O Insurgente

Janeiro 29, 2013

Tempo de Antena

Filed under: Comentário,Media,Política,Videos — André Abrantes Amaral @ 10:07

Este é o primeiro podcast ‘Tempo de Antena’, uma inciativa do Paulo Laureano que se deu ao trabalho de saber mexer com toda a panóplia à volta das gravações e da filmagem que um debate deste género exige. Os resultados estão à vista de todos, a meu ver bons, com alguns defeitos, é certo, mas a serem resolvidos a seu tempo. O objectivo é melhorar e criar um espaço de debate aberto, livre e independente dos media tradicionais.

Além do convite, esta iniciativa está aberta a todos os que queiram nela participar, nos termos e condições expressos o blogue do Tempo de Antena. A meu ver pode ser uma excelente forma de ganhar espaço sem ter de passar pelas televisões e rádios. O espaço online é um mundo e não tem de se reduzir à escrita.

Com o desenvolvimento das tecnologias necessárias para a realização deste género de iniciativas, esta não será a única do género nos tempos mais próximos. Projectos como este nascerão como cogumelos num futuro não muito distante. Se a blogosfera escrita deu um pequeno safanão no comentário político, esperamos para ver o que vai acontecer no futuro.

No Tempo de Antena já há mais podcasts gravados. Convido-vos a uma visita que espero que vos agrade. Da mesma maneira, e para os que possam ter outros interesses além da discussão política, convido-vos a ver os podcasts sobre tecnologia, no blogue ‘Os zeros e os Uns”.

About these ads

Janeiro 22, 2013

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Internacional,socialismo — André Abrantes Amaral @ 11:45

Reuters_7

Foto: Reuters

O meu artigo de hoje para o jornal i.

O emprego

A revista “The Atlantic” publicou, na sua edição de Dezembro, uma curiosa reportagem do seu correspondente na China, James Fallows, intitulada “Mr. China Comes to America”. Nela é-nos descrita uma revolução que está a ocorrer na fabricação de produtos que poderá ter efeitos de proporções idênticas aos originados pela internet.

Uma revolução das novas tecnologias que acelera o processo que vai da ideia à sua fabricação está a levar algumas empresas a deslocar a sua produção da China para os EUA. De acordo com a reportagem, são inúmeras as empresas na área de São Francisco que ganham com a proximidade ali existente entre dinheiro, conhecimento e consumidores. Para quê produzir na China, se os passos, da ideia ao seu financiamento e deste ao consumo, estão na mesma cidade?

Tecnologias que permitem àquelas empresas acesso às vantagens a que apenas os gigantes, como a Apple, têm a nível mundial. O emprego, nos EUA, virá de mudanças como esta e não de regras impostas por Washington ou da boa vontade da Apple ou da Google. Unido o ciclo da manufactura, é-se mais eficiente e preciso, tornando possível qualquer empresa norte-americana a produzir nos EUA enfrentar os gigantes.

Enquanto os políticos prometem leis que obriguem as empresas a criar emprego, da astúcia de quem trabalha nascem soluções que não coagem ninguém. Por muito que custe aos que governam, o homem é mais engenhoso que eles.

Janeiro 15, 2013

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 15:33

O meu artigo de hoje para o jornal i.

Que estado queremos?

Há um enorme burburinho à volta das propostas do FMI para o corte na despesa pública. No entanto, através de uma leitura atenta do documento em causa, deparamo-nos com o óbvio: para reduzir a despesa, o Estado tem de despedir funcionários públicos. O seu número actual não é compatível com o exercício das funções normais de um Estado de direito, pois os encargos que a sua manutenção impõe sobre os cidadãos são desmesurados e incomportáveis numa sociedade livre.

Naturalmente, as medidas deste calibre têm consequências sociais extremamente graves. Mas graves são também o milhão de desempregados no sector privado devido ao esforço que a economia tem de fazer para pagar um Estado pesado e rico. Independentemente de tudo isso, uma sociedade estável não admite que metade da população tenha emprego garantido e a outra esteja desempregada ou em perigo de perder o trabalho. A igualdade de que tanto se fala não é isto.

Os representantes dos grupos de interesses que aprisionaram o Estado vão espernear e gritar, dizendo defender a nossa liberdade. Mas sendo esta individual e não colectiva, cabe-nos a nós pensar, acima de tudo, que Estado queremos. Quais as suas funções e o seu papel? A liberdade implica mais escolha individual que a sua defesa por grupos que alegam o direito de optar por o que fazer com o fruto do nosso trabalho. É mais que a ideologia de alguns espalmada numa constituição desfasada da vida e das dificuldades que atravessamos.

Janeiro 8, 2013

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:27

O meu artigo de hoje no jornal i.

Desiguladade constitucional

O Presidente da República e vários deputados do PS requereram ao Tribunal Constitucional a fiscalização do Orçamento do Estado. Em causa está a suspensão dos subsídios de férias no sector público e dos seus reformados, e ainda a contribuição extraordinária de solidariedade que, sendo aplicada à generalidade dos portugueses, não corresponderá aos critérios igualitários pelos quais se regem os políticos.

Esta iniciativa leva-nos a questionar onde estavam Cavaco Silva e o PS quando orçamentos sucessivamente deficitários nos conduziram à triste situação em que o Estado agora se encontra. É que a resposta a esta pergunta mostra a gravidade do problema: os governos gastam mais do que podem cobrar por estarem convencidos de que a economia depende do Estado. Que o Estado tem de gastar para que a economia cresça. Infelizmente, é assim que se pensa em Belém e nas diversas sedes partidárias.

Pagamos hoje o preço deste dogma. Dogma que explica por que motivo a Constituição facilita que o Estado gaste mais do que recebe, mas já dificulta o equilíbrio das contas públicas. A contradição é de tal forma perturbante que não faz mal gerirem-se dinheiros públicos sem cuidado, mas já fere o critério de igualdade restringirmos o acessório para que os mais novos possam viver sem uma dívida que não contraíram e resultante de dinheiro que não vão receber. A igualdade do presente parece não ser igual à que deixamos aos nossos filhos. A justiça social(ista) dá nisto. Depois não se queixem.

Janeiro 2, 2013

Parceria Insurgente/DE

Filed under: Insurgentes nos media,Política,Política Fiscal,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:46

O meu artigo no Diário Económico de hoje.

Incógnita

Em Portugal, a execução do orçamento é o grande teste que ditará o sucesso do plano de ajustamento, apostado que está em manter as bases do estado social.

