Compreender o putinismo XX

Foto: Vladimir Filonov/MT

Foto: Vladimir Filonov/MT

Na Rússia de Vladimir Putin, um museu sobre os Gulag irá reabrir com a particularidade de ignorar os crimes do ditador Pai Josef Vissarionovitch Stalin.

Gulag Museum to Reopen But Proof of Stalin Crimes Removed, Director Says

Perm-36 museum director Viktor Shmyrov said the “memorial won’t disappear, but the museum has been taken over by other people appointed by the new authorities, who have totally changed the content,” BBC Russian Service reported Wednesday.

“Now it’s a museum about the camp system, but not about political prisoners. They don’t talk about the repressions or about Stalin,” he was quoted as saying.

Arseny Roginsky, president of Russia’s leading human rights group Memorial — which founded the museum two decades ago — said the new management included former prison camp guards, AFP reported.

“The museum’s format is being completely changed,” Roginsky was quoted as saying. “It’s tragic that a museum to Soviet terror will be transformed into a museum to the penal system.”

The takeover of Perm-36, which is located in the Perm region, comes as an increasing number of Russians express favorable views of Stalin and amid the government’s glorification of its Soviet past.

NYT “crop” de referência

bush

George W Bush cropped out of New York Times front cover image of Selma march

US newspaper accused of “liberal bias” after using image of Selma anniversary march on front page showing Barack and Michelle Obama, but with George and Laura Bush missing

Leitura dominical

Um perfeito político, a opinião de Alberto Honçalves no DN.

Isto é tudo muito simples. A ex-deputada do Bloco de Esquerda (BE) Joana Amaral Dias saiu do movimento Juntos Podemos (JP) para fundar o grupo Agir (A). Recorde-se que o JP era uma “plataforma de cidadãos” fechada a partidos que num ápice se transformou em partido, sobretudo por intervenção do Movimento Alternativa Socialista (MAS), que dantes dava pelo nome de Ruptura/FER (R/FER) e integrava dissidentes do BE que ainda andavam pelo BE. Para início de conversa, se não se desintegrar antes, o A vai promover daqui a 15 dias uma conferência internacional em Lisboa, a qual curiosamente contará com a presença de membros do Tempo de Avançar (TA), outra candidatura cidadã que integra cidadãos dos partidos e movimentos antipáticos Livre (PL), MIC–Porto (MIC-P), Renovação Comunista (RC) e Fórum Manifesto (FM).

Não tem nada que saber. O PL é, sucintamente, aquele antigo eurodeputado do BE que se zangou com Francisco Louçã e, por honradez, abandonou o partido mas não o emprego. O MIC-P deriva regional e obviamente do Movimento Intervenção e Cidadania (MIC), que por sua vez resulta da candidatura presidencial de Manuel Alegre, aquela que em tempos se demarcou da formação da organização Nova Esquerda (NE), que ninguém sabe onde pára. Quanto à RC, trata-se dos dissidentes do PCP que apoiaram o PS nas “europeias”. E o FM surgiu da corrente Política XXI (PXXI) que esteve na formação do BE, pelo que não deve ser confundido com o Movimento 3D (M3D), que também saiu do BE para se reunir com todas as siglas acima e falir de seguida. Pelo meio, ou por outro lado qualquer, também há o Movimento Esquerda Alternativa (MEA – antes Rupturavizela) e o MAS (antes R/FER), que podem ser ou não a mesma quadrilha. O importante é que as coisas sejam assim claras. E que a esquerda esteja unida.

António Costa descoberto II

Existem actualizações no post de António Balbino Caldeira no Portugal Profundo sobre a cobertura descoberta.

Por uma questão de orientação e facilidade de leitura, as novidades encontram-se no Pós-Texto 1 (18:46 de 7-3-2015): A penthouse duplex de Costa e no Pós-Texto 2 (21:38 de 7-3-2015): As explicações de Costa ao CM.

Leitura complementar: António Costa descoberto.

Leitura recomendada

Tradições do império, por Vasco Pulido Valente.

