Sobre Carlos Guimarães Pinto

Economista, consultor de gestão e comentador de coisas.

Ontem, uma hora antes de Tsipras lançar o povo grego numa corrida desenfreada às caixas multibanco

Está de parabéns o Dinheiro Vivo pelo excelente timing na publicação desta entrevista. Screen Shot 2015-06-27 at 2.20.09 PM
(Ricardo Paes Mamede é professor no ISCTE e foi Director de Serviços de Análise Económica e Previsão do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e da Inovação em 2007 e 2008)

Tsipras elogia estratégia negocial dos governos português e irlandês

Um dos argumento mais lidos entre os apoiantes locais do Syriza é o de que o Syriza, com a sua posição de força, tem atingido mais vantagens negociais do que Portugal alguma vez conseguiu. PHoje Tsipras queixou-se precisamente o oposto: que a estratégia negocial mais discreta de Portugal e Irlanda lhes permitiu obter maior flexibilidade negocial do que a Grécia:
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(Em português: “A repetida rejeição de medidas equivalentes por parte de certas instituições nunca ocorreu antes – nem com a Irlanda, nem com Portugal)

O fim da austeridade na Grécia em números

Ao contrário do governo português, o Syriza bateu o pé à Europa e negociou. Para muitos, valeu a pena 5 meses de fuga de depósitos, mais desemprego e queda do produto. No gráfico abaixo podem ver a comparação entre o nível de austeridade proposto para 2015 por este governo austeritário e a proposta de acordo do Syriza para 2015/16 agora tão celebrada pela esquerda.

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Comédia grega à portuguesa

Corria o ano de 2012. No parlamento preparava-se o Orçamento de Estado de 2013 (o pior que este governo fez). Nas ruas, nunca tinha havido tanto protesto. No parlamento, o Ministro das Finanças Vítor Gaspar era acusado de selvajaria social por João Galamba. Um conjunto de “personalidades” enviava uma carta ao governo, acusando-o de “fanatismo cego”. O termo “espiral recessiva” estava na moda. Havia manifestações a sério, com pedras a cair na polícia e cacetetes nos manifestantes. O motivo da contestação: um orçamento de estado que previa austeridade no valor de 5.338 milhões de euros, quase tudo pelo lado da receita.

Fast Forward para 2015. O Syriza é eleito. A esquerda portuguesa e a imprensa (passe a redundância) anunciam o fim da austeridade. No Partido Socialista constroem um altar a Varoufakis e companhia. Mas com o passar dos dias, os problemas vão-se avolumando. Os depósitos bancários começam a fugir. As promessas eleitorais ficam por cumprir. O PIB, que crescia quando o Syriza subiu ao poder, volta a cair. O desemprego aumenta a contra-ciclo com a Europa. A Grécia fica bastante próxima de sair da Zona Euro. Cinco meses de negociações depois, e com o país de joelhos, o Syriza apresenta uma proposta minimamente séria à Troika. As expectativas estão tão baixas, que o simples facto dessa proposta ser tomada como séria é vista como uma vitória do Syriza. A esquerda portuguesa pula de alegria. O mesmo deputado que tinha acusado o governo português de selvajaria social, diz que o acordo é uma derrota dos governos português e espanhol. O motivo da alegria: uma proposta do Syriza que prevê austeridade de 5.207 milhões de euros para 2016 e 2.692 para o que resta de 2015 (ou seja, cerca de 5.384 milhões de euros anualizado), quase tudo pelo lado da receita.

Como um apoiante do Syriza seduz a Sara Sampaio

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Gajo do Syriza: Vai uma noite de sexo sem compromisso?
Sara Sampaio: Não.
Gajo do Syriza: Vá lá!
Sara Sampaio: Não.
Gajo do Syriza: Por favor!!
Sara Sampaio: Não.
Gajo do Syriza: Se me dizes que não outra vez, vou-me mesmo embora.
Sara Sampaio: Não.
Gajo do Syriza: E se for só sexo oral?
Sara Sampaio: Não.
(Sara Sampaio chama o segurança)
Gajo do Syriza: Vá lá!
(Gajo do Syriza apanha uns tabefes do segurança)
Sara Sampaio: Não, vai-te lá embora.
Gajo do Syriza: Por favor!!
(leva mais uns pontapés)
Sara Sampaio: Já disse que não!
Gajo do Syriza: OK, fazemos assim: eu vou para casa mastubar-me, pode ser?
Sara Sampaio: Faz como quiseres.
(Gajo do Syriza vai para casa ensanguentado e cheio de nódoas negras)

Conclusão do gajo do Syriza: “Chegamos a um acordo! Valeu a pena negociar.”