Empreitada complicada, senão impossível, quando a economia está esgotada com o esforço de sustentar o capitalismo de estado em que o socialismo se tornou. Durante anos fomos pagando mais e mais impostos para compensar o crescente peso, ora sustentando empresas, ora impondo regras, que o estado foi adquirindo na vida do País. Com o colapso da economia privada, a solvibilidade do capitalismo socialista está posta em causa e a discussão do que vamos construir a partir dessas ruínas começará em 2013.

Um ano imprevisível, mas também controverso. Quando o dinheiro acaba, somos levados a equacionar custos e repensar prioridades. É o que fazem os que saem do País e os que fecham empresas: recusam ser escravos do socialismo que nos (des)governou. Não aceitam que o estado continue a cobrar impostos para decidir onde investir e privilegiar empresários com conhecimentos no seio do poder. Repensar as funções do estado, sob pena de um desastre de proporções inimagináveis, será, pois, indispensável. E o ano que aí vem tem todos os ingredientes para que esta discussão seja, além de interessante, quente e acesa.

Como em todos os debates políticos, há riscos. Perigos que se amplificam quando à beira do abismo. Que aumentam quando sabemos que o nosso sistema político, ao não permitir a eleição uninominal dos deputados, não deixa que os partidos tenham políticos que arrisquem um outro discurso, trazendo novos eleitores para o seu espaço. O colapso político, porque os cidadãos não se revêem nos partidos, é elevado e pode acontecer a qualquer momento.

Porque não nos preparámos, deixando a economia respirar e criando válvulas de escape no sistema político, 2013 vai ser difícil e uma verdadeira incógnita. Pode correr tudo mal. Mas também podíamos vislumbrar uma luz ao fundo do túnel.

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Política Fiscal,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:44

O meu artigo de ontem, no jornal i.

Sacrilégio

Há quanto tempo ouvimos dizer que o ano novo vai ser difícil? Foi-o 2009, depois 2010, a seguir 2011 e agora que 2012 já passou podemos ser afirmar: este não será o último. Por muito que custe, as dificuldades vão manter-se e a nossa vida vai levar muito tempo a melhorar.

São demasiados anos a exigir a quem produz que pague um Estado que poucas mais-valias apresenta. A sustentar um Estado que se transformou num verdadeiro predador de riqueza, dinamismo, ambição, trabalho e brio. A pagar um Estado que nos transformou em servidores, ao invés de nos servir.

O mesmo se passa com o conceito de causa pública: ela não visa já o respeito da individualidade, mas a sua confiscação. Não nos protege do outro, mas aliou-se a este para nos esmagar. Em 2013 vamos trabalhar para sobreviver e pagar impostos. Pagar um Estado socialista que, querendo fazer negócios, negligenciou ser o garante da justiça.

É por isso que a economia vai parar. Porque não compensa trabalhar para continuar o desperdício. A nossa vida, o nosso tempo, o nosso dinheiro, valem bem mais que o que vamos fazer durante o ano que hoje começa. Se o trabalho é sagrado porque nos realizamos nele e com ele sustentamos as nossas famílias, limitá-lo à subsistência de um Estado que não faz o que deve é um sacrilégio. Uma ofensa ao melhor que há em nós. 2013 será um bom ano, se nos mentalizarmos disto.

Dezembro 18, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional — André Abrantes Amaral @ 10:21

800px-base-aerea-da-lajes-ilha-terceira-acores-portugal

Wikipedia

O meu artigo de hoje no jornal i.

A China nas Lajes

No seu livro “Monsoon: The India Ocean and the Future of American Power” (Random House), Robert D. Kaplan dá-nos pistas sobre como os EUA deverão lidar com as economias emergentes da Ásia e o turbilhão que já são as rotas comerciais no oceano Índico. O que anda um pouco esquecido são as consequências que a redução do investimento norte-americano na defesa podem causar no Atlântico.

Em Junho deste ano, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, aterrou na base das Lajes a caminho do Chile. As razões aludidas foram técnicas, mas suficientes para alarmar Washington. Num artigo na “National Review”, em Novembro, Gordon Chang, (“The Coming Collapse of China”, Random House) diz-nos que o interesse chinês nas Lajes é notório e compreensível. Chang chega a referir que, vivendo essencialmente da agricultura, a Terceira, para ter algum futuro, deve procurar outro parceiro para a sua Base n.o 4.

No mês passado, os EUA anunciaram uma forte redução da sua presença nas Lajes. Decisões como esta são pensadas com antecedência e previstas pelos outros actores da política internacional, como é o caso da China. Ora, se somarmos dois e dois, percebemos que a mera paragem técnica de Jiabao nos Açores não pode ser ignorada. Se os EUA estão no Índico, os chineses quererão estar no Atlântico. É claro como água. A China está às compras e pode não se ficar pelas empresas. Se isso se vai transformar numa vantagem de Portugal no seu relacionamento com os EUA, o futuro nos dirá.

Dezembro 11, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:21

O meu artigo de hoje no jornal i.

Serviço público de coacção

O governo terá decidido privatizar apenas 49% do capital do grupo RTP. A notícia é uma reviravolta nas intenções iniciais do primeiro-ministro que prometeu pôr um ponto final no regabofe orçamental que é a televisão pública.

O desnorte parece explicar-se porque para o governo o problema não está na existência de um canal público de televisão, mas no seu descontrolo orçamental. Para o Estado parece normal obrigar os cidadãos a pagarem um canal de televisão que transmite tudo o que qualquer outro esteja disposto a transmitir, sem que isso implique a cobrança coerciva de um serviço que não se queira receber.

No fundo, o Estado faz com a RTP aquilo que num Estado de direito deveria ser duramente punido. A incongruência é tal que o Estado, que faz alarde de bom regulador, criando a um nível quase diário normas que dificultam o trabalho de quem produz e de quem vende, já não se importa quando os consumidores dos seus serviços, que ninguém contratou, não têm alternativa que não seja pagar pelo que não querem.

A existência de uma televisão pública é ainda incompatível com as novas tecnologias da televisão por cabo. Na verdade, um canal como o História, faz mais pelo conceito de serviço público, que ninguém consegue definir, que a RTP 1 e a RTP2 juntas. Com a diferença de que só o paga quem quer. Sem qualquer tipo de imposição e coacção. O comércio televisivo é, aliás, um bom exemplo de como o mercado respeita mais os seus consumidores que o Estado os seus contribuintes.

