O Insurgente

Janeiro 2, 2012

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:45

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

A bolha chinesa

Em 2012, podemos assistir ao início do fim do milagre chinês.

Há um ano, Robert Kaplan, jornalista norte-americano e assessor do Departamento de Defesa dos EUA, publicou ‘Monsoon’ (Random House). Um livro sobre os equilíbrios estratégicos no Oceano Índico e o futuro do poderio norte-americano naquela região. Para Kaplan, as águas que outrora Afonso de Albuquerque quase conseguiu dominar, voltam a ser vitais porque banham uma série de países que fazem fronteira com a China. Um país com um regime que, se em 1989 tremeu quando estudantes fizeram frente a uns tanques, se está agora a tornar numa potência mundial. Compra empresas pelo mundo fora, dívida pública europeia e, claro está, armas.

Não há norte-americano que não se preocupe com o investimento chinês nas forças armadas. Se há países que com dimensão são por natureza potências mundiais, a China é um deles. No mundo globalizado em que vivemos, onde os negócios estão interligados, numa comunhão que integra já não apenas a Europa, EUA e o Canadá, mas todas as regiões do globo, a dimensão da China conta. Conta ao ponto de um problema chinês ser também um problema nosso. E a China, ao contrário do que muitos possam supor, tem demasiados problemas.

Gordon G. Chang é um advogado chinês, há décadas a viver nos EUA, que tem alertado para o iminente colapso da China. No seu livro, ‘The Coming Collapse of China’, editado em 2001, Chang prevê que os 4 grandes bancos chineses, todos eles propriedade do estado e endividados até à medula por satisfazerem os interesses privados da elite comunista, podem ser os grandes causadores da catástrofe que se adivinha naquele país. Não se trata apenas da corrupção, inevitável quanto mais o estado intervém na economia, mas dos variadíssimos projectos megalómanos que estão ser levados a cabo na China, sem qualquer retorno. Cidades desertas que custaram balúrdios. Construções totalmente inúteis, que nunca serão pagas, nem cujas perdas serão contabilizadas, pois onde não há escrutínio, tudo se apaga ao ponto de nunca ter existido. Conforme nos explica Chang, cerca de 2 a 3 por cento do crescimento económico chinês é excesso de produção. Produtos que jamais serão consumidos, de que nada servem, mas que consomem recursos, dinheiro, tempo e energias que seriam melhor aplicados noutras actividades. Excessos que pressionam o surgimento da inflação. Gastos supérfluos que estão a criar muitas bolhas, cujo rebentamento terá um impacto talvez maior que aquele que nos atinge neste momento.

Os comunistas em Pequim têm um medo de morte de perder o poder. Por isso, além de incitarem o sentimento nacionalista, tudo controlam, ignorando as correcções que, em qualquer sociedade onde o estado pouco intervenha, são feitas através de um diálogo diário e silencioso, entre consumidores e produtores. Como reconhecer o erro é, naquele regime doentio, meio caminho andado para ser posto em causa, o partido comunista chinês joga tudo por tudo numa fuga para a frente. O tal passo em frente em direcção ao precipício. Não há falências, porque é mais fácil ignorar as regras de contabilidade. Mais fácil, mas mais doloroso. Para a China e para nós.

Termina hoje o ano em que o Ocidente pôs as mãos na consciência e se deu conta de quanto custa a interferência dos estados nas decisões económicas das pessoas. O ano em que contabilizámos o dinheiro que se gastou e a riqueza que não se produziu, porque os decisores políticos planearam como a vida na Europa devia ser orientada. No ano novo é tempo de recearmos o que vai acontecer na China, fruto desses mesmos erros, mas numa escala maior. O regime chinês tem um dilema: para sobreviver precisa de estabilidade que depende de um forte crescimento económico que, por ser artificial, gera instabilidade. Em 2012, a China pode complicar mais com os seus problemas que com a sua força. A história não acabou em 1989, nem em 2008. Na verdade, ainda tem muitas reviravoltas para dar.

Dezembro 19, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 10:34

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A ferida da Europa

A Europa liquidou-se quando matou a diversidade e destruiu a sua riqueza interior. Para este mal, não há euro que lhe valha.

A vida não reflectida, não é digna de ser vivida.

George Steiner

Até à segunda guerra mundial, existiam na Europa estados com muitos povos, e povos que se distribuíam por muitos estados. A Europa tinha, acima de tudo, cidadãos que se misturavam, mudavam de uns países para os outros e não se agarravam a qualquer deles. Eram judeus, ciganos, húngaros, checos, polacos, bascos, povos que pertenciam a algo mais profundo que o poder político e militar. Claro que hoje há quem saia do seu país e vá para outro. Mas é do seu país que sai e não de um local onde vive. Se antes as pessoas estavam, à superfície, politicamente unidas pelo poder do rei, existia também, como que de uma forma subterrânea, uma ligação cultural e espiritual com as que viviam em estados diferentes. Em Portugal, um dos Estados-nação mais antigos do mundo, temos dificuldade em perceber o fenómeno. Mas ele existe e marcou a Europa durante séculos.

Em 2004, George Steiner, também ele um judeu, nascido em Paris, filho de pais austríacos e a viver no Reino Unido, proferiu uma palestra sobre a Europa (A Ideia de Europa – Gradiva). Nesta sua intervenção, Steiner (um dos últimos europeus vivos), procurou definir a Europa através do café, como local conspirativo, de convívio e conversa que só existe neste continente; da paisagem demasiado humana que permite atravessar o continente sem dificuldades de maior e dos nomes que damos às ruas e às praças, em memória do passado. Referiu também a herança de Atenas e Jerusalém que permitiu aos europeus não apenas descobrir, mas questionar. De como o diálogo com o Deus Judaico, conduziu os europeus à ideia de consciência social e de justiça, como sendo algo mais valioso que o orgulho e a honra. A arte, a arquitectura, a filosofia, a literatura, a música europeias tem disto tudo um pouco. A busca do belo, da harmonia a partir da audácia que tudo questiona, que nada encara como perene. A consciência de que a sua própria existência tem um fim, é, aliás, o último axioma que Steiner utiliza para definir a Europa.

Foi esta diversidade que desapareceu no século XX. Foi um processo longo e lento, talvez começado quando Napoleão uniu os franceses à volta do Estado e os europeus contra os franceses. A partir daí, a história europeia é mais sobre estados que sobre povos. Um processo que culmina na Segunda Grande Guerra, com o extermínio dos judeus e o fim da diversidade. Do espírito de comunhão que nos unia a todos. Com as duas grandes guerras, a Europa não perdeu apenas os impérios, mas a sua força interior. A diversidade que a unia. A capacidade de conseguir ser uma casa para tantos. A riqueza espiritual que nos obrigou a reflectir, a questionar, a descobrir novos conceitos, sistemas políticos, filosofias que mudaram a vida. Se antes existiam monarcas com laços familiares, a par do espírito comum que unia os europeus, restam hoje, políticos de topo que procuram juntar cidadãos que pouco têm a ver uns com os outros. E fazem-no da única forma que conhecem: através de uma união política que enfrente os desafios que vêm de fora. A Europa já não desafia o desconhecido, mas segue os que copiaram o que ela inventou.  Esta ferida europeia é mais grave que a do euro e não se resolve numa cimeira.

Voltando a Steiner, o que ele nos propõe é o regresso ao espírito que outrora fez a Europa. Perante os desafios do fanatismo islâmico, do autoritarismo chinês, poderá a Europa apontar soluções? Poderão aqui surgir as respostas para os problemas que nos afectam no início deste século? Hoje, que só se fala de invenções técnicas, esquecemos a mudança que as correntes filosóficas trouxeram ao mundo, permitindo aos homens darem um salto gigantesco no caminho do desenvolvimento humano. Quem sabe, não pode novamente ser esse o papel da Europa. Um espaço de liberdade, de livre circulação de pessoas, bens e serviços; de bem estar, mas também de utilização da herança cultural como modo de contestar o que existe. De reflectir, tornando-nos a todos, dignos de viver.

