Os oportunistas

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Os oportunistas

Antes que continue a leitura deste artigo gostaria de informar o leitor das minhas reservas quanto ao actual rumo da União Europeia (UE). A minha análise assenta numa crítica à transformação do projecto europeu num monstro burocrático e planificador em vez de um mercado único, sem fronteiras e liberalizado, que permita aos cidadãos dos Estados-Membros trocarem livremente os seus produtos e serviços. A UE, procurando regulamentar a todo o custo os negócios e sendo dependente de uma estrutura política centralizada, tornou-se inimiga do comércio e colocou entraves ao crescimento económico, dando azo a um elevado nível de desemprego que atinge o continente.

Esta é, em linhas gerais, a crítica que também os britânicos dirigem a Bruxelas e que forçou David Cameron a encetar negociações para reformar União e a referendar a continuação do Reino Unido naquela estrutura. No entanto, nos últimos anos foi surgindo outro tipo de crítica às instituições europeias acusando-as de falta de solidariedade. Durante anos, Portugal aceitou sem pestanejar as directivas vindas de Bruxelas. Se analisarmos as vantagens de outrora e os defeitos de hoje, mais parece que a Europa solidária se reduzia ao envio de dinheiro que ajudava a fechar os olhos. É preciso não esquecer que os fundos vinham de Bruxelas para que a classe política os distribuísse, concedendo a esta um espaço de manobra ímpar. Sabíamos à época, como sabemos ainda melhor agora, que não da melhor forma: a par dos interesses que se tinham de preencher, o próprio conceito de estímulo económico subjacente aos subsídios europeus não ajudou.

Quando de Bruxelas passaram a vir medidas impopulares, acompanhadas de uma ‘troika’ que tutelava a aplicação das mesmas e o pagamento das contas, parte do país passou a olhar a Europa de lado. É muito interessante este ponto porque revela o que se tem entendido por solidariedade europeia. Houve um momento, durante o processo de integração, em que o fito da comunidade deixou de ser o da criação de um espaço comunitário, de entendimento pacífico entre os povos, para ser um meio de mero envio e recepção de fundos em troca de soberania nacional.

Pela parte que me toca gostaria que Portugal e a Europa fossem mais que a simplificação oportunista com que alguns pretendem governar. O centralismo político converteu a outrora comunidade num lugar asfixiante porque a boa vontade individual dos homens, que compram e vendem, foi trocada por um conceito de solidariedade que, dizendo-se colectiva, não existe. Olhar para o projecto europeu de uma forma séria e ambiciosa não é fácil. Na verdade, haverá algo mais ambicioso que a construção de um espaço de trocas comerciais, de liberdade, e de reduzida intromissão política?

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

A doença europeia

Depois da sua vitória eleitoral, David Cameron pretende cumprir o prometido e permitir que os britânicos referendem a continuidade do Reino Unido na União Europeia. Os alarmes soaram em Bruxelas, já a braços com a possível saída da Grécia da zona euro, ao mesmo tempo que se deseja que o referendo britânico, com uma vitória do “não”, ponha um ponto final na indecisão e insatisfação britânica.

Numa entrevista esta semana ao “Guardian”, Graeme MacDonald, chefe-executivo da JCB, uma multinacional britânica que é a terceira maior fabricante mundial de equipamentos para construção, defendeu a saída do Reino Unido da União Europeia, se Cameron falhar a negociação para reduzir a burocracia europeia que prejudica as empresas britânicas.

Admitindo ser, por vezes, mais fácil vender para a América do Norte do que dentro da própria Europa, MacDonald bate num ponto essencial: a União Europeia foi criada para derrubar barreiras, não para as erguer. E o que se passa é que o projecto europeu, tendo sido mais político que económico, tem ido ao desencontro do seu objectivo inicial, que é a criação de um mercado comum, logo aberto.

Claro que os riscos são imensos. Mas estes não advêm apenas de uma possível saída do Reino Unido, mas da dificuldade que é reformar a União. A teia burocrática é de tal forma gigantesca e contorcida que uma diferença natural entre os povos facilmente se torna uma disparidade crónica entre os Estados.

Um oportunista

Márinho No site Coffee House, da revista britânica The Spectator, um artigo escrito por Molly Guinness dedica-se a demonstrar que a “política da inveja” é algo que desagrada ao eleitorado e garante a derrota nas urnas a quem a promover. Guinness olha para a história britânica e argumenta que, embora os “tories” tenham de ter cuidado para não serem vistos como um partido cruel e desinteressado do bem-estar das pessoas comuns, sempre que um partido (particularmente o Labour) achou por bem encavalitar-se numa retórica promotora do ressentimento contra “os ricos” e que se esquecesse de que “a riqueza precisa de ser criada antes de ser distribuída”, essas mesmas pessoas comuns não depositariam a sua confiança nele. Embora sedutora, a ideia de Guinness não corresponde totalmente à verdade. Primeiro, porque apesar de nas várias ocasiões em que algo semelhante ocorreu não ter de facto havido gente a confiar no Labour em número suficiente para alçar o seu líder ao Nº10 da Downing Street, não deixa de ser também verdade que em todas essas ocasiões houve um número bastante grande de pessoas que confiou no Labour e nos seus candidatos a deputado nos respectivos círculos. E em segundo lugar, porque se a tal “política da inveja” talvez não seja suficiente para satisfazer as ambições de quem quer chegar a Primeiro-Ministro ou Presidente de um país minimamente desenvolvido e civilizado, é certamente o bastante para quem, num partido mais pequeno, almeja apenas um lugarzinho de deputado ou numa qualquer secretaria de Estado, e que para isso depende da promoção da sua pessoa através da comunicação social.

Vem isto a propósito da recente entrevista do dr. “Márinho e Pinto”, que terá dito ao Observador que o partido que fundou após explorar os pobres ingénuos que o aceitaram nas suas listas ao Parlamento Europeu estava a “estudar a possibilidade” de “instituir um salário máximo nacional”. Segundo nos garante o dr. “Márinho”, ele e os seus correligionários ficam muito chocados com “as desigualdades em Portugal” (“eliminar” as ditas, assegura, é “um dos objectivos fundamentais de um partido republicano”), e “o que é escandaloso”, explica o advogado coimbrão, “nem é tanto os baixos salários que se praticam”, mas, “em alguns casos”, os “altos salários com que as elites se remuneram a si próprias.”

Convém começar por recordar que o dr. “Márinho” se trata do homem que, quando foi eleito Bastonário da associação corporativa que tem como função controlar a entrada de novos profissionais da advocacia no mercado (e dessa forma tornar mais proveitosos os rendimentos dos que nele já operam) conhecida como “Ordem dos Advogados”, tratou logo de se atribuir a si próprio um belo salário, algo que os seus antecessores (alguns deles gente pouco recomendável) tinham dispensado. Ou seja, quando “Márinho e Pinto” fala dos “altos salários com que as elites se remuneram a si próprias”, sabe bem do que fala, e com conhecimento de causa.

