Isto sim, é revolucionário

Ontem alguém dizia que o efeito da audição das ondas gravitacionais na exploração do Universo era equivalente a um surdo começar a ouvir de repente. Mas o mais impressionante é que um homem tenha teorizado há 100 anos algo que só agora se comprovou ser verdade. É como se alguém previsse hoje que, com base em estudos e cálculos, extraterrestres chegariam à terra dentro de um século e 100 anos depois eles aterrassem no Central Park.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

A soberania, segundo a esquerda

Desde que este PS chegou ao governo, com o apoio dos comunistas e dos bloquistas, que as taxas de juro, que o Estado português paga pelo dinheiro que pede emprestado para funcionar, têm estado a subir.

O que está a segurar o país é o BCE que está a comprar  dívida pública portuguesa. Caso não o fizesse, os juros subiriam numa espiral forçando António Costa e Mário Centeno a repetir o gesto de Sócrates e Teixeira dos Santos e pedir nova intervenção da troika.

No entanto, até a compra de dívida pública por parte do BCE não é certa. Ou melhor: não depende apenas da boa vontade daquele banco central. Existem regras: uma das condições é que as agências de rating considerem que não haja risco no investimento em dívida pública portuguesa. Ora, neste momento, apenas uma dessas agências assim o entende: a DBRS. Traduzindo por miúdos, caso esta agência aumente a nota de risco dada a Portugal, baixando o rating, o Estado deixa de ter acesso à ajuda do BCE. Lembra-se do que está escrito no final do primeiro parágrafo?

Pois é. A maioria das pessoas pode ainda não se ter apercebido, mas estamos por um fio. Dependemos de uma agência de rating sediada no Canadá. Esta é a noção que a esquerda tem de soberania: bater o pé e cair redondo no chão. Mas o mais impressionante não é isso. O que mais impressiona é ver a esquerda a falar de soberania, ao mesmo tempo que nos deixa nas mãos duma instituição que até há pouco tempo a maioria de nós não tinha ouvido falar.

Orgulhosamente sós

O meu artigo hoje no Diário Económico.

Orgulhosamente sós

Qual é o maior problema da economia portuguesa? O endividamento excessivo. Do Estado, que gasta mais do que recebe; e dos privados, estimulados que foram a gastar o que não tinham para que a economia crescesse mais depressa do que o Estado se endividava.

Pelo que se percebeu da sua prestação no debate quinzenal no Parlamento sobre o Orçamento, António Costa gosta de torrentes. Ora, e aproveitando a imagem de Costa, o endividamento excessivo é como uma torrente de água retida por um muro; um muro construído pela ‘troika’ que impede o colapso do Estado.

A esquerda quer que Costa bata o pé em Bruxelas. À mera referência de que o dinheiro que nos sustenta não é nosso, a esquerda estrebucha, indigna-se. Abre a boca, mas tapa os olhos e os ouvidos. Recusa ver a realidade, tal como Salazar fez com a guerra colonial e a necessidade de democratizar o regime. E, tal como o velho ditador, a velha esquerda acusa o estrangeiro. Para Salazar, o demónio era os EUA e as liberdades do Ocidente. Para o PS de Costa, com o PCP e o BE a dar-lhe força, os mercados, a Europa, os alemães e, porque é preciso um bode expiatório mais concreto, a Sra. Merkel.

40 anos depois voltamos a ser governados por políticos retrógrados. Por um governo que visa à força, contra a torrente de água que nos ameaça, manter o país à margem do que se passa no exterior. A ilusão de se governar um país alheado do mundo real, alheado da vida além fronteiras, do que de bom e de mau pode vir lá de fora, não é caso único em Portugal. A China vive também o custo que é o despertar para essa realidade. Perante as quedas bolsistas no início do ano, as grandes empresas estatais chinesas, mandatadas por Pequim, tentaram suster a torrente. Não conseguiram. Os factos têm mais força e o rio que os transporta impõe-se, a bem ou a mal.

Como se impõe quando os governos cegam com a ideologia e as ambições pessoais dos seus líderes. Mas o problema não é apenas o governo viver uma fantasia. Tal como a questão com Salazar não era só a sua discrepância com o exterior, mas essencialmente o sofrimento que impunha ao país. Como no passado, também agora estamos perante uma estratégia que nos prejudica.

Convençamo-nos do seguinte: com dívida não há investimento produtivo; não há capital, porque o que amealhamos serve para pagar o que devemos. Isto é uma luta tão importante como a de há 40 anos: com dívida não há liberdade. Não somos livres dos poderes corporativistas que dominam o Estado e beneficiam da lógica do endividamento nem dos discursos nacionalistas que se alimentam da pobreza que criam e de que nos libertámos há 40 anos, mas que a esquerda extremada está a ressuscitar.

Como se escreve uma boa crónica

30-10-05-Frauenkirche-Dresden

Não é frequente ler-se uma boa crónica. Menos ainda uma excelente. Tive essa sorte no número de Dezembro da revista ‘The Oldie’, num artigo de William Cook sobre a sua viagem a Dresden, na Alemanha. Ou melhor: sobre as suas muitas viagens àquela cidade descaracterizada pelos bombardeamentos aliados na Segunda Guerra Mundial e após 40 anos de ditadura comunista.

Cook intitula a sua crónica de ‘Dresden’s miracle rebirth’. Ele começa-nos por contar que o seu pai nasceu naquela cidade durante a guerra e sobreviveu aos bombardeamentos de 1945. A primeira vez que Cook conheceu Dresden foi em 1995 e viu uma cidade cheia de 50 anos feridas. No entanto, foi regressando ao longo dos anos e sempre que o fazia encontrava-a melhor. Mais animada, mais arrumada, mais organizada, desenvolvida. Um sítio onde o bem-estar e a melhoria do nível de vida se sentia (e se sente) ao virar de cada esquina. A partir daqui, Cook guia-nos pelas principais atracções da cidade. Algo que faz muito rapidamente até porque o artigo não é longo, duas páginas apenas, ainda por cima com uma enorme fotografia da Frauenkirche de Dresden numa, e um anúncio à The Oldie Travel Insurance, na outra.

