Sobre Carlos Guimarães Pinto

Economista, consultor de gestão e comentador de coisas.

E agora, Costa?

De um lado, Varoufakis, do outro lado dois membros do Partido Socialista Europeu: Moscovici e Dijsselbloem. Não há um jornalista que pergunte a Costa de que lado está ele? Do lado do Syriza ou dos seus colegas do Partido Socialista Europeu?

Processo de saída da Grécia do Euro, segundo Varoufakis

Pese embora, eu ainda acredite que o mais provável é a Grécia continuar com o seu programa de reformas e assim beneficiar dos empréstimos da Troika, a saída do Euro é cada vez mais uma possibilidade. O agora ministro Varoufakis em tempos descreveu o processo de saída do Euro da Grécia. Fica aqui o excerto:

Any decision to exit from the Eurozone will be accompanied by a weeklong bank closure during which euro notes will be marked manually (e.g. with indelible ink) to differentiate them from euros and brand them as New Drachmas (NDs), until freshly minted NDs circulate many months later.

Even before the prolonged ‘bank holiday’ begins, the ATMs will have run dry and will remain so for a while (as the banks will not have the authority to dispense euros any more). In the meantime, Greeks with hoarded cash will try to take it out of the country, to prevent their stamping and devaluation. Liquidity will thus disappear. Meanwhile, strict capital controls will re-appear and the Schengen Treaty provisions will be suspended indefinitely, since every bag and every suitcase leaving an airport, a port, or a land border will have to be checked by armed police.[1] And when the banks re-open, long queues of angry depositors will form outside seeking to withdraw their stamped euro notes with a view to trading them as soon as possible for unstamped ones (or for other currencies) based on a self-confirming expectation that the NDs’ exchange rate will fall and fall and fall…

Os rascunhos da discórdia

Via Paul Mason, ficam aqui os dois rascunhos do comunicado de ontem da reunião dos ministros das finanças do Eurogrupo. O primeiro, aquele que Varoufakis diz ter acordado assinar, já contemplava a extensão do programa da troika por mais 6 meses.
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O segundo, que Varoufakis se recusou a assinar, fica aqui.

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Note-se que é comum os comunicados propostos pela comissão alterarem-se durante o dia, já que todos os líderes presentes têm que concordar com o comunicado inicialmente proposto.

Sobre os incentivos de um sistema de ensino público e centralizado à qualidade dos professores

Esta semana, na revista The Economist:

Imagine a job where excellence does nothing to improve your pay or chances of promotion, and failure carries little risk of being sacked. Your pay is low for your qualifications—but at least the holidays are long, and the pension is gold-plated.(…)
You can find outstanding individuals in the worst school systems. But, as lazy and incompetent teachers get away with slacking, the committed ones often lose motivation. In America and Britain surveys find plummeting morale. Jaded British teachers on online forums remind each other that it is just a few months till the long summer break—and just a few years till retirement. No wonder so many children struggle to learn: no school can be better than those who work in it.(…)
Spreading the revolution to the entire profession will mean dumping the perks cherished by slackers and setting terms that appeal to the hardworking. That may well mean higher pay—but also less generous pensions and holidays. Why not encourage teachers to use the long vacation for catch-up classes for pupils who have fallen behind? Stiffer entry requirements would raise the job’s status and attract better applicants. Pay rises should reward excellence, not long service. Underperformers should be shown the door.
Standing in the way, almost everywhere, are the unions. Their willingness to back shirkers over strivers should not be underestimated: in Washington, DC, when the schools boss (a Teach for America alumna) offered teachers much higher pay in return for less job security, their union balked.”

Leitura adicional:
Temos maus professores
Sobre os maus professores

Da série: a austeridade não funciona

O Eurostat divulgou hoje as projecções para o crescimento económico em 2014. Portugal terá voltado ao crescimento com uma taxa de 0,9%. Ou seja, 4 anos depois, a economia portuguesa voltou a crescer. Olhando para este crescimento, ainda bastante baixo, é fácil argumentar que é insuficiente e que as (na minha opinião, escassas) reformas trazidas pela austeridade continuam sem demonstrar resultados.