Mas isso é apenas um detalhe. Aqui no Insurgente, o Luís Tribuna criticou “Márinho” por este não estar aparentemente preocupado com a pobreza que afecta boa parte dos portugueses, e em procurar que as condições de vida de quem se encontra nessa infeliz situação possam melhorar, mas em (como escreveu o Luís) “nivelar por baixo”, criando esse tal “salário máximo” que nada faria para melhorar a vida de quem recebe pouco, mas que garantiria que quem é rico o seria um pouco menos. Percebo a indignação do Luís, mas não me parece que se deva criticar o actual eurodeputado por este parecer pensar que o grande problema de Portugal é o facto de existirem ricos em vez de haver gente muito pobre. Porque isso seria atribuir a “Márinho e Pinto” uma ideia e um pensamento coerentes e inteligíveis acerca da pobreza e da “justiça distributiva”, coisa que ele manifestamente não tem.

As declarações do mentor do Partido Democrático Republicano (uma alusão nada abonatória ao agrupamento mais ou menos terrorista de um senhor que ficou conhecido como “racha sindicalistas” e que foi governando Portugal durante uns anos sem grande benefício que não o de alguns seus amigos) e a brilhante ideia do “salário máximo nacional” não são fruto de uma concepção ideológica estatista que queira controlar a vida de todos ao mais ínfimo pormenor. Poderia resultar numa acção política com essas características se chegasse ao poder, mas não parte de uma concepção pensada e coerente. Nasce, isso sim, da compreensão por parte do dr. “Márinho” de que há uma parte da sociedade portuguesa a quem a tal “política da inveja” aparece como sedutora, e da sua ambição pessoal de garantir para si um lugarzinho entre as tais “elites” que diz desprezar, mas às quais nunca perde uma oportunidade de se juntar, especialmente se com isso vem uma oportunidade de “se remunerar a si próprio”. Tratar “Márinho e Pinto” como um perigoso ideólogo radical é atribuir-lhe uma credibilidade e dignidade que ele não merece, pois pura e simplesmente não passa de um oportunista espertalhão que sabe bem a quem se dirigir e o que dizer para se promover. Claro que isso não o torna menos perigoso. Apenas (ainda) mais indigno.

Vice-presidente do PSD investigado por tráfico de influências

Marco António Costa está a ser investigado na sequência da denúncia de alegados crimes de tráfico de influências durante os mandatos na Câmara de Gaia. Não se trata de uma acusação formada e o próprio já retaliou com um processo de difamação.

Mas todos os gestores públicos têm de estar cientes que existem, a priori, indícios de tráfico de influência cada vez que tomam uma decisão de gasto do dinheiro dos contribuintes, quer seja em ajuste directo ou concurso público. As escolhas que fazem podem facilmente ser enviesadas por pressões/troca de favores. Veja-se o exemplo de alguns concursos públicos de contratação de pessoal em que os requisitos estão claramente afinados a perfil de candidato muito muito (muito!) restrito.

Acções prejudiciais aos “donos” do dinheiro pelas pessoas que o gerem não é um fenómeno desconhecido. Em Economia é habitualmente designado por Teoria da Agência. A distante separação entre contribuinte e gestor público é, aliás, uma importante razão para, como o Hélder explicou, a gestão pública ser menos eficiente que a privada (a principal justificação é a falta do incentivo lucro).

Mecanismos burocráticos como os concursos públicos são uma tentativa para eliminar a arbitrariedade das decisões do gestor público. Dão uma aparente imagem de transparência mas o processo pode, com maior ou menor dificuldade, ser manipulado.

Sendo assim, Marco António Costa, como gestor público, tem de perceber que o sentimento de suspeita começou no dia que aceitou o cargo. Não estou a afirmar que é culpado. O apuramento de responsabilidades é competência das autoridades. Só que, não tendo eu a exigência de imparcialidade dos agentes judiciais, para mim ele é culpado até prova em contrário. Tal como qualquer outro dirigente estatal.

Selfies políticas

Já notaram que selfies em frente ao espelho são uma deturpação da realidade? Se é alguém que conhecemos bem, a estranheza é – mesmo que subconsciente – quase imediata. Noutras, são pequenos indícios que nos dizem que algo não está correcto: um sinal ou tatuagem do lado errado, penteado invertido, relógio no pulso contrário, palavras numa t-shirt ou letreiro ilegíveis, etc.

O erro é que, perante o espelho, não estamos a fazer um auto-retrato (selfie) mas, sim, a fotografar o reflexo de uma imagem. Trata-se da percepção de nós mesmos na superfície reflectora e não como outros (ou o espelho!) nos vêem. Esta representação invertida pode facilmente escapar ao autor, dado o hábito de nos vermos todos os dias ao espelho. Esta é a razão porque quando alguém no smartphone quer “tirar uma selfie” usando a câmara frontal, os fabricantes fizeram com que a imagem no ecrã simule um espelho. Apesar de, depois, a fotografia sair correcta (ex: as pessoas que estão à nossa direita no ecrã aparecem, na versão fotográfica final, à esquerda). É assim que a nossa mente se acostumou a ver o “eu”.

partidos_selfie_espelhoNa política regista-se semelhantes características psicológicas. Por vezes os partidos estão tão habituados a “ver-se ao espelho” que nem percebem que a imagem que temos deles não é exactamente a que pensam estar a transmitir. E, na maioria dos casos, até críticas racionais à “fotografia” que apresentam, tem como resposta primária a descrença e/ou argumentação ilógica. O diálogo torna-se, assim, impossível.

Para ultrapassar este impasse primeiro temos todos de admitir que podemos cair num “túnel de visão” política, tornando-nos cegos ao que diferentes opiniões políticas apresentam. Pois… mais fácil de dizer que fazer.

Ora, a poucos meses das eleições legislativas, para que se consiga obter resultados promissores da discussão política que vamos ter, é necessário que o confronto seja centrado nos factos e na argumentação lógica de ideias e não em estados de alma ou apelo a emoções. Gostava que assim fosse. Mas sei que o faz ganhar eleições é mais o coração que a razão.

 

PS: Eu próprio tenho um “espelho” liberal que recusa, a priori, todo tipo de proposta socialista (i.e. em maior ou menor grau, repudio TODOS os partidos políticos). Para contrariar o meu claro enviesamento desafiei-me a inicialmente aceitar a benéfica intervenção do Estado. Traduzindo, vou colocar-me nos sapatos de um comunista! Só depois usarei o raciocínio lógico para me “descalçar” ;)

No Fio da Navalha

O meu artigo de ontem no jornal ‘i’.