Dezembro 18, 2011

Melhores Blogues 2011

Filed under: Blogosfera — André Abrantes Amaral @ 20:05

O Insurgente foi novamente nomeado para a votação online dos melhores blogues em 2011, do programa televisivo, Combate de Blogs, do jornalista Filipe Caetano, para as categorias de Melhor Blogue de Direita e de Melhor Blogue Colectivo.

Apesar de ter sido um dos membros do júri que escolheu os nomeados, não estive, naturalmente, entre os que nomearam o Insurgente.

A votação já começou e corre até ao dia 6 de Janeiro. Assim, e se está a ler O Insurgente, não se esqueça de votar de forma conveniente.

Dezembro 14, 2011

A Inglaterra

Filed under: Comentário,Internacional,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 16:17

A decisão de Cameron vetar a alteração dos tratados europeus terá sido difícil e trará sérios problemas para o Reino Unido. O isolamento britânico vai deixar mossas, até porque o Reino Unido já não é o principal aliado de Washington. Pior ainda: sem o império, a própria existência do Reino Unido, como já tive oportunidade de mencionar aquando das eleições escocesas em 2007, pode deixar de fazer sentido quando a Escócia perceber que o acesso aos mercados internacionais, que procurou em 1707 quando se ‘juntou’ à Inglaterra, será mais fácil dentro da União Europeia, que no próprio Reino Unido.

Os riscos são muitos, pelo que se torna fácil criticar a decisão de Cameron que, aliás, tem muitos críticos no seio do seu próprio país. Sucede que, como já referiu Vasco Pulido Valente, o Parlamento britânico nunca aceitaria submeter-se aos ditames de Berlim, de Paris e da eurocracia não eleita de Bruxelas. Não o fez no passado, não o fará agora. Por muitos que sejam os riscos e as dificuldades. Por muitas que sejam as críticas e apreensões dentro da própria sociedade britânica, elas sempre existiram em situações como a presente. A democracia, a verdadeira democracia parlamentar, quando não é apenas uma palavra, mas um modo de vida, vale por isso e muito mais.

Da mesma forma, Cameron protegeu a praça financeira que é Londres, como no passado a Inglaterra defendeu os seus comerciantes. O poderio inglês, e depois britânico, cresceu com o liberalismo económico que nasceu entre os negociantes e os lojistas. Foram eles que exigiram um Parlamento que os protegesse contra o poder absoluto do rei e o despotismo das potências continentais. Olhando para o passado, facilmente se compreende a decisão de Cameron. E quem não tirar ilações do passado, condenando sem perceber a razão de fundo do governo britânico, acaba por, não querendo ouvir a história, cometer os erros que a história ditou.

Dezembro 5, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 16:13

O meu artigo no jornal i deste sábado.

É o fim do mundo como nós o conhecemos

Se o mundo em que nascemos está a acabar, o que decidirmos e fizermos agora vai definir o que deixaremos aos nossos filhos.

No início do século XX, a vida na Europa era um mar de rosas. Ou assim as pessoas na época julgavam, esquecendo os avisos de perigo que se iam repetindo. O equilíbrio de poder europeu perdera elasticidade e a genialidade de Bismarck não era para todos. Até o naufrágio do Titanic, em 1912, foi um aviso: as máquinas não só eram vencíveis, como se podiam virar contra o homem. E assim foi, dois anos depois, quando milhões correram eufóricos em direcção a uma guerra que, cedo se percebeu, não iria ser como as demais. O século XIX, a ingenuidade e candura daqueles tempos terminaram de repente. Há quem diga que a Europa também. E quem observe as fotografias dos soldados naquela primeira grande guerra, o que vê é o olhar da incredulidade. Como foi possível que o progresso os tivessem conduzido até ali?

Não estamos à beira de uma guerra, mas próximos de uma mudança igualmente abrupta. A vida segura e previsível que tivemos até aqui acabou. O conceito de emprego estável e certo não será para nós. O ensino pago por todos e gratuito para quem dele aufere vai deixar de ser possível. Até aquela ideia de que o Ocidente é o centro do mundo pode passar à história, com esta a ser escrita por potências emergentes como China e Índia. O que até há pouquíssimo tempo era inimaginável será amanhã provável. São mudanças que vão ocorrer, não porque queiramos, mas porque têm de acontecer. Por mera necessidade. Foi a necessidade que criou o Estado social, quando as famílias, que tinham muitos filhos, além de sobreviver passaram a exigir melhores condições de vida. É outra vez a necessidade, porque vivemos mais anos e há menos crianças, que porá ponto final no Estado que toma conta de todos. É a necessidade de enfrentar a concorrência vinda de outros continentes que nos está a obrigar a mudar. A ceder às exigências de outros povos e credos. Vivemos tempos interessantes em que o desconhecido se apresenta aos nossos olhos e vemos o equilíbrio que conhecíamos tão bem desmoronar-se. As fundações nas quais os nossos pais (e falo para os leitores de todas as idades) alicerçaram as suas vidas não servirão mais para nós. E daqui a muitos anos, os nossos bisnetos olharão para estes tempos como nós encaramos a linha de fronteira que foi o princípio da I Grande Guerra. O tempo do fim de um século e o início de outro.

Como vai ser o século XXI, ninguém sabe. Mas sabemos os riscos que corremos. Todas as mudanças abruptas trazem insegurança e esta leva à exigência de ordem que, a maioria das vezes, pressupõe restrição das liberdades. Mário Soares, numa entrevista a este jornal, chegou a referir que os Estados soberanos estão a ser substituídos pelos mercados. Sucede que, devido à sua falência financeira, mais Estado implica uma forte desvalorização da moeda e inflação. Ora, se foi a inflação que acabou com as democracias nos anos 30, a proposta de Mário Soares é perigosa. Veja-se a desconfiança que já mina a Europa, como se no Norte todos fossem excelentes trabalhadores e, no Sul, preguiçosos. Estamos a esquecer as particularidades de cada indivíduo e a generalizar conceitos e características, alargando-os a cada povo. Tal como aconteceu no passado. Como vamos evitar a repetição da História? Como vamos lidar com os mais pobres quando o Estado social acabar?

Para que nos sintamos bem com o que vamos deixar, cada um de nós terá de assumir a responsabilidade pelo que faz. Se o Estado não pode, fá-lo-emos nós. Os governos devem trabalhar, quanto antes, com as inúmeras organizações de solidariedade, religiosas e laicas, para que estas alarguem o seu campo de acção. Para que grupos criem mais escolas e um espírito de pertença substitua o de colectividade. Menos Estado não é o caos, mas pode ser mais justiça. Porque se estamos a assistir ao fim de um mundo, presenciamos também o nascimento de outro. O nosso.

Novembro 22, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:06

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

O canto da sereia

Através do investimento público, o Estado privilegia uns em detrimento de outros, algo indesejável num Estado de Direito.

No meio da convulsão que vivemos há meses, em que assistimos impávidos, mas nem sempre serenos, à derrocada do projecto de construção europeia, chega-nos aos ouvidos o canto da sereia. Diz-nos este, numa primeira estrofe, que as políticas de austeridade seguidas pelos Estados são más e recessivas. Destroem postos de trabalhos, fontes de rendimento, conduzindo muitos à ruína e ao desespero. E depois de nos apontar a catástrofe, indica-nos a solução que está em fabricar dinheiro, imprimir moeda para que os Estados possam continuar a investir, substituindo o investimento privado que se está a retrair. Se a primeira parte deste canto é parcialmente verdadeira, já a segunda é falsa e perigosa. Comecemos por esta.