É a partir de certa altura, já perto do fim, quando Cook nos conta que no decorrer da sua última viagem decide visitar a casa onde o pai nasceu que a crónica atinge o seu auge. Ele esclarece-nos que, como a casa fica nos arredores, não foi atingida pelas bombas e ainda existe. Depois de convencer os seus actuais donos a entrar, dirigiu-se e deixou-se estar por uns momentos no quarto onde o pai nasceu e a avô assistia aos bombardeamentos pela janela. Ela fê-lo até ao dia em que apanhou o último comboio para Hamburgo antes da chegada do Exército Vermelho. Nessa outra cidade alemã, a avó partiu para Inglaterra onde viveu, o pai de Cook cresceu, mais tarde conheceu a mãe deste e ele depois nasceu. E é quando o cronista nos conta isto, ao mesmo tempo que contempla o quarto da avô e pensa na sorte que teve em existir e ser feliz, que nos tira o tapete do pés e nos faz perceber que está a compreender porque razão se encontra ligado a Dresden e a tem visitado tantas vezes durante tantos anos. É que, ao mesmo tempo que escreve, e se assim não é assim o parece, Cook compreende que, tal como aquela cidade, também a sua família, a sua avô, o seu pai e ele próprio renasceram. Naquele quarto, sobreviveu-se; noutro país, na Inglaterra, a vida surgiu novamente e seguiu o seu rumo até chegar aquele momento em que Cook e Dresden se encontram e se revelam no destino comum que os une.

É nesta altura, bem no fim da crónica, na última linha, que percebemos que o que acabámos de ler, apesar de inserido na rubrica de viagens, depois de um artigo sobre uma estância de esqui e antes doutro sobre uma viagem ao Japão, que não estivemos a ler um texto sobre um destino turístico, mas uma viagem pessoal, interior, de um homem e de uma cidade. Sabemos que fomos enganados e ficamos agradecidos por isso. Porque são partidas deste género que fazem uma boa crónica, que causam uma surpresa que vale a compra de uma revista.

O futuro do PS

António Costa quer prefere discutir o futuro. É mais fácil, porque vago. Mas já que ele tem essa preferência, seria interessante saber o que pensa Costa sobre o futuro que deixa ao PS quando a bancarrota do Estado derrubar este governo.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’.

O cerco aperta-se

É já para a semana que têm lugar os caucuses do Iowa, dando-se assim ao tiro de partida no processo de escolha do próximo presidente dos EUA. E a coisa está feia tanto do lado Democrata como do Republicano. Se entre os primeiros, Hillary Clinton está novamente a ser surpreendida por um outsider, desta vez de nome Bernie Sanders, já os segundos começaram a fazer contas e a pensar como minimizar o impacto negativo que a nomeação de Donald Trump trará ao partido.

O que está a causar divisões. A conservadora National Review fez sair uma edição muito crítica de Donald Trump (não deixa de ser curioso que sejam os conservadores os mais avessos ao fenómeno Trump), comparando-o a um ditador sul-americano liberto das amarras que são as ideias conservadoras que tornam sensato qualquer pessoa que, com humildade, reconheça os seus limites. O problema entre os republicanos é que quase todos odeiam Ted Cruz, o melhor posicionado para destronar Trump.

A somar a esta confusão, Bernie Sanders pode, caso ganhe como previsto no New Hampshire, vir a ser o candidato dos Democratas à presidência. Sanders é um socialista, dos verdadeiros, e um confronto eleitoral deste com Trump não deixaria de ser inquietante. São dois demagogos que rejeitam a ideia do governo limitado que deu origem aos EUA e, em nome de paixões políticas de cariz mediático, querem impor a sua visão de sociedade aos outros. Tal como na Europa, com Tsipras, Jeremy Corbyn, Marine Le Pen,  Pablo Iglesias e António Costa, a demagogia aperta o cerco nos EUA.

Moody’s, o eterno défice e presidenciais

Como tem sido habitual à terça-feira, vou estar hoje pelas 12.10, no Económico TV. Os temas desta semana são a Moody’s e o OE 2016, o défice de 2015 e ainda os resultados das presidenciais.

Procuram-se 186.446 comunistas

Comparando os resultados obtidos pelos candidatos comunistas à presidência (Francisco Lopes 2011 vs Edgar Silva 2016), em cinco anos o Partido Comunista Português viu perder cerca de 118 mil votos. Sim, digo votos no partido e não no candidato porque, como o próprio secretário-geral (Jerónimo de Sousa) disse, a decisão não foi pessoal (meu destaque e link): Nós podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha, portanto, enfim…”

E tendo em conta os resultados das últimas legislativas a perda é ainda maior (menos 263.074 votantes), o que, se ontem tivessem conseguido cativar 82,82% dos eleitores comunistas de Outubro (369.352, ou seja, mais 186.446 votos que os obtidos por Edgar Silva), haveria necessidade de uma segunda volta nestas eleições presidenciais.

Adenda: nas presidenciais de 2006 o candidato engraçadinho Jerónimo de Sousa obteve 466.507 votos…

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Primavera Marcelista

Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito presidente da República sem que tenha dito uma palavra sobre os desafios do país. Apesar de compreender a sua estratégia, esta demonstra por A+B que a direita portuguesa ainda pede permissão para falar. É assim porque não há ainda um discurso programático de direita que deixe para trás a confronto tradicional direita/esquerda, em que esta defende os pobres e aquela os ricos. Ainda não consegue sustentar um programa político no qual o rigor das contas públicas significa mais liberdade, mais riqueza para todos e maior capacidade do Estado exercer as suas funções essenciais.

Mas esta eleição não foi sobre isso. Não foi sobre a direita. Foi sobre Marcelo. E pelo que conhecemos dele, sabemos estar talhado para o cargo. Conforme referiu José Miguel Júdice a semana passada no jornal i, Marcelo conhece todos os intervenientes com quem falará abertamente. Também sairá à rua que cativará sem grandes dificuldades. Tal como Soares, o seu poder de influência advirá daí. Da sua popularidade. Com essa força, esse à-vontade, Marcelo presidirá à República como um príncipe.