Boris Nemtsov acabou com quatro tiros nas costas, porque tinha sido vice primeiro-ministro e chefe de partido; porque era conhecido e um activista; e porque naturalmente se opunha à louca e maléfica aventura de Putin. E é curioso que o próprio Putin, como Estaline, declare agora que o assassinato de Nemtsov foi um crime político, porque isso lhe permite daqui em diante descobrir conspiração atrás de conspiração e liquidar mansamente quem se atrever a contrariar os seus desígnios, à capa de um pretexto embaraçoso para o Ocidente. Alexandre Navalny, apesar de preso, declarou que Putin dera a ordem para matar Nemtsov. A lógica das coisas sugere que sim. E, por mim, acredito que a continuação da história provará que sim. Nemtsov é o Kirov do nosso tempo.

Ai Lello, recordar é viver

lello

José Lello não declarou conta de 658 mil euros Deputado do PS esteve 14 anos sem declarar este valor ao Tribunal Constitucional

Leitura complementar: Pode um homem que tenha falhado o pagamento de impostos no passado ser primeiro-ministro de Portugal?

Leitura dominical

As mentiras da oposição, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Agora é Jihadi John, nascido Mohammed Emwazi. De cada vez que se descobre a identidade de um psicopata, perdão, activista do Estado Islâmico, os noticiários enchem-se de desabafos biográficos, a explicar, em tom sempre surpreendido, que o psicopata, perdão, o activista de hoje em tempos foi uma criança, por regra afável e brincalhona. É isto necessário?

Não vejo para quê. O “lado humano” das notícias, um bocadinho irritante noutras matérias, é particularmente repulsivo em notícias sobre o lado desumano da vida. Salvo os tontinhos terminais, que imaginavam os psicopatas, perdão, os activistas a nascer com uma adaga nas mãos ou um “workshop” em ressentimento na cabeça, toda a gente já desconfiava de que os monstros um dia tiveram uma infância mais ou menos feliz, mais ou menos normal, mais ou menos idêntica à nossa.

O pequeno Mohammed queria, ao que consta, ser futebolista. E depois? Hitler queria ser pintor. Estaline queria cantar. Átila queria decorar interiores (alguns estudiosos discordam). O essencial não é investigar o momento em que os dementes se converteram à demência, mas a maneira de impedir as consequências desta. Revelar que um psicopata, perdão, activista nasceu é uma redundância: urgente é saber quando morre.

Compreender o putinismo XIX

Boris Nemtsov. Imagem via FB do Nuno Rogeiro

Boris Nemtsov. Imagem via FB do Nuno Rogeiro

After Boris Nemtsov’s Assassination, ‘There Are No Longer Any Limits’, por Julia Ioffe.

Even if one of these theories were true, none of Moscow’s embattled liberals would be convinced. “I will never believe it,” Yevgenia Albats, editor of the liberal magazine New Times and an old friend of Nemtsov, told me. “This is not about some domestic affair. These were absolute professionals.” Ilya Yashin, a member of Nemtsov’s Solidarity Party, was of the same mind. “It’s totally obvious for me that it’s a political killing,” he said. “I don’t have the slightest doubt about that.” Maxim Katz, another opposition activist, claimed on Twitter that, any way you slice it, Putin is responsible: “If he ordered it, then he’s guilty as the orderer. And even if he didn’t, then [he is responsible] as the inciter of hatred, hysteria, and anger among the people.”

It’s hard to argue with this last point. Putin’s aggressive foreign policy, his increasingly conservative domestic policy, his labeling the opposition a “fifth column” and “national traitors,” his state television whipping up a militant, nationalistic fervor — all of this creates a certain atmosphere. Putin, after all, has a history of playing with fire, only to have the flames get away from him. After years of the Kremlin tacitly supporting ultranationalist, neo-Nazi groups, the same skinheads staged a violent protest at the foot of the Kremlin walls in 2010 while riot police officers stood by and watched helplessly. Today, a rabid nationalism has swallowed up most of the country, and it is no longer clear that Putin can control it. “In this kind of atmosphere, everything is possible,” Pavlovsky told me. “This is a Weimar atmosphere. There are no longer any limits.”

Until relatively recently, the risks opposition activists knew they were taking on were not generally thought to be life-threatening. The government was likely to hassle activists and make their lives uncomfortable, but mostly it just marginalized them, like the town fool. This began to change with the arrests of protesters in the summer of 2012. When Navalny was sentenced to five years in prison a year later, it came as a shock; this had never been done before. Even after the sentence was suspended, it seemed to be a warning to the opposition.