No entanto, convém olhar com atenção para os números. No gráfico abaixo cruzam-se os dados do crescimento económico desde 1996 com o saldo da balança corrente. Em termos simples, um saldo da balança corrente negativo significa que o país se endividou perante o estrangeiro nesse ano. Os pontos à esquerda representam os anos em que o país se endividou perante o estrangeiro e os pontos à direita os anos em que não o fez. Pontos acima do eixo representam anos de crescimento económico e pontos abaixo representam anos de declínio do PIB:

Austeridade

Os dados começam em 1996, mas podíamos estender até 1973 que a imagem seria semelhante. Em quase todos os anos desde 1996, Portugal endividou-se perante o exterior. Em muitos desses anos, a economia cresceu, mas apenas endividando-se perante o estrangeiro. Ou seja, em todos os anos em que a economia cresceu no passado fê-lo sacrificando crescimento futuro. Em alguns anos, até sacrificou crescimento futuro e mesmo assim não cresceu. Há uma tímida mas notável excepção: aquele ponto no quadrante verde. Aquele ponto refere-se ao ano de 2014. A confirmarem-se os dados terá sido o primeiro ano na história de Portugal democrático que a economia do país cresceu sem se endividar, ou seja, sem sacrificar crescimento futuro. Isto só será surpreendente para quem não segue os opinadores certos.

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(artigo de 9 de Maio de 2014)

“…mas não a qualquer custo”

Eurodeputados indignam-se com preço de tratamento para hepatite C

No debate de quarta-feira à noite, o socialista Carlos Zorrinho declarou que (…)”A vida não tem preço, mas esta perspectiva humanista não pode dar aos fornecedores uma vantagem competitiva injustificada na formação dum preço justo para o acesso aos novos medicamentos”(…)

O eurodeputado do PCP João Ferreira também teceu críticas ao Governo português, por considerar “que um medicamento que pode salvar a vida a doentes com hepatite C, por exemplo, é demasiado caro.” Denunciando preços “escandalosos”, acrescentou que apoia “qualquer iniciativa que vise forçar as multinacionais da indústria farmacêutica a baixarem os preços dos medicamentos

Porque é que os médicos não gostam de genéricos e os farmacêuticos gostam?

O Economista Insurgente

A relação próxima entre médicos e a indústria farmacêutica tem décadas. Durante anos, através dos chamados “delegados de propaganda médica”, a indústria incentivou das mais variadas formas os médicos no sentido de maximizar as suas vendas. Tempos houve em que as farmacêuticas davam prémios materiais (até automóveis!) aos médicos em função da quantidade de receitas que prescreviam os seus produtos. Era o chamado “fartar vilanagem”. Hoje em dia já não é fácil. Há mecanismos de controlo mais apertados tanto sobre os médicos como sobre os delegados. Até a designação mudou, para um mais politicamente correto título de “delegado de informação médica”.

Apesar disto, a relação é ainda muito forte e não pode ser quebrada. A indústria só consegue vender existindo prescrição, pelo que a simbiose é inevitável. Não existirão os prémios descarados de outrora, mas congressos com tudo pago nas caraíbas e outros locais aprazíveis continuam a fazer parte do cardápio. Independentemente de muitos médicos argumentarem de forma veemente que não existe o mesmo nível de controlo de qualidade na produção de genéricos face aos medicamentos originais cujo princípio ativo foi replicado, a realidade da diferença nos incentivos económicos subjacentes a medicamentos “de marca” e genéricos explica no quase totalidade as diferentes preferências de médicos e farmacêuticos. Incentivos económicos que são aplicados a quem tem o poder de decisão, leia-se. No caso dos médicos, a recomendação de um medicamento de marca específica; no dos farmacêuticos a possibilidade de escolher qual o genérico a vender, uma vez que a prescrição não indica marca.

A introdução dos genéricos alterou o balanço de poder entre médicos e farmacêuticos. A indústria passa a depender de farmacêuticos para a decisão que lhe permite vender, não de médicos. Logo aí fica explicada a diferença de preferências entre as duas classes profissionais. No entanto, uma análise económica aos incentivos mostra a magnitude do efeito dos genéricos na rentabilidade das farmácias; e explica a força que farmacêuticos fizeram e continuam a fazer, em termos de lobby, para conseguir e manter este novo poder de decisão.

No caso de medicamentos de marca, a concorrência é limitada por patentes. Existem monopólios legais, por força do estado, que permitem esta proteção aos laboratórios. Nos genéricos, a concorrência é real. Vários laboratórios podem fabricar medicamentos baseados no princípio ativo. Todos eles interagem com os farmacêuticos para vender o que é essencialmente o mesmo produto. Não há argumentos clínicos, provas científicas, congressos em Aruba. O preço é a chave. Mas como existem limites impostos pelo estado tanto aos preços como às margens das farmácias, este novo mercado exige criatividade. São as chamadas “dúzias de dezoito”, que em alguns casos chegam a ser “dúzias de vinte e quatro”.

