No Fio da Navalha

65350_10151184460673087_1242645885_n

O meu artigo de hoje no ‘i’ é sobre a memória.

Memória

Celebra-se hoje o Remembrance Day. Às 11 horas do dia 11 do mês 11 daquele ano de 1918, a Primeira Guerra Mundial terminava e as pessoas passavam a lembrá-la. Lembrar a guerra mais estúpida que todas as outras, porque imprudente, emocional e ilógica, tanto na sua origem como no seu prosseguimento até à exaustão das nações europeias. Estúpida porque destruiu a Europa; estúpida porque matou gente que nada tinha que ver com aquilo.

O Remembrance Day, que começou a ser celebrado na Commonwealth desde o fim da Primeira Guerra Mundial, estende-se hoje a diversos países, entre os quais Portugal não se inclui. O nosso país, que na Primeira República enviou milhares de homens para o desastre certo, prefere esquecer.

No Reino Unido este evento serve de alerta para que a estupidez não se repita. Todos os anos a reflexão é feita e a lição devidamente sentida. Talvez porque em Portugal o que estava em causa fosse o regime e o esforço inglório, como se confirmaria mais tarde, de manter o ultramar, nada se faz.

Hoje aquele confronto está longe e o regime é outro. A memória não é apenas um dever. É um acto de respeito. É a garantia de que também nós seremos lembrados. Respeitados. Acolhidos no futuro. Queridos.

“If we break faith with us who die, we shall not sleep, though poppies grow

In Flanders fields”. (“In Flanders Fields”, John McCrae, 1915).

Lembrar é manter a fé nos que morreram e reafirmá-la nos que hão-de vir. Não o esqueçamos.

No Fio da Navalha

Esta semana no ‘i’, sobre as consequências nefastas da política energética no sector bancário.

Distorções

Na semana passada o BCP chumbou nos testes de stresse do BCE à banca europeia. Um dos motivos que levaram ao chumbo deste banco foi o seu investimento no défice tarifário da EDP. Este défice significa que o preço da electricidade é mais baixo que o seu custo. Tudo porque há alguns anos os governos determinaram a existência de um tecto para o aumento da electricidade. Ora, como não é um banco, a EDP vendeu esse crédito ao BCP, que lhe pagou o correspondente valor.

Foi o governo de Sócrates que impôs limites à subida do preço da electricidade, porque não quis que o custo da sua política energética fosse pago durante a sua legislatura. Por isso fez o que soube fazer tão bem: adiou o problema.

A piorar a situação existem ainda as rendas excessivas. Estas não são mais que uma compensação política à EDP devido à liberalização do mercado energético que visa uma maior eficiência na produção de energia. Como a EDP não estava pronta para lidar com o mercado, os governos, de Santana Lopes e de Sócrates decidiram compensá-la.

Foi devido a estes malabarismos, e para evitar a escalada do preço da electricidade, que foram impostos tectos ao aumento da electricidade a pagar por todos nós, distorcendo o mercado. A factura foi engrossando e aí está, ora na conta que nos chega a casa, ora na instabilidade dos bancos que nos bate à porta. É por estas e por outras que quando se fala de pôr a economia na dependência da política todos os santos deviam ficar desconfiados. Nada é grátis.

Fingir

Eis a palavra de ordem até às eleições. O governo continuará a fingir que corta na despesa o suficiente para que se possam baixar os impostos num futuro próximo. Fingirá ainda que dá incentivos à economia e que esta cresce com estes. Acalentará até a ideia que uma reforma do estado chegou, nesta legislatura, a ser apresentada. Nisto, Paulo Portas é, e será, o mestre de cerimónias, como se viu na Conferência que assinalou os 25 anos do Diário Económico, onde, lavando as mãos de qualquer responsabilidade, remeteu para os ministros a reforma do estado por ele hipoteticamente desenvolvida.

A oposição, por seu turno, também vai ter a sua quota de fingimento. O PS fingirá que não se passa nada, apresentando um discurso alheio da realidade. Veja-se a promessa de devolver a totalidade dos salários na função pública em 2016, quando nesse ano a situação do país será pior que a de 2014. O PCP continuará a imaginar que vive noutro mundo, e o BE, que existe.

No entanto, este fingimento não é de agora. Começou há muitos anos quando o país vivia a crédito e não queria saber quando viria a conta. Assim sendo, pergunta-se o seguinte: não está também o eleitorado a fingir? A fazer de conta que não se passa nada? É que se assim for, o fazer de conta que temos tido e vamos ter em doses duplas até às eleições, é bem merecido.

Liberdade e as encruzilhadas da Europa

O meu artigo quinzenal no Diário Económico. Este é inspirado em Václav Klaus, o ex-presidente e ex-primeiro-ministro da República Checa.

