A escolaridade obrigatória no Mali e os capacetes dos peões

A Maria João Marques disse aqui algumas coisas evidentes. A primeira é a de que alguém com o 12º ano tenderá a ser mais produtivo do que alguém com o 9º ano. Nem que seja simplesmente fruto de mecanismo de auto-selecção (um aluno que desiste da escola no 9º ano terá mais probabilidades de ter fraco desempenho escolar e , portanto, menos capacidades), a constatação é evidente. Disse também que adolescentes tendem a tomar decisões erradas que muitas vezes não são corrigidas, e até são incentivadas, pelos pais. É difícil de discordar desta ideia, principalmente observando as escolhas que alunos 3 anos mais velhos fazem na altura de se candidatarem ao ensino superior (as principais escolas de educação continuam a encher todos os anos). Mas parece-me que estes argumentos falham o essencial desta discussão: a análise custo-benefício.
A certa altura o estado resolveu tornar obrigatório o uso do capacete para motociclistas porque alguém entendeu que os benefícios de o fazer (o prolongamento da esperança de vida daqueles que andam de moto) ultrapassavam os custos. A obrigação restringiu-se aos motociclistas, apesar de a mesma medida também poder salvar vidas entre os peões. O uso de capacete por parte dos peões também salvaria vidas, mas ninguém defende um país onde todos andemos de capacete nas ruas. E não o fazemos porque entendemos que os custos (estéticos, o desconforto e o tempo perdido) ultrapassam os benefícios (as vidas que seriam salvas). Isto para concluir que argumentos como a escolaridade adicional beneficia os indivíduos ou os adolescentes tomam decisões erradas com repercussões para a vida, sendo verdadeiros, servem tanto para justificar a obrigatoriedade do 12º ano como estabelece-la no 9º ano ou na licenciatura. Ou seja, são incompletas sem uma análise de custo-benefício. A análise de uma intervenção estatal deste género, para quem não é ideologicamente absolutista, deve ter em conta o custo-benefício da intervenção. O custo neste caso serão os recursos adicionais alocados à educação, o custo de oportunidade para o indivíduo e os custos que indivíduos desmotivados impõem aos restantes alunos na mesma escola, isto para além da liberdade de escolha retirada às famílias. Existirão depois os benefícios decorrentes da formação acrescida dos indivíduos que se repercutirão para o resto da sua vida, e que são necessariamente decrescentes com os anos de ensino (o valor absoluto obtido por alguém analfabeto que completa a quarta classe é superior ao de alguém que com a quarta classe completa o 9º ano e bastante superior ao benefício obtido por alguém que, tendo mestrado, resolve fazer um doutoramento). Escasseiam os custos que façam uma análise de custo-benefício para diferentes níveis de escolaridade obrigatória, mas a tabela abaixo dá uma indicação:

BdoH48_CUAAxyF5

Portugal é o país da Europa, juntamente com a Holanda, que impõe mais anos de educação obrigatória. Quando confrontados com estes dados, a resposta habitual é a de que Portugal está atrasado no que respeita a qualificações pelo que se justifica ter uma escolaridade obrigatória superior aos restantes países europeus. Este argumento, em primeiro lugar, ignora o facto que boa parte do atraso português se concentra em faixas etárias não abrangidas pelo ensino obrigatório. Mas mais importante que isso, a noção de que países mais pobres devem ter escolaridade obrigatória mais longas como forma atingirem o desenvolvimento económico de países mais ricos, pode parecer lógica, mas está errada. Esta lógica levar-nos-ia a defender que o Mali devesse ter escolaridade obrigatória até à licenciatura e ir reduzindo o número de anos à medida que enriquecesse. O que acontece é exactamente o oposto: à medida que os países vão enriquecendo, vão aumentado o nível de escolaridade obrigatória. Isto acontece, mais uma vez, partindo de uma análise de custo-benefício. Em países ricos o custo de oportunidade de escolaridade adicional é inferior e o benefício retirado dessa escolaridade é superior (porque têm um stock de capital superior capaz de rentabilizar os anos adicionais de educação dos indivíduos). Definir níveis de escolaridades obrigatória elevados não justificados pelo nível de desenvolvimento económico é uma medida destruidora de riqueza e bem-estar. Tal como outras medidas socialistas, os seus benefícios são concentrados e visíveis (aqueles alunos com capacidades que teriam desistido no 9º ano e que acabam por beneficiar dos 3 anos adicionais de escolaridade) enquanto os custos estão espalhados e são difíceis de medir (o efeito na aprendizagem dos restantes alunos e os custos na educação desperdiçados com alunos desmotivados cujos impostos para os pagar limitam a criação de emprego). Não discuto a oportunidade de trazer este tema à baila nesta altura, mas que o aumento da escolaridade obrigatória é simbólico da forma de pensar que nos trouxe até aqui e merecedora de rejeição parece-me inegável.

About these ads

Ainda a manipulação estatística

Ainda em relação a esta suposta manipulação estatística que afinal não o foi, convém ler este artigo do Pedro Romano, no Desvio Colossal, que explica de forma mais clara o que tentei expôr aqui.