Perdoar não é esquecer

No passado domingo, Raúl Castro foi recebido pelo Papa Francisco. O encontro é de saudar, pois o Papa preside a uma igreja que tem como uma das suas principais mensagens a não exclusão do próximo. Se um Papa deve ter missão política, deve ser precisamente essa: a de estabelecer pontes, entendimentos.

Mas há algo no encontro com o Papa que me fez impressão e que foi a imagem de homem bom e complacente que Raúl Castro quis passar. E, como todos os ditadores e homens brutais, fê-lo com um certo atrevimento.

Primeiro quando, a seguir ao encontro, Castro disse que, se o Papa continuasse assim, ele voltaria à igreja e a rezar. Di–lo como se fosse o Papa que tivesse de mudar; di-lo como se fosse o Papa a ter de o aceitar. Di-lo não percebendo, ou fazendo de conta que não percebe, que o Papa, mais que pretender que ele volte a rezar, quer é que ele deixe o povo cubano ser livre.

O outro atrevimento raia a hipocrisia dos homens maus. Tratou-se da entrega ao Papa de um quadro de um artista cubano com uma grande cruz, feita com vários barcos, e uma criança a rezar diante dela. De acordo com o artista, que também esteve presente no encontro, a intenção foi aludir à tragédia dos milhares que sofrem no Mediterrâneo para chegar à Europa. Uma oferta destas, vinda do líder de um regime que forçou milhares a atravessar um oceano pejado de tubarões para chegar à América, é, no mínimo, ofensiva. Podemos perdoar, mas o sofrimento das vítimas não nos deixa esquecer.

Por tanto olharem para as estrelas, passam a vida a cair no chão

Ao longo dos próximos meses, comentadores e colunistas portugueses que até há uma ou duas semanas nunca tinham ouvido falar de Chuka Umunna, ao ponto de ainda terem de verificar a ortografia do seu nome no Google antes de o escrever, vão incensá-lo como o futuro de uma “esquerda” “de futuro, “capaz de ganhar eleições”. Mostrarão assim como “ganhar eleições” é para eles (como para os seus congéneres da “direita”, diga-se passagem) a única virtude política, e como facilmente se deixam seduzir (novamente como os aderentes ao outro lado) por toda e qualquer nova “estrela” só por esta lhes ter sido apresentada como tal por um qualquer jornal “estrangeiro”.

Os adivinhos

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Os adivinhos

Em 1972, René Goscinny e Albert Uderzo publicaram o álbum de Astérix, ‘O Adivinho’. A história começa quando, durante uma tempestade que se abate sobre a aldeia dos gauleses, chega um homem, um adivinho, que ganha a confiança dos aldeões com os seus agradáveis presságios. Quando lemos a história sorrimos perante a inocência da maioria e compreendemos as suspeitas de Astérix.

Ora, o que sucede é que nem sempre estamos a ler os acontecimentos de cima. Pelo contrário, estamos tão embrenhados nos problemas, tão necessitados de soluções, que nos tornamos aldeões nas mãos de adivinhos. Vem isto a propósito do programa económico do PS e do pedido do PSD para que as medidas socialistas sejam analisadas por entidades independentes dos partidos. Embora seja interessante imaginar uma dúzia de técnicos debruçados sobre projecções de números e de estatísticas sobre as quais delinearão, ao milímetro, medidas político-económicas, fico assustado quando vejo programas de governo feitos ao detalhe. Na verdade, senti temor perante o plano Centeno que prevê decisões, para quatro anos, a partir de meras adivinhações.

Este tem sido um dos vícios da democracia: exige-se tanta transparência que se espera que os políticos apresentem programas tão detalhados que se tornam impossíveis de cumprir. Uma impossibilidade que leva a que os governos sejam depois acusados de ilegitimidade e de governarem contra o mandato do povo que votou em algo irrealizável.

O problema deriva da maioria parecer ter esquecido que não vive numa democracia directa, mas numa democracia representativa. A diferença não é de pormenor, mas essencial, pois que, nesta, os eleitores elegem quem os represente durante 4 anos, ou seja, em seu nome, legisle e governe. Só depois, e então sim, se sujeita ao escrutínio do povo. Claro que há limites. É para isso que servem o Parlamento, o Tribunal Constitucional, demais instituições e até os jornalistas.

Não é sério apresentar programas de governação que especifiquem pormenorizadamente decisões para quatro anos, porque estas dependem de circunstâncias totalmente fora do controle dos governos. Ora, esta exigência que os próprios políticos fomentam por forma a apontar falhas no adversário, está a minar o debate democrático. Obriga a que se discutam medidas que não se tomarão em vez de se debaterem linhas mestras, gerais, mas essenciais, que determinarão o rumo de um governo e sobre o qual é possível conversar e cuja concretização, de um modo global, se espera conseguir.

A democracia é isto: a apresentação de ideias muitas delas totalmente opostas mas que, baseando-se em dados reais, se adaptam às circunstâncias que mudam e permitem um diálogo, uma base de entendimento necessário à manutenção dos governos durante os seus mandatos. É aqui que deixamos de discutir vírgulas e percentagens, para começarmos a falar de formas do Estado permitir, ou não impossibilitar, a melhoria de vida das pessoas.

No Fio da Navalha

A vitória incompleta

O meu artigo no ‘i’ de hoje.

Faz hoje 70 anos que a Alemanha nazi assinou a sua rendição, que se tornou efectiva no dia seguinte. Oito de Maio é considerado, no Ocidente, o Dia da Vitória, pois, para os soviéticos, essa data foi sendo celebrada, devido à diferença horária, a 9 de Maio.

No entanto, e apesar do grande alívio que representou a capitulação de Berlim, a Europa não se libertou, nessa altura, do jugo das ideologias totalitárias. Se, a oeste, os países europeus recuperaram ou estabeleceram as suas liberdades, não só a nível político e económico, mas também individual, de pensamento e do rumo a dar à sua vida, no leste, a verdade seria outra.

A divisão que se seguiria, o novo conflito a ser travado não significou apenas a condenação de milhões de pessoas a uma vida sem a liberdade mais básica, que é a de poder escolher onde viver, o que fazer, o que dizer e o que pensar. O direito de poder viver com o fruto do seu trabalho. O comunismo, como uma das ideologias mais sanguinárias da história, sobreviveu à II Guerra Mundial porque esta não foi travada para o derrotar.

O comunismo continuou, nos países do leste europeu e noutras partes do mundo, a despedaçar a vida de milhões de pessoas. Até entre aqueles que a este escaparam, muitos não evitaram os seus ditames, vendo-se intelectualmente envolvidos num raciocínio social e económico contra o qual, ainda hoje, longe que vão os tempos das ditaduras, tolhe o entendimento de tantos que, em nome dos mais desfavorecidos, defendem políticas que os prejudicam.