Liberdade

Em Setembro deste ano, a revista “The Spectator” publicou uma pequena entrevista a Václav Klaus. Ex-presidente e ex-primeiro-ministro da República Checa, Klaus é um liberal clássico que, por diversas vezes, reconheceu a influência intelectual que Friedrich Hayek teve na sua vida política e na sua resistência ao comunismo.

Klaus foi também um dos principais opositores à adesão da República Checa à moeda única. Devido a ele, o debate sobre o euro centrou-se, não no saudosismo da moeda nacional, como sucedeu em Portugal, mas nos riscos económicos que uma moeda forte, e abrangendo economias tão diversas, acarreteria para os checos. Václav Klaus chamou a atenção que uma moeda única implicaria uma mesma política monetária, as mesmas taxas de juros e uma só taxa de câmbio para os países aderentes. Referiu ainda que, pelo contrário, no mercado de dívida, as taxas de juro não podiam ser únicas, mas variariam de acordo com os países emissores.

É sabido que Portugal se encontra numa encruzilhada, para a qual há poucas soluções: ou saímos ou continuamos no euro; continuando na moeda única, ou se reestrutura o estado, com um forte corte na despesa, ou se mantém a política de austeridade com impostos altos e cortes continuados nos salários e nas pensões, além de cortes graduais nas prestações sociais. Nenhuma é fácil e todas são dolorosas.

A entrevista referida em cima é importante, não só porque Klaus acertou onde outros falharam, ou não quiseram saber, mas também porque nos dá pistas para o futuro. E a ideia-chave de Klaus é que a Europa está em guerra com a liberdade. Uma União Europeia, burocrática, politicamente centralizada, não escrutinada democraticamente e que procura evitar a todo o custo que o mercado se exprima sobre as decisões políticas. O mercado, que mais não são que as escolhas dos consumidores; das pessoas. As nossas decisões.

É nessa medida que sugere para a Europa o modelo de uma organização de comércio livre sem que tenha em vista uma integração política. É a tal separação entre a política e a economia, para que não haja confusões entre as duas e as correcções do mercado sejam imediatas e não esmagadoras.

O modelo apresentado, não só abre portas para o crescimento económico que tantos políticos querem forçar, e precisamente por isso não acontece, como, e aqui está uma parte muito interessante do seu raciocínio, pressupõe o fortalecimento do próprio estado. Klaus opõe-se à ideia de um governo global ou transnacional, porque não democrático. Vê no estado, principalmente no estado-nação, o garante último da democracia liberal, a partir do qual se faz a integração económica que o projecto europeu inicialmente visava. A revista Britânica conclui que a Europa precisa de políticos assim, claros e que apresentem alternativas. Portugal também.

Troika, troika e mais troika

Como habitualmente estive esta terça-feira na Edição das 12 do Económico TV a comentar o tema de sempre: dívida, dívida e mais dívida.

No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’ desta terça-feira.

A normalidade

Em três meses, dois gigantes usados por Sócrates, sabe-se lá para quê, caíram. No entanto, BES e PT não são vítimas. Foram empresas que cresceram na sombra do Estado, ao serviço do Estado, que favoreceram (e foram favorecidas) por governos. Agora, sinal dos tempos, descambaram.

Sejamos precisos nesta matéria: a queda destas empresas não é positiva por si só. O que é de louvar é o fim da sua utilização num esquema que não só não as favorecia, como prejudicava o país. As empresas, quaisquer que elas sejam, estejam em que mercado estiverem, existem para serem livres. Independentes do poder político. Se isso não suceder, prejudicam-se.

Claro que é tentador gerir uma grande empresa com o beneplácito do poder político. Este garante não só o acesso privilegiado ao mercado nacional, mas também a accionistas com boas ligações ao poder que estão prontos a colaborar num projecto comum. A droga é demasiado boa para não ser viciante. Os bons resultados surgirão facilmente, sumindo-se apenas quando, algo em que os homens de poder nunca acreditam ser possível, o mercado, apesar de viciado pelos governos, repõe a normalidade.

E a normalidade pressupõe que os negócios se afastem da política. Fora disto, ou temos ideologia (que os políticos de agora já não têm) ou mera necessidade de lugares empresariais para distribuir a amigos, pagando favores no meio de uma degradação que se quer privada, mas feita com contactos públicos e o dinheiro dos cidadãos.