No post anterior, lancei algumas hipóteses sobre o que poderia explicar a subida de trabalhadores com horário efectivo de trabalho inferior a 10 horas semanais. Entre essas hipóteses, estavam empregos no turismo, nas colheitas ou simplesmente o abrandamento do número de horas dos trabalhadores independentes. O Pedro Romano abriu uma segunda possibilidade: aquele aumento se dever ao facto de empregados a tempo inteiro simplesmente trabalharem menos horas. Os dados do INE parecem confirmar essa possibilidade. Observe-se o gráfico abaixo

tempocompl

Fonte: INE

Como se pode observar, todo o crescimento no número de trabalhadores com horário efectivo de trabalho inferior a 10 horas se concentra entre os trabalhadores a tempo completo. Ou seja, trabalhadores normais, com horário completo mas que, por qualquer motivo, não precisam de trabalhar mais de 10 horas por semana no período de Verão. O INE não fornece dados para entender onde se concentra este efeito, mas muito provavelmente o sector da educação será um dos grandes contribuidores. Afinal, não existem muitos outros sectores onde prevaleçam contratos a tempo completo mas cuja carga de trabalho decresça de forma tão brutal no Verão. O que o Ricardo Paes Mamede terá descoberto, inadvertidamente, é que os professores da escola pública não têm trabalho suficiente no Verão.

A manipulação estatística dos dados de emprego

Confesso que, a princípio, me deixei convencer por este artigo do Ricardo Paes Mamede no Ladrões de Bicicletas. É de facto extraordinário que, apesar de terem sido criados 120 mil empregos entre o primeiro e o terceiro trimestre, que os ganhos se tenham concentrado nos empregos com um horário inferior a 10 horas, com os empregos de horários superiores a resgistarem uma perda de 310 mil. Sem mais dados, tal parece desvalorizar completamente o aumento de emprego anunciado pelo governo nesse período. Poderia mesmo dar razão ao PS quando fala de aldrabice estatística e manipulação do governo para apresentar números do emprego positivos.

Porém, olhando para os dados históricos com mais atenção denota-se uma importante tendência recorrent. No terceiro trimestre de cada ano, o número de empregados com horários inferiores a 10 horas sobe sempre. Atente-se nos gráficos abaixo:

Número de empregos com horário inferior a 10 horas (milhares)

3T

Número de empregos com horário entre 11 e 35 horas (milhares)

3T2

Como podemos ver, desde 2011, que o número de pessoas com horário de trabalho inferior a 10 horas aumenta sempre bastante no terceiro trimestre. Poderá ser o efeito do Verão (redução do trabalho para trabalhadores a tempo parcial) ou das colheitas de Setembro, mas a verdade é que é uma ocorrência normal no trimestre que vai de Julho a Setembro a passagem de pessoas com horários entre 10 e 35 horas para horários inferior a 10 horas. Na verdade

Onde fica então a criação de emprego anunciada por Pedro Passos Coelho? Em primeiro lugar o truque retórico: comparar o primeiro com o terceiro trimestre do ano dará sempre uma impressão errada, porque o terceiro trimestre tende a ser sempre o melhor para o emprego (ou melhor, para o número de empregos). No entanto, a comparação homóloga volta a ser importante aqui. Olhando para os dois anos anteriores conclui-se que:

Em 2011, foram destruidos 12 mil empregos entre o primeiro e o terceiro trimestre, e 130 mil entre primeiro e quarto trimestre
Em 2012, foram destruidos 6 mil empregos entre o primeiro e o terceiro trimestre, , e 130 mil entre primeiro e quarto trimestre
Em 2013, foram criados 120 mil empregos entre o primeiro e o terceiro trimestre. Portanto, pela primeira vez foram criados empregos entre o primeiro e o terceiro trimestre desde 2011.

Em conclusão:
- Faz pouco sentido falar em manipulação estatística, já que o número de empregos com horário semanal inferior a 10 horas aumenta sempre no terceiro trimestre
- Numa perspectiva puramente diferencial, existiu uma criação de pouco mais de 120 mil empregos, em relação a 2011 e 2012
- É provável que a criação de emprego entre o primeiro e o quarto trimestre seja bastante mais baixa que os 120 mil que ocorreram entre o primeiro e terceiro trimestre, mas ainda assimé provável que seja positiva pela primeira vez nos últimos 3 anos

Nota adicional: Como o Ricardo Paes Mamede referiu, o número de empregos com horários superiores a 40 horas, ou seja empregos no privado sem grande efeito sazonal, também aumentaram bastante. Outro bom sinal no mercado de trabalho.