Caso nenhum partido obtenha maioria absoluta no Parlamento, Marcelo conseguirá o que Soares, por culpa de Cavaco, almejou sem sucesso. A vida tem destas ironias a que acresce a maior de todas com o decadente regime pós-25 de Abril a viver a sua Primavera Marcelista.

O habitual texto a violar a lei do “Dia de Reflexão”

blank-flagAo contrário do que tenho feito em eleições recentes, amanhã conto ir votar. Apenas não conto ir votar em qualquer um dos candidatos. Não por achar que não haja diferenças entre os candidatos, que as há, mas porque o único em que poderia votar não me merece a confiança suficiente para que o faça.

Se votasse em alguém, seria obviamente em Marcelo Rebelo de Sousa, e não seria (como será com muita gente à “direita” e até aqui n’O Insurgente) por o ver como um mal menor, alguém em quem votaria só porque a perspectiva de ter Sampaio da Nóvoa como Presidente parece aterradora. Qualquer pessoa que parta de um ponto de vista semelhante ao meu e olhe para os três anos em que Marcelo foi líder do PSD só pode encarar esse período com bons olhos: a coisa correu mal, principalmente porque Marcelo se aliou a Portas (um erro tão grande como aparentemente irresistível a qualquer líder do PSD), mas não faltaram posições louváveis, como a oposição ao “lobby” do futebol, a apresentação de propostas como a da privatização da CGD e da RTP, ou a de deixar de financiar o recurso ao SNS ou à Educação a pessoas que tivessem os meios suficientes para o fazerem por si próprias. Esse ex-líder do PSD poderia talvez ser um bom Presidente da República (a natureza do cargo e dos poderes que detém fazem-me duvidar que qualquer pessoa possa desempenhá-lo bem). O problema, como já mais do que uma vez escrevi, é que o senhor que se está a candidatar a Belém é mais “o Professor” da TVI, o comentador que ocupava as noites de domingo a falar de futebol e das possibilidades “da pequena Maddie” ser encontrada, e que de política falava apenas da eficácia com que os vários partidos e suas principais figuras manipulavam o eleitorado ou manobravam nos obscuros corredores da intriga em que foram educados, acima de tudo, pelo próprio Marcelo, em anos e anos de jornalismo escrito, radiofónico e televisivo.

Ao contrário de muita gente à “direita”, o meu problema com Marcelo não é ter feito uma campanha “à esquerda”, ou não assumir para si as dores do clubismo laranja que quer voltar para o poder e para a mesa do Orçamento; é ter feito uma campanha sem dizer nada; é ser o senhor que passou quarenta anos a falar de política sem dizer nada que interesse à vida e aos problemas dos portugueses. Enquanto que o ex-líder do PSD, que defendeu o que defendeu nos três anos em que ocupou o cargo, seria alguém de quem se poderia esperar alguma coisa (e que se poderia julgar cas ficasse aquém dessas expectativas), “o Professor Marcelo”, a figura que há 15 anos se apresenta aos portugueses como um vácuo absoluto embora familiar, é alguém que não pode ser avaliado. Eu gostava de poder votar em Marcelo, porque gostava que Marcelo fosse em Belém alguém com a visão para o país que tinha quando foi líder do PSD (e que fosse capaz de, em Belém como quando esteve na São Caetano, ir contra o seu partido se o interesse do país assim o justificasse). Espero até, sinceramente, que ganhe (e bem, já à primeira volta) estas eleições, e que desempenhe o melhor possível o cargo. Mas, por há anos não passar de uma personagem de uma espécie de “reality show”, não o posso fazer, pois essa sua postura de cerca de quinze anos faz com que eu não possa ter qualquer segurança de que o que Marcelo quer para o país seja algo que eu considere positivo. No fundo, não posso votar em Marcelo porque não me quero arrepender de o fazer. Mas espero sinceramente que ao longo dos próximos 5 ou 10 anos, Marcelo me dê razões para me arrepender de não ter votado nele.

“Tino”, o “povo” e a democracia portuguesa

Tino Para mal dos meus pecados, tenho estado, desde que Marcelo Rebelo de Sousa anunciou a sua candidatura à Presidência da República, a preparar um “ensaio” mais ou menos longo sobre a sua campanha e o que ela revela acerca da natureza da política moderna e do estado do país. Foi um grande erro que cometi. Devia ter escolhido, para tema da coisa, a campanha de Vitorino “Tino de Rans” Silva, pois a sua candidatura é de longe o fenómeno mais interessante e significativo desta eleição presidencial.

O debate de ontem na RTP, moderado por Carlos Daniel e Vitor Gonçalves, foi um bom exemplo. Como nenhum outro participante, “Tino” captou a atenção da audiência. Carlos Daniel perguntou-lhe sobre a sua ida a Bruxelas numa acção de campanha, e “Tino” começou a falar dos irmãos que tiveram de emigrar, e que por causa deles quis ir conhecer a realidade dos portugueses que vão trabalhar para outros países; pensava, disse ele, que iria encontrar “meia dúzia”, mas deparou-se com “ruas inteiras cheias de portugueses”, e queixou-se da impossibilidade de muitos dos portugueses habitantes na cidade belga mas recenseados em Portugal votarem nas eleições: “ligam para o Consulado”, presumivelmente para se informarem, “e o Consulado tem telefone e não tem ninguém a atender o telefone”; Carlos Daniel pergunta-lhe “e quem é que responsabiliza por isso?”, ao que “Tino” responde “oh pá, ponham um telefone mas ponham também uma pessoa a atender o telefone”, e a plateia se desmancha a rir e começa a bater palmas. O espectáculo continuou, com “o calceteiro mais famoso de Portugal” a dizer que havia “candidatos que jogam no pelado” (ele próprio, Jorge Sequeira, Cândido Ferreira, Henrique Neto, Paulo Morais) e “candidatos que jogam no relvado” (os outros), e que se “Messi é um grande jogador”, é porque “não dá chutos para longe, está sempre perto da bola”, e “quem está perto da bola está perto do golo” (não sei é uma citação do filósofo Jorge Perestrelo, mas se não é, parece), terminando depois dizendo que “eu também quero estar perto do golo, mas aí, passem-me a bola”, para novo grande gáudio de quem estava a assistir no estúdio.

