O Insurgente

Novembro 24, 2011

Os bárbaros

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 13:20

Ontem de manhã abri a janela do quarto e ali estava ela outra vez, a Catedral-Mesquita de Córdova, debruçado sobre o Guadalquivir, e debaixo de um manto cerúleo de Novembro. Sob a ponte romana, que une a praça da catedral ao Campo de la Verdad, passam, desde há dois mil anos, as águas do Grande Rio, indiferentes aos traços genéticos dos patronos da cidade. O templo, esse, já conta com uns veneráveis mil e trezentos anos e foi testemunha do período de ouro, entre os séculos X e XII, quando Córdova, estimulada por um milhão de habitantes e pelo engenho dos polimatas árabes e judeus, era o centro do mundo.

Em jeito de despedida, fiquei alguns momentos a contemplar a catedral. E não pude deixar de pensar que vivemos tempos ridículos (e perigosos). Ali ao fundo, pelas portas que dão acesso ao Pátio das Laranjas, entram homens, mulheres e transexuais, cristãos, muçulmanos e ateus, brancos, negros e azuis. Nas ruas que ladeiam a catedral e que logo se estendem pela judería, circulam livremente cidadãos de todo o mundo, turistas, nativos ou imigrantes, com liberdade de culto e de conduta. Das portas dos restaurantes escapa-se o aroma oriental a cravinho e açafrão do rabo de touro cordovês, e, lá dentro, nas mesas, o tom rosáceo do salmorejo denuncia a maior oferta do Novo Mundo à cozinha europeia, o tomate. No entanto, do norte e do sul, chegam os gritos de intolerância, verberando uma imaginária tirania castelhana ou um sectarismo ocidental e cristão. Chamam-nos reaccionários, enquanto cobrem as suas mulheres com panos sombrios e proíbem a entradas de jogadores estrangeiros nos seus clubes de futebol. O intolerante é esquizofrénico e vê (o seu próprio) fanatismo em cada gesto do Outro.

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Canção do dia

Filed under: Portugal,Videos — Carlos M. Fernandes @ 11:07

Hi and howdy doody.
I’m a union man
You can call me Rudy.
Any of you boys not paid up on your cards?

You know I’m pleased to meet ya
Been tryin all day to reach ya
The union’s here to help everyone of you rock ‘n’ roll stars.
Hahahaha!

Filme do dia

Filed under: Portugal,Videos — Carlos M. Fernandes @ 11:00

Novembro 20, 2011

Eleições em Espanha (5)

Filed under: Internacional — Carlos M. Fernandes @ 22:41

O UPyD consegue o seu grupo parlamentar. Óptimo. Com uma segunda linha do parlamento espanhol dominada por comunistas, nacionalistas e terroristas, esta é uma das melhores notícias da noite.

P.S. Afinal, parece que o UPyD, com um milhão e cento e cinquenta mil votos, não vai conseguir o grupo parlamentar. Ficará a “décimas” de cumprir o segundo requisito. Coisas da lei eleitoral espanhola, que se ajoelha perante os nacionalismos (o Amaiur com pouco mais de 300 mil votos e o PNV também com 300 mil conseguem grupo próprio).

Eleições em Espanha (4)

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 22:05

Com 95% dos votos contados, o PP tem 186 deputados e o PSOE 110. Os populares chegam aos dez milhões de votos e a diferença entre os dois maiores partidos supera as previsões lançadas no inicio da noite. Já está, parece que não há mais história. Acabou a festa. A festa socialista. Agora é preciso limpar a imundície deixada pelos foliões e arranjar os estragos. E pagar a conta, claro. Há que deixar tudo em condições, porque daqui a uma, duas ou três legislaturas os pândegos podem voltar, e, quando isso acontecer, querem ter a casa limpinha e arrumada para recomeçar a farra. E aqui estaremos, à vossa disposição, meus senhores. Ass: os contribuintes.