Os laboratórios vendem uma dúzia de caixas de um determinado genérico à farmácia. Mas entregam dezoito (ou vinte e quatro). Daí a designação. Como as margens são fixadas, para as caixas faturadas nominalmente, a entrega de unidades não faturadas multiplica a margem efetiva da farmácia várias vezes. Imaginemos um medicamento X. O produto de marca, CaroX, tem um preço de 50 euros por caixa, sendo a margem da farmácia de 20%, ou seja 10 euros. Em alternativa, existe o genérico BaratoX, que custa 20 euros e deixa 4 euros de margem para a farmácia. Só que por cada caixa de BaratoX que a farmácia compra para stock, o laboratório entrega outra. Esta segunda caixa tem uma margem de 100%, ou seja 20 euros. A margem média é de 12 euros por caixa. Apesar do medicamento ser mais barato, o farmacêutico ganha mais vendendo o genérico. No limite, para casos sem comparticipação, pode mesmo tentar vender as caixas não faturadas pela “porta do cavalo”, poupando também em impostos. Embora no que toca a medicamentos a procura não seja propriamente elástica (as pessoas não vão comprar mais remédios só porque são mais baratos), a verdade é que o preço mais reduzido dos genéricos, quando não há comparticipação, pode permitir acesso ao medicamento a pessoas que de outro modo não o teriam. Nesse sentido, as farmácias só têm a ganhar com a mudança.

(in O Economista Insurgente, Esfera dos Livros, 2014)

Um resumo da história recente para as criancinhas

Estava todo o Mundo muito feliz pronto a viver um novo século cheio de paz e harmonia, quando um grupo de judeus em conluio com George Bush decide atacar as torres gémeas. George Bush lançou depois uma guerra contra o Islão que se defendeu com pequenos ataques terroristas. Quando tudo estava prestes a voltar ao normal graças à acção do prémio Nobel da Paz Barack Obama, apareceu a Merkel que, com a austeridade, voltou a atacar o Islão e levá-los a defenderem-se com atentados terroristas. O século XXI prossegue assim, na esperança de que um dia só haja líderes de esquerda que acabem com a toda a pobreza e a guerra no Mundo. Entenderam, criancinhas?

Taxas e taxinhas

Maria-Luis-Albuquerque-e-Paulo-NuncioE estas nem sequer ajudam a reduzir o défice.

Empresas contestam obrigação de comunicar “stocks” ao fisco
(…)a Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) e a Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (OTOC) defendem que a medida é uma “duplicação burocrática”, já que “a demonstração de resultados das empresas já reporta a informação sobre os consumo”, criando-se assim “mais um custo de contexto, incomportável para as micro e pequenas empresas”

O salário mínimo não cria desemprego II

Ao contrário da noção intuitiva, o desemprego causado pelo salário mínimo não resulta tanto das pessoas que são despedidas após o seu aumento, mas muito no seu efeito na criação de novos empregos. Todos os meses, empregos são criados e destruidos na economia. Se algo tem um impacto negativo na criação de emprego, isto fará aumentar o número de desempregados. Por isso o efeito de um aumento inesperado do salário mínimo pode ser imediato.

Um dos motivos pelo qual é tão complicado analisar o efeito do salário mínimo no desemprego é porque grande parte dos aumentos são antecipados pelos empresários e vão sendo incorporados nas decisões de criação de emprego meses antes de ocorrerem. Para ser possível avaliar graficamente o impacto de aumentos do salário mínimo, precisamos de olhar para aumentos significantes e, de alguma forma, inesperados. Um exemplo foi o que aconteceu este ano.

Agora mostremos outro. Já em plena crise económica, o número de desempregados estava relativamente estável em Portugal. Apesar do acordo assinado anos antes, os empresários esperavam que o governo Sócrates não aumentasse o salário mínimo em 25 euros a meio de uma crise financeira. Sócrates aumentou-o e garantiu que o voltaria a fazer um ano depois. Olhando o gráfico abaixo conseguem adivinhar quando foi confirmado esse aumento?

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O salário mínimo não cria desemprego

Fica aqui a evolução mensal do número de desempregados em 2014, já utilizando os dados divulgados pelo INE. Sem usar o google, os leitores conseguem adivinhar em que altura foi aumentado o salário mínimo?