Dezembro 10, 2012

2013: um ano de austeridade e de eleições

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:15

Preparando-se as eleições que se aproximam, António Costa prometeu reduzir para 2,5% o IRS retido pela autarquia de Lisboa. A redução de impostos é, não apenas excelente e necessária, mas também justa. Um verdadeiro estado de direito implica apenas a cobrança dos impostos absolutamente necessários para a prossecução das suas funções minimamente indispensáveis.

Infelizmente, a redução dos impostos não é acompanhada de uma redução da despesa da autarquia. Não existem menos serviços, menos regulamentação, nem menos burocracia. Qualquer pessoa que tenha contactado profissionalmente com a Câmara de Lisboa sabe que é um monstro a evitar e com que se lida apenas quando é obrigatório.

A redução de impostos no próximo ano em Lisboa reflecte um populismo atroz: continuar a gastar, mas cobrar menos para ganhar votos. Depois, mais tarde, logo se vê. No fundo, continuar a agir como sempre se fez. Como se nada se tivesse passado entretanto e 2012 não tivesse existido. A prova comprovada que quem governa o estado, tanto a nível central, como local, não aprende com os erros, porque raramente paga por eles. Veja-se que pode ser tão fácil baixar impostos que até o CDS e o PSD apresentaram propostas mais audazes. Estamos perante um problema que afecta não apenas António Costa e o PS, mas toda a classe política. De um extremo ao outro do panorama político.

Dezembro 7, 2012

‘Juventude’

Filed under: Comentário,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:38

d3e2ac4e-443b-4826-8555-0be8db94811b

Era melhor quando Sócrates dava.

Dezembro 4, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 12:15

O meu artigo de hoje no jornal i.

Lugares-comuns

As vitórias da Espanha nos campeonatos do Mundo e da Europa de futebol foram vistas como um reforço da unidade espanhola. Catalães, bascos, andaluzes, todos vibraram com a visão de jogo de Iniesta e as defesas de Casillas. Só não se entende por que motivo, e tão pouco tempo depois, tenham ressurgido os ímpetos independentistas na Catalunha.

O Euro2004 foi apontado como o motor da economia que faria regressar o país aos índices de crescimento dos finais dos anos 80. A realidade, porém, mostrou-se diferente e parte da causa da crise de hoje está no endividamento a que nos obrigaram eventos como aquele.

Em 1998, a França sagrou-se campeã do mundo de futebol e, rapidamente, os mais fervorosos optimistas concluíram que o racismo estava erradicado daquele país. Agora já sabemos que o apoio francês à equipa do argelino Zidane não reflectia nada disso. Apenas a vontade de uma vitória que de outra forma não seria possível.

É impressionante como estamos cercados de lugares--comuns como estes. A verdade é que a unidade não se impõe de cima. O que une as pessoas, quando não a mesma língua, é o interesse da paz possível. Os catalães sabem que os franceses entraram em Barcelona no curto período de 12 anos em que a Catalunha se libertou de Madrid. De mal a mal, que ficassem com Castela. Ontem como hoje. A poeira dos séculos não desaparece com jogos de bola, tal como os milagres económicos não surgem em estádios de futebol.

Novembro 30, 2012

A personalidade

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:36

Vítor Ramalho é uma ‘personalidade’ com excelentes ideias. Em 2012, o presidente da república pode demitir o primeiro-ministro e nomear um outro. Já em 2004, isso não era possível. Qualquer chefe de governo que não fosse votos, seria ilegítimo.

A lógica é esta: se me dá jeito, vale. Caso contrário, é ilegítimo. É por o Estado de Direito ainda não ter verdadeiramente chegado a Portugal, que dependemos da interpretação de ‘personalidades’ como Vítor Ramalho.

Personalidades

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:33

Quem se dê ao trabalho de dar uma vista de olhos nos signatários da carta aberta exigindo a demissão do primeiro-ministro, cedo percebe o que têm em comum: a manutenção do pântano, de onde Guterres fugiu com o discernimento de nunca mais nos olhar nos olhos, e que consiste nos contribuintes financiarem as suas actividades. Claro que não são actividades sem importância. O que fazem é sempre do interesse nacional ou social e culturalmente relevante. Nem eles são cidadãos, mas ‘personalidades’. Porque sem eles seríamos miseráveis. Não estaríamos sobrecarregados a financiar as suas actividades lúdicas, mas seríamos miseráveis.

Para que o país saísse da cepa torta em que se encontra há 15 anos seria indispensável que se percebesse que não precisamos destas personalidades. São elas que necessitam de nós. Se quisermos desaparecem. Se não contribuirmos mais, desaparecem. Evaporam-se.

Há cruzes que não têm de ser transportadas para o resto de vida.

Novembro 27, 2012

Excepto quando dão as mãos

Filed under: Comentário,Internacional — André Abrantes Amaral @ 15:19

“A Coreia do Norte tem mais de nazismo que de estalinismo”. José Luís Peixoto, no i.

É pena a falta de cuidado para compreender que os regimes comunistas têm, também eles, uma forte componente nacionalista. Como também é de lamentar José Luís Peixoto quando diz relativamente ao nazismo que “(…) existe também um discurso racista que diverge bastante do discurso estalinista”, esquecendo as perseguições levadas a cabo por Estaline aos judeus, ciganos e outros que tais, com base em critérios muito próximos dos nazis.

Que os extremos se tocam já nós ouvimos dizer. No entanto, é uma verdade que parece levar tempo a encaixar.

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 13:17

O meu artigo de hoje no i.

A reforma do Estado

Na distinção que habitualmente se faz entre esquerda e direita, o Estado está sempre no centro. Os dois campos pouco diferem neste aspecto: os governos administram o Estado que regulamenta a vida do país. Aos cidadãos caber-lhes-á votar, decidindo se pretendem que se privilegie uns sectores esquecendo outras áreas; se oriente a vida comunitária num sentido abandonando outras vias.

Conforme anunciado na passada semana, o governo irá apresentar propostas para o corte na despesa pública de 4 mil milhões de euros. O objectivo é, ao que parece, dar início a um debate sobre a reforma do Estado. É aqui que o referido acima se torna pertinente: devido à situação de emergência em que o Estado se encontra, a vida em comunidade terá de ser feita sem a sua omnipresença.

Tal implicará que as pessoas tenham poder decisório sobre o que lhes diga directamente respeito. Um homem, uma decisão. É interessante observar como o socialismo, que não acredita no livre arbítrio dos indivíduos, fala tanto da pessoa como ente abstracto. É apreendendo esta diferença que se torna possível viver em sociedade, sem que uma entidade central defina todos os parâmetros da vida.