Uns sms são mais importantes que outros

Para o Expresso online interessa dar, aos visitantes, grande destaque ao facto do irrevogável ter-se demitido por sms em 2013 (que, por eufemismo, foi “formalizado” por carta). Sobre o sms-ataque de António Costa à liberdade do jornalista João Vieira Pereira… nada.

Um prémio à brutalidade

AT No pico da violência em Baltimore, o The Marshall Project entrevistou David Simon, o criador da extraordinária série The Wire sobre essa cidade americana, para saber a sua opinião acerca do que estaria por detrás do sucedido, e o estado das relações entre a polícia e a população locais. A dada altura da entrevista, Simon, um antigo jornalista do Baltimore Sun e autor do livro Homicide: A Year on the Killing Streets (sobre o ano que passou integrado na brigada de Homicídio da Polícia de Baltimore, e que daria origem a outra série bastante boa), argumenta que muito da relação conflituosa entre a polícia e a população se deve à forma como a primeira tende a agir de forma abusiva nas detenções, levando para “uma noite ou duas” na esquadra gente que noutros (e segundo ele, melhores) tempos seria deixada em paz, e que essa tendência se deve à cultura de incentivos promovida por quem manda na Polícia da cidade:

How do you reward cops? Two ways: promotion and cash. That’s what rewards a cop. If you want to pay overtime pay for having police fill the jails with loitering arrests or simple drug possession or failure to yield, if you want to spend your municipal treasure rewarding that, well the cop who’s going to court 7 or 8 days a month — and court is always overtime pay — you’re going to damn near double your salary every month. On the other hand, the guy who actually goes to his post and investigates who’s burglarizing the homes, at the end of the month maybe he’s made one arrest. It may be the right arrest and one that makes his post safer, but he’s going to court one day and he’s out in two hours. So you fail to reward the cop who actually does police work. But worse, it’s time to make new sergeants or lieutenants, and so you look at the computer and say: Who’s doing the most work? And they say, man, this guy had 80 arrests last month, and this other guy’s only got one. Who do you think gets made sergeant? And then who trains the next generation of cops in how not to do police work? I’ve just described for you the culture of the Baltimore police department amid the deluge of the drug war, where actual investigation goes unrewarded and where rounding up bodies for street dealing, drug possession, loitering such – the easiest and most self-evident arrests a cop can make – is nonetheless the path to enlightenment and promotion and some additional pay.

Vem isto a propósito da recente notícia de que o Estado atribui 5% do montante obtido pelo Fisco em “cobranças coercivas” a “um fundo que complementa salários dos funcionários” da Autoridade Tributária. Vivemos num país em que o Fisco se comporta de forma arbitrária e tirânica, agindo sem qualquer respeito pelos direitos dos cidadãos; em que a AT/ex-DGCI (ou a Segurança Social) gosta de enviar notificações sobre situações fiscais de incumprimento que não correspondem à realidade do contribuinte ameaçado, na esperança de que ou a incompreensão do que lhe está a ser exigido (o português dessas notificações é deliberadamente ilegível) ou o receio dos custos inerentes a um longo processo no tribunal o levem a pagar sem protestar; em que, na prática, a AT/ex-DGCI declara o cidadão culpado até prova em contrário, e espera que por ignorância ou medo, o coitado admita a culpa ou não tente sequer provar a inocência, e se limite a “pagar e calar”, de forma a que o Estado vá conseguindo amealhar uns tostões aqui e ali para alimentar o “monstro” em que se tornou; em que, como explicou Tiago Caiado Guerreiro numa entrevista que merece ser vista, se abriram o ano passado cerca de mais 16 500 processos por evasão fiscal do que no muito mais populoso território dos EUA, e em que “o Estado comete ilegalidades todos os dias”. Vivemos num país assim, e o Governo, que apoiantes e críticos gostam, em igual medida e com igual falta de razão, de classificar de “liberal”, gosta que vivamos num país em que as liberdades dos cidadãos são brutalmente violadas pelo Estado, pois nada faz, antes pelo contrário, para inverter os incentivos a esse comportamento.

Este “prémio” pago aos funcionários do Fisco premeia essa brutalidade e diz, de forma bem clara, que quem trabalha na Autoridade Tributária deve continuar a violar a lei e a aterrorizar (meço bem as palavras) os cidadãos, e que o devem fazer porque vão pessoalmente lucrar com essa conduta, pois quanto mais se obtiver em cobranças coercivas (levadas a cabo da forma sem critério em que costumam ter lugar), maior será o “complemento” recebido pelos funcionários do Fisco. Como os polícias de Baltimore são incentivados, não a investigar, mas a prender pessoas de forma mais ou menos arbitrária, também os funcionários da Autoridade Tributária são incentivados a cobrar o mais possível a todo e qualquer contribuinte, independentemente dos fundamentos – ou ausência deles – da cobrança em si. Em vez de um sistema fiscal eficaz, continuaremos a ter um sistema fiscal que cobra muito, mas de forma indiferenciada, independentemente das pessoas efectivamente deverem ou não, em parte porque o Estado, através do Governo dos partidos que momentaneamente o ocupam, premeia e incentiva a arbitrariedade e a violência. Que ninguém se espante quando os casos de agressões a trabalhadores do fisco começarem a crescer como cogumelos. Como se viu em Baltimore, e como qualquer pessoa que tenha visto The Wire percebe, a arbitrariedade da autoridade (policial ou tributária) não provoca nada de bom naqueles que a ela estão sujeitos.

Eleições, TAP & Grécia

Como é habitual à terça-feira, estive com o Marco Capitão Ferreira a debater os temas em cima da mesa, desta vez a data das eleições, a TAP e a Grécia.

Ricardo Costa ainda é director do Expresso?

Em título sim, continua a ser o principal responsável daquele semanário. Moralmente, penso que não. Isto ainda a propósito do surpreendente sms que António Costa enviou ao director-adjunto, João Vieira Pereira [JVP].

O irmão de António Costa afirmou na sua conta do Twitter que a resposta de JVP, no seu habitual artigo de opinião (suplemento Economia, página 3), “foi tudo decidido em equipa”. Portanto, decidiram que o sms-ataque foi ao autor e não ao jornalista. E isso não merecia grande destaque…

Julgo, porém, que o Ricardo Costa tenha lido o artigo de JVP antes de ser publicado (já agora, se não compraram o jornal, aconselho que procurem na snack-bar ou pastelaria local e leiam-no). Pequeno excerto (meus destaques):

” (…) assumi o ónus de revelar uma situação que considero um ataque inadmissível à minha liberdade profissional.

(…)

Enquanto jornalista, editor e diretor de jornais escrevi centenas de notícias e outras tantas crónicas. Nunca fui atacado ou me senti tão condicionado por alguém com responsabilidades políticas ou públicas. Nem à esquerda nem à direita.”

