O Insurgente

Novembro 11, 2010

A receita testada e aprovada contra a pobreza é facilitar a vida dos criadores de riqueza

Filed under: Brasil — Bruno Garschagen @ 15:43

No jornal brasileiro Folha de S. Paulo (texto completo só para assinantes), destaco o seguinte trecho do artigo do jornalista Leandro Narloch:

Eu tenho preconceito contra quem adere ao “rouba, mas faz”, sejam esses feitos grandes obras urbanas ou conquistas econômicas. Contra quem se vale de um marketing da pobreza e culpa os outros (geralmente as potências mundiais, os “coronéis”, os grandes empresários) por seus problemas. Como é preciso conviver com opiniões diferentes, eu faço um tremendo esforço para não prejulgar quem ainda defende Cuba e acredita em mitos marxistas que tornariam possível a existência de um “candidato dos pobres” contra um “candidato dos ricos”.

Afinal, se há alguma receita testada e aprovada contra a pobreza, uma feliz receita que salvou milhões de pessoas da miséria nas últimas décadas, é aquela que considera a melhor ajuda aos pobres a atitude de facilitar a vida dos criadores de riqueza.

Não é desta eleição brasileira mais recente o discurso esquerdista da luta de classes como retórica para ganhar votos. De facto, ainda tem o seu apelo político no Brasil acusar o adversário de pertencer ou defender a elite e, com isso, colocar-se como um representante legítimo daquela parte da sociedade que não pertence ao grupo especial. Esse tipo de acusação continua a funcionar como provocação sem uma resposta adequada por parte do acusado. A razão é que, no caso da recente eleição presidencial, todos os candidatos tinham a mesma raiz ideológica de esquerda. A tônica da defesa, por isso mesmo, é baseada no “eu sou mais de esquerda do que você”. O marketing da pobreza citado pelo Narloch é decorrente dessa visão ideológica da política.

E, de facto, a única forma de tirar as pessoas da pobreza é permitir que tenham acesso à riqueza. E isso só é possível se as pessoas puderem prosperar com o fruto de seu trabalho e essa prosperidade irradiar e beneficiar outras pessoas, que também possam enriquecer com aquilo que produzirem.

Publicado no OrdemLivre.org.

Novembro 10, 2010

A estratégia de eliminar o Estado e de negar a política

Filed under: Política — Bruno Garschagen @ 19:45

A exemplo do André Azevedo Alves, faço um pequeno comentário ao texto do Rui Albuquerque no OrdemLivre.org.

Assim, a ser verdade sua repugnância à política em si mesma e não a regimes de governo, Hoppe cria novo problema ao defender uma forma liberal de governação na qual “dirigentes da elite natural atuam como juízes e pacificadores”. Rui apontou muito bem a incongruência de se acreditar nessa elite como uma composição de anjos celestiais. Nesse aspecto, Hoppe parece não rejeitar a política ou todas as formas de governo. Parece, sim, teorizar uma forma específica de governo que poderia apresentar problemas idênticos aos elencados por ele em sua crítica ao sistema vigente. A ideia de extinção do Estado (para já também um objetivo leninista) e a negação da política soam mais como uma estatégia teórica do que por uma convicção ideológica profunda.

Novembro 8, 2010

WikiLeaks vai publicar denúncias sobre eleição presidencial no Brasil

Filed under: Brasil,Política — Bruno Garschagen @ 13:27

Em entrevista ao jornal brasileiro Estadão, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, afirmou ter material bombástico sobre a eleição presidencial no Brasil:


Há também material sobre o Brasil que poderá ser publicado em breve?
Sim. Não posso dizer de quem se trata. Sabemos que parte da informação que temos sobre o Brasil poderia ter abalado as pretensões eleitorais de algumas pessoas. Mas não conseguimos ter tempo de publicar o material antes, diante de todo o caso do Iraque.

Não sei qual foi a resposta dada em inglês. Na tradução, parece que as ascusações recaem sobre pessoas que não conseguiram se eleger.

Mas se o material trouxer mesmo denúncias sérias e estas recaírem sobre a presidente eleita como será que as instituições brasileiras irão se comportar?

Novembro 5, 2010

Leis simples para sociedades complexas

Filed under: Brasil,Justiça,Política — Bruno Garschagen @ 18:38

Texto meu publicado hoje no OrdemLivre.org:

Viva! As leis são imperfeitas! Dura lex no dos outros é refresco
Devemos esquecer tudo o que nos ensinaram sobre os objetivos da lei. Não é verdade que uma legislação resolve a maioria ou todos os problemas de uma sociedade. Essa ideia é baseada numa visão corrompida e equivocada sobre o processo legislativo, que depende de homens imperfeitos para criar e aprovar as leis. Se acreditarmos no sofisma de que a lei é perfeita devemos acreditar, necessariamente, na falácia de que há duas naturezas humanas: a do legislador, perfeita; a de todos nós não-legisladores, imperfeita. Eis a grande contradição: como seres imperfeitos podem conviver com regras perfeitas?

O capitalismo indiano está a derrubar o comunismo indiano

Filed under: Diversos — Bruno Garschagen @ 14:22

O G1 publica uma interessante matéria do New York Times sobre o governo comunista em Bengala Ocidental, na Índia, que deve perder o poder nas eleições do próximo ano:

Comunistas na Índia se esforçam para manter sua relevância

Partido está no poder há 33 anos no estado da Bengala Ocidental. Agora, enfrenta críticas por declínio de região que já foi centro econômico.

Jim Yardley
Do NYT, em Calcutá (Índia)

A estátua de Lênin ainda está erguida perto do centro da cidade e retratos de Stálin e Marx ainda estão pendurados no hall do maior sindicato. Qualquer pessoa que duvida da dominância política – e humor da Guerra Fria – dos comunistas na Índia só precisa visitar a rua em frente ao consulado americano: há muito tempo ela foi rebatizada de “Ho Chi Min”.

Nos últimos 33 anos, os comunistas da Índia criaram uma dinastia política aqui no estado da Bengala Ocidental, realizando um dos domínios mais notáveis em qualquer democracia ao ganhar sete eleições consecutivas em todo o estado. Isso poderia parecer um momento oportuno para expandir sua influência: a Índia é um país de profundas desigualdades, com milhões de agricultores e trabalhadores necessitados e desconectados de uma economia cada vez mais capitalista.

Em vez disso, os comunistas do país estão se esforçando para permanecerem relevantes. Durante anos eles não conseguiram capturar a imaginação e o apoio das massas além dos baluartes regionais da Bengala Ocidental e do estado de Kerala. Hoje, até mesmo seu controle de três décadas sobre a Bengala Ocidental está se desintegrando, à medida que críticos os acusam de trair os campesinos e conduzindo o declínio de um estado que já foi considerado como um centro intelectual e econômico da Índia.

(…)

“Eles falam sobre os trabalhadores rurais, mas é o partido e o governo que tomam a terra de forma forçada”, disse Partha Chatterjee, da alta hierarquia do Trinamool, líder da oposição na Assembleia Estadual.

(…)

Laveesh Bhandari e Bibek Debroy, economista que em 2009 escreveram juntos um relatório crítico, documentaram uma piora contínua no desempenho, de políticas a serviços de saúde, passando pela educação. Eles descobriram que o estado tinha piorado em índices de evasão escolar, na quantidade média de alunos por turma e nas taxas de desemprego para quem consegue receber uma educação.

“Apesar de falarem muito em igualdade e eliminação das desigualdades, o governo da Bengala Ocidental não vem conseguindo melhorar a vida das pessoas nos distritos mais negligenciados”, eles escreveram.

(…)

“A política marxista chegou a um momento crítico”, disse Kshiti Goswami, ministro de obras públicas e membro de um dos menores partidos da Frente de Esquerda. Ele argumentou que a Índia tinha uma “necessidade histórica” pela Frente de Esquerda, mas que seus colegas marxistas precisavam avaliar por que os comunistas tinham se saído tão mal em outros estados, em comparação a partidos baseados em castas.

Um dos pontos principais é que governo algum consegue controlar e desenvolver a economia de uma forma que beneficie a sociedade. Mesmo na China, com seu impressionante crescimento econômico, a economia controlada só levou pequena prosperidade a uma pequena parte do país porque a essa parcela da população foi permitido empreender, sob controle, e aceitar empregos oferecidos por empresas estrangeiras. Mas grande parte da China continua submersa numa trágica situação de miséria e esse mix de autoritarismo político com livre mercado vigiado tem prazo de validade.

O desenvolvimento da Índia conduziu a população de Bengala Ocidental a cotejar o desenvolvimento da região com o resto do país e a desejar pelo capitalismo. A melhoria econômica de outras cidades indianas, como Bangalore, colocou em xeque o governo comunista e sua política de planificação da economia.

Tudo indica que o partido comunista vai perder o poder em Bengala Ocidental porque a sociedade rejeita uma ideologia política que a impeça de se tornar mais rica e mais próspera. E isso só é possível sob um sistema capitalista de livre comércio.

Novembro 4, 2010

Doing Business 2011: Brasil na traseira do empreendedorismo e na dianteira do pagamento de impostos

Filed under: Brasil,Economia,Política — Bruno Garschagen @ 15:54

O Brasil aparece na 127ª posição do Doing Business 2011, ranking elaborado pelo Banco Mundial que aponta as facilidades de empreender numa lista de 183 países. No estudo de 2010, o país ocupava a 129ª posição. A posição actual é igual a registrada em 2009.

No item pagamento de impostos, o Brasil está na desonrosa 152ª posição.

Se considerarmos somente os países da América Latina e Caribe, o país aparece na 26ª posição entre os 32 países avaliados. No item pagamento de impostos, ficamos em 25º lugar.

É bastante provável que a situação do país nesse quesito piore no ranking do próximo ano a se concretizar a intenção dos governadores da base aliada do governo de negociar, a partir do ano que vem, “a criação de um novo imposto para a saúde, em substituição à extinta CPMF”.

