Há dias, o Público informava os potenciais interessados (presumo que um escasso número de pessoas) de que o dr. Passos Coelho estava disponível para fazer algumas “cedências” ao Governo na negociação do Orçamento de Estado. Não surpreende. Quantas vezes, desde que Passos Coelho chegou à liderança do PSD, é que o partido laranja “ameaçou” o PS de que iria derrubar o Governo? E quantas vezes é que realmente fez alguma coisa nesse sentido, ou obteve alguma cedência da parte do PS para o evitar? Desde que passou a ser “líder” da “oposição”, o dr. Passos Coelho só não tem mostrado disponibilidade para manter a palavra. Cedências, por outro lado, nem sequer é preciso pedir-lhe. Segundo o Público (e a propaganda “passista”), o líder do PSD fá-lo em nome do “interesse do país”. Na realidade, Passos Coelho fá-lo em nome de uma curiosa “estratégia” que pretende ao mesmo tempo mostrar que o PSD é “diferente” (através dos “ultimatos” e “ameaças” de derrube que faz a Sócrates) mas ao mesmo tempo “responsável” e “dialogante” (com as tais “cedências”). Para seu azar, e principalmente, para azar dos portugueses, a única coisa que consegue é manter o Governo no poder, e o país no lamaçal em que (mal) vai sobrevivendo.
Setembro 3, 2010
Julho 23, 2010
Quanto menos dinheiro passar pelo Estado, melhor
Há dias, o dr. Silva Pereira disse que, com a sua proposta de revisão constitucional, o PSD estava a abrir uma “polémica artificial”. Por muito estranho que possa parecer (e por muito que me incomode), parece-me que o dr. Silva Pereira tem razão. Como o João Luís Pinto e a Maria João Marques têm procurado demonstrar, não só esta revisão terá poucas hipóteses de vir a ser posta em prática, como o espírito reformador de Passos Coelho que ela supostamente evidenciaria parece ser ilusório: estas propostas apenas viriam mudar alguma coisa para ficar tudo na mesma (ou pior).
Claro que, com o seu apreço pela berraria e a irrelevância, o PS não deixará, como não tem deixado, de contribuir para alimentar a tal “polémica artificial” que o PSD terá iniciado. Mas, apesar de artificial, a polémica tem os seus méritos: por entre os berros contra o “neoliberalismo” e a “injustiça social”, lá se vai ouvindo uma discussão, que há muito deveria estar a ser feita, acerca de como serviços como o da Saúde devem ser prestados e financiados.
Dos críticos da proposta do PSD que a levam a sério, vendo nela a ameaça do espectro neoliberal, argumenta-se que a “privatização da saúde” obrigaria uma série de pessoas que, até aqui, usufruem de serviços de saúde gratuitos, a passarem a pagar por eles, o que teria apenas a consequência de as empobrecer.
Ora, para muitas dessas pessoas (as que pagam impostos sobre os seus rendimentos), esses serviços não são gratuitos, antes pelo contrário: eles são pagos indirectamente através dos impostos que o Estado cobra e depois distribui de acordo com os seus critérios. Ao obrigar as pessoas a pagarem pelos serviços de saúde que usassem, e desde que introduzisse um corte nos impostos proporcional à diminuição de custos que o novo modelo de financiamento implicaria, o Estado estaria apenas a eliminar um intermediário: em vez do dinheiro que as pessoas atiram para o sistema ser entregue ao Estado (através dos impostos por este cobrados) e depois voltar às mesmas pessoas (no momento em que estes usam serviços como o da Saúde), seriam as pessoas, que usam esses serviços, a colocarem esse dinheiro directamente nos serviços a que recorressem.
Mas, pergunta o caro leitor: se, no modelo actual, o dinheiro que as pessoas entregam nos impostos acaba por, de forma indirectamente, regerssar a essas mesmas pessoas, que diferença fará se elas deixarem de o pagar em impostos e o pagarem como um preço pelos serviços que usam? Se os impostos já funcionam como preços indirectamente cobrados, onde estaria a diferença?
A diferença estaria na eficiência com que esse dinheiro é distribuído. Num modelo de financiamento da saúde que usa os impostos como preço indirectamente cobrado, o dinheiro é distribuído de acordo com os critérios dos políticos e funcionários que administram o sistema, e não de acordo com as necessidades das pessoas que recorrem a esses serviços. Se as pessoas pagarem directamente por esses serviços, esses terão de responder às suas necessidades, regulando a sua oferta de acordo com a procura dos pacientes, em vez dos objectivos traçados pelos políticos e burocratas.
Num modelo em que o dinheiro passa pelo Estado antes de voltar aos contribuintes, os serviços são maus, pois o “cliente” é o Estado que financia o hospital, e não o doente que a ele recorre; aqueles com mais posses, com maiores rendimentos, podem recorrer ao privado, mas como têm de pagar impostos na mesma, o facto de haver menos procura dos hospitais públicos (esses tais “ricos” que “vão ao privado”) não afecta o seu financiamento, o que faz com que eles não sintam a necessidade de adequar a sua “oferta” à procura realmente existente. Assim, nos hospitais públicos, há desperdício de dinheiro em algumas àreas, enquanto outras são obrigadas a realizar cortes significativos. A qualidade do serviço não melhora, mas como a sobrevivência do serviço não depende da qualidade deste, mas dos humores do Ministro da Saúde, também não há incentivo para este melhorar. Esqueça, caro leitor, a “artificialidade” da polémica constitucional de Passos Coelho: olhe para o SNS português, e facilmente perceberá como quanto menos dinheiro passar pelo Estado, e for directamente distribuído por si, melhor será. Para todos.
Julho 12, 2010
The Real São Bento
A vida política portuguesa anda estranha. Todos os dias, as figuras mais ou menos destacadas do PS e do PSD oferecem ao país uma versão portuguesa (e apesar de tudo, ligeiramente menos degradante) de um reality-show da MTV: zangam-se em frente às câmeras de televisão, para depois acabarem o dia aos abraços (qualquer pessoa que tenha tido a infelicidade de ver programas como Laguna Beach ou The Hills consegue ver a semelhança).
Quase todos os dias, o dr. Passos Coelho levanta-se do colo de Ângelo Correia e ataca toda e qualquer medida do Governo. De seguida, o “engenheiro” José Sócrates sai do caixão e, no seu melhor Armani, vem queixar-se da “irresponsabilidade do PSD” (no dia em que o Armani tenha sido particularmente bem engomado, ele até se entusiasma e fala “da direita” para juntar o dr. Portas à festa). Inevitavelmente, seguem-se-lhe o dr. Silva Pereira, sempre pronto a carregar a àgua do chefe, e, se as circunstâncias assim o exigirem, o dr. Santos Silva, uma espécie de Brother Mouzone do PS. Para acabar a festa, o PSD chama os seus especialistas em fingir oposição (e ninguém o faz tão bem como Miguel Relvas) para mostrarem a sua indignação e como o país não consegue viver com mais um único dia de Sócrates no poder. Com um cenário destes, seriam de esperar moções de censura diárias, visitas de emergência a Belém (onde impávido e sereno, Cavaco Silva preside às cerimónias fúnebres do país) e pancadaria no Parlamento.
No entanto, nada disso acontece. Pelo contrário, todas as medidas anunciadas pelo Governo, que Passos Coelho e restantes focas amestradas atacam vigorosamente no início da semana, chegam a sexta (ou Sábado, para melhor passarem despercebidas) aprovadas pelos dois partidos, que entretanto se parecem ter escapulido como adolescentes ardendo por um coito furtivo. Tal como normalmente acontece com esses adolescentes, a coisa não acaba bem (embora, em vez da criancinha que fará as alegrias desses adolescentes, o destino mais provável seja o empobrecimento dos portugueses). É claro que Sócrates e Passos Coelho até se podem sair bem com a brincadeira: Sócrates consegue (atacando o PSD) alegrar (no pun intended) o bom povo socialista, e ao mesmo tempo (assegurando o apoio do PSD para as suas medidas) prolongar a morte lenta que tem sido este Governo; Passos Coelho talvez consiga (atacando o PS) convencer alguns de que é “diferente” dos socialistas, e (apoiando o PS) mostrar o quão é “responsável”.
Restam dois problemas: em primeiro lugar, não podem ser os dois bem sucedidos ao mesmo tempo. Inevitavelmente, um deles acabará mal, e a seu tempo (que poderá ser longo, é certo), o outro não escapará a um destino semelhante. Em segundo lugar, acabarão por nos arrastar todos com eles. A violência da retórica com que se agridem, por um lado, e a manifesta hipocrisia com que actuam, por outro, não resulta noutra coisa que não no aumento da repulsa dos eleitores pela política e pelo “regime”. Com o espectáculo que nos andam a oferecer, PS e PSD não se limitam a estragar o seu futuro (por muito que demorem a fazê-lo): ao chafurdarem na lama, arrastam para ela a democracia portuguesa e as condições de vida dos portugueses. Nada que os preocupe.
Julho 6, 2010
Uma questão de palavras
Na sua última edição, a The Economist publicou um artigo argumentando que “fairness” é “uma má ideia”. No editorial, pode ler-se que, ao usar o argumento de que os cortes que tem promovido são “duros” mas “justos”, a coligação que governa o Reino Unido comete um grande erro. Segundo a revista, a palavra “fair” é demasiado vaga (“to one lot of people, fairness means establishing the same rules for everybody, playing by them, and letting the best man win and the winner take all. To another, it means making sure that everybody gets equal shares”), devendo ser preterido em prol de palavras que “dizem o que querem dizer”. No blog Tory Diary, Tim Montgomerie critica o argumento da The Economist, perguntando “why should Labour have all the best words?“:
“It’s fair enough for The Economist and the IEA to have their intellectual arguments but politicians need to live in the real world. Defining ourselves against social justice (as some Tory MPs have advised) or fairness is electorally stupid. Conservatives need to dominate the whole political stage and that means breaking Labour’s monopoly in certain policy areas – and also defining ourselves on new ways. Defending capitalism/ conservatism as efficient and empowering only persuades so many. Making the case that capitalism/ conservatism is also fair and socially just seems like common sense to me.”
Montgomerie, parece-me, tem toda a razão. Não é que a Economist esteja errada ao dizer que o termo “fairness” (como o termo português “justiça”) é demasiado vaga, que tem dois sentidos incompatíveis um com um outro, e que um desses sentidos (o de que “justiça” é haver pouca desigualdade) nada tem de justo. Mas argumentar que os políticos que queiram promover reformas liberais ou liberalizantes devem abdicar de usar palavras como “fairness” ou justiça demonstra uma profunda incompreensão acerca, não tanto de como a política, o jogo político, funciona, mas acerca de como o cérebro humano (dos eleitores) funciona.
Políticos e seus conselheiros tendem a ver o eleitorado como um corpo definido de opiniões: algumas pessoas inclinam-se para a “esquerda”, algumas para a “direita”, e depois há um número grande de eleitores “moderados”, que se situam no “centro” do espectro político. Cometem o erro de verem estes eleitores “centristas” como pessoas com opiniões políticas claramente definidas, embora “moderadas”. Pensam que os eleitores “centristas” estão tão certos das suas opiniões como os eleitores de “direita” e de “esquerda”, e que a única diferença entre estes diferentes tipos de eleitores é a de que os “centristas”, sendo menos “extremistas”, são “captáveis”, podem ser “ganhos” se os políticos forem ao encontro dos seus desejos e lhes oferecerem um conjunto de políticas que as sondagens lhes dizem que eles querem.
O problema está em que os eleitores “centristas” não são uma espécie de versão “intermédia” dos seus concidadãos mais “extremistas”: eles são realmente diferentes. Ao contrário destes últimos, os eleitores “centristas” não têm opiniões políticas firmemente definidas: no seu livro The Political Brain, Drew Westen mostra como os eleitores alinhados interpretam toda e qual informação à luz das suas crenças já definidas (mesmo que sejam contraditórias), e como os eleitores “voláteis” mudam a sua escolha política, não porque estejam “no meio” do espectro político e os partidos ajustem as suas políticas às suas preferências medianas, mas antes porque, não tendo um corpo rígido de convicções políticas, orientam as suas opções eleitorais de acordo com outros critérios, como a sua simpatia pelos líderes partidários, a percepção que têm da competência destes últimos, da sua honestidade, ou apenas e só porque acham que o “novo chefe” é “diferente” do “velho”.
As coisas tornam-se ainda mais complicadas pelo facto de esses eleitores volatéis nem sequer saberem o que querem: Malcom Gladwell conta a história de Howard Moskowitz, um psicofísico americano (ou seja, uma pessoa que estuda as respostas sensoriais a estímulos físicos) descobriu que o recurso a focus groups na indústria alimentar, em que as pessoas eram questionadas acerca de, por exemplo, qual o tipo de molho de tomate que preferiam, era contraproducente, pois as pessoas não sabiam dizer o que queriam antes de o provarem. Isto não acontece apenas na indústria alimentar: num dos seus livros, Gladwell mostra como uma boa razão para os homens não saberem o que as mulheres querem é que elas próprias também não sabem: Sheena Iyengar e Raymond Fisman, dois professores da Universidade de Columbia, nos EUA, realizaram um estudo acerca de como as descrições de mulheres acerca daquilo que procuravam num homem (ou seja, aquilo que elas pensam que procuram) não correspondia às características reais dos homens que “escolhiam”. E diversos estudos sobre comportamento eleitoral mostram como os eleitores exibem uma “polifasia cognitiva” ou seja, a capacidade de terem duas opiniões contraditórias entre si, sem terem noção disso.
Isto não quer dizer que as sondagens e os focus groups sejam irrelevantes. Apenas que o seu propósito deve ser outro que não o de escolher quais as políticas a apresentar ao eleitorado. E aqui voltamos ao argumento da The Economist: como demonstra o especialista em sondagens Frank Luntz, algumas palavras provocam respostas mais positivas e outras palavras respostas mais negativas, e a única forma de saber quais usar será testando-as. Se o “cérebro político” dos eleitores “voláteis” responde positivamente a palavras como “fairness” ou “justiça”, não faz sentido que os políticos não usem essas palavras. Políticos que queiram promover reformas liberais não devem abdicar de tais palavras só porque elas têm sido associadas a políticas “socialistas”. Antes devem procurar associá-las às suas ideias, fazendo as pessoas perceber que nada há de “fair” ou “justo” naquilo que os socialistas defendem. O uso de tais palvras não significa (ou não deve significar) que os políticos abandonem as suas convicções. Apenas deve ser o resultado de uma tentativa de tornar as suas ideias mais apelativas ao volátil cérebro político dos eleitores.
Junho 4, 2010
O problema de Cavaco
Como o país não tem problemas sérios com que se preocupar (o Primeiro-Ministro, esse símbolo da honestidade e franqueza, garante que Portugal está melhor preparado que qualquer outro para enfrentar a crise, e a sua palavra, claro, é o suficiente para acreditar que é verdade), a “inteligência” pátria dedica-se com particular sofreguidão a discutir as presidenciais. À “esquerda”, a novela em torno de Alegre, as birras de Soares, e as intenções mais ou menos escondidas de Sócrates têm animado os espíritos dos jornalistas, sempre arrebatados por este género de folhetins. Não querendo ficar para trás, a “direita” tratou de arranjar a sua própria polémica.
Tudo começou quando o Presidente decidiu não vetar a nova lei do “casamento gay”, ao mesmo tempo que anunciava não concordar com a lei. Os católicos logo se sentiram traídos pelo Presidente e, sentindo o cheiro a sangue, o dr. Santana Lopes regressou das catacumbas onde pacificamente jazia para dizer que seria necessário haver uma “alternativa” a Cavaco (o próprio “Pedro”, presume-se, estará disposto a fazer o sacríficio). E até o dr. Paulo Portas, sempre desejoso de se armar em “maquiavélico”, veio dizer que gostaria de apoiar Bagão Félix (para quem não conheça, um senhor que se destaca por ser adepto do Benfica). Incomodado (compreensivelmente) pelo espectáculo, Marques Mendes veio dizer que as declarações destes dois rapazes não passavam de disparates.
Marques Mendes, em parte, tem razão. Mas não por, como o ex-líder laranja pretende, Cavaco merecer ser defendido. Apenas porque criticar Cavaco Silva por causa do “casamento gay” mostra bem a falta de consciência da grave situação política que o país enfrenta e das responsabilidades de Cavaco Silva no agravamento da dita.
Nos últimos anos, a democracia portuguesa transformou-se num autêntico lamaçal. O uso despudorado da mentira por parte do Governo, a constante quebra de promessas eleitorais, a gestão irresponsável da coisa pública, os sucessivos casos em que a excelsa figura do Primeiro-Ministro se viu envolvida, tudo foi contribuindo para o aumento da desconfiança (para não dizer do nojo) que os portugueses sentem em relação, não apenas ao Governo, mas a todos os políticos. E a tudo isto o senhor Presidente da República foi assistindo, quase impávido e sereno, alertando por vezes contra este ou aquele excesso, mas sempre vindo dar a mão ao Governo quando este precisava, com medo que a “instabilidade” agravasse a situação.
Cavaco Silva não percebeu que a “estabilidade” deste Governo é a doença de que Portugal padece. Não percebeu que deixar as coisas continuarem como normalmente significa deixar o país apodrecer ainda mais. Como os leitores mais antigos e mais atentos saberão, sou tudo menos um defensor de um “presidencialismo”, e acho que o cargo de Presidente, pela sua natureza, dificilmente pode ser mais que irrelevante ou nocivo para o país. Mas, dada a situação do país, acho também que já há muito Cavaco deveria ter demitido o Governo, explicando que por muitos riscos que uma tal opção implique, o Presidente não poderia assistir passivamente a comportamentos que degradam a nossa democracia, e consequentemente, tornam cada vez mais difícil a realização das reformas de que o país precisa para sair do poço em que caíu.
Cavaco não o fez. Se o caso do “casamento gay” importa para alguma coisa, é apenas por mostrar que o próprio Cavaco reconhece a sua própria impotência para zelar por aquilo que considera importante. A “direita”, quer por estar genuinamente preocupada com as consequências da lei (os católicos) ou por se excitar com a oportunidade de armar confusão (Santana, Portas e os demais), apenas mostra a sua reconhecida estupidez, ao não perceber que o erro de Cavaco está em ter presidido à degradação do clima político de Portugal. Este sim, é o verdadeiro problema de Cavaco. E do país.
Maio 19, 2010
Ficar à espera da bola não chega
Certamente animado pelas imagens de confrontos nas ruas das cidades gregas, o Partido Comunista Português decidiu apresentar uma moção de censura ao Governo de José Sócrates. O Bloco de Esquerda, ultimamente muito incomodado com o “governo bicéfalo” (a mim parece-me mais acéfalo, mas talvez esteja enganado) dos “tangos” de Sócrates e Passos Coelho, já anunciou que apoiaria a iniciativa (como agora se diz). Já o CDS e o PSD preferem abster-se, condenando assim à partida a moção comunista.
