A França e os atentados de Paris

Fora da minha habitual coluna à quinta-feira, o Jornal ‘i’ pediu-me que escrevesse um texto de opinião sobre os atentados de Paris na sexta-feira passada.

França: a crise da igualdade diferenciada 

Os atentados de Paris impõem duas breves considerações e ao levantamento de uma questão até agora metida na gaveta, porque incómoda, mas que tem de ser analisada e revista sob pena de não se encontrar uma solução o mais completa possível para um problema complexo.

Comecemos, pois, de forma ordenada:

1) No dia a seguir aos atentados, o primeiro-ministro Manuel Valls declarou, repetidas vezes, na TF1 que a França estava em guerra. Acrescentou ainda que o inimigo será combatido em França, mas também na Síria e no Iraque. O tom, as palavras e a estratégia do socialista Valls em tudo são iguais ao que George W. Bush apregoou após o 11 de setembro de 2001. Não interessa aqui sem bem ou mal; apenas salientar a semelhança entre os dois e que, quando um país é atacado, o Estado, que tem como função essencial a defesa dos cidadãos, tem o direito de reagir da melhor forma que souber e puder.

2) Sabe-se hoje que alguns terroristas que perpetraram os ataques na passada sexta-feira entraram na Europa vindos da Síria juntamente com os refugiados. Tem sido dito que a forma como a Europa olha para estes vai mudar. Até pode ser que sim, mas não deve ser assim. A resposta europeia deve focar-se na derrota do denominado Estado Islâmico, com recurso a agentes infiltrados, incursões de tropas de elite, treino dos soldados curdos e iraquianos e até mesmo ao envolvimento directo de soldados franceses, ingleses, norte-americanos, e veremos qual o papel que a Rússia quererá assumir nesta matéria. O Estado Islâmico deverá ser destruído e um novo equilíbrio no Médio Oriente terá de ser encontrado com realismo. Por muito duro que seja dizê-lo a Europa, os EUA e a Rússia deverão trabalhar para que surjam Estados suficientemente fortes que contenham a violência e mantenham a estabilidade na região.

3) Também na Europa há muito trabalho a ser feito. Quase de propósito, a edição da Le Point saída no dia 12, véspera dos atentados, contém uma entrevista com Pascal Bruckner, um dos novos filósofos que nos anos 70 e 80 questionaram o que denominaram por ilusão trotskista, ou seja o niilismo que daí saiu, a compaixão hipócrita de certa esquerda pelos pobres e conseguiram compreender a semelhança entre o comunismo, o fascismo e demais ideologias de extrema-direita, um debate que em Portugal tarda a começar. Nessa entrevista, e criticando fortemente o discurso politicamente correcto que a esquerda impôs à França, Bruckner diz que o Estado francês enfraqueceu as minorias com as suas políticas de protecção das suas especificidades, afundando-as no seu modo de vida, tradições e cultura donde as pessoas pertencentes a essas minorias se querem afastar. Bruckner relembra que se o ideal republicano é a promoção social e o esquecimento dos determinismos religiosos, étnicos e culturais, a política francesa para os imigrantes criou um racismo de anti-racismo, que afunda os imigrantes, os indivíduos, numa cultura de onde querem fugir mas que não conseguem porque não os deixam. São pessoas que querem deixar de ser minoria mas que a maioria bem-pensante decidiu protegê-los impedindo-os de se libertarem do determinismo cultural étnico e religioso de onde querem fugir. É que o conceito do todos diferentes todos iguais falha quando todos querem simplesmente ser iguais.

Perceber este fenómeno, este colete de forças em que vivem os franceses que não deixam de ser filhos dos árabes em França é uma das muitas, e são muitas e não apenas esta, explicações para se compreender o que leva alguns milhares a tomar a decisão radical de se sublevarem da forma mais drástica e violenta que podemos imaginar contra os valores franceses. Valores em tudo meritórios, mas que nas últimas décadas têm sido distorcidos em prol de uma ideologia e de uma visão do mundo.