OE 2015: crises socialistas dão em soluções socialistas

A minha presença, de hoje, na Edição das 12 do Económico TV. Quando se pergunta se há alternativa, elas são duas: ou se sai do euro, ou se reforma o Estado. Ambas são difíceis e com custos sociais de que ninguém quer ser o responsável. Assim, restam os impostos altos e os cortes nas pensões e nos salários. O empobrecimento gradual. O PS diz-se contra, mas será a favor quando for governo. Porque as alternativas são demasiado puxadas para quem queira continuar na política depois de ter estado no governo.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’. Se a maioria quer um estado socialista, temos de ter austeridade. Temos de pagar. Só há fuga para quem vai embora.

A crise do Estado socialista

O governo apresentou o Orçamento do Estado para 2015, que mantém os impostos altos. A oposição protesta, reclama e diz votar contra. No entanto, se discorda da austeridade contra as pessoas, já não se opõe às despesas que obrigam a essa mesma austeridade.

Para PS e PCP o cenário montado é o ideal: um governo de direita sobe impostos para equilibrar as contas, porque só vê números e não pessoas. O raciocínio, bonito, é hipócrita. Este governo, a bem ou a mal, e isto é algo que a esquerda não quer ouvir porque não lhe convém, sobe impostos para que o Estado socialista que nos esmaga não se desmorone.

Porque a esquerda não quer saber desta verdade, faz ruído. Como? Utilizando as frases que metem números e pessoas, e alegando que o governo fez uma escolha ideológica. Como se tivesse passado pela cabeça dos governantes uma vontade incontrolável de subir impostos, cortar salários, pensões e perder eleições.

Se para o PCP a ideologia comunista só lhe permite gritar palavras de ordem, já a posição do PS é mais delicada e interesseira. Os socialistas, pretendendo passar ao lado da crise do Estado, esperam regressar ao poder sem freio na despesa. Ou não perceberam, ou não lhes interessa perceber que esse mundo acabou. Este Orçamento não resolve a crise do Estado, nem deixa a economia respirar. É verdade. Mas é o único modo de sobrevivência que o socialismo encontrou. Eu sou contra. Só não vejo o que é que para a esquerda isso tem de negativo.

PT, BES e o nacionalismo da esquerda

O nacionalismo económico

O PS está-se a iniciar no caminho trilhado já pelo PCP do apelo primário ao nacionalismo. Primário porque irracional, como se gostar de Portugal fosse pretexto para escolher mal. Pior: como se o amor a Portugal fosse pretexto para dar, aos decisores políticos, carta branca para decidir da pior forma possível.

Não é a primeira vez que tal sucede. O Estado Novo foi construído nessa premissa. É interessante reparar como, à medida que o actual regime se vai embrulhando em problemas cada vez mais complexos, a tentação do nacionalismo, nomeadamente de cariz económico, sobe de tom.

Não há português que não goste de Portugal. Mas gostar de um país, não é o mesmo que destruí-lo à conta da irracionalidade. Não será, certamente, confundi-lo com uma classe política que mistura o governo do Estado com o rumo de Portugal. Que não distingue limites na sua função enquanto agentes políticos que visam alcançar o poder.

Gostar de um país é sentirmo-nos em casa nele. É a ligação instantânea, próxima e imediata que cada um de nós sente uns pelos outros apesar de não nos conhecermos e, o mais provável, nunca nos cruzarmos nesta vida. É algo que permite que um Estado de Direito, e a lei que dele emana, seja por todos aceite; seja por todos recebida como um ganho e não uma perda de liberdade.

No entanto, aquilo a que a esquerda se está alicerçar, e que temo o PS venha a abraçar, não é este sentimento salutar. É antes algo que alimenta a desconfiança perante o exterior, entende independência como isolacionismo e separação. Vê na troca de experiências, não um ganho, mas um prejuízo. Um dano não só para a sua ideologia e dogmas político-económicos, mas para o país, cujo destino poucos separam das suas crenças particulares.

Foi o nacionalismo económico que publicamente justificou a oposição política de Sócrates à OPA, que Belmiro de Azevedo lançou em 2006, contra a PT, e que prejudicou seriamente aquela empresa, sem falar nos consumidores. Foi esse nacionalismo que cegou o país para a utilização política que se fez de uma empresa que, não devendo ter outro papel que a satisfação dos seus clientes, se destruiu ao aceitar que a política se sobrepusesse à economia.

Porque é disto que se trata: de política e de economia. De dirigismo central versus decisões individuais tomadas em liberdade. De seguidismo e inteligência. Os episódios do BES e da PT, a instrumentalização que o primeiro fez do poder político por falta de credenciais económicas, possível por inexistência de um mercado livre, é um alerta. Mas será também um teste. Um teste à nossa capacidade enquanto povo, pessoas que partilham o mesmo espaço cultural, de resistir à confusão populista que é o nacionalismo, de aprender com o passado e não cometer os mesmos erros no futuro.

No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no ‘i’.