Eleições em Espanha (3)

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 21:34

O PSOE perde em todas as regiões de Espanha. Por província, sobrevive apenas em Sevilha e Barcelona.

Eleições em Espanha (2)

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 20:31

A esquerda radical pode ter ganho dez deputados, de um total de 350, aos quais se pode juntar a meia dúzia de uma coligação regional e terrorista. 16 em 350. Suspeito que vamos ouvir muitas vezes a tese de que os indignaditos e a verdadeira esquerda tiveram uma grande vitória nas eleições espanholas. Se perdessem menos tempo com “acampadas” e assembleias, e se se dedicassem a estudar, talvez aprendessem a fazer contas.

Eleições em Espanha

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 19:09

As primeiras sondagens dão a maioria absoluta ao PP, como se esperava, e confirmam a derrocada do PSOE. IU e UPyD sobem. Amaiur entra no parlamento.

Música para hoje

Filed under: Videos — Carlos M. Fernandes @ 11:54

Tomás Bretón, Escenas Andaluzas (1894) – Zapateado

Eterno retorno

Filed under: Religião — Carlos M. Fernandes @ 09:30

Hoje, em Espanha, numa Espanha pobre, destroçada e deprimida, termina a 827ª experiência socialista e despedimo-nos do 1293º herói da esquerda. Começa a ser cansativo. E sai caro.

Novembro 19, 2011

Schubert (31.01.1797 – 19.11.1828)

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 12:51

Um lied (com Fischer-Dieskau, pois claro, mas também podia ser com Thomas Hampson). Ou o espantoso, na sua modernidade, Quarteto para Cordas n.15. Ou os Impromptus. Ou a Incompleta. Hoje é dia de ouvir Franz Schubert. Trinta e um anos de vida que deixaram uma marca eterna.

Novembro 17, 2011

Paris, 1918-2011

Filed under: União Europeia — Carlos M. Fernandes @ 17:33

Na passada sexta-feira acordei numa Paris calma e silenciosa. A república descansava, em homenagem ao armistício de Compiègne: 11 de Novembro de 1918, o dia da paz, ou o dia que marca o principio da pausa entre os dois capítulos de uma Grande Guerra, ou o dia da humilhação germânica. É como preferirem. A data pode assinalar também o início de um século XX que ainda não percebemos se termina agora ou se está prestes a repetir-se. Quase cem anos depois, a notícia do momento, desse 11 de Novembro de 2011, era a iminente demissão de Berlusconi e a substituição do seu governo por uma trupe da confiança do Império. Primeiro a Grécia, agora a Itália. Adiante. Despachados o jornal, o café e o croissant, desci para o 2er Arr. e para as Grands Boulevards.

Cercado por um frio implacável e, paradoxalmente, acolhedor, atravessei a Poissoniére e segui pela rua de Montmartre no sentido do Sena. Passei pelo famoso número 146, onde uma placa de mármore com letras douradas nos avisa: ici le 31 Juillet 1914 Jean Jaurés fut assassiné. Jaurés, socialista, foi assassinado pelo nacionalista Raoul Villain, o qual foi morto pelos republicanos espanhóis em 1936. A intolerância europeia resumida em tragédias individuais.

Paris, 2011

Continuei até Les Halles, e aí virei para o Marais. Atravessei o bairro, descansei na tranquilidade e nos bancos do pátio da Bibliothèque Historique de la Ville de Paris (os livros parecem afugentar as multidões), continuei até à Praça da Bastilha e desci a Bvd. Henri IV. Cruzei as ilhas e cheguei finalmente ao meu destino: a Igreja de St. Julián, o Pobre, assentada, discreta e solidamente, na praça René Viviani.

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Novembro 16, 2011

Sobre as ruínas socialistas (e sob a ameaça totalitarista)

Filed under: União Europeia — Carlos M. Fernandes @ 17:33

Ontem à tarde, em Madrid, os espanhóis que passavam pelo CaixaForum contemplavam o magnífico La Grèce sur les Ruines de Missolonghi, de Eugène Delacroix, aparentemente alheados da sua própria derrocada. As eleições do próximo domingo chegam demasiado tarde. E o projecto totalitarista da União Europeia, que já saiu da toca, pouco se importa com estes trâmites das suas províncias.

