40 anos depois

Faz hoje 40 anos que em Portugal tiveram lugar as primeiras eleições livres. Foi mais um dos passos na consolidação do actual regime que, podemos arriscar dizê-lo, se esgotou em 1986. Meros doze anos depois. Esta conclusão começa com uma pergunta: para que serviu o 25 de Abril? A resposta cinge-se aos habituais ‘Descolonizar, Democratizar e Desenvolver’. Ora, a descolonização foi feita, a democracia implementada e as bases do desenvolvimento escolhido, estabelecidas na adesão de Portugal à CEE, em 1986.

A partir daqui o regime deixou de dar respostas. Estagnado, foi como que vivendo com os créditos inicialmente conseguidos e que não foram sendo actualizados. Daí que, do auge no final dos anos 80 até à decadência, de início lenta, depois cada vez mais acelerada, a que agora assistimos, foi um passo. Uma vida para muitos. Como é que foi possível? Vamos por partes.

Descolonizou-se. Mas fez-se algo para que o país se aproximasse das suas ex-colónias? Existe alguma relação especial com os denominados PALOP? Pouca, muito pouca. E a que subsiste, baseada na iniciativa de mais de cem mil portugueses que encontraram trabalho em Angola, é contrariada pela incapacidade do Estado, deste regime, feita a descolonização, ter um relacionamento equilibrado com esses países.

Democratizou-se. Sucede que apenas no sentido em que votamos em listas de deputados feitas por partidos políticos. Acaso se aperfeiçoou a democracia, com uma ligação directa entre os eleitores e os seus deputados através dos círculos uninominais? Procedeu-se à descentralização democrática das autarquias. Mas nunca se ponderou a descentralização fiscal de modo a que as receitas dos municípios decorressem dos impostos cobrados localmente e não vindos de Lisboa. Quarenta anos depois, a democracia deste regime já não responde às necessidades das pessoas em nome de quem foi implantada.

Desenvolveu-se. Mas à custa de uma dívida que pôs em causa esse mesmo desenvolvimento. Foi algo que, contrariamente ao que se disse, era tudo menos sustentável. Porque não se manteve, caiu como um baralho de cartas. Também aqui, o modelo seguido está desadaptado da realidade e, este é o ponto essencial, o regime não dá respostas e as poucas que ainda vão sendo apresentadas são liminarmente recusadas.

Não há debate político. Presos ao politicamente correcto da esquerda que se arroga senhora do país há 40 anos, e de uma direita político-partidária que a ela intelectualmente se vergou, o regime estagnou porque não há debate. Não há troca de ideias; não há discussão pura e dura; franca, sincera. Na defesa cega da sua posição, a esquerda prefere baralhar para dar de novo, esquivando-se ao debate. O preço está na democracia parca que temos e no desenvolvimento sem bases que hipotecou o futuro de todos. De quase todos: muitos foram embora, respirar melhores ares.

Neo-socialismo

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Neo-socialismo

O PS apresentou esta semana o seu programa económico para a próxima legislatura. Este visa dinamizar a economia através da procura com medidas como a descida do TSU dos trabalhadores e o estímulo dado às actividades que o modelo keynesiano considera de efeito multiplicador mais rápido, como a restauração e a construção. Bem esmiuçadas, as medidas não são novas e a filosofia subjacente é idêntica à seguida pelos últimos governos socialistas.

O programa do PS parte do princípio que o dinheiro para pagar o Estado e os interesses que à volta deste se reuniram não é do povo. A intervenção da ‘troika’, se teve algo de proveitoso, foi a percepção de que o dinheiro é das pessoas e que o Estado não pode existir à custa da antecipação do rendimento dos cidadãos. Infelizmente, a crise tem tantas variantes que não se resolve com a mera percepção desta realidade.

Que a despesa pública não deve ser superior à receita é algo que finalmente se compreende. É por isso que, apesar do actual nível de impostos, os partidos do governo até podem ganhar as eleições. Na verdade, sendo difícil descer a despesa há quem prefira pagar. É claro que impostos elevados destroem o crescimento. Os impostos são a transferência do dinheiro de uma parte da população para outra e, principalmente quando atinge os níveis actuais, desencoraja quem os paga de produzir e de criar empregos.