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Deveremos temer a deflação?

Tem havido nas últimas semanas muitas notícias e comentários preocupados com a “onda de deflação” que assola a Europa. Intuitivamente, parece deslocada da realidade preocupar-se que os preços dos bens de consumo desçam. Mas obviamente, há outros factores a ter em conta. Para entendermos se nos devemos preocupar com a inflação é preciso primeiro entender que existem três fontes principais de deflação com implicações diferentes:

1. Deflação por aumento de produtividade

A deflação por aumento de produtividade ocorre quando os preços baixam porque as empresas conseguem produzir mais ou melhor do mesmo produto ao mesmo custo. Em termos simples, os preços baixam porque as empresas conseguem produzir mais, recorrendo aos mesmos trabalhadores. Esta é a melhor fonte de deflação: a deflação que resulta do crescimento económico, que resulta do facto de um país produzir mais.
Para os empresários esta não é uma situação negativa. Os preços baixam, mas as receitas mantêm-se iguais ou superiores porque a quantidade produzida e vendida aumenta.
O argumento de que os consumidores irão adiar consumo, assumindo que os preços continuarão a descer também não se aplica aqui. Em primeiro lugar porque boa parte do consumo não pode ser adiado indefinidamente. Ninguém pára de comer durante um mês apenas porque a comida ficará mais barata no mês seguinte. em segundo lugar, o facto de os preços terem descido hoje devido a aumentos de produtividade não implica que venham a descer amanhã pelo mesmo motivo. Em terceiro lugar, é preciso notar que quando os preços baixam, os consumidores assalariados vêem o seu rendimento real aumentar. Aumentos de salário são incentivo a consumir mais, não menos. Finalmente, porque se o consumo diminuísse efectivamente, então as receitas das empresas baixariam o que incentivaria a uma redução da produção, fazendo regressar os preços ao valor inicial.

2. Deflação via descida de custos de matérias primas

Esta segunda fonte de deflação é muito similar à primeira. Aqui não há um ganho de produtividade no sentido em que cada trabalhador produz mais do mesmo produtos. No entanto, tal como no primeiro caso, também aqui a descida dos preços dos bens finais está ligado a uma descida no custo de os produzir. A queda das receitas das empresas está directamente ligada à sua queda de custos, não afectando portanto os lucros ou a capacidade para pagar salários. Este é o caso da deflação por via da queda do preço do petróleo. Quando a deflação tem esta origem, não há nenhum efeito económico negativo visível.

3. Deflação de origem monetária

A terceira grande fonte de deflação é a deflação de origem monetária. Isto ocorre quando os preços baixam não porque as empresas produzem mais ou porque as matérias primas estão mais baratas mas por haver menos moeda a circular. Esta é a única fonte de deflação que pode efectivamente afectar negativamente a actividade económica.
As empresas vêem os seus preços baixar sem o respectivo aumento de vendas ou diminuição de custos. Ou seja, ao contrário dos dois casos anteriores, as empresas verão os seus lucros baixarem, assim como a sua capacidade para pagar salários. Isto é particularmente importante no caso dos sectores mais dependentes de mão-de-obra. Sem a possibilidade, por lei, de baixar salários ou reduzir as suas contribuições para o rendimento de pensionistas e funcionários públicos, o lucro das empresas irá diminuir. Essa diminuição retirará incentivos ao investimento e à criação de emprego. A redução do investimento limitará futuros aumentos de produtividade que, por si, limitarão o crescimento económico.
Uma boa forma de entender os efeitos negativos deste tipo de deflação é pensar que quando ocorre deflação por via monetária, aqueles que têm rendimentos fixos (assalariados com contratos sem termo, funcionários públicos ou reformados, por exemplo) ganham poder de compra. Ou seja, numa economia que produz exactamente o mesmo, há um conjunto de indivíduos que podem consumir mais. Se a produção se mantém constante e uns podem consumir mais, isto implica necessariamente que outros irão consumir menos. Esta transferência de poder de compra ocorre sem que exista qualquer alteração relativa dos níveis de produtividade. Ou seja, existe uma realocação de recursos de um sector da sociedade para outro, sem qualquer fundamento económico que poderá causar abrandamento económico.