Nemtsov’s assassination took that warning to its logical conclusion. Now, “we live in a different political reality,” tweeted Leonid Volkov, a prominent opposition activist. “The fact that they killed him is a message to frighten everyone, the brave and the not brave,” Yashin said. “That this is what happens to people who go against the government of our country.” Anatoly Chubais — who, like Nemtsov, served in the Yeltsin government, and who remains close to Putin — visited the site of the shooting this morning. “If, just a few days ago, people in our city are carrying signs that say ‘Let’s finish off the fifth column,’ and today they kill Nemtsov,” he said in astatement, referring to the Kremlin-sponsored anti-Maidan protest in Moscow last weekend, “what will happen tomorrow?” Or, as Albats put it, “Hunting season is open.”

Nemtsov had been confiding to friends of late that he was growing frightened. This summer, he went to Israel to hide out for a few months, fearing arrest. He told Albats that he worried he wouldn’t be able to withstand a stint in a Russian penal colony. In the fall, he filed a police report because of threats he was receiving on social media. It didn’t seem to go anywhere. Recently, he even let his bravado slip in public, telling an interviewer two weeks ago that he was scared Putin would kill him.

And yet, he didn’t let up. According to Albats and Yashin, Nemtsov was working on a particularly incendiary report that he planned to call “Putin and Ukraine,” which would trace the stream of weaponry flowing from Russia to separatists in the Donbass. He was meeting with the families of Russian men who had died fighting with the separatists. He kept up his withering attacks on Facebook and Twitter. He kept traveling to Ukraine and meeting with president Petro Poroshenko, something that couldn’t have gone unnoticed by the Kremlin’s security agencies. And still, Nemtsov never hired a bodyguard. He walked home through Moscow late at night unprotected.

And he almost made it. His apartment building was visible from the bridge. “From his window, where he worked out in the mornings, you can see the place where he was killed,” Romanova told me. “For many years, he saw the place where they would kill him.”

Oremos pelo príncipe Carlos

Prince Charles

We can only pray that our sick planetary patient might be placed on a road to recovery, in the process bringing gains for human well-being.

“Failure to write the prescription, however, might leave us contemplating the death certificate instead.

Compreender o putinismo XVIII

 

Foto: Wikipedia

Foto: Wikipedia

O político russo Boris Nemtsov suicidou-se foi assassinado no centro de Moscovo com quatro tiros no peito. Opositor político de Putin, era um dos organizadores da marcha anti-guerra prevista para 1 de Março. Parece claro que estava ao serviço e foi morto pela CIA.

Boris Nemtsov: Yes, I’m afraid that Putin will kill me (entrevista de 10 de Fevereiro)

Adenda: Entretanto, Putin auto-nomeou-se chefe da investigação. O homem não tem descanso na defesa da sua honra.

Vladimir Putin has already proposed a theory about Boris Nemtsov’s assassination — that his killing was a provocation presumably (according to this theory) to make the Kremlin look guilty. The Russian state-operated TASS reports (translated by The Interpreter):

“Putin noted that this cruel murder had all the hallmarks of a contract job and bears an exclusively provocational character,” said Peskov [Putin’s press secretary – The Interpreter].

According to him, “the head of state has instructed the leaders of the Investigative Committee of the Russian Federation, Interior Ministry and FSB to create an investigative group and to keep the course of the investigation of this crime under his personal control.”

James Miller, Pierre Vaux

BorisNemtsov

Imagem de arquivo que capta Boris Nemtsov com a bandeira ucraniana na mão, ladeado pela ex-PM ucraniana Yulia Tymoshenko e ao fundo, o actual Presidente Petro Poroshenko.

Procura-se consciência na Câmara de Lisboa

Roseta diz que Salgado tinha “perfeita consciência” dos 4,6 milhões.

A presidente da Assembleia Municipal de Lisboa diz que o vereador Manuel Salgado “tem perfeita consciência” de que a isenção de taxas e compensações urbanísticas que a Câmara de Lisboa propôs que fosse concedida ao Benfica é de 4,6 milhões de euros e não de 1,8 milhões. Então por que é que o autarca nunca corrigiu o valor que tem sido divulgado? “Isso pergunte-lhe a ele”, responde Helena Roseta, recusando fazer uma leitura desse facto.

Rua e lenços revolucionários

Maduro

Enquanto o povo se prepara para defender a revolução nas ruas, a política económica revolucionária de Maduro continua a frutificar.

Exercícios intelectuais nas fronteiras do conhecimento e da paz

Rússia anuncia manobras militares na fronteira com Estónia e Letónia,

Polónia não aprecia comemorações.

