José Sócrates ficou muito satisfeito com o plano de relançamento da Economia proposto pela Comissão Europeia. É pena, mas não é nada de novo. Para Sócrates este plano é a tábua de salvação das obras de regime que quer impôr ao país na figura do novo aeroporto de Lisboa e do TGV. Quando a maré da opinião pública podia virar contra a megalomania do primeiro-ministro, vem a CE rematar com o pior dos argumentos: o investimento público cria empregos.
Já sabemos que Sócrates dá muito valor ao show e às palavras, e pouco à substância e à verdade, mas o que é demais é moléstia. Poderemos achar que é má fé, ou ignorância que levam o primeiro-ministro e os oficiais de Bruxelas a defender este disparate. Em qualquer dos casos, estamos perante mais um exemplo de como os tempos que vivemos (no passado e no presente) nada têm de liberais e, ainda pior, são pautados por uma profunda ignorância de matérias económicas - dos decisores e da inerte opinião pública.
No pensamento político em geral e no económico em particular, considero ser fundamental a existência dum quadro de pensamento que sustente as nossas afirmações. Esta moda que se instalou do falar sem pensar e do dizer sem saber é um sintoma da mediatização ou sound-biteização da vida política no mundo. Os governos parece que decidem conforme lhes dá: Sócrates quer o carro eléctrico, as eólicas e as grandes obras públicas, mas não se percebe qual o fio condutor para as políticas. Qual é o modelo económico que orienta o pensamento de Sócrates? A sensação é que não há nada a médio-longo prazo. “As eólicas ajudam à independência energética”, “imaginem uma cidade inteira só com carros eléctricos, sem poluição e sem ruído”. Sou só eu que acha isto muito pobre?
Mas o que mais preocupa é quando as justificações dadas demonstram que o pensamento que apesar de tudo há, é um pensamento errado e que prejudica o país.
Voltemos à questão da criação de emprego. Alguém realmente acredita que o governo gastar dinheiro em nome dos contribuintes cria emprego? Se fosse assim tão fácil, o mais lógico seria entregar todo o dinheiro aos governos, para eles se encaregarem da criação de emprego. A única cabeça pensante nesta matéria foi mesmo Manuela Ferreira Leite , quando disse que acreditava que tais obras públicas apenas baixariam o desemprego de ucranianos ou cabo-verdianos. Expressou-se mal, porventura, mas MFL tem razão: o efeito de obras públicas sobre o desemprego é o de empregar quem trabalha na construçao civil. Isto parece uma verdade de La Palisse mas não é. A questão é que nos esquecemos do reverso da medalha: por cada emprego criado na construção civil não é criado um emprego noutra área da economia.
O dinheiro não cai do céu. Logo o dinheiro gasto pelo querido governo em obras públicas deixa de ser gasto pelo governo (ou, percamos a cabeça: pelos cidadãos) noutra coisa qualquer. Isso faz com que o efeito para o desemprego seja zero. Pior, é de supor que seja negativo: alguém tem que organizar um esquema para recolher o dinheiro, alguém é pago para o recolher, depois tem que ser gasto dinheiro em estudos e esquemas para distribuir esse dinheiro pela obras. Estes burocratas (e estes sim criados pela intervenção estatal) não produzem qualquer serviço ou bem útil para a economia, e também nunca entram nas “contabilizaçãoes” de empregos gerados pela bondade do governo em gastar o dinheiro dos outros.
Claro que os empregos não-criados por intervenção estatal não têm sindicato, não têm lóbi nem amigos do primeiro-ministro no conselho de administração (razão pela qual também os prejudicados pelo salário mínimo não se “vêem”). Por isso o dinheiro gasto em obras públicas será sempre “bem gasto”: há ali obra, há substância, há visão, há futuro, há emprego! Sócrates de peito feito a lançar a primeira pedra de Alcochete-Jamé e a declarar o fabuloso investimento que o estado fez, o esforço que o estado investiu (esforço alheio, evidentemente) e a quantidade estupenda de empregos criados, tudo isto é visível, palpável e faz capas de jornal. E se não gera emprego, gera aplausos de alguns idiotas úteis…