Procurando justificar a posição laranja, Miguel Relvas, esse símbolo da dignidade e firmeza políticas, veio dizer que o PSD continuaria “a manter a censura ao Governo naquilo que ele merece, mas, enquanto se justificar, vamos continuar a exigir que o Governo governe e que assuma as suas responsabilidades, desde logo, a de retirar Portugal e os portugueses da situação em que os colocou”. É uma justificação que explica muito do pensamento (chamemos-lhe assim, hoje sinto-me generoso) da actual direcção do PSD, e faz temer que ela não vá muito longe, arrastando consigo o país.
O que Relvas, com a sofisticação intelectual que lhe é conhecida, está a dizer com “exigir que o Governo governe e que assuma as suas responsabilidades, desde logo, a de retirar Portugal e os portugueses da situação em que os colocou”, é que acha que, já que o PS fez asneira e governou mal, agora deve ser o PS a executar as medidas impopulares que a asneira anterior implica que sejam agora tomadas. É esta a “estratégia” delineada pelas cabeças em torno de Passos Coelho: já que o PS seguiu uma política de terra queimada, deixá-lo a tentar apagar o fogo, e quando forem apanhados por ele, chegar ao terreno já livre e, qual “especulador sem escrúpulos”, lucrar com ele. O PSD espera que seja o PS a sofrer as consequências de tomar medidas impopulares, facilitando o acesso ao poder, que consideram estar ainda demasiado longe nas actuais circunstâncias. Note-se, em primeiro lugar, como esta gente está disposta a deixar alegremente a situação política do país degradar-se, desde que isso facilite o seu acesso ao poder daqui a uns tempos. É sempre bom saber a qualidade dos “estadistas” que querem “mudar” o país. Em segundo lugar, tenho sérias dúvidas que o “desgaste” do PS seja suficiente para lançar o poder no colo do PSD, como imagina a liderança laranja.
Essa ideia de que o “cansaço” dos portugueses com Sócrates faz com que o PSD apenas precise de ficar sentado e esperar que “as coisas sigam o seu rumo” há muito que se instalou no PSD. No Congresso de Mafra, foi essa ideia que fez inúmeros oradores afirmarem que o partido estava a eleger “o próximo Primeiro-Ministro de Portugal”. Como fora essa ideia a levar os críticos de Manuela Ferreira Leite a dizerem que perante um Governo tão fragilizado por “casos” e desgastado pela “crise”, só mesmo a suposta inabilidade de Ferreira Leite pode explicar a sobrevivência do regime socrático. Mas, como já várias vezes escrevi, quanto mais apodrecido o Governo estiver, mais difícil será pô-lo no lixo.
Em primeiro lugar, porque nem a total describilização é suficiente para o Primeiro-Ministro deixar de se agarrar ao poder como eu gostaria de me agarrar a uma adolescente de qualidade estética superlativa. Como toda a sua história de vida demonstra, o cheiro de matéria fecal manifestamente não incomoda José Sócrates, que, como o outro senhor de The Wire prefere “to live in shit than to be seen to work a shovel”. Por muito que o seu regime apodreça, Sócrates nunca abdicará livremente do trono que ocupa, e de lá só poderá ser arrancado “à bomba”. “Bomba” essa que o Presidente da República, um senhor reconhecidamente pacífico, não quer largar, e longe vai o tempo (esperemos nós) em que os militares se entregavam a essas actividades. A única “bomba” que poderá ser usada será a dos eleitores nas urnas, mas temo que, quanto mais necessária ela se torne, menor seja a probabilidade deles estarem dispostos ao trabalho de a lançar.
Já antes das eleições de Setembro passado o escrevi: é precisamente o facto de vivermos num clima de “fim de regime” do PS que tornará as coisas mais difíceis para o PSD. Em primeiro lugar, a violência e degradação do debate “excita” os “fiéis”, que por muito desagradados que possam estar com Sócrates, não gostam de ver “um dos seus” ser atacado por “eles”. A podridão do regime fidelizará o PS, que tenderá, até à última hora, a proteger Sócrates como se de uma criança indefesa se tratasse (depois da última hora, a canção será outra).
Em segundo lugar, a demagogia reinante favorece os partidos de protesto, mas pequenos, o que estranhamente, acaba por favorecer o PS. O ódio a Sócrates não se traduz forçosamente no voto no PSD, podendo mais facilmente deslocar-se para o CDS ou até para o BE, partidos dados à berraria que faz o gosto do povo. É difícil a um partido que quer ser governo fazer oposição num ambiente político degradado, porque aquilo que pode motivar a conquista de votos (essa mesma degradação do regime do momento) é também aquilo que faz com que as pessoas tenham uma maior predisposição para votar em quem faz barulho, só por fazerem barulho. A degradação do Governo do PS acaba por retirar votos, não apenas ao PS, mas também ao PSD.
Até porque a podridão do Governo, arrastando consigo a desconfiança dos eleitores, traz também uma desconfiança não apenas em relação ao Governo, mas em relação à alternativa. Um Governo que mente, que manipula, que esconde e que parece corromper e estar corrompido, faz com que os eleitores, muito sabiamente, desconfiem de todo e qualquer político que lhes peça a sua confiança. Porquê confiar “nestes”, só porque nos dizem que vão ser diferentes? Os “outros” disseram “o mesmo”, e “foi o que se viu”. A desconfiança dos eleitores em relação a este Governo transforma-se, muito rapidamente, numa descrença na palavra de toda a classe política. Quanto pior o PS for, quanto mais degradado o Governo estiver, mais agreste será o clima político para aqueles que queiram promover uma alteração do estado das coisas (deixemos de lado a “mudança” obâmica, ela própria um produto e causa da podridão). Quanto menos as pessoas acreditarem no PS, menos acreditarão na possibilidade de “os outros” serem diferentes.
Os actuais responsáveis do PSD estão a seguir uma estratégia comum a alguns treinadores de futebol: tendo um ponta-de-lança alto e forte na equipa, deixam-no plantado junto à defensiva contrária, para que quando a equipa recuperar a bola, apanharem o adversário quando a sua defesa está desprotegida. O problema está em que jogar dessa forma implica o risco de, por se ter menos um jogador envolvido em tarefas defensivas (ou, no caso do PSD, por não fazer oposição e preferir queimar o PS lentamente), não ser capaz de recuperar a bola e portanto não ter oportunidades de atacar a baliza contrária. Não espero grandes tratados filosóficos de Relvas e companhia, mas um mínimo de bom senso permitir-lhes-ia perceber que, ao PSD, ficar plantado na àrea à espera da bola talvez não seja suficiente, e que ao fazê-lo o partido laranja talvez se arrisque a ser apanhado em fora-de-jogo. Mas, como já se viu, bom senso não é um bem em excesso por aqueles lados.
Maio 10, 2010
Do que é que precisamos: mais ou menos “Europa”?
Ontem, “celebrou-se” (por assim dizer) o “Dia da Europa”. Ao contrário do que os euroentusiastas mais excitadas gostariam, os tempos não estão para grandes festas, e as “celebrações” passaram ainda mais despercebidas dos “europeus” do que é usual. Preocupados em evitar que a Grécia rebente (ainda mais) e outros países apanhem com os estilhaços, nem mesmo os propagandistas do costume gastaram muito tempo a falar das maravilhas da “união”. No entanto, de forma mais ou menos envergonhada, lá aproveitaram as reuniões de emergência para o “salvamento” da Grécia para nos explicarem como todo o tumulto é a prova de que precisamos de “mais Europa”.
O raciocínio desta gente é simples: a crise actual mostra como “os problemas de hoje” são “problemas globais”. E, dizem-nos, “problemas globais” requerem “soluções globais”. As “complicações” (para ser generoso) enfrentadas pela Grécia (e, não esqueçamos, Portugal) mostram, continua o argumento, como nenhum país tem capacidade para enfrentar crises como a actual sozinho, e portanto, como “construções” como a União Europeia são indispensáveis no “mundo globalizado de hoje”.
Mas e se a actual crise, o que mostra, realmente, é que “soluções globais” são a pior opção possível? E se o que a crise mostra é como precisamos de menos “Europa”, em vez de uma “maior e mais profunda intergração”? Há algum tempo, no New York Times, David Brooks pegava na “gripe A” (ainda se lembra, caro leitor?) e colocava a mesma pergunta aos que, tal como os europeístas de hoje, procuram “soluções globais para problemas globais”: “a couple of years ago”, escreve Brooks, “G. John Ikenberry of Princeton wrote a superb paper making the case for the centralized response. He argued that America should help build a series of multinational institutions to address global problems. The great powers should construct an “infrastructure of international cooperation … creating shared capacities to respond to a wide variety of contingencies.” If you apply that logic to the swine flu, you could say that the world should beef up the World Health Organization to give it the power to analyze the spread of the disease, decide when and where quarantines are necessary and organize a single global response. If we had a body like that, we wouldn’t be seeing the sort of frictions that are emerging from today’s decentralized approach. Europe has offended the U.S. by warning its citizens not to travel across the Atlantic. Ukraine is restricting pork imports. Europe could hoard flu vaccines, leaving the U.S., which has only one manufacturing plant, high and dry. Fear of a pandemic could lead to a restrictionist race, as nations compete to curtail movement and build walls. Those dangers are all real. Yet, so far, that’s not the lesson of this crisis. The response to swine flu suggests that a decentralized approach is best. This crisis is only days old, yet we’ve already seen a bottom-up, highly aggressive response. In the first place, the decentralized approach is much faster. Mexico responded unilaterally and aggressively to close schools and cancel events. The U.S. has responded with astonishing speed, considering there are still few illnesses and just one hospitalization (…) A single global response would produce a uniform approach. A decentralized response fosters experimentation. The bottom line is that the swine flu crisis is two emergent problems piled on top of one another. At bottom, there is the dynamic network of the outbreak. It is fueled by complex feedback loops consisting of the virus itself, human mobility to spread it and environmental factors to make it potent. On top, there is the psychology of fear caused by the disease. It emerges from rumors, news reports, Tweets and expert warnings. The correct response to these dynamic, decentralized, emergent problems is to create dynamic, decentralized, emergent authorities: chains of local officials, state agencies, national governments and international bodies that are as flexible as the problem itself.”
Tal como a “gripe A”, a crise económica mostra como vivemos num mundo de imprevisibilidade e risco. E tal como Brooks, tenho sérias dúvidas que “respostas globais”, ou “europeias”, sejam a melhor forma de viver num mundo como o nosso. Não seria melhor termos uma diversidade de respostas aos problemas, em vez de caminharmos todos para o abismo? não deveríamos nós aceitar a natureza imprevisível, caótica, arriscada, do mundo globalizado de hoje, ee correr o menor número de riscos possível na configuração dos próprios arranjos políticos. Precisamente por os riscos de qualquer decisão serem enormes, não só para quem a toma como para todos os outros, deveremos limitar, não o número de pessoas que tomam decisões, mas o número de pessoas sujeitos a um só decisor: se eu e o meu vizinho fizermos duas apostas diferentes, pode acontecer que eu perca, mas que ele ganhe. E mesmo que o facto de eu perder possa ter impacto sobre o ganho dele, o que é verdade é que ele ganhou alguma coisa, minorando o impacto que a minha perda possa ter nele; se o “Grande Regulador” fizer uma aposta em nome dos dois, ambos vamos perder o mesmo, sem nada que sirva de almofada a qualquer um de nós. E sim, é verdade que a nossa tendência para copiarmos as respostas que os outros dão significa que, muitas vezes, estamos a copiar respostas erradas. Mas também significa que, outras vezes, estamos a copiar respostas certas. Se um “Grande Regulador” der as respostas por todos nós, ou decidir qual o leque de respostas admissíveis, todos beneficiaremos quando ele tiver razão, mas o impacto de uma resposta errada será também muito maior, porque todos estarão errados.
A “Europa”, como seria de esperar, não está a seguir por este caminho. De certa maneira, a opção europeia é inevitável: como explicava o Miguel Morgado há dias, a única forma de salvar o euro será através de maior “integração” (o termo em EUROSOC para “subordinação nacional a Bruxelas”). Mas como o próprio Miguel notava, o facto de uma política “salvar” o euro não significa que ela não crie outros problemas, eventualmente mais graves e mais dificeís de resolver. A “saída” europeia da crise corre o risco de ignorar a principal lição que se deveria tirar da dita crise: a imprevisibilidade do nosso mundo, e a irracionalidade de algumas das nossas decisões, são factores que não podemos dispensar ao pensarmos acerca de como deverão ser os nossos arranjos políticos. Mas devemos considerar ambos igualmente, e levá-los a sério: deveremos perceber que todos podemos fazer escolhas erradas, e perceber que qualquer escolha pode ter consequências imprevisíveis. E que por isso, será melhor que o processo de escolha seja o mais disseminado possível, para que ninguém possa escolher por todos, para que o impacto de uma escolha errada seja o menor possível. “Mais Europa” é precisamento um exemplo do que não precisamos.
Maio 4, 2010
O Governo finge que existe
Há uns dias, e depois de vários meses que os “passistas” passaram a avisar para o perigo do “regresso” do “Bloco Central” com Manuela Ferreira Leite, o seu “chefe” (o “jovem” que tudo ia “mudar” e fazer “verdadeira oposição”) foi a um beija-mão ao Sr. Primeiro-Ministro, garantir-lhe que o PSD iria ficar caladinho nos próximos tempos, enquanto o PS finge que resolve os problemas e, na realidade, os deixa tornarem-se cada vez mais graves. O Primeiro-Ministro, claro, agradeceu, e o país, como de costume, pagará caro.
As novas medidas “restritivas” da atribuição do subsídio de desemprego são um bom (salvo seja) exemplo desse preço. Essas medidas até parecem um bom exemplo de saudável pensamento económico: se o Estado pagar menos subsídio de desemprego aos desempregados, estes terão menos incentivos para continuarem desempregados. Mas, mais do que uma demonstração de inteligência e bom senso dos responsáveis socialistas, esta medida mostra apenas o quão intelectualmente cromagnon é o Governo.
Ao contrário do que Sócrates e os seus meninos (com o silencioso beneplácito de Passos Coelho e o seu malcriado guru Nogueira Leite), não consta que o problema do desemprego em Portugal se deva a uma chusma de preguiçosos que ficam sentados a sugarem os contribuintes enquanto os empregos florescem no mercado de trabalho. Pelo contrário. Os dois grandes problemas do desemprego devem-se, por um lado, à morte de certas actividades que, pura e simplesmente deixaram de ser rentáveis, e que lançam no desemprego uma série de pessoas que nunca de lá sairão, e por outro, à falta de flexibilidade do mercado de trabalho: é difícil despedir, o que faz com que seja difícil contratar, o que faz com que o problema do desemprego não seja um problema de falta de procura por parte dos desempregados, mas essencialmente de oferta de empregos.
Ser menos “generoso” na atribuição dos subsídios de desemprego, nestas circunstâncias, pouco ou nada fará para resolver o problema, pela simples razão de que o problema não está aí. Com tais medidas, o Governo (e Passos Coelho) apenas deixarão desempregados de longo prazo, que, devido à rigidez do mercado de trabalho, terão dificuldade em arranjar emprego por muito que o procurem, em maiores dificuldades. Como de costume, na sua ânsia de se mostrar “activo” e “actuante” (“in the parlance of our times”) perante a crise, Sócrates deixa imaculados os verdadeiros problemas, e cria outros como se o país já não tivesse os suficientes. Como se estas pérolas de “sensibilidade social” (algo que o PS sempre disse apreciar bastante, mas de que se esquece regularmente) não fossem suficientes, o Governo insiste (com protestos envergonhados do PSD) na necessidade de esbanjar dinheiro no TGV e restantes obras de “investimento público” (que, quando convém, são “de capital privado”. O “melhor” de dois mundos, portanto). O que mostra bem como não é só o TGV que precisa de ser suspenso, mas o próprio Governo (e a oposição) que deveria ser convenientemente dinamitado, antes que seja todo o país a rebentar.
Março 19, 2010
Quanto mais apodrecido estiver o Governo, mais difícil será pô-lo no lixo
No exercício vagamente deprimente que foi o último Congresso do PSD, foi muito mencionada a ideia de que o partido laranja se prepara para escolher “o próximo Primeiro-Ministro de Portugal”. Apesar de, em parte, esta ser uma declaração mais ou menos de circunstância, típica de gente apostada em “animar as tropas”, mais indicadora da pobreza das cabecinhas que a emitem do que da realidade da cena política portuguesa (tal como a expressão “cena política portuguesa” indica a pobreza da minha), ela é também reflexo de um “estado de espírito” acerca do Governo e do seu futuro imediato: ela reflecte a ideia de que o Governo está como que “ferido de morte”, e que “cairá de podre” mais tarde ou mais cedo, entregando no doce regaço da pobre alma que estiver na presidência do PSD a tarefa de tirar Portugal do rosadinho buraco em que Sócrates e os seus aguadeiros nos afundaram.
Foi essa ideia (e claro, a possibilidade de castigar “aqueles que falam contra o partido”) que animou o Congresso de Mafra, tal como foi essa ideia que penalizou a avaliação do mandato de Ferreira Leite: por várias vezes, nos últimos meses, muito bom e mau analista achou por bem dizer que, perante um Governo tão fragilizado por “casos” e desgastado pela “crise”, só mesmo a suposta inabilidade de Ferreira Leite pode explicar a sobrevivência do regime socrático. A crer nestas “análises”, a solução para os problemas do PSD (e do país) seria fácil: bastaria encontrar um político “hábil”, ou seja, um mentiroso sem escrúpulos como Sócrates, e como políticos mentirosos e sem escrúpulos é o que não falta no PSD, a tempestade estaria próxima do fim.
Não querendo estragar a festa laranja (até porque o próprio partido se encarrega de o fazer), devo dizer que esta ideia de que a total descredibilização do PSD facilita a tarefa do PS é uma ideia profundamente errónea. Aliás, a derrota de Ferreira Leite parece-me ser precisamente uma prova disso. Ao contrário do que o PSD parece pensar, e do consenso generalizado da “inteligência” pátria, quanto mais apodrecido o Governo estiver, mais difícil será pô-lo no lixo.
Em primeiro lugar, porque nem a total describilização é suficiente para o Primeiro-Ministro deixar de se agarrar ao poder como eu gostaria de me agarrar a uma adolescente de qualidade estética superlativa (ou alguém capaz de disparar um bom insulto. Cheguei ao ponto em que já me contento com pouco). Como toda a sua história de vida demonstra, o cheiro de matéria fecal manifestamente não incomoda José Sócrates, que, como o outro senhor de The Wire prefere “to live in shit than to be seen to work a shovel”. Por muito que o seu regime apodreça, Sócrates nunca abdicará livremente do trono que ocupa, e de lá só poderá ser arrancado “à bomba”. “Bomba” essa que o Presidente da República, um senhor reconhecidamente pacífico, não quer largar, e longe vai o tempo (esperemos nós) em que os militares se entregavam a essas actividades. A única “bomba” que poderá ser usada será a dos eleitores nas urnas, mas temo que, quanto mais necessária ela se torne, menor seja a probabilidade deles estarem dispostos ao trabalho de a lançar.