O dinheiro do TGV que nunca existiu

O Diário Económico noticia hoje que o projecto do TGV custou 153 milhões apesar de nunca ter arrancado, podendo vir a custar mais 30 milhões em indemnizações. No dia 8 de Maio de 2010, já com a crise plenamente instalada e 3 dias antes de o governo PS apresentar o primeiro pacote de austeridade no parlamento, foi assinado numa cerimónia discreta o contrato de concessão do TGV. O contrato foi assinado com um consórcio do qual faziam parte, entre outros, a Brisa, a Soares da Costa e o Grupo Lena. Uns dias antes, Cavaco tinha pedido “reponderação ao governo”. Ao mesmo tempo, José Sócrates prometia em Bruxelas o adiamento de grandes obras públicas.

Passados 2 anos, o projecto foi cancelado. Até ser cancelado, já o estado tinha pago 153 milhões de euros pelo projecto. Aquando do cancelamento do projecto, o Luis Rocha já se questionava no Blasfémias se ninguém iria preso.

O drama, o horror, a tragédia

Assunção Cristas, a mulher que se segue no CDS?
Desde que chegou à política tem sido figura constante ao lado de Paulo Portas e assume cada vez mais relevo dentro do partido. Estará Cristas na linha de sucessão da liderança do CDS?

Taxas e taxinhas para pagar estas coisinhas

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Portugal é um país rico, com largos superavites orçamentais e com largas reservas de petróleo. É que se assim não for, é muito complicado entender como é que se vai gastar 8 milhões de Euros para ligar Trás-os-Montes a Cascais e Portimão por via aérea. Trás-os-Montes é uma das regiões mais pobres da Europa, mas os seus habitantes já não precisarão de conduzir para ir ao Casino Estoril ou à Praia da Rocha. Faz sentido.
Com a desculpa da coesão territorial, teremos mais uns habitantes da linha de Cascais com avião privativo à porta para os levar para as suas casas de férias no Algarve. À conta dos contribuintes. Mais uma machadada na credibilidade de um governo que insiste que não há mais gorduras onde cortar.

A aldrabice de PISA

Via Paulo Guinote, tomei conhecimento deste estudo da Universidade Nova de Lisboa em que se decompõem os resultados no testes de PISA de 2006, 2009 e 2012. A boa notícia é que a melhoria entre 2006 e 2012 aconteceu de facto. A má notícia é que, pouco surpreendentemente, os números de 2006 e 2009 foram revistos em baixa por problemas de amostra. Ao contrário do que indicavam os números oficiais existiu uma evolução positiva contínua entre 2006 e 2012.

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Sobre isto convém recordar o que escreveu na altura Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação do governo do Partido Socialista, sobre os resultados de PISA 2012:

(…)Porém, uma análise pormenorizada dos resultados revela que as melhorias ocorreram sobretudo entre 2003 e 2009. Daí para cá, ou seja, entre 2009 e 2012, os resultados mantêm-se, registando-se uma estagnação, sobretudo em ciências. Podemos e devemos perguntar-nos porquê. O que deixámos de fazer? Ou o que fizemos de errado?
Em primeiro lugar, os programas de ensino da matemática que estavam em vigor foram substituídos por outros, à pressa e contra os pareceres das associações de professores. Segundo, o Governo terminou com todos os programas de apoio à melhoria da qualidade do ensino e das aprendizagens, como o Plano de Ação para a Matemática e os planos de recuperação, entre outros, sem os ter substituído por outros. Há pois más razões para olhar com preocupação para o relatório do PISA 2012.

Afinal não foi bem assim. A melhoria iniciada em 2009 foi mais baixa do que o inicialmente calculado, e estendeu-se a 2012. Procura-se nova narrativa.

Sondagem eventos improváveis 2015

Podem votar em mais do que um evento.

O socialismo real

10438251_10152944391007430_717367698918100480_n Raquel Varela e Isabel Moreira, duas distintas representantes da esquerda bem à esquerda, resolveram publicitar nas redes sociais o seu jantar no “100 maneiras”. Logo alguns comentadores notaram que aquele jantar terá custado o mesmo que o salário de uma semana de trabalho de um membro da classe trabalhadora que elas dizem defender. Obviamente não há nada de errado nisso: ganhando ambas o seu dinheiro de forma honesta, podem gastá-lo onde bem entenderem. Apesar do socialismo galopante, ainda vivemos numa sociedade onde o podem fazer sem recolher senhas de racionamento. Raquel Varela, no entanto, sentiu-se na obrigação de responder:

Perdi a conta, mas com sorrisos e sem nenhum mal estar, à quantidade de comentários de uma foto minha e da Isabel Moreira que falam do champanhe e do menu do restaurante. É o espírito do dançar não é produtivo, comprar livros é secundário e dou-te dinheiro para comer, para ir ao cinema…calma, que isso já é um privilégio. É um autêntico elogio salazarista da casa “pobrezinha mas com fartura de carinho”. É o espírito de Passos Coelho, com o seu fato de alfaiate de segunda, morador suburbano, que caiu sobre algumas almas, convencidas mesmo que “andaram a viver acima das possibilidades”. Socialismo é liberdade e abundância, se falta uma delas então não é socialismo, é outra coisa, e devia ter outro nome, que nomes e coisas andam de mãos dadas.