Os benefícios do investimento do Estado na economia é dos maiores mitos de que há memória. Se é indispensável que o Estado leve a cabo certas funções, ele já se torna corrosivo quando se alarga a outras. Não só porque condiciona o comportamento das pessoas, como sucedeu com a bolha imobiliária, fruto de uma lei do arrendamento penalizadora dos proprietários e de benefícios fiscais resultantes do crédito à habitação, mas também, ao necessitar de financiamento para esses mesmos investimentos, concorre com os privados na sua obtenção, dificultando-lhes o acesso ao crédito. Não deixa de ser irónico que uma política que visa incentivar a economia, acabe por dificultar o acesso dos privados ao dinheiro e, consequentemente, a criação de postos de trabalho. Mas o pior de tudo é a conluio entre Estado e empresários que resulta deste tipo de investimento. Para o Estado investir são precisos empresários que façam o trabalho contratado e estes serão, necessariamente, os mais bem relacionados com o governo. Uma fotografia ao lado de um político pode valer ouro porque, mais importante que ser empreendedor, é conhecer os meandros do poder. Algo perverso, não apenas para a economia, mas também para a democracia e o conceito de Estado de Direito que queremos que prevaleça apesar dos tempos difíceis.

É natural que os cortes nas despesas que os governos estão a impor aos Estados, sejam negativos para as pessoas. Vivemos numa sociedade dependente do Estado onde poucos são os que conseguem ir longe se não forem coniventes com a administração pública. Até mesmo quem sempre lutou para ser independente do Estado, não trabalhando para ele, é prejudicado com os cortes na despesa pública, pois o seu trabalho depende do bem estar da economia e esta encontra-se condicionada pelas políticas seguidas no Terreiro do Paço.

Os problemas que atravessamos não resultam apenas da dívida, mas da falta de crescimento económico. Se o país que queremos tem de ser menos dependente do Estado é preciso, não que o Estado faça, mas que deixe fazer. Que se liberalize a actividade económica, para que os privados trabalhem sem a intromissão sufocante do poder político. É necessário que o governo facilite a vida das pessoas. Não de algumas, mas de todas. Um modo de o conseguir é através da liberalização da lei do arrendamento que permite a milhares de jovens iniciar a sua vida adulta, sem que tal implique uma dívida de 40 anos. A milhares de pessoas mudar de emprego e de cidade sem ter esperar por quem compre as suas casas. Uma nova lei do arrendamento, juntamente com a liberalização do mercado do trabalho, será uma fonte de financiamento da economia sem os juros cobrados no exterior e os custos inerentes ao investimento público. É uma das muitas medidas com que o governo deve avançar o mais rapidamente possível. O importante é que nunca repitamos o erro de favorecer empresários politicamente bem relacionados, como sucede com o investimento público. Em vez de estarmos sempre a ouvir que os políticos confiam na capacidade de sacrifício dos Portugueses, é altura de o governo aceitar que as pessoas sabem melhor que ninguém o que precisam para si, permitindo-lhes exercer os seus direitos sem condicionalismos de qualquer espécie.

Novembro 21, 2011

A nova eternidade

Filed under: Comentário — André Abrantes Amaral @ 16:08

Com a detenção de Duarte Lima, falou-se do filho, de 26 anos e estudante. 26 anos. E estudante. Só estudante, sem mais nada. O que faz? Estudo. Não faço mais nada. Sendo uma moda que pegou, perguntou-me até quando os estudantes quererão ser só estudantes?

Novembro 16, 2011

700 mil desempregados

Filed under: Comentário,Portugal — André Abrantes Amaral @ 16:15

Já são mais que os funcionários públicos.

Novembro 14, 2011

Combate de Blogs

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Portugal,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 10:06

A minha participação no Combate de Blogs (TVI24), deste sábado com Rodrigo Moita de Deus, Rui Pedro Esteves e José Castro Caldas, sobre o orçamento de estado e a demissão de Berlusconi.

Novembro 11, 2011

11/11

Filed under: Internacional — André Abrantes Amaral @ 15:34

Não consegui ‘postar’ às 11 horas. Mas fica a intenção.

Novembro 7, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Livros,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 11:04

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana.

A Vitória dos Buddenbrooks

A Alemanha que venceu a Europa não foi a das armas, mas a dos comerciantes que Thomas Mann descreveu no seu livro Os Buddenbrooks.

Se ainda não o fez, o leitor devia ler Anna Karenina de Lev Tolstoi (Relógio d’Água), e Os Buddenbrooks de Thomas Mann (D. Quixote). Os dois romances retratam bem a vida, em pleno século XIX, de duas realidades europeias distintas. A Rússia e a cidade livre de Lubeck, esta antes e após a sua integração no Império Alemão em 1871. O que encontramos nestes romances, a vida das personagens neles descritas, os seus sonhos, ambições, desejos, frustrações e sucessos, medos, angustias, derrotas e vitórias, as casas onde vivem, o modo como lidam com os seus iguais, com os criados e os camponeses, dizem muito do que foram uns e outros. Bastante do que é, hoje ainda, um país como a Rússia e outro, como a Alemanha.

Enquanto no romance de Mann os Buddenbrooks detinham um negócio de importação e exportação que procuravam passar aos seus descendentes, permitindo-lhes a continuação de uma fonte de rendimento que os sustentasse e os fizesse ser uma mais valia na cidade onde viviam, na obra de Tolstoi a realidade é outra. Neste, ou são altos funcionários do Estado, ou nobres de antiga linhagem, os que constituem a elite política e intelectual. Apenas um, Koysta Levin, representa a falta que Tolstói tanto lamentava entre as elites russas: o gosto pelo trabalho com vista a ajudar os mais desfavorecidos, fazendo o que é justo. O que faltou em Tolstoi, como aliás em Dostoiévski, foi nunca ter conseguido juntar o gosto pelo lucro e pela realização pessoal, à solidariedade. Reconhecer a necessidade de ajudar os outros como sendo o resultado inato do sucesso, fruto desse mesmo trabalho. Para Tolstoi, um benemérito tinha de ser um santo. Um místico. Um homem sem falhas. Talvez por isso, o homem bom que era Levin fosse agricultor, mas nunca um comerciante. Já os Buddenbrooks são demasiado homens para serem santos. Veja-se o exemplo de Johann Buddenbrook que apenas porque quer levar o sogro para casa, conversa com os revoltosos de 1848 e os convence a desmobilizar. Ajuda-os. Resolve o problema que afecta a cidade, não por ser um super-homem, mas como homem simples que é e que procura o bem estar da sua família.

O tempo foi aumentando esta confusão entre benemérito e santo. Só quem se supera, consegue visar o lucro ao mesmo tempo que  procura o bem. Por termos caído nessa crença do homem perfeito, grandioso e inexistente, substituímos os homens normais por instituições longínquas. A crise de hoje, é também de confiança. De suspeita perante Merkel e Sarkozy que não se portam como esperamos se comportem os líderes: de modo magnânimo e capazes de resolver, de um dia para o outro, todos os problemas, quanto mais não seja pela sua simples presença. E também porque deixámos de acreditar que com esforço, pessoas normais conseguem grande feitos, fomos vivendo numa sociedade como a descrita por Tolstoi, na qual as elites nada produzem, vivendo tranquilo quem alinha com o Estado e se encosta a ele. Tal qual os endinheirados em Anna Karenina que pouco mais fazem que não seja preencher papelada e gerir comissões. Elites que discriminam os fracos pelas suas origens, ao contrário dos comerciantes de Lubeck que apenas desprezam quem não trabalha. São elites como as descritas por Tolstoi, que alinharam com os erros que nos conduziram até aqui, as que estão hoje a ser postas em causa.