Eugène Delacroix, La Grèce sur les Ruines de Missolonghi, 1826

Novembro 7, 2011

Aviso à atenção das feminazis portuguesas

Filed under: Religião — Carlos M. Fernandes @ 19:54

Aunque resulte inconcebible, un 28% de los universitarios españoles sigue recurriendo a conductas sexualmente coercitivas, como la de ‘invitar a unas copas’, para conseguir mantener relaciones sexuales con sus compañeras, según desvela un nuevo estudio. (…)

(…) los investigadores (…) “señalan la necesidad urgente de trabajar desde etapas evolutivas tempranas la educación afectivo-sexual, que erradique creencias estereotipadas vinculadas con la ideología machista”.

Aqui.

Se faltarem ideias “fracturantes”, aqui está uma: ilegalizar os convites para beber um copo.

O osso

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 16:52

As reacções às opiniões de deputados e ministro sobre o estado da Educação só vêm confirmar o que já se suspeitava: o país é refém de uma cultura que não suporta a mudança, muito menos quando lhe cheira a perda de protagonismo e poder, a emagrecimento do Estado ou a reestruturação de recursos. É uma cultura corporativista, dominada por cobardes acomodados aos direitos adquiridos, por homens e mulheres de cativeiro que, quando ameaçados com o mundo real, se agarram com unhas e dentes aos cantos da jaula. Com a via da privatização massiva totalmente interdita (o maior sacrilégio num país latino), só há uma solução para este marasmo, na Educação e noutros serviços: varrer tudo e começar de novo, dando, desta vez, liberdade às escolas para escolher os professores (e aos alunos para escolher as escolas, já agora). Esta medida teria ainda a vantagem de distinguir, sem avaliações internas ou externas, os bons dos maus professores. Os maus seriam identificados pelo elevado grau de histerismo. Porque o medo é a condição natural dos ineptos.

Novembro 6, 2011

Eleições em Espanha

Filed under: Internacional — Carlos M. Fernandes @ 14:48
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Faltam duas semanas para as eleições e tudo aponta para uma derrocada inédita do PSOE e para uma maioria absoluta do PP. Não são novidades. Os socialistas espanhóis preparam-se para este cenário há meses. Com Rubalcaba na liderança, esperava-se, e espera-se, uma mistura de manobras sujas e trapalhadas na pré-campanha e campanha eleitorais do PSOE. E é isso mesmo que estamos a ter.

Primeiro, foi o infame comunicado da ETA, que tresanda a arranjinho e embuste: declaramos a trégua definitiva, mas não tiramos os barretes ao estilo Klu Klux Klan nem entregamos as armas. (As lágrimas no comício do PSOE, derramadas pelo comunicado da ETA e pelo “fim” do terrorismo, foram confrangedoras e insultantes). Agora, desesperado, Rubalcaba recorre às velhas glórias do partido, com Felipe González à cabeça do pelotão. Isso mesmo, González, o pai da crise económica dos 1990s, do terrorismo de Estado e de uma mancheia de escândalos e casos de corrupção. Manobras sujas e trapalhadas, como fora “prometido”. É Rubalcaba, senhoras e senhores, também conhecido como o Rasputín da Moncloa. Um patético e desajeitado Rasputín que teve um papel central nos governos que deixaram Espanha de joelhos, e que agora, também de joelhos e com as mãos enlaçadas em posição de súplica, pede o perdão e o voto dos eleitores, com uma ladainha que oscila entre a canção do bandido e o tango do arrependido. Pouco sucesso terá, num país finalmente cansado da trágica gestão socialista.