Para colmatar esta realidade, e porque não é fácil ganhar eleições com sacrifícios, o PS promete incentivar a procura. Ora, como o Estado não tem dinheiro e as projecções de crescimento são meras manifestações de vontade, a esperança socialista depende do BCE aumentar a base monetária. A ideia é tirar o dinheiro da poupança e gastá-lo. Sucede que, como o problema é a falta de capital, o que não é equivalente a pouco dinheiro, esta política monetária irá apenas aumentar a procura de capital ao mesmo tempo que se reduz a sua oferta, ou seja, a poupança.

Com esta distorção, aumento artificial da procura de capital e redução da sua oferta, a forma de compensar tal falta será através da actividade especulativa. Algo que já aconteceu no passado com os resultados que conhecemos e que irá suceder novamente. É assim que ouvimos incoerências como as daqueles que entendem que o problema da economia é a descapitalização das empresas ao mesmo tempo que defendem políticas conducentes à redução do capital.

E vejamos ainda este aspecto tão interessante: são precisamente os que entendem que é preciso proteger as pessoas, e os Estados, do mundo financeiro que defendem políticas que levam à especulação como forma de se encontrar capital capaz de dar resposta ao incremento da procura que agrada aos grandes grupos económicos. A este fenómeno chama-se neo-socialismo.

No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’.

A TAP

O governo está a tentar novamente vender a TAP. Como seria de esperar são muitos os problemas num processo que dura há anos. Se por um lado estão os trabalhadores, entre eles os pilotos, que querem deter entre 10 % a 20% da companhia, por outro deparamo-nos com os potenciais compradores que, quando se detêm sobre o que se passa na empresa, repensam a sua estratégia e mostram-se reticentes na sua aquisição.

Há dias foi anunciado o fecho das contas de 2014 que se saldaram num prejuízo de mais de 80 milhões de euros. No seu todo o Grupo TAP tem uma dívida de mais de mil milhões de euros. Ora, estes resultados surgem num momento em que o preço do petróleo está baixo e já não explica prejuízos anteriores, como os de 2008 em que o preço do crude atingiu valores recorde.

Quando se compra uma empresa, se herda um bem, ou se recebe o quer que seja, importa ter em conta não só o activo mas também o passivo. E o que se passa com a TAP é que o passivo, que não é apenas a dívida da empresa, mas também as obrigações e limitações a que o interesse político a sujeitou, supera muito o seu activo.

O problema da TAP já não é a mera perda de valor, mas o não valer quase nada. Pode ser chocante para muitos, mas uma empresa não se avalia pela emoção, menos ainda quando aqueles que com ela se comovem não gastariam nela um euro que fosse. É, aliás, por isso que são contra a sua privatização. Querem uma empresa, mas o povo que pague por ela.

A careca socialista

No passado dia 16 de Janeiro escrevi um artigo para o Diário Económico no qual referi que o PS “se prepara para defender o conceito de Estado empreendedor” (último parágrafo). Na altura referi que se trataria de “uma alteração de nomenclatura para empresas públicas e a desvalorização da ideia de poupança”.

João Galamba escreve hoje, 3 meses depois, um artigo no Expresso com o título Estado empreendedor. Nada disto é por acaso, pois basta estar atento aos sinais do PS para perceber que fintas vão utilizar para chegar ao mesmo fim: investimento público decidido pelo poder político que, prisioneiro dos interesses financeiros e económicos, os favorece em detrimento da população. Investimento público à custa de dívida paga por impostos que mais não são que a transferência do que cada um de nós ganha para as mãos dos poucos com acesso ao poder.

É preciso estar muito atento a tentativas com esta de João Galamba. Estas vão-se repetir naquilo que não passa de um esforço de explicar, por outras palavras e outros floreados, que o caminho seguido pelo PS nos últimos anos, e que obrigou Sócrates a pedir a intervenção da troika em Portugal, e a consequente instauração da austeridade, é o único que os socialistas conhecem.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

A esquerda que não existe

O interesse que a candidatura de Sampaio da Nóvoa à Presidência, contrariamente à de Henrique Neto, despertou entre a esquerda tem uma relevância que vai muito além de se saber se pode ou não ser vencedora.