Já antes das eleições de Setembro passado o escrevi: é precisamente o facto de vivermos num clima de “fim de regime” do PS que tornará as coisas mais difíceis para o PSD. Em primeiro lugar, a violência e degradação do debate “excita” os “fiéis”, que por muito desagradados que possam estar com Sócrates, não gostam de ver “um dos seus” ser atacado por “eles”. A podridão do regime fidelizará o PS, que tenderá, até à última hora, a proteger Sócrates como se de uma criança indefesa se tratasse (depois da última hora, a canção será outra).
Em segundo lugar, a demagogia reinante favorece os partidos de protesto, mas pequenos, o que estranhamente, acaba por favorecer o PS. O ódio a Sócrates não se traduz forçosamente no voto no PSD, podendo mais facilmente deslocar-se para o CDS ou até para o BE, partidos dados à berraria que faz o gosto do povo. É difícil a um partido que quer ser governo fazer oposição num ambiente político degradado, porque aquilo que pode motivar a conquista de votos (essa mesma degradação do regime do momento) é também aquilo que faz com que as pessoas tenham uma maior predisposição para votar em quem faz barulho, só por fazerem barulho. A degradação do Governo do PS acaba por retirar votos, não apenas ao PS, mas também ao PSD.
Até porque a podridão do Governo, arrastando consigo a desconfiança dos eleitores, traz também uma desconfiança não apenas em relação ao Governo, mas em relação à alternativa. Um Governo que mente, que manipula, que esconde e que parece corromper e estar corrompido, faz com que os eleitores, muito sabiamente, desconfiem de todo e qualquer político que lhes peça a sua confiança. Porquê confiar “nestes”, só porque nos dizem que vão ser diferentes? Os “outros” disseram “o mesmo”, e “foi o que se viu”. A desconfiança dos eleitores em relação a este Governo transforma-se, muito rapidamente, numa descrença na palavra de toda a classe política. Quanto pior o PS for, quanto mais degradado o Governo estiver, mais agreste será o clima político para aqueles que queiram promover uma alteração do estado das coisas (deixemos de lado a “mudança” obâmica, ela própria um produto e causa da podridão). Quanto menos as pessoas acreditarem no PS, menos acreditarão na possibilidade de “os outros” serem diferentes. Por muito que me custe, temo que o “próximo Primeiro-Ministro de Portugal” seja precisamente o que lá está hoje.
Março 12, 2010
O futuro do PSD
Não tenho escrito sobre as eleições no PSD, em parte por desvio da minha atenção para outras ocupações, em parte por pura preguiça. Além disso, o que penso acerca do PSD, o que penso acerca do que o PSD deve ser, não mudou nada nos últimos anos. A relativa pobreza do país, que convida os nativos a guardarem o pouco que têm e não a correrem os riscos necessários para poderem passar a ter mais, parece ser suficiente para deitar por terra as pretensões de “liberalizar” o país. Mas com um pouco de coragem e habilidade políticas, talvez seja possível encontrar um eleitorado disposto a apoiar um PSD liberal.
Há um conjunto de pessoas que estaria sempre disposto a votar em qualquer partido que pretenda emagrecer o Estado. Para pessoas que, como este vosso escriba, desconfiam da espécie humana ao ponto de quererem ser o menos possível governadas pelo seu semelhante, ou para “liberais clássicos”, que entendem ser o modelo liberal o mais adequado à natureza humana, tais propostas seriam sempre positivas. São poucas, é certo, mas outras poderiam juntar-se-lhes: “sociais-democratas”, no sentido tradicional do termo, pessoas que, acreditando na “justiça social” (e que é função do poder político obtê-la), se dispõem a apoiar as propostas que melhor lhes pareçam satisfazer tal pretensão. Para ser uma verdadeira alternativa ao PS, e assim regressar ao poder e exercê-lo em vez de ser seu refém, o PSD precisa de, adoptando um programa “liberalizante”, criar uma “coligação de vontades” que, indo da “direita” ao “centro-esquerda” (como o fizeram Sá Carneiro e Cavaco), concentre a sua campanha nesse “centro-esquerda”. E que o faça, não cedendo ao estatismo que esses eleitores tradicionalmente preferem, mas procurando mostrar-lhes como o liberalismo, mais do que o Estado Social a que se afeiçoaram, promove melhor a tal “justiça social” que desejam, melhor promove uma sociedade na qual não apenas eles, mas também o seu vizinho, poderão ter uma vida melhor.
No fundo, o PSD deverá adoptar um programa liberal, e perguntar aos que não o são se será “justo”, por exemplo, que a classe média seja sufocada por impostos que a impedem de suportar encargos com os seus pais já reformados, obrigando assim o Estado a ocupar o seu lugar, e dessa forma, retirar a uma população activa cada vez mais diminuta uma parte cada vez maior do seu rendimento, para dar a um crescente número de seus dependentes um rendimento cada vez mais escasso? Será “justo” que uma parte cada vez maior da sociedade faça descontos para um sistema de pensões do qual sabe nunca poder vir a beneficiar? Será “justo” que, sob a ilusão de um SNS “tendencialmente gratuito”, se aumentem os custos individuais com o recurso a esse mesmo SNS? Será “justo” que, devido ao espartilho legislativo que sufoca o mercado de arrendamento, os jovens sejam praticamente obrigados a comprar uma casa e a contrair o endividamento eterno que a acompanha?
Deverá depois convencê-los de que é mais “justo” deixar o mercado funcionar, e “amparar” a queda dos que não tiverem a sorte ou a capacidade de serem bem sucedidos, do que, como no mercado da habitação, o Estado acabar por criar problemas mais graves do que aqueles que, com a sua intervenção, pretende resolver. De que é mais “justo” que sejam os doentes (e idealmente apenas os que não tiverem recursos suficientes para o fazer por si próprios) a serem financiados, em vez dos hospitais, de forma a que o estes últimos deixem de depender do Ministério da Saúde e respondam às necessidades dos que a eles recorrem. De que é mais “justo” que os indivíduos tenham a liberdade de escolher a quem entregam as suas pensões, do que ficarem presos a um sistema condenado à falência. No fundo, de que uma sociedade mais livre será uma sociedade mais “justa”.
O PSD era tradicionalmente visto como um partido de pessoas que queriam subir na vida. Anos e anos de poder transformaram-no num partido de pessoas que querem manter o emprego público. Ao mesmo tempo, os portugueses foram sendo amarrados a um Estado Social que apenas garante o empobrecimento generalizado da população. Nenhum partido, excepto o PSD, os poderá libertar. E se é verdade que não o tem querido fazer, também parece ser cada vez mais verdadeira a ideia de que não lhe resta outra alternativa que não passar a querer. O líder do PSD, seja qual for o seu nome, terá de perceber isto, se quiser libertar o partido da letargia que o tem caracterizado, e os portugueses do Estado que os sufoca. E terá de perceber que, ao contrário dos seus antecessores, terá de conduzir a opinião pública, em vez de ser conduzido por ela. O melhor candidato á liderança será aquele que melhor perceber isto. Passos Coelho não o será certamente, embora provavelmente venha a ser o vencedor. Resta saber quem merecerá mais o cargo, se Rangel se Aguiar Branco. Talvez este Congresso sirva para o perceber.
Fevereiro 13, 2010
A falência do socratismo
Ontem, no sítio onde compro os jornais aqui em Caxias, havia mais actividade do que num relvado em que estão os jogadores do Sporting. Gente que eu nunca vi na vida entrava na loja, perguntando se havia o Sol. Todos faziam piadas, todos mostravam uma indisfarçável satisfação em ver, bem à vista de todos, a natureza dúbia das personagens que nos governam. O cenário, aparentemente, repetiu-se um pouco por todo o país. Quiosques com gente a pedir o jornal antes da hora de abertura, e-mails circulando com versões em pdf do jornal, e até versões fotocopiadas do Sol começaram a ser vendidas. Nada exemplifica melhor a total falência do socratismo: ontem, só mesmo os “abrantes” e “magalhães” não sentiram um enorme alívio ao ver o esgoto moral do governo ficar a céu aberto, restando apenas esperar que alguém venha finalmente resolver um problema que há muito era evidente que existia. Ontem, a procura do Sol foi um reflexo do nojo que os portugueses sentem por este governo, e em particular, pelo fato Armani que vive em S. Bento. Foi um sinal do desprezo que nutrem pelo “engenheiro” Sócrates, da sua vontade de o ver pelas costas, e da sensação que têm de que não falta muito para isso acontecer. Apenas temo que, como o cheiro da matéria fecal manifestamente não incomoda o Primeiro-Ministro, essa saída não esteja para tão breve assim.
Janeiro 13, 2010
À falta de coisas importantes para discutir, o país político dedica-se às presidenciais
Manuel Alegre deu, este fim-de-semana, uma entrevista ao Expresso, mais uma oportunidade para falar longamente sobre o assunto que mais gosta, ele próprio (entre a entrevista e as fotos de Clara Pinto Correira em “êxtase sexual”, que fizeram as delícias de metade do país, e encheram de pesadelos o sono da outra metade, na qual me incluo, não houve grande diferença). A dada altura, o ex-deputado dizia que Cavaco Silva “sabe gerir os silêncios, mas não sabe gerir a palavra”, o que mostra que, se é verdade que o júri ainda está à procura de um veredicto acerca de se Alegre sabe gerir a palavra ou não, pelo menos fica claro que não sabe dar grande sentido às ditas.
Mas deixemos as graças de lado, até porque Alegre não merece ser gozado, pois cumpre um papel importantíssimo na manutenção da paz e tranquilidade na sociedade portuguesa. Se não fosse ele, e o seu gosto em mostrar que nada tem para dizer, o que teria sido dos jornalistas esta semana? Findo (por agora) o festival do casamento gay, centenas de jornalistas e comentadores entraram em pânico, sofrendo profundos e severos ataques de ansiedade por terem ficado sem assunto sobre o qual terem milhares de opiniões, nenhuma dela fundamentada. Teriam que se preocupar com o défice? Fazer reportagens sobre a sustentabilidade (ou falta dela) da Segurança Social? Limitar-se-iam a entrevistas a Pedro Passos Coelho, outro homem visivelmente apaixonado por si próprio? Esta última hipótese não preocupava especialmente a redacção do Diário de Notícias, que não tem feito outra coisa nos últimos tempos, mas certamente não fazia as delícias dos restantes. Felizmente, Alegre resolveu falar, e daquele conjunto de sons mal articulados, logo os jornalistas fizeram brotar um assunto de “debate”: as presidenciais de 2011.
Diga-se de passagem (e muito, muito, a contragosto) que o tema não é totalmente descabido. Dada a situação política actual, as eleições presidenciais de 2011 poderão ter um impacto significativo na realidade política (embora, dado o adormecimento que parece agradar a todos nós, o mais provável é que fique tudo exactamente na mesma). Mas o que excita os jornalistas (que, no entanto, não exibem fotos disso em galerias de Cascais) é mesmo a eterna dúvida “será que Alegre se candidata?”, e as intrigas palacianas que ela acarreta, especialmente tratando-se do PS, onde estas coisas têm sempre um certo fascínio, só superado pelas do PSD (quem tem Santana Lopes consegue sempre oferecer outra magia).
Gente mais sensata, como o Luciano Amaral, também se preocupou com as presidenciais de 2011. Diz o Luciano que a “última coisa de que o primeiro-ministro gostaria” seria “ter de lidar com um Presidente Alegre. Ora, é esse mesmo o outro real candidato a perfilar-se no horizonte. Um Presidente Alegre tornaria Sócrates refém da maioria parlamentar de esquerda (ou pelo menos da quase-maioria com o BE), o caminho certo para a sua irrelevância ou para o fim da sua credibilidade governativa. Onde chegamos a uma situação interessante. Entre a penúltima” (ter de lidar com Cavaco silva novamente) “e a última coisa de que menos gostaria, talvez o primeiro-ministro devesse preferir a primeira, o que reeditaria as circunstâncias das últimas presidenciais: apoio oficial a um candidato de esquerda e multiplicação de sinais mostrando que se preferiria o de direita. Sócrates bem esperneia, mas, na ausência de uma invenção catastrófica, ainda vai ter de acalmar o seu tom com o Presidente.”
Não discordando da análise do Luciano, falta-lhe uma outra hipótese, sobre a qual em tempos já escrevi: Sócrates avançar ele próprio contra Cavaco Silva. O resultado das últimas eleições, e a atmosfera de cortar à faca da política portuguesa nos últimos tempos, fazem-me ver tal cenário como cada vez mais provável: sem maioria absoluta, Sócrates ou governava em minoria ou com uma coligação com um qualquer partido que lhe será pouco menos que hostil (CDS ou BE). Descanso, era coisa que nunca teria (nem terá) fizesse o que fizesse. Eleições antes do tempo serão praticamente inevitáveis. O potencial de conflito com o presidente é enorme, e a melhor desculpa que o PS poderá usar para se vitimizar, estratégia indispensável em eventuais eleições antecipadas. E nada melhor para radicalizar esse conflito com o Presidente, e assim recorrer à única estratégia que poderá salvar o PS na difícil conjunutra que o espera, será Sócrates candidatar-se ele próprio à Presidência, para remover a “força de bloqueio” (aposto mesmo que este será o termo usado) que “impedirá o PS” de “dar futuro a Portugal”. Se a política portuguesa chafurdou na lama nos últimos anos, agora será muito pior. O que certamente deixará os jornalistas um bocadinho mais descansados.
Dezembro 28, 2009
“Investir” na família
A primeira página do I de hoje exclama, em tom meio indignado, que “Portugal é dos países que menos investem na família” (o que, conhecendo algumas famílias portugueses, se compreende. Seria dinheiro deitado à rua). Aparentemente, o Estado português “só gasta 1,2% do PIB em apoios à família”. É sabido como em Portugal toda a gente gosta de “apoios” (eu, por exemplo, sonho que o Estado um dia me apoie, atribuíndo-me um subsídio a quem gosta de ver muitos filmes, muita televisão, ou para que eu pudesse ficar em casa até ao fim dos meus dias sem ter de contactar com outros seres humanos), e como todo e qualquer Governo gosta de se dizer “amigo da família”, em especial da “natalidade”. Ninguém de bom senso (o que, por acaso, até não é o meu caso) negaria a importância das famílias (ou, pelo menos, de algumas) numa sociedade decente, ou os problemas associados à baixa natalidade, como a insustentabilidade da Segurança Social (não que esse problema exista em Portugal. Como todos sabemos, Portugal enfrentou com sucesso esse “desafio”: Guterres resolveu o problema para os 100 anos seguintes, e Sócrates garante ter resolvido o problema segunda vez, meia década depois). Mais duvidoso é que os tais “apoios” que o I considera serem escassos servissem para apoiar outra coisa que não os empregos no funcionalismo público dedicados a distribuí-los.
Como a grande maioria das “reclamações” dos portugueses, e das políticas que apelas aos nossos governantes, os “apoios” à família e à natalidade sobrecarregam mais do que “apoiam”. Ninguém, por exemplo, decide ter um filho porque o Estado lhes dá os trocos por isso. Mesmo que, porventura, o subsídio fosse elevado ao ponto de alterar a opção das pessoas, o resultado não seria muito bom: estar-se-ia a criar uma espécie de “parideiras públicas”, transformando a maternidade em profissão paga pelo contribuinte, como, segundo relatos, é o caso em certas camadas mais desfavorecidas da população inglesa.
Mas o que nunca ocorre aos Governos que se deixam enamorar pela retórica natalista e “amiga da família” é que se ninguém escolhe constituir família porque o Estado lhes dá um subsídio, há quem escolha não o fazer porque tal implica a compra de uma casa (e o endividamento eterno que a acompanha), porque tem de abdicar de metade do seu rendimento para permitir que o Estado distribua “apoios” pelos vários objectos da sua predilecção, porque no começo da vida activa a sua situação laboral é precária sem que o mercado seja flexível o suficiente para que lhe seja fácil arranjar outro emprego. Se o Estado quer “apoiar” as famílias, não precisa de “investir” nelas. Precisa de sair da frente, e deixar que se crie um verdadeiro mercado de arrendamento. Precisa de sair da frente, e deixar de sugar uma parte tão grande do rendimento dos contribuintes. Precisa de sair da frente, e deixar que as relações contratuais no mundo do trabalho sejam mais livres. As famílias, mais do que de mais “apoio”, precisam de menos carga.
Dezembro 14, 2009
O verdadeiro Portugal
Há dias, no Corta-Fitas, João Távora embarcava no comportamento tão típico do “intelectual português” que é a busca da salvação do país, e, como é habitual na espécie, chegava à brilhante conclusão de que “a resolução do imbróglio português só poderá sair duma solução de “salvação nacional” amplamente consensual e de forte liderança”, e de que “é urgente redescobrir a verdadeira alma portuguesa para fundar um novo ciclo”. Deixando de lado a prosa: é difícil dizer qual destas duas “conclusões” é a menos perspicaz.
Comecemos pela “salvação nacional amplamente consensual”. É espantoso como sempre que surge uma crise particularmente grave, toda a gente se lembra de pedir aos políticos que “ponham de lado as divergências” e “se unam” para se encontrar uma “resposta” para os graves problemas que nos afectam. Não ocorre aos suplicantes que é precisamente nas alturas de crise que não só é mais díficil chegar a “consensos amplos” como eles nem sequer são particularmente desejáveis: tais “consensos” são improváveis, pois é em períodos particularmente conturbados e difíceis que as opções à disposição das pessoas se tornam mais radicais, mais drásticas; é portanto apenas e só natural que as divergências entre políticos de uma orientação e outra se tornem ainda mais conflituantes, ainda menos dispostos a chegar a um consenso do que em tempo de “vacas gordas”; em segundo lugar, esses “consensos”, a existirem, são pouco desejáveis pois mais não seriam que um compromisso entre opções mutuamente incompatíveis, um cozinhado aquecido e reaquecido nos microondas das salas do Rato e da São Caetano, concebidos para agradar a toda a gente e destinados a não servir a ninguém que não os que deles recebessem um lugarzinho ou outro numa generosa empresa pública.