Novembro 4, 2011

Quando a geração “Easy Rider” está no poder…

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 18:09

La Dirección General de Tráfico (DGT) ha impuesto una multa de 30.000 euros a la productora Tripictures, que sacó en el cartel publicitario de la película ‘Larry Crowne’ a sus protagonistas, Tom Hanks y Julia Roberts conduciendo una moto sin casco, por “promocionar conductas temerarias”, según han confirmado a Europa Press fuentes de la DGT.

Cada geração e cada regime tem os seus tabus. Na Espanha franquista de 69 era a pele, na Espanha zapaterista de 2011 é o cabelo.

Novembro 3, 2011

Walker Evans, 108 anos

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 21:13

I guess I’m deeply in love with America.

Walker Evans

Há fotografia A.E. e fotografia D.E. Antes e depois de Evans. E há também a história do desconforto do fotógrafo com a propaganda do New Deal de Roosevelt e da Farm Security Administration de Roy Striker. Mas essa história não é para hoje.

Portuguese House, Truro, Massachusetts, 1930

 

 

El Laberinto Griego

Filed under: União Europeia — Carlos M. Fernandes @ 13:15

Pepe Carvalho é contratado por Claire para encontrar o seu marido desaparecido. Com o decorrer da investigação, Carvalho sucumbe perante a beleza inalcançável da francesa e perde o rumo, perde a sua identidade, cínica, mas também simples, pragmática e eficaz. Terminado o trabalho, o detective volta a sentir o fardo da realidade, e regressa a uma existência singela e algo sórdida. Fim de festa. Fim da ilusão.

Novembro 2, 2011

Indignados

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 19:10

Outubro 31, 2011

Independências

Filed under: Portugal — Carlos M. Fernandes @ 13:31

O senhor Peces-Barba falou e as virgens ofenderam-se. Está bem. A cada um o seu tribalismo e sejamos felizes. Já eu, vil descrente nas virtudes do Estado-nação, estou completamente a borrifar-me para o senhor Peces-Barbas e para os indignados portugueses, versão nós-e-eles. E também me importa uma pevide as bandeiras, sejam de que cor forem. Viveria sob um governo e uma constituição de marcianos se isso me garantisse maior liberdade. Mas não deixa de ser engraçado: tanta indignação com as declarações de Gregorio Peces Barbas, em 2011!, o ano da graça do FMI, das independências hipotecadas em aeroportos e em PPPs, das manobras social-fascistas do Parlamento Europeu e dos projectos totalitários em curso nos corredores de Bruxelas. Não se cuidem, não. Quando a teia estiver completa não há padeira que vos salve.

Outubro 29, 2011

Idílios e outras utopias

Filed under: Cultura — Carlos M. Fernandes @ 14:34

Ontem à noite, no Auditório Manuel de Falla, a Orquestra da Cidade de Granada tocou o poema sinfónico de Wagner, Siegfried Idyll. Sobre a obra, não há muito mais a dizer do que já foi dito. É sublime, como quase tudo o que saiu das mãos de Wagner, e é uma experiência religiosa, uma daquelas coisas pelas quais merece a pena estar vivo. A peça oferece-nos ainda um vislumbre daquilo que poderia ter sido o prometido novo capítulo na carreira de Wagner, se o coração não o tivesse apartado dos vivos pouco tempo depois da estreia de Parsifal. Extra-musicalmente, as características mais relevantes de Siegfried Idyll são a sua génese e o seu destino final.