Austeridade à la Syriza

Fica abaixo uma imagem resumo das propostas que o Syriza apresentou hoje. São 2.692M€ de austeridade no que sobra de 2015 e 5.207M€ de austeridade para 2016.
Em 2015, serão 665M€ de cortes em pensões e 0M€ de cortes na defesa. Em 2016, os cortes nas pensões serão de 1860M€ e 200M€ de cortes no orçamento da Defesa.

A alternativa à austeridade afinal é mais austeridade, agora agravada pela instabilidade criada na Grécia nos últimos 5 meses. Aguarda-se a todo o momento manifestações anti-austeridade contra esta proposta da malta que vinha acabar com a austeridade.

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A última sondagem

Para além do empate técnico entre PS e PaF (com ligeira vantagem para o PAF), a sondagem publicada pelo JN hoje mostra outras informações interessantes.

A primeira é de que apenas 14% dos eleitores acredita que o PS será melhor no governo do que a actual coligação, apesar de 37% responderem que vão votar PS. Portanto, a maioria dos eleitores do PS não acredita que eles farão melhor que o actual governo.

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A segunda constatação interessante é o número de pessoas que acredita que a austeridade teve um efeito positivo no país. Apesar do quase consenso mediático e político em torno do assunto, já há quase tantas pessoas a acreditar no efeito positivo da austeridade como pessoas a acreditar que teve um efeito negativo. O grande salto deu-se no último ano. Talvez também por isso, Portas, que sempre se quis fazer de polícia bom anti-austeridade do governo, continue a ser o líder político menos apreciado da sondagem. Quem quer agradar a gregos e troianos, arrisca-se a parecer desonesto e acabar por não agradar a ninguém.

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Demagogia sobre a Grécia – Parte 1273

Nos últimos dias veio a público uma notícia revelando que a Comissão Europeia propôs ao FMI incluir no acordo com a Grécia um corte de 400 milhões no orçamento defesa que reverteriam a favor das pensões mais baixas. Segundo a notícia, o FMI rejeitou o pedido da Comissão Europeia. Para muitos dos apoiantes locais do Syriza, mas também aqueles que estando alinhados ideologicamente com o Syriza mantêm um pé de fora não vá a coisa correr mal, isto é uma prova da cegueira ideológica do FMI.
Aquilo que fica por contar é que foi a Comissão Europeia e não a Grécia a fazer o pedido. Nenhum membro do governo grego veio a público defender a medida. Antes pelo contrário, da Grécia chegam sinais bastante diferentes. Os credores não podem impedir a Grécia de fazer cortes de despesa. A Grécia poderia cortar no orçamento da defesa amanhã se o desejasse realmente. Mas Tsipras escolheu para parceiro de coligação um partido nacionalista a quem deu a pasta da defesa. Dificilmente Kamenos, o ministro da defesa nacionalista, aceitaria um corte tão grande no seu orçamento.
Para além disto, o FMI já pediu no passado a países intervencionados para cortarem no seu orçamento da defesa. O mais certo é ter optado por não incluir a medida por saber antecipadamente que seria rejeitada.

Quando falham os factos, resta manipulá-los

O Nuno Serra apresenta neste post a evolução no número de docentes desde 2011, comparando-a com o número de alunos. Segundo ele, como o número de docentes caiu mais do que o número de alunos nestes 3 anos, a redução do número de docentes foi “ideológica” e não demográfica.

