Adolfo Suárez

Resulta que nos salvaron ellos, escrito por Arturo Pérez-Reverte em 2006.

Aquel día, la democracia y la libertad sólo las defendieron una cámara de televisión encendida, los periodistas que cumplieron con su obligación -fueron tan torpes los malos que sólo silenciaron TVE y Radio Nacional-, unos pocos representantes gubernamentales que estaban fuera del Parlamento, y sobre todo el rey de España, que, por razones que a mí no me corresponde establecer, se negó a encabezar el golpe de Estado que se le ofrecía, ordenó a los militares someterse al orden constitucional y devolvió los tanques a sus cuarteles. El resto de fuerzas políticas y sindicales, autonómicas y municipales, salvo singulares y extraordinarias excepciones, se metieron en un agujero, cagadas hasta las trancas, y no asomaron la cabeza hasta que pasó el nublado. Quienes velamos esa noche ante el palacio de las Cortes sabemos que, aparte de ciudadanos anónimos, negociadores gubernamentales y periodistas que cumplían con su obligación, nadie se echó a la calle para defender nada hasta el día siguiente, cuando ya había pasado todo -lanzada a moro muerto, se llama eso-. Y respecto a los sindicatos, su único papel fue el de los carnets rotos con que atrancaron los retretes de toda España. En cuanto a la digna integridad constitucional que ahora se atribuye el Congreso, lo que pudo ver todo el mundo por la tele, y eso no hay chanchullo que lo borre, fue a los ministros y diputados tirándose en plancha debajo de sus escaños para quedarse allí hasta que se les permitió levantarse de nuevo -aún entonces siguieron mudos y aterrados-, con tres magníficas excepciones: Santiago Carrillo, que fumaba cada pitillo creyendo que era el último, el presidente Suárez y el anciano general Gutiérrez Mellado. Y cuando éste, fiel a lo que era, se enfrentó forcejeando a los guardias civiles, y el miserable Tejero, pistola en mano, intentó, sin éxito, tirarlo al suelo con una zancadilla, el único hombre valiente entre todos aquellos cobardes que se levantó para socorrerlo, fue Adolfo Suárez. A quien, por supuesto, España pagó y paga como suele.

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Leitura dominical

A ternura dos setenta, a opinião de Alberto Gonçalves no DN..

Há pouco tivemos o manifesto pela “reestruturação” da dívida. Agora temos o BE, o PCP e o relevantíssimo pingente chamado PEV a pedir que as eleições europeias constituam um voto de protesto contra a austeridade. Sendo partidos parlamentares e pouco admiradores da democracia, não sei o que os leva a esperar pela decisão popular, inevitavelmente incerta e ambígua: a extrema-esquerda podia muito bem cortar caminho e submeter o voto de protesto à Assembleia da República. Com alguma sorte, e a abstenção ou a distracção de meia dúzia de deputados da maioria, talvez se conseguisse proibir a austeridade mediante decreto.

Aliás, é difícil perceber porque é que a austeridade, e não só a austeridade, ainda não foi abolida. Uma nação tão virtuosa e legalista já devia ter interditado por lei a austeridade, a dívida, o défice, a crise, a sra. Merkel, o FMI, a gripe sazonal e a família Carreira. Em contrapartida, urge considerar obrigatório: a felicidade; o salário médio luxemburguês; o crédito externo sem juros nem prestações; a solidariedade europeia; o direito às trufas; o Mercedes; o spa no jardim de casa; o jardim de casa; a casa e a abundância em geral.

É verdade que a Constituição já não anda longe de semelhantes desígnios, mas carece de uma ou duas revisões para consagrá–los. Excepto a realidade, o que nos impede?

França, 2014

Apesar de se tratar de França e de eleições (municipais) os apelos para que os fiéis optem pela abstenção roçam o fantástico.