Criado como presente de aniversário para Cosima Wagner, a sua segunda mulher, e destinado a celebrar um dos momentos mais felizes da vida do compositor, o poema sinfónico — assim lhe chamou o autor —, era, obviamente, para ser mantido no recato do ambiente familiar. No entanto, problemas financeiros forçaram Wagner a vender a partitura. Já sabemos que os imperativos éticos de Wagner moviam-se por caminhos escuros e tortuosos. Sabemos também que as recorrentes dificuldades financeiras eram o resultado de uma vida desregrada e acima das suas possibilidades. Mas não deixa ser uma lição da História, uma boa lição para estes tempos modernos, contaminado por meninos e meninos que se dizem artistas (nem que seja porque usam boina, óculos de massa, e porque passam as noites no Bairro Alto), e, que por essa razão, exigem tudo e mais alguma coisa. Isto é, exigem que os financiem, independentemente do sucesso do seu trabalho (independentemente até do trabalho), ainda por cima, tantas vezes, com o argumento de que todos os grandes artistas foram financiados no passado. Ao atrevimento, juntam a ignorância. Por isso, deixo um conselho (grátis) aos jovens artistas: estudem a História, antes mesmo de pegarem no pincel. Dar-vos-á humildade e perspectiva. E evita que, no futuro, se iludam e pensem que inventaram a pólvora.

Outubro 19, 2011

Redistribuição de riqueza em Nova Iorque

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 10:42

Os indignados de Nova Iorque queixam-se de que lhes roubam os portáteis, os telemóveis, o dinheiro e até a comida!? Não percebo qual é o problema. Em gíria indignado-marxista isso chama-se “redistribuição de riqueza”.

Outubro 18, 2011

Circo de Outono

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 00:06

Más tarde, en París, puse la televisión por pura casualidad. Allí estaba Olof Palme asegurando en perfecto francés que la historia de los impuestos se había exagerado demasiado, que no era un efecto de la política fiscal de la socialdemocracia, y que era amigo mío. En ese instante lo desprecié.

Ingmar Bergman, Linterna Magica

Na sua juventude e princípio da idade adulta, Ingmar Bergman foi um admirador do nazismo e seguiu as proezas militares de Hitler com especial carinho. Quando, no final da guerra, enfrentou os testemunhos dos sobreviventes e as fotografias de Bergen-Belsen, Bergman ainda se defendeu, conjecturando propaganda nas palavras e montagem nas fotos, antes de render-se à realidade: havia sido cúmplice de uma ideologia criminosa.

Mais tarde, converteu-se à social-democracia, e foi um fiel súbdito do Estado Social e da doutrina da elevada taxação do contribuinte durante três décadas. Mas em 1976, após ser injustamente perseguido e humilhado pelo governo sueco devido a um problema tributário, Bergman exilou-se na Alemanha e disse do regime o que Maomé não disse do porco. Não sabemos se o cineasta se transformou então num “perigoso neoliberal”, mas é certo que deu mais um passo no sentido da desconfiança crónica de sistemas políticos que, mais ou menos perversos, não hesitam em submeter o indivíduo aos interesses de uma abstracção chamada “colectivo”. (Em contacto com o teatro alemão, passou também a referir-se com sarcasmo aos actores suecos e à sua pouca vontade de ensaiar, escondida sob a cobertura dos “direitos”, da defesa da vida familiar e do perigo para o acto artístico que pode resultar do excesso de trabalho).

Os Bergman nazi e socialista talvez estivessem hoje ao lado dos indignaditos. O Bergman do exílio era bem capaz de lhes dar uns açoites. São só hipóteses mas uma coisa é segura: não estamos presos a uma doutrina e os acidentes de percurso ou o discernimento podem sempre levar-nos no bom caminho da liberdade.

Outubro 17, 2011

99% (2)

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 11:58

Eleições em Espanha, 20 de Novembro:

Así las cosas, los de Génova 13 lograrían 46 escaños más que en 2008, récord histórico; y una ventaja de 15,5 puntos de ventaja sobre el PSOE, o lo que es lo mismo: el PP obtendría el 46,4% de los votos, dejando a los socialistas con apenas el 30,9%.

 

Outubro 14, 2011

Os culpados do costume

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 16:48

Agora que a contestação social e as manifestações vão certamente aumentar, quero deixar uma sugestão para uma das próximas arruadas: o aeroporto de Beja. Arrastam as televisões e os outros meios de comunicação atrás e mostram ao país onde ficaram os 13º e 14º mês de que tanto se fala. Isto se quiserem mesmo apontar as causas das coisas, claro. Se preferirem apenas fazer barulho e culpar o neo-liberalismo e o capitalismo selvagem, como sempre, então o melhor é descerem a Av. da Liberdade. Como sempre.