A linhagem dos Buddenbrooks acaba por desaparecer, mas a sua ética, o seu espírito, que era o espírito capitalista daquelas cidades livres e mercantis, que Max Weber tão bem explicou, continuou noutras famílias. Continua hoje, por muito que nos doa admiti-lo, nas economias nórdicas e holandesa que pouco sofrem com a crise mundial que vivemos. O trabalho e o esforço compensam. O lema dos Buddenbrooks, “Nunca fazer negócios durante o dia que te tirem o sono durante a noite”, retrata como o valor dado ao trabalho, obriga à honestidade e como dessa honestidade, surge a consciência social. Como vamos ter de mudar e estar mais atentos aos Buddenbrooks.

Novembro 2, 2011

Onde tudo se vai decidir

Filed under: Livros — André Abrantes Amaral @ 17:31

Afonso de Albuquerque tinha razão em querer este Oceano.

Outubro 31, 2011

Media

Filed under: Comentário,Media — André Abrantes Amaral @ 11:17

Eduardo Pitta chama aqui a atenção para a quebra nas vendas dos jornais, recordando-se do tempo em que se compravam três por dia. Era verdade. Mas não nos deixemos iludir: a compra de menos jornais em papel, não significa menos leitura e menos interesse. Este é, presentemente, um erro comum. Se hoje não se compram três jornais todos os dias, lêem-se vários, diversos e muitos mais sites na internet, todos os dias. A mudança na forma como procuramos a informação, não significa falta de atenção ou de sentido crítico.

Outubro 24, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:53

O meu artigo para o i deste fim de semana.

Outubro Quente

Nada é inevitável se não nos for cortado o dom da liberdade e do direito de sermos individualmente responsáveis pelas nossas escolhas

No início do século XVII, os Invernos europeus foram exageradamente frios. Choveu, nevou abundantemente e até o Tamisa gelou. As colheitas foram fracas e, com a fome, foram vários os avisos de fim do mundo. Entretanto, de medo em medo, os dias, semanas, meses e anos foram passando e, porque a vida continuou, a temperatura voltou a subir e as colheitas a ser colhidas. Daí em diante, e em vez do fim do mundo, assistimos a uma notável melhoria nas condições da vida humana.

As altas temperaturas de Outubro convidam a devaneios parecidos, alimentados pela crença cega num aquecimento global como sendo o preço a pagar pelo pecado de o homem ferir a Terra. Esta inevitabilidade, a ideia de uma força superior que determina o comportamento humano e dita as suas consequências, e que Isaiah Berlin revelou ter passado para as mãos de um deus não religioso, já serviu para sustentar as maiores atrocidades do século XX e diz-nos agora que o planeta não aguenta que continuemos como até aqui. A evoluirmos e a vivermos melhor. Depois dos comunismos e dos fascismos não terem conseguido estancar a força criadora do homem, diminuindo-lhe a liberdade, a tese da inevitabilidade histórica volta em força para nos tolher a responsabilidade pelos nossos actos e nos dizer como temos de nos comportar. Não deixa de ser relevante como muitos dos crentes na teoria das alterações climáticas, seja pelo aquecimento global ou por via de uma nova idade do gelo, que chegou a ser prevista no início deste ano, tendem a minimizar a responsabilidade individual, transferindo a causa para forças impessoais, como as potências poluidoras e as grandes empresas. Qualquer coisa, menos nós. A catástrofe é tão inevitável que pouco mais podemos fazer que não seja exigir medidas aos verdadeiros culpados, deixando de fora a nossa capacidade para, enquanto seres livres e individualmente responsáveis, descobrirmos uma solução inovadora. Por isso são tantos os que se preocupam com as alterações das temperaturas, mas incapazes de desligar o interruptor quando saem da sala.

Também neste mês de Outubro, o governo revelou o fim do subsídio de férias e de Natal para muitos funcionários públicos. Fê-lo para evitar o colapso do que resta da credibilidade do Estado, enquanto entidade omnipotente que emprega e não deixa cair os seus. Mesmo sabendo que devia despedir 50 a 100 mil funcionários, Vítor Gaspar prefere não o fazer. O custo de despedir é tão grande que mais vale continuar no erro que corrigi-lo. Quando algo de semelhante sucede numa empresa privada, esta entra em processo de falência. Com o Estado parece ser diferente, até porque foi nisto que o socialismo o tornou: um local de onde não se pode ser despedido nem despromovido, onde se está protegido por uma teia de leis cuja mudança traria consequências tão letais que o melhor é nada fazer.

Sucede que, não se cortando o mal pela raiz, só se vai acentuar a falta de dinheiro do Estado. A tal ponto que não creio que o pagamento dos subsídios de férias e de Natal sejam retomados. Junte-se esta sentença à obrigatória redução do número dos que trabalham no sector público e é fácil imaginar a revolução nas mentalidades a que teremos de assistir para sairmos desta situação. Aquele emprego seguro que era para a vida acabou. Desta crise só se sai mudando a forma de pensar. Um Estado impessoal vai deixar de tomar conta de todos e nós passaremos a contar uns com os outros. A recessão vai ser forte, mas o resultado não é necessariamente pior. Conscientes das nossas responsabilidades, livres da inevitabilidade estatal, encontraremos soluções. Podemos aceitar que a sociedade não é o Estado e o desenvolvimento não se centra nele. Que nada se determina e tudo se reinventa. Tanto na Terra como na despesa.

Outubro 18, 2011

Ninguém fica para trás.

Filed under: Comentário,Internacional — André Abrantes Amaral @ 10:37

A libertação de Gilad Shalit, conseguida com a troca de mais de mil prisioneiros e após cinco anos de esforços imensos, mostra para que serve o Estado de Israel. Os seus críticos podem não concordar mas, depois do que sucedeu na II Grande Guerra, ninguém fica para trás. A história, ali, não se repete.

Outubro 11, 2011

Mitt Romney

Filed under: Comentário,Internacional,Política — André Abrantes Amaral @ 17:08

Para memória futura: este é o único candidato do GOP que pode derrotar Obama.

Outubro 10, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:53

O meu artigo para o jornal i deste fim de semana, sobre a importância de impostos regionais e municipais na descentralização dos país.

Como acabar com os caciques

Os dirigentes locais e regionais apresentam obra aos seus eleitores, entregando a factura aos que, habitando noutro local, não podem votar contra eles.

Realizam-se este fim de semana eleições na Madeira, depois da descoberta de mais um buraco orçamental. Tal como no continente, a Madeira desenvolveu-se com obras públicas, gastando mais do que produzia, endividando-se e empurrando os problemas para a frente, ou seja, para os que viessem a seguir. Mesmo que vença as eleições, Jardim está definitivamente remetido ao passado. Resta-nos, pois, escolher como evitar os mesmos erros no futuro.

O problema da Região Autónoma da Madeira é muito semelhante ao dos municípios portugueses, onde confundimos descentralização política com mera transferência de competências pertencentes ao poder central, sem a correspondente atribuição de meios que sustentem o exercício desse poder. Sem capacidade para financiarem os seus projectos, os políticos regionais e municipais limitam-se a pedir fundos a Lisboa, alegando chavões como a insularidade e a interioridade. Fazendo uso da sua influência no interior das máquinas partidárias, os melhores neste género de política lá vão conseguindo o que pretendem. Desta forma, apresentam obra aos seus eleitores, enquanto entregam a factura aos que, habitando fora do seu feudo eleitoral, não os podem punir politicamente. Consciente ou inconscientemente, os Portugueses alinharam neste sistema vicioso, onde se chulam uns aos outros, ganhando quem tem o autarca ou líder regional mais esperto. Este tem sido o erro. Como o corrigir?