Diz-se que o país se está a transformar. Talvez. No entanto, enquanto a distinção na política não se fizer entre os que querem um Estado intervencionista, naturalmente endividado, e um que se cinja às suas funções nucleares, não faz sentido anteciparmos qualquer verdadeira reforma.

Novembro 23, 2012

Qui a tué Lawrence d’Arabie?

Filed under: Diversos — André Abrantes Amaral @ 15:10

Pegando no episódio da morte de T. E. Lawrence, Yves Saint escreveu uma belíssima intriga. A banda desenhada franco-belga não goza hoje da fama de outrora, mas se algum dos leitores deste blogue tiver saudades de Edgar Pierre Jacobs, não dará por mal empregue o seu tempo. Jacobs não está vivo, mas há algo dele neste álbum.

Novembro 20, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:22

O meu artigo de hoje no i.

A indignação fingida

Várias das figuras pardas do regime já se lamentaram sobre o estado em que o país se encontra e que nunca imaginaram ser possível. Afirmações inacreditáveis vindas de cidadãos com acesso privilegiado aos dados do país. Que sabem o que foi discutido nos gabinetes nos últimos anos, tomando eles próprios muitas das decisões que nos conduziram aqui. Pessoas influentes, que proferem afirmações sabendo a influência que detêm e que falam agora como se não tivessem existido no passado.

O mais confrangedor é que a insolvência do Estado foi previsível. Foi-o para os que pregaram no deserto nos últimos anos, mas também para todos os cidadãos que fizeram uso da razão e foram imparciais. Que não tinham interesse no statu quo e eram isentos. Foram poucos, mas falaram. Como falam ainda hoje.

Não há nada mais ofensivo para a inteligência de alguém que assistir ao esforço daqueles que, nunca querendo saber o que realmente se passava, vendem o seu espanto com indignação. O Estado faliu devido a 30 anos de disparates: concessão aos interesses das corporações com acesso ao poder político; aumento da intervenção do Estado; aumento gradual da carga fiscal sobre quem trabalhava; contratação pública para disfarçar a incapacidade do sector privado de criar emprego à velocidade a que se aumentavam os encargos do Estado, a que se juntou a incapacidade deste de cumprir as suas funções fundamentais. Quem ficou surpreendido com o que aconteceu? Fomos crédulos, mas não podemos ser estúpidos.

Novembro 15, 2012

A certeza

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Política Fiscal,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:08

O artigo insurgente de hoje no Diário Económico é escrito por mim.

O Governo acredita que a sexta avaliação da ‘troika’ ao programa de ajustamento, e que incide sobre a consolidação orçamental, o sistema financeiro e as reformas estruturais, corra bem. Não seria de esperar outra coisa. Não só porque vem do Governo, mas também porque em nada interessa a quem nos empresta o dinheiro com que pagamos as contas, que se diga agora e em voz alta que estamos a falhar.

Daí que o mais importante desta sexta avaliação seja o início da identificação dos cortes estruturais da despesa, na ordem dos 4 mil milhões de euros, e que o Governo considera indispensáveis para equilibrar o orçamento de Estado. Significa que, em Fevereiro próximo, quando os portugueses começarem a sentir no bolso o enorme aumento dos impostos, o País será informado dos serviços sociais com os quais deixará de contar.

Há dias, Victor Gaspar afirmou serem necessárias décadas para que a dívida pública atinja os 60% do PIB, como previsto no Tratado de Lisboa. Sabendo que esta ronda hoje os 120%, percebemos porquê. Compreendemos o desastre que a ideologia socialista nos impôs nas últimas décadas e o esforço hercúleo que cabe fazer a nível de finanças públicas para sairmos dele. Antevemos ainda como os cortes na despesa serão mais duros que a subida dos impostos. Na verdade, se assim não for, é porque nada se fez e continuaremos
ad aeternum a pagar a dívida.

Posto o assunto nestes termos, o que podemos esperar da sexta avaliação da ‘troika’ é a certeza de mais um duro acordar. Resta saber qual a reacção que vai prevalecer: se a realista que, encarando os factos como eles são, os trabalha, ou se uma postura de ilusão que, por medo de reconhecer onde foi o engano, perpetua o erro. Ou seja, perante a certeza do desafio, o País irá mesmo mudar? Na verdade, a história mostra-nos que o caminho mais fácil de enganar as contas e fazer de conta que tudo está como dantes, é o que tem prevalecido. Em cada certeza há uma dúvida a acompanhar.

Novembro 13, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Portugal,socialismo — André Abrantes Amaral @ 11:37

O meu artigo de hoje no jornal i.

Prioridades

Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar, afirmou na passada semana que, por não ser possível continuar a sustentar a prestação gratuita de certos serviços estatais, será necessário reaprender a hierarquizar as prioridades. O que parece óbvio indignou muita gente, principalmente nas redes sociais, onde as pessoas se encolerizam mais depressa que a própria sombra.

Pelo menos desde Salazar que o Estado trata os Portugueses como crianças. À época não podiam votar porque não percebiam nada de política. Agora porque não sabem escolher. Crianças a quem, oferecido o essencial, lhes foi permitido o acesso a certos luxos: a um consumismo desenfreado conseguido à custa de se ter o necessário de borla e que resultou na desresponsabilização individual. A título de exemplo, quantos não dão fortunas por bens dispensáveis, mas não aceitam pagar a educação dos filhos? Sendo a educação o bem mais duradouro que uma criança receberá, que legitimidade tem quem gasta em bens supérfluos para exigir à sociedade o pagamento de algo que é do interesse do seu filho e para o qual ele próprio não está disposto a contribuir?

Hierarquizar é escolher. Escolher faz parte da liberdade que nos foi prometida, e que é mais que o mero direito ao voto. Liberdade pressupõe escolher, sabendo que quando nos dão algo é porque foi pago por outrem. A justiça implica agir em consciência, não apenas dos nossos alegados direitos adquiridos, mas também de como eles oneram terceiros.

Novembro 8, 2012

As relações EUA-UE e a reeleição de Obama

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 10:11

O meu artigo do Diário Económico de hoje, sobre o que pode a Europa esperar da reeleição de Barack Obama.

Divergências

Apesar da cada vez maior atenção que a América dá à China e à região do Oceano Índico, a reeleição de Obama será da máxima relevância para a Europa. Terá repercussões na política e na economia do Velho Continente, tal como no seu equilíbrio interno.