O que mais ressalta da mensagem de Sampaio da Nóvoa é a proliferação de lugares- -comuns que a esvazia de qualquer conteúdo, tornando-a aceitável para uma grande parte do público que a escuta. À semelhança do que sucedeu com Manuel Alegre, parte da esquerda satisfaz-se com frases feitas que não têm qualquer aplicação prática.

O fenómeno explica-se porque o modelo de desenvolvimento com que a esquerda pretende vencer eleições tem um custo que nem o Estado nem os seus credores estão em condições de pagar. É assim que o regresso a uma realidade em que os cidadãos possam suportar as políticas de esquerda pressupõe austeridade. Precisamente aquilo contra que Sampaio da Nóvoa se insurge.

Porque fala de uma realidade impraticável, ou passada, consoante se prefira, Sampaio da Nóvoa utiliza uma linguagem o mais abstracta possível. Não é apenas um modo de agradar sem se comprometer. É também uma forma de alheamento a que parte da esquerda se junta de bom grado. Esta maneira de se opor sem que concretize permite que a esquerda subsista. Mas é um durar que não passa de manifestação verbal porque, no concreto, esta esquerda decidiu não existir.

Franco Atirador 7

Estive em mais um Franco Atirador, um programa semanal de debate sobre a actualidade política e social portuguesa, moderado por Joana Amaral Dias e Nuno Ramos Almeida.

Deputados

Porque é que a qualidade dos deputados decaiu? O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Deputados

A 7 de Maio próximo o Reino Unido vai a eleições. O comentador político Danny Kruger considera-as as mais entusiasmantes e, ao mesmo tempo, aborrecidas das que se recorda. Entusiasmantes, porque tudo pode acontecer; aborrecidas, porque a diferença entre os partidos é de pormenor. Tal como cá, o debate político, atenuadas as diferenças entre os maiores partidos, resume-se a insultos, truques de retórica e a questões menores.

Julia Langdon é uma jornalista britânica que tem escrito sobre política desde 1971. Em Fevereiro deste ano apresentou um estudo, cujo conteúdo divulgou no The Guardian, sobre o quanto a Câmara dos Comuns mudou desde o ano em que começou a trabalhar e o presente. E o que Julia nos conta é que o actual Parlamento é o menos representativo desde que foi atribuído o direito de voto às mulheres. Enquanto, em 1971, os deputados eram advogados, professores, mineiros, engenheiros, ou seja, das mais diversas profissões, actualmente proliferam os políticos de carreira, pessoas com cursos superiores, mas que cresceram dentro dos respectivos partidos e, a maioria deles, sem nunca ter exercido uma profissão fora da política.

É assim que dentro dos partidos com assento no Parlamento desapareceu a diversidade social, cultural, educacional e profissional. Dizem todos o mesmo, porque são todos o mesmo e querem todos ser a mesma coisa, ou seja, membros do governo. Fechados na redoma em que se criaram, limitam-se aos insultos, aos truques de retórica e às questões menores. Não representando o povo, porque não o entendem, não discutem os seus problemas, mas as questiúnculas menores que a ninguém interessa e que não colocam em causa a essência que os mantém à tona.

O problema britânico é, como se vê, semelhante ao português e não se resolve facilmente. As razões nos trouxeram a esta realidade são inúmeras. Julia Langdon refere os baixos salários dos deputados britânicos que empurram os mais esforçados e inteligentes para profissões onde se ganha bem melhor. Em Portugal o vencimento é uma questão, mas não a principal, tal como não é a única no Reino Unido.

A razão para a pouca representatividade dos deputados está na irrelevância actual do Parlamento. Tanto no Reino Unido, como em Portugal, o poder passou do legislativo para o executivo. É no Governo, e não na Assembleia, que se tomam decisões. Os deputados não decidem, pelo que não debatem verdadeiramente; porque não são ouvidos, já nem sequer escrutinam o governo. Ser deputado já não é uma vocação, uma aspiração, mas um lugar que se ocupa à espera de melhor oportunidade.