A principal maneira passa por deixar de encarar a descentralização como a mera existência de mais um patamar do poder político. Descentralizar, aproximar o poder dos cidadãos, implica também a criação de uma relação directa entre eleitos e eleitores. E isso só se consegue com impostos regionais e municipais, criados, liquidados e cobrados pelos poder regional e autárquico. Só se obtém se, por cada obra que o poder local ou regional levar a cabo, houver um imposto, lançado por esse mesmo poder e pago por quem habita nesse município ou região que beneficia dessa obra. Só se alcança se quem recebe também paga, para que saiba o custo do que foi feito e avalie a sua oportunidade nas urnas, elegendo ou castigando o seu autarca ou líder regional. Não havendo uma relação directa entre o dinheiro que é pago em impostos e o que é gasto pelo poder regional ou autárquico, os contribuintes nunca poderão exigir contas àqueles que elegeram. A impunidade será, como tem sido, total e só me espanto como não surgiram ainda mais Jardins e Loureiros em Portugal.

Estamos a assistimos ao surgir de uma nova percepção do que é o Estado. Naturalmente que ainda não sabemos o que vai sair desta enorme convulsão. Se viveremos numa sociedade mais regularizada, ou se num mundo que se apoie mais na liberdade e responsabilidade dos cidadãos. Para os que preferem a segunda hipótese, torna-se indispensável um maior controle dos eleitores sobre os governantes. Não podem existir zonas nebulosas onde o dinheiro público, cobrado pelo Estado às pessoas, seja gasto sem que a sua devida utilização não seja fiscalizada pelos cidadãos, através da sua arma política mais eficaz que é o voto. A célebre frase, ‘no taxation without representation’ quer dizer isso mesmo: se pago, tenho de ter uma palavra a dizer. Ora, é precisamente esse direito que é negado quando o Estado transfere fundos de todos para uma região, financiando obras duvidosas de políticos ambiciosos que pretendem agradar os seus eleitores, sem lhes apresentarem a factura que é paga por quem não pode votar contra eles. Veja-se como este sistema, não só conduziu à irresponsabilidade de quem governa, que mais não são que caciques que dependem do conluio com Lisboa, mas também, quando ouvimos Jardim a falar dos cubanos do continente e as autoridades em Lisboa com comentários pejorativos sobre a Madeira, prejudicou o próprio conceito de solidariedade que a descentralização visava. Apenas com regras claras de financiamento, com o poder central a intervir em situações concretas, que se amplia a descentralização que tantos querem.

Outubro 3, 2011

Quando a responsabilidade é um rótulo

Filed under: Economia,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:47

A troca de ‘posts’ entre o Manuel Castelo-Branco, o Blasfémias e o Tomás Belchior sobre a privatização da RTP, chamou-me a atenção para o perigo de classificar como fundamentalista a posição de quem discute connosco. Este truque, que não passa de uma suposição de alguém, não é nem um argumento, nem um facto. Limita-se a um palpite, tão válido quanto a opinião que quem a emite tem sobre os riscos para a privatização da RTP. Um truque que implica um esforço suplementar da parte de todos os que não aceitam condicionar o seu pensamento com o que deve ou não deve ser, o que possa ser classificado de responsável e aceitável por alguns em nome de todos, ou até com o que está ou deixe de estar na moda.

Na verdade, foi este género de ‘responsabilidade’ que nos levou a adiar medidas que a troika impôs poucas semanas depois de analisar as contas públicas do Estado. É esta ‘responsabilidade’ que, por não passar de um rótulo, leva tantos políticos a mudar de opinião em tão pouco tempo, apresentando hoje, com a mesma convicção de sempre, factos que ontem eram totalmente contrários. Foi esta ‘responsabilidade’ que nos forçou a um pensamento único (que só doidos questionavam), impedindo os benefícios resultantes da salutar troca de argumentos tão necessária para, uma vez por outra e sempre antes do desastre, se irem corrigindo os erros.

Setembro 29, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Educação,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 14:07

O meu artigo para o jornal i desta semana.

Direito de escolha

Na busca cega da igualdade, o Estado diferencia alunos e promove mais desigualdade. Onde está a justiça social?

Estamos em Setembro e chegámos ao início das aulas. Desta vez a novidade está no êxodo dos alunos das escolas privadas para a públicas. A crise, a que se juntou a forte subida dos impostos para salvar a falência do Estado, obrigou os pais, que se sacrificavam para ter os filhos no ensino privado, a desistirem de escolher o tipo de educação que queriam para eles. Veja-se o contra-senso: o Estado que está falido, cobra impostos que dificultam a vida aos que não querem ser um peso na sua estrutura. Penaliza os que assumiram como custo seu a educação dos filhos, não onerando, dessa forma, os seus concidadãos. Em vez de incentivar quem não pretende ser uma sobrecarga desnecessária para os outros, o Estado penaliza-os. Infelizmente, esta não é a única incongruência na política educativa que há anos nos prossegue. (mais…)

Setembro 20, 2011

O que vamos fazer com as Regiões Autónomas?

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 14:18

Além da irresponsabilidade política que grassa na Madeira, existe um problema na maioria das vezes esquecido: a impossibilidade de quem paga as obras na Madeira não poder castigar os governantes daquela ilha. Se parte das receitas da Região Autónoma advêm de transferências do governo central, quem paga não bufa. Lembram-se daquele princípio básico para qualquer sociedade democrática? No taxation without representation. Em Portugal, e no que diz respeito à Madeira e ao financiamento das autarquias locais, não existe.

É importante que nos demos conta do seguinte: esta crise não põem apenas em causa o euro e, com ele, a União Europeia. Questiona a própria organização do Estado português. Atenção que não sou contra a existência de Regiões Autónomas. Apenas entendo que a auto-suficiência financeira é obrigatória para que haja verdadeira autonomia política. Se não percebermos isto, não me admira que ainda venhamos a discutir o fim das Regiões Autónomas.

Setembro 19, 2011

Descentralizem a responsabilidade, sff

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 11:32

Só se espanta com o que Alberto João Jardim disse de ter ocultado parte da dívida da Madeira por legítima defesa, quem quer. O que o líder madeirense fez foi ter mais lata que todos os políticos regionais e municipais, dizendo-nos na cara aquilo que todos pensam e fazem: gastar o máximo possível para satisfazer o seu eleitorado.

O problema das regiões autónomas, em muito semelhante ao das autarquias e das regiões administrativas que felizmente não se criaram, é que a sua autonomia política não tem correspondência financeira. Enquanto as receitas de uma região autónoma não se limitarem aos impostos cobrados aos que nelas vivem, não descentralizamos a responsabilidade política. Podemos falar de solidariedade nacional, de que queremos ajudar as ilhas para que estas não percam habitantes. Podemos. Mas essa escolha, de transferirmos dinheiro dos cofres do Estado central para os poderes regionais, tem como custo a proliferação de políticos populistas e demagogos como Jardim. Políticos que tudo farão para sacar o máximo aos contribuintes do resto do país para, dessa forma, financiar os que podem votar neles.