O que o Nuno Serra se esqueceu de explicar é que em 2011 existia uma situação de enorme desperdício. Nos 20 anos anteriores, os sucessivos governos falharam em adaptar o tamanho do corpo docente ao número descendente de crianças. O gráfico em baixo é revelador.

docentes2011Desde 1995, o número de alunos desceu em todos os níveis de ensino devido ao efeito demográfico. Mas no 2º e 3º ciclos, não só o número de docentes não acompanhou esta tendência, como aumentou. Apenas no 1º ciclo diminuiu o número de docentes. Ainda assim, o número de docentes diminuiu bastante menos (9%) do que o número de alunos (20%).

Portugal era em 2011 um dos países da Europa com mais professores em relação ao número de alunos. Em 2011 Portugal tinha 9,0 professores por cada 100 alunos. A média na União Europeia (em si uma região que se tem adaptado mal a alterações demográficas) era de 7,6, 16% mais baixa. Em França (um país que não é conhecido pelo seu neoliberalismo) o número de professores por cada 100 alunos era de 5,6, 37% mais baixo que em Portugal. Dito de outra forma, num universo de 175 mil professores em 2011, 30 mil estavam a mais quando comparado com o resto da União Europeia, ou 64 mil se comparado com a França. Usando a nomenclatura do Nuno Serra, poderemos classificar isto como o desperdício ideológico socialista. Este desperdício não chegou a ser totalmente recuperado: desde 2011, o número de docentes foi reduzido em apenas 25 mil. Portugal continua ligeiramente acima da União Europeia em termos de número de professores.

Do custo das boas intenções

Lisboa vai ter rede de 1.200 bicicletas partilhadas

Isto tudo parece muito lindo mas como todas as ideias geniais vai acabar muito mal. O que acontece em Barcelona, cidade bem menos acidentada e com malha rodoviária bem mais redundante do que Lisboa, é que o custo do sistema é um absurdo. Sumariamente, sim há todo o tipo de viagens de bicicleta, mas em termos de gestão do sistema essas anulam-se; o padrão constante é a malta descer as encostas. Todos os dias, e a toda a hora, há que trazer dezenas, centenas de bicicletas das zonas baixas para as zonas mais altas. E mesmo assim é uma aflição arranjar bicicleta numa zona alta, e uma aflição arranjar onde a deixar numa zona baixa. Esta logística implica uma frota de carros que andam a recolher bicicletas em excesso nas zonas baixas (zonas turísticas, ruas estreitas e sentidos únicos, carros taxis e eléctricos, tudo a estorvar), e vão deixar às zonas altas (tipicamente com estações mais afastadas umas das outras), e depois voltam vazios para baixo. Como isto é um buraco financeiro, é altamente subsidiado a partir de outras fontes de rendimento, nomeadamente tarifas de estacionamento. Alguém acha que em Lisboa a coisa vai ser mais fácil? Ou mais barato? Em Lisboa vai ser a história do costume. Uns meses de operação e a EMEL vai berrar que a coisa não dá, e entram em vigor novas concessões, novas tarifas, mais caça à multa, e tolerância zero, condições aliás com certeza já negociadas porque esta malta não dá ponto sem nó. E quem apanha é quem não usa as “bicing” — a monstruosa maioria da população residente e pendular de Lisboa — incluindo idosos, crianças, famílias, negócios, fregueses, suburbanos, visitantes, etc.

(Fonte: comentário de um gajo qualquer numa rede social)

Sobre a sustentabilidade da segurança social

howaneconomygrowsandwhyitcrashesPara se entender melhor o problema da Segurança Social, recupero aqui uma história que publiquei originalmente em 2013 neste blog:

Era uma vez duas ilhas em que os habitantes sobreviviam de pesca artesanal: a Neoliberalândia e a Socialistalândia. Os habitantes das duas ilhas passavam o dia a pescar à mão e a usufruir dos frutos desse trabalho. Aquilo que pescavam diariamente chegava para satisfazer as suas necessidades. Os anos foram passando e os habitantes continuavam na sua rotina habitual até que um dia se aperceberam que estavam a envelhecer e que daí a uns anos seriam incapazes de pescar tanto como pescam hoje. Perante a ameaça de morrerem à fome na velhice, as duas ilhas reuniram os seus habitantes para encontrar uma solução.