Moeda anti-mercado

O mercado é dos fenómenos mais fascinantes e menos bem compreendidos. É um sistema através no qual a procura e oferta de bens, serviços, capital e trabalho se encontram, sem qualquer tipo de planeamento central. Mais fascinante ainda é o facto de o mercado ter o potencial para se adaptar rapidamente a alterações de preferências, técnicas de produção, avanços tecnológicos, catástrofes naturais, acordos comerciais, evoluções demográficas, etc
No centro de tudo isto está o mecanismo de preços. É através do mecanismo de preços que os diferentes agentes de mercado (produtores, consumidores, empresários, trabalhadores, investidores, aforradores) trocam informações que levam a que uns produzem o que outros desejam consumir. Milhões de preços relativos (preços de bens e serviços, salários, rendimentos de capital, etc) alteram-se a todo o momento para guiar consumidores e empresários nas suas decisões de consumo, produção, trabalho, lazer e poupança. Quanto mais oleado e fléxivel for este sistema de preços, mais depressa o mercado se ajusta a novas realidades e maior será o crescimento económico. Não é por acaso que fixação de preços em economias de planeamento central, ou mistas, resulta em défices (lembremo-nos das filas de pão na URSS) ou excedentes (energias renováveis na UE) de produção em relação ao consumo. Numa economia de mercado com preços fléxiveis, se a procura por um bem aumenta, o seu preço tenderá a aumentar, o que aumentará a produtividade de quem produz esse bem e o respectivo rendimento (salário e retorno de capital). Esse aumento de salário levará a que mais pessoas queiram produzir esse bem trazendo mais capital e trabalhadores para a sua produção, aumentando-a, respondendo assim ao aumento da procura. O contrário também deveria acontecer.
A necessária flexibilidade de preços implica que alguns preços tenham que subir em relação aos outros e outros, necessariamente, tenham que descer. Um dos grades obstáculos à flexibilidade no mecanismo de preços é a inflexibilidade no que toca a descidas nominais. A literatura de Economia Comportamental contém várias explicações para esta inflexibilidade a um nível psicológico, que não vale a pena explicar aqui. Os enquadramentos legais de vários países, incluindo o de Portugal, também oferecem resistência à flexibilidade nominal no sistema de preços, particularmente no que toca a salários, despesa pública e contratos comerciais. A dificuldade em ajustar preços relativos atrasa o crescimento económico, podendo mesmo levar à estagnação económica, fruto da manutenção de actividades pouco produtivas e não libertação de recursos para actividades mais produtivas. Perante esta realidade, como se pode aumentar a flexibilidade no sistema de preços que permite ajustamentos na produção e consumo que leve ao crescimento económico? Através do crescimento artificial do nível geral de preços, ou seja, da inflação. Um nível moderado e previsível de inflação é o garante de uma maior flexibilidade no sistema de preços, possibilitando descida em termos reais, onde descidas nominais são complicadas de atingir. A inflação determina o nível mais baixo do intervalo em que os preços podem variar. Com inflação zero, o nível salarial pode variar entre 0 e infinito. Com inflação de 3%, o nível salarial real pode variar entre -3% e infinito. Esta flexibilidade adicional pode ter um papel chave no mecanismo de mercado que conduz à prosperidade económica.
Uma moeda que permite um nível moderado e previsível de inflação, pode facilitar a acção do mecanismo de preços (incluindo salários) e os ajustamentos económicos que sejam necessários em qualquer altura. Pelo contrário, uma moeda anti-inflacionária aliada à realidade da inflexibilidade nominal, dificultará sempre a acção do mecanismo de preços, ou seja, do mercado. Uma moeda que não desvalorize, é uma moeda anti-mercado.
Evidentemente, existem riscos com a desvalorização monetária. O maior de todos é o de que, dado o poder de desvalorização monetária aos estados, este seja abusado e que, em vez de uma desvalorização lenta e previsível, se acabe com uma desvalorização rápida e destrutiva. Foi esse o caso da maioria das moedas fiduciárias (que não o dólar, que se desvalorizou em média 3,5% por ano durante 100 anos de existência). Outro dos riscos prende-se com o mecanismo de expansão monetária, hoje realizada através do crédito, que favorece a criação de bolhas de activos e permite a criação de rendas no sector financeiro. Equilibrar os benefícios listados acima com estes custos é complicado, mas ignorar tanto uns como outros faz ainda pouco sentido. Um mecanismo automático e previsível de expansão monetária, inscrito na constituição e recorrendo a outro mecanismo que não o crédito, poderia resolver alguns destes problemas.

Inflexibilidade nominal

Exemplo 1:
Tribunal Constitucional rejeita descidas de 10% nas pensões na crise de 2010-13, via queda nominal
Tribunal Constitucional não impede descidas nas pensões superiores a 40% na crise de 1981-83, via inflação, permitindo um ajuste mais rápido da economia

Exemplo 2:
Descida dos salários da função pública entre 2010 e 2013 em termos reais devido a:
Descidas nominais aceites politicamente: 5%
Descida via inflação: 7,4%

Exemplo 3:
Evolução real do salário mínimo:
2010-13: -5%, via inflação, incluindo aumentos nominais.
1981-84: -32% via inflação, incluindo aumentos nominais.

Exemplo 4:
Pequeno accionista recusa-se a vender as acções de uma empresa até que o preço volte a atingir o mesmo nível de quando as comprou. Questionado sobre se compraria acções da mesma empresa se não as tivesse, mas possuísse o seu valor actual em dinheiro, responde que não.

Exemplo 5:
Menu costs

Exemplo 6:
Perante quedas reais de produtividade, empresas encontram menor conflitualidade laboral mantendo salários nominais em ambiente inflacionário do que baixá-los nominalmente em ambiente deflacionário, independentemente do resultado final em termos de poder de compra para o trabalhador

Um caso de sucesso

100_USD_1934O que se espera de uma moeda?

1. Que se desvalorize:
a desvalorização de uma moeda garante uma flexibilidade real à economia que não existe em moedas com carácter deflacionário. Tanto o sistema legal como a natureza humana têm aversão a perdas nominais (veja-se o exemplo do Tribunal Constitucional em Portugal) o que, com uma moeda que não se desvalorize, introduz alguma inflexibilidade legal e psicológica nos mercados, sendo um bom exemplo o mercado de trabalho.
2. Que essa desvalorização seja lenta, para que a moeda possa cumprir a sua função de unidade de conta e de reserva de valor de curto prazo (moeda não tem de ser reserva de valor de longo prazo).
3. Que essa desvalorização seja previsível, por forma a não interferir no cálculo económico e não ser um factor de risco nas análises de investimento.