Setembro 14, 2011

A crise da imprensa escrita

Filed under: Comentário,Media — André Abrantes Amaral @ 11:50

A imprensa escrita está em crise perdendo leitores quase todos os meses. É uma quebra nas vendas que afecta a publicidade e, na opinião de alguns, a qualidade dos jornais. Não creio, no entanto, que a redução do número de exemplares vendidos se traduza num desinteresse pela informação, menos ainda que seja a causa para a má qualidade dos jornais portugueses. Conforme tive oportunidade de referir em Abril do ano passado, um dos motivos para a quebra nas vendas das edições em papel dos jornais  prende-se com o acesso gratuito à informação via internet, que se torna ainda mais fácil com o surgimento dos tablets. Este meio permite a quem quer que seja saber o quiser sobre o que se passa em qualquer ponto do mundo. Sendo a informação internacional quase inexistente na imprensa portuguesa e estando a nacional reduzida às tricas político-partidárias, julgo que esta ‘fuga’ para a internet é facilmente explicada. Mas não chega para perceber a crise. Na verdade, são cada vez mais os que trocam a compra de jornais portugueses por publicações internacionais especializadas, das relações internacionais à literatura, passando pela biologia ou a história, de acordo com os seus interesses e gostos. Assim sendo, as más vendas da imprensa escrita não se podem dever apenas à informação online, mas a um desfasamento com o que os seus leitores procuram. Os jornais portugueses perdem-se no meio de demasiada informação política e corriqueira, esquecendo por completo a grande reportagem e a publicação de artigos mais cuidados e longos. Não deixa de ser curioso como a grande reportagem passou para os telejornais que deviam ser pequenos blocos de informação. Estando a génese da crise no desinteresse dos leitores, que para informação corriqueira a encontram de borla nos sites desses mesmos jornais, pelas notícias publicadas, uma das possíveis soluções parece-me ser o surgimento de novas publicações, mais especializadas, de menor tiragem e projecção, e com custos sempre controlados. Uma descida nas vendas não significa que os potenciais compradores viraram estúpidos. Apenas que procuram outro tipo de produto. Saber qual é, parece-me ser parte da função de quem trabalha na imprensa escrita.

Setembro 12, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Internacional,Política,Religião — André Abrantes Amaral @ 09:43

O meu artigo para o jornal i deste sábado.

O primeiro pilar da liberdade

É a dignidade que advém de um elevado código ético e moral que nos leva à necessidade de fiscalizar o Estado.

If men were angels, no government would be necessary. If angels were to govern men, neither external nor internal controls on government would be necessary. James Madison, The Federalist No. 51, 6 Fevereiro 1788.

Desde aquela manhã de Setembro que sentimos que algo de sagrado e conquistado com sacrifício nos foge. Tanto o Setembro de 2001 como o de 2008 trouxeram mais desconfiança e menos liberdade. O medo e a inveja, as armas dos poderes autoritários, vieram novamente ao de cima clamando por justiça. Qual pode ser a resposta à ameaça a que assistimos contra a liberdade?

Eu arriscaria a consciência. A liberdade de consciência que supera as visões mais limitadas da política, os pequenos egoísmos que nos conduzem a vitórias ridículas. Aquilo que nos permite viver de acordo com os princípios que queremos rejam a vida em comunidade. É a percepção da liberdade individual que nos faz exigir respeito pelas nossas escolhas e nos obriga a respeitar as opções dos outros. Foi sempre isto que fez o homem lutar contra os poderes opressores e vencê-los: a certeza de que estavam do lado certo e as injustiças não se podiam perpetuar. E é a percepção de que essa consciência se funda em algo maior, divino, independentemente da religião que o explica, da forma de Deus que concebemos, que foi dando sentido à necessidade de lutar pelo que é justo.
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Setembro 6, 2011

O que há de errado na China? (2)

Filed under: Comentário,Internacional — André Abrantes Amaral @ 10:17

Devido à expulsão de alguns académicos norte-americanos das universidades chinesas, uma vez mais o Ocidente debate a melhor forma de reagir, desta vez sem perder a autonomia e liberdades académicas. A resposta de Gordon Chang é peremptória quando nos diz que nada há a esperar da China. Como todas as sociedade totalitárias, que colocam a política à frente da economia, a China tem pouco para oferecer que não seja uma fachada. Sem liberdade, não há universidades, nem economia, nem riqueza, nem desenvolvimento. Aqueles que ainda acreditam ser a China a nova potência económica do século XXI, revitalizando a crença dogmática na economia planificada, podem tirar o cavalinho da chuva. Poderemos vir a lidar com uma China militarmente poderosa, mas nunca economicamente pujante, na medida em que o motor do ‘milagre chinês’ que são os milhões de chineses que trabalham, não vai aceitar a ditadura no momento em que já tiver pão para comer.

Agosto 30, 2011

Política e economia

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal,Religião — André Abrantes Amaral @ 11:48

Em meados deste mês, o Padre Vítor Melícias, repetindo o teor desta entrevista, lamentou na RTP que a economia domine a política. Concluía ainda ser preciso pôr termo à ambição desmedida pelo lucro, objectivo que só seria alcançado quando a política se impusesse à economia. Victor Melícias cai num erro socialista muito comum, que pressupõe a política, enquanto actividade ligada ao Estado, como sendo intrinsecamente bondosa e benéfica, ao contrário da actuação individual que peca por egoísta e sem escrúpulos. É um erro comum que mais me espanta por vir de um católico. Na verdade, a virtude não se encontra na política, mas na ética de cada um. A visão política da sociedade pode ser tão desonesta e ambiciosa quanto a económica, como se viu nas inúmeras aventuras empresariais do Estado que, por má gestão e irresponsabilidade, resultaram em prejuízos avultados para os cidadãos e na insolvência do próprio Estado.

As faltas humanas são, como o nome indica, do homem. Individuais. Só cada ser humano as pode ultrapassar e compensar. E é nisso que a religião, qualquer religião como a católica, tem um papel fundamental: mostrar e fundamentar esse caminho. Tão assim é que nenhuma sociedade consegue ser livre se não for religiosa. Se a maioria dos seus cidadãos não buscar na religião o sentido último de uma ética que o suporte a si e aos outros.

Agosto 29, 2011

No Fio da Navalha

Filed under: Comentário,Economia,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 09:41

O meu artigo para o jornal I deste Sábado.

O Estado Opressivo

O Estado social acabou no dia em que decidiu ser empresário e capitalista; deixando de ser solidário, perdeu legitimidade.

É costume ouvirmos dizer que é preciso salvar o Estado social. Sendo este o apoio aos mais pobres, quem não está de acordo? Sucede que o Estado que se pretende salvar, há muito tempo que não tem por principal função ajudar os mais necessitados. O Estado que conhecemos tem empresas, faz negócios, vende produtos, educa e trata da saúde dos cidadãos, faz estradas, recolhe o lixo, vende e distribui electricidade, entrega correspondência, exerce actividade bancária,  especula na bolsa, é o maior proprietário de imóveis do país, transmite programas de televisão, subsidia clubes de futebol, organiza torneios desportivos, paga o estudo a jovens que vão de carro para a faculdade, da mesma forma que lhes paga viagens de férias. O Estado, que nos querem fazer crer ser social, até estações de comboio, aeroportos e uma companhia de aviação tem. É muito interessante ver como, para um socialista, um cidadão isolado é naturalmente mau, egoísta e um  empresário ganancioso, mas quando no poder se transforma num homem solidário e de boa vontade.

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Agosto 24, 2011

There is only taxpayers money

Filed under: Comentário,Nanny State Watch,Política — André Abrantes Amaral @ 14:56

 

Um discurso a ouvir vezes e vezes sem conta até percebermos bem porque estamos mais pobres.