Na ilha da Neoliberalândia

Na Neoliberalândia os habitantes decidiram que iriam passar a dedicar algum do seu tempo diário a construir redes de pesca. Iriam ter menos peixe para comer no imediato, mas ao fim de algum tempo as redes permitiriam pescar mais peixe com o mesmo trabalho. À medida que fossem envelhecendo, os pescadores perdiam a capacidade de pescar à mão, mas como tinham construído redes, conseguiam pescar o mesmo ou até mais. Quando chegassem a uma idade avançada em que não tivessem mais forças para pescar alugariam as suas redes aos mais jovens, com mais força, mas que ainda não tinham tido tempo para construir redes. Esses mais jovens beneficiariam do facto de poderem pescar mais recorrendo às redes dos mais velhos, e partilhavam esse benefício dando parte do excedente aos mais velhos. Quando colocados perante a possibilidade dos mais jovens simplesmente roubarem as redes e não darem nenhum peixe aos mais velhos, decidiram criar um enorme pau que ficaria nas mão de um do habitante eleito, mas cuja função seria simplesmente garantir que o roubo não ocorresse.

Na ilha da Socialistalândia

Na Socialistalândia, um dos habitantes sugeriu uma solução: solidariedade inter-geracional. A sua proposta era que, à medida que os habitantes fossem chegando à idade em que já não conseguiam pescar, os habitantes mais novos abdicassem de parte do seu peixe para alimentar os mais velhos. Mais tarde, quando esses também envelhecessem fariam o mesmo com as novas gerações e por aí fora. Como existiria sempre uma nova geração, haveria sempre peixe para distribuir. Parecia uma boa ideia: ao contrário dos estúpidos da Neoliberalândia quase não tinham que abdicar de peixe no imediato, podendo continuar a passar todo o dia a pescar à mão. Nessa altura surgiu a pergunta: “Mas então, como garantimos que os mais novos contribuem para alimentar os mais velhos?”. A solução encontrada foi a de construir um enorme pau que ficaria nas mão de um habitante eleito pelos restantes. Se um dos mais novos não quisesse contribuir, levava uma paulada. Parece justo, pensaram. A solução funcionou durante bastante tempo: a população da ilha era jovem e os poucos que foram envelhecendo tiravam muito pouco dos mais jovens. Os mais jovens, não tendo que contribuir muito, e na expectativa de virem a beneficiar do sistema quando fossem mais velhos, não se importavam de contribuir. Porém, com o passar do tempo, passou a haver cada vez mais velhos, o que exigiu uma contribuição cada vez maior dos habitantes mais novos. A certa altura, a contribuição passou a ser tão alta que os mais jovens deixaram de ter peixe suficiente para se alimentar. Alguns tentaram deixar de contribuir, mas levaram com o pau. Depois de algumas pauladas, outros decidiram fugir da ilha, deixando o esforço ser distribuido por ainda menos trabalhadores, aumentando a fome e a paulada, fazendo com que mais fugissem da ilha.

Os habitantes jovens da Socialistalândia fugiam para a Neoliberalândia. Lá, utilizando as redes de pesca, conseguiam pescar muito mais do que na sua Terra Natal. Pescavam tanto que até lhes sobrava tempo para irem construindo umas redes para a sua velhice. Tal como na Socialistalândia, a Neoliberalândia passou por fases de declínio demográfico em que a população mais velha ultrapassava em número a mais nova. Mas ao contrário da primeira ilha, esta situação não provocou fome: mais velhos significava também um maior stock de redes, o que tornava os trabalhadores novos mais produtivos. Quando existia um baby boom, e a população mais nova crescia, cada um dos trabalhadores jovens tinha acesso a menos redes, mas como também havia mais trabalhadores, os mais velhos continuavam a ter acesso a alimentação. Em suma, nesta ilha tinham construido um sistema resistente a variações demográficas. Nesta ilha produzia-se também bastante mais peixe do que na ilha vizinha, graças ao stock de redes existente. E o pau era também usado menos vezes.