A esmagadora maioria das moedas fiduciárias falharam. Com uma desvalorização lenta e previsível ao longo de grande parte da sua história, principalmente a história recente, o dólar é um caso de sucesso. Reflexo disso é o facto de ser usada voluntariamente por cidadãos, empresas e países fora dos EUA. Estes escolhem usar o dólar para as suas transaçõees comerciais e contratos, não por serem coagidos a fazê-lo, mas por reconhecerem na moeda oas qualidades necessárias para tal. Escolhem voluntariamente o dólar, não o ouro, o Real ou o bitcoin.
O dólar tem muitos problemas, o principal dos quais o mecanismo através do qual a expansão monetária é feita, que ajuda à criação de bolhas de activos, mas deveria a última moeda na lista dos críticos das moedas fiduciárias. Não é, acima tudo, a desvalorização ao longo de 100 anos um bom argumento contra o dólar. Seria, se o objectivo de uma moeda fosse ficar 100 anos debaixo de um colchão. Não é: é para isso que existe o ouro.

Duas moedas

No gráfico abaixo podemos ver a evolução do índice de preços ao consumidor (taxa de inflação) de duas moedas diferentes num determinado país desde 1967.

infl

Sem mais nenhuma explicação, qual das duas moedas escolheria se quisesse fixar um contrato comercial?

A linha verde corresponde à inflação anual medida em dólares. A linha amarela corresponde à inflação anual com o nível de preços medido em ouro.

PISA: separar o bebé da água do banho

Não sendo um especialista em educação, há algo que me fascina na evolução dos resultados nos testes de PISA dos alunos portugueses. Atentemos em baixo à forma como evoluiram os resultados dos alunos portugueses nas três disciplinas consideradas:

PISA

O que fica deste gráfico é que toda a evolução nos resultados foi indiferenciada e se concentrou em num período apenas: entre 2006 a 2009. Não existiu uma melhoria progressiva ou concentrada numa ou noutra disciplina, como seria de esperar de uma alteração de programas. Pelo contrário, nesse período de tempo os resultados melhoraram em todas as disciplinas, ao mesmo tempo e em proporções muito semelhantes. Para quem por motivos profissionais esteja habituado a analisar séries temporais, a primeira ideia que surge ao observar uma evolução deste género é a de uma alteração no processo de amostragem. Uma alteração do processo de amostragem criaria uma evolução com todos os ingredientes desta: one-off, concentrada no tempo e indiscriminada entre as diferentes séries. No entanto, não havendo nenhuma indicação nesse sentido, resta-me concluir por uma segunda alternativas: algo aconteceu entre 2006 e 2009 no sistema educativo português como um todo que levou a esta melhoria multi-disciplinar e concentrada no tempo. Apesar de toda a discussão em volta destes números, ainda ninguém conseguiu identificar de forma satisfatória exactamente o que aconteceu nesse curto período de tempo e que justificou uma subida repentina nos resultados.

Para aqueles que utilizam estes resultados como uma forma de validar o “Eduquês”, fica sempre a questão de perceber porque é que o “Eduquês”, estando já há vários anos entranhado no sistema de ensino português, não teve resultados antes de 2006. Curiosamente o livro de Nuno Crato, “O Eduquês em discurso directo” foi lançado precisamente em 2006, criticando anos de uma política de educação que, até aquela altura, tinha mantido o resultado dos alunos portugueses bem abaixo da média da OCDE. Por isto também é importante entender o que se passou entre 2006 e 2009 e que contribuiu para a melhoria do resultados dos exames: aprofundámos ou afastamo-nos do modelo do Eduquês? Importante perceber para garantirmos que não mantemos a água suja do banho, apenas porque o bebé lá está dentro.

O peixe, os velhos e o pau

howaneconomygrowsandwhyitcrashesEra uma vez uma ilha em que os habitantes sobreviviam de pesca artesanal. Os habitantes passavam o dia a pescar à mão e a usufruir dos frutos desse trabalho. Aquilo que pescavam diariamente chegava para satisfazer as necessidades da sua dieta. Os anos foram passando e os habitantes continuavam na sua rotina habitual até que um dia um deles se apercebeu que estava a envelhecer e que daí a uns anos será incapaz de pescar tanto como pesca hoje. Decidiu reunir todos os habitantes e apresentar-lhes o problema. Após pensar por um minuto, um dos habitantes sugeriu uma solução: solidariedade inter-geracional. A sua proposta era que, à medida que os habitantes fossem chegando à idade em que já não conseguiam pescar, os habitantes mais novos abdicassem de parte do seu peixe para alimentar os mais velhos. Mais tarde, quando esses também envelhecessem fariam o mesmo com as novas gerações e por aí fora. Como existiria sempre uma nova geração, haveria sempre peixe para distribuir. Parecia uma boa ideia Nessa altura surgiu a pergunta: “Mas então, como garantimos que os mais novos contribuem para alimentar os mais velhos?”. A solução encontrada foi a de construir um enorme pau que ficaria nas mão de um habitante eleito pelos restantes. Se um dos mais novos não quisesse contribuir, levava uma paulada. Parece justo, pensaram. A solução funcionou durante bastante tempo: a população da ilha era jovem e os poucos que foram envelhecendo tiravam muito pouco dos mais jovens. Os mais jovens, não tendo que contribuir muito, e na expectativa de virem a beneficiar do sistema quando fossem mais velhos, não se importavam de contribuir. Porém, com o passar do tempo, passou a haver cada vez mais velhos, o que exigiu uma contribuição cada vez maior dos habitantes mais novos. A certa altura, a contribuição passou a ser tão alta que os mais jovens deixaram de ter peixe suficiente para se alimentar. Alguns tentaram deixar de contribuir, mas levaram com o pau. Depois de algumas pauladas, outros decidiram fugir da ilha, deixando o esforço ser distribuido por ainda menos trabalhadores, aumentando a fome e a paulada, fazendo com que mais fugissem da ilha.