Novembro 3, 2010

O mal estar da oposição no Brasil

Filed under: Brasil,Política — Bruno Garschagen @ 21:30

Até agora, só o ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso tentou puxar o PSDB, partido derrotado na eleição presidencial realizado no domingo passado, para o exercício da oposição. Chegou a ameaçar cair fora se o partido não respeitar a sua história (algo a ser discutido é de que história ele fala). Não é mau, mas ainda é pouco para aquele que mais representa esse partido supostamente de oposição.

No discurso de derrota, o candidato do PSDB, José Serra, limitou-se quase integralmente a agradecer os votos do que convertê-los em apoio para um trabalho de oposição corajoso e eficiente. Só no penúltimo parágrafo referiu-se ao tema:

E para os que nos imaginam derrotados, eu quero dizer: nós apenas estamos começando uma luta de verdade. Estamos no começo do começo. E nós vamos dar a nossa contribuição em defesa da pátria, da liberdade, da democracia, do direito que todos têm de falar e de serem ouvidos, da justiça social Vamos dar contribuição como partidos da nossa frente de partidos, como indivíduos, como parlamentares, como governadores. Essa será a nossa luta dos próximos anos. Por isso a minha mensagem de despedida neste momento, não é um adeus é um até logo.

Pareceu-me mais uma reacção compreensível de quem perdeu a eleição do que um político disposto e com talento para ser oposição.

Também não li até agora o o DEM, partido que apoiou o PSDB e havia nomeado o candidato a vice-presidente, manifestar-se como oposição ao governo eleito.

Assim como a oposição demorou a lançar o candidato à presidência está demorando a apresentar-se como oposição. É uma falha de militância imperdoável.

Estamos num momento precioso para que se constitua uma oposição ao governo eleito da Dilma Rousseff: primeiro pela soma do número de votos válidos, que impediu uma maioria esmagadora para a candidata do PT, que tão pouco conseguiu eleger-se no primeiro turno. Em segundo lugar, o grande movimento, digamos, oposicionista, veio de parcelas da sociedade e de intelectuais que se manifestaram pela imprensa. É uma parte importante do eleitorado que busca uma alternativa política. E essa alternativa pode perfeitamente se dar com o liberalismo. Os liberais vocacionados para a práctica, especialmente as juventudes do PSDB e do DEM, deveriam aproveitar essa oportunidade para convencer os líderes de seus partidos a adoptar posições nesse sentido. Também é uma chance para os membros do Partido Libertários colocarem o partido em evidência.

A maioria obtida pelo Partido Republicano na eleição do Congresso deveu-se ao aproveitamento da oportunidade surgida com o Tea Party e com as vozes opositoras na imprensa americana.

Cavalo selado não costuma passar duas vezes.

Novembro 1, 2010

Brasil elege Dilma presidente, ou de como estamos tão distantes do liberalismo como o planeta Terra da constelação da Ursa Maior

Filed under: Brasil,Política — Bruno Garschagen @ 02:14

Como já noticiado pelo André, a candidata do Lula, Dilma Rousseff, foi eleita e será a primeira mulher a assumir o cargo de presidente do Brasil.

Lula, o actual presidente, sempre primou pela angústia do ineditismo. Não por acaso, sua expressão mais conhecida é “nunca antes na história deste país”. Ele reconta a história do Brasil de acordo com as suas conquistas que ele considera inéditas por ignorância consciente. O presidente nunca leu um livro na vida e se orgulha do feito. É uma sorte. Se ele soubesse que a descoberta do Brasil foi levada a cabo por portugueses encontraria uma forma de inserir sua participação no evento e reduzir a importância de Pedro Alvares Cabral porque, segundo consta, não era membro do seu partido, o PT.

A vitória da Dilma é uma vitória pessoal de Lula, que escolheu a candidata e a enfiou traquéia abaixo dos membros do PT. O facto dela não ser uma militante antiga do partido (só assinou a ficha de filiação quando sua candidatura estava definida) a coloca como uma outsider em termos ideológicos estritos, como o próprio Lula, um sindicalista bom de conversa que foi assimilado por uma certa elite sindical e intelectual que via no ex-operário um líder carismático capaz de conduzir o partido ao poder.

Mas Dilma tem um passado ligado ao que há de pior no aspecto ideológico, pois fez parte de um grupo terrorista que queria derrubar o regime militar no Brasil para implantar no país uma ditadura de esquerda. Portanto, não é uma inocente.

Como ministra de Estado, porém, mostrou-se ser PT de corpo e espírito. Rapidamente, descobriu a melhor forma de aparelhar a administração pública e assim obter poder e benefícios. Como Lula.

Seguidamente ao anúncio de sua candidatura no fim do ano passado, duvidava-se aqui no Brasil se Lula poderia eleger uma desconhecida conhecida por ser uma pessoa intratável e extremamente rude com os subalternos. O facto é que Lula, desde o início, se reconhecia nela. Ele próprio sempre foi dado a proferir impropérios e palavras de baixo calão em reuniões com os ministros e no contacto com jornalistas. E nunca teve o cuidado de esconder o seu fascínio adolescente pelo poder. Dilma não erraria se parafraseasse dessa forma o famoso aforismo: O Lula sou eu.

Há poucos minutos, a candidata eleita fez o seu primeiro pronunciamento. Afirmou que vai respeitar as instituições, as liberdades, a imprensa livre e o mercado. Lula, antes de se eleger pela primeira vez, fez o mesmo. Só não descumpriu a promessa porque parte da sociedade e algumas instituições, entre elas o Supremo Tribunal Federal e a imprensa, não deixaram. As promessas de Dilma carecem do teste do tempo.

E se há razões para temer possíveis ameaças futuras também devemos considerar tão augusta coincidência: a senhora Dilma Roussef elegeu-se a presidente do Brasil justamente no dia do Halloween.

Mas a tragédia política brasileira é menos a eleição da candidata do PT, uma entre as duas candidaturas das esquerdas carnívora (PT) e vegetariana (PSDB), do que a inexistência de uma alternativa liberal.

O diplomata, ministro e deputado Roberto Campos disse certa vez que o Brasil tinha três saídas: “o aeroporto do Galeão, o de Cumbica e o liberalismo”. O grande problema era que, segundo suas palavras, o Brasil estava “tão distante do liberalismo – novo ou velho – como o planeta Terra da constelação da Ursa Maior!”

Outubro 27, 2010

Uma seleção de mais tipos de esquerdistas que você encontra na universidade

Filed under: Brasil,Política — Bruno Garschagen @ 20:39

Mais uma contribuição aos 12 esquerdas que você encontra na faculdade:

O esquerda do diretório acadêmico: Entrou nessa porque ouviu falar que as festas eram boas, a cerveja era de graça e as moças idem. Encontro nacional de estudantes é a sua micareta.

O esquerda descolado: Twitta elogios à revolução cubana pelo iPhone e pratica justiça social da mesa do bar com os amigos do Leblon.

O esquerda universitário: morde os lábios toda vez que vê um Foucault.

O esquerda raivoso: não pode ver uma foice e um martelo que logo sente frêmitos no decote.

Outubro 22, 2010

As ameaças às liberdades no Brasil do PT

Filed under: Brasil,Política — Bruno Garschagen @ 07:00

O Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva, já merece um amplo estudo em várias áreas, da ciência política à sociologia, passando pela filosofia e terminando na psicologia. Desde o início do governo, o partido e sua cadeia de comando testa os limites da sociedade brasileira para ver até onde pode avançar. É uma estratégica tão esperta quanto ameaçadora. Se esferas da sociedade e algumas instituições não tivessem reagido teríamos hoje no Brasil toda uma coleção de violações de liberdade e ataque contra indivíduos e instituições.

Uma das ameaças mais recentes, e das mais assustadoras, foi o Plano Nacional de Direitos Humanos 3. O documento, que pretendia orientar a política do governo federal e da candidata do PT à presidência, previa não só um tipo especial de controle (social) dos media como também enfraquecia ainda mais o precário direito de propriedade no país. Houve uma reacção e o governo mudou o texto. E se não houvesse reacção? O texto e a sua aplicação seguiriam o curso normal desejado pelo PT e pelo governo, que vão tentando ampliar seus tentáculos e projecto de poder sem que a sociedade perceba.

Quando um partido aparelha a administração pública contratando exclusivamente pessoas do partido ou diretamente ligadas, em vez de profissionais competentes para exercer a mesma função, passamos da ameaça para uma situação concreta que atenta contra a sociedade. A história da violação recente dos sigilos de adversários políticos do PSDB e da filha e do genro do candidato do PSDB, José Serra, é uma das provas materiais do que se pode fazer quando o partido entranha-se na administração pública. E também expõe o grau de ameaça a que estamos submetidos por cá.

Neste sentido, alguns dados interessantes: os sindicalistas ligados ao governo ocupam 45% dos 1.219 cargos de direção e assessoramento superior do governo federal. Desse percentual, 82% é formado por gente filiada ao PT. Outra informação importante: 70% dos 6.045 servidores de carreira que se filiaram ao PT desde o início do governo Lula foram promovidos ou nomeados para cargos de chefia.

O livro A Elite Dirigente no Governo Lula, da historiadora brasileira Maria Celina de Araújo, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é um estudo extraordinário sobre esse grupo de interesse que tomou o poder com a ascenção de Lula.

Numa conversa ontem sobre o assunto, um conhecido disse-me que o fato de votar no PT e na Dilma não significava o seu desapreço pelas instituições, pelo estado democrático de direito, pelo rule of law e pela democracia, como eu afirmara. Essa perspectiva é interessante porque me faz pensar que só se sente ameaçado aqueles que não compartilham com os valores e princípios do PT. Como os socialistas portugueses que preservam um primeiro-ministro como José Sócrates, mergulhado em denúncias de fazer corar o Código Penal português.

Não se trata de uma discussão ideológica. Estamos na esfera de identificação daquilo que viola as liberdades e atenta contra as instituições formais e informais. Se comungo da estrutura de pensamento de um dado partido como sentir-me-ei ameaçado pela série de tentativas de ataques às liberdades? A noção de liberdade, de função e dimensão do Estado, de indivíduo, de propriedade, é um tanto divergente e, às vezes completamente invertida. Não conseguir ver uma ameaça não quer dizer que ela não exista. Mesmo que se apenas um indivíduo lutasse pela liberdade por considerar haver uma ameaça era o caso de atentar para as razões dessa insurgência, não ignorá-la.