Para a Raquel Varela, socialismo é abundância. Na sociedade socialista de Raquel Varela todos poderiam viver como a elite a que ela pertence. Claro que esse socialismo não existe, nem nunca existiu. No mundo real, socialismo não é abundância, socialismo é isto:

Venezuela Is Running Out of Toilet Paper
Cuba’s condom shortage raises fears of imminent health crisis
Shortages to Continue in Cuban Stores
Venezuela food shortages: ‘No one can explain why a rich country has no food’
North Korea: fears of food shortages outside Pyongyang as distribution fails
Patients suffer from medicine shortages throughout EU

Se há uma coisa que a história demonstra repetidamente é que, apesar das ilusões que alguma elite gosta de criar, socialismo é escassez, socialismo é miséria.

Carlos Abreu Amorim e a difícil convivência do poder político com o liberalismo

As mudanças de opinião podem ser um sinal de inteligência e honestidade intelectual. Alguém que nunca pare de aprender, acabará eventualmente por mudar ou ajustar as suas opiniões. Não tenho muita consideração com quem forma uma opinião aos 20 anos (necessariamente baseada em pouca informação) e não a muda ao longo da vida.
Não há por isso nada de errado nestas declarações de Carlos Abreu Amorim. Todos os dias pessoas mudam de opinião e eu gosto de pensar que são mais os que percorrem um caminho oposto ao dele. Mudar de opinião é normal e a mudança dele já era evidente há bastante tempo. Só para os mais desatentos será uma surpresa que ele não se considere liberal.
Claro que nestas coisas o contexto importa. O liberalismo é uma doutrina que procura retirar poder da esfera política, devolvendo-o aos indivíduos. Quanto mais socialista for um país, maior será o poder dos políticos. Tornar-se socialista apenas depois de atingir um cargo de poder político deixa suspeitas de uma mudança de conveniência. A forma forçada como o anúncio desta conversão aparece (em resposta a uma pergunta muito pouco relacionada com as suas convicções pessoais); a potencial chegada de um bloco central liderado pelo PS (onde assumidos liberais certamente não terão lugar); e a desculpa dada para essa conversão (uma crise num sistema financeiro centrado numa economia monetária estatizada) fazem suspeitar que há algo mais do que uma conversão intelectual.
Carlos Abreu Amorim é, agora de forma assumida, mais um dos que apoiam o sistema económico que nos trouxe até aqui. Um sistema que dá poder e prestígio social aos que, como ele, assumem cargos políticos, mas que em Portugal e no resto do Mundo apenas trouxe miséria aos outros.

TAP lidera rankings internacionais (2)

Of the 35 major airlines compared in 2013, Monarch planes, on average, were delayed the longest – 18 minutes – followed closely by TAP Portugal, whose flights were on average delayed by 16.8 minutes.

Em 2013, entre as companhias aéreas que voam de e para o Reino Unido, a TAP ficou em 2º lugar no rankings das mais atrasadas. A culpa, como dirão alguns comentadores, é do nevoeiro que se faz sentir em Lisboa, da Groundforce (que até pertende à TAP), ou da privatização da ANA.

Já em 2008, a Associação Europeia de Companhias aéreas colocava a TAP no topo dos rankings de atrasos:

BA was 25th of 28 carriers for punctuality in short and medium-haul flights, measured by the share of delayed flight arrivals, ahead only of Cyprus Airways, Spanair and TAP.

Olhando para o aspecto positivo da coisa, há sempre quem fique a ganhar com esta liderança da TAP

TAP é alvo de muitas reclamações depois de cancelamentos e atrasos de voos
A companhia aérea TAP é líder de reclamações de passageiros, depois de vários cancelamentos e atrasos dos voos. Com pouco mais de dois meses de vida, a startup internacional AirHelp criada para ajudar os passageiros a reclamar e a receber indemnizações junto das companhias aéreas, tem tido uma forte procura por parte dos passageiros da TAP.