A França lembra uma panela de pressão. Durante anos insistiu-se numa política de integração que mantivesse as diferenças, mesmo quando os  detentores das mesmas as queriam esquecer. Ao contrário do que é aconselhável num debate intelectual sério, em que as ideias devem ser debatidas de forma honesta e imparcial, qualquer chamada de atenção para os riscos dessas políticas foram carimbadas de racistas. Assim tem sido porque não se visa encontrar a melhor solução, mas impor uma ideologia, uma forma de vida, uma orientação política. A França terá de reinventar o país que tem sido desde o final da Segunda Guerra Mundial. Pelo que conhecemos dos franceses, da sua cultura e filosofia, do seu gosto pelo debate e raciocínio argumentativo, da forma sublime como, na falta de um colete de forças que os sustenham, são expostos os melhores argumentos, não me parece que haja melhor desafio que este.

14 anos depois

Ouvir hoje Manuel Valls (ou François Hollande) é ouvir George W. Bush 14 anos depois.

Nous frapperons cet ennemi pour le détruire, bien sûr en France mais aussi en Syrie et en Irak. Et nous répondrons au même niveau que cette attaque. […] Et nous gagnerons cette guerre. […] Nous répliquerons coup pour coup pour anéantir Daesh.

O Bloco quer destruir o euro

O meu artigo hoje no jornal ‘i’.

O Bloco quer destruir o euro

Há quem considere que depois das primeiras medidas do governo do PS apoiado pela extrema-esquerda, o país acordará e se livrará de vez do populismo e da demagogia. Não estou assim tão certo e optimista. A razão para o meu pessimismo prende-se com comportamento do Bloco (BE) em todo este processo de reversão dos resultados das eleições, quando comparado com o do PCP. Essa diferença radica na forma, mas também no propósito e nos fundamentos dos dois partidos.

Enquanto Estaline preferiu centrar-se na governação da URSS, Trotsky não desistiu de exportar a revolução soviética. Queria semear o caos na Europa para depois criar um mundo novo. Sendo o BE de inspiração trotskista e o PCP um partido estalinista, compreende-se porque reagiram os dois de forma diversa ao desafio do PS.

Enquanto o PCP prefere manter o que tem, o BE visa exportar o caos que vai criar em Portugal. Foi assim com a Grécia, quando o BE alinhou com o Syriza e o PCP foi mais contido. Enquanto o PCP visa não perder influência, o objectivo do BE é estoirar com as contas públicas para depois culpar os mercados e exigir a saída do euro. Juntando-se Portugal à Grécia, é dado mais um passo para o colapso do euro. Há anos que o BE compara Portugal com a Grécia. Não interessa que seja falso; interessa que venha a ser verdade. Para serem dois, e depois a Espanha, e a seguir, quem sabe, a Itália.

Um por um, o objectivo é o caos sobre o qual se construirá um paraíso infernal. Acreditem: não haverá cura, mas muito sofrimento.

Mudança (II)

As medidas do programa do PS (completamente contrário àquele com que se comprometeu com o eleitorado) vão dilacerar o esforço de consolidação das contas públicas. O resultado será menos investimento, mais desemprego, menos receitas. Os mais prejudicados serão os mais pobres. Aqueles em nome de quem os políticos de esquerda falam mas não conhecem.

A partir de agora a esquerda deixará de ser a voz dos desfavorecidos. Responsável pelo empobrecimento terá de se explicar. Pôr-se na defensiva.

Também aqui o regime mudou.

Mudança

A partir de hoje é a esquerda que tem de se justificar. De se explicar. A partir de hoje, e após derrubar o governo do partido que ganhou as eleições para pôr no seu lugar outro que as perdeu, de querer levar a cabo um programa que não foi submetido à soberania do voto, a esquerda terá de provar, cada vez que falar, cada vez que der uma opinião, que é democrática. Que respeita as regras democráticas.

O ónus mudou. O regime mudou com ele.

Os efeitos do novo programa de governo do PS vão ser dolorosos

O novo programa do PS (que não foi sufragado nas urnas) prevê um défice 2.8% do PIB em 2016. O PS espera que o aumento da despesa leve a mais consumo e que isso faça a economia crescer e as receitas aumentar. Só que há um problema que o PS ainda não percebeu ou finge não perceber porque não lhe interessa: o endividamento excessivo do Estado que faz com que o dinheiro que o PS pretende gastar seja emprestado a juros cada vez mais elevados.