É a democracia, estúpido! Como a Segurança Social só é sustentável em ditadura

socialsecurityAlguns membros do Partido Socialista (por exemplo, o João Galamba aqui) têm afirmado que a Segurança Social deixou de ser sustentável devido à política económica deste governo. Vamos assumir então que isto é verdade. Vamos então fingir que tudo estava bem com a Segurança Social em 2011 quando o governo de Sócrates chegou perto de não ter dinheiro para pagar pensões. Vamos fingir também que a Segurança Social não tem obrigações a rondar os 200MM€, mas apenas 10MM€ em activos (menos de um ano de pensões) para cobrir essas obrigações futuras. Vamos fingir que nada disto é verdade e que, de facto, a segurança social era perfeitamente sustentável até este governo aparecer.

Se o PS acredita verdadeiramente nisto, só tem uma solução: defender a privatização do sistema de pensões. Se o PS acredita que basta uma má governação económica para colocar em causa décadas de descontos, deveria defender um sistema que protege os futuros pensionistas deste risco. Mas não, o PS continua a exigir aos portugueses que todos os meses depositem o correspondente a metade do seu salário líquido num sistema que assumem ser muito vulnerável. Em vez de devolver parte destes descontos para que os trabalhadores portugueses possam poupar para a sua reforma individualmente, comprando imobiliário, acções, depósitos, etc (até o falido GES tem mais activos para pagar as suas obrigações do que a segurança social), o PS quer continuar a obrigar os portugueses a contribuir para um sistema que consideram frágil.

Claro que há uma outra mensagem implícita no discurso do PS: a segurança social só é sustentável com o PS no governo. Ou seja, o problema não é o sistema em pirâmide da segurança social, o problema é a democracia.

1 ano depois da Troika: a ilusão e a lição

Em teoria o governo PSD/CDS governa o país há quase 4 anos. Na prática, em três desses anos, o país foi governado pela Troika, de um lado, e o Tribunal Constitucional do outro. Hoje é consensual culpar-se as medidas da Troika pelos problemas económicos do país

Quem acha que foi a Troika que empobreceu o país e aumentou o desemprego, que sem a Troika o país teria passado pela crise muito melhor vive numa ilusão. Vive na ilusão de que a economia teria resistido bem sozinha à falência das suas finanças públicas. Vive na ilusão que uma economia fortemente endividada e que continuava a endividar-se rapidamente e com um crescimento anémico, não iria sofrer um grande abanão. Vive na ilusão que uma economia com um sistema bancário tão frágil como estava em 2011 não teria sofrido o mesmo ou mais do que sofreu nos anos seguintes. Vive na ilusão de pensar que os abanões, os ajustamentos económicos são indolores, que é possível ajustar uma economia sem que se crie desemprego, emigração e queda da riqueza produzida no imediato.

Durante 3 anos o país foi governado pela Troika. Em 2011 era um país que crescia pouco, estava muito endividado e que se continuava a endividar rapidamente. Três anos depois, o país continuou endividado, mas a dívida (privada e pública) começou a baixar e o país a crescer um pouco mais. Um ano depois da saída da Troikas, os partidos do costume já voltaram (de forma mais ou menos transparente) a prometer o tipo de medidas que nos levou à situação de 2011. É um embaraço para nós eleitores e para a classe política em geral que a Troika tenha gerido melhor o país numa situação difícil do que qualquer partido o teria feito. Um ano depois da saída da Troika, é esta a triste lição.

O Público

Não vejo nenhum problema no facto de um jornal ter uma inclinação política. Desde que não se noticiem factos errados, é até bom ter orgãos de imprensa com diferentes inclinações políticas. Seria preferível que essa inclinação política fosse clara e transparente, mas também tenho a noção de que os leitores portugueses não estão muito preparados para esse nível de transparência porque ainda existe a expectativa no mercado de que um jornal tem que ser absolutamente imparcial. Dentro da transparência possível no mercado português, o jornal Público tem sido dos menos opacos (nomeadamente, através dos editoriais).