Há uma crença em parte da sociedade brasileira de que o PT antigo era melhor do que o actual. Em termos ideológicos, o partido não mudou uma vírgula. Discordo de que haja um ideal antigo (bom, incorruptível) e um novo, corrompido pelas contingências. O que mudou foram as circunstâncias, mais especificamente o facto de o PT ter ascendido ao poder federal. Administrações petistas municipais e estaduais já incorriam em vícios parecidos, mas numa dimensão muito menor.

Conheci vários petistas que eram filiados porque acreditavam sinceramente que o partido faria algo na área social, de ajuda aos pobres. Muitos continuam achando a mesma coisa e continuam filiados e com isso legitimam os meios que o partido usa para realizar seus projectos, independentemente dos resultados.

É um desejo bastante legítimo e nobre querer ajudar o próximo. O problema são as pessoas se deixarem levar por essa ilusão de que o partido é moralmente superior e, por isso, pode recorrer a quaisquer expedientes para concretizar um plano de resultados pré-definidos e que exige dos indivíduos a submissão a um objetivo único a todos os membros da sociedade, que é composta por vários objetivos individuais – e assim deve ser.

Imaginar que o PT não é mais o mesmo porque se deixou corromper é ter uma visão idealizada, e até romântica, do que o partido efectivamente sempre foi.

O quem sempre tenho em mente é que não há anjos na política e o poder deve ser tão limitado e controlado pelas demais esferas (checks and balances) que impeça qualquer ímpeto ou tentativa autoritária, em maior ou menor grau. Ou nós, brasileiros, escolhemos ajudar a construir uma sociedade civilizada com o nosso trabalho, com a liberdade de escolher como aplicar a riqueza que produzimos sem intervenções ou ameaças, sem que o governo de turno seja o protagonista da vida social, política e económica, ou arriscamos nossas liberdades e nossas vidas cedendo a projectos de poder por simpatias ideológicas, servidão voluntária ou indiferença.

Eu já escolhi o meu lado.

Leitura recomendada: Os 10 piores momentos de Lula.

Outubro 19, 2010

Chico Buarque toca o pandeiro para a candidata do PT

Filed under: Brasil,Cultura,Política — Bruno Garschagen @ 17:39

“Vim reiterar meu apoio a essa mulher de fibra, que já passou por tudo, e não tem medo de nada. Vai herdar um governo que não corteja os poderosos de sempre. O Brasil é um país que é ouvido em toda parte porque fala de igual para igual com todos. Não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai”.

Assim falou o compositor brasileiro Chico Buarque num ato de apoio à candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, ontem no Rio de Janeiro. O apoio, obviamente, não espanta. Ele preserva a biografia esquerdista do compositor. Mas o que interessa são os atributos atribuídos à candidata.

Segundo Buarque, Dilma não tem medo de nada. Isso é bom? O medo é um mecanismo de defesa que nos alerta contra os perigos de nossas acções ou as de terceiros. Se a candidata não tem medo de nada nos coloca sob um risco institucional tremendo. Significa que vai adoptar posições políticas e agir sem levar em consideração os perigos de suas decisões. Já pensaram no tamanho do problema causado por um presidente da República que decida apoiar os regimes de Cuba e do Irã?

Nosso grande compositor depois afirma com a propriedade que lhe é peculiar que a Dilma não só vai ganhar a eleição como “vai herdar um governo que não corteja os poderosos de sempre”. Fico bastante mais tranquilo ao ler isso. Mas vamos lá ver o significado dessas palavras. O governo Lula tem o apoio de políticos como José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor de Melo et caterva. Também tem o apoio daquela parcela dos empresários que apoiam quem está no poder. Não porque o capitalismo esteja livre das amarras ideológicas, mas porque os incentivos criados pelo Estado excitam aqueles donos de empresas ávidos por uma licitação especialmente elaborada de forma a respeitar a antecipada escolha dos vencedores. É o capitalismo de Estado na versão vintage, mas sem a dignidade e o sabor do vinho do Porto.

Consideremos, no entanto, que o nosso mestre do samba tenha esquecido esses pormenores e que Lula, de facto, não tenha cortejado os poderosos de sempre. A frase deixa em aberto o cortejar a outros poderosos. Quem seriam? Os companheiros de PT? Os sindicalistas? A burguesia do capital alheio (copyright Reinaldo Azevedo)?

Tem mais? Como não? Buarque nos garante que o Brasil agora tem voz na sociedade internacional porque fala de igual para igual com todos. Considerando que o nosso presidente orgulha-se de só saber rudimentos do português com os quais consegue comunicar-se (de forma bastante eficiente, diga-se) fico a imaginar o que representa esse falar de igual para igual. E considerando os insucessos da diplomacia brasileira na esfera internacional é o caso de pensar se falar de igual é melhor do que ser compreendido e respeitado.

Quanto à última frase, trata-se de um primor de sofisticação ziriguidum: “Não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai”. Fala, portanto, naquele estilo vocal indefinido próprio de adolescentes. E sabemos bem quão irritante é a voz e o, digamos, pensamento na adolescência.

É, realmente, o apoiante perfeito para a candidata adequada.

Outubro 18, 2010

Eleições no Brasil: a antiprivatista e o defensor envergonhado das privatizações

Filed under: Brasil,Economia,Política — Bruno Garschagen @ 20:10
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No debate promovido ontem pelo canal brasileiro Rede TV! em parceria com o jornal Folha de São Paulo, a candidata do PT à Presidência do Brasil, Dilma Rousseff, manteve a estratégia usada pelo Presidente Lula na eleição de 2006 contra o seu adversário Geraldo Alckmin, do PSDB: atacar as privatizações e acusar o actual candidato do PSDB, José Serra, de querer privatizar a Petrobras.

Naquela disputa, o esquema funcionou pela reacção equivocada da campanha de Alckmin, que acusou o golpe e adoptou para si o discurso do adversário até chegar ao acto medonho de vestir uma jaqueta com os símbolos das empresas estatais brasileiras. Se ambos os candidatos demonizavam as privatizações, era de considerar que a população, com essa informação, partilhasse da mesma opinião, mesmo que tenha sido beneficiada directamente, como no exemplo da privatização do sector de telefones móveis e fixos.

Agora, apesar de inicialmente seguir os passos de Alckmin, o candidato do PSDB parece ter escutado conselhos de colegas de partido e passou a defender o governo de FHC e as privatizações. No debate de ontem, chamou a atenção para os benefícios do acesso aos telemóveis pela população mais pobre. Isso não quer dizer que Serra seja um liberal. Está longe disso. Assim como sua adversária, a candidata do PT, acredita que o estado deve ser o agente do desenvolvimento econômico.

A nota cómica dessa segunda volta presidencial é que a candidata do PT que acusa adversário do PSDB de privatista, num tom ainda mais agressivo do que se acusasse a mãe dele de actos menos nobres, é a mesma que desenvolve um discurso mais pró-mercado do que o próprio José Serra. Ideologia de político brasileiro começa e termina naquilo que atrai mais votos.

O melhor até agora foi que a não-eleição da candidata do PT na primeira volta e a reacção do eleitor brasileiro às denúncias de corrupção no governo Lula e à satanização da privatização mostraram que o eleitor brasileiro é melhor do que imaginam os analistas políticos e os políticos em campanha. Essas informações permitem ratificar a observação do sociólogo Alberto Carlos de Almeida de que um partido de direita no Brasil (liberal-conservador) conquistaria uma parcela significativa dos votantes que carecem de uma proposta política alternativa e eficiente.

Entre a antiprivatista de ocasião (Dilma Rousseff) e o defensor envergonhado das privatizações (José Serra) há uma lacuna política a ser ocupada pelos liberais. Ou eles ocupam tal espaço ou vamos continuar lamentando que o leque de opções ideológicas da política partidária no Brasil vá do amplo espectro entre a esquerda e o canhoto.

Outubro 14, 2010

O que pode unir liberais e conservadores?

Filed under: Política — Bruno Garschagen @ 15:18
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Do Rui Albuquerque no OrdemLivre.org:

Liberais e conservadores

Tenho-me interrogado, ao longo dos anos, se a separação entre liberais e conservadores se justifica, e se eles não podem viver em harmonia e mesmo até numa plena complementaridade de princípios, idéias e valores. Por palavras distintas, a questão é a seguinte: ser liberal impede que se seja conservador e ser conservador exclui que se seja liberal? A minha resposta a esta questão, no fim de contas a mesma, vista embora por dois ângulos distintos, é inequívoca: um liberal nos princípios e nos fundamentos tem que ser politicamente conservador, enquanto que um verdadeiro conservador não poderá deixar de ser um liberal. Tentarei demonstrar, neste artigo, esta minha convicção.

Julho 30, 2009

A geração dos guepardos e dos hipopótamos em África

Filed under: Diversos — Bruno Garschagen @ 13:47

No OrdemLivre.org:

Há guepardos e hipopótamos em Angola e Moçambique

Numa palestra realizada para o TED, o economista e presidente da Free Africa Foundation George Ayittey disse que na África há dois tipos de gerações: os guepardos e os hipopótamos.

A salvação da África, segundo ele, estava nas mãos dos guepardos, indivíduos que lutam pelas liberdades, pela democracia, que não esperam que o governo aja por eles, que não toleram a corrupção, que trabalham pelo desenvolvimento de suas regiões.

São o oposto dos hipopótamos, a elite instalada no governo que construiu uma confortável prisão intelectual, política e econômica que os imobiliza e imobiliza o país que governam. Os hipopótamos não agem e lapidam o discurso permanente da crueldade do colonialismo e do imperialismo. Ancoram-se nessa justificativa para não agir e não deixar que os indivíduos ajam. As reformas políticas e econômicas não são sequer concebidas. Afinal, o estado de coisas os beneficia.