Os incorrigíveis

Uma fotografia de cientistas indianas a congratularem-se com a entrada na órbita de Marte de um satélite lançado pelo seu país recordou-nos a complexa realidade da Índia e lembrou-me V. S. Naipaul, escritor britânico de origem indiana mas nascido na ilha de Trinidad.

Naipaul emociona-nos com a descrição da luta das suas personagens contra o infortúnio, que de forma fatal sobre elas se abate; descreve a pobreza de maneira seca e crua, sem os paternalismos de quem facilmente se indigna; faz-nos ver como o sonho, apesar de simples, pode ser grandioso.

É surpreendente que o autor de “In a Free State” seja conhecido pela frieza com que trata as mulheres. São conhecidas as suas tiradas machistas e a forma como tratou a sua primeira mulher, facto que, aliás, Paul Theroux trouxe a público, pondo termo a uma longa amizade entre os dois.

Naipaul não gostou de ter sido exposto por Theroux, mas quis contar praticamente a mesma verdade na sua biografia, intitulada “The World Is What It Is”, por sinal a primeira frase do, para mim, seu melhor livro, “A Bend In The River”. Naipaul nunca escondeu a sua má vontade, como se não se importasse de não estar à altura da sua escrita.

A tal ponto é assim que, poucos dias após Theroux e Naipaul terem feito as pazes no Hay Festival of Literature & Arts, no País de Gales, este voltou à carga dizendo não conhecer nenhuma mulher com qualidade literária. Há homens incorrigíveis, cuja complexidade não lhes permite conhecer o alheio.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

Diferentes tipos de solidariedade

A Noruega tem um fundo de 800 mil milhões de dólares criado com as receitas do petróleo. A sua dimensão é de tal ordem que, caso fosse utilizado no momento presente, tornaria milionários todos os noruegueses. No entanto, e apesar disso, foi decidido guardá-lo e aumentá-lo todos os anos.

A Noruega é caso único entre os países produtores do ouro negro, também porque o custo da extracção é elevado, obrigando a um forte investimento tecnológico. No entanto, apesar do elevado investimento, apenas uma pequena parcela da poupança é nele utilizada. Na verdade, a maior parte está a ser guardada para o futuro, de forma a precaver imprevistos.

A ideia subjacente é não onerar as gerações futuras com os encargos presentes. Dessa forma, não há gastos supérfluos. Os noruegueses não se permitem esse luxo, vivendo de forma contida. É interessante como o igualitarismo social na Noruega levou à poupança enquanto o socialismo em Portugal (e restante Europa e EUA) conduziu à despesa, pondo em risco a sustentabilidade do próprio Estado.

Não sendo eu socialista, sirvo-me do caso da Noruega para ver confirmada a suspeita de que os defensores do aumento da despesa não são necessariamente os defensores da solidariedade social. É que esta acarreta responsabilidade, exigência e boa governação. Acima de tudo, contenção. E também respeito. É que quem não respeita não pode exigir.

Um PS anti-Europa?

O meu artigo no Diário Económico desta sexta-feira.

Um PS anti-Europa?

Esta semana ficou marcada pela euforia no PS. Ora, e tendo em conta o passado ainda não muito distante, qualquer pessoa sensata, qualquer pessoa que não recolha benefícios directos e imediatos do que possa advir dessa euforia socialista, deveria estar apreensivo, e atento.

António Costa venceu as primárias no PS e vai liderar aquele partido nas próximas legislativas. Algo até aqui normal e trivial, não fosse Costa nada ter dito sobre como tenciona governar, até como forma de agregar debaixo do seu guarda-chuva, o maior número possível das esquerdas que este país tem. Pior: ter dito e repetido à exaustão, quando inquirido sobre como iria equilibrar as contas públicas, que a sua estratégia seria de longo prazo. Uma frase feita, que geralmente significa governar sem constrangimentos que, a longo prazo, ou seja, noutra legislatura que não a sua, alguém pagará as consequências.

O novo líder do PS não gosta da austeridade. E quem é que a aprecia? É que, não gostar não basta para fazer diferente. Não chega para mudar a realidade. E o facto é que, a partir do momento em que surgiu o euro, o projecto de construção europeia é baseado nele. Concorde-se ou não com a opção seguida há algumas décadas, o projecto europeu depende da continuação da moeda única que implica, porque economias diferentes com a mesma moeda assim o exigem, défices públicos muito reduzidos, necessidade traduzida, aliás, no Pacto Orçamental Europeu.

Antes de continuarmos, é importante não esquecer que os défices e as dívidas públicas devem ser controlados, não porque o Pacto Orçamental Europeu assim o dispõe, mas este o diz porque, caso os estados europeus não reduzam o endividamento público, as diferenças entre as economias da zona euro não permitirão a continuação desta moeda. Dizendo de outra forma: sem disciplina não há euro, sem euro não há Europa.