Esses habitantes fugiam para uma ilha vizinha. Essa ilha vizinha tinha passado exactamente pelo mesmo problema inicial: os habitantes aperceberam-se que estavam a envelhecer e que em breve alguns deles deixariam de ter forças para pescar o suficiente para se alimentarem. Seguiram porém uma solução diferente. Em vez de assumirem que os mais novos iriam abdicar de peixe no futuro para alimentar os mais velhos, começaram logo a abdicar de peixe no presente. Deixaram de passar o dia todo a pescar, passando algumas horas do dia a construir redes de pesca. No curto prazo teriam menos peixe disponível por passarem menos tempo a pescar, mas no longo prazo conseguiriam pescar mais com as redes que fossem construindo. À medida que fossem envelhecendo, os pescadores perdiam a capacidade de pescar à mão, mas como tinham cosnstruído redes, conseguiam pescar o mesmo ou até mais. Quando chegassem a uma idade avançada em que não tivessem mais forças para pescar alugariam as suas redes aos mais jovens, com mais força, mas que ainda não tinham tido tempo para construir redes. Esses mais jovens beneficiavam do facto de poderem pescar mais recorrendo às redes dos mais velhos, e partilhavam esse benefício, dando parte do excedente aos mais velhos. Quando colocados perante a possibilidade dos mais jovens simplesmente roubarem as redes e não darem nenhum peixe aos mais velhos, decidiram também eles criar um enorme pau que ficaria nas mão de um do habitante eleito, mas cuja função seria simplesmente garantir que o roubo não ocorresse. Tal como na primeira ilha, também esta passou por fases de declínio demográfico em que a população mais velha ultrapassava em número a mais nova. Mas ao contrário da primeira ilha, esta situação não provocou fome: mais velhos significava também um maior stock de redes, o que tornava os trabalhadores novos mais produtivos. Quando existia um baby boom, e a população mais nova crescia, cada um dos trablhadores tinha acesso a menos redes, mas como também havia mais trabalhadores, os mais velhos continuavam a ter acesso a alimentação. Em suma, nesta ilha tinham construido um sistema resitente a variações demográficas. Nesta ilha produzia-se também bastante mais peixe do que na ilha vizinha, graças ao stock de redes existente. E o pau era também usado menos vezes.

(história baseada no livro “How an economy grows and why it crashes”, de Peter Schiff, que recomendo vivamente, e de onde também retirei a ilustração.)

Daniel Oliveira e os preconceitos económicos de esquerda

Brain_IDEA_590Um dos grandes motivos pelo qual os portugueses continuam a aceitar como verdadeiras tantas falácias económicas é o facto de que aqueles que melhor sabem formar opinião (através do seu estilo de escrita e de comentário televisivo) tenderem a ser analfabetos económicos. Obviamente ninguém é obrigado a perceber de economia, mas tal não os restringe de comentarem assuntos da área, contribuindo para espalhar falácias na opinião pública, o que por sua vez se acaba por reflectir no discurso político. A Fernanda Câncio e o Daniel Oliveira são dois casos exemplares.

O dia de hoje é uma excepção à regra. No seu texto no Expresso, o Daniel Oliveira, mesmo que involuntariamente e num espírito de auto-defesa, contribui para desfazer algumas falácias económicas que sobrevivem, muitos vezes com a ajuda de comentadores como ele. É um texto que deve ser lido e entendido, principalmente pelas pessoas da sua área política.

Primeiro preconceito: existe um número limitado de empregos

Diz o Daniel Oliveira: “(…)Que há quem venha aqui e quem compre o “Expresso” para, entre outras coisas, me ler.(…)Só com leitores e coisas que eles queiram ler o jornal vende nas bancas e tem publicidade. Quando vende e angaria publicidade a empresa detentora do “Expresso” consegue não apenas o suficiente para me pagar a mim, a todos os trabalhadores, colaboradores externos e fornecedores, como ainda sobrará, como sobra, dinheiro para se expandir o negócio e, quem sabe, contratar ainda mais pessoas. O que estou a dizer sobre mim aplica-se obviamente e de igual forma a todas as pessoas que trabalham nesta empresa, sejam do seu quadro, sejam colaboradores externos, sejam jornalistas, administrativos, estafetas ou quadros superiores”

De uma forma simples, o que o Daniel Oliveira diz aqui que cada trabalhador, através do seu valor acrescentado (aquilo que produz mais do que recebe) contribui para que se criem outros empregos. Ou seja, quanto mais e melhor trabalhar o Daniel Oliveira mais, e não menos, empregos serão criados. A falácia que o Daniel Oliveira expõe, e bem, é muitas vezes utilizada pela esquerda para defender horários de trabalho mais baixos ou redução na idade da reforma, argumentando que quanto menos trabalho for feito por uns, ou quanto menos trabalhadores houver, mais trabalho haverá para os restantes. Trabalho cria trabalho, como bem explica o Daniel Oliveira.