Num continente afortunado pelas riquezas naturais e pela ajuda trilionária oriunda de doações internacionais ao longo dos recentes 50 anos, falar de falta de recursos não é só uma piada de mau gosto: é uma violação dos direitos humanos. A economista Dambisa Moyo, no excelente Dead Aid, mostra que desde o fim dos anos de 1950 o continente africano recebeu dos países ricos mais de US$ 1 trilhão em ajuda (1). Coletar e enviar dinheiro para os países africanos converteu-se, a partir da década de 1980, num imperativo moral. Você facilmente poderia ser acusado de desumano se negasse ajuda ou tratasse o assunto de forma crítica ou desdenhosa.

CONTINUA…

Julho 29, 2009

Luanda: o estado policial e a minoria admirável

Filed under: Economia,Internacional,Política — Bruno Garschagen @ 14:27

Meu artigo de hoje no jornal i:

VISTO DE FORA

Luanda é um luxo para poucos

Você reconhece essa nação? O título da publicidade em formato de reportagem que a revista “Foreign Policy” publicou em sua edição de Maio/Junho saudava Angola por seu “espectacular crescimento económico”. Por sua segurança e estabilidade política. Por seu poder regional para promover a paz. Quem pode duvidar de um país turbinado pela indústria petrolífera?

Estive em Luanda no fim da semana passada para uma série de encontros pelo OrdemLivre.org, o programa lusófono da Atlas Economic Research Foundation em parceria com o Cato Institute. É a cidade mais cara em que já pus meus pés. Não há calçadas para pôr os pés. Não há espaços nas ruas para tantos carros. Os veículos novos e importados driblam o tráfego intenso e a miséria que bate nos vidros em busca de clientes para produtos chineses de marcas famosas. Ou de uma mera esmola que drible a fome.

CONTINUA…

Julho 4, 2009

“La comunidad internacional está cometiendo uno de los errores más grandes en la historia”

Filed under: Internacional,Política — Bruno Garschagen @ 00:03

Ver militares nas ruas assusta e é mais simpático ficar ao lado daqueles que protestam contra os militares, mesmo que os militares estejam do lado certo, no caso de Honduras, ao lado da legalidade, da Constituição, da democracia e da paz.

No blogue do OrdemLivre.org, Diogo Costa já alertara sobre a indiferença e a manipulação da informação na imprensa internacional a respeito dos eventos em Honduras.

E o que pensam os hondurenhos?

Como todos los hondureños nuestra vida normal se ha interrumpido en los últimos días, no porque estén militarizadas las calles o hayamos perdidos nuestras garantías constitucionales (excepto el toque de queda de 9PM a 6AM) como falsamente dicen muchos medios de comunicación internacionales, sino porque estamos en pie de lucha, ya sea en las calles o frente a nuestras computadoras, para contarle al mundo la verdad de lo que aquí está ocurriendo.

Desde ayer estamos saliendo masivamente a las calles en las principales ciudades del país, hombres y mujeres de todas las clases sociales, para mandar tres mensajes contundentes al mundo entero:

1. La inmensa mayoría de los hondureño no apoyamos, repito, NO apoyamos a José Manuel Zelaya Rosales, y no permitiremos que regrese al poder, venga escoltado de quien venga, y nos impongan las sanciones que nos impongan.

2. Exigimos a los medios de comunicación internacional, especialmente a CNN que tenga la decencia de cubrir objetivamente la noticia en Honduras, pues ha llegado hasta el extremo de mostrar escenas de manifestaciones en CONTRA de Zelaya Rosales como si fueran a favor de él.

3. La comunidad internacional está cometiendo uno de los errores más grandes en la historia de la defensa universal de la democracia, al querer mandarnos de regreso a un dictador sumamente impopular. Con el tiempo lo descubrirán.

O texto é do blogue Las Honduras Posible, de Margarita Montes, especialista em ciência política e relações internacionais e mestre em administração de empresas. Na sua análise dos acontecimentos e da reação internacional é possível ter um bom panorama do que está acontecendo por lá. E ver o quão absurdo é o ultimato da OEA (Organização dos Estados Americanos) ao governo interino de Honduras para que em 72 horas (a contar do dia 1) restitua o presidente deposto, Manuel Zelaya.

População, Congresso, Ministério Público, o alto comando das Forças Armadas e o Judiciário estão unidos na decisão de manter a deposição e de impedir a volta de Zelaya ao país.

Junho 18, 2009

Quem é Joaquim Nabuco? Não sabe?

Filed under: Brasil,Política — Bruno Garschagen @ 21:05

No OrdemLivre.org:

Joaquim Nabuco e a transição no Brasil

por Bruno Garschagen

O Brasil vive um período de transição bastante interessante. Se na década de 1990 surgiram no cenário público algumas vozes dissonantes da cartilha marxista e suas derivações, a partir do ano 2000 despontou uma nova geração livre dos grilhões ideológicos turbinados durante o governo militar (1964-1985).

A ditadura maculou três gerações nas esferas política e cultural: a que estava no auge na época do golpe, a que tentava abrir espaço e a que nascia sob os coturnos. Essas gerações foram atacadas de dois lados: por um regime ditatorial e pela dominação cultural e educacional da esquerda de vários matizes. Nas universidades, no meio artístico, no jornalismo etc. o sujeito que não fosse de esquerda (o que não quer dizer que fosse de direita) era mal visto e rechaçado. Era preciso se posicionar. Do lado deles.

E já que vivemos num período de transição é fundamental que determinadas idéias sejam apresentadas e estudadas. E aqui vai minha dica: Joaquim Nabuco e seu livro Minha formação(1900).

CONTINUA…

Dezembro 23, 2008

Cimeira só reforça o peso do estado

Filed under: Brasil,Política,União Europeia — Bruno Garschagen @ 20:03

Ao que me parece, as declarações de Condolleeza Rice e de Sarkozy sobre a entrada do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, para além da gentileza com o governo do país que recebe a Cimeira UE-Brasil, país este que desenvolveu uma obsessão em inserir o Brasil no Conselho de Segurança, tudo está sendo feito no sentido de criar um clima favorável para a próxima reunião da Rodada Doha.

E a Rodada Doha está naquele impasse no que toca aos subsídios concedidos por países europeus e EUA a alguns setores que interessam países em desenvolvimento como o Brasil. Como os EUA e políticos europeus sabem da fraqueza de Lula pela ONU estão indo por esse caminho.

O que me preocupa é a Cimeira ter escolhido como foco principal de discussão a crise financeira. A sinalização é adotar medidas para aumentar o peso do estado na economia, apesar das declarações do presidente francês:

Quando falo de reconstrução do capitalismo quero dizer que devemos voltar aos verdadeiros valores da economia de mercado, os que colocam o empreendedor e o desenvolvimento no centro da economia. Devemos reconstruir um capitalismo regulado, um capitalismo onde os bancos cumpram com o seu papel, um capitalismo onde o risco seja avaliado, assumido, onde as agências de avaliação tenham um comportamento irrepreensível e sejam controladas, um capitalismo fundado na transparência e não na opacidade.

E do brasileiro:

Não defendo o estado gestor, que se intromete. Está provado que o estado sozinho não resolve o problema. Tem que ser o indutor do desenvolvimento. Quando tem uma crise como essa, não tem banco que não se volta para o estado e pergunta o que fazer?

 
Os dois começam a defender o livre mercado e o estado limitado, mas também falam em regulação e solução final pelo governo. Parece estratégia para não assustar o mercado e também emitir a mensagem de que o governo salva sempre.

No mais, Durão Barroso aproveitou para potencializar sua imagem como grande articulador da relação do Brasil com a UE.

O que mais me preocupa é que, de novo, uma cimeira com chefes de governo tenham priorizado a economia, não no sentido de desburocratizar as relações e reduzir o peso do estado, mas de reforçar o peso da participação dos governos no comércio mundial.

Novembro 13, 2008

Insurgente no Rádio Clube Português

Filed under: Internacional,Política,Portugal — Bruno Garschagen @ 17:32

Hoje, às 23h, Bruno Alves estará no Rádio Clube Português falando sobre política com a verve e a contundência de costume. Não percam.

Novembro 6, 2008

“Obama representa uma parte do povo americano que o elegeu e uma parte do mundo que o apoiou”

Filed under: Internacional,Política — Bruno Garschagen @ 23:38

Do site OrdemLivre, braço do Cato Institute no Brasil:

As eleições que os Estados Unidos venceram

Por Bruno Garschagen

Barack Obama vendeu o peixe e os americanos compraram. Era um candidato à presidência do mais poderoso país do mundo. Agora, presidente eleito. Não há problema, é do jogo, que ele e seus apoiadores repitam slogans de campanha durante a campanha. Uma vez decidida a eleição é o momento de abandonar frases de efeito, como o de que “a América vai mudar”. Porque a frase não é só uma frase: é uma declaração de princípios. A parte substantiva dessa declaração é extremamente perigosa por ignorar estrategicamente o fato de que Obama representa uma parte do povo americano que o elegeu e uma parte do mundo que o apoiou. Como representante de uma parte não pode, no papel de comandante do governo, se arvorar no direito de impor uma idéia de nação, de moral, de costumes, de futuro, sobre um país inteiro (ou ao mundo), assim interferindo nos diferentes modos de vida contrários, alheios ou indiferentes ao projeto (CONTINUA…).

Novembro 5, 2008

Diogo Costa do OrdemLivre/Cato: “Não se cria prosperidade por estatuto, mas se criam dívidas e bolhas econômicas”

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 05:25

Diretamente de Washington, Diogo Costa, do OrdemLivre/Cato Institute, acaba de responder a uma pergunta que fiz por e-mail:

Diogo, qual será o maior desafio emergencial do presidente eleito na esfera internacional e na esfera doméstica?
Diogo Costa – O grande desafio da campanha de Obama foi demonstrar sua liderança. Seu maior desafio agora é demonstrar sua humildade.

Domesticamente, Obama precisa ter a humildade para entender que a economia é uma rede de interações complexa demais para ser manejada por artimanhas políticas. Não se cria prosperidade por estatuto, mas se criam dívidas e bolhas econômicas.