Os últimos 4 anos foram marcados por uma diferença no modo como os EUA e a UE encaram a crise orçamental dos estados: enquanto a Administração Obama anteviu na impressão de dinheiro pelo FED uma das soluções para o problema, o governo de Merkel viu nela uma forma de o agravar. Berlim pretende reduzir a dívida pública para que os Estados sejam solventes e possam continuar; já Washington considera que o governo deve ter um papel preponderante na ultrapassagem desta crise, investindo o dinheiro dos contribuintes no investimento público. Faltando o dinheiro, este fabrica-se. Algo que Merkel considera uma batota que distorce o funcionamento equilibrado da economia. Esta diferença de entendimento, entre os dois lados do Atlântico, de qual deve ser o papel do Estado, é a aplicação prática do debate da actualidade: qual é o motor da economia? O Estado ou os cidadãos livres numa economia privada?

Mais quatro anos de Obama na Casa Branca acentuarão estas diferenças e pressionarão os governos europeus a desistirem do caminho que escolheram. Servirá de pretexto para outra opção, mais apetecível para os políticos que precisam de dinheiro fácil para ganhar eleições. Acentuará também as divisões na Europa, não apenas entre Norte e Sul, mas entre Berlim e Paris. Não é difícil imaginar o que faria Hollande, caso pudesse fabricar moeda. O balão de oxigénio que tal opção lhe daria, permitir-lhe-ia governar com dinheiro à disposição para gastar e distribuir: escrevendo mal e depressa, para comprar votos e apoios. Algo que lhe garantisse a reeleição em 2017. Obama, contrariando Merkel, pode vir a ser não só uma farpa nas relações germano-americanas, mas também dentro da própria Europa.

Novembro 6, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política — André Abrantes Amaral @ 11:04

O meu artigo de hoje no i.

O fracasso do messias

Em Dezembro de 2007, o comentador Andrew Sullivan escreveu um artigo para a revista ‘The Atlantic’, apoiando Barack Obama na corrida à Casa Branca. Chamava-se “Goodbye to All That”. Tudo isso era a divisão social e racial que feria a América desde a década de 60 e que Bush tinha acentuado. Obama, achava Sullivan, um mestiço nascido nos anos 60, o homem além desses problemas, era a pessoa ideal para apagar as divisões que extenuavam os norte-americanos. Era ainda a forma de os EUA fazerem as pazes com o mundo, o que quer que isso significasse. O artigo exagerava, mas traduzia o que se sentia na época e fez Obama ganhar em 2008.

Quatro anos passados percebe-se porque falhou. Não recuperou a economia, até porque a sua candidatura, sendo anterior à falência do Lehman Brothers, não visava isso. Também não uniu a América, como se vê nestas eleições. A sua eventual vitória dividi-la-á mais ainda, pois os votos contra Obama são fruto do desespero causado pelo desemprego e pela hipoteca do futuro, a que a dívida pública obriga.

Obama não conseguiu também melhorar a imagem dos EUA no exterior. Se as críticas à América são menores, é mais devido à condescendência com que se olha para as suas dificuldades que a uma mudança de opinião. A crise americana é um bálsamo que tonifica a alma de muitos. O que significa que nem fracassando conseguiu Obama a aprovação de terceiros. Mesmo que seja reeleito, o legado deste messias é o fracasso.

Novembro 5, 2012

De como as constituições liquidam os regimes

Filed under: Comentário,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 16:20

A emigração em  massa foi um dos muitos sinais da falência do Estado Novo. Centenas de milhares de pessoas saiam do país à procura de trabalho, comida e, poupando dinheiro, uma casa. Para todos, um futuro diferente. Algo que uma ditadura, um país preso aos pressupostos de uma revolução com cerca de 40 anos, não permitia. A emigração em massa foi o maior sinal do falhanço de uma geração e de um regime; de um modo de governar o país. Foi o resultado de anos a fio sem que tivesse sido permitida a adaptação necessária aos novos tempos. O país em 1926 era muito diferente do de 1966, mas a ideologia dominante, a mesma. O resultado foi uma revolução que destruiu o crescimento económico conseguido na década de 70 e trocou um texto constitucional retrógrado por outro reaccionário e, por isso, cedo ultrapassado.

40 anos após o 25 de Abril, repete-se o drama. É certo que os emigrantes de hoje não saem do país a pé, mas de avião. Não recebem comida como forma de pagamento, mas bons salários. Independentemente disso tudo, a questão em cima da mesa é a mesma: para várias centenas de milhares de pessoas, é preferível ir embora. Não porque o clima aqui seja mau ou a segurança deplorável, mas porque não há trabalho.

Não é difícil perceber que o regime saído e ainda marcado pela revolução de 74 não tem futuro. A forte carga ideológica da constituição impede a adaptação aos novos tempos, tal qual aconteceu com a de 1933. Durante 41 anos o país andou literalmente pendurado por um texto constitucional que não o deixava evoluir; preso a um texto que acabou por destruir aquilo que visava defender. Da mesma forma, continuamos agora amarrados a normas que não permitem preservar o que a cada dia que passa, e porque nada foi permitido fazer, se torna mais difícil assegurar.

Outubro 30, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Portugal — André Abrantes Amaral @ 16:38

O meu artigo de hoje no jornal i.

Desnorteados

Critica-se o aumento de impostos, mas não se quer privatizar a TAP, a Caixa Geral de Depósitos e a RTP. Queremos mais apoio do Estado para a cultura, mas com os mesmos impostos. O governo parece estar sem rumo. E nós? Saberemos nós o que queremos?

Talvez continuar a ter um Estado que viva acima das nossas possibilidades. Quisemo-lo durante demasiado tempo. Primeiro à custa de alguns contribuintes. Depois, porque cresceu, nem isso. Mantivemo-lo com o dinheiro emprestado pelos “mercados”, que agora a esquerda já tanto odeia.

A situação que vivemos é muito difícil. É o desafio das nossas vidas e não se resolve sem sacrifícios. Com aumento de impostos ou corte na despesa, uma sociedade fortemente dependente do Estado vai sempre sofrer. Por isso precisamos de saber o que queremos para que o sacrifício que nos exigem sirva, não para aumentar a dívida mas para a pagar.

Basicamente, a percepção de que o modelo socialista se esgotou e o desenvolvimento do país não pode ser feito à sombra do Estado. Precisamos que este garanta as liberdades individuais, nos proteja dos arbítrios do poder, mas não empate o nosso esforço e destrua as nossas capacidades. Não queira viver à nossa custa. Precisamos de políticos humildes e não megalómanos e omnipotentes. Necessitamos de cidadãos que guardem a desconfiança, que nutrem uns pelos outros, para o Estado. Um novo rumo obriga a outra mentalidade e forma de estar.