Pior que essa curiosa fé no “consenso amplo”, só mesmo o desejo de redescobrir “a verdadeira alma portuguesa” para, com ela, “fundar um novo ciclo”. Não ocorre a João Távora que a “verdadeira alma portuguesa” possa ser precisamente aquela que “fundou o ciclo” a que ele quer pôr fim. Não ocorre a João Távora que “isto” possa ser precisamente aquilo que os portugueses querem. Como em tempos escrevi, Portugal deixou há muito pouco tempo de ser um país verdadeiramente pobre. Há, por isso, uma “memória social” (perdoe-se o jargão) relativamente avivada da penúria, da fome, da miséria. Comparadas com a condição permanente da vasta maioria dos portugueses até há poucas décadas, as agruras desta “crise” são um verdadeiro paraíso, insuficientes para alarmar quem ainda tem a falta de comida como termo de comparação e avaliação da sua condição.
Ainda para mais, a grande maioria do eleitorado certamente se lembra da crise de 73, da do final dos anos 70, da dos anos 80. Um período de dificuldades económicas não é novidade para essa grande parte dos portugueses. E quanto aos eleitores mais novos, desde 2000 que vivem em “crise”, praticamente não se lembram de viver noutro estado que não o de “crise”, e portanto, vêem-na como algo de “normal”, não como algo que justifique uma mudança drástica. Pouca gente em Portugal sente que a estagnação (o destino inevitável do país se não se fizer “alguma coisa”) lhes fará perder o que quer que seja. Já as “reformas” aparecem como a ameaçadora possibilidade de muitos deles perderem alguns dos “benefícios” que o Estado vai fingindo que lhes dá. Entre a calma da estagnação (pouco assustadora se a compararmos com o passado recente do país) e a incerteza das reformas, muitos preferem a estagnação.
Os únicos que poderão perder alguma coisa se a “crise” continuar a ser “normal” (e a ser cada vez mais “normal”) são os que ganharam alguma coisa com a relativa prosperidade dos anos de Cavaco e Guterres. Infelizmente, essa prosperidade veio em grande parte do aumento do funcionalismo público, dos “fundos” europeus e da facilidade do endividamento, ou seja, do Estado e de coisas que ou acabaram de vez ou serão insustentáveis se continuarem. O que quer dizer que os únicos que poderiam ter alguma motivação para querer que a “crise” não se torne “normal”, têm, ao mesmo tempo, muitas razões para não quererem arriscar as “reformas”. É perfeitamente plausível que prefiram comer as poucas maçãs que ainda lhes restam antes que apodreçam, em vez de plantarem outra macieira para passarem a ter mais maçãs para comer. O facto de termos chegado ao “fundo do poço” não quer dizer que façamos tudo para voltar à superfície. Podemos optar por aproveitar o pouco que temos, antes de ficarmos com ainda menos. É uma opção pior, diz o caro leitor, e eu acho que o leitor tem razão. Mas nada nos garante que optemos pelas melhores soluções. A “alma portuguesa” teve, aliás, uma oportunidade de mostrar o que queria há bem pouco tempo. E o que quis foi precisamente “isto”. E eu bem que gostava de acreditar que nada disto é verdade, mas infelizmente é mesmo.
Novembro 16, 2009
Escutando Sócrates
Há uns anos, na Hungria, veio a público uma gravação do então Primeiro-Ministro, em que este admitia ter mentido aos eleitores acerca da verdadeira situação das contas públicas do seu país, provocando um compreensível escândalo público e uma série de manifestações violentas. Obviamente, essa gravação era tudo menos legal. Mas uma vez realizada, e uma vez tornada pública, as pessoas não podiam ignorar aquilo que ela revelava.
Imaginemos que um qualquer autarca era objecto de uma escuta ilegal por parte do DIAP do seu distrito era “apanhado” a organizar uma qualquer actividade criminosa. Esse imaginário autarca, por razões óbvias, não poderia ver essas provas usadas contra si em tribunal. Tendo sido ilegalmente obtidas, por muito que elas provassem a culpabilidade do dito autarca, não poderiam servir para o julgar criminalmente. No entanto, todos nós ficaríamos a saber que esse autarca havia estado envolvido em actividades criminosas. Não é difícil de imaginar as reacções da “inteligência” pátria: todos os colunistas e comentadores colocariam em causa o carácter do dito autarca, e exortariam os seus munícipes a não votarem nele.
Curiosamente, não têm essa reacção quando tal acontece a José Sócrates. Aparecem relatos de escutas que indicam que José Sócrates terá mentido ao Parlamento ao negar ter interferido no negócio da TVI, e a discutir “ajudas” ao “amigo Joaquim”. De imediato, inciou-se uma discussão acerca da legalidade das ditas escutas: há quem diga que são legais, e portanto passíveis de serem usadas como prova, e quem negue essa legalidade, dizendo que terão de ser destruídas. Essa é uma discussão importante, mas apenas relevante para saber se Sócrates deverá ou não ser alvo de um processo judicial. O facto de as escutas serem ou não legais é absolutamente irrelevante para o nosso julgamento do que lá é revelado. Elas poderão não ser suficientes para pôr Sócrates em tribunal. Mas, a confirmar-se que elas dizem o que se diz que dizem, elas são suficientes para nós sabermos que Sócrates mentiu ao Parlamento, para sabermos que interferiu em negócios privados, e para sabermos que usa o poder para o qual foi eleito para dar “ajudas” a “amigos” como “o Joaquim”. São suficientes para nós formarmos uma opinião sobre o carácter duvidoso do Primeiro-Ministro, e emitirmos um julgamento sobre a forma como ele usa o poder. Gente sem vergonha na cara mas com o bolso cheio (as “ajudas” de Sócrates aos seus “amigos”, pelos vistos, são bem generosas) mostra-se muito preocupada com o Estado de direito e os atentados contra este, motivados pelo uso de escutas ilegais (e isto dando de barato que são ilegais, algo com que nem toda a gente concorda). No entanto, não se preocupam tanto quando o primeiro-Ministro usa o tal “Estado de direito” (convenientemente “torcido”) para benefício próprio e dos seus “amigos”.
Novembro 7, 2009
O intervalo
O debate que esta semana teve lugar no Parlamento, sobre o programa de Governo do executivo Sócrates, e as “análises” que desse debate se foram fazendo na comunicação social, foram (infelizmente) uma pequena amostra do que serão os próximos tempos. O Governo, como de costume, vive no mundo de ilusão que só existe na linguagem propagandística que insiste em nos impingir. Para o Governo, os últimos anos foram um período de incessante sucesso, de grandes “conquistas” e recheado de “momentos históricos”, que só “bota-abaixistas” e “pessimistas” se escusam a aceitar, certamente por “inveja” e “ressentimento”. Os que se seguem serão, a acreditar nas palavras do Primeiro-Ministro, uma continuação da imparável caminhada de Portugal em direcção à “modernidade”.
Sempre que a oposição tem o descaramento de lembrar Sócrates de que a economia está em crise, que o défice derrapou, e que os problemas do país não têm fim à vista, ele ignora a evidência, e acusa os outros partidos de ainda não terem percebido que perderam as eleições. Estes, claro, retribuem a acusação, dizendo ao Primeiro-Ministro que ele é que não percebeu que já não tem maioria absoluta. Mas o que os debates mostraram foi como todos eles perceberam muito bem o que aconteceu nas últimas eleições. A oposição não podia senão perceber que perdera as eleições. E o PS tem a plena consciência de que não governará com a facilidade que encontrou nos últimos quatro anos. É por isso que o debate foi como foi.
Todos os partidos têm a sensação de que esta legislatura não conta. A anterior acabou (o PS já não tem maioria absoluta), mas a actual surgiu num quadro de tão grande indefinição e incerteza (até pela conjuntura económica) que ninguém espera nada de muito relevante enquanto ela durar. O que o debate mostrou foi que os partidos representados no Parlamento encaram esta legislatura como um longo intervalo entre a anterior e a próxima: fora uma ou outra excepção (como a intervenção de Pacheco Pereira sobre a corrupção), o debate não passou de um “jogo de posicionamento” que durará até à convocação de eleições antecipadas, em que o PS se apresenta como um agente de “modernização” que só a “cegueira” do “bota-abaixismo” e da “irresponsabilidade” ousa bloquear, e a oposição acusa o Governo de “arrogância” e, claro, “irreponsabilidade”. Todos sabem que a legislatura não chegará ao fim, e todos procuram que esse destino funesto seja considerado da responsabilidade da outra parte. O problema é que, enquanto os deputados e governantes se divertem a atirar a batata quente de um lado ao outro do hemiciclo, os problemas do país não têm intervalo. Pioram. E salvo essas raras excepções, o Parlamento não os discute. Torna-se inútil. Aumenta a descrença dos cidadãos nos seus representantes. A conta, claro sairá cara para nós. Mas também para aqueles políticos que, de um lado e de outro, optam por ignorar a realidade.
Novembro 2, 2009
O “novo” Público
Ouvi há pouco, na TSF, a entrevista de Bárbara Reis, nova directora do Público, a Carlos Vaz Marques. Ouvi, e fiquei preocupado. Diz Bárbara Reis (repetindo o que fora escrito no seu editorial) que o Público tinha tido até aqui um “excesso de carga ideológica”: ou seja, o facto de haver, na redacção do jornal, uma pessoa que gostava de George W. Bush e apoiara a guerra do Iraque é sinal de um excesso de carga ideológica no jornal (presumo que Reis não se estivesse a referir a São José Almeida ou a Teresa de Sousa, exemplos de isenção e neutralidade).
O que me preocupa não é, ao contrário do que se possa pensar, que o “novo” Público se torne um jornal “de esquerda”. O “velho” já o era, e eu continuava a lê-lo. O que me preocupa é uma aparente maior “moleza” perante o regime. Preocupa-me que a retirada de “carga ideológica” acabe por se traduzir em falta de vigilância à podridão que vem de S. Bento. Dirá o leitor que, se isso acontecer, eu tenho bom remédio: deixar de ler o Público. Mas o problema está em que esta não é uma mera questão de gostar ou não do Público. Está em que o Público tem sido, até aqui, o único a não ter medo de investigar as dúvidas em torno da pessoa e do passado do Primeiro-Ministro, o único a pôr em causa a propaganda oficial e a não ir atrás dos “abrantes”. Uma transformação do Público em Diário de Notícias B não seria apenas uma má notícia para os leitores do Público, mas um problema para o país.
Outubro 21, 2009
Os Tennessee Titans e o welfare state

Titans a serem deitados ao chão pelos Patriots
No próximo domingo, o Estádio de Wembley irá ser palco de um futebol diferente daquele a que está habituado com os jogos da selecção inglesa e a Final da FA Cup (os pombos que, desde a reinuaguração, “acampam” perto da baliza do lado direito, esses, devem continuar lá): na tentativa de promover o futebol americano na Europa, a NFL realizará o seu jogo anual no estrangeiro em Londres, com um jogo entre os Tampa Bay Buccaneers e os New England Patriots. A propósito do jogo, o blog do New York Times dedicado à NFL comenta o facto de os Bucanneers, uma das poucas equipas que esta época contam todos os seus jogos por derrotas, ser propriedade de Malcolm Glazer, o dono do Manchester United, o clube de futebol mais bem sucedido da última década no futebol inglês (e, apesar do Barcelona, a nível europeu). O autor do texto, Jeffrey Marcus, pergunta se há uma grande diferença entre ser bem sucedido num campeontao como o inglês de futebol “europeu”, e na NFL. A resposta, diz Marcus, é sim, existe uma grande diferença. Ele cita, Simon Kuper, co-autor do livro Soccernomics, para explicar como a diferença na organização dos dois campeonatos favorece equipas bem sucedidas no futebol europeu (em que é difícil a um “grande” deixar de ser grande), enquanto que a da NFL faz com que uma equipa campeã possa, uns anos depois, estar nas ruas da amargura.
O argumento do livro de Kuper é criticável, mas é indesmentível que essa diferença existe. Os Buccaneers são eles próprios um exemplo vivo da maior dificuldade de manter a supremacia na NFL: na época de 2002, foram campeões, hoje não conseguem ganhar um jogo. Outro exemplo pode ser encontrado nos Tennessee Titans, que na época passada tiveram o melhor registo na temporada regular (sendo depois eliminados nos playoffs), e que este ano ainda não ganharam um único jogo, tendo neste domingo sofrido uma humilhante derrota por 59-0 contra os Patriots.
Segundo Kuper, “domingo a domingo”, “jogo a jogo” (como gostam de dizer os nossos “misters”), a Liga Inglesa é mais competitiva. A probabilidade de uma equipa “pequena” ganhar um jogo a uma “grande” é maior na Liga Inglesa do que na NFL (o que facilmente se explica pela natureza do jogo: o carácter atlético do futebol americano, e a própria forma como o jogo decorre, faz com que seja pouco provável que uma equipa com jogadores inferiores aos do adversário o consiga vencer. No “nosso” futebol, já não é bem assim). Mas a realidade é que o lote de campeões (de equipas, que, no fim de toda a temporada, ganham os títulos) tem sido, nos últimos anos, bastante menos amplo do que na NFL: desde os finais dos anos 90 que o título inglês não escapa a uma de três equipas (Chelsea, Arsenal, e Man. Utd.) enquanto que o Superbowl já foi ganho (só nesta década) pelos St. Louis Rams, Patriots (várias vezes), Baltimore Ravens, Bucanneers, Pittsburgh Steelers, New York Giants e Indianapolis Colts.
A diferença, argumenta Kuper, está na forma como os “perdedores” são tratados na organização da liga americana. Na Liga inglesa, como em todas as ligas europeias, os últimos classificados do campeonato descem de divisão. A descida de divisão, por sua vez, implica perda de contratos de transmissão televisiva, ou seja, implica perda de dinheiro, que por sua vez implica perda de capacidade de contratação de jogadores. As maiores equipas, por sua vez, qualificam-se para as competições da UEFA, que lhes trazem mais dinheiro ainda, o que lhes permite contratar ainda mais jogadores de maior qualidade, que lhes permitem (ou, no mínimo, facilitam) a consolidação do seu estatuto de superioridade.
Na NFL (como nas ligas dos outros desportos americanos), nada disto acontece. Uma equipa pode perder todos os jogos da época regular (como os Detroit Lions na época passada), que nada lhe acontece: mantém-se na liga, mantém os contratos televisivos, e, mais importante ainda, tem direito à primeira escolha do draft do ano seguinte: a pior equipa da liga tem acesso aos melhores jogadores saídos do campeonato universitário (que pode trocar por outros jogadores que fortaleçam a equipa). Os maus resultados de uma equipa não prejudicam necessariamente a sua condição financeira, e a qualquer altura podem estar de novo no topo. Na pior das hipóteses, os fracos resultados de uma equipa podem conduzir a uma descida nas vendas de bilhetes e camisolas, mas nada que não se resolva com uma mudança de cidade (fala-se por exemplo, de uma mudança dos Rams para Los Angeles).
Na NFL, os “perdedores” são compensados e “protegidos”. Na Liga inglesa, perder é uma tragédia. Pode-se argumentar que este tratamento mais favorável dos perdedores na NFL produz uma maior competitividade: uma equipa tradicionalmente medíocre como os Arizona Cardinals pode, num ano, chegar ao Superbowl (como aconteceu o ano passado). Mas tem também efeitos preversos, como se viu este domingo em New England. Os Titans, com cinco derrotas em cinco jogos, e apenas onze por jogar, dificilmente chegarão aos playoffs. Para todos os efeitos práticos, a época está perdida. Na Liga Inglesa do ano passado, uma equipa que (como os Titans) tinha grandes ambições e (como os Titans) começou mal a época, o Tottenham, não tinha a época perdida: dificilmente chegaria às competições europeias, é certo, mas convinha que continuasse a jogar a sério, para não descer de divisão. Equipas do fundo da tabela, como o Newcastle ou o Hull, lutaram até à última jornada com o objectivo de permanecerem na Premier League.
Os Titans (ou os Lions, ou os Rams, todas equipas com péssimo registo este ano) não têm necessidade de lutar para sobreviver. Mais: como explicavam os comentadores do programa Monday Night Countdown da ESPN, a propósito dos Titans, o mau começo de época leva a que os jogadores, pura e simplesmente, desistam de se esforçar. O risco de se lesionarem é grande, e uma lesão pode pôr em risco a próxima temporada. Para quê pôr em risco uma temporada em que se começa do zero, por uma em que já nada pode ser conquistado? Pelo contrário, no campeonato inglês, não lutar até ao fim significa precisamente perder a temporada seguinte.
O problema identificado pelos comentadores do Monday Night é um clássico problema de incentivos: num campeonato como a Premier League, a mediocridade é fortemente penalizada com a “expulsão” da liga (através da descida de divisão). Na NFL, ela não só não é penalizada, como, através da atribuição das primeiras escolhas no draft às piores equipas, se procura atenuar a diferença entre os mais medíocres e os melhores. Como Kuper bem diz, a NFL é um welfare state desportivo. Tal como qualquer welfare state, tem óbvias vantagens. Equipas como os Lions não deixam de poder jogar contra os Patriots ou os Steelers só porque perdem todos os jogos, tal como um pobre não deixa de ter (ou não deveria deixar de ter) comida para comer. Mas tem também efeitos preversos, pois ao proteger o fracasso, retira o incentivo para a ele escapar. A NFL é um excelente exemplo de como um “welfare state” traz enormes vantagens a quem dele beneficia. Mas basta ter visto a deprimente exibição dos Titans no jogo de domingo passado para perceber como um “welfare state”, apesar de todas essas vantagens, contribui para a aceitação da mediocridade e da passividade.
Outubro 16, 2009
A “responsabilidade” do PSD
Na procura do seu duplo objectivo de ser líder do PSD e tornar-se o parceiro silencioso de José Sócrates (ou, pelo menos, silencioso em tudo o que não diga respeito a Manuela Ferreira Leite, onde é bem vocal), o sempre solícito Pedro Passos Coelho manifestou-se muito incomodado com o anúncio de que o PSD não contava aprovar o Orçamento socialista. Indignado, Passos Coelho perguntava-se como pode alguém rejeitar aprovar um orçamente que não existe. Ao contrário do que pensa, ou finge pensar (se pensa, pensa mal, e se apenas finge, não finge melhor), o que não faltam são boas razões para rejeitar o próximo orçamento socialista, independentemente do seu conteúdo.
Ao contrário do que por vezes parece a quem oiça ou leia a comunicação social ou preste atenção a pessoas como Passos Coelho, nenhum Governo é posto na terra por “Imaculada Conceição”. Este Governo, como qualquer outro, não nasce do nada. Não é uma folha em branco. Nasce da eleições de deputados que concorreram com um programa. O PSD, por sua vez, concorreu com um programa que se opunha ao do PS. O PSD não precisa de esperar pelo orçamento. Sabe que, se o PS cumprir a sua palavra e respeitar a confiança dos portugueses que votaram em si, apresentará um orçamento que reflectirá um programa que o PSD considera ser nocivo ao país.