O melhor, no entanto, estava ainda para vir. Vitor Gonçalves pedia a “Tino” para terminar. Este respondeu-lhe que ainda tinha tempo, e nem sequer ia precisar do “mesmo tempo de alguns aqui”, porque “não venho aqui para intrigalhadas”, e “há uma parte do debate que a mim não me interessa para nada, eu estou aqui e até estou a fazer bonequinhos”. Foi o delírio. Numa simples frase, “Tino” falou por – não duvido – uma parte significativa de quem se deu ao trabalho de assistir ao debate, e por todos aqueles que preferiram ocupar o seu tempo com outras distracções. Quando disse que, no dia anterior ao debate, tinha estado a dormir com um sem-abrigo, e que “os políticos seriam melhores políticos” se “fizessem o mesmo”, Tino apenas reforçou, na cabeça de quem estivesse a ver, a ideia de que só uma “pessoa simples” – alguém que não “um político” – faria e diria algo assim.

Numa campanha que tem sido pobre, e num debate que não destoou dessa pobreza, reacções simpáticas como as que “Tino” mereceu da plateia de ontem não são de espantar. E não foi a primeira vez que algo assim teve lugar. Há alguns dias, “Tino” foi ao Fórum TSF, e não faltaram telefonemas de gente a encorajá-lo, a louvá-lo pela sua iniciativa em candidatar-se, e até a prometer votar nele, por ser uma “pessoa comum” e “uma voz do povo” geralmente ausente das discussões políticas. Dias depois, esteve na TVI24, e o teor dos telefonemas foi semelhante. E por onde quer que faça uma “presença” (afinal, estamos a falar de um ex-concorrente do Big Brother) nesta campanha, “Tino” recebe uma quantidade de abraços e palavras de reconhecimento só superada pela que “o Professor Marcelo” consegue atrair, dando a entender que, à sua escala, “Tino” se prepara para ter um excelente resultado no próximo domingo.

Idealmente, a disputa política eleitoral deve ser uma competição entre diferentes forças partidárias ou candidatos para convencerem o maior número de eleitores da justeza das suas propostas: o que um político deve fazer é explicitar as suas convicções, e procurar mostrar a quem irá votar que elas são melhores para o país do que aquilo os seus adversários propõem. Infelizmente, não é isso que geralmente se passa. Infelizmente, a política transformou-se numa competição entre diferentes forças partidárias ou candidatos que tentam agradar mais ao maior número possível de eleitores, dizendo-lhes, não aquilo em que acreditam, mas o que julgam que esses eleitores querem ouvir. O resultado é aquele a que temos tido o azar de assistir: sentido a necessidade de nunca confrontar o eleitorado com propostas que o possam desagradar, os candidatos a cargos públicos escondem aos eleitores medidas impopulares que as circunstâncias (e a falta de vontade de realizar verdadeiras reformas) acabarão por tornar necessárias; quando a execução dessas medidas não pode mais ser adiada, os eleitores sentem-se enganados, e portanto menos dispostos a confiar nos políticos e nos “sacrifícios” que estes lhes exigem, o que por sua vez faz com que os políticos sintam uma ainda maior necessidade de esconder esses “sacrifícios” aos eleitores, num ciclo vicioso do qual parece ser impossível sair.

Esta transformação da política de uma competição de propostas numa competição de mentiras, e a percepção generalizada, por parte da população, de que “eles são todos iguais” e “não querem saber do povo para nada”, criou um terreno fértil para que esse “povo” tenha uma enorme simpatia por quem quer que apareça a “ser diferente”, e a dizer algo que que as pessoas sintam dizer respeito às suas vidas, e não apenas às “intrigalhadas” que enchem os telejornais e “o saco” do português comum. Já “Tino”, com as suas tiradas e até na demonstração da sua completa e visível inadequação ao palco político, representa mesmo a opinião de uma parte mais ou menos significativa dos portugueses; exprime efectivamente a mais ou menos mítica “voz” do “povo”, no seu melhor (quando, questionado por Vitor Gonçalves acerca de “qual é a qualidade que mais aprecia e a característica que mais deplora no ser humano?”, Tino diz que o que mais gosta é “ter saudades de casa” e que o ser humano devia “poder dar às asas para voar mas ter sempre alguém à espera”, e o que mais deplora é “fechar as portas a quem quer que seja”; ou quando, referindo-se ao facto de Cândido Ferreira ter dito que tratava “António Costa por tu”, se virou para Marisa Matias e disse “a partir de hoje trato a Marisa por tu”, é impossível não achar o homem adorável), e no seu pior (quando disse que os políticos deviam, “em vez de falarem de milhões”, falar “do zero”, “porque o zero é o ponto de partida e se soubermos onde estamos sabemos para onde podemos ir, e com isso a economia ia ganhar”, uma inanidade inqualificável que talvez passe por profundidade nos cafés de Rans mas que demonstra como o senhor tem pouca noção das coisas).

A simpatia que “Tino” tem conquistado é a maior condenação do estado a que o sistema político português chegou: é o reflexo de um número cada vez maior de portugueses confiar cada vez menos nas palavras de quem lhes pede um voto, ao ponto de se sentirem mais próximos de alguém que, mesmo não fazendo grande sentido, ao menos é “genuíno”. Que ninguém duvide: cada voto que “Tino” tiver no próximo domingo, quer daqueles que votaram nele meio a gozar e por exasperação com as alternativas disponíveis, quer os que genuinamente se revêem na sua simplicidade e “sabedoria popular”, será um voto de desconfiança na democracia portuguesa e em quem a tem conduzido. Por “Tino” ser uma figura essencialmente benévola e por não ter grande capacidade para explorar demagogicamente o sentimento de repulsa para com os políticos, desta vez o estrago não será grande. Mas talvez um dia apareça alguém com maior talento demagógico para cavalgar na onda populista que torna possível o fenómeno “do Tino”, e aí a cantiga será outra.