 Suécia e a Finlândia assinaram um pacto militar entre si como resposta à crescente ameaça da Nato.

I Have Never Left Russia“.

Os oito erros que levaram a Ucrânia a invadir várias regiões da Rússia.

Showbiz (arquivo cultural-caridoso do então PM russo).

Os apoios de António Costa

O próprio messias no Casino da Póvoa.

O Terceiro excluído, por João Cardoso Rosas.

(…) Os partidos da social-democracia, que sempre constituíram a primeira ou segunda força política europeia, estão em crise profunda. Não se trata de pensar agora no caso português e na ambiguidade da liderança do PS – António Costa pode andar por aí a repetir as vacuidades que quiser porque na Europa não sabem sequer que ele existe. O que deve fazer pensar são os casos da Alemanha ou da Holanda, onde os social-democratas alinham inteiramente pela política de austeridade. Nos Governos de França ou da Itália, eles pareciam ter uma visão diferente, mas acabaram por não ser consequentes.

O actual debate na Europa é muito importante e dele depende não só o futuro da Grécia, ou de Portugal, mas também o destino do projecto europeu. Neste debate o aspecto político mais surpreendente é, sem dúvida, a auto-exclusão do centro-esquerda.

Entretanto no PCTP/MRPP

Já não s@m@s Syris@.

Adenda: Por um qualquer motivo revolucionário que me escapa, os camaradas do site do PCTP/MRPP removeram o link para o vídeo. No entanto, a revolução do Garcia Pereira continua por aqui. Divirtam-se.

O combate ao terrorismo

Também se faz através da justiça.

The Palestine Liberation Organization and the Palestinian Authority backed a series of terrorist attacks in the early 2000s in Israel that killed or wounded Americans, a U.S. jury found Monday in awarding hundreds of millions of dollars in damages at a high-stakes civil trial.

The case has been viewed as one of the most notable attempts by American victims of the Palestinian-Israeli conflict to use U.S. courts to seek damages, and the verdict is a setback for the Palestinians’ image as they seek to rally international support for their independence and to push for war crime charges against Israel.

The damages could be a financial blow to the cash-squeezed Palestinian Authority, though the Palestinian authorities plan to appeal and the plaintiffs may face challenges in trying to collect.

In finding the Palestinian entities liable in the attacks, a Manhattan federal jury awarded the victims $218.5 million in damages for the bloodshed in attacks that killed 33 people and wounded hundreds more — damages their lawyers said would automatically be tripled under the U.S. Anti-Terrorism Act.

Palestinian Authority Deputy Minister of Information Dr. Mahmoud Khalifa called the verdict “a tragic disservice” to Palestinians and to the international community in working toward a solution to the Israeli-Palestinian conflict.

 

Nova oportunidade para os críticos de cartoons X

A survivor of the Copenhagen attack speaks: ‘If we should stop drawing cartoons, should we also stop having synagogues?’

Compreender o putinismo XVII

Foto: SERGEI KARPUKHIN/REUTERS

Foto: SERGEI KARPUKHIN/REUTERS

E agora algo completamente inesperado.

A Moscow court late on Thursday jailed prominent Russian opposition leader Alexei Navalny for 15 days for breaching a law that restricts demonstrations, barring him from a planned rally on March 1.

Two days earlier another court had ended house arrest terms for Navalny and upheld a suspended three-and-a-half-year prison term for the protest leader over a theft case he says is politically motivated.

Navalny left the courthouse on Thursday evening handcuffed and was whisked away in a police car. He appealed nonetheless to his followers to turn up for the rally against President Vladimir Putin’s policies.

Entretanto na Argentina

Cientos de miles de personas marchan en todo el país en homenaje al fiscal Nisman

La marcha del 18F. Bajo una lluvia torrencial, se movilizan desde el Congreso a Plaza de Mayo unas 260.000 personas, según cálculos de la Policía Metropolitana. La multitud es encabezada por fiscales y familiares de Nisman. Además, hay multitudinarias concentraciones en ciudades del Interior como Rosario, Córdoba, Santa Fe y Mar del Plata.

 

Leituras complementares: Calote Argentino, Calote Argentino IIAcima de qualquer suspeita (edição argentina) e Uma estranha epidemia na Argentina.