Outubro 29, 2012

Pedro Mexia e a crise na imprensa

Filed under: Comentário,Media — André Abrantes Amaral @ 11:08

No último governo sombra, e sobre a crise na imprensa escrita, Pedro Mexia criticou quem entende que os jornais não são importantes, porque “está tudo na internet”. Conclusões como a que fez Pedro Mexia, têm sido habituais. Tendo já escrito diversas sobre este assunto, gostaria de clarificar o seguinte:

1) Os jornais são importantes. Isso não significa que continuem (principalmente os diários) a ser de papel. Através dos tablets é possível ler um jornal tal qual ele é (ou seria) em papel. A disposição das notícias, a ‘paginação’ é em tudo idêntica à edição em papel. Mais: a proliferação dos tablets permitirá aos jornalistas actualizarem o jornal ao minuto, de forma que quem compre a edição online de um jornal não precisará de esperar pelo dia seguinte para saber o que aconteceu hoje. Um jornal passará a ser como que um ente vivo que muda com o decorrer das horas. Algo que não acontece com a edição em papel. Essa vantagem irá, no meu ponto de vista, acabar de vez com as edições em papel dos jornais diários.

2) Pedro Mexia entende também que o fim dos jornais, se as pessoas acreditarem que está tudo na internet, impede a fiscalização que a imprensa faz ao poder político. Este argumento é em tudo lógico, menos num ponto essencial: não é necessariamente verdade. Caso fosse, os jornais há muito teriam questionado as políticas de endividamento seguidas pelos governos nos últimos 30 anos. Não o fizeram. Pelo contrário, a comunicação social, porque não investigou, nem questionou, quando devia ter investigado e questionado é, também ela, culpada pelos problemas que estamos a viver hoje. Não informou, nem esclareceu. Pior: foi na internet, e devido à internet, que se ouviram os primeiros avisos para os disparates que se estavam a cometer.

3) O mais provável é que haja lugar para tudo: edições online e em papel. Julgo que por uma questão prática e de facilidade, as notícias diárias deixarão de ser lidas em papel. O futuro é impossível prever, mas suspirar pelo passado, alegando serem os órgãos de comunicação social institucionais um garante essencial da nossa liberdade, é, e porque estes infelizmente falharam em toda a linha, esse sim, um argumento intelectualmente pobre e demasiado fraco para que se continue a insistir nele.

Outubro 26, 2012

Oportunidade

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Media — André Abrantes Amaral @ 10:52

(O meu artigo no Diário Económico de hoje, dentro da parceria deste jornal com O Insurgente. O tema, desta vez, é a crise na comunicação social.)

A crise da comunicação social é mais grave que a mera falta de dinheiro para comprar jornais. O acesso rápido e imediato à informação faz com que não valha a pena comprar um jornal que se limite a repetir o que vem na internet, ou o que dizem as agências noticiosas. Os jornais e as cadeias de televisão já não são as nossas fontes de informação primárias, mas os meios através dos quais podemos esclarecer as notícias que dispomos.

Na ânsia de resistirem à mudança, são muitos os que cedem ao sensacionalismo e à demagogia. Daí a redução de alguns à mera troca de recados políticos; às notícias teatrais sobre os processos judiciais mais mediáticos, que apelam à emoção e em nada se importam com o que interessa, que é informar. Esclarecer. Perante a queda das vendas, a imprensa desespera por não morrer, mesmo que isso implique o fim da sua dignidade. Mas um jornalista deve fazer mais que isso. Deve pensar, investigar, estudar e escrever as suas conclusões. Deve ser a nossa ponte com o mundo.

Como é que se regressa ao espírito de outrora? Antes de mais, não vendo a profissão como um emprego. Nada é certo, menos ainda o trabalho bem feito e com riscos. Se a revolução tecnológica está a liquidar a imprensa tradicional, possibilita também ser-se inovador e, com custos reduzidos, chegar-se a um público alvo e alargado. As infra-estruturas podem ser menores e os investimentos, de início, mais pequenos.

Ao mesmo tempo que empregos são destruídos, e grupos são comprados por entidades que não garantem a liberdade de imprensa, a mudança permite-nos esperar por outro tipo de jornalismo. Cuidado e reflexivo. Que investigue e analise. Questione o ‘status quo’. Seja uma pedrada no charco. A desculpa de que poderosos dominam a comunicação social não pega quando as ferramentas estão à mão de semear. Bem sei que não é fácil. Nada o é. Mas se não for o jornalismo, a profissão com a abertura necessária para se adaptar, qual é que será?

Outubro 23, 2012

Como se liquida uma solução

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:30

A sondagem publicada ontem no i, com 82% a favor dos cortes na despesa em vez do aumento dos impostos, diz-nos muito do estado do país. Se são tantos a favor do corte na despesa pública, por que é que tal não se nota quando se fala da privatização da RTP? Ou da TAP? Ou da CGD? Ou da extinção de qualquer outro instituto público que o que faz não justifica o que gasta? Talvez porque os que protestam contra a venda da RTP não sejam os mesmos que o fazem relativamente à TAP. E por aí fora. O corte na despesa é bom e desejável, se afectar os outros. A solidariedade colectiva dá nisto. Tornámos as muitas minorias que cercam o estado e vivem à conta dos contribuintes, numa larga maioria.

Mas o resultado da sondagem diz-nos mais: que a maioria é a favor de cortes na despesa, porque tal se tornou o novo chavão do discurso político. É algo que ninguém sabe o que é, e enquanto não se souber o que seja é inofensivo. É a nova forma de atirar o problema para trás das costas. E representa um perigo: é que sendo a única solução (com tudo o que de dramático isso representaria para a vida de milhões de portugueses) corre o sério risco de se tornar algo nebuloso de que todos são a favor, mas em que ninguém mexe porque não sabe o que na verdade significa. Algo parecido com o que se passou com a discussão à volta da regionalização. Mastiga-se, mastiga-se e enquanto se mastiga, os políticos continuam a fazer carreira.

É impressionante como somos peritos a liquidar soluções.

Outubro 19, 2012

O Parlamento

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 13:54

 

O meu artigo hoje no Diário Económico.