A expansão do Estado levou a uma impaciência no agir que não dá espaço a que se debata. A força do Parlamento, que passa pela contenção do poder político, é apenas mais uma vítima do fim do conceito do poder limitado como algo benéfico para os cidadãos. Muito pouco mudará enquanto não surgirem deputados com vontade de inverter a presente situação.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O dólar

O “Público” noticiou no sábado passado que a retoma dos EUA e a subida do dólar geravam riscos para as economias emergentes. Horas depois, o “Los Angeles Times” informava que a subida da moeda norte-americana podia adiar a decisão da Reserva Federal dos EUA (FED), vulgo banco central, de subir as taxas de juro, o que a acontecer poria em causa a subida do dólar.

O erro na análise do “Público” parte de uma premissa que a maioria está a ignorar: a economia norte-americana não está a recuperar; está apenas a viver os efeitos de uma bolha que a administração Obama e o FED criaram. Se antes medidas idênticas originavam taxas de crescimento avassaladoras e agora meramente ridículas, é algo que a maioria não quer ver, porque prefere o conforto de sentir que tudo está bem e resolvido.

Mas não está. A crise veio para ficar e não é passageira, porque assenta num crescimento económico conseguido durante anos à custa do endividamento. Enquanto o endividamento não terminar, ou for fortemente reduzido, a crise continua e qualquer pequeno sinal em sentido contrário será uma ilusão criada por ilusionistas.

Foi por este motivo que o dólar subiu e, ao contrário do que seria de esperar, caso a sua subida assentasse na saúde da economia norte-americana, o FED não sobe as taxas de juros. Não sobe porque não pode; não pode porque se o fizer a ilusão criada desvanece-se. Dito de outra forma: a economia deixa de criar empregos porque os que cria se baseiam na desvalorização da moeda, não na criação de riqueza.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’, sobre o meu encontro com Agostilho da Silva e, de certa forma, com tudo a ver com a Páscoa.

Agostinho da Silva

Há alguns anos, andava eu pelo 10.o ano, entrevistei o professor Agostinho da Silva para a cadeira de Jornalismo. A minha mãe, que dava consultas perto do Príncipe Real e o via, antes de começar a trabalhar, quase todas as manhãs no café, pediu-lhe o número de telefone para que o seu filho o contactasse. Assim fiz e assim aconteceu um encontro que guardarei comigo para sempre.

Falámos da liberdade, que para Agostinho da Silva era a libertação do homem de si mesmo, e da natureza muito própria do português, indispensável para o zénite de uma vida pessoalmente realizada. Num ponto de vista mais terreno, salientaria a actualidade do que disse sobre o endividamento e os problemas que daí adviriam quando se descobrisse que não haveria modo de o pagar.

Passam, no início deste mês, 21 anos sobre o falecimento de Agostinho da Silva, um homem que, para a maioria dos que se recordam dele, não passou de um velhote simpático com barbas brancas que dizia coisas engraçadas mas irrealizáveis. Ou antes, difíceis, por opostas ao facilitismo que é, não direi desistir porque há quem não tenha sequer tentado, não impor a si mesmo a magnitude da sua essência.

Às tantas disse ele: “O que é preciso é não enjoar a bordo, até porque o balanço do navio vai ser uma coisa linda! E como é que nos aguentamos? Disse bem. Se perguntamos a um marinheiro, o marinheiro diz: ‘A única maneira é olhar para o horizonte.’ Então teremos de ter um horizonte em terra. Qual pode ser? O ideal que tivermos em vida. E assim nos mantemos.”

Revolução francesa

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Revolução francesa

A França tem sido muito criticada pela sua imobilidade económica e política. É muito comum dizer-se que os franceses estagnaram perante os desafios que os assolam há vários anos. Paralisados, entorpecidos com a crueldade de um mundo que não se revê neles, os franceses enfiaram a cabeça na areia e ignoram o que se passa à sua volta, mesmo quando dentro das suas fronteiras. Mas isso já não é verdade.

Pelo menos desde há uns tempos a esta parte, a França está a reagir. E o rumo dessa reacção tem tanto de interessante quanto de relevante para o debate político português. Na verdade, a cultura política do nosso actual regime, e da geração que o moldou à sua imagem e semelhança, deve muito da sua essência à experiência, percepção e modo de pensar francês.