O leitor dirá que o PS pode, uma vez ultrapassada a corrida aos votos, abandonar as suas políticas mais eleitoralistas, e adoptar um orçamento “sensato”, que um PSD “responsável” (uma palavra que está na moda) não poderia rejeitar. Mas seria “responsável” da parte do PSD colaborar com a quebra da palvra por parte do PS? Seria “responsável” da parte do PSD deixar o PS quebrar impunemente as suas promessas eleitorais e aprovar (ou ser indiferente a) uma atitude que apenas aventuará na cabeça dos eleitores a ideia já pouco abonatória que eles têm dos “políticos”? Gente preocupada com as suas ambições pessoais e com os negócios dos apoiantes não se deixa perturbar por estas questões. Alguém um bocadinho mais sensato facilmente percebe que, seja o orçamento socialista mais um exemplo do vergonha socrática, seja um orçamento uma maravilha de sensatez, um PSD “responsável” não pode senão rejeitá-lo.
Outubro 12, 2009
Isaltino e Oeiras
A (esperada) reeleição de Isaltino Morais, com um reforço da sua votação, fez com que a satisfação dos comentadores com a derrota de “candidatos arguidos” como Fátima Felgueiras e Avelino Ferreira Torres ficasse a saber a pouco. Afinal, Isaltino fora recentemente condenado a sete anos de prisão (tendo depois interposto um recurso da decisão), algo que não preocupou os eleitores de Oeiras. Mais do que insatisfação, o resultado em Oeiras motivou alguma perplexidade, parecendo algo incompreensível.
Sendo um habitante de Oeiras, que não votou em Isaltino (que não votou em ninguém, diga-se de passagem), não me parece difícil de perceber por que razão Isaltino continua a merecer o apoio dos oeirenses. Não é que os meus “vizinhos” sejam indiferentes à corrupção, nem que sejam populações pobres que se deixam comprar por electrodomésticos (e quem pode culpar os casos em que isso acontece?). O que se passa em Oeiras é a conjugação de uma série de factores que tornam a ideia de votar em outra pessoa que não Isaltino algo muito pouco desejável.
Para perceber o que se passa em Oeiras, é preciso perceber onde fica Oeiras. Sendo um concelho suburbano, com muitos habitantes trabalhando nos concelhos em seu redor, os eleitores oeirenses conhecem, e observam quase diaramente a realidade desses outros concelhos. Sempre que alguém me pergunta o porquê das vitórias de Isaltino, dou este exemplo: qualquer pessoa que ande de carro em Oeiras percebe quando atravessou a “fronteira” com Cascais, Lisboa ou Amadora. De repente, as estradas têm mais buracos, o alcatrão está mais gasto, as ruas mais sujas e, em redor, aumenta o caos urbanístico.
Em Oeiras, também há bairros sociais de aspecto deprimente (e com populações que votam em massa em Isaltino, diga-se de passagem), também há obras que se eternizam, também aí idiotices sem sentido (o monocarril é a maior delas). Mas é difícil não ter a percepção de que nos concelhos vizinhos é ainda pior, e de que a vantagem relativa de Oeiras se deve ao homem que “manda aqui” desde 1985. Por muito que o carácter corrupto de Isaltino repugne as pessoas, não é o suficiente para que elas arrisquem votar noutra pessoa, pois, ao contrário de Isaltino, eles não dão a garantia de que não transformarão Oeiras numa Amadora ou em Cascais. É, de facto, deprimente que um homem condenado a sete anos de prisão ganhe uma eleição. Mas enquanto os outros partidos não perceberem a realidade de Oeiras, dificilmente o vão conseguir evitar. Até lá, Isaltino (ou qualquer fantoche por ele apoiado), ganhará sempre em Oeiras.
Setembro 28, 2009
O que aí vem
O Paulo Pinto Mascarenhas, no seu blog, diz que “Sócrates e o PS são reféns do parlamento”. Compreende-se o regozijo (tudo o que pareça uma diminuição de poder de Sócrates provoca a alegria de uma pessoa de bem), mas não me parece que o Paulo tenha razão. Como bem diz o Miguel Morgado, o resultado de ontem conduzirá, não tanto a uma maior actividade parlamentar, mas “mais comunicação e negociação entre as direcções dos partidos políticos.” Aquilo a que se vai assistir nos próximos anos (resta saber quantos) não será uma “parlamentarização do regime. Teremos, isso sim, muitas reuniões de vão de escada (um local desaparecido desde a campanha do referendo sobre o aborto) e de sótão (há muitos socialistas com saudades), a muitos “acordos secretos” que, longe de fortalecerem o parlamento e a representação dos cidadãos, apenas contribuirão para o crescente nojo que os portugueses sentem em relação à actividade política. O frágil equilíbrio parlamentar presta-se a golpes baixos, a jogos de “posicionamento” enfim, a “politiquice”.
E nessa “politiquice”, tenho as maiores dúvidas de que os “reféns” acabem por ser o PS e Sócrates. Por estranho que pareça, serão os partidos minoritários a estarem numa posição mais complicada. É verdade que o PS “precisa” deles para ver aprovadas as medidas que quiser implementar. Mas também é verdade que o PS, tal como o PSD em 1985/87, poderá pôr os outros partidos entre a espada e a parede: se apoiarem, mesmo que pontualmente, o PS e o Governo, arriscam-se a trair um eleitorado que votou neles por serem diferentes do PS; se votarem contra o PS, arriscam-se a que Sócrates use a “postura obstacularizadora” (habitue-se a este jargão, caro leitor) dos partidos da oposição para se vitimizar e apresentar-se a umas eleições antecipadas como alguém a quem “não deixaram salvar o país”. Esperam-nos anos de muita actividade para os “abrantes”, de muita baixeza, de muita lama. Precisamente aquilo em que, como se viu nestes últimos anos, o actual primeiro-Minitro se sente à vontade.
Setembro 21, 2009
O pântano
De repente, o “disparate de Verão” transformou-se naquilo que, desde o princípio, dava para perceber que se iria tornar: um sinal grave da degradação da democracia portuguesa. Depois do DN ter revelado a fonte da notícia orginal do Público, e de insinuar, sem fundamento, que o simples facto de a notícia vir de Fernando Lima implicava que tudo não passava de uma invenção, Cavaco Silva vem agora desautorizar o seu assessor, e por contágio, a investigação do Público, ao demitir Fernando Lima. Ao contrário do que se poderia pensar pela histeria agora surgida, por contraste com o silêncio absoluto quando o Público trouxe o assunto para a praça pública, os acontecimentos mais recentes nada trazem de novo: todos os não envolvidos continuam sem saber o que se passou, e tal como aqui escrevi na altura, seja qual for o cenário que corresponda à realidade dos acontecimentos, nenhum deles augura nada de bom.
Se o ex-assessor de Cavaco tiver razão, e o Governo estiver a escutar e a vigiar as pessoas que trabalham na presidência, a gravidade da coisa não pode ser exagerada: um governo que traísse a relação de confiança mútua, e de respeito, pela Presidência, desta maneira, seria, pura e simplesmente, um Governo criminoso, já nem sequer “sub suspeita” como dizia Aguiar Branco, mas apanhado em flagrante. Se, pelo contrário, esta acusação não passa de uma notícia plantada por spin doctors ao serviço de Cavaco, uma mentira deliberada que visa descredibilizar (ainda mais) o Governo, seria também uma quebra intolerável da normal relação que a Presidência deve ter com um Governo, e portanto, um acto intolerável. E mesmo que o antigo assessor de Cavaco pense realmente que está a ser escutado, mas tal não corresponda a verdade, o caso não é menos grave: pois o simples facto de algo assim ser concebível, o simples facto de alguém na Presidência poder acreditar que o Governo é capaz de fazer algo assim, atribuir credibilidade a essa hipótese, demonstra como a relação entre Belém e São Bento se degradou.
Mais do que essa relação, degradou-se a própria democracia: o tom da campanha tem sido particularmente violento, nada que já não se tivesse tornado habitual nos últimos anos. Como escrevia Vasco Pulido Valente há uns dias, vive-se um ambiente de crispação e desconforto mais parecido com o PREC do que com o que seria de esperar de uma democracia normalizada. E é um clima que tem responsáveis. A começar pelo governo, que cultiva este ambiente porque acha (provavelmente com razão) que ele o beneficia, e que, como nenhum outro, fez da mentira e manipulação o seu modo de acção, apagando a já pouca confiança que os eleitores tinham na classe política.
Mas o Presidente da República também não está isento de culpas. Já há muito que ele deveria ter demitido o Primeiro-Ministro. Em vez disso, foi tolerando o seu comportamento destruidor da confiança democrática. Cavaco Silva assistiu, impávido e sereno, à degradação da democracia portuguesa, em vez de demitir o Governo e explicar porquê. Nesse sentido, ele, o único que poderia ter feito alguma coisa para o evitar, é talvez o maior responsável pelo estado a que “isto” chegou. De Sócrates, não esperava nada de diferente. Mas no que diz respeito a Cavaco, o seu dever era precisamente evitar que as coisas chegassem a este ponto.
Sinceramente, não compreendo como o país inteiro já não está farto deste deprimente circo, e ainda há pessoas dispostas a pôr Sócrates no poder. Como já aqui disse, se Portugal conserva um mínimo de decência, Sócrates perderá as eleições. Mas se não as perder, os portugueses (e um Cavaco certamente desagradado), terão o Governo que merecem. A culpa será toda deles, Cavaco incluído.
Setembro 12, 2009
Sócrates confuso
José Sócrates terminou há pouco o seu debate com Manuela Ferreira Leite acusando a líder do PSD de “falar apenas do que não se deve fazer”, e dizendo que “já vai sendo tempo” de ela “dizer o que se deve fazer”, de apresentar propostas em vez de “se limitar à maledicência”. Curiosamente, minutos antes, o mesmo José Sócrates acusara Ferreira Leite de quer “privatizar” a Saúde e a Segurança Social. Deixemos de lado a questão de saber se a Saúde e a Segurança Social devem ou não ser privatizadas, bem como a questão de se é isso que o PSD propôe ou não: Sócrates não pode dizer que Manuela Ferreira Leite não tem ideias e se limita à maledicência, e ao mesmo tempo, acusá-la de ter um tenebroso programa de “privatizações”. Se o programa de Ferreira Leite tem tantas propostas que “chocam” o Primeiro-Ministro (ele “choca-se” muito, como sabemos), é porque afinal ela não se “limita” a “dizer mal” como o Primeiro-Ministro. Se ela “só critica”, então, Sócrates não pode criticar um programa de privatizações do PSD, porque a crer nas palavras do próprio Primeiro-Ministro, esse programa não existe. A falta de vergonha com que Sócrates critica Ferreira Leite com “argumentos” incompatíveis mostra bem a natureza da personagem. Aparentemente, há quem goste: de certeza que nao faltará gente a dizer que Sócrates “ganhou” o debate. Se “ganhar” um debate é o mesmo que ser desonesto, Ferreira Leite certamente prefere “perdê-lo”.
Setembro 7, 2009
O BE, o PS e o PSD
Na Sábado da semana passada, Pacheco Pereira escreveu um artigo em que notava como a subida eleitoral do BE que aparentemente se avizinha foi semeada por José Sócrates. Diz Pacheco Pereira que Sócrates tornou inevitável esse crescimento eleitoral “distribuindo fúrias, introduzindo um tom agressivo na política portuguesa, tentando copiar as “causas fracturantes” porque não custavam dinheiro e eram “bem“”, mas que “estas só favoreceram o original, o Bloco, e não a cópia, o PS”: “o populismo de esquerda tomou uma dimensão que bate à porta da casa do PS como o Lobo Mau na casa dos porquinhos imprevidentes.”
O problema é que, como já aqui escrevi, o “Lobo Mau” não bate só à porta do Rato. Quando o “debate” político está tão contaminado pela violência introduzida por Sócrates confirma na cabeça de muitas pessoas a ideia já de si muito negativa que têm da política e dos políticos. Só por si, isto seria o suficiente para preocupar o PSD: a desconfiança em relação à política dirige-se também à “alternativa” que pretende substituir o que “está”. Mas há ainda um outro problema, de que falei nesse outro texto. nestas eleições o PSD não compete apenas com o PS pelo voto útil, nem apenas com o CDS pelo voto “à direita”; compete também com a extrema-esquerda pelo voto de protesto. O PSD tem de convencer as pessoas, não apenas de que estas não devem votar em Sócrates (algo que muitas delas já não precisam que lhes seja dito), mas que não basta ficar em casa ou votar nos que se dirigem contra “eles”, como faz o Bloco. O PSD precisa de convencer as pessoas de que há razões para desconfiar do PS, mas que o PSD pode merecer a confiança dos eleitores. O clima político actual é pouco convidativo a esse convencimento.
Agosto 28, 2009
A irracionalidade democrática
Há já algum tempo, João Cardoso Rosas escreveu um artigo no I (que não consigo encontrar no site), criticando Manuela Ferreira Leite pelas suas constantes referências à “seriedade”: dizia o Prof. Cardoso Rosas que um líder político, como Ferreira Leite, não pode (ou não deve) apelar ao voto das pessoas sem apresentar propostas, limitando-se a dizer ser mais “honesto” ou “sério” do que os outros. Deixemos de lado o facto de, mesmo antes de ter apresentado o programa eleitoral do PSD, Ferreira Leite já ter feito propostas concretas. A ideia, central ao artigo de Rosas, de que a discussão política “em democracia” deve ser uma discussão “racional” (estou a citar o artigo), embora simpática e louvável, resulta de uma incompreensão da natureza da democracia e do comportamento dos eleitores.
E nem preciso de recorrer a um livro muito querido aqui no Insurgente, mas que eu não li, The Myth of The Rational Voter , para se perceber como debate político, em democracia, é em parte “irracional”, o que obriga um líder político a apelar a esse lado dos eleitores, não só para conquistar o poder, como também para o exercer de forma proveitosa para a comunidade política. Pense um bocadinho, caro leitor: quais são as duas queixas mais comuns do eleitor comum, muitas vezes do mesmo eleitor comum, em relação à política portuguesa? Uma, a de que “eles são todos iguais”, de que “tanto faz” votar PS ou PSD, porque quando “chegam lá, fazem os dois o mesmo”. Uma outra, muitas vezes dita pelas mesmas pessoas, a de que “eles não se entendem”, de que PS e PSD “estão sempre a dizer mal”, em vez “de se unirem para fazer o que o país precisa”. O facto de estas duas queixas serem incompatíveis uma com outra (PS e PSD não podem ao mesmo tempo ser iguais e estarem em desacordo) não os impede de terem estas duas posições.
E não pense, caro leitor, que “irracionalidades” destas são exclusivo do “Zé” e da “Maria” que costumavam ser referidos nos Congressos do PSD (bons tempos). Até pessoas mais politizadas como o leitor, ou como eu, sucumbimos a isto, apenas de maneira diferente: tendemos, por exemplo, a interpretar factos novos como uma prova das convicções que já temos previamente. Ao contrário do que porventura gostaríamos de pensar, a democracia não é um idílico regime político em que todos nos sentamos a conversar em busca de um consenso racional acerca do melhor caminho para a “cidade”. É, isso sim, um regime que depende do julgamento de seres humanos, julgamento esse que, muitas vezes, deve muito pouco à raciocinalidade louvada por Cardoso Rosas.
É por isso que Manuela Ferreira Leite tem de apelar à irracionalidade dos eleitores. Só é possível apresentar aos eleitores os argumentos racionais que Cardoso Rosas tanto deseja ouvir, se nos dirigirmos primeiro à sua dimensão irracional. Melhor dizendo: os líderes políticos só podem esperar que os eleitores oiçam os seus argumentos racionais, se eles estiverem predispostos a ouvi-los, e essa predisposição não é passível de contra-argumentação, só se conquista com apelos “irracionais”. Por exemplo, pessoas que fazem críticas como as que enunciei em cima estão à partida pouco dispostas a ouvir um que um político lhes diga. Apresentar programas, propostas detalhadas, ou uma folha em branco, é absolutamente irrelevante: as pessoas não vão prestar qualquer atenção. “Eles” são “todos iguais”, “prometem mas não cumprem”, e portanto, não vale a pena ouvir o que um político tem para dizer. Para contrariar esta predispoção, Manuela Ferreira Leite, ou outro político qualquer, tem primeiro de os convencer a ouvir. Para os convencer a ouvir, tem de alterar a percepção que eles têm de si, e isso não se faz com apresentação de propostas (é para poder apresentar propostas e ser ouvido que essa percepção tem de ser mudada). Faz-se mostrando que se é diferente. Ferreira Leite (qualquer líder político) tem de dizer que ao contrário “deles”, é “séria”, “honesta”, “cumpre o que promete”. E mais, tem que mostrar que é assim.
É precisamente por isso que as escolhas de António Preto e Helena Lopes da Costa para as listas de candidatos à Assembleia da República, como a de Santana Lopes para a Câmara de Lisboa, são tão negativas para Ferreira Leite, pois contrariam essa imagem de “político diferente dos outros” que ela precisa de ter para poder ser ouvida. Esse estrago pode não ser suficiente para lhe retirar a vitória nas eleições: o nojo ao actual Governo é tanto que talvez seja o suficiente para as pessoas votarem no PSD.
Mas se para ganhar as eleições, Ferreira Leite apenas precisa que as pessoas não queiram ter mais quatro anos de José Sócrates a aparecer todos os dias na televisão, para governar, ela precisa de ser ouvida. O estado do país obrigará o próximo governo a implementar políticas que, inevitavelmente, desagradarão a muita gente. Para que possa implementá-las eficazmente, Manuela Ferreira Leite terá de convencer as pessoas da necessidade dessas políticas. Para serem convencidas, essas pessoas têm de estar dispostas a ser convencidas, têm de estar dispostas a ouvir o que Ferreira Leite terá para lhes dizer. E só estarão dispostas a ouvi-la se acharem que ela é “diferente”. Essas escolhas de Ferreira Leite dão a ideia de que não é. “Racionalmente”, poderíamos ver se essa ideia corresponde à realidade ou não. Mas para estas coisas, a racionalidade conta pouco.
Agosto 2, 2009
Os convites
Entrando em força na silly season, o país político delirou com os convites do PS para as suas listas de candidatos à Assembleia da República. A histeria era, diga-se de passagem, o objectivo da coisa. A rapaziada do marketing certamente explicou ao Primeiro-Ministro que escolher uma “novidade” como Miguel Vale de Almeida e “roubar” Joana Amaral Dias (pelos vistos não conseguiram) ao BE iria encantar os senhores jornalistas. Os senhores jornalistas, claro, caíram que nem uns patinhos, delirando com o “primeiro homossexual assumido no parlamento” e com “o blogger” João Galamba.