Em 2016 a vergonha é de esquerda

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Em 2016 a vergonha é de esquerda

Marcelo Rebelo de Sousa quer ser presidente da República com os votos da direita, mas fingindo-se de esquerda. Espera ganhar contrariando o que aconteceu nas autárquicas de 1989 quando, afirmando-se de direita, perdeu para o esquerdista Jorge Sampaio.

A derrota serviu-lhe de lição e há erros que não quererá repetir. Mas será um erro um político dizer-se de direita? Será que 2016 é igual a 1989? Ou será que, no tempo que medeia entre uma eleição e outra, a falência do modelo de desenvolvimento seguido pelo regime serviu para que aprendêssemos alguma coisa?

Em 1989 a direita tinha vergonha por não ter sido activa na oposição ao Estado Novo. Além disso, a social-democracia impunha o Estado como coadjutor do desenvolvimento do país e poucos se importavam com os défices das contas públicas e as consequências que adviriam do endividamento do Estado. Ora, a realidade em 2016 é muito diferente. Não só o socialismo pôs em causa a sustentabilidade financeira do Estado, como qualquer culpa que a direita pudesse sentir anteriormente não existe agora.

Em 2016, a maioria dos eleitores de direita nasceu perto ou depois do 25 de Abril. A minha geração não tem qualquer complexo de inferioridade por ser de direita. Da minha parte afirmo e repito as vezes que forem precisas: não peço desculpa por ser de direita, por acreditar no mercado livre, por considerar que o intervencionismo e dirigismo económico do Estado é nocivo para as pessoas e que a defesa das liberdades individuais passa pelo fortalecimento dos laços que esses mesmos indivíduos vão estabelecendo uns com os outros, seja através da família ou das relações profissionais, de amizade, associativas e até mesmo de vizinhança. Não me constrange defender que a luta pela liberdade passa por um maior controlo e fiscalização do exercício do poder público.

Essencialmente, não tenho de pedir autorização a cúmplices de regimes comunistas, nem a quem já levou o Estado à bancarrota e se prepara para repetir a façanha, para dizer ou escrever o que penso. Na verdade, nunca fiz o que Marcelo faz em 2016. Porque das duas, uma: ou Marcelo tem medo de dizer o que pensa ou não pensa nada. Não tem programa. Qualquer uma das possibilidades é impensável nos dias que correm; inadmissível para um eleitorado que os acontecimentos dos últimos anos deveria ter tornado exigente.

Marcelo até pode ganhar à primeira volta. O problema vem depois. Embaraçado na teia que ele próprio armou, Marcelo ver-se-á preso pelo que não disse, porque nada se espera dele que não seja silêncio. A estratégia pode ser boa para ganhar a presidência, mas é má para exercê-la. Principalmente, quando, e ao contrário do que por aí se diz, o próximo Presidente vier a ter um importante papel nos equilíbrios políticos que se vão criar daqui por diante.

Hoje na Edição das 12 do ETV

Como habitualmente à terça-feira estarei presente, hoje pelas 12.10, no Económico TV. Os temas desta semana serão as subvenções dos políticos e a desconfiança dos investidores em relação a Portugal.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’ de hoje.

A cumplicidade que nos inqueta

Em Outubro do ano passado, quatro proprietários de uma editora e livraria em Hong Kong desapareceram. O alarme foi lançado pelo dono que restava, um senhor chamado Paul Lee. Restava, porque também ele desapareceu no início deste ano. O caso é estranho, mas há luzes que o explicam.

É que a editora, Mighty Current, de que Paul Lee e os restantes desaparecidos são proprietários tem vendido livros sobre as atividades menos legais dos principais dirigentes chineses. O lançamento de uma obra sobre a vida privada do presidente Xi Jinping terá mesmo sido a gota de água que as autoridades comunistas, que como sabemos não toleram a corrupção, não puderam deixar passar.

Dias depois do desaparecimento de Paul Lee, a sua mulher recebeu uma carta, aparentemente escrita pelo próprio, na qual assumia ter saído livremente de Hong Kong para colaborar com as autoridades chinesas em assuntos urgentes. Terminava dizendo que tudo estava bem com ele ao mesmo tempo que pedia que continuassem a gerir bem a editora e a loja.

A ironia é deliciosa, não fosse tudo verdadeiro e aterrador. Mas esta história tem algo que nos toca a nós, portugueses. É que em 2013, Jerónimo de Sousa foi com o PCP numa visita oficial à China, no seguimento da qual, e de acordo com entrevista do líder do PCP ao jornal “Avante!”, as autoridades chinesas “reafirmaram-nos a determinação do PCC em persistir com firmeza no caminho da construção do socialismo”. Ora, se o socialismo é aterrador, o silêncio perante estas cumplicidades é, no mínimo, inquietante.

Keeping up with Marcelo

candidatos Mais por obrigação do que por vontade, assisti a quase todos os debates entre os vários candidatos presidenciais, e a todos aqueles em que participou Marcelo Rebelo de Sousa. Talvez por se achar vários furos acima de todos os seus opositores (e talvez tendo razão), Marcelo disse e repetiu que estaria disponível para todos os debates que quisessem fazer, e pelo menos tanto quanto se sabe, assim foi. De Paulo Morais a Maria de Belém, todos tiveram o seu frente-a-frente com “o Professor”. Mas de todos, o mais interessante (porque mais revelador) foi logo o primeiro, em que Marcelo se sentou à mesma mesa com três candidatos marginais e praticamente desconhecidos: Cândido Ferreira, um médico militante do PS, o palrador motivacional Jorge Sequeira, e Vitorino “Tino de Rans” Silva, que só não é desconhecido porque se tornou famoso como “comic relief” de um Congresso do PS há uns anos.