Externamente, seu desafio é ter humildade para não se tornar um obstáculo para o comércio internacional, e aprender que os acontecimentos mundiais não estão sob seu controle, que ele não tem o poder de exportar a democracia nem de consertar o mundo pelo poder militar.

O desafio de Obama é ter a consciência de que o presidente americano não é o comandante da nação americana, mas o servo da constituição do seu país.

PS: Aqui me despeço da cobertura das eleições americanas 2008.

Aos olhos externos, os EUA deixam de ser Bush para ser Obama

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 05:06

Na FoxNews:

Obama Wins White House, Becomes First Black President

Barack Obama will become the first black president of the United States, with a sweeping Election Day victory.

FOXNews.com
Tuesday, November 04, 2008

Supporters react as they hear results from television that President-elect Barack Obama has been elected President of the United States at Grant Park in Chicago, Tuesday night. (AP Photo)

The 47-year-old Democratic junior senator from Illinois swept to victory over his Republican opponent, Arizona Sen. McCain, building an Electoral College majority of at least 297 votes.

McCain, speaking in Phoenix, Ariz., said he has called Obama to concede. He urged his supporters to move beyond their “disappointment,” and said Obama was worthy of respect.

“Whatever our differences, we are all Americans,” he said, with running mate Sarah Palin standing by his side. “Though we fell short, the failure is mine, not yours.”

President Bush also called Obama to congratulate him.

The Illinois senator climbed over the top at 11 p.m. ET Tuesday with wins in California, Oregon, Washington and Hawaii. It takes 270 electoral votes to win.

Supporters cheered and applauded in Chicago’s Grant Park, where Obama is holding his election night celebration, once it was clear the Illinois senator had clinched the presidency.

Thousands had gathered in Chicago, eagerly watching the returns build in their candidate’s favor. Obama delivered a crushing defeat earlier in the night by clinching Ohio, Pennsylvania and Virginia, states that were key to McCain’s presidential electoral strategy.

And the Democratic nominee took a commanding lead over his Republican rival with a slew of victories in reliable East Coast and Midwestern territory.

Obama has so far won New York, Massachusetts, New Hampshire, Maryland, Rhode Island, Connecticut, New Jersey, Delaware, Vermont and the District of Columbia. He also won all four electoral votes in Maine and scored a victory in his home state of Illinois, as well as in Iowa, Wisconsin, Minnesota, Michigan and the southwestern state of New Mexico.

McCain has won Texas and Georgia, as well as Idaho, Arizona, South Dakota, South Carolina, Mississippi, Utah, Louisiana, Arkansas, North Dakota, Kansas, Wyoming, Alabama, Oklahoma, Tennessee, West Virginia and Kentucky. He won three of Nebraska’s five electoral votes.

The Democratic nominee has so far amassed 297 electoral votes to McCain’s 155.

Pennsylvania, with its 21 electoral votes, was one of the few states that voted Democratic in the 2004 presidential election that McCain was actively pursuing. Another was New Hampshire, which Obama also won Tuesday. McCain aides initially objected to the Pennsylvania call, complaining that it was too early to project.

But McCain’s narrow path to victory was made air tight after he lost Ohio and its 20 electoral votes, and Virginia’s 13.

He would have had to score an upset in a major Democratic state to recover, as well as win Florida and a number of other states President Bush won four years ago that Obama is contesting.

With his victory, Obama, the Hawaiian-born son of a black man from Kenya and a white woman from Kansas, is poised to turn the page on Republican policies of the last eight years, as well as some racial barriers that have stood for generations.

Races in Missouri and Indiana are still too close to call, as is the race in North Carolina.

Only Alaska voters continued to cast their ballots after a frenzied day of campaigning that brought the historic and sprawling presidential race to a close.

Both candidates took their campaigns well into Election Day, as each battled for votes at the 11th hour.

McCain, who all along faced an uphill road to attaining the 270 electoral votes needed to win, first flew into Colorado for his final rally. Then he visited dozens of volunteers at a New Mexico phone bank, before finally heading home to Phoenix to watch returns.

Obama, in an election day tradition that perhaps demonstrated his confidence, played basketball Tuesday afternoon in Chicago with friends and staff.

Both candidates and their running mates joined enthusiastic voters Tuesday morning in casting their ballots. An estimated 153 million voters were eligible, and in an indication of interest in the battle for the White House, 40 million of them had already voted as Election Day dawned.

The Associated Press contributed to this report.

A eleição do candidato do Partido Democrata, para além de todo o resto, me preocupa pela celebração intensa e agressiva do personagem. Mais uma vez, os Estados Unidos deixam de ser o país formado por indivíduos e por toda uma rica complexidade cultural para ter no sorriso largo do eleito a representação do Governo.

A nação terá a favor e contra si as ações de um homem que dá rosto ao estado. Não será o país do jazz, do bourbon, de Cole Porter, de Gershwin, de William Faulkner, de Jackson Pollock, mas o país da administração política de turno. Aos olhos externos, o país deixa de ser Bush para ser Obama, para o bem e para o mal.

Mudança? Esperança? Não creio.

O Insurgente móvel se despede

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 03:46

O Insurgente móvel (André Abrantes Amaral e Bruno Garschagen) se despede da cobertura das eleições americanas 2008.

O candidato do Partido Democrata venceu e nós sobrevivemos. Agora com muito mais perguntas para formular.

Boa noite, caros Insurgentes e leitores notívagos.

A força obtida pelos blogues

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 03:20

Um dos aspectos importantes a se tratar com a devida calma e enquadramento é a força obtida pelos blogues, dentro e fora dos Estados Unidos, a partir do trabalho feito e provocado pelas eleições americanas.

Eleições americanas e antiamericanismo

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 02:56

Na semana passada, entrevistei para o jornal brasileiro Valor Econômico algumas pessoas a respeito da relação entre as eleições americanas e o antiamericanismo. Todas compartilham a opinião de que, independente de quem fosse eleito, o sentimento contra o que os Estados Unidos representam tende a diminuir mundo afora pela saída do presidente George W. Bush. Se vencesse o candidato do Partido Democrata, como já está claro, o recrudescimento será potencializado. Essa opinião, da qual partiu a idéia para o texto, foi dada no início deste ano pelo sociólogo Paul Hollander numa palestra no Instituto de Estudos Políticos da Católica, onde estará de volta amanhã para um seminário.

Antes das análises, aos dados: o relatório “Rising Environmental Concern in 47-Nation Survey – Global Unease with Major World Powers”, produzido em 2007 pelo instituto Pew Global, mostrou que a imagem dos Estados Unidos tinha piorado entre 2002 e 2007 e que o antiamericanismo continuava profundo. A maior rejeição, por motivos óbvios, está concentrada nos países islâmicos do Oriente Médio e da Ásia. E até antigos aliados manifestaram uma opinião desfavorável sobre a América. A Turquia é o país mais antiamericano da lista: 83% têm uma imagem negativa contra apenas 9% positivas. Na América do Sul, o Brasil aparece com 51% de opiniões desfavoráveis e 44% favoráveis (a diferença é atribuída aos indiferentes).

Às análises:

Uma observação precisa da especialista em relações internacionais e docente da Universidade Católica Portuguesa, Raquel Vaz-Pinto: na Europa, não há apenas um, mas vários tipos de antiamericanismo. “Talvez o mais evidente seja aquele que está relacionado com a idéia do projeto europeu como alternativa à liderança mundial dos EUA”.

O sueco Johan Norberg, autor de “In defense of global capitalism”, acha que o desejo de criar uma identidade própria faz com que a Europa procure se distanciar dos Estados Unidos e tente ser melhor fazendo com que o país mais poderoso do mundo pareça pior.

E nessa conduta, observa o checo Tomas Karasek, PhD em relações internacionais e professor da Universidade Charles, em Praga, há um certo grau de ressentimento. “A situação só irá mudar quando os Estados Unidos perderem poder e posição”. Nada garante, porém, que o sentimento antiamericano não seja deslocado para outras áreas. A tese do rancor foi desenvolvida pelo francês Jean-François Revel em A obsessão antiamericana. Revel atribuiu o antiamericanismo europeu, especialmente dos franceses, aos insucessos, inveja e perda de status dos países do continente nas grandes questões internacionais.

No caso da América Latina, o antiamericanismo é uma peça de retórica muito confortável para as elites da região, segundo o professor Alexandre Barros. “Elas vivem muito bem, com todo o conforto que podem em matéria de bens privados, mas gostam de explorar o fomento do antiamericanismo junto às massas”.

Para além de tudo, o candidato do Partido Democrata terá esse desafio de minimizar o sentimento desfavorável do mundo contra os Estados Unidos.

Qual será o futuro do pensamento conservador?

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 01:44

A administração George W. Bush esgarçou o partido Republicano e todo o aparato intelectual que o alicerçava. A declaração de McCain (“I’m not Bush”), mesmo tardia, foi feita. Não era fácil, mas necessária por várias razões. O problema é integrar a base de um governo como congressista e depois reagir contra esse mesmo governo com a finalidade de desligar sua imagem das botas desgastadas do senhor W. Embora compreensível, provoca certo ruído na recepção da informação pelos eleitores indecisos.

Numa outra ponta, o atual governo americano provocou uma hecatombe geradora de Obamacons, conservadores que declararam apoio a Obama como reação a Bush.

Os conservadores americanos têm um imenso trabalho a fazer para recuperar anéis perdidos e curar as feridas dos dedos decepados.

Como ficará a questão dos subsídios?

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 00:47

Será que o próximo presidente eleito vai reduzir o valor dos subsídios agrícolas? O governo americano pode distribuir até US$ 48,2 bilhões nessa poderosa ajuda aos agricultores, sempre reclamada por países que têm nos Estados Unidos um importante mercado estabelecido e um enorme mercado potencial. O tema sempre resulta em entraves na rodada Doha. E é uma questão que bate no fígado dos países exportadores, como o Brasil. Particularmente, não creio em mudanças significativas.