Não vejo aqui qualquer posição colectiva do Expresso (“nós”) mas sim uma resposta individual (“eu”). Na minha opinião, perante a leitura de tais palavras, Ricardo Costa teria a obrigação ética e moral de mudar imediatamente a linha editorial da publicação do passado dia 1 de Maio, de forma a não deixar isolado um seu colaborador. Uma resposta forte teria assegurado a todos os colegas jornalistas que não haveria qualquer tolerância a ataques à sua liberdade de expressão e de imprensa, mesmo com potenciais custos familiares. Não o fazendo enviou um claro sinal sobre as suas prioridades.

Quando António Costa foi eleito secretário-geral do Partido Socialista, Ricardo Costa colocou o seu cargo no Expresso à disposição, por possíveis conflitos de interesses. A administração achou que ele conseguiria separar o pessoal do profissional e recusou a oferta. Hoje confirmo que errou naquela decisão.

Ficam, assim, algumas dúvidas: Teria António Costa enviado o sms se o seu irmão não estivesse à frente do Expresso? A resposta do semanário seria diferente caso o remetente do sms fosse outro qualquer político? Qual será a futura linha editorial respeitante a notícias sobre Partido Socialista? Pensa Ricardo Costa que mantém a autoridade para exercer o cargo que ocupa?

Autocensura?

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É curioso que jornalistas tão ávidos de notícias quentes não tenham pegado no caso do óbvio ataque à liberdade de opinião do director-adjunto do Expresso (Ricardo Costa, director daquele semanário, por razão familiar, tem mantido o silêncio). Notáveis excepções são os artigos online do Observador, jornal i e Correio da Manhã.

Claro que a decisão sobre o que publicar é opção editorial de cada entidade. Talvez pensem realmente não ser do interesse público ou sejam mais tolerantes por políticos com quem partilham ideologias. Ainda pior (especialmente hoje, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa), pode ser que tenham receio de futuras represálias, caso Costa seja nomeado primeiro-ministro nas próximas eleições legislativas.

Felizmente, nesta era digital, a informação já não consegue ser facilmente “esquecida” numa qualquer gaveta da redacção.

Costa é o Sócrates 2.0?

[via Observador] No passado dia 25 de Abril, João Vieira Pereira [JVP], director-adjunto do Expresso, escreveu naquele semanário um artigo de opinião sobre as propostas económicas apresentadas pelo PS (intitulado “Perigosos desvios do PS à direita”), de qual, julgo, a parte mais dura é a seguinte:

A grande mais-valia do estudo é que centra o debate político em políticas económicas, de onde nunca deveria ter saído. Só que ao estilo PS. (…) Uma espécie de “vai andando que eu já lá vou ter”. A política do tubo de ensaio. Cheia de falta de coragem e reveladora da ausência de pensamento político consistente.

A isto, António Costa, líder do Partido Socialista, decidiu enviar o seguinte SMS ao jornalista:

Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava. Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados, incapazes de terem uma opinião e discutirem as dos outros, que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencher as colunas que lhes estão reservadas. Quem se julga para se arrogar a legitimidade de julgar o carácter de quem nem conhece? Como não vale a pena processá-lo, envio-lhe este SMS para que não tenha a ilusão que lhe admito julgamentos de carácter, nem tenha dúvidas sobre o que penso a seu respeito.
António Costa

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JVP tornou público o referido SMS e responde hoje no semanário Expresso: “É a liberdade, António Costa”

Este e o recente caso da proposta de novas regras para a cobertura jornalística das campanhas eleitorais, bem como a relação conflituosa que Sócrates tinha com a comunicação social que dele discordava é claro indício do quanto os políticos respeitam a liberdade de imprensa.

Nota: foto do fogo retirada do flickr (broombesoom).

Vasco Pulido Valente explica

No Público de hoje, Vasco Pulido Valente explica bem qual o problema (um deles, pelo menos) da candidatura de Sampaio da Nóvoa:

“Desde 2011 que nenhuma sondagem dá maioria absoluta ao Partido Socialista. Donde se segue que para aguentar um governo minoritário – principalmente um que se pretende reformista – é preciso um Presidente cúmplice, muito mais cúmplice do que foi Cavaco com o CDS e o PSD. Mas para ser elegível esse Presidente não pode ter a mais leve animosidade do PC, do Bloco e da poeira dos pequenos grupos da extrema-esquerda. Ora, como ao fim de 40 anos não há gente dessa, a franja radical do PS acabou por inventar uma não-pessoa, um saco vazio onde venha donde vier qualquer militante ou simples simpatizante não se importará de meter o seu voto: no caso o sr. Sampaio da Nóvoa.(…) O candidato, esse, não conta.(…) Promete (imaginem só) não se “resignar” à “destruição do Estado Social”, à pobreza, ao desemprego, à “exclusão” ou à mais leve força que “ponha em causa a dignidade humana”. Como tenciona fazer isto, não confessa. Promete “agir” com “integridade e honradez”, coisa que deve tranquilizar a populaça já com muito pouco para espremer. E promete, para nossa perplexidade e espanto, não assistir “impávido” à “degradação da nossa vida pública”. Não percebe ele que a sua própria candidatura, fabricada por meia dúzia de maiorais do PS, à revelia dos portugueses (que nem o conhecem), é o mais grave e humilhante sinal da “degradação da nossa vida pública”?”

Como seria de esperar em que já escreveu que “talvez António Costa e os seus conselheiros pensem que o manto de “independente” com que o putativo candidato se cobrirá lhe permita esconder a inexistência de qualquer qualidade, lhe dê hipóteses de lutar pela vitória, e que sendo o candidato quem (e como) é, o PS seja agraciado depois com um Presidente dócil e disposto a ser bem-mandado por um Governo rosa.” ou que Sampaio da Nóvoa “é um candidato em quem não se pode confiar”, eu não poderia concordar mais.

Henrique Neto, Sampaio da Nóvoa e as televisões

Na sua página no Facebook, o candidato presidencial Henrique Neto queixou-se da falta de destaque mediático que a sua candidatura tem merecido, especialmente em comparação com a de Sampaio da Nóvoa. Escreve Neto que até agora, nenhum dos principais canais de televisão portuguesa o convidasse para uma entrevista em que explicasse o que propõe, enquanto que depois de ter transmitido integralmente o anúncio da candidatura de Sampaio da Nóvoa, a SIC o convidou logo no dia seguinte para a entrevista em horário Nobre que Neto lamenta não ter ainda tido.