São vários os exemplos dessa mudança, desde as continuadas provocações de Éric Zemmour que culminaram com a publicação, em 2014, do seu último livro, Le Suicide français, no qual o autor culpa a geração de 68 pelo declínio do Estado francês e pelos problemas sociais, e raciais, que assolam aquele país. Mas também o filósofo Alain Finkielkraut com as suas críticas ao relativismo, ao progressismo e, novamente, ao Maio de 68.

A revista Le Point, cujos editoriais do seu director Franz-Olivier Giesbert têm um forte pendor liberal, fez há semanas primeira página deste assunto. Não se limitou a referenciar os líderes mais mediáticos deste fenómeno, mas apresentou outras individualidades que fazem a nova geração, bem como outras tendências dentro do, podemos defini-lo assim, movimento. Porque é disso que se trata: de uma verdadeira deslocação do discurso político francês para a direita.

Os partidos de direita, neste caso a UMP e o UDI, este fundado há pouco mais de dois anos por Jean-Louis Borloo, ainda não encontraram a melhor forma de integrar no seu discurso político o novo pensamento da direita. Mas será uma questão de tempo. O certo é que a força motora do debate político francês já não se joga à esquerda. A França do Maio de 68 acabou.

Não se espere, no entanto, grande originalidade. Afinal, trata-se da França especialista em revoluções que, sabemos também por experiência própria, mudam pouca coisa ou quase nada. Tirando alguns sector mais liberais, os intelectuais franceses que estão a levantar a voz em nome da direita, apelam ao conceito de um Estado forte que se imponha a todos.

As consequências em Portugal são evidentes, pois muito brevemente a esquerda portuguesa ficará politicamente órfã. Talvez por isso, o que se passa em Paris não seja notícia em Lisboa, o que revela o quanto esta nova realidade afectará o nosso regime. Aliás, se há político francês que interessa seguir é Manuel Valls. É que, ou o PS de António Costa deriva à esquerda, ou o líder do PSF é um bom prenúncio das escolhas ingratas que terão de ser tomadas no Largo do Rato.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje ‘i’.

A defesa da Europa

Foi há poucos dias, e perante a Comissão Europeia, que Manuel Valls apelou a que os 28 países da União Europeia (UE) se unissem e comparticipassem no custo da luta contra o terrorismo. Perante o esforço que o governo francês para fazer frente a esta ameaça, o primeiro–ministro francês chegou mesmo a dizer que “l’armée européenne existe, c’est la France”.

Quem diria. Quem diria há 15 anos que ouviríamos a França falar deste modo, chamando atenção para a necessidade de a Europa financiar a sua defesa. Na verdade, não é só o terrorismo que a ameaça. Os EUA têm outros desafios na Ásia e no Pacífico e a Rússia está novamente a levantar um muro que a separa do velho continente.

Sem esquecermos a Grécia, que, saindo do euro, cairá num limbo para o qual arrastará aquela zona do Mediterrâneo e afastará a Turquia do Ocidente. Não é por acaso que Obama se preocupa com a situação grega e apela a que a UE reconsidere  a cobrança da dívida daquele país.

Aquilo que os europeus estão a começar a perceber é que o guarda-chuva norte-americano já não é suficiente. A Europa precisa de fazer por si. O que cria um desafio militar acrescido, pois implica um aumento da despesa pública, precisamente quando a maioria dos estados europeus estão fortemente endividados. Como é que países com já tão pouca margem de manobra vão financiar o tão necessário armamento, aumentando o orçamento no sector da defesa? Como é que uma Europa atulhada em despesa investe na defesa?

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’ é sobre o dia do pai.

Dia do Pai

Na edição do seu 90.o aniversário, a revista “The New Yorker” publicou um pequeno artigo sobre duas crianças, uma de seis e outra de dez anos, que foram vistas a andar sozinhas no estado do Maryland. Várias pessoas ficaram alarmadas e chamaram a polícia. Esta levou-as para casa, onde repreenderam o pai, Alexander Meitiv, físico no National Institutes of Health, com sede naquele Estado.