Anâ-Muslim is a nonprofit organisation recognised by the French state. Its members share their vision of Islam on the organisation’s website, on its Facebook and Twitter pages, and onYouTube. A few days ago, Anâ-Muslim called on Muslims to boycott French municipal elections, which will take place on March 23 and 30. They explain this decision by using various religious arguments and by saying that for a Muslim person, “voting is an act of submission … while abstaining is an act of resistance”.On its website, the organisation explains that this campaign is aimed at Muslim people between 18 and 40 years old. They argue that refusing to participate in French politics is a way to “preserve their faith”: “Voting means recognising the power of men on earth and giving them absolutely sovereignty to create their own laws that have nothing to do with Islam.” The organisation’s goal, as described in their mission statement, is to “teach Islam to Muslims … because Muslims are the only ones who can control their destiny … and contribute to Islam’s resurgence so that humanity may be saved”.

Da social-mediatização da Crimeia

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As far as I can tell from Fox News coverage, Obama just annexed Crimea and Putin is condemning him.

De facto, a Rússia não aguenta tanta pressão. Precisa de respirar. O Império é incapaz de se sentir à vontade com o avanço da débil União Europeia, a bater-lhe à porta. Não descubro as razões pelas quais se mantêm inalterados os 1000 quilómetros de fronteira com a Finlândia, membro do bloco económico europeu desde 1 de Janeiro de 1995.

Dear Vladimir, I Speak Russian Too. Please Send Troops!

Volgda newspaper editor Roman Romanenko: "We all totally speak Russian here, and our rights are frequently violated."

Se a carta chegar a Putin, acredito que a lerá. Roman Romanenko também tem esperança.

“We’ve learned that you want to send troops to Crimea to defend the rights of the Russian-speaking population,” Romanenko typed. “In relation to that, we have a big request — to send troops into Vologda. We all totally speak Russian here, and our rights are frequently violated.” (…) “You’re planning to spend a lot of money to normalize life in Crimea,” he hinted gingerly. “I hate to ask, but is there any chance you could spend that money on normalizing life in Vologda?”

Adenda: Mudei de opinião. Na Crimeia, finalmente há justiça. Tem um nome e 33 anos.

Receita de molho tártaro segundo o chef Putin

We have asked the Crimean Tatars to vacate part of their land, which is required for social needs” .

Rustam Temirgaliyev, Primeiro Ministro da Crimeia.

Ao que tudo indica, as narrativas mudaram. Ontem, Vladimir Putin anunciou no Parlamento russo que  a decisão de anexar “representa todas as origens étnicas da Crimeia”, prometendo que na península “se falará russo, ucraniano e tártaro”. São os pensadores neo-conservadores da Europa, EUA e Japão. que delinearam este remake histórico de recolocação de tártaros por imperativos sociais. Acreditemos.

Há oito dias escrevia n’A BatalhaReferendo em molho tártaro.

 

A guerra surreal de Assad & co

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Síria cria uma agência espacial.

Three years into its bloody, unending civil war, the Syrian government has deciced to approve the creation of a space agency “with the goal of using space technology for exploration and observing the earth.” The Syrian Space Agency, according to state-run news service SANA, will do work “of a scientific research nature.”

Livrem-nos deste liberalismo, que do socialismo livramo-nos nós

O meu pequeno contributo no campo da opinião política nacional, n’A Batalha.

Sabemos que caminhamos seguramente para uma desgraça ainda maior, quando o líder da oposição António José Seguro se refere ao actual governo como o “Governo mais ultra-liberal da História do país”.

 

Leitura dominical

O manifesto atraso de vida, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

“Nova série de rockets lançada de Gaza atinge zonas portuárias”, lia–se num site informativo. Engraçado. Quando Telavive responde às investidas dos seus amáveis vizinhos, algumas manchetes não cessam de notar que Israel “atacou” – com requintes de malvadez, sugere-se nas entrelinhas – as crianças e os velhinhos árabes mais à mão. Quando os ataques de facto são perpetrados pelos simpáticos senhores do Hamas, certos media preferem insinuar que os mísseis (ou rockets, que soa menos letal) partem de Gaza por vontade própria, quase como se alminha nenhuma os tivesse enviado. Para cúmulo, só afectam zonas portuárias e terrenos baldios, já que no fundo não querem magoar ninguém.