É perante esta realidade que Costa se defende afirmando que há que ser inteligente e, falando de igual para igual com os parceiros europeus, negociar uma interpretação simpática do referido Pacto. Não será original. Hollande tentou o mesmo e deu no que deu. É legítimo, pois, perguntar: o que é que Costa tem mais que Hollande? Ou antes: o que é que Portugal tem mais que a França para convencer Angela Merkel? Pois é: nada.

Ou seja, Costa quer negociar o tratado orçamental mas não tem um plano ‘B’ para depois de ouvir o “não” europeu às suas políticas eleitoralistas. Restar-lhe-ão duas opções: ou governa como o PSD/CDS fazem desde 2011, ou se vira contra a Europa. François Hollande cedeu, segurou-se em Manuel Valls e partiu o PS francês. Qual será a escolha de Costa? O silêncio dele não nos diz muito. Uma coisa é certa: o futuro do país e do PS não será risonho.

No Fio da Navalha

Esta semana no ‘i’ meto-me com o Nuno Ramos de Almeida.

Mudar o mundo

Nuno Ramos de Almeida, que assina a coluna aqui do lado, escreveu na edição da passada terça-feira deste jornal sobre a não aceitação do mundo tal como ele se nos apresenta. Um esforço meritório da sua parte, que merece um comentário meu muito breve.

É que, ao contrário do que refere o Nuno, a não aceitação do mundo não pressupõe a sua transformação, mas a não conformação individual com este. Dito da forma o mais simples possível: se o Nuno Ramos de Almeida não gosta da realidade em que vive, deve procurar resistir-lhe, nos pontos em que tal lhe diga directamente respeito e nunca na medida em que afecte terceiros, satisfeitos que possam estar com essa mesma realidade.

Esta diferença, que pode parecer ténue – na verdade trata-se de formas de não aceitar a imposição que a maioria faz das regras do jogo -, não é tão pequena assim. Ela separa um revolucionário de um liberal clássico. Distingue alguém que quer construir tudo de cima a baixo, de outrem que, mesmo não apreciando a realidade tal qual esta se mostra, a compreende e respeita.

Não deve ser por acaso que o texto do Nuno está quase todo escrito na primeira pessoa do plural. O que não deixa de ser engraçado pois está assinado por ele e mais ninguém. Melhor ainda: não me inclui a mim, que, tal como o Nuno, não me costumo rever na maioria. É curioso como a não aceitação do mundo começa por não aceitar generalizações.

No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’ de hoje.

O jornalismo na nova guerra fria

No início de 2008, Edward Lucas, jornalista da “Economist”, lançou um livro intitulado “The New Cold War”. Nele, Lucas alertava o Ocidente para os planos de Putin, que não era o santo que tantos desejavam estar finalmente a governar a Rússia.

O livro deu que falar, pois no Verão desse mesmo ano deu-se a crise na Geórgia, um dos sinais das verdadeiras intenções de Putin. Regressado de férias, encomendei o livro e li-o desejando que aquele jornalista que contava o que ninguém queria ouvir não tivesse razão. Infelizmente não tivemos essa sorte.

Nesta obra, Lucas explica-nos como na Rússia de Vladimir Putin não há ideologia, mas apenas poder. A luta do poder pelo poder. Pela supremacia regional e, por via disso, de um maior peso no novo equilíbrio mundial. Com base nesta estratégia, compreende-se melhor o que o Kremlin tem preparado há muito para cada uma das ex-repúblicas soviéticas.

Mas o que pretendo realçar aqui, mais que a visão estratégica do líder russo, é o trabalho de Lucas. Quando tanto se fala da crise do jornalismo, foi um jornalista que, fazendo a devida pesquisa, acertou e fez o aviso. Deu a notícia. O seu exemplo é a prova de que o jornalismo está sempre a tempo de se reinventar e de, com trabalho e investigação, surpreender-nos, antevendo os acontecimentos. Algo raro num tempo em que tudo muda tão depressa.

Vítor Bento e o Novo Banco

A partir de hoje vou estar no Económico TV, todas as terças-feiras, às 12 horas, em debate com o socialista Marco Capitão Ferreira. Hoje foi assim.

No Fio da Navalha

O meu artigo no ‘i’ sobre a Escócia.

A Escócia imperial

A Escócia vota esta semana em referendo a sua independência do Reino Unido. Porquê? A resposta a esta pergunta, que envolve também uma complexa dependência dos subsídios vindos de Londres, é demasiado complicada para caber nos limites desta coluna. No entanto, é possível fazer uma breve resenha das suas razões históricas.