Novembro 4, 2008

O que você sempre quis saber sobre o messias, mas tinha medo de perguntar

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 23:32

É uma tristeza comentar uma eleição na qual o messias tem como adversário um candidato que não provoca qualquer entusiasmo. O que acontece? A conversa fiada gira em torno de identificar e apontar os vícios do messias. A Inês já é morta? O resultado ainda levará algumas horas, claro. Lanterna no fim do túnel? Já não há lanterna, só túnel.

Para ajudar os torcedores do candidato Democrata para o que há de vir algumas informações sobre o eleito (por enquanto, só nos corações mais plenos):

What you don’t know about Barack Obama

Black liberation theology, birthplace, religion still remain question marks

By Jerome R. Corsi
© 2008 WorldNetDaily

NEW YORK – Birthplace, religion, black liberation theology, passport, Pakistan, school expenses and records, house deal, friends, mentors and clients.

These are among the questions that despite months of campaigning for the presidency, thousands of hours in front of reporters and cameras, and hundreds of members of a massive campaign staff, the public still doesn’t have fully answered about Illinois Sen. Barack Obama.

Just four years ago, Obama essentially was an unknown state legislator who with the help of the Chicago political system took over a seat in the U.S. Senate. He stated then he was unqualified for national office, but within about two years launched his bid for the White House, knocking off one of the powerhouses of Democratic politics, Sen. Hillary Clinton, in the primaries.

The questions, then, abound as he’s proposed giving the United Nations hundreds of billions of dollars, promised 95 percent of Americans a tax cut and pledged to pursue environmental campaigns even if coal companies go bankrupt as a result.

Independente do eleito, EUA já ganharam

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 23:17

Parece não haver dúvidas sobre a vitória do candidato do Partido Democrata. Uma euforia de torcedor de time de futebol. Quando se aplica à disputa política o mesmo tipo de paixão pelo esporte a estupidez senta ao lado da temeridade.

Os torcedores do Democrata tratam-no por salvador da humanidade. Ele soube capitalizar sobre os instintos mais primitivos que despertou. No fim de semana passado, numa entrevista para a rádio, o homem não se fez de rogado: garantiu que mudaria não só os Estados Unidos, mas o mundo. Depois dessa informação fiquei muito mais tranqüilo e enviei e-mail ao comitê de campanha pedindo uma atenção especial ao Brasil.

Um dos aspectos mais relevantes das eleições presidenciais americanas 2008 foi mostrar o poder político e cultural que os Estados Unidos ainda detêm a despeito das zilhões de opiniões mostrando que o império havia ruído e perdera toda a influência na esfera internacional.

Independente do candidato vencedor, o país já ganhou.

O candidato, os leões e os mortos

Filed under: Eleições EUA 2008,Emissões Especiais — Bruno Garschagen @ 22:58

Quem vai ganhar as eleições americanas? O circo está montado para o candidato do partido Democrata vencer. Possibilidade de derrota? Só se os leões fugirem das jaulas e degustarem o público.

Como vencer um candidato que ganha voto até da avó recém-falecida? Favas contadas, por supuesto. Mas os leões ainda estão na jaula.

Outubro 30, 2008

Obama presidente do mundo?

Filed under: Internacional,Política — Bruno Garschagen @ 23:28

The Economist desta semana declara seu apoio ao candidato do partido Democrata Barack Obama:

The Economist does not have a vote, but if it did, it would cast it for Mr Obama. We do so wholeheartedly: the Democratic candidate has clearly shown that he offers the better chance of restoring America’s self-confidence. But we acknowledge it is a gamble. Given Mr Obama’s inexperience, the lack of clarity about some of his beliefs and the prospect of a stridently Democratic Congress, voting for him is a risk. Yet it is one America should take, given the steep road ahead.

Ao mesmo tempo em que justifica sua tomada de posição com a crença de que Obama mostrou de forma mais clara ser a melhor alternativa para restaurar a autoconfiança dos Estados Unidos, afirma que votar nele é não só uma aposta, mas um risco.

Contra McCain, a desconfiança com o fato de o candidato à presidência contrariar os atos como senador na questão dos impostos, religião, subsídios para biocombustíves e crise financeira.

A escolha da The Economist não surpreende quem a acompanha semanalmente. A surpresa é a fragilidade dos argumentos contra McCain e a favor de Obama (havia críticas mais profundas a se fazer contra ambos os candidatos). Na semana passada, The Economist publicou uma matéria mostrando o crescimento dos Obamacon, conservadores, neoconservadores e gente ligada ao Partido Republicano, como Colin Powell, que declararam apoio ao candidato democrata.

Um desses casos mais emblemáticos é o de Francis Fukuyama, que de ideólogo do movimento neoconservador e acusado de anabolizar intelectualmente o staff do governo George W. Bush, deu uma guinada radical. Depois de lançar o livro America at the crossroads, praticamente uma declaração de independência (ou carta de alforria), declarou apoio a Obama nas páginas da edição de novembro daThe American Conservative sob o argumento de que “é difícil imaginar uma presidência mais desastrosa.

Num artigo para o Washington Post, jornal que sempre apóia o Partido Democrata e já havia declarado suporte a Obama, Robert Kagan satiriza o apoio de Fukuyama e do jornalista e editor da Newsweek Fareed Zakaria. Kagan cita a diferença entre o discurso adequadamente otimista sobre o futuro da América mantido por Obama durante a campanha, razão pela qual ele vai bem nas sondagens, e as análises de seus dois apoiadores. “Se ele fosse como Zakaria e Fukuyama diz que ele é, já seria carta fora do baralho”.

Num texto curto para The American Conservative, Llewellyn H. Rockwell Jr. esboça a tragédia representada pelos dois candidatos e defende a liberdade de não votar. Num fecho ao melhor estilo publicista, afirma: “This year especially there is no lesser of two evils. There is socialism or fascism. The true American spirit should guide every voter to have no part of either”.

Na eleição virtual realizada no site da The Economist Obama já está eleito presidente do mundo. Vence em quase todos os países, com exceção de Argélia (McCain 53% x Obama 47%), República Democrática do Congo (McCain 54% x Obama 46%), Myanmar (McCain 53% x Obama 47%), Sudão (McCain 55% x Obama 45%) e Iraque (McCain 59% x Obama 41%).

Há casos interessantes como os de Camboja e Camarões, onde Obama vence com 100% dos votos. E Cuba, onde cada candidato obteve 50% dos votos.

No Brasil, Obama vence com 83% dos votos contra 17% de McCain. Em Portugal, Obama obteve 85% dos votos contra 15%. Somos ou não somos países irmãos?

No final das contas, tenho por Obama uma percepção muito parecida com a que tinha com Lula, presidente do Brasil: o risco de eleger um Messias é ele assumir o governo com a certeza de que o apoio interno e internacional legitima qualquer tipo de ato e decisão. Entregar um cheque em branco para chefe de governo é abrir caminho para as tentações totalitárias que o acometem, em maior ou menor grau, após a conquista do poder.

Outubro 14, 2008

Quo Vadis, Krugman?

Filed under: Economia,Internacional,Política — Bruno Garschagen @ 15:25

Qual é a mensagem que se transmite ao mundo nesse momento de crise quando o Nobel de Economia premia um economista como Paul Krugman?

Com Wall Street em chamas, falar de liberalismo hoje é mais insultuoso do que invocar Mefistófeles, ato que pode, pelo menos, soar excêntrico. A maioria arrasadora das análises sobre a crise e sobre as possibilidades de solução recai na intervenção do estado. Até gente antes identificada com princípios liberais pede a mão visível do governo porque, segundo eles, o estado foi co-responsável por ser o agente definidor das regras e ter permitido a “farra”.

Krugman é o economista que, na pele de intelectual público (colunista do New York Times), defende a tese segundo a qual o intervencionismo estatal é uma importante ferramenta de crescimento econômico.

Ao mesmo tempo em que se pode argumentar que, sim, Krugman foi premiado por seu estudo sobre comércio internacional, não vejo como separar seu trabalho da forma como articula sua idéia sobre o funcionamento do mercado. A Economia é baseada nos postulados da racionalidade e do equilíbrio. É sobre esses princípios que Krugman elabora uma estrutura econômica de análise aplicando seu viés ideológico.

Krugman não é o primeiro e nem será o último economista estatal a ganhar o Nobel. Sendo assim, a priori, não há nenhuma tragédia nova a desconfigurar a já estabelecida. Mas o prêmio, na atual conjuntura, tem um impacto político relevante que justifica a pergunta inicial deste texto: qual é a mensagem que se dá ao mundo nesse momento de crise quando o Nobel de Economia premia um economista como Paul Krugman?

O Nobel a Krugman é a última flor que se joga no caixão construído para enterrar o mercado, o liberalismo, o capitalismo e tudo aquilo que não seja o modelo de protagonismo estatal. O sistema responsável pela melhoria de vida das pessoas ao longo de décadas foi transformado num cadáver insepulto. Na hora das responsabilizações é mais fácil culpabilizar aquilo que não tem rosto.

Crise de Wall Street; discurso de Obama defendendo um plano de recuperação econômica capitaneado pelo governo dos Estados Unidos; governos europeus viabilizando a sanha estatizante; exércitos de analistas estatais clamando por sangue; vésperas da eleição presidencial americana. Ainda bem que não estamos falando de teoria da conspiração, mas de um movimento normal que pode ser o início ou o fim de um ciclo político-econômico.

Outubro 12, 2008

Se Fidel prefere Obama, eu alinho!

Filed under: Internacional,Política — Bruno Garschagen @ 19:16

No Correio da Manhã:

Fidel prefere Obama para presidente

O antigo líder de Cuba, Fídel Castro, assumiu uma nítida preferência pelo candidato democrata às eleições presidenciais dos EUA, considerando que Barack Obama é mais inteligente que o seu adversário republicano, John McCain.

 

Na sua “Reflexão”, publicada na Internet, Castro mostra a sua admiração pelo facto de Obama não ter sido assassinado, tal como aconteceu a Martin Luther King. “Nos EUA existe um profundo racismo e o pensamento de milhões de brancos não consegue reconciliar-se com a ideia de que uma pessoas negra, com mulher e filhos, ocupe a Casa Branca, que se chama assim: ‘Branca’”, escreveu o antigo líder cubano.