Outubro 12, 2011

Neo-religião

Filed under: Religião — Carlos M. Fernandes @ 00:58

I sometimes think the day will come when all modern nations will adore a sort of American god, a god who will have been someone who lived as a human being and about whom much have been written in the popular press: images of this god will be set up in the churches, not as the imagination of each individual painter may fancy him, not floating on a Veronica cloth, but fixed once and for all by photography.Yes, I foresee a photographed god, wearing spectacles.

in Jounal of Edmond and Jules de Goncourt (1861)

Outubro 8, 2011

O melhor entre todos nós

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 16:21

Parece que são quarenta anos. E isto é uma singela homenagem a um dos poucos que não contribui para a espuma dos dias. Faz passado, nobre tarefa que só está ao alcance dos homens especiais.

Outubro 3, 2011

O futuro dos novos profetas não tem passado

Filed under: Cultura — Carlos M. Fernandes @ 17:14

(…) Mucho se equivocan, pienso una vez más, quienes afirman que una tableta electrónica borrará el libro de papel de las necesidades humanas. Porque un libro no sirve sólo para leer. Sirve también para que su peso tranquilice las manos lectoras, para subrayar y ajar sus páginas con el uso, para regalar el ejemplar leído a personas a las que quieres. Para ver amarillear sus páginas con los años sobre los viejos subrayados que hiciste cuando eras distinto a quien ahora eres. Para decorar – no hay cuadro ni objeto comparable en belleza – una habitación o una casa. Para amueblar una vida.(…)

Arturo Pérez-Reverte

Setembro 30, 2011

É grátis (2)

Filed under: Saúde — Carlos M. Fernandes @ 15:22

Giles Tremlett, o correspondente do The Guardian em Madrid desde os anos 1990, publicou um livro em 2006, chamado Ghosts of Spain, no qual elogia frequentemente o sistema de Saúde público. Elogia com convicção. Até chegar a primeira gravidez da mulher. É então que [his] patience with public health ran out. Depois de um calvário de nove meses, que passou pelo caos causado pelos hábitos descritos no texto anterior, a última de gota de água foi ver um médico remover os pontos da cesariana enquanto combinava, com o telemóvel entre a orelha e o ombro, uma partida de golfe. O segundo filho nasceu numa maternidade privada.

É grátis

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 15:01

Coisas que aprendemos quando vemos alguns programas de televisão e lemos alguns jornais: o sistema de saúde espanhol, maioritariamente público, é o melhor do mundo, e os ingleses adoram viver aqui a sua reforma porque podem pôr ancas novas sem pagar um tostão. Coisas que aprendemos quando vivemos em Espanha: quando um espanhol é internado num hospital público, há quase sempre um membro da família que o vai acompanhar durante as vinte e quatro horas do dia. Isto está ligado às tradições e à cultura, sim, pelo menos no sul, mas é um comportamento que também é incentivado por médicos e enfermeiros. Estes dizem que, durante a noite, não podem garantir as necessidades básicas do paciente nem acudir a qualquer emergência. Ora, quando a hospitalização se prolonga por uma semana ou mais, imagine-se as consequências deste ritual, ao nível pessoal e laboral. Ah, mas a Saúde é de “borla”

Setembro 29, 2011

Dicionário Português-Progressista

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 17:49

Censura: uma empresa privada não aceita expor uma obra que não está de acordo com  os seus padrões.

Progresso: um governo tenta proibir uma campanha publicitária.

Setembro 28, 2011

Vinte anos

Filed under: Videos — Carlos M. Fernandes @ 14:22

Sem comentários

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 02:59

A Livraria Barata foi condenada a pagar uma coima de 4 mil euros pela prática de uma contra-ordenação, depois de uma fiscalização da ASAE às instalações da livraria na Avenida de Roma, em Lisboa, em Agosto de 2007.(…) Uma brigada da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) fiscalizou as instalações da livraria em Agosto de 2007 e constatou que os preços nas etiquetas de alguns produtos expostos nas monstras não eram visíveis pelo público a partir do exterior da loja.