Os pais das crianças, que fazem parte de um movimento chamado Free Range Kids (FRK), sabiam que os filhos vinham nesse dia a pé para casa, seguindo um percurso anteriormente feito com eles. O FRK considera que os pais actuais estão sujeitos a uma cultura do medo histérica que vê um raptor em cada esquina. Assim, as crianças devem aprender a ser responsáveis, independentes e a crescer em liberdade. Apesar disso, a agência governamental Child Protective Services (CPS) considerou os pais responsáveis de negligência infundada. É preciso um certo esforço para perceber o que significa, porque o objectivo é precisamente ser indecifrável.

Com seis anos eu comecei por comprar o pão e fazer pequenas compras no supermercado perto de casa. Levava dinheiro, pagava e trazia o troco. Graças aos meus pais, que não quiseram ter a preguiça de me proteger em demasia, fui educado a ser responsável, conhecendo os riscos. A paranóia de agora, fomentada por entidades públicas, que impede os pais de educarem os seu filhos como desejam, evidencia o risco em que se encontra a liberdade fundamental de ser pai e que não se corrige num dia.

Exigência

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Exigência

Em 1918, Thomas Mann publicou as “Considerações de um Apolítico”. Trata-se de uma apologia da Alemanha de Guilherme II, contra a França, o Reino Unido e os EUA. Contra o Ocidente, a democracia, o liberalismo económico e político. Mann definiu-se nesta obra como apolítico porque não apreciava a política. Não só a política partidária, mas tudo o que esta significava de discussão, de debate, de liberdade, porque em detrimento da ordem, da incerteza; em prejuízo da estabilidade e da previsibilidade.

Quando o escreveu, Thomas Mann era um homem literariamente instruído e já tinha publicado ‘Buddenbrooks’ e ‘Morte em Veneza’. No entanto, quanto à política e no que dizia respeito à economia não se tinha cultivado. Não sabia, nem queria saber. Foi por isso que se definiu como apolítico: alguém sem ideias políticas. E foi também por essa razão que ao longo da sua vida contradisse o que defendeu em 1918. Thomas Mann não era mal-intencionado. Pura e simplesmente, não sabia. Quis-se alhear da realidade até perceber, para o que precisou de uma guerra mundial, o perigo de ser apolítico. O perigo de entregar o poder do conhecimento a outros.

Praticamente 100 anos passaram das considerações apolíticas de Mann, mas os riscos, embora não tão graves, têm a mesma génese. Da mesma forma que Mann beneficiou da paz que o liberalismo permitiu à Europa no século XIX, também a maioria de nós adormeceu pensando que a história tinha terminado. No entanto, durante esse mesmo período, a história desenrolou-se e caiu-nos em cima.

E aquilo com que nos deparamos agora é que enquanto a maioria, à semelhança de Mann, esteve adormecida e imersa nas suas vidas, os dirigentes políticos, beneficiando desse torpor e indiferença, seguiram, tal como há um século, políticas que à primeira vista eram inofensivas, mas que quando continuadas durante anos puseram em causa o equilíbrio alcançado.

Chegámos assim a um despertar do eleitorado que foi apanhado de surpresa. Um eleitorado que, por se ter desinteressado das questões políticas durante anos, vai cometer erros. Como Mann. Mas que também vai evoluir; vai-se instruir e irá exigir políticos com um discurso que vá além do mero amealhar de receitas para serem distribuídas de acordo com critérios tantas vezes subjectivos e que encaram o Estado como um conjunto de lugares a serem ocupados.

É frequente referir-se que o eleitorado já não se revê nos partidos. Ora, e contrariamente ao que se diz, tal não sucede por falta de interesse, mas precisamente porque os cidadãos agora querem saber. Exigem. E sejamos muito directos neste ponto: o eleitorado está à procura de novas soluções; de novos caminhos que estão a ser esboçados fora da classe política. Esteja, pois, esta atenta para se actualizar e ir ao encontro de um eleitorado que já não é mais apolítico, mas começou a exigir.