Ou seja, ao contrário do que PS+BE+PCP andam por aí a dizer, ninguém vai enriquecer com as medidas de um governo de esquerda. Vamos apenas voltar a viver com o dinheiro que receberemos nos anos mais próximos e que servirá, não para gastarmos ao nosso gosto, para investirmos ou para pouparmos, mas para pagarmos dívida.

Este problema existe há muitos anos. Nessa altura também a maioria dos portugueses não enriqueceram; limitaram-se a viver com o que iriam ganhar no futuro que se tornou o momento presente. Simplesmente, até mais ou menos 2008, como o endividamento, apesar de caminhar nesse sentido, ainda não era avassalador, havia a ilusão de que o dinheiro que se pagava em impostos chegava porque não se sentiam os efeitos imediatos da dívida.

Até mais ou menos 2008, os efeitos dos erros cometidos não eram imediatos. Agora, são. E caso o governo de esquerda tome posse e avance com o que ameaça fazer, o Natal já vai ser doloroso.

No Fio da Navalha

O meu artigo no jornal ‘i’ de ontem.

Empresários, Estado e mercados

O director adjunto do “Expresso”, João Vieira Pereira, escreveu há dias sobre os empresários que têm ficado calados com a tentativa de Costa de chegar ao governo com o apoio do PCP e do BE.

Se há sector em que se sentem os malefícios da intervenção do Estado é nas empresas. Há décadas que os grandes empresários e as grandes empresas se habituaram a um Estado que os protege da livre concorrência. Tirando os pequenos e médios empresários, que, esses sim, lutam diariamente para conseguir mais clientes, a confusão entre as grandes empresas e o poder político torna-as uma pequena caricatura do que poderiam ser.

Mais que empresários aprecio mercados livres. Sendo o mercado a soma das escolhas que fazemos todos os dias, a sua deturpação através de decisões políticas é uma limitação da nossa liberdade. E como existem tantos mercados quantos os produtos, tantos mercados quantas as pessoas, os mercados são arbitrários e duros. Naturalmente, apenas um empresário muito bom, ou que goste do desafio, prefere não ser protegido apesar de com isso prejudicar a maioria.

Por isso o poder político deve ser imparcial. Deve saber que favorecendo uns empresários prejudica outros e os consumidores. O problema é que também os políticos querem ter influência e nada mais fácil que consegui-lo com o apoio daqueles que se deixam ir. E quando isso sucede o espírito crítico e a liberdade de protesto desaparecem. É aqui que a conivência com o socialismo silencia até os mais poderosos.

Sá Carneiro e Passos Coelho

Muito interessante este artigo do Miguel Pinheiro​. Tendo em conta os acontecimentos dos últimos tempos, não será esta a altura de PSD e CDS se fundirem de vez num único partido? Ou acham que a história não se vai repetir?

A soberania do país e do povo no entender da esquerda

O meu artigo no Diário Económico de ontem.

A soberania segundo a esquerda

Um dos objectivos de um governo de esquerda é mostrar que o país não deve ficar refém dos mercados financeiros. A intenção será promover o consumo repondo os salários e aumentando as pensões, além da aprovação de outras medidas para que as pessoas tenham mais dinheiro na carteira.

O conceito parte do pressuposto que não o fazer é uma opção ideológica, como se alguém preferisse a austeridade à prosperidade. A esquerda faz uso deste esquema mental ao mesmo tempo que não explica como se paga a alternativa. É que, da mesma maneira que interessa confundir austeridade com ideologia, não convém lembrar que as políticas de esquerda serão financiadas pelos mercados. Como os impostos não chegam para pagar o socialismo, serão os investidores estrangeiros a emprestar o dinheiro necessário, com juros mais altos que aqueles que uma política de rigor permitiria.

É curioso como as políticas de esquerda, que pugnam pela soberania de Portugal, respondem por um maior endividamento do país e o pagamento de juros que o povo de forma soberana, através do voto, declarou não querer, mas que certos políticos soberanamente entenderam de outra forma.

É que bem analisado para a esquerda a soberania não passa da possibilidade de um grupo fechado decidir de acordo com os seus interesses sem querer saber das consequências; sem querer saber que isso implica hipotecar ainda mais o país e as pessoas. Para a esquerda a soberania do país não é mais que uma justificação para agir sem freios.