O Parlamento

O aumento da carga fiscal está a gerar forte contestação pública em 2013, que piorará caso Victor Gaspar decida cortar de vez na despesa do Estado. Se o Governo cair antes de renegociar o plano de ajustamento, Portugal estará fora do euro. Além do furacão económico e social que tal saída representará, as consequências políticas serão tremendas. O PSD não conseguirá apresentar-se credivelmente às próximas eleições e o PS continuará a ser o principal responsável pelo endividamento do país. Com o descrédito destes partidos, torna-se credível o surgimento de novas organizações partidárias.

No entanto, o problema político não se resolve com uma mudança de caras. Isso seria demasiado fácil e já foi tentado nas três revoluções a que Portugal assistiu no século XX. Rostos novos, os problemas de sempre: um país atrasado e pobre, habitado por cidadãos sem muito para esperar.

Mais que partidos novos, precisamos de um sistema político que aproxime os eleitores dos eleitos. Façam depender estes directamente daqueles. Se isso implicar novos partidos, força. O importante é que o Parlamento seja a válvula de escape do regime. Numa democracia representativa é no Parlamento, e não na rua, que se contestam as medidas do Governo.

Infelizmente, o Parlamento conta pouco, pois os deputados, antes de eleitos pelo povo, são escolhidos pelas direcções partidárias. Por isso, o sentimento de frustração pública e impotência política são imensos e o apelo dos extremismos, tentador. Tal não sucederia caso os deputados fossem eleitos por círculos uninominais. Além de uma legitimidade política própria, estariam mais ligados aos seus eleitores, que teriam de ouvir e a quem se teriam de explicar. Esta proximidade permitiria um diálogo verdadeiro entre políticos e cidadãos, a que se somaria uma contínua adaptação dos partidos aos novos problemas do País, não dando muito espaço ao surgimento de mais organizações políticas radicais. Mudar de partidos para continuar na mesma, é que não.

Outubro 16, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media — André Abrantes Amaral @ 10:19

 

O meu artigo de hoje para o jornal i.

O lucro é sagrado

Os cortes nas despesas no jornal “Público” levantaram alguma celeuma porque, apesar de aquele periódico dar prejuízo, a Sanaecom, empresa sua proprietária, tem tido lucros. O entendimento generalizado foi que, se tinha lucros noutras áreas, o devia investir numa actividade deficitária como a do jornal.

Um jornal, como qualquer actividade empresarial, tem de dar lucro. O dinheiro que se recebe pelo trabalho que se realiza, mais a honestidade inerente a não se gastar mais do que se ganha, que é o lucro, é o que define a moralidade e a igualdade decorrente de uma actividade profissional.

Nas relações profissionais em que haja venda livre de produtos ou de serviços, em que as condições do outro são aceites de livre e espontânea vontade, o dinheiro, e com ele o lucro, são o que as torna morais e honrosas. Dinheiro e lucro são a prova de que ninguém é escravizado nem prejudicado com o trabalho que exercemos.

Sempre que uma empresa tem prejuízos está a prejudicar alguém. Danifica, não apenas o seu património, mas também o elo de confiança que tem de existir com quem investe. A inexistência de lucro, por significar gastar mais do que se ganha, implica também desrespeito pelo consumidor: que não lhe damos o crédito suficiente para fazer da sua escolha o guia máximo que orienta o nosso trabalho. Por tudo isto, uma empresa tem de dar lucro. Uma pessoa deve ganhar mais do que gasta. Não apenas para poder continuar, mas para o fazer com honra e mérito próprios.

Outubro 11, 2012

Novos-ricos

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política Fiscal,Portugal,socialismo — André Abrantes Amaral @ 10:09

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Novos-ricos

Com as mudanças operadas no próximo orçamento de estado foram ‘promovidos’ ao último escalão do IRS, os contribuintes com rendimentos anuais superiores a 80 mil euros. 54,50%, ou seja, mais de metade do recebido acima dos ditos 80 mil euros/ano será para o estado. Não deixa de ser curioso como o socialismo deixou de dar valor ao trabalho.

Quando há poucos anos o último escalão do IRS subiu para 49%, muitos afirmaram que não se importariam pagar tanto imposto, por significar que ganhavam acima da média. Agora, alguns terão conseguido a proeza. Talvez tenham finalmente percebido uma verdade universal: o socialismo não enriquece ninguém. Empobrece todos, um por um, até sermos insignificantemente iguais perante o estado que tudo taxa, tudo consome, tudo destrói.

Há quantos anos têm vindo os impostos a subir, sem que o défice público desça? Sem que o estado gaste menos e mostre que nos respeita? A verdade é que quanto mais alimentarmos o monstro, mais ele quererá de nós. Por isso, se para ser rico ontem, era preciso ganhar mais de 153.300 euros, hoje basta ultrapassar os 80 mil. Como é que vai ser amanhã? À medida que o estado for precisando de mais dinheiro, surgirão novas vítimas: os novos-ricos do futuro são pobres do presente. Na verdade, os beneficiários da solidariedade socialista de hoje serão os pagantes de amanhã. Não há volta a dar-lhe.

Quando lidamos com um estado ostensivamente maléfico, como o foram o comunista e o nazi, sabemos que ele não vence o nosso espírito, o nosso pensamento. A resistência começa aí, sendo possível aguentar anos de opressão. Já quando trabalhamos para um estado que se apropria do conceito de solidariedade, virando do avesso a noção de moral, a resistência torna-se difícil. Ricos já não serão apenas os que têm dinheiro, mas os que criam prosperidade, os que sonham viver melhor e os que querem trabalhar. O problema é que quando matamos o trabalho, matamos a própria vida.

Outubro 10, 2012

Os lucros da Sonaecom e os prejuízos do Público

Filed under: Comentário,Media — André Abrantes Amaral @ 17:00

 

O facto da Sonaecom ter lucros não a obriga a ter de manter um jornal como o Público que dá prejuízo. Foi por estarmos convencidos do contrário, que quem tem dinheiro tem a obrigação moral de o gastar em serviços deficitários, que estamos hoje à rasca para manter o essencial.

Outubro 9, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:16

O meu artigo de hoje no jornal i.

Livres

A crise tem feito muitos pensarem ser altura de agir, de não dar mais tempo aos partidos e de o povo tomar as rédeas do poder. Um fenómeno preocupante por propiciar o surgimento de homens providenciais que não se dizem políticos, mas que sujam ainda mais as mãos.

Sucede que não existe um povo, mas inúmeros indivíduos com desejos e necessidades diferentes uns dos outros. A unidade que nos junta está nos laços familiares, na língua, na cultura, no nosso passado e no futuro que podemos construir, mas não esgota a nossa individualidade. Somos mais que um povo: somos pessoas concretas.