Nacionalismo: desespero e ideologia

Não é a primeira vez que a extrema-esquerda apela aos sentimentos nacionalistas para distrair as massas e afastá-las do que é importante. No caso do Syriza não se trata apenas de desespero, mas também de ideologia.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

Os servos

O caso de Passos Coelho com a Segurança Social e os seus atrasos na entrega das declarações ao fisco deve fazer-nos pensar. Poderá alguém que alguma vez tenha tido dívidas ao fisco e à Segurança Social ser primeiro-ministro? Ou mesmo ser titular de um cargo de cariz político?

A pergunta é pertinente porque as vastas funções que foram sendo atribuídas ao Estado, a elevada dívida que este contraiu para fazer frente às despesas resultantes dessas mesmas funções, torna indispensável o pagamento pontual dos impostos, das taxas e das contribuições à Segurança Social. Mais, e voltando à pergunta: como é que alguém que se atrasa com o fisco e a Segurança Social pode aumentar impostos e exigir o seu pagamento a tempo e horas?

Podemos ficar-nos por esta pergunta, mas também podemos ir um pouco além: será esta a sociedade que queremos? Uma sociedade centrada no Estado, em que tudo gira à sua volta e o chefe de governo mais não é que o líder máximo de algo mais parecido com uma grande organização, cujo funcionamento não pode ter falhas?

Não pretendo dar razão a Passos Coelho, até porque centenas de milhares de pessoas se esforçam por não ter dívidas nem se justificam com o desconhecimento da lei. No entanto, não deixamos de viver numa realidade em que antes de mais nada devemos ao Estado. E, como todos lhe devemos, a todos exigimos o pagamento do que se deve. Seja um cidadão comum ou um primeiro-ministro. Não é de mais concluir que estamos presos nesta lógica do servidor-pagador.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

O observador

Outro dia ouvi alguém dizer de outrem que de andar tão direito mais parecia um emproado. Achei piada ao comentário ouvido de passagem mas que me reteve a atenção. Na verdade, vivemos num mundo em que a imagem conta e a primeira impressão, dizem-nos, premeia-nos ou castiga-nos para sempre.

O engraçado é que o dito emproado deve ter-se esforçado. Talvez o seu esforço tenha valido a pena com outras pessoas que não aquela, para outros que viram nele confiança e não vaidade. Mas o que interessa aqui é que a imagem é fruto de múltiplos pequenos sinais, por vezes não mais que meras impressões, que se destacam logo de imediato ou ficam no nosso inconsciente e só se revelam mais tarde. É algo que não  controlamos porque depende, por vezes, mais da personalidade dos outros, das suas experiências, sucessos e frustrações que de qualquer outra coisa.

Temos os emproados; os de nariz empinado; os que nos olham nos olhos como para provar que não têm medo e até os que baixam o olhar; os que falam pelos cotovelos e os que se calam; os gabarolas e os falso modestos; os que só aceitam ser fotografados de um lado; os que forçam convites e os que se fazem caros, mas aceitam logo.

Com o desenrolar do tempo vamos aprendendo coisas destas. Se formos bons observadores, para o que só precisamos de estar atentos, há pequenos sinais, gestos, olhares, palavras, respostas, perguntas, que nos dizem mais sobre alguém que mil imagens. Não há que enganar, nem modo de sermos enganados.

Franco Atirador

Fui gentilmente convidado pelo Nuno Ramos de Almeida para participar no programa de estreia do Franco Atirador, uma iniciativa do Nuno e da Joana Amaral Dias.

Votos de bom sucesso neste desafio, é o que lhes desejo. Já politicamente falando, o Nuno conhece o que penso das suas ideias, conforme se depreende neste vídeo.

A perfeição socialista

Sobre o seu caso com a Segurança Social, Passos Coelho disse não ser um homem perfeito. Como todos nós, aliás. Somos imperfeitos. Nada mais natural. Só que o problema é precisamente esse. Numa sociedade socialista, em que o Estado precisa desesperadamente do nosso dinheiro, depende inteiramente do nosso esforço, em que a burocracia impera e o sistema tributário e contributivo é conscientemente complexo, precisamos ser perfeitos para não termos falhas a apontar.

O socialismo pressupõe o homem perfeito; o cidadão perfeito. Naturalmente, um primeiro-ministro perfeito. Caso contrário, como pode ele exigir sacrifícios se não é perfeito? Como pode permitir que o Estado puna cidadãos, cuja imperfeição não serve de desculpa, se ele próprio não é perfeito?