A soberania tal como é percepcionada pela esquerda não se trata da liberdade de cada um de nós ser capaz de escolher. A soberania para a esquerda é o exercício do poder por poucos em nome de todos e com o menor escrutínio possível. Até porque é a isso que a escassez de dinheiro obriga: ao exame minucioso da utilização dada ao dinheiro público; à percepção que este não é mais que a entrega, baseada num contrato entre o povo e o poder político, de parte dos rendimentos dos cidadãos para que sejam bem aplicados em nome da comunidade.

Nada que espante quando sabemos o valor que a esquerda dá ao voto. Para PS, PCP e Bloco não interessa que os respectivos programas eleitorais sejam antagónicos e jamais uma aliança entre os três tenha sido referida para ser votada. Não interessa que os três tenham perdido as eleições. Como tantos à esquerda têm notado, PSD e CDS não ganharam; apenas tiveram mais votos. Quando tudo se reinventa, o que mais resta? Para uns a consciência, para outros a falta de vergonha. Mas a soberania de um povo, de um país, é muito mais que as inúmeras justificações de um golpe, formalmente possível, mas ética e politicamente inaceitável.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal ‘i’.

A cor dos extremismos

O desinteresse de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa pelos resultados eleitorais é todo um programa: três partidos que se unem apenas para impedir que quem venceu governe. O PS, que em 2011 colocou em causa a sustentabilidade do Estado social, pôs agora em xeque as há muito estabelecidas regras democráticas do regime. A esquerda não se extremou por acaso.

O normal funcionamento da democracia está distorcido. Aconteceu na primeira vez que o PS se disponibilizou a ser governo com o apoio da extrema-esquerda. O homem que, nas primárias, o PS escolheu para ser primeiro-ministro quer sê-lo sem ganhar e na dependência do PCP e do Bloco. Dois partidos que defendem políticas próximas da Frente Nacional (FN) em França. Aqueles que dizem não estarmos em 1940, o que pensam quando lêem o programa eleitoral do PCP e do Bloco e o comparam com o da FN? Seriam também benevolentes com a chegada de Marine Le Pen ao governo? Ou os princípios são como os interesses: variam e justificam-se conforme as cores?

Mas a questão será também económica. PCP e BE aceitam agora o euro, mas impõem medidas que minam a continuação na moeda única. Esta tem regras e o dinheiro para a despesa que se avizinha virá dos mercados. A esquerda tem destas incongruências: em nome da soberania, torna-nos mais dependentes. Será curioso ver a esquerda, à semelhança de Salazar, clamar contra o estrangeiro quando as coisas não correrem bem. É que, por muito que doa, os extremismos têm a mesma cor e não se justificam. Combatem-se.

PCP, BE e Frente Nacional de Marine Le Pen

O meu debate de ontem com Marco Capitão Ferreira sobre o impasse político do momento, durante o qual comparo o programa da FN em França ao do PCP e do BE em Portugal. As tácticas utilizadas para se chegar ao poder não surgem por acaso; foram aprendidas há muitos anos.

Fronteiras

Sugiro leitura deste importante artigo de Helena Matos. Com as linhas vermelhas a serem traçadas, onde é que a consciência de cada um de nós nos vai colocar? Estamos perante um daqueles momentos em que pondo de lado a nossa vida diária, pessoal, nos devemos interessar, debater, e combater, o que se está a passar.

O PS que pôs em causa a sustentabilidade do Estado social, põe agora em xeque as há muito estabelecidas regras democráticas do regime.

Faz de conta que somos todos estúpidos

Faz de conta que quem ganha as eleições não governa; faz de conta que o actual regime não é semi-presidencial; faz de conta que a esquerda tem um acordo para governar.

Há uma coisa que me ensinaram há muitos anos: o verdadeiro esperto é aquele que conta com a esperteza dos outros.

 

No Fio da Navalha

O meu artigo no Jornal ‘i’.

O sequestro da bola

Na noite eleitoral do dia 4 de Outubro, e perante os resultados que anunciavam a derrota do PS, António Costa notou algo diferente. Costa viu que, não tendo a coligação PSD/CDS maioria absoluta, podia obstruir a formação do futuro governo. Para melhor compreendermos o raciocínio, temos de o enquadrar com as sondagens que durante um ano deram como certa uma vitória clara do PS e o espezinhamento da coligação de direita.