Cândido Ferreira abriu as festividades com a leitura monocórdica de um discurso escrito, declarando que iria abandonar imediatamente o debate por não estar a ser posto em plano de igualdade com outros candidatos mais relevantes. Seguiu-se Jorge Sequeira, que “acompanhou” as preocupações do candidato leiriense, mas “sem a veemência” do seu predecessor – ou seja, sem abdicar dos seus trinta minutos de fama. O que depois teve lugar foi um autêntico lovefest entre Marcelo e “Tino”: sentados lado a lado, não pararam de tocar no braço um do outro de cada vez que um deles intervinha – sempre com o outro a interjeitar uma qualquer graçola ou elogio -, transformando a discussão numa amigável conversa do tipo que poderiam ter duas pessoas acabadas de se conhecer fechadas numa casa repleta de câmaras para entretenimento dos (cada vez menos)telespectadores com paciência para assistir à coisa.

Assim, este debate acabou por ser um microcosmos da própria “corrida para Belém”: um longo tempo de antena de Marcelo em que até os seus opositores participam, em que nenhuma ideia é discutida mas a sua personalidade é exposta para todos os eleitores verem e admirarem – “uma pessoa normal”, como “Tino” lhe chamou – tão confortável na companhia de Primeiros-Ministros e dignitários internacionais como ao lado de um calceteiro, a compararem alturas e tamanho do pé (felizmente, não abordaram as dimensões de outras partes do corpo), alguém que todos conhecem e com quem estão à vontade. Mas talvez esta familiaridade, de longe a principal força de Marcelo, seja também o seu principal problema.

Como já escrevi, Marcelo é uma espécie de irmã Kardashian ou de Castelo Branco, alguém que entra em nossa casa há anos e no entanto ninguém realmente o conhece.Nas noites de domingo, lá o víamos fazer o seu número, disparando isto ou aquilo sobre a actualidade, mas sempre fazendo de si próprio o centro de tudo. Não fazia comentário político; protagonizava um ‘reality show’ sobre um aspirante a candidato presidencial, que demorou 15 anos a ter o seu desfecho. E agora que parte para uma nova (e mais complicada) vida, não temos ideia do que possa vir a fazer dela. O político que outrora foi, até teve méritos, e talvez – talvez – pudesse ser um bom Presidente. Mas só conhecemos “O Professor” dos domingos à noite, e esse é apenas uma personagem.

Se há crítica que os adversários e críticos de Marcelo têm feito nestes últimos tempos é a de que ele já disse tudo e o seu contrário. Não é verdade: se exceptuarmos os três anos em que foi líder do PSD, em que foi contra a regionalização, e defendeu apolíticas como privatização da CGD ou da RTP, Marcelo anda há mais de quatro décadas a não dizer nada. Nos seus comentários, por entre achegas sobre futebol ou sobre se “a pequena Maddie” será ou não encontrada (Marcelo, “um optimista”, acredita que sim), “o professor” reproduzia declarações de outros que no fundo eram meras opiniões como sendo um facto (veja-se por exemplo, a forma como pegou nas declarações do Governador do Banco de Portugal acerca da saúde do sistema financeiro, aceitando-as acriticamente e agora as vê coladas a si como se tivesse ele próprio analisado a questão), e os seus comentários não passavam de uma análise da “eficácia” com que os “agentes políticos” conseguiam “passar” a sua “agenda”, independentemente dos méritos qualitativos das políticas propriamente ditas: recorde-se como elogiou rasgadamente Nuno Morais Sarmento (outro grande exemplo de como em Portugal o sucesso de alguém é inversamente proporcional à vergonha com que se foi abençoado) pela forma como este foi capaz de propor a privatização de um canal da RTP e depois acabar por criar um outro que não existia até então (a actual RTP3, que o foi sempre mesmo quando o nome era outro) – ou seja, não pela política que propôs, mas pela habilidade com que se safou. O problema do “Professor” não é o de ter muitas opiniões contraditórias, é o de as opiniões que se lhe conhecem ao longo da maior parte dos anos de vida pública que leva serem sobre tudo menos aquilo que interessa. Resta-nos esperar que os 5 ou 10 anos que passará em Belém se assemelhem mais aos três em que foi líder do PSD do que aos quarenta em que foi comentador.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

“The Oldie” e a crise na imprensa

“The Oldie” é uma revista mensal inglesa que se considera a mais original do país. A pretensão não é para menos, não fosse dirigida ao público mais velho, o que explica o seu nome. A revista, fundada em 1992, tem uma circulação mensal de cerca de 45 mil exemplares, próxima do “Guardian Weekly” e da “Spectator” e maior que a da centrista e aborrecida “Prospect”

Lembrei-me da “The Oldie” devido à crise na imprensa que marcou o ano de 2015 e vai estar presente todos os dias deste novo ano. É que “The Oldie”, além do público-alvo que é a terceira idade, consegue ainda vender a leitores com idades a partir dos 20, 30 anos. Como? Simplesmente porque não tem medo de ser original. Está bem escrita; escrita com cuidado, mas sem que os artigos sejam excessivamente longos, até porque a boa imprensa escrita é concisa o suficiente para informar sem que a sua leitura se torne penosa.

Tem artigos sobre política, economia, cinema, exposições, restaurantes e viagens. Tem ainda colunistas experientes que nos contam histórias por eles vividas, fazendo-o da forma mais maravilhosa que podemos imaginar, tornando-nos leitores ávidos de algo que, no fim de contas, apenas tem de extraordinário o estar divinamente bem escrito.

A lição que se tira da “The Oldie” é que o público, inundado de informação diária debitada online, precisa de tempo para ler. Para ter consigo algo que o ajude a assentar as ideias. Até porque a imprensa escrita não é apenas informação. É, antes de mais, a melhor forma de fazer pensar quem a lê.

A nacionalização dos interesses

O meu artigo de hoje no Diário Económico é uma resposta ao de João Galamba anteontem no Expresso sobre o Novo Banco.