(…)

Na semana passada, depois de ouvidos em tribunal a representante legal da Livraria Barata e dois inspectores da ASAE, o Ministério Público reconheceu que a contra-ordenação foi praticada, mas criticou o excesso de protecção legal do legislador, que exige “que o cidadão veja o preço imediatamente”, e a exorbitância das coimas aplicadas aos pequenos comerciantes. “As entidades administrativas andam esfomeadas de dinheiro e aplicam coimas enormes aos pequenos comerciantes, esquecendo frequentemente a pena de admoestação.”

Setembro 26, 2011

Uma noite na ópera

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 13:36

Abre hoje a temporada de ópera da Metropolitan, Nova Iorque, com Donizetti e a sua Anna Bolena, interpretada por Netrebko. Um cartaz extenso, “completo”, tradicional, como se quer nas melhores casas de ópera. Muito Verdi, muito Wagner, como tem que ser, e uma lista universal e intemporal, que passa por Janácek (Věc Makropulosque está desde 1996 nas páginas trágicas da História da Met), Britten (com a melvilliana Billy Budd) e Humperdinck. Um sonho, ao alcance da alguns.

Setembro 25, 2011

Sem sangue nas veias

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 20:00

Foi dada, há poucos minutos, a última estocada na Monumental de Barcelona. A partir de hoje, não há mais touros nem toureiros naquela arena, uma das históricas de Espanha, antiga, secular.  Foi tudo feito de uma forma democrática, limpa, moderna, um triunfo de uma democracia sem sangue, sem liberdade, mas ah!, uma democracia!, daquelas em que manda quem tem mais votos! (Entretanto, os correbous continuam a mostrar ao mundo um triste espectáculo. Mas é um espectáculo catalão. É assim o nacionalismo: intolerante e parolo.)

E agora, na despedida, lembramos Lorca, que rompeu com os delírios anti-taurinos e anti-flamenquistas da geração de 98 (um grupo também muito democrático, limpo e moderno). Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, assim se chama o poema com o qual Lorca imortalizou o  toureiro sevilhano morto na praça de Manzanares em 1934, e também a sua admiração pela arte do toureio. Mejías, toureiro, escritor, membro da Geração de 27, tomou a alternativa na praça de Barcelona em 1919. Menos de 100 anos depois, este é definitivamente um assunto arrumado nas gavetas envergonhadas da História. Resta-nos o consolo de saber que quem tratou de matar as corridas catalãs é muito mais pequeno do que Lorca, Mejías, e todos os que passaram pela longa tradição taurina. São, intelectualmente, anões. Intolerantes e repugnantes anões.

No quiero que le tapen la cara con pañuelos
para que se acostumbre con la muerte que lleva.

Setembro 18, 2011

Acordo Ortográfico

Filed under: Portugal — Carlos M. Fernandes @ 16:39

Como se não bastasse Portugal estar transformado num circo manhoso, onde já nem os palhaços têm lustre, temos ainda que aturar agora essa farsa chamada Acordo Ortográfico. Dizem os burocratas do acordo e os seus cordeirinhos que houve outros ajustes da língua no passado e que daí não veio qualquer mal ao mundo. Para além de ser sempre divertido ver um burocrata defender a bondade de uma decisão de secretaria evocando outras decisões de secretaria, esta visão do problema revela o quão fora do mundo estão estes mangas-de-alpaca financiados pelo contribuinte. Fechados nos seus gabinetes das nove às cinco, nem repararam que há cinquenta ou cem anos o mundo era muito diferente. Ora pensem lá um bocadinho, meus senhores, e vejam se vai ser assim tão fácil doutrinar, numa geração, uma população habituada a viver num mundo onde as normas aparecem — se é que aparecem! — como resultado de fenómenos emergentes. Vamos ter dois sistemas, um dentro das paredes das escolas e nos jornais oficiais — que, como se sabe, estão em queda acentuada — e outro no dia-a-dia, no Facebook, no Twitter, nas mensagens de correio, nos blogues e nas listas de compras. E tudo isto para quê? Se é para degradar a língua portuguesa, já temos o dialecto éseémeésiano e o portinglês. Não precisamos de mais confusão lançada de forma oficial.