Compreender o putinismo XVI

Foto de Andrey Borodulin-AFP

Foto de Andrey Borodulin-AFP

Mineiros independentistas lançam mísseis Grad em Horlivka (Ucrânia), comprados em mercado local, dentro do espírito dos acordos de Minsk I e Minsk II, dando continuidade às populares campanhas dos referendos que, espera-se, tenham continuidade na cidade-natal de.Ludwig von Mises. Quando  o princípio da secessão, um dos mais queridos valores liberais, chegar a Lviv por forma a implantar uma república popular, boa parte do caminho destes mineiros estará feito.

CrimeiaEscocia

Compreender o putinismo XV

Há que prestar a devida homenagem aos soldados russos que caíram na defesa da Ucrânia Hungria em 1956.

Maduro: a última vítima da “direita pelo direito à blasfemia”

 

CartoonSemana

O Presidente da Venezuela é a mais recente aquisição da glamourosa equipa dos críticos de cartoons.

Fonte: Semana.

Leitura recomendada

O haraquíri por Mario Vargas Llosa, no DN.

(…) O haraquíri não é uma especialidade terceiro-mundista, também a civilizada Europa o pratica de vez em quando. Hitler e Mussolini chegaram ao poder por vias legais e um bom número de países centro–europeus atiraram-se nos braços de Estaline sem escrúpulos de maior. O caso mais recente parece ser o da Grécia, que, em eleições livres, acaba de levar ao poder – com 36% dos votos – o Syriza, um partido demagógico e populista de extrema-esquerda que se aliou para governar a uma pequena organização de direita ultranacionalista e antieuropeísta. O Syriza prometeu aos gregos uma revolução e o paraíso. No estado catastrófico em que se encontra o país que foi o berço da democracia e da cultura ocidental, talvez seja compreensível esta catarse sombria do eleitorado grego. Mas, em vez de superar as desgraças que os assolam, estas poderão recrudescer agora se o novo governo se empenhar em pôr em prática o que prometeu aos seus eleitores.

As desgraças são uma dívida pública vertiginosa de 317 mil milhões de euros para com a União Europeia e o sistema financeiro internacional que resgataram a Grécia da falência e que equivale a 175% do produto interno bruto. Desde o início da crise, o PIB da Grécia caiu cerca de 25% e a taxa de desemprego chegou quase aos 26%. Isto significa o colapso dos serviços públicos, uma queda atroz dos níveis de vida e um crescimento canceroso da pobreza. Se ouvirmos os dirigentes do Syriza e o seu inspirado líder – o novo primeiro–ministro, Alexis Tsipras – esta situação não se deve à inépcia e à corrupção desenfreada dos governos gregos ao longo de várias décadas, que, com uma irresponsabilidade delirante, chegaram a apresentar balanços e relatórios económicos forjados à União Europeia para dissimular os seus prejuízos, mas sim às medidas de austeridade impostas pelos organismos internacionais e a Europa à Grécia para a resgatar da impotência a que as más políticas a haviam conduzido.

O Syriza propunha acabar com a austeridade e com as privatizações, renegociar o pagamento da dívida na condição de que houvesse um “perdão” (ou cancelamento) importante da mesma e reativar a economia, o emprego e os serviços com investimentos públicos sustentados. Um milagre equivalente ao de curar um doente terminal fazendo-o correr maratonas. Deste modo, o povo grego recuperaria uma “soberania” que, ao que parece, a Europa em geral, a troika e o governo da senhora Merkel em particular, lhe teriam arrebatado.

O melhor que poderia acontecer era que estas bravatas da campanha eleitoral fossem arquivadas agora que o Syriza já tem responsabilidades de governação e, como fez François Hollande em França, reconheça que prometeu coisas enganosas e impossíveis e retifique o seu programa com espírito pragmático, o que, sem dúvida, provocará uma deceção terrível entre os seus ingénuos eleitores. Se não o fizer, a Grécia enfrenta a bancarrota, a saída da União Europeia e o afogamento no subdesenvolvimento. Há sinais contraditórios e ainda não é claro se o novo governo grego fará marcha atrás. Acaba de propor, em vez do cancelamento da dívida, uma fórmula picaresca e enganadora que consiste em converter aquela em dois tipos de títulos, uns reais, que se iriam pagando à medida do crescimento da sua economia, e outros fantasmas, que se iriam renovando por toda a eternidade. França e Itália, vítimas também de grandes problemas económicos, manifestaram não ver com maus olhos semelhante proposta. Sem dúvida que ela não vingará porque ainda nem todos os países europeus perderam o sentido da realidade.