Segundo preconceito: é através do estímulo da procura que se criará emprego

Diz o Daniel Oliveira: “Quem cria então emprego aqui e em qualquer outra empresa? Antes de mais, quem consome os seus produtos. Neste caso, o meu caro leitor. Depois, quem os produz. Por fim, quem, olhando para a necessidade dos consumidores e a disponibilidade para produzir, contrata as pessoas que precisa e arranja o capital necessário para montar o negócio.”

Ou seja, emprego (e já agora toda a produção de riqueza) resulta da interacção entre necessidades, capacidade produtiva e empreendedora, sendo os três factores complementares. O Daniel Oliveira só tem emprego porque há quem o queira ler, porque ele tem capacidade de satisfazer os desejos de um grupo de leitores e porque alguém arriscou o seu dinheiro para criar a plataforma através da qual o Daniel Oliveira pode cobrar aos seus leitores pelo seu trabalho. Para que a criação de riqueza aconteça, estes três factores têm que estar alinhados. Valeria pouco que houvesse muitos leitores com vontade de ler textos como os que o Daniel Oliveira escreve, se o próprio Daniel Oliveira não fosse capaz de os escrever, ou a Impresa não tivesse condições de criar a plataforma para que o Daniel Oliveira seja pago para o fazer. Fazendo o paralelo com a economia portuguesa, haverá de facto um problema de procura? Não, Portugal é um país de 10 milhões de habitantes com acesso a uma procura potencial de 6 mil milhões. O que falta realmente para que se crie emprego são os outros dois factores: ajustar a capacidade produtiva a essa procura e incentivar o espírito empreendedor que coloque ambos em contacto.

Terceiro preconceito: é o estado o motor de criação de emprego

Daniel Oliveira diz “quem cria empregos é a economia, criei tantos postos de trabalho como qualquer trabalhador, consumidor ou empresário”. Subconscientemente, Daniel Oliveira deixa de fora o estado. Ele tem razão: o estado não cria empregos. Pode criar as condições para que eles sejam criados, facilitando a vida a quem os cria. Mas aquilo a que normalmente se chama criação de empregos pelo estado não é mais do que transferi-los da esfera privada para a pública, com as habituais perdas de eficiência pelo meio.

Quarto preconceito: o capital explora o trabalho

Falando sobre o empresário, diz o Daniel Oliveira “Correndo o risco de perder o capital empatado, tem a possibilidade de ter uma vida bem mais confortável do que aqueles que, com ele, levaram o negócio a prosperar. Essa é a diferença substancial em relação aos demais atores deste filme: o empresário ou investidor corre o risco e tem o lucro ou o prejuízo. Tem um interesse comum a quem com ele trabalha: que o negócio corra bem.”

A retórica de esquerda comum é a de que o empresário (o capital) pouco ou nada acrescenta à economia, limitando-se a explorar os trabalhadores e obter o seu lucro, recorrendo a essa exploração. Como diz, e bem, o Daniel Oliveira, o empresário tende a ganhar mais com o sucesso da empresa, porque é também o único que tem algo a perder com o seu insucesso. Se a Impresa falir, o Daniel Oliveira deixará de receber o seu salário, mas não perde os salários que recebeu anteriormente. Já os accionistas da impresa não só deixarão de receber os parcos rendimentos que a Impresa lhes garante hoje, como todo o dinheiro que investiram no passado, ou seja, rendimento passado.

Bem sei que provavelmente o Daniel Oliveira se irá redimir em breve, contribuindo para o espalhar de mais algumas falácias, mas hoje está de parabéns: de forma simples e directa, desmistificou alguns dos principais preconceitos económicos que povoam a sua área política.

Post número 846

Este é o meu último post nO Insurgente. Foram mais de 5 anos de boas e saudáveis discussões. O Insurgente continua a ser, na minha opinião, o melhor blog político português e uma das poucas reservas morais do liberalismo nacional.
Agradeço ao André Azevedo Alves pelo convite e a todos os insurgentes pela excelente forma como sempre fui tratado. A todos os que leram, partilharam, comentaram e criticaram, o meu muito obrigado. Um bem haja a todos. Estarei sempre aberto a continuar discussões através do meu endereço de e-mail carlospin@gmail.com .

A televisão pública, essa garantia da independência da imprensa

Entre uma administração dependente do partido que governa em cada altura, uma comissão de trabalhadores cada vez mais dominada pelos partidos de esquerda e uns canais internacionais subjugados aos interesses diplomáticos do momento, alguém consegue encontrar a tal independância que para muitos continua a justificar os milhões lá investidos pelos contribuintes?

Uma cultura avessa ao sucesso

Atente-se no anúncio abaixo do Bank of Singapore:

Este anúncio é dos mais rodados em intervalos de programas de televisão financeiros e em ecrãs de business lounges um pouco por todo o Oriente. O anúncio exalta o perfil do self-made man, alguém que juntou dinheiro, arriscado, com o esforço do seu trabalho, a partir de origens mais ou menos humildes. Não é por acaso que o faz: o Bank of Singapore tenta atingir este mercado-alvo porque sabe que muitos dos seus potenciais clientes encaixam no perfil do seu personagem e não tem qualquer receio em associar a sua marca a este tipo de clientes. Numa economia e cultura liberal como Singapura não só se criam condições para que estes casos apareçam um pouco por todo o lado, como quem o faz é socialmente respeitado. Quem folhear páginas de jornais ou vir programas de televisão em Singapura, Malásia, Hong Kong, não vê políticos ou activistas, mas empresários e homens de negócios, muitos deles com histórias semelhantes à do personagem do anúncio. A situação portuguesa é bem diferente. Os cargos com maior reconhecimento social são os cargos políticos. Grande parte de profissionais de outras áreas anseiam pela oportunidade de exercer um cargo político seja pelo reconhecimento social da posição ou pelas oportunidades que tal cago lhe abrirá. Pelo contrário, alguém que acumule dinheiro pelo seu trabalho fora da política leva imediatamente o rótulo desprestigiante de novo-rico pelas elites disfuncionais que controlam a política e a comunicação social. Este factor cultural reflecte-se na política fiscal com os políticos a não recerem impor mais e mais taxas adicionais a quem mais ganha (que, correspondendo aos elementos mais produtivos, não tem que corresponder necessariamente aos mais ricos). Claro que tudo isto retira incentivos ao risco e à criatividade. Quem arrisca sabe que, se perder, a perda será só sua, mas se ganhar não só terá que abdicar da maioria dos seus ganhos, como poderá perder em prestígio social. A escassez de inovação e espírito empreendedor também passa por aqui.

Uma última nota: cada vez que neste blog menciono as vantagens de regimes economicamente liberais do Oriente, vem sempre um comentador apontar a ausência de democracia em alguns desses países. Que fique claro que o direito a escolher os seus líderes políticos é uma das componentes importantes da liberdade individual, mas está longe de ser a única. Aliás, esta componente ganha mais importância quanto menos livre for o regime, quanto mais Poder passar do indivíduo para o estado. Um amante da liberdade preferirá sempre o direito a gozar a sua liberdade individual do que o direito a votar quem a restringirá da melhor forma. Um amante da liberdade preferirá sempre o direito a gerir livremente os seus planos de reforma, ao direito a votar sobre o partido que o fará no seu lugar através do estado. Ao contrário do que aconteceu em boa parte do século XX, a correlação entre democracia e liberdade individual começa a enfraquecer. Poderá ser apenas uma anomalia estatísca, passageira, mas também pode ser algo estruturante, relacionado com as escolhas que, em democracia, foram sendo feitas no Ocidente.

Os lapsos de João Miguel Tavares

João Miguel Tavares, na última edição do Governo Sombra, referiu por duas vezes ideias partilhadas aqui nO Insurgente durante a semana passada (especificamente neste e neste posts). Não foi a primeira vez que tal aconteceu e, obviamente, é algo que nos deixa satisfeitos. Porém, ao contrário do que ele e os colegas fazem quando referenciam uma opinião publicada num jornal, mais uma vez se esqueceu de mencionar onde tinha lido as opiniões que citou. Tenho a certeza que terá sido, mais uma vez, por lapso ou esquecimento e não por falta de respeito ou integridade profissional que o fez.

Go Galt: guia de subversão fiscal

As últimas notícias parecem apontar para o desfecho que se temia: a proposta de orçamento de estado para 2013 não terá qualquer alteração relevante. O PSD manteve-se por trás do orçamento que escreveu e as promessas de propostas de corte de despesas do CDS revelaram-se vazias. Apesar de irem votar contra, que ninguém duvide que esta seria a proposta de orçamento de PS, ou de uma coligação PS/BE, se fossem governo. Apesar de nunca ter havido um consenso tão alargado para o corte de despesas, os grupos de pressão voltaram a vencer.

É especialmente triste que, havendo alguns liberais assumidos entre aqueles que têm uma palavra a dizer no orçamento, e nunca a conjuntura política ter sido tão favorável a cortes de despesa pública, que ninguém tenha tido a coragem para o fazer. No próximo ano teremos um país mais pobre, em que cada vez vale menos a pena trabalhar e investir, mas apesar disso continuará a haver um politécnico em cada aldeia e pessoas jovens e saudáveis continuarão a receber dinheiro da segurança social. Muitas empresas que seriam competitivas noutros países fecharão, mas continuarão a existir mais de 15 mil empresas a sobreviver à custa dos contribuintes. Muitas das pessoas com menos de 50 anos estão agora a perceber que já não irão receber reformas, mas antigos políticos a continuarão a acumulá-las. Ninguém na classe política teve a coragem de mexer nestes benefícios (talvez na esperança de virem um dia a beneficiar deles), mas não hesitaram em roubar um pouco mais o fruto de trabalho dos poucos que ainda vão aguentando a carga.

É crucial que a estratégia de punição das famílias em favor dos lobbies parasitas do estado falhe, mesmo que tal represente o regresso do PS ao poder. Muito provavelmente a estratégia falhará por si, sem grandes empurrões. Mas para provar de vez que o esbulho fiscal não pode continuar, não basta que a estratégia falhe, tem que falhar estrondosamente. Ficam aqui algumas sugestões para quem quiser contribuir para esse falhanço:

- Emigre: Quer tenha ou não emprego, nunca houve tão boa altura para emigrar. Apesar da crise em Portugal, muitas zonas do mundo estão em crescimento e a necessitar de mão-de-obra. Para além da oportunidade de aumentar o seu rendimento, ao não pagar impostos em Portugal, não estará a contribuir para a estratégia da coligação governamental.

- Deslocalize: se tiver um negócio, principalmente de exportação, só terá a ganhar em deslocalizá-lo. Portugal é dos piores países do mundo para fazer negócios de acordo com todos os rankings. Ao manter o seu negócio no país poderá ajudar a que a estratégia do governo falhe apenas por um bocadinho, provavelmente provocando um novo aumento de impostos no próximo ano para cobrir esse bocadinho.