Esta curiosa demonstração de neutralidade jornalística talvez explique a omissão, em boa parte dos noticiários, das declarações recentes do chefe da Força Aérea da Guarda Revolucionária iraniana, que se afirmou pronto para “destruir Israel” à primeira ordem. Provavelmente, os jornalistas estão a estudar a melhor maneira de apresentar o sr. Hossein Salami enquanto um “moderado”. Ou até, quem sabe, um “reformista”. Não é fácil, mas, na sua longa batalha contra o que designa por “estado judaico”, o “quarto poder” é capaz de tudo – excepto de disfarçar um ódio tão velho quanto o Ocidente.

Quando Nova Iorque se transforma em Gaza

pallywood

E um ataque terrorista a Israel é ilustrado com imagens do trágico resultado de uma fuga de gás na “cidade que nunca dorme”.

Pelas histórias de encantar que nunca desiludem, obrigado, Pallywood.

E de regresso à Santa Mãe Rússia

A Crimeia declara-se “estado independente da Ucrânia“. O resultado do referendo parlamentar foi esmagador: dos 100 deputados, 78 votaram a favor. A expectativa sobre a organização do próximo referendo é enorme.

Leitura dominical

Holocausto rural, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

A notícia de que ameaças de grupos de extrema-direita obrigaram ao cancelamento de um encontro de famílias muçulmanas no parque de diversões da Lego (?), em Inglaterra, deviam levar-nos a reflectir sobre a intolerância. Felizmente, não é preciso. A Federação Muçulmana de Investigação de Desenvolvimento (MRDF), organizadora do encontro, é presidida pelo religioso Haitham al-Haddad, o qual declarou uma ocasião, ao que parece evocando o Corão, que os judeus “descendem de macacos e de porcos”. Noutra ocasião, o ilustre clérigo escreveu que a homossexualidade é um “crime” e que os actos homossexuais são “mais graves do que o homicídio”. Numa terceira ocasião, defendeu o direito de os maridos espancarem as mulheres, espécie a que, de resto, o iluminado sacerdote recusa a participação na vida pública. Semelhantes pérolas de sabedoria estão amplamente divulgadas na internet, em texto e, para os cépticos, em vídeo. Mesmo assim, a “extrema-direita” é, aos olhos de inúmeros ocidentais, a extremista nesta história. Quem disse que no Ocidente não há crentes?

Surrealizar por aí

A solução para colocar Vladimir Putin em sentido não deixa de ser hilariante.

I’d also raise our gasoline tax, put in place a carbon tax and a national renewable energy portfolio standard — all of which would also help lower the global oil price (and make us stronger, with cleaner air, less oil dependence and more innovation).

 

Crimeia: finalmente, o referendo

De acordo com o Vice-Primeiro Ministro da Crimeia, o referendo que decidirá o futuro da região está marcado para o próximo dia 16. O meu russo está um todo nada enferrujado mas gostaria de saber se este soldado russo que está de férias na Crimeia também se irá pronunciar. Haja clarificação.

É preciso comemorar a revolução

venezuela

 

A imagem não é de mais uma manifestação contra o governo de Nicolás Maduro (a contabilidade da opressão conta 18 mortos em 21 dias de protestos) mas uma bicha para comprar alimentos. Os frutos de 15 anos de chavismo estão a ser colhidos.

Putin, o príncipe do isolacionismo II

PutinSissi

Na conferência de imprensa de Vladimir Putin ficaram claras as motivações russas em relação à Crimeia, à Ucrânia e a Viktor Yanukovich. Alguém se esqueceu de incomodar o Presidente russo, perguntando-lhe se o apoio dado (e selado com um acordo militar) ao golpista Abdel Fattah al-Sisi é para manter.

E agora algo completamente inesperado

SergeiLavrov

Governo russo apoia o seu congénere venezuelano no esforço incansável na procura de estabilização da situação de violência, curiosamente também provocada pela malta da extrema-direita.