Ao contrário de Henrique Neto, não acho que as televisões privadas (a RTP é diferente, e só não seria se, como defendo, deixasse de ser pública) tenham de tratar todos os candidatos por igual. Primeiro, porque eles não são todos iguais. O “ninja” de Gaia ou Manuel João Vieira, “o Coelho da Madeira” ou “o taxista do burro”, tendo os mesmos direitos que qualquer outro candidato, não são iguais a eles. Um candidato como, por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa, ou como Jaime Gama, mereceria mais atenção e destaque pelo simples facto de ser encarado por qualquer cidadão como um candidato mais sério que qualquer um dos exemplos acima citados. E em segundo lugar, acho que as televisões têm todo o direito de descriminarem os candidatos da forma que muito bem entenderem, submetendo-se assim ao nosso julgamento como espectadores acerca das suas opções. E portanto, se a SIC dá todas as atenções a Sampaio da Nóvoa, negligenciando Henrique Neto, está no seu direito, e resta-nos a todos nós ter uma opinião acerca dessa opção.

Ora, essa é uma opção que diz mais acerca do carácter dúplice da candidatura de Sampaio da Nóvoa do que de um enviesamento da SIC. Explico-me: na realidade, por muito que simpatize com a pessoa de Henrique Neto (confesso que conheço mal o que propõe, e por isso digo que simpatizo com a pessoa, e não – pelo menos por enquanto – com a candidatura), que teve o mérito de criticar Sócrates a tempo, a sua candidatura é objectivamente menos importante que a de Sampaio da Nóvoa, pela simples razão de que sendo um candidato sem apoio dos partidos, Henrique Neto dificilmente poderá ganhar, e Sampaio da Nóvoa, sendo visto como o candidato do PS, aparece com legítimas expectativas de ser eleito. Porque ninguém duvida que Sampaio da Nóvoa tem o destaque que tem tido, não pela sua amplamente desconhecida pessoa, mas pelo facto de se ter criado de si a ideia de que será o candidato oficial do PS. E aqui está o carácter dúplice da sua candidatura, mais um elemento que não augura nada de bom para uma sua eventual eleição. Sampaio da Nóvoa apresenta-se como independente, gozando assim dos mais rasgados elogios dos media por vir “de fora”. Mas ao mesmo tempo, goza dela a atenção que só alguém que vem “de dentro”, que só um candidato apoiado por um dos partidos com assento no parlamento, poderia gozar. Hipócrita e deliberadamente, Sampaio da Nóvoa apresenta-se como “independente” enquanto depende da presunção de que será candidato oficial de um dos dois maiores partidos portugueses para ter uma maior cobertura mediática. Por muito que custe a Henrique Neto – pessoa que, repito, me merece a maior simpatia e respeito, e se depois de conhecer as suas opiniões e delas tiver uma opinião positiva, talvez o meu voto – a SIC tem toda a razão em dar mais destaque ao candidato socialista Sampaio da Nóvoa. O candidato socialista Sampaio da Nóvoa é que mostra, com a duplicidade com que finge ser independente ao mesmo tempo que goza efectivamente dos benefícios de ser um candidato partidário, que não merece ser eleito Presidente da República.

Promoção 1º de Maio

Pingo Doce e Continente voltam às promoções no 1.º Maio. Sindicato apela à greve

Greve? Devia ser um dia de celebração! Afinal é a satisfação dos clientes que possibilita a manutenção das empresas no mercado e, consequentemente, os posto de trabalhado de milhares de portugueses. Veja-se o exemplo da TAP…

[Adenda] Leitura complementar: Doce promoção

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’, sobre gerações, avós e netos.Gerações

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Estou a ler “Les souvenirs” de David Foenkinos, o autor de “La délicatesse”. Sendo Foenkinos da minha geração, há algo que me toca neste seu livro que nos descreve as recordações que o narrador tem dos seus avós.

Quando fica viúva, os filhos convencem a mãe a ir para um lar. É aqui que o neto, moído com sentimentos de culpa, a visita sempre que pode. E o que mais o fere emocionalmente é a avó, querendo protegê-lo, garantir-lhe que tudo vai bem quando ele sabe que não é verdade.

Para quem não o conhece, Foenkinos consegue, com poucas palavras, descrever uma imagem como se fosse uma fotografia. Fá-lo quando nos conta como a avó, na II Guerra Mundial, deixou a escola que os pais não podiam mais pagar e os colegas ficaram junto ao portão, para se despedirem dela. Uma imagem que a velha senhora, então menina, guardou consigo como um retrato dos amigos, mas onde já não estava.

É numa das visitas ao lar, enquanto passeiam pelos seus corredores com vários quadros de gosto duvidoso pendurados nas paredes, que reparam num com uma vaca. Sendo o mais feio de todos, fá-los rir. E quando nada têm para dizer, quando ele sente que a ela lhe custa fazer a representação a que se habituou, é esse o quadro que vão ver. Olhando-o, falam e riem como se não estivessem naquele sítio, mas em casa. Tendo sido ela, conta-nos ele, que lhe transmitiu o sentido estético, foi perante a falta deste que encontraram a forma de viver o que não queriam.

Um péssimo sinal

Nóvoa presidenteAntónio Sampaio da Nóvoa apresentou-se hoje “solenemente a todo país” como candidato à Presidência da República. “O país”, com maior ou menor “solenidade”, ignorou o anúncio, à excepção das centenas que encheram o Teatro da Trindade para ouvir o candidato, e eu, que me sentei à frente da televisão para levar a cabo uma experiência científica que desse uma resposta definitiva à questão “é possível ver e ouvir o vácuo?”.

“Os portugueses sabem quem sou e de onde venho”, disse o candidato a dada altura do discurso, confirmando nas cabeças de quem o ouvia o preconceito de que todos os políticos (até os “independentes” que “emergem da sociedade civil”, como Jorge Sampaio e um entusiasmado jornalista da SIC o caracterizaram; gostava de saber onde é que esta candidatura “não partidária” arranjou o dinheiro para alugar o Teatro e o coro que naquele cantou) mentem. Na realidade, são poucos os portugueses que sabem quem é António Sampaio da Névoa, e ainda menos os que sabem de onde ele vem. E Sampaio da Nóvoa sabe-o. Por isso mesmo tentou, de forma pouco digna e nada abonatória, equiparar-se a Mário Soares e Jorge Sampaio, dizendo que “foi difícil em 1986″ mas Soares acabou por ter sucesso, como “foi difícil” em 1996 para Sampaio e este também foi eleito, e que “será difícil em 2016″ mas também ele vai conseguir. O problema, para Nóvoa e todos nós, é que ele não é como Mário Soares, nem sequer como Jorge Sampaio. “Os portugueses” tão citados hoje sabiam de facto quem eles eram e de onde vinham: sabiam o seu percurso político, sabiam o que defendiam e a forma como actuavam. De Nóvoa ouviram (se é que ouviram) algumas palavras, sem nada para além delas que lhes indique o quanto valem. E a crer no que se passou hoje, valem pouco.