Contrariando aqueles que afirmavam ontem que a notícia da vitória dos conservadores ingleses não tinha destaque porque não era importante para Portugal, o Público dá hoje um grande destaque de capa ao resultado das eleições inglesas. É certo que o tom do tratamento é bastante diferente do que deu à vitória do PS francês ou do Syriza. Dá-lhe o tom pesaroso (até no já habitual excelente tratamento gráfico) que se espera de um jornal com a sua inclinação política, mas atribui o destaque que se espera de um jornal político (ao contrário do JN que continua a colocar as eleições inglesas ao nível do tratamento dado por uma estação de TV às orelhas de um adolescente). Este destaque ser feito apenas hoje vem de encontro a uma razão plausível para a falta de referência de capa ontem: o resultado das eleições ser desconhecido à hora de fecho da redacção. Pese embora isso não ter impedido o DN de colocar na capa o resultado das eleições logo na manhã seguinte, concedo ser possível que as redacções fechem a horas diferentes ou estejam dispostas a tomar riscos diferentes no que publicam na capa.

O Público tem uma inclinação política distante da minha. Com essa inclinação contribui, na minha opinião, para levar o país para um caminho de empobrecimento, dívida e miséria económica. O Público não é, por isso, o meu jornal, mas não deixa por isso de ser um grande jornal.

Diário de imprensa no dia a seguir a uma vitória da direita num dos mais importantes países europeus

Numa reviravolta surpreendente, os Conservadores (único partido inglês a favor da austeridade) ganharam no Reino Unido. Ficam aqui as capas dos 3 principais jornais diários com enfoque em temas políticos. Para efeitos de comparação, podem ver à esquerda a capa do mesmo jornal no dia a seguir à vitória do Syriza na Grécia.

DN

PUB

JN

Agora tirem as vossas conclusões.

Não, não e não

Se a coligação, ou mais especificamente Pedro Passos Coelho, insistir em usar isto para caçar votos deixará de ser, para mim, o mal menor nas próximas eleições. Há linhas vermelhas verdadeiramente irrevogáveis em política. Esta é uma delas.

A outra criança

  Nesta história da criança de 12 anos grávida de 5 meses do padastro, há várias observações óbvias. Primeiro a de que o padastro deve ser punido exemplarmente por violar durante dois anos uma criança ao seu cuidado. Em segundo lugar, que a criança deve ter acesso ao melhor apoio psiquiátrico possível de forma a minorar o impacto desta situação no seu bem-estar futuro. Isto é evidente para todos.

O que choca nesta história é o aparente consenso no destino a dar à outra criança envolvida (a mais pequena, no útero). Uma criança que está a 2/3 meses de sobreviver fora do útero, e que não teve culpa nenhuma na forma como foi concebida, merece ser abortada porquê? Que raio de opinião pública aceita isto sem pestanejar?

Que líder socialista disse isto sobre Portugal?

“O desemprego baixou, as exportações aumentaram, as finanças públicas melhoraram, Portugal beneficia da confiança dos investidores, resultados que advêm das reformas e são claramente fruto dos sacrifícios dos portugueses”

Pistas:
– Não foi um líder socialista português a falar para chineses
– É o primeiro-ministro do país que os socialistas achavam que ia mudar a Europa há 3 anos

Resposta aqui.