El Gobierno de la Federación Rusa, a través de su canciller Serguéi Lavrov, expresó su respaldo al Gobierno Bolivariano de Venezuela por los esfuerzos, dirigidos por el presidente Nicolás Maduro, para estabilizar la situación del país ante los ataques de violencia que mantienen sectores de la ultraderecha venezolana.

Já sei: a culpa é do Presidente Nobel da Paz.

 

Leitura dominical

Na cabeça dos comunistas, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Decidido a procurar o apoio entusiástico dos nossos partidos comunistas, por regra ávidos de baderna, aos levantamentos populares na Ucrânia e na Venezuela, fui espreitar os respectivos sites oficiais. Não encontrei apoio nenhum, antes pelo contrário. Curiosamente, as insurgências e as revoluções que tanto excitam PCP e Bloco de Esquerda noutros lugares são alvo de firme condenação nesses lugares em particular. Ao que parece, o povo unido jamais será vencido – excepto se o povo em questão não compreender as virtudes do socialismo ou merecer a simpatia da América, afinal os critérios decisivos para exaltar a fúria das massas ou calá–la a tiro.

O Bloco, através do esquerda.net, ainda finge a equidistância no caso ucraniano. Mas finge muito mal. Por um lado, explica que nem todos os revoltosos são de extrema–direita ou devotos do Ocidente, crimes sem dúvida hediondos; por outro lado, não se esquece de lembrar que a questão é “complexa” e que em ambos os lados há “bárbaros”, maçada que nunca acontece nos protestos realizados por exemplo em Wall Street ou na escadaria de São Bento, invariavelmente lineares e perpetrados por activistas generosos.

Já o PCP, evidentemente no Avante!, não perde tempo com meias-medidas e começa logo a tecer comparações entre os acontecimentos de Kiev e os Acordos de Munique (mas não, imaginem, com o Pacto Molotov-Ribbentrop) e a lamentar “o brutal envolvimento e a ingerência do imperialismo na vida da antiga República soviética (sic)”. Também não faltam as “forças pró-fascistas e ultranacionalistas”, o “terrorismo” e as pérfidas “”assembleias populares”, em que não há lugar para os comunistas e todas as vozes dissonantes” (fosse o PCP a promovê-las e seria só ecumenismo).

Sobre a Venezuela, o Bloco insiste na equidistância postiça. A 12 de Fevereiro brinda-nos com um artigo alusivo ao papel dos estudantes na contestação local, a 23 de Fevereiro um segundo artigo nega qualquer insatisfação dos estudantes, aliás deliciados com o bolivarismo: nas ruas de Caracas, apenas berram “as classes médias e altas, além da casta empresarial”. Para cúmulo, avisa-se que o líder da oposição venezuelana, Leopoldo López, estudou em Harvard e que a agitação que encabeça é financiada pela Administração Obama.

De novo, o PCP não hesita: as manifestações na Venezuela são obra da “burguesia” e consistem em “manobras desenfreadas de sabotagem económica e desgaste social”. É escusado acrescentar que por detrás disto andam os americanos, irritados com a resistência venezuelana ao “imperialismo”, proeza que partilha com, cito, “China, Cuba, Vietname, Laos e Coreia do Norte”.

A moral da história? Está num parágrafo publicado no esquerda.net: “Neste momento “pós-occupy” [meninos mimados a berrar insultos ao capitalismo], cada vez que vemos protestos nas ruas, começamos a retuitá-los [alusão ao Twitter, uma coisa com que os meninos brincam] e a sentir uma simpatia pela causa, mesmo sem saber qual é o contexto dela [um erro crasso]. Uma vez que analisamos o contexto venezuelano [i.e., ao constatar que aquilo é a enésima tentativa de aniquilar um país pela via socialista], o que vemos é mais uma tentativa, dentro de uma longa história de tentativas, de depor um governo democraticamente eleito.” Para o Bloco e, claro, para o PCP, os governos contestados pelo occupy ou lá o que é não foram democraticamente eleitos. Na cabeça dos comunistas, onde não entra nada, nem sequer uma dúvida sincera, a democracia é sempre uma noção peculiar.