Todo o discurso foi uma encenação, tão mais ofensiva para a inteligência de quem ouvia por ter sido particularmente gritante a artificialidade com que foi montada. Repleta de soundbites com aquelas palavras que os consultores recomendam que sejam marteladas incessantemente, como “mudança”, “unir”, “juntos” ou “futuro”, Nóvoa não disse uma única palavra sobre como esses bonitos objectivos se concretizariam. “Se for eleito”, disse Nóvoa, não deixaria que a “crise se normalize” ou “eternize”, e que como Presidente nunca será “um espectador impávido perante degradação da nossa vida pública”. O que sendo uma intenção louvável, é politicamente vazio: nenhum candidato a qualquer cargo político se apresenta como querendo ser “um espectador impávido perante degradação da vida pública”, e como tal, dizer o que Sampaio da Nóvoa disse equivale a não dizer nada.

E é por não dizer nada que a candidatura de Sampaio da Nóvoa depende apenas e só da propaganda: a sua suposta “independência” – desmentida pelo mal disfarçado (embora ainda a tempo de ser retirado) patrocínio do PS – ou a sua suposta proveniência da “sociedade civil” – negada pelas presenças de apoio de gente ligada aos interesses corporativos mais mediáticos, e pelo próprio passado de Nóvoa: em Portugal, as Universidades não são a “sociedade civil”, mas sim instituições dependentes do Estado, com todos os vícios que isso implica para quem nelas conseguiu chegar onde Nóvoa nelas chegou; o programado mas mal coordenado “Vamos” que a plateia repetia depois de Nóvoa a exortar; a musiquinha de banda sonora de filme épico que acompanhou os últimos minutos do discurso do candidato, tentando dar-lhe uma aura de discurso carismático digno da partida para uma batalha em Game of Thrones que o conteúdo manifestamente não era suficiente para garantir; a referência à “experiência governativa” (na Universidade) e nas “lutas antes e depois de Abril”; o hino cantado pelo tal coro e a que a plateia se juntou, talvez para revestir o candidato da “gravitas” que ele julga necessitar para ser eleito, e que não sabe não ter; tudo exemplos de como o homem que hipocritamente diz “valorizar a palavra” assentou o acto “solene” da sua candidatura numa artificialíssima produção propagandística, um péssimo sinal do que aí vem e do que poderemos esperar dele caso seja eleito para Belém.

A apresentação da candidatura de Sampaio da Nóvoa consistiu assim de uma pura fantasia, tentando mostrar o candidato como algo que não é, na esperança de que projectando a fantasia, “os portugueses” a vissem como real. Infelizmente, o exercício acabou apenas por tornar mais clara, e por isso menos sedutora, a realidade que se quer esconder: a de um candidato que precisa de recorrer aos mais variados artifícios para parecer mais do que é. É um problema que não se dissipará com o decorrer da campanha. Daqui até Janeiro, Sampaio da Nóvoa vai ter de falar muito, e nem sempre poderá juntar música pretensamente gloriosa às palavras vãs, nem quando o fizer a primeira poderá abafar as segundas. Mas bem precisava.

A dada altura do seu discurso, Sampaio da Nóvoa disse que “Portugal tem tudo para ser um país referência no século XXI”, faltando apenas “vontade” e “visão”. Qualquer candidato que diga algo assim, independentemente da sua qualidade pessoal ou dos méritos das suas propostas, não merece o voto de ninguém. Portugal pode de facto ser um país melhor do que é, com condições de vida melhores do que aquelas que muitos dos seus habitantes gozam hoje em dia. Mas o que Portugal não pode ser é aquilo que muitos julgam (erradamente) que em tempos já foi, essa tal “referência no mundo”: Portugal é um país periférico na Europa, pobre em recursos naturais e com uma população relativamente diminuta, e sempre foi. A história do país é, no fundo, a história das sucessivas tentativas de lidar com estes tristes factos. Portugal não está condenado a ser miserável, e pode aspirar (se estiver disposto a fazer o necessário) a ser mais do que é hoje. Mas não pode aspirar a ser a Alemanha, a Finlândia, os EUA ou a China. Pode aspirar a ser um Portugal melhor, mas não pode sonhar em não ser Portugal, com as limitações que Portugal tem. Por muito melhor que possa ficar, e por muita “vontade” que se tenha, Portugal será sempre um país secundário no “concerto das nações” (um terrível chavão que aqui faço o sacrifício de escrever por falta de criatividade). Ao dizer que Portugal “tem tudo para ser um pais de referência no século XXI” e que só não o é já porque “falta vontade”, Sampaio da Nóvoa mostra apenas que é um candidato em quem não se pode confiar: ou é alguém disposto a dizer enormidades destas por julgar que assim caça uns quantos votos, e portanto um “político” no sentido pejorativo que normalmente se associa ao ofício; ou é alguém que não tem a mínima consciência do que está a dizer nem das circunstâncias e limitações do país a que se propõe presidir, e como tal, pouco recomendável para o fazer.

“Tudo na mesma é que não”, garantiu o candidato, mas ouvindo-o e vendo-o, ninguém no seu perfeito juízo poderá pensar que Sampaio da Nóvoa possa trazer o que quer que seja de diferente.

Baralhar e dar de novo

O Luís Naves comentou as minhas considerações sobre o esgotamento do regime confundindo-as com o 25 de Abril. A contrário do que sugere o Luís, não escrevi que o 25 de Abril não serviu para nada. O que disse foi que os objectivos do 25 de Abril se esgotaram 12 anos depois, em 1986. Porquê? Simplesmente porque o regime saído de 1974 não foi capaz de evoluir. Claro que se vive melhor. Aliás, só não se viveria melhor se o país tivesse caído nas mãos do partido comunista. Uma verdade tão óbvia como a dos dados estatísticos que nos mostram os índices do crescimento económico durante a década de 60 e início dos anos 70.

Claro que não há presos políticos e cada um é livre de dar a sua opinião. Mas se a grande maioria pensar da mesma maneira isso não basta. E o Luís deve conhecer os malefícios do politicamente correcto que, aliás, utiliza no seu texto. Quando digo que não há debate, o Luís comprova-o, dirigindo a conversa para outro assunto, o 25 de Abril, e não o tema que referi, ou seja, a pouca evolução política do regime e das suas elites desde 1974.

Há um outro ponto, demasiado duro para que muitos o olhem de frente e antes prefiram baralhar e dar de novo: a melhoria de vida que se conseguiu nos últimos 40 anos, que foi impressionante e de saudar, não tendo sido acompanhada por um crescimento económico capaz de a financiar por muito mais tempo, forçou este governo, como forçará os próximos, a medidas que limitarão essa mesma qualidade de vida.

Confundir quem chama a atenção para isto com alguém que não valoriza nada é baralhar e dar de novo. Não é debater, porque não leva a lado nenhum. Pode tranquilizar a consciência por uns momentos, mas não muda nada.