Mas se o objectivo inicial da manobra foi cumprido, seria bom que José Sócrates não se convencesse que ela o levará muito longe. Ela pode funcionar muito bem “entre a Arcada e São Bento”, mas dificilmente passa daí. Os “independentes” escolhidos pelo PS fazem parte daquilo a que os ingleses chamam as chatering classes: Vale de Almeida, João Galamba e Inês de Medeiros são “activistas”, “intelectuais” e “agentes da cultura”, gente que o pessoal dos jornais conhece, e cuja escolha valoriza, por entenderem, não sem alguma razão, que é gente “deles” a ser escolhida. Escolha essa que não só faz com que o PS ganhe atenção nos jornais, como receba elogios pelas escolhas “arrojadas”.
Mas o eleitor comum tem com Miguel Vale de Almeida e João Galamba a mesma relação que Ferro Rodrigues tinha com o segredo de justiça, ou Manuel Vilarinho com ordens de tribunais. O que o preocupa não são os nomes das listas dos candidatos a deputado, aliás uma espécie abundamentemente desprezada e considerada como irrelevante, mas o desemprego, o crescimento económico e as suas condições de vida. Para essas pessoas, a aparente tentativa de “piscar o olho à esquerda” de que a comunicação social fala é até ofensiva: mostra-lhes que o PS se preocupa mais com cálculos eleitorais e as “tricas” da “politiquice” (que é a única coisa que apreenderam do “caso Amaral Dias”) do que com os problemas dos portugueses. A lista de “independentes” do PS pode ter merecido alguns abraços na comunicação social, mas no eleitorado em geral, apenas cimentou o desprezo que as pessoas sentem pelos políticos. Por razões óbvias e facéis de perceber, mas que os senhores do marketing não aprenderam nos seus cursos, certamente tão bons como o que deu o grau de engenheiro ao Primeiro-Ministro.
Julho 26, 2009
O fundo do poço
Esta semana, no I, numa entrevista aos vários “coordenadores”, não do Bloco de Esquerda, mas do Compromisso Portugal, Rui Ramos (um dos ditos “coordenadores”) diz a dada altura que “a situação está tão má” que até está “optimista”. É uma convicção muito partilhada: apesar de se reconhecer uma certa desconfiança dos portugueses em relação à mudança e um certo temor perante a dureza das reformas que se dizem ser necessárias, muita gente parece ser assaltada por um “pessimismo optimista”, pela ideia de que “isto” está tão mal que qualquer um percebe (e aceita) a necessidade de fazer alguma coisa, e que por isso, “será desta” que “os políticos” terão “coragem” de fazer as tais “reformas”.
É um sentimento que se percebe, mas que tenho alguma dificuldade em partilhar. Pela simples razão que eu próprio já o tive, há bastante tempo, e apesar das coisas terem estado “mal”, ainda terem ficado piores. Sempre que oiço alguém dizer o que Rui Ramos disse, lembro-me daquele jovem ingénuo (eu próprio) que, nos idos de 2002, achava que Guterres tinha deixado “este país” tão mal que Durão Barroso, um verdadeiro “salvador da pátria”, não poderia deixar de fazer as reformas de que o país precisava. Ora, foi o que se viu: Durão mais não fez do que buscar a reeleição, e quando viu que não a obteria, arranjou o confortável exílio de Bruxelas; depois vieram Santana e Sócrates, qual deles o pior, e o fundo do poço parecia cada vez mais longe.
Há uns anos, o Luciano Amaral, no DN, escreveu aquele que é um dos mais importantes artigos sobre a realidade actual da política portuguesa. Nele, o Luciano criticava, precisamente, a “teoria do fundo”, argumentando que era “perfeitamente possível” chegar ao fundo do dito poço e “continuar a cavá-lo”: se era verdade que o Reino Unido dos anos 70 “tinha atingido o fundo”, e “as reformas de Margaret Thatcher” fizeram com que o país regressasse “ao topo da lista dos países mais ricos da Europa”, há também o exemplo da Argentina, que com Perón, não saiu do fundo do poço em que caíra.
Como diz o Luciano, “a Argentina já foi dos países mais ricos do mundo. Mais rico do que a França, a Alemanha, a Suécia e, consequentemente, a maior parte dos países da Europa ocidental”. No entanto, “a crise dos mercados internacionais de 1914 a 1945 (I Guerra Mundial, crise dos anos 30 e II Guerra Mundial) afectou profundamente este estado de coisas, podendo dizer-se então que a Argentina tinha (à luz do seu passado) batido no fundo”. Em vez de “Thatcher” (ou seja, em vez de reformas), optou por “Perón” (ou, por outras palavras, “justicialismo” e demagogia): Perón “aumentou salários, desenvolveu a protecção social e criou uma relação orgânica com os sindicatos, apoios nos quais se respaldou para aplicar uma política semifascista, de que faziam parte certos planos económicos nacionalistas (incluindo vastos programas de investimento público), que fecharam a Argentina ao mercado mundial”. “Lentamente”, diz o Luciano, “a próspera Argentina de outrora desapareceu, dando lugar a um país do chamado Terceiro Mundo. Perón caiu em 1955, mas o “peronismo” continuou a ser uma espécie de ideologia nacional. O célebre coronel apanhou, portanto, o país no “fundo” e afundou-o um pouco mais. Os seus sucessores continuaram a obra. Actualmente, os argentinos são, coisa rara na História, mais pobres em termos absolutos do que em 1950″.
Como bem nota o Luciano, a “crise” e a sua gravidade não são garantia de que os portugueses aceitem a necessidade de “mudar”, ou pelo menos, que aceitem mudar para algo que lhes dê melhores condições de vida. Pelo contrário, pode levá-los a estarem dispostos a serem seduzidos pelas versões autóctones de Perón, que infelizmente nunca escasseiam.
Há, no entanto, uma hipótese que parece não ter ocorrido ao Luciano (ou pelo menos, que ele não menciona no artigo): a de a “crise” não ter qualquer influência na atitude dos portugueses, a de a “crise” não ser realmente entendida como uma crise, mas antes como um estado normal de atraso do país. Em 1978, Vasco Pulido Valente escreveu no Expresso um artigo (incluído no livro O País das Maravilhas) em que dizia que, “para algumas (muitas) pessoas”, a tal “crise” (já na altura se falava dela) parecia “apenas uma forma de normalidade, acentuadamente desagradável”. Não era novidade: entre 1807 e 1851, e 1903 e 1930, dizia Pulido Valente, a “crise” dificilmente poderia ser vista como uma “crise” (como um “momento grave”) e não como a “normalidade”, certamente pouco confortável mas não menos “normal” por isso.
Se virmos bem as coisas, será que os portugueses têm uma atitude diferente da dos homens de 1978, ou dos de 1807-1851 ou 1903-1930? Será que olham hoje realmente para a “crise” como uma “crise”? Portugal deixou há muito pouco tempo de ser um país verdadeiramente pobre. Há, por isso, uma “memória social” (perdoe-se o jargão) relativamente avivada da penúria, da fome, da miséria. Comparadas com a condição permamente da vasta maioria dos portugueses até há poucas décadas, as agruras desta “crise” são um verdadeiro paraíso, insuficientes para alarmar quem ainda tem a falta de comida como termo de comparação e avaliação da sua condição.
Ainda para mais, a grande maioria do eleitorado certamente se lembra da crise de 73, da do final dos anos 70, da dos anos 80. Um período de dificuldades económicas não é novidade para essa grande parte dos portugueses. E quanto aos eleitores mais novos, desde 2000 que vivem em “crise”, praticamente não se lembram de viver noutro estado que não o de “crise”, e portanto, vêem-na como algo de “normal”, não como algo que justifique uma mudança drástica. Pouca gente em Portugal sente que a estagnação (o destino inevitável do país se não se fizer “alguma coisa”) lhes fará perder o que quer que seja. Já as “reformas” aparecem como a ameaçadora possibilidade de muitos deles perderem alguns dos “benefícios” que o Estado vai fingindo que lhes dá. Entre a calma da estagnação (pouco assustadora se a compararmos com o passado recente do país) e a incerteza das reformas, muitos preferem a estagnação.
Os únicos que poderão perder alguma coisa se a “crise” continuar a ser “normal” (e a ser cada vez mais “normal”) são os que ganharam alguma coisa com a relativa prosperidade dos anos de Cavaco e Guterres. Infelizmente, essa prosperidade veio em grande parte do aumento do funcionalismo público, dos “fundos” europeus e da facilidade do endividamento, ou seja, do Estado e de coisas que ou acabaram de vez ou serão insustentáveis se continuarem. O que quer dizer que os únicos que poderiam ter alguma motivação para querer que a “crise” não se torne “normal”, têm, ao mesmo tempo, muitas razões para não quererem arriscar as “reformas”. É perfeitamente plausível que, como escrevi aqui, prefiram comer as poucas maçãs que ainda lhes restam antes que apodreçam, em vez de plantarem outra macieira para passarem a ter mais para comer. O facto de termos chegado ao “fundo do poço” não quer dizer que façamos tudo para voltar à superfície. Podemos optar por aproveitar o pouco que temos, antes de ficarmos com ainda menos. É uma opção pior, diz o caro leitor, e eu acho que o leitor tem razão. Mas nada nos garante que optemos pelas melhores soluções.
Julho 13, 2009
“Atrasados”
No suplemento semanal do I, o Nós, esta semana dedicado ao carácter “atrasado” de Portugal, veio uma colecção de fotografias (nada de se deitar fora, diga-se de passagem) legendadas com citações de “clássicos” portugueses apontando os defeitos da espécie indígena: como seria de esperar, podemos ler Eça de Queiroz a dizer que “somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade, e inaptos para a independência”, ou como a política, no nosso país, é “dominada” pelas “más paixões” e todos os que nela se envolvem “querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, àvidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis do gozo da vaidade”. Estas citações, claro, servem para ilustrar como a “desconcertante actualidade” dos “autores eternos” mostram como “não mudámos assim tanto”. Esta frase, por sua vez, para além de mostrar a fraqueza de estilo (a expressão “autores eternos” quase causa vómitos) de quem a escreveu, mostra também sua a ignorância ou simples falta de juízo. Pois só um analfabeto ou um demente (convenhamos, dois tipos de pessoas que abundam no jornalismo pátrio) poderiam dizer que “não mudámos assim tanto”.
Na realidade, mudámos, “tanto” ou mais do que podemos por vezes pensar. Comparar o Portugal do século XIX com o Portugal dos dias de hoje é comparar o incomparável. A “estrutura social” é outra, o nível de alfabetismo (apesar de tudo) é outro, os nossos “recursos” são outros, o país é outro. Somos infinitamente mais ricos, mais saudáveis, mais tudo, do que os portugueses de Eça de Queiroz. Se houve fenómeno que marcou a história recente de Portugal, foi precisamente a mudança sem precedentes de que o país foi alvo.
Mais, muitos dos problemas que hoje o país enfrenta devem-se precisamente à escala da mudança na segunda metade do século XX. Ficámos mais ricos, e deixámos de ter a demografia de um país subdesenvolvido (morremos e nascemos menos), e é essa mesma demografia de país civilizado que nos cria um problema de sustentabilidade da segurança social; o país “modernizou-se”, tornando obsoleta uma parte significativa da população, inadaptada ao novo mundo, criando um magote de gente condenada à inactividade para o resto da vida; habituou (mal) os portugueses a níveis de vida “europeus” (ou que eles imaginam “europeus”), que nos convidam ao endividamento em massa e nos deixam os défices orçamentais conhecidos.
Mas se o país mudou assim tanto, porque é que os queixumes dos tais “autores eternos” nos parecem “desconcertantemente actuais”? Por que é que, ao lermos Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão ou Oliveira Martins (o melhor deles todos) a baterem na “piolheira” ou a descreverem o “regabofe” (bonita palavra), achamos vagamente familiar aquilo que eles escrevem? Esta é, aliás, uma pergunta que atormenta muita gente muito louvável, como a dra. Filomena Mónica, que até a coloca a jovens com pretensões a intelectual para os avaliar (a pobreza do que a seguir direi mostra por que razão optei por ser avaliado pela resposta a outra pergunta completamente diferente).
Há uma resposta, ligeiramente prosaica, mas não menos verdadeira por isso: Eça de Queiroz e Oliveira Martins eram muito bons. A simples qualidade dos dois rapazes faz com que aquilo que eles escrevem, embora sobre uma realidade completamente diferente, nos pareça actual. Há depois, claro, uma outra explicação óbvia: a prosa violenta daquela gente fornece-nos um instrumento para criticar os nossos políticos. Ao ler As Farpas ou o Portugal Contemporâneo (mais no Portugal Contemporâneo que n‘As Farpas, um abracinho se a compararmos com o primeiro) é impossível não achar que há ali uma descrição dos políticos que vem matar a nossa sede de maledicência e a nossa vontade de atacar quem nos governa. E há, depois, a explicação mais importante, a de que, por muito que tenhamos mudado, continuamos atrasados em relação “ao estrangeiro”. Uma prosa dedicada à constatação (e lamento) dessa realidade há mais de século, mesmo sendo de há mais de um século, espelha um sentimento (e não uma uma realidade) que ainda hoje perdura.
Existia no séxulo XIX, existe hoje, e existirá no futuro (não digo “sempre”, mas pensei), pela simples razão de que, como em tempos escreveu Vasco Pulido Valente, não estamos atrasados, somos atrasados. O que nos conduz à razão final pela qual a prosa da “Geração de 70″, ou a de todos os que fizeram o nome a queixar-se da pátria, nos parece sempre “actual”: há uma condição “natural” portuguesa que impede o país de a “desactualizar”. De certa forma, Oliveira Martins ou Eça de Queiroz não alcançaram um grande feito ao conseguirem ser “actuais” ao falarem do nosso “atraso”. Portugal é um país “naturalmente” pobre, sem grandes recursos e geograficamente mal colocado (nem toda a gente pode viver no Reno ou na Escandinávia), demasiado afastado do centro da Europa para beneficiar da sua prosperidade mas suficientemente perto para sentir a necessidade de se comparar com ela, Portugal é um país no qual quem lá vive tem ao mesmo tempo consciência da sua pobreza relativa e a expectativa de se aproximar dos “padrões” da vizinhança rica. Uma prosa dedicada à insatisfação com esta condição está condenada a ser “actual”: seremos sempre “pobres” se nos compararmos com as Bélgicas do dia (como hoje tendemos a falar da Finlândia ou da Irlanda, no século XIX era a Bélgica o exemplo predilecto do que “poderíamos ter sido se…”), e continuaremos sempre à espera que o Estado cubra essa diferença que nos atormenta, o que não só fará com que continuemos sempre insatisfeitos com os nossos políticos (por muito que isso nos custe, o Estado não pode mudar a realidade), como assegurará que “o défice” seja, como era no século XIX e ainda hoje é, o grande problema político português.
Ler Eça de Queiroz e Oliveira Martins e dizer que Portugal “não muodu assim tanto” desde o século XIX mostra apenas que o que de facto não mudou foi a imbecilidade de grande parte da nossa “inteligência”. Estes dois autores apenas nos parecem (e sublinho o “parecem”) “actuais”, porque, por muito que o país tenha mudado (e mudou), continua a ser “atrasado”, quando comparado com uma qualquer Bélgica ou Irlanda. E continuarão a parecer “actuais”, pela simples razão de que Portugal, por muito que venha a mudar, não mudará tanto como gostaríamos. Ou talvez porque venha a mudar, para pior, mais do que tememos que mude.
Julho 6, 2009
Os últimos dias do “socratismo”?
Não deixa de ser curioso que, tal como até há uns meses toda a comunicação social se entretinha a falar da “invencibilidade” de Sócrates e da inevitabilidade da sua reeleição, hoje não exista comentador que não diga que Sócrates está “acabado”. A “epidemia” da imagem “socrática” atingiu o seu ponto de viragem: durante anos, foi-se espalhando, e parecia que poucos lhe estavam imunes; até que um dia, a coisa começou a desvanecer, e uma outra “epidemia” substituí-a, desta vez uma “epidemia” vagamente “anti-socrática”, que leva muitos dos que até ontem estavam apaixonados pelo “animal feroz” a, hoje, acharem que estamos a viver os últimos dias do “socratismo”.
De facto, vivem-se dias de “fim de regime”: o desnorte do Governo, recuando em políticas “simbólicas” apenas por terem percebido que não seriam eleitoralmente vantajosas, o aparentemente amolecimento da mão férrea com que Sócrates domesticara o partido, os lamentos de Lino acerca da sua excessiva velhice para estar no Governo, e a despropositada histeria em torno dos famosos “corninhos” de Manuel Pinho, tudo isto mostra como se instalou, até no PS e no Governo, a ideia de que, a 27 de Setembro, Sócrates perderá as eleições.
Nas hostes do PSD e na cabeça daqueles que, pura e simplesmente, odeiam o primeiro-Ministro (um sentimento absolutamente compreensível e quase universalmente partilhado), começou a surgir um sentimento de um certo optimismo e a ideia de que até é possível que Manuela Ferreira Leite e o PSD consigam uma maioria absoluta nas próximas legislativas. Não quero estragar a festa a este pessoal, tão necessitado de alegrias, e eu próprio sou dado a entusiasmos destes. Mas também acho que ainda muita tinta vai correr, e que é precisamente o facto de vivermos num clima de “fim de regime” do PS que tornará as coisas mais difíceis para o PSD.
Os momentos finais da decadência de um regime são aqueles que se tornam mais caóticos. Como dizem os americanos, all bets are off: a anarquia instala-se, e ninguém tem controlo sobre o que se passa. Os dias de “fim de regime” são os mais violentos. É claro que os próximos meses não vão trazer uma revolução, e duvido que os militantes do PS se envolvam em confrontos nas ruas com elementos da oposição. Afinal, Portugal não é Teerão, e a rapaziada dos partidos aprecia tanto a dependência estatal que nem para andarem à pancada têm um mínimo de iniciativa.
Mas, se é verdade que não vai haver sangue na campanha, vai haver muita “sujeira”, como dizem os nossos amigos brasileiros. Vai haver muita mentira, muitas acusações mútuas, muita demagogia. O PS não hesitará em deturpar a mensagem eleitoral do PSD, e Manuela Ferreira Leite e os restantes responsáveis do PSD dificilmente deixarão de responder agressivamente. O desespero dos militantes socialistas, temendo perder os “empregos” que o poder traz consigo, fará com que o Estado, nas mãos do PS, seja usado como instrumento de campanha, o que levará o PSD (e os outros partidos), a radicalizarem (com toda a razão) a sua retórica anti-socialista. E o envolvimento de Sócrates em casos judiciais pouco abonatórios da sua pessoa não vão contribuir muito para pacificar o ambiente.
O espectáculo não vai ser bonito. E isso pode vir a beneficiar o PS, por estranho que possa parecer. Em primeiro lugar, pode excitar os sentimentos tribais daqueles que, embora desiludidos com a governação socrática, não gostam de ver “um dos seus” a ser “atacado” por “eles”. E em segundo lugar, e talvez acima de tudo, porque irá confirmar na cabeça de muitas pessoas a ideia já de si muito negativa que têm da política e dos políticos. Uma campanha especialmente violenta, especialmente degradante (e a polémica em torno dos “corninhos” de Pinho não deixa antever nada de muito diferente), certamente convencerá ainda mais gente a, pura e simplesmente, não votar, deixando a eleição para os “fiéis” (favorecendo assim um PS que, por estar no Estado, o pode usar para fidelizar apoio).