Mas não bastava recusar entendimentos com o PSD/CDS. Tal dificultaria um pouco a acção governativa, mas não a impossibilitava. Para impedir o que seria o seguimento normal dos resultados eleitorais, era preciso ameaçar com uma coligação à esquerda. Esta jogada apanhou o PCP de surpresa que, perante a disponibilidade do Bloco, teve de se mostrar interessado em conversar.

O que sucedeu depois é tão cómico que só não dá vontade de rir porque não se trata de uma britcom, mas das nossas vidas. Ver Costa a fingir que negoceia com a direita enquanto conversa com a esquerda, dizendo que com aqueles que lhe fazem propostas as conversações não avançam e que com quem nada de concreto se sabe estas estão bem encaminhadas, devia ter piada, mas assusta.

Costa lembra aqueles miúdos que, com a bola debaixo do braço, não deixavam jogar enquanto estivessem a perder ou não ditassem as regras. Os outros, contrariados, lá se conformavam ou deixavam-no ir. O que se está a passar é a mesmíssima coisa, com a única diferença de que não se trata de uma brincadeira, mas de nós.

Um PS doente

O meu artigo no Diário Económico de hoje. Os outros artigo aqui mencionados: Um PS anti-Europa? e À esquerda, também publicados no DE, respectivamente, em 3 de Outubro de 2014 e 12 de Dezembro de 2014.

Um PS doente

Foi Margaret Thatcher quem disse que o socialismo termina quando acaba o dinheiro dos outros. Não deixa de ser curioso que seja a moeda única europeia, para cujos riscos a primeira-ministra britânica tanto alertou, que mais tenha contribuído para este facto. Na verdade, a crise que os partidos socialistas estão a atravessar advém da impossibilidade de se fazer dinheiro como no passado. Limitados na política monetária, os governos são forçados a controlar as contas e a pensar muito bem antes de prometer mundos e fundos ao eleitorado.

Em virtude disso mesmo, os partidos socialistas europeus têm estado num alvoroço de radicalização permanente e continuada. Encontramos exemplos nesse sentido na oposição de Arnaud Montebourg, ex-ministro socialista da recuperação produtiva e industrial, ao governo do PSF de Manuel Valls em França, na desorientação do PSOE em Espanha, na insignificância do PASOK na Grécia e no comportamento de António Costa em Portugal.

Em Dezembro do ano passado tive oportunidade de me referir neste jornal à radicalização que estava a tomar conta do PS. Na altura, o mote foi um artigo de um militante socialista, Tiago Barbosa Ribeiro, no jornal Público que criticava Francisco Assis e defendia uma coligação do PS com a extrema-esquerda. Os factos são delicados, mas convém mesmo assim analisá-los: perante a queda do Muro de Berlim, foram muitos os que não viram nesse acontecimento a falência de uma ideologia, mas a aprendizagem da melhor forma de lhe contornar as imperfeições. Desobrigados dos partidos comunistas, entrincheiraram-se no centro moderado onde o PS os acolheu, até que a crise financeira de 2008 e, posteriormente, do euro lhes deu a oportunidade para mostrarem o que valem e ao que vêm.

Percebendo estes factos, compreendemos melhor a recusa de António Costa para entendimentos com a direita e o seu comportamento depois das eleições. É que não se trata apenas da frustração de quem toda a vida esperou por algo que lhe fugiu em cima da meta, mas a compreensão de que o socialismo do passado não se coaduna com a moeda única e que o PS está inundado de militantes e dirigentes que têm outra percepção do que seja a Europa, do que deve ser Portugal, de como funciona uma democracia e do papel que o Estado deve ter na vida das pessoas.

Ainda noutro artigo para este mesmo jornal, em 3 de Outubro 2014, me referi ao facto de o PS não ter um plano ‘B’ caso as suas políticas de não austeridade fossem chumbadas em Bruxelas. E questionei-me qual seria, perante o não europeu, a escolha de Costa. Há um ano, um PS anti-Europa era uma mera hipótese; agora, e perante o desenrolar dos acontecimentos e um PS não mais previsível, mas politicamente doente, é uma ameaça com o sério risco de se tornar verdadeira. Perigosamente real.

