
Titans a serem deitados ao chão pelos Patriots
No próximo domingo, o Estádio de Wembley irá ser palco de um futebol diferente daquele a que está habituado com os jogos da selecção inglesa e a Final da FA Cup (os pombos que, desde a reinuaguração, “acampam” perto da baliza do lado direito, esses, devem continuar lá): na tentativa de promover o futebol americano na Europa, a NFL realizará o seu jogo anual no estrangeiro em Londres, com um jogo entre os Tampa Bay Buccaneers e os New England Patriots. A propósito do jogo, o blog do New York Times dedicado à NFL comenta o facto de os Bucanneers, uma das poucas equipas que esta época contam todos os seus jogos por derrotas, ser propriedade de Malcolm Glazer, o dono do Manchester United, o clube de futebol mais bem sucedido da última década no futebol inglês (e, apesar do Barcelona, a nível europeu). O autor do texto, Jeffrey Marcus, pergunta se há uma grande diferença entre ser bem sucedido num campeontao como o inglês de futebol “europeu”, e na NFL. A resposta, diz Marcus, é sim, existe uma grande diferença. Ele cita, Simon Kuper, co-autor do livro Soccernomics, para explicar como a diferença na organização dos dois campeonatos favorece equipas bem sucedidas no futebol europeu (em que é difícil a um “grande” deixar de ser grande), enquanto que a da NFL faz com que uma equipa campeã possa, uns anos depois, estar nas ruas da amargura.
O argumento do livro de Kuper é criticável, mas é indesmentível que essa diferença existe. Os Buccaneers são eles próprios um exemplo vivo da maior dificuldade de manter a supremacia na NFL: na época de 2002, foram campeões, hoje não conseguem ganhar um jogo. Outro exemplo pode ser encontrado nos Tennessee Titans, que na época passada tiveram o melhor registo na temporada regular (sendo depois eliminados nos playoffs), e que este ano ainda não ganharam um único jogo, tendo neste domingo sofrido uma humilhante derrota por 59-0 contra os Patriots.
Segundo Kuper, “domingo a domingo”, “jogo a jogo” (como gostam de dizer os nossos “misters”), a Liga Inglesa é mais competitiva. A probabilidade de uma equipa “pequena” ganhar um jogo a uma “grande” é maior na Liga Inglesa do que na NFL (o que facilmente se explica pela natureza do jogo: o carácter atlético do futebol americano, e a própria forma como o jogo decorre, faz com que seja pouco provável que uma equipa com jogadores inferiores aos do adversário o consiga vencer. No “nosso” futebol, já não é bem assim). Mas a realidade é que o lote de campeões (de equipas, que, no fim de toda a temporada, ganham os títulos) tem sido, nos últimos anos, bastante menos amplo do que na NFL: desde os finais dos anos 90 que o título inglês não escapa a uma de três equipas (Chelsea, Arsenal, e Man. Utd.) enquanto que o Superbowl já foi ganho (só nesta década) pelos St. Louis Rams, Patriots (várias vezes), Baltimore Ravens, Bucanneers, Pittsburgh Steelers, New York Giants e Indianapolis Colts.
A diferença, argumenta Kuper, está na forma como os “perdedores” são tratados na organização da liga americana. Na Liga inglesa, como em todas as ligas europeias, os últimos classificados do campeonato descem de divisão. A descida de divisão, por sua vez, implica perda de contratos de transmissão televisiva, ou seja, implica perda de dinheiro, que por sua vez implica perda de capacidade de contratação de jogadores. As maiores equipas, por sua vez, qualificam-se para as competições da UEFA, que lhes trazem mais dinheiro ainda, o que lhes permite contratar ainda mais jogadores de maior qualidade, que lhes permitem (ou, no mínimo, facilitam) a consolidação do seu estatuto de superioridade.
Na NFL (como nas ligas dos outros desportos americanos), nada disto acontece. Uma equipa pode perder todos os jogos da época regular (como os Detroit Lions na época passada), que nada lhe acontece: mantém-se na liga, mantém os contratos televisivos, e, mais importante ainda, tem direito à primeira escolha do draft do ano seguinte: a pior equipa da liga tem acesso aos melhores jogadores saídos do campeonato universitário (que pode trocar por outros jogadores que fortaleçam a equipa). Os maus resultados de uma equipa não prejudicam necessariamente a sua condição financeira, e a qualquer altura podem estar de novo no topo. Na pior das hipóteses, os fracos resultados de uma equipa podem conduzir a uma descida nas vendas de bilhetes e camisolas, mas nada que não se resolva com uma mudança de cidade (fala-se por exemplo, de uma mudança dos Rams para Los Angeles).
Na NFL, os “perdedores” são compensados e “protegidos”. Na Liga inglesa, perder é uma tragédia. Pode-se argumentar que este tratamento mais favorável dos perdedores na NFL produz uma maior competitividade: uma equipa tradicionalmente medíocre como os Arizona Cardinals pode, num ano, chegar ao Superbowl (como aconteceu o ano passado). Mas tem também efeitos preversos, como se viu este domingo em New England. Os Titans, com cinco derrotas em cinco jogos, e apenas onze por jogar, dificilmente chegarão aos playoffs. Para todos os efeitos práticos, a época está perdida. Na Liga Inglesa do ano passado, uma equipa que (como os Titans) tinha grandes ambições e (como os Titans) começou mal a época, o Tottenham, não tinha a época perdida: dificilmente chegaria às competições europeias, é certo, mas convinha que continuasse a jogar a sério, para não descer de divisão. Equipas do fundo da tabela, como o Newcastle ou o Hull, lutaram até à última jornada com o objectivo de permanecerem na Premier League.
Os Titans (ou os Lions, ou os Rams, todas equipas com péssimo registo este ano) não têm necessidade de lutar para sobreviver. Mais: como explicavam os comentadores do programa Monday Night Countdown da ESPN, a propósito dos Titans, o mau começo de época leva a que os jogadores, pura e simplesmente, desistam de se esforçar. O risco de se lesionarem é grande, e uma lesão pode pôr em risco a próxima temporada. Para quê pôr em risco uma temporada em que se começa do zero, por uma em que já nada pode ser conquistado? Pelo contrário, no campeonato inglês, não lutar até ao fim significa precisamente perder a temporada seguinte.
O problema identificado pelos comentadores do Monday Night é um clássico problema de incentivos: num campeonato como a Premier League, a mediocridade é fortemente penalizada com a “expulsão” da liga (através da descida de divisão). Na NFL, ela não só não é penalizada, como, através da atribuição das primeiras escolhas no draft às piores equipas, se procura atenuar a diferença entre os mais medíocres e os melhores. Como Kuper bem diz, a NFL é um welfare state desportivo. Tal como qualquer welfare state, tem óbvias vantagens. Equipas como os Lions não deixam de poder jogar contra os Patriots ou os Steelers só porque perdem todos os jogos, tal como um pobre não deixa de ter (ou não deveria deixar de ter) comida para comer. Mas tem também efeitos preversos, pois ao proteger o fracasso, retira o incentivo para a ele escapar. A NFL é um excelente exemplo de como um “welfare state” traz enormes vantagens a quem dele beneficia. Mas basta ter visto a deprimente exibição dos Titans no jogo de domingo passado para perceber como um “welfare state”, apesar de todas essas vantagens, contribui para a aceitação da mediocridade e da passividade.