Para além do mais, uma campanha conduzida nesses termos será especialmente favorável a partidos mais confortáveis com o uso da demagogia e do populismo, como o CDS/PP, o BE e o PCP, o que custando alguns votos ao PS, fará também com que o descontentamento com a governação de Sócrates se disperse por estes partidos, em vez de se concentrar no PSD. Este é um aspecto que muita gente parece ter alguma dificuldade em perceber: nestas eleições o PSD não compete apenas com o PS pelo voto útil, nem apenas com o CDS pelo voto “à direita”; compete também com a extrema-esquerda pelo voto de protesto. É por isso que o ódio generalizado ao Primeiro-Ministro, e a retórica “quente” que ele provoca em todos os lados da discussão, poderão acabar por favorecer o próprio Sócrates. E é por isso que eu temo que a alegria provocada pela percepção de que daqui a uns meses estaremos livres dele, embora compreensível (quem não a compreende?), seja talvez um pouco prematura.
Junho 29, 2009
O polvo
Durante três dias, estive imerso no Curso de Verão do IEP-UCP. Exactamente, caro leitor, não se enganou: isso quer dizer que passei três dias em intensos contactos (pouco ou nada frutíferos) com jovens estudantes com idade pouco mais que legal, e também que passei três dias quase completamente alheado do “mundo real”. Ontem, pondo a informação em dia, descobri que o tal “mundo” mais parecia “surreal” do que real: nos Estados Unidos, um doente mental morreu, e não se falou de outra coisa um pouco por todo o lado; em Portugal, soube-se que a Portugal Telecom queria comprar a Media Capital (dona da TVI), que o Primeiro-Ministro, tal como nós, também não sabia de nada (e segundo ele, nem tinha de saber), e que, depois de “saber” (ou seja, depois de nós sabermos que ele sabia), achou que seria melhor “vetar” o negócio. Achei melhor ler os jornais mais uma vez para ter a certeza que não tinha percebido mal. Não. Tinha lido bem. Não fiquei mais descansado.
Não havia como ficar, e parece que foi uma reacção partilhada pela generalidade das pessoas. Mas, como de costume, o que realmente era relevante na questão passou quase completamente ao lado da discussão. A crer no que li, toda a “inteligência” pátria se preocupou em saber se Sócrates sabia ou não do negócio, ou seja, se o negócio visava “silenciar” a informação da TVI. Não que isso não seja importante, e que não fosse profundamente negativo e censurável que o Primeiro-Ministro tivesse dado ordens para a PT comprar parte da Media Capital com o objectivo de se proteger politicamente. Mas a questão vai muito para além deste caso concreto e do pouco apreço que Sócrates tem por tudo aquilo que não esteja de cócoras perante a sua excelsa pessoa.
Estando Sócrates informado ou não do negócio, pretendendo ou não “silenciar” a TVI, a compra da Media Capital pela PT seria algo de extremamente grave para o panorama mediático português: visto que o Estado detém a famosa golden share da PT, caso esta adquirisse a empresa que detém a TVI, o Estado passaria a ter o controlo de mais um canal de televisão. Independentemente de quem detenha o poder, seria uma tragédia (meço bem as palavras que estou a usar) se o Estado pudesse ter a última palavra a dizer acerca dos assuntos de mais um canal de televisão: para além dos dois canais da RTP, passaria a controlar também a TVI, a televisão de maior audiência em Portugal. E como quem não quer a coisa, juntaria à RTP N (que mais não é que uma RTP3) a TVI 24, ou seja, deixaria apenas um canal generalista e um canal de informação no Cabo fora das mãos do poder político. Muito preocupados com as idiossincracias pouco democráticas de Sócrates, a maior parte dos comentadores não se conseguiram aperceber que o “autoritarismo” da coisa vai para além das intenções conjunturais do “animal feroz”.
Por muito que este pormenor lhes tenha escapado, o que é verdade é que a barulheira crítica do negócio levou o Primeiro-Ministro a vetá-lo. A “inteligência” pátria, claro, rejubilou com a sua “vitória”. Como de costume, não se apercebeu do facto de não ter tido vitória nenhuma. Pois até o desfecho aparentemente positivo do “caso” PT/TVI mostra como o “polvo” estatal não tem fim, como aliás só dificilmente terão fim as consequências que daí advêm.
O que faltou à maior parte dos que festejaram o “recuo” de Sócrates foi perceber que o negócio talvez pudesse realmente ser um bom negócio para ambas as partes, e que, só porque Sócrates se apercebeu de que a sua confirmação seria negativa, do ponto de vista eleitoral, para o PS (por “parecer” ser uma tentativa de silenciar a TVI), ele foi “vetado”. O que todo este caso mostrou foi, não apenas que o “polvo estatal” tem a possibilidade de passar a controlar tudo aquilo que ainda não controla, mas também que esse mesmo “polvo” pode interferir com tudo e mais alguma coisa, desde que não seja conveniente para as perspectivas eleitorais ou políticas de quem controla o dito “polvo”. Pessoalmente, não vejo aqui qualquer razão para festejar.
Junho 21, 2009
O holograma
Fora de casa e sem grande acesso a informação por uns dias, passou-me despercebida a grande dicussão da semana, esse tema de premente importância que é a suposta “transformação” do senhor Primeiro-Ministro de um “animal feroz” para um “português suave” (como alguém disse). Hoje, pondo-me em dia com o que se passou, não pude deixar de ficar surpreendido com o interesse que a questão suscitou. Acima de tudo, fiquei surpreendido com a quantidade de gente que levou a sério a manobra.
De facto, custa a crer como pode haver quem tenha pensado que Sócrates tenha, mesmo que por meras razões eleitoralistas, “mudado”. Sócrates não mudou. E não apenas por, como foi notado, por exemplo, por Pacheco Pereira, ele não conseguir deixar de ser o homem malcriado e arrogante que tem desfilado perante o país nos últimos anos. Mesmo que Sócrates consiga não ser um “animal feroz”, ele será o mesmo, não mudará. Pela simples razão de que Sócrates é, como também muito bem disse Pacheco Pereira há vários anos, um “holograma”. É um gigantesco vazio de personalidade que, por isso mesmo, pode ser tudo e o seu contrário. Não passa de um fato Armani que serve a qualquer um, capaz de fabricar toda e qualquer personalidade (até a de “engenheiro”). “Animal feroz” ou “português suave”, Sócrates é sempre uma e mesma coisa: um anúncio publicitário, uma “imagem” destinada, pura e simplesmente, a agradar.
Dir-me-á o leitor que não, que, no início, Sócrates foi “corajoso”, que enfrentou interesses. Não foi, e não enfrentou. Berrou contra alguns desses interesses, para agradar ao eleitorado apreciador da “autoridade”. Longe de uma “corajosa” postura de não se importar de perder votos para mudar o que era preciso, Sócrates fingiu mudar, cobardementemente deixando tudo na mesma, para conquistar os votos que fingia não se importar de perder. Como bom invertebrado que é, adoptou a postura que melhor lhe convinha. E quando a postura contrária se tornou mais conveniente, também não hesitou em “mudar”.
O problema de Sócrates foi que a sua propaganda funcionou bem demais: apesar de tudo ter ficado na mesma, ou seja, bem pior, Sócrates quis levar as pessoas a crer que tudo tinha passado por uma autêntica revolução. E as pessoas acreditaram, e por isso, os tais “interesses” manifestaram um descontentamento manifestamente injustificado contra alguém que, na prática, mais não fez do que os preservar. E então, o fato Armani mudou de cor: quando até fingir que mudava deixou de ser popular, Sócrates passou a fingir que “dialogava”. A “inteligência”, nos jornais, nas televisões, na rádio, delirou (não há nada que provoque mais admiração na “inteligência” portuguesa do que os esforços de alguém para a manipular), e chamou os especialistas em “marcas” (que devem de facto saber do que falam, pois promovem-se muito bem) para discorrer sobre o assunto. Obviamente, nenhum notou a única coisa que havia notar: finja Sócrates uma coisa, ou finja outra ou aqueloutra, estará sempre, apenas e só, a fingir. Isso não muda, nem vai mudar.
Junho 17, 2009
As legislativas serão uma eleição sobre “carácter”
Ontem, o PS reuniu-se, para debater a estratégia eleitoral para as legislativas e ainda sem ter percebido muito bem o que lhe aconteceu nas europeias. Como seria de esperar, e no meio de muita conversa vaga acerca de “pedir maioria” e da necessidade de “estabilidade”, Sócrates e os seus aguadeiros lá vierem falar do “rumo” que, obviamente, é para “manter”. Pode assim o bom povo socialista ficar descansado: pelo menos até Outubro, vão continuar a haver “jobs” para os “boys”, o dinheiro da propaganda vai continuar a jorrar para cima dos “consultores” de “imagem” (e, em período eleitoral, vai jorrar ainda mais), e, não vá o diabo tecê-las e o PS perder o poder em Outubro, muitas benesses vão ser distribuídas à pressa para aproveitar o que poderão ser os últimos meses de acesso à mesa (cada vez mais vazia) do sempre magro (e mesmo assim excessivamente pesado) Orçamento da Nação. O rumo, de facto, é para manter, apenas não levará ninguém a bom porto, nem mesmo o Primeiro-Ministro.
Escusado será dizer que, na cabecinha do Primeiro-Ministro, a parte mais importante do tal “rumo” é precisamente a propaganda. E não é vão. Afinal, e como ele muito sabe, foi a propaganda que o fez, como foi a propaganda que durante muito tempo e apesar da realidade, o foi mantendo nas boas graças dos portugueses. Sócrates não sabe agir senão através das encenações diárias que lhe vão montando, e nas quais ele mostra os seus fatos Armani e proclama estarmos perante um “momento histórico”, mesmo que o dito momento consista de uma instalação de uma retrete na Escola Primária de Alguidares de Baixo, ou, como é bastante mais comum, do anúncio de uma futura instalação de uma retrete na Escola Primária de Alguidares de Baixo. Mas, para mal do Primeiro-Ministro, tenho dúvidas que o método socrático (o outro que me perdoe) funcione por muito mais tempo.
A razão é simples, e se o Primeiro-Ministro soubesse ler, bastaria dar uma olhadela a este artigo de Jackie Ashley no Guardian para a perceber (sendo assim, peço aos aguadeiros para lhe fazerem um resumozinho). Discutindo a recente polémica acerca da necessidade de “cortes” no Orçamento britânico, Ashley diz que o Labour, ao se catalogar como o “partido do investimento” (contra os tories partidários dos abomináveis “cortes”) se está apenas a condenar à irrelevância: segundo Ashley, já toda a gente percebeu que, devido aos níveis colossais da dívida pública contraída por Gordon Brown, os tais “cortes” na despesa pública serão inevitáveis, seja qual for o governo; ao negar a evidência, o Labour transforma uma discussão que poderia ser acerca de escolhas (o que cortar, quais as prioridades da despesa pública, etc.) numa questão de carácter (o partido que fala a verdade, o partido que nega a realidade).
Não é difícil de perceber, até para um aguadeiro socrático, como isto é um aviso ao nosso Primeiro-Ministro. Durante meses, vários inquéritos mostravam como uma larga maioria de pessoas duvidava do carácter de Sócrates. Ao mesmo tempo, o PS continuava a liderar as sondagens. Isto, que chocava algumas almas (incluindo a minha), não deveria ser surpresa (e aqui me penitencio pela ingenuidade): enquanto Sócrates parecia “estar a fazer”, o bom povo não se preocupava com a “engenharia” a que Sócrates recorreu para obter o grau, nem com as confusões do “Freeport”; Sócrates estava a “fazer” (ou pelo menos assim as pessoas pareciam ir acreditando), e mais valia um “espertalhão” que “pusesse as coisas a mexer” do que uns virtuosos sem “genica”.
Até que apareceu a crise. Sócrates, numa daquelas frases de político sem cérebro em que ele se especializou como poucos em Portugal, disse à saída do sarau de ontem que o Governo estava a enfrentar o natural “desgaste” de quem está no poder numa conjuntura destas (Marcelo Rebelo de Sousa, outro especialista neste tipo de raciocínios, deve ter ficado orgulhoso). Não lhe ocorre que, numa conjuntura destas, são os Governos que mais beneficiam, pois só os Governos podem beneficiar: só eles têm o poder, só eles podem demonstrar liderança (mesmo que ilusória), que é o que as pessoas procuram nestas ocasiões de incerteza. Se o Governo socialista não beneficiou deste efeito, foi porque algo mais aconteceu por causa da crise. E o que aconteceu foi precisamente o que aconteceu em Inglaterra: o peso da dívida, e o irrealismo de continuar a gastar dinheiro do orçamento como se não houvesse amanhã, começaram a tornar-se evidentes para as pessoas.
Até aqui, o “carácter” duvidoso de Sócrates interessou pouco ao eleitor comum. Este via Manuela Moura Guedes atirar-se ao pescoço do “engenheiro”, e certamente apreciava o espectáculo. Mas não estava disposto a votar pela virtude contra a carteira. Agora, talvez tenha começado a perceber que a carteira começa a ser esvaziada. Enquanto isso, Sócrates insiste no TGV, no Aeroporto, e no “investimento” em geral. Para aqueles que começam a ver a carteira a esvaziar, e que começam a perceber que a política de Sócrates siginfica que ela ficará ainda mais vazia no futuro, insistir no investimento público como caminho para o paraíso parece uma simples e vergonhosa deturpação da realidade. E aí, como Jackie Ashley diz, a questão passará a ser a do “carácter” dos líderes partidários. Até aqui, a propaganda puxava o debate político português para o campo que mais favorecia o Primeiro-Ministro, o da ilusão e das promessas vazias mas sedutoras. A partir do momento em que a realidade se tornar evidente (e torna-se cada vez mais), a propaganda, por ser irrealista, puxá-lo-á para o que mais o prejudica, o do “carácter”.
Desenganem-se, no entanto, aqueles que possam ver nesse cenário uma boa notícia para o PSD. É certo que Manuela Ferreira Leite parece gozar, junto da “opinião pública” (essa entidade mítica e tão difícil de compreender), de uma imagem de “seriedade” e “verdade”, que ela própria, aliás, não se cansa de exibir (e faz muito bem). Mas um debate centrado no “carácter” (ou falta dele) de um político acabará fatalmente por se transformar num debate sobre o “carácter” dos políticos. E aí, o maior beneficiário será obviamente o populismo do Bloco de Esquerda, não a “seriedade” de Ferreira Leite. Aliás, não me espantaria que o próprio Sócrates fosse insistindo no tema Freeport, para puxar a campanha para o mais perto possível no lamaçal onde ele gosta de chafurdar: ele sabe que, quanto mais suja for a campanha, mais “indecisos” darão o seu voto a partidos histéricos como o CDS/PP e o BE, em vez de o darem a um “partido de Governo” como o PSD. Se a propaganda continuar a ser capaz de enganar uns quantos, e a nojeira empurrar os que nela já não acreditam para os braços de Louçã ou de Portas (Paulo) e não para os do PSD, talvez Sócrates se consiga manter no poder em Outubro. É, no entanto, um destino que não lhe desejo. E não apenas por não querer que o meu país continue a ser governado por ele. Ficar refém de Louçã ou de Portas é um destino que não se deseja a ninguém.
Junho 10, 2009
Se o PSD ganhar as legislativas, como poderá governar?
A vitória do PSD nas europeias do passado domingo fez com que muito boa gente, que antes achava que Manuela Ferreira Leite nem uma gripe conseguiria apanhar, começasse a achar que há uma possibilidade de o governo mudar de mãos nas legislativas que se avizinham. No entanto, a “discussão” continua a girar em torno de saber se Ferreira Leite será ou não capaz de vencer as eleições. Esse tem sido o grande “debate” acerca da liderança do PSD: saber se a senhora tem “jeito” ou se comete demasiadas “gaffes”; se é “capaz de mobilizar” ou se não será “demasiado cinzenta”; se “passa bem” em televisão ou se é “demasiado velha”. Ora, muito mais importante do que essa questão de saber se a vitória do PSD é ou não possível, é a de saber o que vai o PSD fazer se chegar ao poder. E talvez mais importante ainda (e ainda mais ignorada) é uma outra questão, a de saber como a forma de chegar ao poder irá condicionar o seu exercício.
Se o PSD chegar ao Governo, e independentemente de ter maioria absoluta ou não, enfrentará enormes dificuldades: chegará ao poder com um défice público monstruoso, com um país profundamente endividado, e em plena crise, numa altura em que esta se fará sentir de forma muito mais acentuada; chegará ao poder com o desemprego a subir, com os rendimentos das pessoas a baixarem, numa conjuntura em que o Estado, para resolver os problemas do défice público, terá de aumentar os impostos ou diminuir a despesa (ou promover uma letal combinação das duas). Com maioria absoluta ou sem ela, em coligação ou governando sozinho, o PSD está condenado a provocar descontentamento junto do eleitorado. Com maioria absoluta ou sem ela, em coligação ou sozinho, o PSD terá muito pouca margem de manobra para fazer aquilo que será necessário fazer. A forma como o PSD chegar ao poder, ou seja, a forma como acabará por conduzir a sua campanha nas legislativas, será decisiva para o PSD conseguir conquistar alguma, mesmo que escassa, dessa margem de manobra necessária para levar a cabo políticas que serão inevitavelmente impopulares.
Os responsáveis do PSD terão de colocar a si próprios uma questão: “como é que podemos pedir aos eleitores um mandato para promover políticas de austeridade numa conjuntura em que elas serão particularmente penosas para esse eleitorado”? Infelizmente para os responsáveis políticos do PSD, eles terão apenas dois caminhos possíveis, nenhum deles particularmente seguro. Poderão, numa primeira hipótese, pedir um autêntico “cheque em branco” ao eleitorado. Ou, em alternativa, poderão pedir um mandato concreto para determinadas políticas. Como já disse, não me parece que qualquer um deles (e estes são mesmo os únicos possíveis) ofereça grandes garantias de sucesso.
Comecemos pela segunda hipótese, a procura de um mandato concreto para a aplicação de uma série de medidas, apresentadas de forma específica e detalhada, antes das eleições. Teria, obviamente, uma grande vantagem, a de deixar claro a todos quais as dificuldades que iriam ser enfrentadas, diminuindo assim o efeito de “choque” que a introdução dessas medidas forçosamente teria. Explicando antecipadamente aos eleitores que um corte de tantos por cento na àrea tal, que a subida deste imposto ou daquele, durante um determinado período, teriam esta e aquela consequência, e eles antecipadamente sufragassem essa política, a revolta contra essa série de medidas seria certamente menor.