A nacionalização dos interesses

Num artigo publicado esta semana no site do Jornal Expresso, João Galamba defende a nacionalização do Novo Banco. Entendendo que a socialização dos custos dos bancos nunca pode ser eliminada, Galamba conclui que a privatização dos ganhos não pode ser um dogma.

Para o deputado do PS, um banco público apresenta vantagens perante o privado porque naquele tanto as perdas como os ganhos são públicos. Ora, vamos lá então ver se vale a pena ser accionista forçado de um banco público: a Caixa Geral de Depósitos recebeu do Estado 900 milhões de euros que ainda não devolveu. Ao que se diz, precisa de mais 400 milhões. Em 2014, teve um prejuízo de 348 milhões de euros; em 2013, de 578 milhões; em 2012, de 395 milhões; em 2011, de 411 milhões. Pouca coisa quando o banco é público.

Mas a história não se fica por aqui: em 2010, quando a CGD também cometia os erros dos bancos privados, o banco público teve um lucro de 250 milhões. Em 2009 registou um lucro de 469 milhões, que se traduziu numa quebra de 46% relativamente a 2008. Ou seja, a CGD, o banco público – tal como os banco privados -, teve lucros na época de ouro, quando o dinheiro era barato e corria a rodos e a fiscalização fechava os olhos. No que é que o comportamento da CGD foi melhor que o dos bancos privados?

Galamba resolve este pequeno grande problema com uma frase: “No caso de bancos públicos, como a Caixa Geral de Depósitos, a socialização das perdas foi precedida por uma socialização dos ganhos, pelo que o problema não se coloca.” Já ouvi esta frase vinda de outro socialista pelo que deduzo que seja uma posição concertada dentro do Partido Socialista. É claro que não interessa a João Galamba que, na CGD, a socialização dos ganhos e dos custos seja forçada.

Não interessa que esses ganhos, que se dizem públicos, sejam utilizados pelo poder político, por pessoas como João Galamba e demais membros da direcção do PS para satisfazer interesses do Estado, que nem sempre são os das pessoas, dos accionistas forçados da CGD. Não interessa porque um banco público serve para muito mais que isso. Serve, e é aqui que está o ponto, como instrumento de manipulação do mercado, de intervenção nas empresas – como sucedeu na PT, na ZON, na Cimpor, na Galp e no BCP. Um banco público serve, entre muitos outros instrumentos utilizados pelo poder político, para encaminhar o país pela via de um desenvolvimento baseado na contracção de dívida. No que à CGD diz respeito, o que está em causa, além da socialização dos ganhos ou das perdas, são os interesses.

De asneira em asneira

somos o que escolhemos ser Quando ainda era Primeiro-Ministro, o dr. Passos Coelho achou por bem (mal) resgatar o Banif, usando o dinheiro extraído aos portugueses através de impostos cada vez mais altos para capitalizar um banco à beira da falência, em vez de, ao mesmo tempo que garantia os depósitos inferiores a 100 mil euros, deixar uma empresa cujo negócio tinha corrido mal ter o destino correspondente. Temendo um “contágio” que pusesse em causa a “estabilidade do sistema financeiro”, Passos Coelho não teve em conta que, ao impedir a falência do bano, estaria a deixar no sistema uma entidade que não se adaptara ao seu “meio ambiente”, e que nenhuma economia fica em bom estado quando isso acontece: se bancos que sejam ao mesmo tempo “too big to fail” e “too bad to succeed” são salvos, todo o sistema ficará parecido com um conhecido filme de Steven Spielberg.

Hoje, depois do “Governo da iniciativa do PS” ter anunciado uma nova resolução para crise do banco, de forma a permitir a sua venda ao Santander mas enterrando ainda mais verbas públicas no buraco do Banif, o dr. Passos Coelho veio manifestar a sua concordância (mais uma vez, erradamente) com a solução encontrada por António Costa. Depois de ter feito asneira como Primeiro-Ministro, Passos Coelho achou que devia vir a público louvar a asneira do seu sucessor e opositor, insistindo no erro que cometera e que assim será perpetuado pelo novo poder.

Só que, entretanto, o PSD, pela boca do seu líder parlamentar Luís Montenegro, veio insinuar a hipótese de votar contra o Orçamento Rectificativo que permitiria esta solução, dizendo que a responsabilidade da aprovação do documento cabe aos partidos que apoiam o Governo (sendo que, entretanto, já o PCP anunciara o seu voto contra, e o BE impusera uma série de condições para dar a sua aprovação). Se se confirmar esta opção por parte do PSD, será difícil ao partido e ao seu líder fazerem pior figura: principalmente se se confirmar a veracidade das acusações, feitas pelo PS, de que Passos e Maria Luís Albuquerque deixaram agravar (e esconderam) a saúde do Banif por razões partidárias, será impossível não olhar para a sucessão de decisões dos responsáveis laranjas nesta questão sem achar que Passos e companhia criaram um problema, concordam com uma solução má para ele, mas hipocritamente votam contra ela na esperança de que o Governo caia e o poder regresse ao seu colo à primeira oportunidade de se realizarem eleições. De asneira em asneira, talvez o dr. Passos Coelho consiga recuperar o cargo que o “golpe” socialista lhe retirou. Mas, de caminho, terá deixado bem claro que nada o distingue a si nem o seu partido de Costa e do PS, quer no estatismo clientelista que caracteriza as suas políticas, quer na falta de vergonha na cara com que as conduzem.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’ de ontem.

Estado de corrupção

O milionário chinês e presidente do grupo do Fosun, Guo Guangchang, foi detido na semana passada. Os motivos, ao princípio desconhecidos, estarão relacionados com a corrupção que as autoridades chinesas, perante os maus resultados da economia, decidiram combater.

O problema é que na China comunista, porque o mercado está fortemente dominado pelo Estado, os empresários têm de fazer negócios com gestores públicos que, com um peso político suficiente, assegurem as licenças emitidas pelas autoridades e até mesmo o necessário financiamento dos bancos, nos quais o Estado também tem um forte peso.