Este é um dos dilemas do socialismo: a imperfeição natural do homem que não se coaduna com a perfeição exigida. Não se complementa com a complexidade legislativa que nos exige que sejamos exemplares, mas nos torna a todos censuráveis e passíveis de sermos punidos à mais pequena falha.

Até quando?

Esta notícia é demasiado importante para que passe em branco. Esta mostra-nos que os privados fizeram o que foi indispensável fazer nestes quatro últimos anos e que, quando comparado com o esforço das pessoas, das famílias e das pequenas e médias empresas, o Estado ficou aquém do que teria de fazer para que o país saísse definitivamente da crise.

Mas mais grave ainda que os parcos resultados do Estado (principalmente quando comparados com os dos privados) é o estes terem acontecido por força e teimosia de um governo que teve de batalhar contra tudo e contra todos. E é precisamente aqui que está o ponto: qual é a representatividade dos partidos políticos, e das personalidades políticas, de esquerda que não permitem, que não aceitam sequer discutir, que o Estado faça aquilo que os cidadãos se viram dispostos a ter de fazer para levar por diante a suas vidas?

Até quando a maioria dos cidadãos está disposta a sacrificar-se desta maneira para que tudo fique na mesma e os mesmos ditem as suas sentenças sobre os que está certo o que está errado?

O euro

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

O euro

No meio da guerra monetária que desde 2010 assola o mundo, a maioria assusta-se quando a sua moeda se valoriza face às restantes. Pelo menos é assim que o tema é noticiado, quando se referem os riscos e os problemas para a exportação que uma moeda mais forte comporta.

Visto desta perspectiva nem se percebe porque é que a Europa criou uma moeda única e porque razão Portugal quis aderir ao euro. Bem sei que agora que a Europa exige mais rigor e envia menos fundos, muitos duvidam, mas o certo é que uma moeda forte tem vantagens.

Entre muitas, elas são fundamentalmente cinco: controle da inflação, que prejudica os mais pobres e os mais poupados; ajuda a alguns exportadores, que importam mais barato produtos que manufacturam e depois exportam; criação de condições para que as empresas adquiram outras de países com moedas mais fracas; possibilidade dos governos se financiarem com taxas mais baixas e, enriquecimento dos cidadãos do Estado com moeda forte comparativamente aos de outros países.

É verdade que uma moeda fortemente valorizada encarece os produtos. Mas também não é mentira que se uma empresa exporta mais caro, precisa de vender menos quantidades para atingir as margens de lucro de que necessita, principalmente se, como referido, o que vende é o resultado da transformação de produtos que importou mais barato. Ou seja, é com uma moeda forte que se consegue uma política de desenvolvimento com salários altos. O euro é o nosso melhor instrumento para que se evitem as políticas baseadas nos salários baixos, na desvalorização da moeda e, consequentemente, do trabalho.

Dito desta forma, não se percebe porquê tanta celeuma com o euro. Ora, o problema não está na moeda forte, mas no que é preciso fazer para que as suas vantagens se concretizem. E para que tiremos vantagens de uma moeda forte são precisas, essencialmente, três ferramentas: poupança, capital e contas públicas equilibradas.

E agora percebemos o porquê do dilema com a moeda forte. É que o desenvolvimento de um país baseado na poupança, na acumulação do capital e na contenção do poder político é algo que o socialismo não comporta. Na verdade, o socialismo depende do consumo, do endividamento e de uma forte intervenção estatal não compatível com contas públicas equilibradas. É por este motivo que a esquerda deposita tanta esperança no Syriza. É esta a nova forma de olhar a Europa que o PS pede todos os dias.

Há quem conclua que quem está a mais no euro é a Alemanha. Pode ser. Mas se a Alemanha sair do euro, o euro deixa de ser a moeda forte que conhecemos. E deixando de o ser, o modelo de desenvolvimento sustentável, porque sem endividamento, e de salários altos, deixa de ser possível. Possível fica o que sempre tivemos: um poder político activo, agressivo, reivindicativo e que exige o fim daquilo que fomenta: a pobreza e a dependência externa.