TAP lidera rankings internacionais

Hoje, por exemplo, Lisboa está no topo dos aeroportos mundiais em atrasos dos vôos. Mais de metade dos vôos chegaram ou partiram atrasados. (via http://www.flightradar24.com/airport/delays)
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Os leitores que queiram ser compensados pelos seus vôos, têm aqui as instruções.

Assinemos já o manifesto contra a venda da TAP

Comecemos por fingir que a TAP não precisa de dinheiro e que os capitais próprios negativos não significam nada. Agora façamos de conta que a Comissão Europeia não proíbe os estados de injectar dinheiro em companhias aéreas, mesmo quando a alternativa é a falência. Vamos depois fingir que investidores estrangeiros irão colocar o seu dinheiro na TAP apenas para acabar com todos os vôos, afinal foi isso mesmo que fizeram com a EDP (os sacanas dos chineses levaram as barragens) e que se preparam para fazer com a PT (já andam a planear desmontar as torres e levá-las para França). Finjamos depois que se a TAP acabasse às mãos dos investidores internacionais, não viriam outras companhias aéreas aproveitar as rotas deixadas vagas. Façamos o tremendo esforço intelectual de assumir que a venda da TAP acabará com todas as suas rotas.
Esqueçamos depois que das 30 rotas continentais mais concorridas a partir de Lisboa, a TAP só tenha o exclusivo de uma (Hamburgo). Esqueçamos ainda que no Porto não existe uma única rota entre as mais populares na qual não haja já alternativa à TAP. Finjamos depois que ir de férias para o Brasil, ir a Caracas ou Maputo sem fazer escala seja uma necessidade essencial merecedora do dinheiro dos contribuintes.
Sei que para os leitores mais honestos e inteligentes será um grande esforço passar por este exercício de fingimento intelectual, mas se o conseguir estará pronto para colocar o seu nome ao lado de Tony Carreira no manifesto contra a venda da TAP.

Juntos, lutemos! Pelo direito a ir de férias sem fazer escalas!

caviarJoana Amaral Dias defende hoje, no Correio da Manhã, a continuidade da TAP como empresa pública, dispondo-se a assumir os custos do seu bolso (e do meu também). Começa assim:

Como portuguesa, quero embarcar em Lisboa para chegar a Luanda ou ao Recife. Não quero ter de ir a Madrid.

Não tem que ir a Madrid. O vôo da Iberia leva-a de Lisboa. Só tem de fazer uma escala, a mesma que fazem hoje os habitantes do Porto. Poupar uma escala aos moradores de Lisboa dificilmente é uma boa razão para me querer vir ao bolso.

Também quero que os nossos milhões de emigrantes possam viajar de Caracas, Maputo ou Luxemburgo para Portugal diretamente e com segurança.

Continua aqui a sua obsessão esquerdo-caviarista em fazer escalas. A boa notícia é que pode ir a Caracas via Madrid no mesmo tempo que demora pela TAP fazer o vôo via Funchal. E, por 20 euros, a Ryanair pode levar os emigrantes a Frankfurt Hahn, ali a uma hora e meia do centro da cidade do Luxemburgo.

Ainda quero que tenhamos uma companhia que resgate os nossos conterrâneos das guerras ou das catástrofes.

Boas notícias para a JAD: a Força Aérea não será privatizada.

Como portuguesa, exijo que os nossos concidadãos açorianos e madeirenses tenham uma ponte área que lhes garanta o acesso à saúde, educação ou outros serviços sempre que necessário e a custo comportável.

A Easyjet e a Ryanair estão a tratar disso.

Joana Amaral Dias joga com a ideia demagoga e nacionalista do costume, que já se viu em privatizações anteriores como a dos CTT e com a PT. A ideia demagoga de que uma privatização ditará o fim dos serviços da empresa. Uma TAP privatizada não deixará de voar para onde tiver clientes. Se houver rotas utilizadas por emigrantes, elas continuarão a existir. Quanto ao direito dos Lisboetas irem para o recife sem escalas, eu diria que mesmo para uma ilustre membro da esquerda caviar é capaz de ser demais pedir tal benesse aos contribuintes.
No fundo o que a JAD expõe no seu artigo é o seu radicalismo ideológico, que a faz ser contra uma privatização apenas porque sim, nem que seja de uma empresa tão longe mesmo das noção mais latas e extremas de serviço público.