No seu texto, Castro lembrou também as “más notas” de McCain na Escola Militar de West Point e a sua confissão de falta de conhecimentos em questões económicas. Por isso, o antigo líder considerou que Obama “ultrapassa-o em inteligência e serenidade”. “O que abunda em McCain são os anos”, ironizou, acrescentando que a sua candidata a vice-presidente, Sarah Pallin “não sabe nada de nada”.

Os EUA aplicam desde 1962 um embargo à ilha de Cuba. Obama já se mostrou favorável a uma abertura, mas McCain defendeu a manutenção da linha dura aplicada pela Administração de George W. Bush.

Outubro 7, 2008

Conversa transatlântica no Rádio Clube Português

Filed under: Brasil,Cultura,Portugal — Bruno Garschagen @ 19:12

 

Está no site do Rádio Clube Português a conversa transatlântica cultural entre Brasil e Portugal. Na pauta da conversa com o apresentador Nuno Costa Santos falamos sobre o dramaturgo, tradutor, colunista e artista plástico brasileiro Millôr Fernandes. A conversa, que fez parte do programa Melancómico, pode ser ouvida no site da estação (programa 04-10-08).

No próximo sábado às 23h, já no quadro fixo Rubriqueta, vamos conversar sobre o escritor Machado de Assis.

 

Outubro 4, 2008

Brasil e Portugal hoje no Rádio Clube Português

Filed under: Brasil,Cultura,Portugal — Bruno Garschagen @ 14:49

Não percam hoje, às 23h, o programa Melancómico, no Rádio Clube Português. A convite do apresentador Nuno Costa Santos, fui lá conversar sobre Millôr Fernandes. A conversa, muito bem conduzida pelo Nuno, acabou abrangendo outros escritores brasileiros numa bela e providencial ponte transatlântica.

A partir da próxima semana passo a fazer parte do programa Melancómico no quadro Rubriqueta. A idéia é estabelecer essa conversa cultural entre Brasil e Portugal.

Outubro 3, 2008

Entrevista com Reinaldo Azevedo

Filed under: Brasil,Política — Bruno Garschagen @ 00:15

Aqui você pode assistir o jornalista brasileiro Reinaldo Azevedo, que entrevistei para a revista Atlântico, falando sobre política no programa Espaço Aberto, da TV por assinatura Globonews.

Setembro 30, 2008

Quando as palavras são esvaziadas corremos o risco de pedir respeito e isso não significar absolutamente nada

Filed under: Brasil,Cultura,Portugal — Bruno Garschagen @ 15:46

Como é?

29/09/08 – 15h46 – Atualizado em 29/09/08 – 15h51
Lula sanciona reforma ortográfica

Novas regras passam a valer a partir de 2009. Confira o que muda na língua escrita.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta segunda-feira (29) o decreto que estabelece a reforma ortográfica. As mudanças na escrita começam a valer a partir de 1º de janeiro de 2009. A solenidade ocorreu na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro.

A reforma da ortografia pretende unificar o registro escrito nos oito países que falam português – Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal.

De 2009 até 31 de dezembro de 2012, ou seja, durante quatro anos, o país terá um período de transição, no qual ficam valendo tanto a ortografia atual quanto as novas regras. Assim, concursos e vestibulares deverão aceitar as duas formas de escrita – a atual e a nova.

Nos livros escolares, a incorporação das mudanças será obrigatória a partir de 2010. Em 2009, podem circular livros tanto na atual quanto na nova ortografia.

O que muda na escrita

De acordo com especialistas, 0,45% das palavras brasileiras sofrerão alterações, ao passo que em Portugal haverá mudanças em 1,6% dos vocábulos. As regras que mudam são as seguintes:

Novas letras – há a incorporação do “k”, do “w” e do “y” ao alfabeto. O número de letras passa de 23 para 26.

Trema – deixa de existir. A grafia passa a ser: linguiça e frequente.

Acentos diferenciais – serão suprimidos acentos como o de “pára”, do verbo parar.

Acentos agudos de ditongos – somem os acentos de palavras como “idéia”, que vira “ideia”.

Acento circunflexo – somem os acentos de “vôo” ou de “crêem”.

Hífen – palavras começadas por “r” ou “s” não levarão mais hífen, como em anti-semita (ficará “antissemita”) ou em contra-regra (ficará contrarregra).

Pontos em aberto

O acordo não define todos os usos de hífens, por exemplo. Assim, palavras como pé-de-cabra, ainda não têm o rumo certo e dependem da elaboração de um vocabulário pela Academia Brasileira de Letras e pelos órgãos dos outros sete países signatários.

História do acordo

O acordo ortográfico da língua portuguesa foi assinado em Lisboa em 1990 e deveria ter entrado em vigor em 1994, o que não se concretizou. Em 1998, foi assinado em Cabo Verde um protocolo que modificava a data de vigência, que foi ratificado em 2002.

Sem que as mudanças se aplicassem, em 2004 foi assinado um novo protocolo modificativo, que previa a adesão do Timor Leste, independente desde 2002. Este novo protocolo previa que as mudanças na ortografia entrariam em vigor a partir da assinatura de três países.

O acordo ortográfico já foi ratificado por Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Portugal, e, portanto, pode entrar em vigor. O processo de implementação em cada país pode variar.

Em Portugal, o acordo foi aprovado em maio e a nova ortografia deverá ser obrigatória dentro de seis anos.

Em muitos assuntos que desconheço tendo a partilhar a opinião de gente que admiro e é versado no tema. Em outros, mesmo que eu não seja um profundo conhecedor do objeto em discussão, o entorno do debate permite uma avaliação mais ampla. Se me pedirem uma opinião sobre questões filológicas serei obrigado a recusar polidamente o desafio; se me vejo defrontado com uma decisão sobre minha língua materna o debate pode ser conduzido com instrumentos de análise muito mais amplos do que meros aspectos técnicos. O famigerado acordo ortográfico viola pela arbitrariedade; incomoda pela pretensão; irrita pelo descabimento.

Quais são, afinal, os argumentos favoráveis ao acordo? “Unificar o registro escrito nos oito países que falam português – Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal”. Para quê? Para facilitar a circulação de conhecimento? Para permitir que indivíduos dos países luso possam se comunicar pela via escrita da mesma forma? Há vários outros circulando por aí, um dos quais fazer com que o português se torne língua oficial de organização internacionais como a ONU.

Algumas questões se põem: um brasileiro alfabetizado não consegue ler um texto escrito em Portugal? Um português alfabetizado não consegue ler os livros produzidos no Brasil? Um diplomata brasileiro não consegue entender seu colega português? Percebam que transfiro a discussão do âmbito técnico para o da responsabilização individual. Se os brasileiros e portugueses que sabem ler não conseguem ler uns aos outros o problema está na ortografia? Alguém pode perguntar: “mas o acordo não se refere mais à elaboração de textos do que propriamente sua leitura?” Uma coisa, evidentemente, depende da outra.

Dar-lhes-ei um exemplo de uma diferença de grafia: fato (ação ou coisa que se considera feita, ocorrida ou em processo de realização) em Portugal diz-se e escreve-se facto. Se algum português disser fato está se referindo ao nosso brasileiro terno (traje masculino, composto de paletó, calças e, ocasionalmente, colete, do mesmo tecido e cor). Ma se forem ao dicionário de português do Brasil verão que fato (sem a letra C) também tem o mesmo significado usado em Portugal. E que terno também pode significar sentimentos afetuosos, grupo, numeroso ou não, de pessoas (regionalismo de Minas Gerais) e conjunto das juntas de bois da carreta (regionalismo do Sul do Brasil).

O que se quer é uma abjeta padronização de uma língua de forma autoritária; o que se faz de forma débil é tirar das palavras o maravilhoso patrimônio de significados. A mensagem que chega até às pessoas é: “sejam burras que nós damos um jeito”. E completo, furtando as palavras do Vasco Graça Moura, também acho que “a aplicação do Acordo não levará apenas ao caos no ensino nos oito países. Levará a que a língua portuguesa se cubra de ridículo no plano internacional“. 

Num texto irretocável na Folha de S. Paulo (só assinantes) de domingo João Pereira Coutinho é certeiro:

A língua é produto de uma história; e não foi apenas Portugal e o Brasil que tiveram a sua história, apresentando variações fonéticas, lexicais ou sintácticas; a África, Macau, Timor e Goa, que os sábios do acordo ignoram nas suas maquinações racionalistas, também têm direito a usar e a abusar da língua. Quem disse que o português do Brasil é superior, ou inferior, ao português falado e escrito em Luanda, Maputo ou Dili?

Meu princípio filosófico: a pluralidade é um valor que deve ser estudado e respeitado. Não me incomoda que os brasileiros escrevam “ator” e “ceticismo” sem usarem o “c” ou o “p” dos lusos. Quando leio tais palavras, sei a origem delas; sinto o sabor tropical em que foram forjadas.

Mas exijo respeito. Exijo que respeitem o “actor” português e o “cepticismo” luso com o “c” e o “p” que o Brasil elimina.

Quando as palavras são esvaziadas e a língua passa a ser tratada como uma peça de automóvel corremos o risco de pedir respeito e isso não significar absolutamente nada.

PS: Lula assinando um acordo ortográfico é a nota final dessa tragédia transatlântica.

Setembro 29, 2008

Ludwig von Mises: O grande liberal

Filed under: Economia,Política — Bruno Garschagen @ 23:18

Ludwig von Mises

Sete décadas antes da antiga União Soviética agonizar na praça do Kremlin o economista austríaco Ludwig von Mises demonstrou antecipadamente a tragédia econômica que o socialismo iria patrocinar, claro, com dinheiro público. São dele três conclusões lapidares, publicadas no artigo “Economic Calculation in the Socialist Commonwealth”, em 1920:

1- o socialismo é desastroso para a moderna economia porque a ausência de propriedade privada (bens e capital) impede qualquer tipo de fixação racional de preço ou estimativa de custos;

2- a intervenção do governo na economia, ação estratégica do socialismo para controlar o mercado, é contraproducente e deve ser revogada;

3- a expansão dos livres mercados, a divisão do trabalho e o investimento do capital privado são os únicos caminhos possíveis para a prosperidade e o desenvolvimento da humanidade.