No Fio da Navalha

O meu artigo hoje no jornal ‘i’.

Democracia

Um governo PS com o apoio do PCP e do BE está de acordo com as disposições constitucionais. Esta é a forma. Mas a política não se cinge à forma, ao cumprimento da letra da lei. Se assim fosse, e por muito que aquilo que António Costa está a fazer não fira o texto constitucional, boa parte do PS não estaria chocado. Nós não estaríamos chocados.

Mas estamos. E estamos porque a actuação de António Costa peca em três pontos: em primeiro lugar, o PS não ganhou as eleições. Fundamentalmente, ao não permitir que quem as venceu governe, Costa não apenas tem mau perder como põe o país dependente da sobrevivência do PS, que receia seguir as pisadas do PASOK na Grécia. Em segundo lugar, ao colocar-se ao lado da extrema-esquerda, o PS torna-se refém desta. Precisará cada vez mais dela até ser sugado pela prática constante de se anular para se manter no poder.

Por fim, se o objectivo de um governo à esquerda é reverter as políticas dos últimos quatro anos, porque não se uniu a esquerda antes do voto? Se era assim tão linear, porque não foram a jogo de forma clara? A resposta é simples e óbvia: porque tiveram medo. É muito mais fácil perder e depois, só depois de o povo escolher, decidir.

Depois de ter estado com Costa, Catarina Martins afirmou que o governo Passos-Portas tinha terminado naquele momento. Veja-se como o governo não termina no dia das eleições, mas à saída de uma reunião à porta fechada. As regras podem estar a ser cumpridas mas, quando quem ganha não governa, cabe perguntar: é esta a democracia que escolhemos?

Descaramento

É como deitar abaixo o resto do muro de Berlim, António Costa, hoje.

Alguém lhe diga, sff, que quando o muro caiu as pessoas fugiram dos comunistas não foram ter com eles pedindo-lhes apoio para governar.

Desvergonha

“Fica hoje claro que governo de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas acabou”, Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, 12 de Outubro 2015.

Atente-se bem nisto: o governo não terminou no dia das eleições. O governo termina quando Catarina Martins, após reunião à porta fechada com António Costa, decidiu dever terminar.

Com que cara é que esquerda vai olhar para cada um de nós a falar de democracia?

 

 

A capitulação

Vale a pena ler o artigo de António-Pedro Vasconcelos (APV) no Público para perceber o que vai na cabeça da esquerda bem pensante. Para APV, Costa deve permitir que a coligação tente formar governo impondo-lhe um programa de esquerda, contrário ao seguido nos últimos 4 anos. Para APV pouco interessa o que possa depois suceder ao Estado e às pessoa. O fundamental é que um programa de esquerda, uma ideologia, seja levada à prática, mesmo que não tenha sido sufragado nas urnas, até porque os que agora ponderam se unir não o fizeram antes das eleições de modo a que o eleitorado se pudesse pronunciar.

Mas é na forma como APV termina o artigo que tudo se revela, quando se refere a Costa e à sua trupe como os melhores. É que a partir do momento em que é num artigo de jornal que se indicam, independentemente dos resultados dos votos, quais os melhores para governar, já não se vive em democracia, mas na aparência duma. Mas também não espanta: quantos realizadores não capitularam já?

A táctica de António Costa

Até hoje a esquerda arroga-se dona do regime. Caso Costa conduza para o governo um PS derrotado nas eleições em coligação com o PCP e o Bloco, a esquerda perderá a legitimidade política que a si mesma se atribui e que lhe confere uma impunidade ideológica para dizer, acusar e julgar tudo o que lhe apetece. Os eternos indignados passam a ser de direita e não mais de esquerda. A alteração das forças política que disso resulta será brutal.

Acresce que, uma vez no governo, PCP e Bloco terão finalmente de decidir. E quem decide, magoa. Fere. Perde aliados e ganha adversários. Algo que não estão habituados a fazer. É certo que o Bloco pode antever a possibilidade substituir, a prazo, o PS como partido principal da esquerda portuguesa à semelhança do que o Syriza fez ao PASOK na Grécia, mas comporta riscos que veremos se a ala mais antiga do BE está disposta a aceitar.