Privatização da TAP: o que diz o memorando de entendimento? (correcção)

Neste post apresentei uma parte do texto do memorando de entendimento em português, comparando-o com as declarações de António Costa.

A declaração de António Costa toca dois pontos. O primeiro é que a privatização assumida no memorando era apenas parcial. Consultando o texto em inglês, a letra do memorandum original deixa espaço para essa interpretação. A juntar a isso, o próprio governo aprovou uma privatização a 66% (embora a privatização original, lançada enquanto o memorando estava em vigor tivesse sido a 100%), pelo que é possível que o que disse aqui esteja errado. A segunda parte dessas declarações, a de que o memorando assumia um objectivo de 5,5 mil milhões continua errada, sem espaço para outro tipo de interpretações.

Fica a correcção.

Privatização da TAP: o que diz o memorando de entendimento?

Fica aqui o extracto do memorando que fala do processo de privatizações (em português para não criar qualquer tipo de dúvida):

O Governo acelerará o programa de privatizações. O plano existente para o período que decorre até 2013 abrange transportes (Aeroportos de Portugal, TAP, e a CP Carga), energia (GALP, EDP, e REN), comunicações (Correios de Portugal), e seguros (Caixa Seguros), bem como uma série de empresas de menor dimensão. O plano tem como objectivo uma antecipação de receitas de cerca de 5,5 mil milhões de euros até ao final do programa, apenas com alienação parcial prevista para todas as empresas de maior dimensão. O Governo compromete-se a ir ainda mais longe, prosseguindo uma alienação acelerada da totalidade das acções na EDP e na REN, e tem a expectativa que as condições do mercado venham a permitir a venda destas duas empresas, bem como da TAP, até ao final de 2011. O Governo identificará, na altura da segunda avaliação trimestral, duas grandes empresas adicionais para serem privatizadas até ao final de 2012. Será elaborado um plano actualizado de privatizações até Março de 2012.

Ou seja:

1. Antes da assinatura do memorando, já existia um plano de privatizações que previa a venda parcial de empresas pública resultando num encaixe de 5,5 mil milhões de euros
2. Com a assinatura do memorando o governo (de José Sócrates) comprometia-se a ir mais longe nas privatizações, desenvolvendo um novo programa de privatizações. (“Será elaborado um plano actualizado de privatizações até Março de 2012″)
3. Esse novo plano de privatizações iria, claro, para além dos 5,5 mil milhões euros.
4. Nesse plano constaria a privatização total da EDP, da REN e da TAP (“prosseguindo uma alienação acelerada da totalidade das acções na EDP e na REN(…) bem como da TAP”).

Portanto, é mentira que:
1. O memorando de entendimento apenas assumisse uma receita de 5,5 mil milhões. Essa era a receita prevista do plano de privatizações que já existia antes to memorando.
2. O memorando previsse apenas a alienação parcial da TAP. O memorando prevê claramente a venda total da REN, EDP e TAP.

Enfim, mais uma trapalhada de Costa e respectivos assessores.

Adenda aqui.

Obrigado, Tribunal Constitucional

Da série: “o governo mais liberal de sempre”:
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Há pouco mais de três meses: Tribunal Constitucional chumba cortes de pensões e permite cortes salariais só até 2015. Para que os mais abastados pensionistas continuem a receber a sua parte, os mais precários e mal pagos trabalhadores terão que pagar mais. Bem-vindos ao princípio da igualdade.

Joaquim

Adenda: afinal parece que não há aumento nenhum. Foi só uma, mais uma, confusão burocrática. Irão ser outros a pagar.

Paguem, suiços!

Em 2012 aterraram no aeroporto de Lisboa 6,7 milhões de passageiros estrangeiros, dos quais 4,2 oriundos da União Europeia. Não é provável que a União Europeia permita discriminação entre cidadãos portugueses e de outros países da União Europeia, pelo que estes provavelmente não pagarão a taxa. Dos restantes 2,5 milhões, haverá alguns que são residentes no país e fazem múltiplas viagens durante o ano, pelo que também estarão isentos. Estimativas por alto, deverão sobrar cerca de 2 milhões de passageiros pagantes. Dois milhões de Euros não darão sequer para pagar a isenção oferecida ao Rock in Rio este ano.

Se fossem outros os protagonistas, certamente por esta altura já se classificaria tudo isto de trapalhada. Mas é António Costa, o Hollande português.