Em 1707, Escócia e Inglaterra, que já tinham o mesmo rei desde 1603, uniram-se, no que foi uma decisão positiva para ambas: não só a Inglaterra dominava finalmente toda a Grã-Bretanha, como tinha na Escócia uma aliada na luta pelos domínios marítimos. Por seu lado, os escoceses, perdido o Panamá e a Nova Escócia, tinham de vez acesso a um império que lhes escapava e não queriam deixar fugir.

Ora, como é sabido, o império britânico foi caindo aos poucos depois da Segunda Guerra Mundial. É interessante lembrar que o Partido Nacional Escocês foi ganhando projecção na luta pela independência a partir das décadas de 60 e 70 (Winnie Ewing foi surpreendentemente eleita em 1967), precisamente quando o império já nada tinha para dar aos escoceses.

Assim, o que estamos a ver no Reino Unido é mais uma das muitas consequências do fim da aventura imperial. Não é só Portugal que sofre do trauma e que fez uma pirueta de 180o ao entrar na Europa. Na Escócia, como por cá, sonha-se com África e com os mares, pelo que temos muito mais em comum do que poderíamos imaginar.

A Escócia, o Reino Unido, os subsídios e o império

Um post escrito em 2007 sobre a Escócia.

O 28.º Estado?

A 3 de Maio de 2007 vão ter lugar eleições para o Parlamento escocês. Serão as terceiras desde a sua criação em 1999 e, ao contrário das duas anteriores, está a causar crescentes expectativas no Reino Unido. Tudo porque o Scottish National Party (SNP), que defende a independência da Escócia, tem fortes probabilidades de vencer. A acontecer, a única certeza é que, precisamente 300 anos depois da sua origem, o futuro do Reino Unido é incerto.

O SNP tem como principal objectivo político a independência da Escócia. A sua base ideológica é de uma esquerda moderada, mas muitos dos votos conquistados ao longo dos anos, vêm do Partido Conservador. O SNP foi conseguindo cativar antigos tories, como sejam Michael Fry que, na edição de Dezembro da Prospect, explicou o porquê do seu do voto no SNP.

Porque é que o Reino Unido, que tem sido um sucesso desde 1707, está em risco de acabar? Uma das coisas que mais irrita os escoceses, é a complacência dos ingleses. A Escócia é mais pobre que o resto do Reino Unido e, para colmatar essa realidade, passou a receber uma variadíssima panóplia de subsídios aprovados por Londres. O objectivo era nobre, muito à semelhança do que por cá se quer fazer em relação ao interior, mas não ajudou a melhorar o nível de vida na Escócia. Pelo contrário, o fosso aumentou e os escoceses, sentindo-se cada vez mais dependentes da Inglaterra, só na independência encontram a solução dos seus problemas. Mas as razões não se ficam por aqui.

É preciso enquadrar os actuais ímpetos independentistas com aquilo que é hoje o Reino Unido. E ele é muito menos apelativo que em 1707. Nessa altura, a Inglaterra batalhava por um Império que se antevia o maior de sempre. A Escócia falhava as suas tentativas de se estabelecer na América, tanto do Norte como do Sul, nomeadamente na Nova Escócia e no Panamá. Perante os seus fracassos em encontrar novas terras aráveis, a solução encontrada foi a união com a Inglaterra. Com ela e através desta, os escoceses tinham, como cidadãos britânicos que eram, livre acesso a um enorme império. A sua economia podia brilhar e muito do Iluminismo escocês deve o seu desenvolvimento ao Reino Unido. Hoje nenhuma destas vantagens existe. O Império Britânico terminou e a Escócia nada tem a receber da Inglaterra. Nem sequer a Europa, onde os escoceses querem vir a ser o 28.º Estado membro da União Europeia, já depois do alargamento à Roménia e Bulgária.

A União Europeia pode, no entanto, ser uma faca de dois gumes. É que, se por um lado permitirá a sobrevivência de mais um pequeno país europeu, por outro, caso atulhe a Escócia com subsídios, corre o risco de fazer com esta o que ela não quis da Inglaterra: Ser dependente de dinheiros alheios. Mas o fenómeno escocês pode ter sérias influências em outros países europeus, nomeadamente a Bélgica e a Espanha. No passado dia 13, um canal de televisão belga iniciou o noticiário informando que a Flandres tinha proclamado a sua independência. O susto foi geral e demonstra a fragilidade belga. Para a Espanha, que negoceia o Estatuto de Autonomia das suas comunidades, o fim do Reino Unido pode ter consequências graves na sua sustentação, com efeitos fortes e profundos em Portugal.