O problema desta estratégia de campanha começa precisamente na possibilidade de os eleitores não sufragarem essas políticas. Afinal, aquilo que irá forçosamente complicar a sua introdução uma vez no poder é precisamente a sua impopularidade, e há o risco de a manifesta necessidade de as aplicar não ser suficiente para convencer as pessoas a estarem dispostas a sofrer as consequências: há anos e anos que vivemos com as consequências de um défice excessivo, e mesmo assim há por aí muita cabecinha que prefere viver na ilusão de que nada precisa de mudar.
O leitor poderá argumentar que a vitória do PSD nas europeias mostra como as pessoas já estão dispostas a aceitar a realidade, e que a tentação da ilusão da vida acima das nossas possibilidades é cada vez menos sedutora, precisamente por iludir cada vez menos. Admito (e espero) que tenha razão. Mas mesmo que o eleitorado corra a votar em quem lhe prometa nada mais que sangue, suor e lágrimas, esta estratégia tem um outro problema. Como não será difícil de perceber, a procura de um mandato concreto implica a realização de compromissos concretos. Ora, o problema da crise actual é precisamente a sua imprevisibilidade: não sabemos quanto tempo ela vai durar, que consequências terá, e muito menos quando terá quais consequências. Todo e qualquer compromisso que o PSD assuma para com o eleitorado nas semanas anteriores à votação poderá, pura e simplesmente, perder a validade um ou dois meses depois. Ou seja, a vantagem que a estratégia eleitoral de procura de um mandato concreto para a realização de políticas concretas (a de o eleitorado saber previamente o que esperar, para que o PSD não tivesse de o desagradar ainda mais) rapidamente desapareceria quando a receita apresentada já não respondesse aos novos males entretanto surgidos. Nessa ocasião, o Governo do PSD perderia credibilidade, e a dra. Ferreira Leite teria ainda mais dificuldades para apresentar as políticas que essas novas condições ainda mais difíceis exigiriam.
Isto poderia conduzir a que se aceitasse que a outra estratégia eleitoral possível, a de pedir um “cheque em branco” ao eleitorado, fosse mais aconselhável. E de facto, se o PSD conseguisse demonstrar aos eleitores que o descalabro governativo de Sócrates foi de tal ordem que as dificuldades a enfrentar nos próximos anos nem sequer são previsíveis, esse mesmo eleitorado estaria à partida predisposto a aceitar toda e qualquer política que visasse resolver os problemas deixados pelo socratismo. E precisamente por avisar para o sangue, o suor e as lágrimas, sem especificar as respectivas quantidades, o PSD não correria o risco de ser ultrapassado pelos acontecimentos: sem mandatos concretos, não há compromissos concretos. Desde que o descalabro socialista ficasse devidamente demonstrado, e as pessoas ficassem previamente preparadas para a hipótese de qualquer tipo de política poder ter de ser introduzida, o Governo poderia facilmente adaptar-se às necessidades do momento.
Mas também este caminho não está isento de problemas. A começar por também ele não ser garantia de vitória eleitoral. Para ser bem sucedida, a estratégia do “cheque em branco” implicaria um ataque brutal ao PS e ao Governo de Sócrates. Por muito que Sócrates não seja propriamente amado pelos portugueses, nada garante que eles apreciassem uma campanha tão violenta como esta teria de ser. Aliás, o generalizado desprezo popular a quem “está sempre a dizer mal”, em vez de “trabalhar em conjunto” para “o bem do país”, poderia significar que essa estratégia seria particularmente condenada eleitoralmente.
Mas admitamos que essa estratégia conseguiria ultrapassar esse sentimento contrário à maledicência. Mesmo que o PSD ganhasse as eleições com essa estratégia, nada garante que ela oferecesse boas condições de governação. Pois o tal ataque brutal que seria necessário para descredibilizar o PS, ao ponto de oferecer o tal “cheque em branco” ao PSD para fazer o que quer que fosse necessário, correria o risco de acabar por descredibilizar, não apenas o PS, mas toda a classe política, tendo em conta a má imagem que todos os nosso governos têm junto da opinião pública. Procurando descredibilizar o PS, o PSD correria o risco de, mesmo ganhando as eleições, se descredibilizar a si próprio. E descredibilizando-se a si próprio, deixaria de ter as condições para, no poder, fazer o que quer que fosse necessário.
Não é garantido que o PSD ganhe as eleições, tal como não é garantido que o PSD saiba o que é necessário fazer. Mas o pior é que, mesmo que ganhe as eleições, e mesmo que tenha plena consciência das políticas que necessitará de promover, o PSD, faça o que fizer para chegar ao poder, venha a ter condições para o exercer convenientemente. Não é uma perspectiva animadora. Mas seria bom que, lá para os lados da São Caetano, não estivessem iludidos acerca do que os espera, e que na medida do possível, se fossem preparando para o que aí há de vir.
Maio 11, 2009
Viver no Extremistão

Na sua primeira crónica no jornal I, João Cardoso Rosas “espanta-se” que “tantos continuem agarrados ao seu socialismo, ou ao seu liberalismo, ou ao seu conservadorismo, como se nada se tivesse passado no ano de 2008″: as “visões ideológicas” da “esquerda socialista” e da “direita conservadora”, diz Cardoso Rosas, são de uma “pobreza” tal que não lhes “permite compreender a crise e não permitirá enfrentá-la”.
De facto, no debate político corrente, tem sido ignorada uma questão prática que deveria estar no centro das discussões acerca da “crise”: o impacto da crise (e das tentativas de a resolver) na margem de manobra dos governos. Tal como uma Suécia com um “modelo social” já pouco sustentável optou, em 1992, por empregar dinheiros públicos na salvação dos seus bancos, Estados já muito endividados optaram agora por endividarem-se ainda mais para “salvar” o sistema financeiro internacional. Esta dívida ou é paga com subidas de impostos intoleráveis para populações que já entregam metade do seu rendimento ao Estado, ou com dinheiro que “cresça nas árvores” (mas que irá valer cada vez menos), ou seja, ou perderemos qualidade de vida por sermos sobrecarregados com impostos ainda mais elevados, ou por termos de lidar com a inflação a que uma expansão monetária nos condenaria. A alternativa a estes dois tristes cenários é apenas uma: enfrentar a realidade da insustentabilidade do nosso querido “modelo social europeu”, eliminando os sorvedores de dinheiros públicos que põem em causa o nosso futuro. A crise, e as respostas à crise, orbigar-nos-ão a escolher entre o empobrecimento progressivo e a dureza das reformas, e essa é uma escolha (difícil) que o discurso político tem ignorado por completo.
Mas, e a mensagem do artigo de Cardoso Rosas é precisamente essa, a atitude da “esquerda” e da “direita” perante a crise não peca apenas pelo seu irrealismo prático e pela sua falta de consciência acerca das implicações da conjuntura. Mais grave é a desadequação do seu enquadramento ideológico à realidade que a “crise” revelou: ela pôs a nu algumas características das nossas sociedades que, muitas das vezes, são completamente ignoradas no debate ideológico, mesmo a nível “conceptual”.
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Abril 22, 2009
Antes e depois da crise
Os tempos estão bons é para os crisólogos. As fábricas fecham, as empresas entram em falência, os trabalhadores são despedidos. Mas quem é pago para falar da “crise” vive tempos de bonança. Nos telejornais, não há dia em que não haja uma reportagem sobre como “as pessoas normais” reagem à crise. Tal como não há dia em que a crise não seja apresentada como a causa de tudo. E tal como não há ninguém que não avance a sua “explicação” para a dita. Eu próprio exerço sem grande pudor a minha função de crisólogo de bancada (se algum jornal, orgão de comunicação social ou dona de casa quiser recorrer aos meus serviços, estou à vossa disposição).
Seguindo o espírito do tempo, o Presidente do Banco de Portugal veio há dias anunciar que prevê uma queda de 3,5% do PIB, este ano, em Portugal. Naquele papel servil de aguadeiro do Governo que tanto parece apreciar desempenhar, Vitor Constâncio disse também que Portugal não poderá recuperar crescimento económico enquanto a conjuntura externa não melhorar. O Governo, claro, agradece sempre que alguém vem dizer que o agravamento das condições de vida que os portugueses vão sentir nos próximos tempos não são culpa da sua política, mas “crise” e dos problemas dos outros (“Portugal não está isolado”, lembram-nos, como se antes não tivessem dito que o país passaria incólume pela tempestade global). Mas esquece-se que a “crise” e os problemas dos outros não explicam os problemas que afectavam o país antes da crise, nem serão responsáveis pelas dificuldades que continuaremos a enfrentar muito depois da crise deixar de incomodar os outros.
Há uns anos, enquanto a dra. Ferreira Leite, louvada seja, andava a fazer os possíveis e impossíveis para controlar o défice, Jorge Sampaio disse que “havia vida para além do défice”. Agora, quando todos falam da crise, e a crise serve de justificação para tudo, convinha que alguém viesse lembrar que havia vida antes da crise, que continuará a haver vida depois da crise, e que ela já era difícil antes da crise começar, e continuará a ser difícil depois dela passar. Não foi a crise que fez com que o Estado português consuma metade da riqueza produzida pelos cidadãos. Não foi a crise que fez com que qualquer pessoa ou família esteja seja obrigada a endividar-se para a vida inteira, porque não tem alternativa a comprar casa. Como não foi a crise que fez com que, apesar de o Estado cobrar cada vez mais impostos, estes continuem a ser insuficientes para cobrir as imensas despesas do Estado (ao mesmo tempo que estas continuam sem garantir que os serviços que financiam funcionem como deve ser). E claro, quando a crise passar, continuará ser difícil arranjar emprego em Portugal; muitos portugueses continuarão sem acesso a bons cuidados de saúde; o Estado não deixará de obrigar um número cada vez menor de pessoas a abrir mão de uma parte cada vez maior do seu rendimento, para financiar as pensões (cada vez mais pequenas), de um número cada vez maior de reformados. Quando a crise passar, e outros países começarem a ver a sua economia a crescer, por cá, a crescer, só mesmo os problemas.
Há dias, a líder do PSD veio dizer que o Governo não está a responder bem à crise. Tem razão. Mas bom seria que esse fosse o único problema. Não é. Outro bem mais grave, é o de o Governo, antes da crise, não ter resolvido os problemas que então já existiam, deixando assim que se criassem problemas ainda mais graves, que, no futuro, teremos de enfrentar em ainda menos condições de o fazer. Este sim, é o grande falhanço deste Governo, e, isto sim, é algo que é preciso que as pessoas percebam até Outubro.
Abril 13, 2009
Coisas importantes
Anda por aí muita gente muito preocupada com o facto de o PSD ainda não ter apresentado os seus candidatos às eleições europeias. Curiosamente, são as pessoas que menos apreciam a dra. Ferreira Leite que demonstram essa preocupação. É uma preocupação que não deixa de ser estranha: estão preocupados com uma eleição a que ninguém liga nenhuma, para um órgão (o Parlamento Europeu) a que ninguém atribui qualquer importância; estão preocupados com quais serão os nomes de quem irá desempenhar um cargo a que ninguém liga; estão preocupados com os nomes das (poucas) pessoas que irão ocupar um cargo no qual não terão praticamente nenhuma influência; estão preocupados com quem serão os nomes das pessoas que vão fazer um trabalho ao qual ninguém dá importância. No fundo, estão preocupados por a dra. Ferreira Leite não falar acerca de um assunto que não interessa a ninguém.
De facto, parece estranho. Mas este último ponto talvez acabe com a estranheza. Pois é isso mesmo que os preocupa: que a dra. Ferreira Leite não fale de um assunto que não interessa a ninguém. Porque não querem que a dra. Ferreira Leite fale dos assuntos que interessam a toda a gente: os problemas do país, a crise, como sair dela, etc. Querem que a dra. Ferreira Leite fale da eleição de Junho, para ver se as pessoas se esquecem da eleição de Setembro. E querem que a agenda se concentre em quem são os candidatos para uns lugares que não preocupam ninguém (a não ser quem sonha vir a ter a sorte de ter “o lugar”), precisamente porque se for essa discussão, o comum dos cidadãos não vai prestar atenção nenhuma à coisa; quanto mais distraídas as pessoas estiverem, melhores hipóteses terá o PS de ter mais votos em Setembro. E a prova da dificuldade que este clima mediático cria para a dra. Ferreira Leite está em que, até pelo facto de não anunciar a lista do PSD às europeias, não se fala de outra coisa. Faça o PSD o que fizer, quer anuncie a lista, quer não anuncie, a lista, a distracção ganha sempre. Há, de facto, coisas mais importantes que as listas dos partidos portugueses para as eleiçõs europeias. Mas parece que os tempos não estão para as coisas importantes. O que não augura nada de bom, pois não nos vão faltar coisas importantes com as quais nos deveríamos preocupar.
Abril 5, 2009
Acabar com a farsa? Qual delas?
De França não costuma vir coisa boa. E do cinema francês, então, é raríssimo apanhar algo que se aproveite. Há excepções. Truffaut, por exemplo. Ou esse grande clássico da história do cinema que é La Règle Du Jeu, de Jean Renoir. O enredo gira em torno de uma festa que o senhor Robert de la Chesnaye irá dar na sua propriedade, La Coliniere, e das muitas “peripécias” da dita. Para além de brilhantemente realizado, é também uma comédia divertidíssima, apesar do tom amargo da coisa: La Règle Du Jeu é um filme sobre a decadência de um mundo que já desapareceu, mas cujos habitantes ainda não se aperceberam disso. Retrata a vida despreocupada e pouco dignficante da “aristocracia” (à falta de melhor palavra) francesa, que passa o tempo nas suas caçadas, nas suas festas, nas suas facadinhas aos respectivos casamentos, num Mundo prestes a entrar em Guerra (o filme é de 1939).

(Sarkozy, o mais baixinho, ajeita a gravata de Obama, pálido de tanto discursar)
Lembrei-me de La Régle Du Jeu ao ver as imagens da reunião do G-20 esta semana. Se alguém estivesse a pensar em fazer um remake do filme de Renoir, teria bastante com que se inspirar no sarau de Londres. Pois também aquela gente continua a viver num mundo que já não é o nosso, alheios à realidade e entregues à maior das ilusões. É verdade que não entram em caçadas (não é muito politicamente correcto), e se dão facadinhas no casamento, nós não sabemos. Mas estão tão alheios à realidade e entregues à maior das ilusões como as ridículas personagens de Renoir. Obama, Brown, Merkel e todos os outros representam o mundo que esta crise veio pôr em causa. Ou são as pessoas que conduziram as políticas que nos trouxeram esta crise, ou são pessoas que, vindas depois, as repetem, que continuam a falar um aumento do endividamento dos estados, como se fosse através da contracção de dívida que se sai de uma crise provocada por endividamento excessivo. São pessoas que continuam a falar da necessidade de maior regulação estatal, como se não tivessem sido imposições do governo federal americano a dar origem ao problema do sub-prime que fez rebentar a crise. São pessoas que, como escreveu David Brooks, querem substituir a soberba da Wall Street pela soberba de Washington, de Londres, de Berlim, de Paris. São pessoas que continuam a não hesitar em realizar grandes “cimeiras” onde fazem anúncios que não correspondem à verdade, que anunciam como novidades saídas da conferência medidas que há muito já estão em acção, tudo para poderem fingir que estão a fazer alguma coisa (ao contrário do que diz Matthew d’Ancona, isto não começou com a era Obama: Sarkozy tem feito disso a sua vida, e a uma escala mais modesta, Sócrates especializou-se no método). São pessoas que mantêm os piores vícios da década de 90 (a paixão pelo endividamento, a ilusão de que são capazes de resolver tudo a partir do Governo, a subordinação do conteúdo à imagem), num mundo que precisa do contrário (de maior poupança, de mais prudência, de mais verdade).
Numa cena do filme, Robert diz ao seu mordomo para ele “pôr fim a esta farsa”. Este último pergunta: “Qual delas?”. Se nós pedirmos a Obama, a Brown, a Merkel, a Sarkozy, a Barroso, e à restante pandilha do G-20, para acabarem com a farsa, eles também terão uma grande dificuldade em saber a qual delas nos estamos a referir.
Março 9, 2009
Bloqueio aos desafios
Na semana passada, teve início o ciclo de conferências Portugal 2009: Bloqueios e Desafios, organizado pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, a propósito dos três actos eleitorais que terão lugar este ano e de quais os problemas que o país tem de enfrentar. Até agora (convenhamos que ainda só houve um palestrante), ainda não foi notado algo que me parece bastante evidente: que a própria realização desses três actos eleitorais constitui um bloqueio aos desafios que Portugal tem de ultrapassar.
A longo prazo, Portugal é um país condenado à falência: deve mais do que aquilo que tem, tem um sistema de Segurança Social que não poderá durar muito mais tempo, tem um Estado que suga tanta riqueza em impostos que torna impossível o desenvolvimento do país. O que um bom Governo deveria fazer seria, em primeiro lugar, dizer isto aos cidadãos, e de seguida, promover as reformas necessárias para que o país só peça emprestado o que pode pagar, e para que os portugueses não sejam forçados a desperdiçar metade do que ganham em actividades ineficientes. No entanto, não só o actual Governo não parece reconhecer esta realidade, como não tem qualquer incentivo para fazer o que deveria: com três actos eleitorais, o que o Governo quer fazer é garantir um bom resultado para o PS, e para isso está disposto a fazer de tudo para que o máximo de dinheiro possa ser gasto no maior número de coisas possíveis, por muito inúteis que sejam.
Por sua vez, a oposição, em especial um PSD cuja máquina eleitoral é muito dependente de um poder autárquico que vive das benesses que os cofres públicos lhes permite distribuir pelos eleitores, tem pouca margem de manobra para dizer que esses velhos hábitos precisam de ser corrigidos. E mesmo que algum político tenha a vontade de dizer a verdade aos portugueses (como me parece que a actual líder do PSD tem), nada garante que os portugueses a queiram ouvir: é bastante plausível que prefiram comer as poucas maçãs que ainda lhes restam antes que apodreçam, em vez de plantarem outra macieira para passarem a ter mais para comer, e que votem de acordo com essa preferência. Assim, umas eleições que deveriam ser uma oportunidade para Portugal corrigir o rumo que tem seguido nos últimos anos, acabarão provavelmente por ser mais um passo na progressiva degradação das nossas condições de vida.
Fevereiro 14, 2009
Janeiro 31, 2009
O discurso que o Presidente da República deveria fazer, demitindo o Governo e dissolvendo a Assembleia da República
(Muito provavelmente, Cavaco Silva não irá fazer um discurso como este, nem sequer demitirá o governo nem dissolverá a Assembleia. Mas fica aqui o discurso que eu acho que deveria ser feito pelo Presidente da República)