Setembro 17, 2011

Sugestão

Filed under: Agenda — Carlos M. Fernandes @ 20:51

Gregory Crewdson, um dos mais relevantes fotógrafos do circuito comercial, abre a temporada de 2011/12 da Galeria La Fabrica, em Madrid (um espaço exclusivamente dedicado à fotografia). Há um par de anos, nessa mesma galeria, vi um conjunto de fotografias de Crewdson pertencentes a séries anteriores. São imagens dominadas pela teatralidade, fotografia de cena de filmes imaginários, com um efeito perturbador, intenso, que se aproxima do sublime. Esta série agora apresentada na La Fabrica retrata a lendária Cinecittà de Roma, e está despojada de todos os artifícios, como se Crewdson quisesse mostrar o esqueleto do seu próprio trabalho, imitando Fellini e o final de E la Nave Va. Desce o pano, fica a fachada. Em resumo, e para não nos perdermos em pedantices, isto é memória, um dos blocos constituintes da arte (e da cultura), e a peça que falta na chamada arte contemporânea (e na “cultura” contemporânea). A não perder.

Gregory Crewdson, Beneath the Roses

Setembro 16, 2011

Social-democracia

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 15:56

são de esquerda, são de direita. Assim, as criancinhas não percebem nada e vão crescer sem as noções básicas de filosofia e ciência políticas.

Setembro 10, 2011

Antes (2)

Filed under: Diversos — Carlos M. Fernandes @ 14:55

Foi um acontecimento raro num período de convivência pacífica e de boas relações entre nativos e colonos. Corria o ano de 1626. Um grupo de índios Wieckquaesgeck viajava para Nova Amesterdão, no sul de Manhattan, para aí vender peles de animais, quando foi atacado por colonos europeus. As peles foram roubadas e os todos os índios foram assassinados, excepto um rapaz, sobrinho de uma das vítimas. De acordo com as leis da tribo, o jovem deveria vingar a morte do tio. Mais tarde ou mais cedo. E assim o fez, quinze anos depois. O alvo foi um europeu chamado Claes Swits, que era apenas culpado de estar no lugar errado à hora errada. Era um homem branco, e isso bastava para o pequeno rapaz feito homem à pressa. O índio, agora com 27 anos e velho conhecido da vítima, matou Swits na sua própria casa, situada no que é hoje o cruzamento da Rua 47 e da Segunda Avenida. Decapitou-o.

A contra-retaliação das autoridades da Nova Holanda foi rápida e “eficaz”, apesar da oposição dos colonos, pragmáticos e receosos das consequências de uma escalada de violência. Morreram oitenta Wieckquaesgeck, homens, mulheres e crianças. O seu pecado: estar no lugar errado à hora errada. E serem índios, o que bastava para pacificar a fome de vingança de Willem Kieft, o director-geral da Nova Holanda, que actuou contra a vontade dos europeus de Manhanttan e da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. A partir daí, o desastre foi imparável. Escalpes europeus e quintas incendiadas marcaram uma década que enfraqueceu irremediavelmente a posição holandesa no Novo Mundo. Em 1653, ameaçada em várias frentes, a Companhia das Índias ordenou a construção de um muro para proteger Nova Amsterdão, não só dos índios, como também de um esperado ataque inglês. O assalto dos ingleses chegaria finalmente em 1664 — por mar, obviamente, demonstrando a inutilidade do muro. Foi o fim de Nova Amesterdão. Moral da história: nenhuma.

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