Já os socialistas estão encurralados. Se se coligam com a extrema-esquerda, perdem o centro. Se não o fazem serão acusados de pactuar com a direita e perdem o acesso à esquerda.

É por estas e por outras que julgo que Costa não pondera uma coligação de governo com o PCP e o Bloco. Costa Limitar-se-á, o que não é pouco, a uma aliança parlamentar para aprovação de determinados diplomas como sejam a reposição das 35 horas semanais na função pública, uma nova lei das rendas e outras medidas que agradem o eleitorado de esquerda e que não oneram os partidos que a representam com o peso da decisão. Será o melhor dos dois mundos: criar entraves à governação, sem ter de assumir as consequências.

No mais, Costa viabilizará o governo de direita porque será um governo limitado por si, preso numa teia de alianças e acordos à esquerda. Assim se manterá como líder do PS e ponte entre todos que os socialistas não ousarão questionar.  Os próximos tempos serão, pois, um compasso de espera até que a melhor oportunidade para que esta paz apodreça de vez, o governo caia, o país vá a votos e decida se gostou da experiência e dos resultados. Uma vez mais, repito o que tenho dito: é bom que PSD e CDS se entendam se vez para que um partido de direita, que una toda a direita, seja capaz de fazer frente a esta frente de esquerda que se anuncia.

A fusão da direita e o drama do PS

O meu artigo no Diário Económico.

A fusão da direita e o drama do PS

O PS perdeu porque a direita se uniu e a extrema-esquerda ganhou votos. Com a junção da direita, o PS repete o dilema que viveu nas legislativas de 1979 e 1980, quando a APU teve resultados semelhantes à soma da CDU e do Bloco. O que não deixa de ser irónico porque o PS está a pagar o preço de se ter posto, desde os anos 80, à margem do debate político.

É certo que o PS foi castigado pelo que aconteceu em 2011 e por não ter percebido as razões e as consequências da crise actual. Mas isso não basta para compreender o que se passou. Isso explicaria que os socialistas perdessem votos para a direita, mas não para o CDU e o Bloco quando precisava deles para vencer e derrotar um governo que, nas palavras da esquerda, castigou os trabalhadores e os mais pobres.

Como é que depois do fim do comunismo, boa parte do eleitorado de esquerda não se revê no PS? A descredibilização da esquerda moderada não acontece apenas em Portugal, mas em Espanha, França e também no Reino Unido. Nick Cohen, um conhecido jornalista e comentador político britânico de esquerda, tem vindo a alertar há muito para esta ameaça que se tornou realidade. Ainda no mês passado, e depois da eleição de Jeremy Corbyn para líder dos trabalhistas, Cohen explicou na revista britânica Standpoint como é que um radical tomou conta daquele partido. O que Cohen nos diz é que o partido trabalhista desistiu do combate ideológico e se preocupa meramente com a distribuição de fundos estatais.

O socialismo aburguesou-se de tal maneira que quem queira ser de esquerda é forçado a ser extremista. Acrescente-se que o PS nunca quis defrontar o BE nem o PCP porque tem sido mais fácil esperar que o poder lhe caia no colo vindo do centro. Ora, a união da direita muda este cenário. É que, apesar da vitória, o resultado da direita é baixo em virtude da difícil legislatura que teve de enfrentar. Assim, uma direita unida, com votações à volta dos 40%, obriga a que o PS vá buscar os votos à esquerda; que faça o trabalho que tem pendurado desde 1980. No fundo, e depois da direita ter posto de lado o autoritarismo do Estado Novo, cabe ao PS fazer com que boa parte da esquerda se volte para a democracia e aceite as liberdades individuais e a economia de mercado que são a marca do normal funcionamento de uma democracia ocidental.

Se não o fizer continuará desesperado à caça do voto como fez na última semana de campanha. O PS deve perceber que, com a crise financeira e o endividamento dos Estados e das economias que os sustentavam, governar implica ser-se político como se era há 40 anos. E que o debate de que fugiu quando o projecto de Sá Caneiro e Amaro da Costa caiu em Camarate está em cima da mesa à espera de ser tratado no Largo do Rato. A democracia agradece que ponham mãos à obra pois a clarificação ideológica só torna a política portuguesa mais transparente e as escolhas de todos mais lúcidas.