Numa economia totalmente desvirtuada como é a chinesa é quase impossível fazer negócios sem se ser corrupto. O sistema é tolerado enquanto funciona, ou seja, enquanto os bolsos de todos se vão enchendo e a economia apresenta resultados que não obrigam a que se procure um bode expiatório.

O que acontece quando os vícios que desacreditam todo um sistema vêm à tona e a economia começa a dar de si. Nesse momento, os governos assustam-se e, para sobreviver, trocam os resultados económicos pelos políticos: combate à corrupção, detenções, ou que seja mais apropriado para restabelecer aquilo a que eufemisticamente se chama de confiança. A forte ligação do Estado ao grandes grupos económicos é a forma que o socialismo tem encontrado para sobreviver, como se vê bem na China, mas também, embora noutra escala, em Portugal com o BES e outros casos similares.

O país das oportunidades perdidas

O meu artigo hoje no Diário Económico.

O país das oportunidades perdidas

De repente parece que tudo corre bem. O PS voltou ao Governo e já há dinheiro para, na função pública, repor salários, descongelar carreiras e reduzir o horário de trabalho. A esquerda encontrou ainda uma folga para eliminar a sobretaxa de IRS. Mas não nos preocupemos em demasia. Na verdade, e contrariamente ao que sucedeu com o anterior governo, que malvadamente impôs a austeridade, a despesa pública está controlada porque o PS, apesar de ter levado o Estado à bancarrota, anda de boca cheia com a palavra rigor.

Não é segredo nenhum que a estratégia do PS assenta na expectativa do BCE continuar a comprar dívida pública, mantendo baixo os juros que são o preço dessa dívida. Também não é preciso ser um entendido para perceber que este é um bom momento para continuar a baixar a dívida do Estado. E fazê-lo, não apenas esperando que o PIB cresça, porque quando diminuir é a desgraça, mas baixando efectivamente os gastos para que o Estado possa reduzir a carga fiscal e cumprir a suas verdadeiras funções sociais.

Infelizmente, não é isto que vai acontecer. Tal como nos governos de Guterres e de Sócrates, a oportunidade será perdida. O PS está no poder para agradar a sua e a base eleitoral do BE e do PCP que querem aumentos de salários. É por isso que Centeno cedeu e cortou no investimento público que o seu programa macro-económico previa, para pagar a reposição dos salários e as outras benesses referidas em cima.

A esquerda, sabemos pelos jornais e televisões, anda eufórica. Nunca pensou ter tanta sorte: governar precisamente quando o BCE mudou de estratégia. Só que, à semelhança de Guterres e de Sócrates, também Costa se prepara para usar esta folga artificial, desta vez vinda do BCE e do baixo preço do petróleo, em prol dos interesses corporativos que dominam o país. Nem interessa que já reste pouco; tão pouco que o investimento público teve de ficar na gaveta. Isso são pormenores que não devem estragar a euforia.

Uma euforia de pouquíssima duração; de momento, para ser mais preciso. Porque as medidas do BCE não durarão para sempre. Estas acabarão quando a inflação (que vai comer o aumento dos salários) e o investimento (que este Governo cancelou para pagar os ditos salários) voltarem na Europa para os níveis pretendidos. Nessa altura, pouco interessará que tenhamos perdido a oportunidade. Pouco importará que o país esteja preso por interesses que cativam o Governo. Pouco interessará que não tenhamos a aprendido a lição. Nessa altura, este Governo já não será governo e a euforia virará indignação. Como já aconteceu: num ciclo que só terá fim quando as pessoas se deixarem iludir pelos ilusionistas profissionais que andam por aí.

Controlo público da banca?

Sobre o processo de venda da posição accionista do Estado no BANIF o secretário-geral do Partido Comunista Português, Jerónimo de Sousa, disse hoje o seguinte (meu destaque):

“independentemente da solução que possa ser encontrada”, [a situação do Banif] “demonstra a necessidade do controlo público da banca para evitar que se assista mais uma vez a uma sangria de dinheiros públicos para acudir aos desmandos e aos erros da gestão dos banqueiros”.

Gestores públicos não cometem erros? O risco para os contribuintes seria menor se os bancos fossem públicos?

"Vintage Bank Vault" - Brook Ward @flickr.com (creative commons)

“Vintage Bank Vault” – Brook Ward @flickr.com (creative commons)

A única forma de eliminar o risco para os depositantes é acabar com a fraude da reserva fraccionária. A banca, privada ou pública, está obrigado por lei a reter, nos seus cofres, apenas uma ínfima fracção do que neles foi depositado. Ou seja, os depósitos bancários não o são realmente. A melhor caracterização é que são “empréstimos aos bancos de fácil liquidez” (pelo menos para os primeiros a levantar dinheiro).

É maioritariamente por meio da aplicação a médio/longo prazo daqueles “depósitos” de curto prazo que o sector bancário obtém lucros (exemplo: crédito imobiliário ou empréstimos ao Estado). Qualquer corrida aos bancos evidencia, por isso, a escassez de fundos disponíveis a cada momento. E, para piorar a situação, a liquidez dos bancos pode ser ainda mais deteriorada quando gestores bancários, públicos e privados, cometem graves erros de avaliação em operações financeiras (bolha do mercado imobiliário e rating das dívidas públicas).

Jerónimo de Sousa quer fazer passar a mensagem que o Estado consegue melhor zelar pelas nossas poupanças. A história da alta inflação dos anos 80 do século passado em Portugal, da situação económica dos países comunistas além da Cortina de Ferro e da actual crise na Venezuela mostram que o secretário-geral do PCP não podia estar mais errado.

E agora Catarina? (ou sobre o oportunismo)

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O eurodeputado socialista Francisco Assis criticou esta sexta-feira o Governo português e a presidência da Assembleia da República por não terem recebido o dissidente político cubano Guillermo Fariñas, acusando-os de cedência a pressões diplomáticas de Cuba.