Sentimos hoje uma enorme frustração por não conseguirmos dar a volta aos problemas que nos afectam. Habituados que estamos a considerar tudo de forma colectiva, vemos a solução no acesso ao poder dentro do Estado: se mandarmos, recuperamos as nossas vidas. Mas não é assim: outros decidiriam por nós, algo que piora quando as massas mandam.

Se queremos as nossas vidas de volta, é tempo de exigir que os governos tenham menos poder. Que o Estado decida menos e gaste menos. Isso pressupõe poder de escolha e mais responsabilidade. Esperar menos do Estado e mais de nós, no que a nós e aos nossos diz respeito. Se não queremos ser mais explorados pelo Estado, este tem de decidir menos sobre os assuntos que nos interessam. Um Estado com menos poder é um Estado com menos vícios. Um país com cidadãos mais livres e responsáveis é um país verdadeiramente solidário e mais justo.

Outubro 2, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal,socialismo — André Abrantes Amaral @ 13:52

O meu artigo de hoje no i.

Salazar e o socialismo

Em declarações a este jornal, o presidente da Fundação Inatel, depois do corte de 30% do apoio financeiro do Estado, terá dito que “Salazar não primava por ser de esquerda e acarinhava o Inatel”. Esta frase de Vítor Ramalho parte do pressuposto que Salazar, por ser de direita, não prezava instituições de serviço público. Um erro de análise que nos tem prejudicado bastante.

Se são muitas as diferenças entre a esquerda e a direita, a crença no papel benéfico do Estado na implementação de políticas de organização social não é necessariamente uma delas. Salazar via no Estado um elemento aglutinador da nação e também uma entidade capaz de nos direccionar conforme os seus desígnios, colmatando a pouca capacidade do português de se bastar a si mesmo. Salazar não estava, aliás, longe do pensamento dominante em meados do século xx, que também marcou os socialistas europeus. As diferenças poderiam ser no caminho a seguir, nunca no papel dominante que o Estado deveria ter.

Estando o debate político, neste início de século, centrado não na discussão da estratégia a ser seguida pelo Estado, mas na sua real dimensão e papel preponderante na vida dos indivíduos, o que diferencia os políticos de hoje é a sua posição nesta matéria. Um político que atribua ao Estado um papel predominante está mais próximo de Salazar que aquele que não o faz. Talvez isso explique por que motivo o socialista Vítor Ramalho está à frente de uma instituição criada pelo Estado Novo.

Setembro 25, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal,socialismo — André Abrantes Amaral @ 10:38

O meu artigo de hoje no jornal i.

Quando a democracia falha

De acordo com uma sondagem da Universidade Católica, 87% dos portugueses dizem-se desiludidos com a democracia. Sentimos que se falhou na democracia quando se permite que mais de metade do que auferimos com o nosso trabalho vá para um Estado que está falido.

O Estado não tem dinheiro. Mas se ninguém quer pagar mais impostos, poucos querem que o Estado deixe de sustentar empresas, fundações, institutos, ensino gratuito para quem o poderia pagar, empregos que não são precisos para nada e subsídios culturais de retorno nulo. O Estado não tem dinheiro, mas a maioria não deixa que se mexa em nada, porque isso seria desestruturar o Estado que, dessa forma, está a desestruturar a economia.

São poucos os que não esperam receber o quer que seja do Estado, nem querem viver na dependência da sua generosidade. A grande maioria prefere contribuir para o bem comum, recebendo o seu quinhão. Dessa forma, caímos numa armadilha: instituímos uma democracia que favorece uma maioria sedenta de favores públicos e desprotegemos os indivíduos, vistos como egoístas e insensíveis. Agora, a maioria massificada virou-se contra a maioria de nós, quando individualmente considerados. Como pessoas, sentimo-nos desprotegidos e frágeis perante o poder cego do Estado, quando a maioria que recebe conhece agora o preço individual da factura. A democracia, se falhou, foi porque negligenciámos a liberdade individual e deixámos os cidadãos sós contra uma maioria que ninguém controla.

Setembro 24, 2012

Mudar

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política — André Abrantes Amaral @ 10:25

O meu artigo de hoje no Diário Económico, sobre uma eventual remodelação governamental.

Mudar

Quando formou governo, Passos Coelho fê-lo com o intuito de ser pequeno, mostrando, dessa forma, cuidado em cortar no supérfluo e em dar o exemplo. Mas não se ficou por aqui: entre os ministros que não eram do CDS, o primeiro-ministro deu primazia a independentes, negligenciando os que tinham experiência política. Pouco mais de um ano após ter tomado posse, a fórmula seguida parece não ter dado certo.

Se as falhas na comunicação minaram o ministro da economia desde o início e apagaram o árduo trabalho até agora apresentado, já o ministro Nuno Crato parece perdido na teia burocrática do ministério da educação. Até Victor Gaspar malbaratou o brilho e o estado de graça de quem parecia saber o que fazia. Este governo não teve (nem tem) calibre político, principalmente quando o que se apresenta com curriculum na matéria está enredado numa novela à volta da sua licenciatura. Assim, quando falamos de uma eventual remodelação, mais que os nomes, é importante saber que tipo de governo Passos Coelho vai querer daqui para a frente. Se vai dar ênfase à política, se à tecnocracia.

Andamos hoje no fio da navalha. Se este governo falhar, sairemos do euro e levaremos anos a recuperar de um erro momentâneo. É por isso que Passos não pode errar uma segunda vez. O seu governo precisa de quem esteja preparado para o combate político. Para o que der e vier. Não pode cometer erros de palmatória, nem se deixar surpreender com declarações como as que Paulo Portas proferiu após a decisão do governo sobre a TSU. Até porque os ministros do CDS são controlados por Portas e têm experiência política.

Daí que a existir uma remodelação ministerial, provavelmente ela trará caras conhecidas para o governo. Se assim for, não serão as mais simpáticas, nem populares. Não se espere um novo estado de graça, mas um governo que não pode dar tréguas. Porque, e ao contrário do que aconteceu nos últimos meses, não se poderá dar a esse luxo.

Setembro 19, 2012

A história repete-se quando não se aprende com os erros

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 16:05

Antes de defender um governo de iniciativa presidencial, lembre-se, cada um, do que disse em 2004.

Uma democracia não devia ter tido donos na altura; uma democracia não deve ter donos agora.

« Página anteriorPágina seguinte »

Tema: Customized Rubric. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 3.146 outros seguidores