Em primeiro lugar, e com muita razão, vários membros da União Europeia, além da Alemanha, recordaram à Grécia que não aceitam “perdões”, nem explícitos nem dissimulados, e que os países devem cumprir os seus compromissos. Os que foram mais severos a esse respeito foram Portugal, Espanha e Irlanda, que depois de grandes sacrifícios estão a sair da crise após cumprirem escrupulosamente as suas obrigações. A Grécia deve à Espanha 26 mil milhões de euros. A recuperação espanhola custou sangue, suor e lágrimas. Porque teriam os espanhóis de pagar dos seus bolsos as más políticas dos governos gregos, além de já estarem a pagar pelas dos seus?

A Alemanha não é a culpada de que um bom número de países da Europa comunitária tenham a sua economia em escombros. A Alemanha teve governos prudentes e competentes, austeros e honrados e, por isso, enquanto outros países se destruíam, ela crescia e fortalecia-se. E não podemos esquecer que a Alemanha teve de absorver e ressuscitar um cadáver – a Alemanha comunista – a custo, também, de formidáveis esforços, sem se queixar nem pedir ajuda a ninguém, apenas mediante o empenho e o estoicismo dos seus cidadãos. Por outro lado, o governo alemão da senhora Merkel é um europeísta decidido e a melhor prova disso é a maneira generosa e constante como apoia, com os seus recursos e iniciativas, a construção europeia. Apenas a proliferação dos estereótipos e mitos ideológicos explica esse fenómeno de transferência freudiana que leva a Grécia (não é a única) a culpar o mais eficiente país da União Europeia pelos desastres que foram provocados pelos políticos que, durante tantos anos, o povo grego mandou para o governo com os seus votos e que o deixaram nas condições pavorosas em que se encontra.

Nova oportunidade para os críticos de cartoons IX

12cartoons

O evento intitulado “Arte, Blasfémia e Liberdade de Expressão” que visava discutir aqueles temas foi interrompido pelo participante Omar Abdel Hamid El-Hussein, nascido e criado no Reino da Dinamarca, que dentro da sua liberdade decidiu responder aos tiros, assassinando o realizador dinamarquês Finn Norgaard. Guiado pela natural insatisfação humana, o crítico expôs os seus pontos de vista à porta de uma sinagoga, assassinado Dan Uzan, membro daquela comunidade judaica. Pelo caminho, dentro da sua liberdade feriu mais cinco pessoas. O crítico de arte – variante cartoons – foi abatido pelas forças repressivas dinamarquesas.

Uma vez mais e ao contrário das vítimas,  os afamados críticos dos cartoons têm a oportunidade para se exprimirem em liberdade. De preferência através da caixa de comentários.

Leitura dominical

Os portugueses que nos querem ver gregos, a opinião de Albertto Gonçalves no DN.

Nada detém o sucesso da revolução bolivariana. Na Venezuela já escasseavam os preservativos, as lâminas de barbear, o champô, os absorventes íntimos e o papel higiénico, entre outros símbolos do consumismo desenfreado. Agora faltam também as fraldas, produto cuja compra passa a depender da apresentação da certidão de nascimento dos bebés. Mais uma vez, o capitalismo é derrotado.

Anos após Chávez ter decretado o duche de meio minuto, e ao contrário do que sucede nas sociedades subjugadas à selvajaria dos mercados, os venezuelanos, adultos e crianças, libertaram-se enfim das grilhetas burguesas do banho e do asseio em geral. Hoje, um indígena levanta-se da cama onde acabou de encomendar o oitavo filho e, a julgar pelo aspecto e pela fragrância, encontra-se prontíssimo para participar numa manifestação de apoio ao Sr. Maduro. E os que criticam a ausência de leite para empurrar o pão com manteiga do pequeno-almoço referem-se a um falso problema, visto ser dificílimo conseguir pão, manteiga ou, de resto, qualquer refeição decente. Se o capitalismo julgava alienar as massas pelo estômago, enganou-se de novo.

Em larga medida, a Venezuela já desbravou o caminho que na Europa a Grécia (onde o Syriza assume a influência de Caracas) se limita a apontar. O socialismo grego ainda tenta sobreviver com o dinheiro alheio; o socialismo venezuelano mostra o que é viver sem dinheiro nenhum. Nem sequer os 11 mil milhões desviados pelos sobas locais para o HSBC da Suíça. O capitalismo está de rastos.