Trata-se de uma mera hipótese, que pode nunca suceder mesmo que o SNP vença. Na verdade, Gordon Brown é escocês e o fim do Reino Unido seria o desfecho da sua carreira política… De qualquer maneira, pouco se fala, e menos ainda se ouve nos noticiários, sobre as eleições escocesas de Maio próximo. O que é pena já que elas serão essenciais na Europa e cruciais para muitos países. Porque é sempre desta maneira que os grandes equilíbrios acabam: Numa região remonta que poucos lembram e de que nunca se fala.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no ‘i’.

A crise nos partidos socialistas

O conflito no interior do PS francês deve prender-nos mais do que o tempo suficiente para sorrirmos com a novela política em que se transformou a presidência de François Hollande. A fractura do partido que sustenta Hollande, com o próprio a ir contra o que prometeu em campanha, pode ser o palco a partir de onde assistiremos ao início da desagregação dos partidos socialistas.

É que no PSF não temos apenas o pragmatismo de Manuel Valls contra o esquerdismo de Arnaud Montebourg. Há, debaixo destes dois homens que se confrontam, duas correntes, que dentro daquele partido se combaterão violentamente.

Valls vem da linha política que Michel Rocard invocou como sendo a “segunda esquerda” e que, recusando o jacobinismo da Revolução Francesa, procura uma visão, à esquerda, que não seja ideológica, mas mais preocupada com os interesses do cidadão comum. Montebourg, ao contrário, está concentrado em ideias proteccionistas que, não vá ele arrepiar-se, não vamos aqui considerar próximas da Frente Nacional.

Se até Hollande esta divergência interna dificultou a conquista do poder ao PSF, no futuro próximo as consequências poderão ser piores. Os desafios são imensos e o afastamento cada vez mais acentuado entre as duas esquerdas pode liquidar o partido. O que se passa em França é pois de acompanhar. É que por cá também o PS (e o PSD, quando fora do governo) pode passar pelo mesmo.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

Socialismo à francesa

Logo após ter apresentado a demissão, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, recebeu instruções de François Hollande para formar novo governo. De fora, e precisamente para isso foi esta manobra política, ficará Arnaud Montebourg, um dos dirigentes do PS francês que mais se opõem à política de austeridade que Hollande tanto criticou e agora parece ter abraçado.

O presidente francês não é a figura política com a linha de raciocínio mais consistente. No entanto, as suas promessas, em período eleitoral, de confrontar Merkel, o seu primeiro governo liderando pelo titubeante Ayrault e a concessão de agora ao realismo económico de Valls, que visa libertar França da solidariedade hipócrita e egoísta que está a liquidar o seu Estado social, devem a levar-nos a pensar.

Por que razão Hollande não se juntou à esquerda do seu partido? Se o discurso proteccionista e de aumento da despesa pública (que é no que se traduz o fim da austeridade) de Montebourg é uma saída possível, por que motivo Hollande não a seguiu conforme prometeu ao eleitorado?

A resposta é simples. Porque o fim da austeridade, que em Portugal tem seguidores no PS (e também no PSD/CDS), conduziria a um aumento exponencial da dívida, que estoiraria com o que resta desta Europa. Produziria especulação e uma nova bolha cuja explosão seria pior que a de 2008. A situação é muito mais grave do que lemos na imprensa e, infelizmente, Hollande só o percebeu quando chegou ao Eliseu.

No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no ‘i’. O mistério e o poder dos segredos.

O sentido do mistério

A nova revista inglesa “Porter” publicou no seu primeiro número, o da Primavera deste ano, um interessante artigo de Carole Radziwill, intitulado “Is mistery dead?”, sobre o poder do mistério e do segredo no mundo dos media e das redes sociais. Neste artigo, Carole, viúva de um sobrinho de Jacqueline Onassis, compara a áurea de mistério e segredo que rodeava as celebridades de outrora, como Jacqueline, com a exposição mediática dos que se querem importantes agora.

A relação é interessante porque, e nos termos daquele artigo, tanto o segredo como o mistério, a par da exposição mediática, servem à publicitação de uma imagem. Só que, enquanto hoje se é conhecido porque se sabe tudo dessa pessoa, antes era-se ilustre (e admirado) porque se desconhecia a maior parte.
De acordo com Carole Radziwill, os famosos falavam apenas quando queriam ser ouvidos. Quando deixavam escapar pistas que alimentavam a imaginação. Esta fazia o resto de forma que a fama e o renome fossem o que cada um quisesse que fosse. Uma celebridade era como uma página em branco que cada um preenchia de acordo com a sua vontade.

A diferença em relação à fama de hoje é colossal. Agora tudo é exposto e tudo se sabe: onde se esteve, o que se comeu, o que fazem os filhos, como é o interior das casas e por aí fora. Pouco resta à imaginação. O que é pena, pois, não sendo as celebridades melhores que os restantes homens e mulheres, a sua vida, sendo demasiado real, deixa de fazer sentido.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’. Dois mil anos depois da morte de Augusto.

