Então é Natal. Mesmo diante dos inegáveis esforços para secularizar esta data, em sua essência o Natal continua representando a encarnação de Deus em nosso meio. Para os cristãos, Deus não veio como um ser quase mitológico, dotado de força sobrehumana e poderes mágicos inimagináveis… Ele veio como um bebê indefeso. Em Sua sabedoria divina, o Criador quis nos ensinar o valor da Confiança e a importância da Família, dois elementos fundamentais para todo o desenvolvimento subseqüente da nossa tradição histórica e cultural. Por isso, indefeso, o Verbo fez-se homem, o Verbo fez-se criança, e habitou entre nós.
É meditando sobre o significado da Natividade que percebemos a expressão da caritas divina, do amor de Deus. Contudo, a secularização do Natal, a notável ausência de presépios, a insistência no insosso “Boas Festas” ao invés do vívido “Feliz Natal”, tudo isso significa a rejeição cada vez maior da caritas divina em uma tentativa pueril de reforçar a pretensa auto-suficiência de nossa racionalidade ao ponto de conceder-lhe o status de culto religioso.
Sim, porque a própria racionalidade que nos caracteriza e que nos singulariza também pode tornar-se ideológica e passar a ser um fim em si mesma. Em nome da primazia da razão humana sobre a realidade, na devoção cega ao ideal racional a cujos pés sacrificam-se continuamente os valores mais importantes, inclusive o valor da vida, alimenta-se a possibilidade de construir, racionalmente, sociedades perfeitas - a qualquer preço.
A razão humana é maravilhosa, porém limitada. É na consciência dessas limitações que nos superamos e realizamos os maiores feitos. Já no extremo da arrogância, fazemos com que as atividades mais nobres do espírito humano percam o sentido: a arte torna-se artifício, a ciência transforma-se em cientificismo e a religião degenera nos mais diversos fundamentalismos.
Reconhecer o sentido do Natal significa aceitar o amor de Deus, a caritas divina, que veio a nós na forma de um bebê indefeso para mostrar-nos, entre outras coisas, que é na arrogância que encontramos a nossa perdição. É a partir da expressão do amor de Deus que compreendemos a razão desta época ser uma época de paz e de tolerância.
Ao dizermos FELIZ NATAL ao invés de Boas Festas, estamos exercitando a tolerância e o respeito para com pessoas de outras religiões e mesmo para com aqueles que optam por não abraçar nenhum tipo de crença. Porque o receituário politicamente correto prega, na verdade, uma falsa tolerância, que nos afasta de nossos valores mais preciosos. A riqueza da convivência, afinal de contas, está na afirmação das identidades, e não na auto-negação permissiva. Abrir mão do que temos de melhor não resulta no aprimoramento da compreensão, e sim no estabelecimento de relações de submissão. Somos o que somos, a anulação de nossa identidade não é sinônimo de progresso.
Desejo a todos, portanto, crentes e não-crentes, um FELIZ E SANTO NATAL, respeitando a opção de cada indivíduo, porém exigindo ao mesmo tempo o respeito que me é devido e afirmando o direito que tenho de festejar o Natal como o que ele é: uma festa essencialmente religiosa. FELIZ NATAL!