Agosto 22, 2011

O Mar

Filed under: Livros — André Abrantes Amaral @ 11:25

 

 

 

(…)

“nós não vimos a DonaLibânia chorar com o susto e mesmo assim ter ido preparar chá com restos do bolo de banana que foi servido na varanda da AvóDezanove a todos que quiseram mas especialmente aos que ajudaram a apagar o fogo, nós não vimos porque estávamos longe, do outro lado da bomba de gasolina, do outro lado do largo, depois da areia, depois da cerca das obras, depois dos pontos cardeais que tínhamos inventado, nós estávamos lá, a tirar a roupa, a rir, a gritar pelo EspumaDoMar que não veio, a preparar os corpos para mergulhar, as bocas para sorrirem e as gargantas para gritar, como fazíamos às vezes, debaixo de água, a rir de contentes, nessas vozes molhadas de gritos nenhuns e brincadeira inventada e descoberta à toa, até um dia alguém ter dito que esses eram ‘gritos azuis’

e assim de corpos nus a sentir um pequeno vento, a olhar os papagaios que sobrevoam o nosso largo da PraiaDoBispo, eu, a Charlita e o Pi, (…) saltámos as conchas e os buracos dos caranguejos que fugiram assustados connosco em busca de sentir a água salgada nos nossos corpos ansiosos da espuma branca no mar escuro àquela hora de festas e risos, nós estávamos lá, em busca da zona um pouco mais funda onde os nossos corpos podiam dançar devagarinho com o ar nos pulmões a ser poupado para os nossos gritos, e eu lembrei dos mais-velhos, de tantos mais-velhos que eu já tinha conhecido e não sabem às vezes acreditar nos segredos simples das crianças, (…).”

Combate de Blogs

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Nanny State Watch,Política,União Europeia — André Abrantes Amaral @ 09:39

Programa ‘Combate de Blogs, da TVI 24, onde estive este sábado, com Nuno Ramos de Almeida, Nuno Teles e Filipe Caetano.

Julho 31, 2011

Artigo no jornal I

Filed under: Comentário,Insurgentes nos media,Portugal — André Abrantes Amaral @ 23:58

O meu artigo de ontem para o jornal I

Uma oportunidade para Mr. Biswas

No livro “A House for Mr. Biswas”, V. S. Naipaul conta-nos a vida de um homem que sonha ter uma casa sua, onde possa existir por direito próprio, num espaço que seja seu. Toda a sua vida tem esse sentido e razão de ser. Casa-se cedo e cedo vai viver com a família da sua mulher, uma família cheia de gente que enche a casa. Profundamente ingénuo, acredita em ofertas dúbias, mas, desilusão após desilusão, continua em frente com o seu projecto. Mr. Biswas também gostava de escrever contos, mas o emprego no jornal onde trabalha não é para isso. A vida em Trinidad e Tobago não é fácil para este homem de origem indiana, e a percepção de que outros têm a vida facilitada apenas por serem quem são vai-lhe deixando marcas de ressentimento. É irascível em resposta ao colete-de-forças em que se sente envolvido, à incompreensão dos que vivem com ele, que não entendem como pode um homem querer uma casa, um lugar para si e a sua família, um canto onde se possa ausentar e ver passar outros sonhos. Ser dono de alguma coisa, conseguida com mérito. (mais…)

Julho 21, 2011

Público Mais e a imprensa escrita em Portugal

Filed under: Comentário,Media — André Abrantes Amaral @ 11:04

O lançamento do Público Mais, hoje noticiado naquele jornal parece ir ao encontro do que comentei há mais de um ano.

Os jornais generalistas passarão tendencialmente para a área online e, em papel, resistirão as publicações que tratem de temas mais específicos e com textos mais longos, de difícil leitura através de um monitor. Se calhar, estamos a assistir ao primeiro passo nesse sentido por parte da imprensa escrita em Portugal. Vamos ver no que dá.

Julho 14, 2011

Um instante

Filed under: Diversos — André Abrantes Amaral @ 12:17

Manhattanhenge.

Foi um dia estranho aquele em que toda a gente, independentemente do que estivesse a fazer, numa reunião no escritório, a falar ao telefone, a conduzir um autocarro, a guiar o seu automóvel, a atravessar a rua, a limpar as sarjetas, a vender jornais e revistas mais os brindes a acompanhar, a conversar, a comer e a beber, parou. Pararam e viram o sol a pôr-se atrás dos prédios, dos telhados, dos candeeiros das ruas, das colinas da cidade, atrás dos vultos que se punham à frente. A luz começou com um amarelo forte, depois alaranjou, ficando vermelho a seguir, um vermelho intenso, o sol redondo como uma bola de neve feita por miúdos e pronta a ser atirada contra quem passasse. E logo novamente a cor laranja, o sol a baixar, a colocar-se por trás de tudo o que o pudesse tapar, objectos e barreiras que nos diziam que aquilo teria fim, que não era para sempre, que valia a pena largar o que se estivesse a fazer, desistir do que se estivesse a pensar, deixar o serviço a meio; uma pequena interrupção no dia-a-dia, um breve instante a dizer-nos que estávamos vivos e que valia a pena, um pequeno aparte de Deus, alguma coisa, algo em que se quisesse acreditar. A luz a apagar-se e a normalidade não natural a continuar como até então. (inicialmente publicado aqui, aconteceu agora novamente).

Julho 7, 2011

O mundo real

Filed under: Comentário,Portugal — André Abrantes Amaral @ 15:14

Não deixa de ser sintomático, que os denominados ultra-liberais que trabalham na sua grande maioria por conta própria e nas suas empresas, sejam acusados, pelos que têm vivido encostados ao estado, de não conhecer o mundo real. Mas se calhar é isso: o mundo real não está cá fora, mas aí dentro.

A rasteira do nacionalismo

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 10:49

Já tinha escrito sobre este assunto aquando das presidenciais. O nacionalismo vai ser a bandeira da esquerda nos próximos anos. O nacionalismo com tudo o que ele tem de pior: desconfiança face ao exterior, esse local habitado por seres tenebrosos que nos querem prejudicar; favorecimento cego do que seja nacional, mesmo que pior e mais caro, desincentivando o esforço para se ser melhor e gastando recursos na compra de produtos mais caros, quando a escolha de outros mais baratos, permite que haja mais dinheiro para poupar e investir. Algo verdadeiramente indispensável para sairmos deste buraco. Ao contrário do patriotismo que é crítico, inteligente e aberto a qualquer mudança que possa favorecer o nosso país,  o nacionalismo bacoco mata. Liquida qualquer esforço e pode ser o tiro no pé de uma geração que diz querer ‘dar a volta por cima’.

Julho 4, 2011

O Alvo

Filed under: Comentário,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 19:07

A notícia  do Público sobre o que Álvaro Santos Pereira disse da Madeira, há 4 anos atrás, esquecendo o contexto em que tais palavras terão sido escritas, é mais um tiro naquele que se tornou no primeiro alvo da opisição. A intelligentsia não perdoa ‘estrangeiros’, mesmo que portugueses bem sucedidos, principalmente quando estes colocam em causa premissas sagradas.

Não sei que assessora este ministro e o primeiro-minsitro nesta matéria. Mas seria bom que tivessem em conta que Santos Pereira é, sem o background de Nuno Crato,  nem o prestígio do trabalho feito de Paulo Macedo, um alvo a abater,  precisamente porque nada se pode dizer quanto às medidas apresentadas. Estas, impostas pela troika, deixam poucas alternativas à oposição que não seja o denegrir personalidades governamentais. Santos Pereira é o que está mais a jeito e, sem o apoio pessoal de Passos Coelho e Miguel Relvas,  corre o risco de não durar muito tempo.

O Acordo Ortográfico

Filed under: Comentário,Cultura,Educação,Nanny State Watch — André Abrantes Amaral @ 14:04

O que mais me impressiona no Acordo Ortográfico é a imposição de uma forma de escrever e, se aplicarmos as regras, de falar. Ao contrário do que seria natural, a língua portuguesa está a mudar, não porque evoluiu ao longo dos anos num determinado sentido, que agora se poderia confirmar, mas é orientada num rumo, sem o consentimento tácito das pessoas que a utilizam. Não estamos perante uma evolução, mas uma imposição. Uma língua que muda assim, é uma língua morta.