- Tire uma sabática: Se estava a pensar há algum tempo parar de trabalhar, 2013 pode ser um bom ano. O país está em crise e a carga fiscal é a maior de sempre. Se parar de trabalhar não só tirará um merecido descanso como evitará escalões de IRS mais altos.

- Devolva a factura: a administração fiscal já começou a enviar e-mails requerendo que todos peçam a factura, com o argumento de sempre: se todos pagarem, pagamos todos menos. Nos últimos 30 anos, o argumento tem-se demonstrado falso. Quanto mais é pago, mais os lobbies próximos do estado absorvem. Hoje pagam-se 3 vezes mais impostos do que há 30 anos atrás, isto apesar da (ou devido a) eficiência fiscal ter aumentado. Muitos comerciantes hoje receiam não dar a factura, seja por medo dos fiscais ou dos bufos voluntários que acreditam no argumento do Ministério das Finanças. Se não quiser contribuir para o esbulho fiscal, devolva a factura quando a receber. Sempre pode ser utilizada mais tarde para um outro cliente com a mesma compra, poupando o IVA ao comerciante. Pode ter a certeza que esse montante fará mais falta ao comerciante do que ao Observatório dos Neologismos do Português.

- Livre-se dos certificados de aforro: independentemente de questões ideológicas, comprar ao manter certificados de aforro deve ser neste momento o pior investimento possível. O estado tem-se servido da ignorância financeira de muitas pessoas para continuar a financiar-se a taxas baixas, apesar do elevado risco de não vir a redimir uma boa parte desses certificados. Ao comprar ou manter certificados de aforro, para além de fazer um péssimo negócio, está a a alimentar a tesouraria pública. É em geral má ideia manter dinheiro em Portugal, mas se não tiver outra alternativa, ao comprar barras de ouro ou investir em obrigações de empresas, além de ser mais lucrativo, não estará a dar o seu aval às políticas do estado.

- Troque bens: o estado não pode taxar a troca de bens. Se em vez de comprar e vender bens/serviços, fizer troca directa, terá acesso ao benefício que esses bens e serviços lhe proporcionam, mas sem ter que pagar impostos ao estado.

- Pague tarde: se não conseguir mesmo evitar pagar impostos, pague o mais tarde possível. quanto mais tarde pagar, maiores serão os problemas de tesouraria do estado.

- Evite grandes compras: grandes compras, como carros novos e casas, representam grandes ganhos fiscais para o estado (no caso dos carros, metade do valor vai para o estado). Mesmo que tenha capacidade financeira para tal, adie esse tipo de compras.

- Não colabore: se é trabalhador das finanças, fiscal, faz parte das forças de segurança ou tem de alguma forma nas suas mãos o poder de fazer outros pagar impostos, não colabore. Lembre-se que obrigar alguém a pagar impostos, não fará ninguém pagar menos, apenas permitirá que mais políticos tenham reformas chorudas, que mais reitores vejam o seu orçamento aumentar, que antigos governantes alimentem as suas fundações ou que uma das 15 mil empresas que vive à custa do estado continue a fazê-lo. Embora seja compreensível do ponto de vista moral que alguém sem alternativas faça os mínimos para manter o seu emprego, já ir para além desses mínimos, apenas fará de si um colaboracionista.

Going Galt

Portugueses que foram trabalhar para países sem impostos

Nos últimos 3 meses abriram mais dois restaurantes portugueses no Dubai. Este fim-de-semana, a Emirates Airlines teve a maior adesão de sempre nas sessões de recrutamento no Porto e Lisboa. A nível pessoal, também posso dizer que a frequência de e-mails que recebo a perguntar por oportunidades nos EAU nunca foi tão alta. A maioria são de desempregados de todas as idades, mas também uma boa parte de pessoas com salário bem acima da média a tentar fugir ao esbulho fiscal que se prepara.

Conflito Israelo-Palestiniano

Apesar da óbvia, e esperada, falta de consenso, é sempre um prazer ver as discussões desenvolvidas sempre que se toca no tema. Quem tiver interesse, e alguma paciência, terá muito a ganhar em passar pela caixa de comentários deste e deste posts. Um bom contraste ao unanimismo acrítico em relação a este assunto que se encontra em blogs de esquerda e de direita conservadora.

As bestas (2)

O vídeo abaixo é ainda mais revelador do que o primeiro. Recomendo vivamente que o vejam do princípio ao fim. Aos dois minutos do vídeo, ainda o sol vai alto, começa o tiro ao polícia. Naquela altura deixou de ser uma manifestação política. Este vídeo coloca-me duas questões. Primeiro é o porquê de, havendo polícias à paisana e estando os infractores isolados e facilmente identificados, porque não foram detidos mais cedo. E, segundo, se não será apropriado concluir que as restantes pessoas que se mantiveram na manifestação muito tempo depois do tiro ao polícia ter começado estavam ou não a validar com a sua presença as acções daqueles indivíduos.

As bestas

Repare-se no vídeo abaixo roubado ao 5 Dias. Não se vislumbra naqueles manifestantes qualquer tipo de protesto político, apenas a adrenalina da violência e do confronto. O clima de guerra social é apenas uma desculpa, um escape para os seus instintos violentos. Estes são os mesmos que em tempos de paz social andam pelas claques de futebol ou se organizam em gangs. Uma justiça séria seria consequente e colocaria muitos daqueles na cadeia.