Choque de narrativas

aqui tinha apontado a singularidade do ano 2014. Foi o primeiro ano em democracia em que o país cresceu sem se endividar (o país, não o estado que cresce e endivida-se todos os anos). É um feito macroeconómico que já veio (muito) tarde e que, infelizmente, só foi atingido porque Portugal esteve a ser gerido por entidades externas.
Na altura o deputado João Galamba tratou de apontar um problema. Segundo ele, sendo verdade que o país cresceu e que a balança comercial foi positiva, foi menos positiva do que em 2013. Na sua opinião, isso quereria dizer que se o país continuasse a crescer, e a relação linear se mantivesse, então a balança comercial voltaria a apresentar saldo negativo. Ou seja, seria inevitável o país voltar a endividar-se para crescer. Os primeiros meses de 2015 vieram contradizer essa teoria: o país continua a crescer, o saldo da balança comercial continua positivo e a aumentar.
Perante estes dados, João Galamba contra-argumenta com a variação de existências em 2014. Segundo ele, em 2014 houve um excesso de importações que fez aumentar os stocks, e que estariam a ser exportados agora. No fundo, um aumento artificial das importações em 2014 estaria agora a alimentar um aumento artificial das exportações. É possível que isto seja verdade: a variação de existências em 2014 terá sido cerca de 2 mil milhões de euros e, segundo o banco de Portugal, com uma forte componente de importações.
Mas é aqui que as duas narrativas entram em choque. A ser verdade que o valor das importações foi artificialmente aumentado em 2014 pela variação de existências, então o contributo da procura externa líquida para o crescimento de 2014 foi menos negativo ou mesmo positivo (basta que metade da variação de existências tenha resultado de importações). Ou seja, uma das narrativas tem que estar incorrecta: ou Portugal cresceu em 2014 com contribuição positiva da procura externa líquida ou está a fazê-lo em 2015. Tanto uma como outra deitam por terra a teoria de que o crescimento económico não é hoje mais sustentável do que até 2011.

Quatro anos depois

Ninguém diria que apenas quatro anos depois do primeiro pedido de ajuda financeira em quase 30 anos, o grupo de pessoas que levou o país a essa situação estaria a liderar as sondagens e prestes a voltar ao poder.

Estava certo Sócrates quando nesse dia se preocupou com aquilo que verdadeiramente interessa em política.

Da série: o salário mínimo não cria desemprego

Para os mais curiosos fica aqui um estudo de 2011 sobre o impacto no desemprego do salário mínimo em Portugal. O estudo do NIPE da Universidade do Minho, teve como autores Anabela Carneiro, Carla Sá, João Cerejeira, José Varejão e Miguel Portela. Com as naturais reservas que estudos económicos deste tipo merecem, vale a pena ler. Ficam aqui algumas conclusões:

O efeito estimado do aumento do SMN sobre a massa salarial e o emprego varia entre grupos de trabalhadores por força das diferenças na proporção da massa salarial total do grupo que corresponde a salários mínimos.
Estima-se, por isso, que:
– o efeito sobre o emprego das mulheres é cerca do dobro do encontrado para os homens;
– o efeito sobre o emprego dos trabalhadores menos qualificados é particularmente adverso, ultrapassando os 3% (em valor absoluto) em 2009 na categoria de Praticantes e Aprendizes, e de 2% no caso dos Profissionais não Qualificados;
-a diminuição do emprego na região Norte devida ao aumento do SMN tenha sido, em 2009 e 2010, superior a 1%;
-os jovens com idade inferior a 25 anos e, especialmente, os jovens entre os 16 e os 18 anos, sejam os mais penalizados pelo aumento do SMN, sofrendo perdas de emprego muito significativas-acima dos 5% desde 2007;
-os sectores em que o emprego mais diminui em r esposta ao aumento do SMN sejam a Agricultura e Pescas e Indústrias Extrativas, seguidos da Indústria Transformadora e da Construção

O perfil dos trabalhadores que mais sofrem com um elevado salário mínimo é claro: trabalhadores menos qualificados, a viver nas regiões mais pobres, do sexo feminino e mais jovens.

Da série: o salário mínimo não cria desemprego

Saíram hoje os dados do desemprego para Fevereiro. A tendência iniciada em Outubro, mês em que foi aumentado o salário mínimo, continua. Mais 32 mil desempregados desde que foi aumentado o salário mínimo.
desemprego

O previsível Rui Moreira

WB1903_ClownWithHat__78845.1405451397.1280.1280 Já se sabia que Rui Moreira tinha entregue a gestão da Câmara à concelhia do Partido Socialista (o que não é negativo de todo). A novidade dos últimos meses é também lhes parece ter entregue a elaboração dos seus artigos de opinião. O próximo passo óbvio.

Portugal’s Syriza

No The Portuguese Insurgent, estará Portugal a caminho de ter um governo Syriza?

(Certamente por coincidência os links para site estiveram bloqueados logo após pblicar este artigo há 2 dias. Estão a funcionar normalmente agora)