Não queremos que os nossos filhos tenham melhor vida?

Paulo_Trigo_PereiraConfesso que quando li as palavras de Paulo Trigo Pereira [PTP] de imediato me veio em mente o seguinte: “será que ele tem filhos?”

Não sou de me meter na vida privada de outros mas o próprio “responde” publicamente… no Público:

As duas filhas que ajudei a criar, Mariana e Catarina, e a minha mulher, Guida, fazem parte da minha identidade.

Sendo assim, e caso PTP leia este post, talvez me possa responder à seguinte pergunta: porque deve o seu consumo no presente ser mais importante que o consumo futuro das suas filhas?

Sem comentários

Chapendra @flickr.com

Chapendra @flickr.com

O projecto de lei elaborado pelos partidos PSD, CDS e PS sobre as novas regras para a cobertura jornalística das campanhas eleitorais contempla grave limitação da liberdade de expressão (meu destaque):

No artigo destinado às “publicações de caráter jornalístico”, o projeto de lei é muito detalhado, diferenciando as publicações noticiosas das publicações de opinião e dizendo que a opinião não pode ter mais espaço do que a notícia.

Portanto, se um político diz “sem comentários” a qualquer assunto, os órgãos de comunicação social estariam proibidos de convidar alguém para comentar o silêncio da criatura…

Neo-socialismo

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Neo-socialismo

O PS apresentou esta semana o seu programa económico para a próxima legislatura. Este visa dinamizar a economia através da procura com medidas como a descida do TSU dos trabalhadores e o estímulo dado às actividades que o modelo keynesiano considera de efeito multiplicador mais rápido, como a restauração e a construção. Bem esmiuçadas, as medidas não são novas e a filosofia subjacente é idêntica à seguida pelos últimos governos socialistas.

O programa do PS parte do princípio que o dinheiro para pagar o Estado e os interesses que à volta deste se reuniram não é do povo. A intervenção da ‘troika’, se teve algo de proveitoso, foi a percepção de que o dinheiro é das pessoas e que o Estado não pode existir à custa da antecipação do rendimento dos cidadãos. Infelizmente, a crise tem tantas variantes que não se resolve com a mera percepção desta realidade.

Que a despesa pública não deve ser superior à receita é algo que finalmente se compreende. É por isso que, apesar do actual nível de impostos, os partidos do governo até podem ganhar as eleições. Na verdade, sendo difícil descer a despesa há quem prefira pagar. É claro que impostos elevados destroem o crescimento. Os impostos são a transferência do dinheiro de uma parte da população para outra e, principalmente quando atinge os níveis actuais, desencoraja quem os paga de produzir e de criar empregos.

Para colmatar esta realidade, e porque não é fácil ganhar eleições com sacrifícios, o PS promete incentivar a procura. Ora, como o Estado não tem dinheiro e as projecções de crescimento são meras manifestações de vontade, a esperança socialista depende do BCE aumentar a base monetária. A ideia é tirar o dinheiro da poupança e gastá-lo. Sucede que, como o problema é a falta de capital, o que não é equivalente a pouco dinheiro, esta política monetária irá apenas aumentar a procura de capital ao mesmo tempo que se reduz a sua oferta, ou seja, a poupança.

Com esta distorção, aumento artificial da procura de capital e redução da sua oferta, a forma de compensar tal falta será através da actividade especulativa. Algo que já aconteceu no passado com os resultados que conhecemos e que irá suceder novamente. É assim que ouvimos incoerências como as daqueles que entendem que o problema da economia é a descapitalização das empresas ao mesmo tempo que defendem políticas conducentes à redução do capital.

E vejamos ainda este aspecto tão interessante: são precisamente os que entendem que é preciso proteger as pessoas, e os Estados, do mundo financeiro que defendem políticas que levam à especulação como forma de se encontrar capital capaz de dar resposta ao incremento da procura que agrada aos grandes grupos económicos. A este fenómeno chama-se neo-socialismo.

No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’.

A TAP

O governo está a tentar novamente vender a TAP. Como seria de esperar são muitos os problemas num processo que dura há anos. Se por um lado estão os trabalhadores, entre eles os pilotos, que querem deter entre 10 % a 20% da companhia, por outro deparamo-nos com os potenciais compradores que, quando se detêm sobre o que se passa na empresa, repensam a sua estratégia e mostram-se reticentes na sua aquisição.

Há dias foi anunciado o fecho das contas de 2014 que se saldaram num prejuízo de mais de 80 milhões de euros. No seu todo o Grupo TAP tem uma dívida de mais de mil milhões de euros. Ora, estes resultados surgem num momento em que o preço do petróleo está baixo e já não explica prejuízos anteriores, como os de 2008 em que o preço do crude atingiu valores recorde.

Quando se compra uma empresa, se herda um bem, ou se recebe o quer que seja, importa ter em conta não só o activo mas também o passivo. E o que se passa com a TAP é que o passivo, que não é apenas a dívida da empresa, mas também as obrigações e limitações a que o interesse político a sujeitou, supera muito o seu activo.

O problema da TAP já não é a mera perda de valor, mas o não valer quase nada. Pode ser chocante para muitos, mas uma empresa não se avalia pela emoção, menos ainda quando aqueles que com ela se comovem não gastariam nela um euro que fosse. É, aliás, por isso que são contra a sua privatização. Querem uma empresa, mas o povo que pague por ela.

#PoliticaEmCartaz

Já há algum tempo que estamos em pré-campanha mas a menos de seis meses das eleições legislativas achei que seria interessante fazer-se uma recolha de imagens dos cartazes políticos. De forma a ser o mais exaustiva possível podem contribuir com as vossas fotos usando a hashtag #PoliticaEmCartaz no Twitter, Instagram ou Facebook (publicações têm de ser públicas). Comecemos pelo PSD:

 

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“Acima de tudo Portugal”. Uma forma menos grosseira que o marketing político encontrou para dizer: “que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”.

O maior partido do Governo quer fazer-nos crer que as medidas implementadas foram uma necessidade premente à “salvação” do país, não por programada doutrina ideológica de que, muitas vezes, é acusado (olhando para as políticas do Governo francês de Hollande, será difícil de discordar). Mas, na minha opinião, salvar Portugal também não foi o objectivo. Para isso ter-se-iam realizado as imprescindíveis reformas do Estado. Ficaram-se por um guião.

Claro que estando o Estado, em 2011, numa situação de pré-insolvência, a solução teria de passar por um mínimo de sacrifícios das clientelas e esperar até a conjuntura económica se inverter. Os empréstimos da troika e os “estímulos” do BCE nisso têm ajudado o Governo de Passos Coelho. Torna-se evidente que o fim de qualquer partido no Governo é “Acima de tudo PODER”.