contas, e que se vão sucedendo à medida que o descontentamento que removeu o antecessor se vira sem piedade para o novo ocupante até que este se despeça. Em tal ambiente, as “reformas indispensáveis” só poderão ser promovidas por um Governo que, antes de chegar ao poder, tenha a inteligência de perceber quais as “reformas” necessárias e a capacidade de convencer os eleitores da sua utilidade.

Ora, ninguém no seu perfeito juízo acredita que qualquer uma das actuais lideranças partidárias possua alguma destas qualidades. Mas se “as europeias” mostraram a sua fraqueza e a necessidade de as substituir, legislativas antecipadas seriam a bóia de salvação por que desesperadamente anseiam. Para que o país mude no sentido em que precisa de mudar, PSD, PS e CDS precisam de mudar primeiro, algo a que eleições antecipadas seriam um decisivo entrave. O conselho de Teixeira dos Santos deve, por isso, ser olimpicamente ignorado.