Os homens bons que se calam

Gaius Asinius Pollio foi um político e historiador romano que morreu no ano 4 depois de Cristo. Defensor da República, Pólio gostava exprimir as suas opiniões. A seguir à vitória de Augusto, deixou a política e, por razões de segurança, a escrita. Mas não deixou de pensar pela sua cabeça.

Pólio é elogiado por Ronald Syme no seu livro “The Roman Revolution”. Neste, Syme defendeu que a queda da República foi o culminar de um processo de decadência das instituições e da classe política. Homens honestos como Pólio (“a pessimistic republican and an honest man”, p. 6) não tinham nela lugar. Ou morriam ou prudentemente resguardavam-se entre os seus. Pólio, que unia coragem com prudência, seguiu esse caminho.

Recordar Pólio é também relembrar os 2 mil anos passados da morte de Augusto, a 19 de Agosto de 14. Augusto garantiu a paz para que o Império Romano subsistisse. Se foi brutal na forma como se impôs, já foi subtil no modo como dominou o sistema. O seu esforço culminou no acto de propaganda que foram as suas cerimónias fúnebres, em Setembro desse ano.

Augusto surgiu pela calada, quando ninguém dava nada por ele. Se foi bem-sucedido, também afastou homens como Pólio. Com isso, Roma perdeu a energia e o talento. O descontentamento constante com o presente. Qualidades próprias de quem não aceita respostas dadas e prefere problemas novos. Com Augusto, o império teve paz, mas perdeu o alento que o alimentava. Quando descansou, teve início a derrocada.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

Agosto em Paris

A 2 de Agosto de 1914, o fotógrafo francês Charles Lansiaux, decidiu começar a fotografar Paris durante a guerra. Era a primeira mundial e tinha-se iniciado há cinco dias; duraria mais de quatro anos. Uma guerra infindável para quem supunha que se resolveria em poucas semanas; terrível para quem não imaginava estar perante o primeiro sinal do que viria a ser o século xx.

Quase 2 mil fotografias de Lansiaux estiveram expostas na primeira metade deste ano na Bibliothèque de la ville de Paris. Dessas, cerca de 247 foram tiradas em Agosto de 1914. E o que se retira das obtidas nesse período muito curto, faz agora 100 anos, é, não ainda o despertar para a realidade mas a suspensão do tempo que anuncia algo de mau.

Enquanto as primeiras fotos nos mostram multidões a ler jornais que anunciavam o início das hostilidades, mais as listas que mobilizavam os homens para o conflito, as seguintes são já as despedidas dos novos soldados e a chegada dos primeiros refugiados. Até que há uma que nos faz suster a respiração: tirada a partir da place Saint-Michel, nela vimos a ponte com o mesmo nome vazia. Paris espera, não sabendo ainda o quê.

Os espaços vazios estão cheios dos homens que não voltaram. São fantasmas que podiam estar ali, mas saíram ao encontro de algo estúpido e inútil. Paris devia estar silenciosa naquele mês de Agosto. Vazia de homens e cheia de um silêncio que falava e que ninguém conseguia ouvir.

 

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no ‘i’.

Um regime blindado

O país anda chocado com a história à volta do BES, ao mesmo tempo que teima em abrir os olhos para perceber como uma coisa daquelas se deu. E aconteceu precisamente porque a economia portuguesa é uma economia de compadrios, com o poder político à mistura a distribuir fundos e negócios pelos empresários, que só assim são chamados porque os país teme e venera o poder.

O BES é um exemplo de como funciona o poder por cá. Correu muito mal, mas outros há  que, apesar de o desastre não ser tão acentuado, prejudicam diariamente um país cheio de grandes empresas encostadas ao poder político.

Quantas vezes não ouvimos falar da importância dos chamados “campeões nacionais”? De empresas que, dizem-nos, devem ser acarinhadas porque representam o país. Sucede que este discurso salazarista, com que o 25 de Abril não cortou e de que se alimenta há 40 anos, impossibilita a existência de uma verdadeira economia de mercado, ao mesmo tempo que culpa esse mesmo mercado pelos erros que seriam evitados caso fosse livre.

O esquema está, como se vê, perfeitamente blindado. A culpa é sempre do mercado, que nem sequer tem identidade própria, logo não existe da forma como os comentadores e os políticos o vêem. É esta blindagem, que gera empresas que são grandes porque fazem parte do regime, que tem de ser rompida. Para que essas mesmas empresas passem a ser parte de uma realidade onde o interesse das pessoas seja superior ao dos negócios políticos.