Mises, cujo aniversário de nascimento é comemorado hoje, foi um dos mais notáveis economistas liberais do século XX. E, nas ciências econômicas, um dos mais aguerridos defensores do indivíduo, massacrado em nome de uma massa despersonalizada. Ele via no laissez-faire irrestrito a única política econômica viável para o desenvolvimento de um país. Acreditava que o livre mercado e o exercício desobstruído do direito à propriedade privada eram garantias fundamentais do indivíduo. Ao governo caberia, restritamente, defender a pessoa e seus bens.Agora tentem imaginar uma coisa dessas no início da formação do império russo, quando o estatismo e o coletivismo (morte em massa) eram a bola da vez.

Sua obra tem por princípio um axioma fundamental, o de que o indivíduo age objetivamente para atingir as metas desejadas. Em “Ação humana – um tratado de economia”, de 1949, ele estabeleceu as bases desse pensamento econômico inovador.

Não foi do pai que o garoto Ludwig von Mises, nascido em Lemberg (ex-império Austro-Húngaro, atual Lvov) em 29 de setembro de 1881, herdou o espírito liberal. O legado parece ter vindo do tio materno, Joachim Landau, deputado pelo Partido Liberal no Parlamento Austríaco.

Mises cresceu em Viena. Na virada para o século 20, entrou para a universidade local. Era um esquerdista partidário do intervencionismo estatal, como muitos moleques de fraldas. Mas logo lhe caiu nas mãos o livro “Principles os Economics”, de Carl Menger, fundador da Escola Austríaca de Economia, o estopim para que se tornasse um entusiasta da economia de livre mercado. Liberal convicto, formou-se em direito e economia.

É de 1912 a obra “The Theory of Money and Credit”, na qual formula uma tese inovadora: o poder de compra do dinheiro é definido pela oferta e procura e numa economia de mercado os bancos devem se tratados como qualquer outra indústria. A tese, porém, sofreu críticas graves de seus colegas da Escola Austríaca. Em 1927, assenta as bases de sua filosofia política em defesa do laissez-faire em “Liberalismo”.

Com a ajuda de F. A. Hayek, outro grande expoente do moderno pensamento liberal, Mises desenvolveu a teoria do ciclo de negócios, nos anos de 1920. Com ela, avaliou que a permanente prosperidade daquela década era uma fraude e que o resultado inevitável daquela política econômica seria a depressão e a quebra do sistema financeiro. Em 1922, lançou uma pá de cal sobre o regime socialista. Em “Socialism”, fez a mais demolidora e abrangente crítica filosófica e sociológica já escrita contra o regime que apresentou ao mundo pacifistas do porte de Stálin, Mao, Pol Pot e Fidel Castro.

Como professor, Mises estimulou, na Europa, gente como o próprio Hayek, Gottfried von Haberler, John Van Sickle, Erich Voegelin etc. e, nos Estados Unidos, onde se exilou em 1940 para fugir do nazismo (era judeu e já havia escrito vários textos contra o nacional-socialismo), Henry Hazlitt, Murray N. Rothbard, Percy Greaves Jr. e Bettina Bien Graeves etc. É notável que tenha chegado aos Estados Unidos sem dominar o inglês e tenha publicado no idioma de Walt Whitman livros monumentais como “Theory and History – an interpretation of social and economic evolution”.

Até o final da década de 1960, o economista austríaco lecionou na Universidade de Nova Iorque. E foi na cidade lá que o velhinho morreu em 10 de outubro de 1973, praticamente esquecido. “A vida é cheia de piadas de mau gosto”, disse um amigo a Einstein ao saber que ele, jovem, batia cartão num órgão burocrático de patentes. Só isso explica que um ano depois de morrer a teoria elaborada com Hayek tenha dado, em 1974, o Nobel de Economia ao parceiro? Não só isso.  O André Azevedo Alves me conta que muita gente estava convencida de que a morte de Mises era uma condição para Hayek ser considerado seriamente para o Nobel.  E que, por várias razões, Hayek era a face aceitável dentre os intelectuais que demonstraram intelectualmente a falência intelectual do socialismo, do planeamento centralizado e do keynesianismo. 

A partir daí, iniciou-se, então, a justa revalorização, com conferências e cursos da Escola Austríaca nos Estados Unidos, além da reedição e publicação dos ensaios de Mises traduzidos do alemão para o inglês. Vários desses textos estavam na biblioteca de seu apartamento em Viena, roubada pelos nazistas quando invadiram a Áustria e recuperada décadas depois do fim da guerra por Richard Ebeling, vejam só, num arquivo de Moscou. Como foi parar lá, só a KGB sabe.

Talvez o grande responsável pelo resgate da obra do economista austríaco tenha sido Llewellyn Rockwell Jr., um dos economistas mais admirados pelos jovens liberais no mundo ocidental. No Brasil, o primeiro site a divulgar Mises e Rockwell Jr. foi O Indivíduo (www.oindividuo.org). Rockwell criou em 1982 o Ludwig von Mises Institute, com sede em Auburn, Alabama, que publica livros, oferece cursos de economia segundo os princípios da Escola Austríaca e mantém um site que é uma referência (www.mises.org).

No Brasil, primeiro, graças ao trabalho do Instituto Liberal do Rio de Janeiro (www.institutoliberal.org.br), tivemos acesso a seis obras de Mises traduzidas: “Ação Humana – um tratado de Economia”, “As seis lições”, “Intervencionismo – uma análise econômica”, “Liberalismo – segundo a tradição clássica”, “O mercado” e “Uma crítica ao intervencionismo”. “As seis lições”, um dos mais estimulantes e simples manuais introdutórios de economia já publicados, está disponível no site do OrdemLivre, assim como A ação humana. O OrdemLivre, braço do Cato no Brasil, vem fazendo um excelente trabalho de divulgação da obra de Mises e de outros autores liberais. E ainda há, indica o Igor Taam, o Instituto Ludwig von Mises Brasil.

É fato que na história do pensamento econômico ocidental o nome de Mises brilha por sua argúcia. Por pouco não ganhou o Nobel, mas deixou como legado uma obra devotadamente dedicada à liberdade do indivíduo e à consciência individual.

Setembro 16, 2008

Lehman Brothers, clientes, governo e concorrência

Filed under: Comentário,Economia,Internacional,Política — Bruno Garschagen @ 02:47

Logo após o anúncio da falência do Lehman Brothers havia análises para todos os gostos. Mas havia em todas um tópico convergente: o governo deveria ou não agir para ajudar os clientes? Mesmo sem o governo, os depósitos dos clientes foram assegurados e os credores vão receber o devido com a venda dos ativos da holding.

Pegando o exemplo da falência do Lehman para falar da situação dos bancos de forma geral, há dois aspectos que merecem observação: o primeiro é o impulso em ver o governo como uma salvaguarda permanente; em segundo lugar, do ponto de vista do cliente, ter com o banco privado uma relação quase cega de confiança.

A confiança talvez seja o maior ativo de um banco. Uma vez estabelecida essa relação a empresa trabalha para preservá-la. E assim o cliente vê no banco uma solidez que é fictícia. No setor privado todas as empresas (incluindo os bancos) assumem o risco de serem bem sucedidas ou de irem à bancarrota.

Mas qual seria o impacto da mudança na relação de confiança por parte dos clientes? Numa situação hipotética (e ideal) só é possível conjecturar:

1- Sem mais a certeza de segurança os clientes passariam a exigir mais dos seus bancos;
2- Para modificar seu perfil e atender o novo tipo de cliente os bancos, inicialmente, precisariam aumentar as garantias, o que implicaria num aumento de custo;
3- Esse aumento de custo seria repassado aos clientes;
4- Uma parte dos clientes toparia bancar o aumento de custo para ter maior segurança;
5- Outra parte da clientela se recusaria a bancar um custo maior;
6- Um novo tipo de empresa surgiria no mercado para atender a demanda por um serviço que atendesse os consumidores que saíram do sistema bancário;
7- A entrada dessas empresas faria com que os bancos reagissem baixando os preços dos serviços para manter os atuais e reconquistar os antigos clientes;
8- A redução do preço dos serviços bancários beneficiaria aqueles que se mantiveram clientes dos bancos tradicionais e faria com que parte daquela clientela voltasse a usar o sistema.
9- Nesse sistema de concorrência, haveria empresas bem-sucedidas e malsucedidas em ambos os setores, com casos, inclusive, de falência.

Na hipótese de o governo intervir esse quadro hipotético com nove pontos seria reduzido a dois: 1) clientes receberiam o dinheiro que investiram; 2) os empresários do setor continuariam ter com o governo uma relação cega de confiança.

Os clientes do banco deveriam ficar desprotegidos face às empresas? Não, mas essa proteção tem que ser garantida pelo Estado na forma de um ordenamento legal e de um sistema jurídico eficaz (incluindo o acesso ágil à Defensoria Pública). Se o cliente foi lesado, que tenha condições de ser ressarcido na Justiça. Inaceitável é, por exemplo, o indivíduo que sequer tem dinheiro para abrir conta num banco pagar, como contribuinte, pelo fracasso empresarial ou pelo investimento frustrado de outros indivíduos.

Se o governo direciona recursos para salvar uma empresa privada o ato está longe de representar uma falha de mercado, em cujo bojo residem o sucesso e o insucesso; tratar-se-á, sim, para usar a expressão de Edward Crane sobre o caso Fannie Mae e Freddie Mac, de uma pura e simples falha de governo.

PS: Não há anjos em lado algum.

PS2: Os dois primeiros parágrafos do post foram modificados após a observação feita pelo RAF.

Setembro 11, 2008

De facto, muito interessante…

Filed under: Internacional,Política,Portugal — Bruno Garschagen @ 14:40
No SOL:
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