E se isto me impressiona, já me alarma a voluntariedade com que leio quem se antecipa na utilização destas novas regras. É estranho que haja qualquer sentimento de satisfação na sua utilização, mas não deixo de temer que este exista e explique a adesão a normas emanadas de um gabinete, sem que sejam ainda obrigatórias.

Junho 28, 2011

Adolescência Eterna (3)

Filed under: Comentário,Educação,Nanny State Watch — André Abrantes Amaral @ 15:14

Carlos,

Percebo o teu ponto de vista, mas não foi a isso que aludi. Referia-me apenas à tendência generalizada de adiar o inadiável, ou seja, querer e não querer ao mesmo tempo. Quem, como referes, sentia o apelo do mar e desaparecia, tomava uma decisão. Ia à sua vida. Assumia as suas dificuldades. Não se tornava num peso para quem quer que fosse e, por isso mesmo, a maioria das vezes, ia embora. Como é natural não vejo mal nenhum nisso. O que o artigo do WSJ refere, são os casos em que não se decide e se vive eternamente com 20 anos. Sem uma opção que seja definitiva ou implique consequências. Uma vida sem preocupações de maior que acabam, aliás, empurradas para cima dos outros.

Junho 27, 2011

A Adolescência Eterna

Filed under: Comentário,Educação,Nanny State Watch — André Abrantes Amaral @ 11:51

Também publicado aqui.

Winslow Homer, Girl on a Garden Seat, 1878.

Há anos que ouvimos falar do crescente número de mulheres nas universidades que concluem com sucesso os respectivos cursos. São elas quem tiram as melhores notas e mostram vontade de chegar mais longe, ainda arranjando tempo e força para ter filhos, educá-los e sacrificar com isso o seu trabalho. Este artigo já há várias semanas publicado no WSJ, alerta para a discrepância cada vez mais visível entre homens e mulheres. Se tivermos atenção ao que se passa à nossa volta, veremos rapazes, homens, que parecem não querer assumir compromissos, mas viver para sempre os seus vinte anos. Miúdos eternos com as suas namoradas, algumas vezes mulheres demasiado prontas, e à espera. Conversas permanentes sobre jogos, filmes que víamos quando tínhamos 10 anos e pior que tudo isso, uma recusa inata em se conhecerem e melhorarem. Pré-adultos, homens que se portam como miúdos, deixando sozinhas mulheres que se iludem, fazendo tudo por eles.

Muitos trabalham, mas fazem-no de uma forma individualista e não gregária. O artigo refere a extrema diversidade de profissões existente actualmente, permitindo sonhar com uma carreira que conduza a existência humana à sua plenitude. A realização no trabalho já não é trazer dinheiro para casa para alimentar a família e dar-lhe conforto, bem estar e protecção. Nem sequer é lutar pelo prazer de se fazer o que se gosta, independentemente do que os outros pensem. É uma realização pessoal baseada no reconhecimento dos demais que não permite outra solução que não seja o sucesso, sendo este a ostentação máxima, sem risco, nem mácula. Prestígio sem sofrimento, nem desilusão.

A ideia do pai forte e presente, apesar de tantas vezes fora a trabalhar, perdeu-se. Bem vistas as coisas, da imagem do deus da mitologia nórdica, pronto a sofrer, a perder e a morrer com dignidade, à do jovem de agora, que quer viver satisfeito e eternamente realizado, vai uma grande distância marcada por mudanças profundas. Foi Scott Peck quem iniciou o seu livro “The Road Less Traveled” com a afirmação Life is difficult.  A vida é difícil. This is the great truth, one of the greatest truths—it is a great truth because once we see this truth, we transcend it. Quem quer transcender esta verdade quando a ilusão sabe tão bem? Quem está disposto a passar pelas provações e chegar ao lado de lá, quando o divertimento está à mão de semear? Quem quer fazer o dito caminho menos percorrido?

Outro aspecto importante do artigo refere a incapacidade dos rapazes de hoje cumprirem o seu papel de homens. De protectores, corajosos, estóicos e até fiéis, valores hoje tido por ridículos. Ultrapassados. Não deixa de ser interessante como isto se relaciona com o que foi dito sobre a geração parva (ou à rasca) que se rodeia daqueles que nela se revêem, para que nunca a contrariem. Queixa-se, mas pouco mais faz que isso, numa atitude lamentosa na qual parece apreciar o que lhe basta. Os seus membros estão numa fase da vida que não querem ver acabada e, não podendo adiar o inadiável que é a velhice e a morte, fazem-no, ao menos, afastando a responsabilidade que é o assumir que tudo tem um fim.

Junho 21, 2011

Quem tem medo do mercado livre?

Filed under: Comentário,Nanny State Watch,Portugal — André Abrantes Amaral @ 16:40

A leitura deste ‘post’ do Afonso Azevedo Neves, alerta-nos para a necessidade de estarmos atentos às inúmeras rasteiras que várias entidades poderão colocar no caminho da aplicação das medidas impostas pela ‘troika’. O segredo para dinamizarmos a nossa economia está na liberalização dos mercados. De acordo com a ‘troika’, um dos mercados mais fechados e que, por isso mesmo, atrofia a economia portuguesa, é o das telecomunicações. Ao que parece, e pelo que leio do texto do Afonso, a ANACOM, na sua proposta de leilão das radiofrequências, escapa-se a este compromisso, limitando os operadores a três. Ora, para quem conhece o nosso pequeno mercado, já sabe quem serão os três vencedores. Qual é a mensagem que isto manda para o estrangeiro? A de um país aberto ao exterior? De um mercado liberalizado que trata por igual todos os investidores, independentemente da sua dimensão? Parece-me que não. Ao ler o texto no Albergue fico com a impressão que, apenas com cuidado e muita atenção, liberalizamos os mercados e perdermos o medo de ter uma economia fundada na vontade dos consumidores.

Junho 20, 2011

Descubra as Diferenças

Filed under: Comentário,Media,Política,Portugal — André Abrantes Amaral @ 12:08

(Antonieta Lopes da Costa, Manuel Falcão, André Abrantes Amaral, Nuno Amaral Jerónimo, Alexandre Homem Cristo e Paulo Pinto Mascarenhas).

Foi para o ar, este fim de semana, o último ‘Descubra as Diferenças’ da Rádio Europa. Desde que me iniciei como moderador do programa, foram dois anos e meio, mais de 120 emissões, de análise semanal do dia-a-dia político do nosso país, no decorrer de um período, no mínimo entusiasmante, mas que ninguém nega de extrema dificuldade.

O ‘Descubra as Diferenças’ nunca escondeu a sua linha editorial: dar espaço à direita, conservadora e de preferência liberal, que pensa e escreve por aí. Dar voz a uma minoria quando a grande maioria é de esquerda e, mais ainda, socialista. É impossível ser-se neutral ou imparcial quando o país caminha para o desastre. Apenas os falsos o tentam ser, apenas os vazios, os que não existem, o são. Nunca acreditei no jornalismo que visa não ter opinião. Escrever, falar, implica opinar. Ora, quem o faz, deve fazê-lo de forma clara e esclarecedora. Nunca apreciei jornais, revistas que procuram todo o público, rendendo-se a ele, descaracterizando-se ao ponto de nada mais serem que uma mera amálgama de palavras. Qualquer debate político pressupõe uma tomada de posição, um esclarecimento prévio. Não há mal nenhum em dizer o que se pensa, se enganar e mudar de ideias. Não há mal nenhum em procurar ser-se minimamente verdadeiro, minimamente franco, minimamente leal, directo, na busca constante de um conhecimento que se quer objectivo. Apenas assim nos centramos nas políticas e esquecemos as tricas pessoais. Ganhamos nós que encetamos esse caminho e ganham todos os que nos ouvem e lêem.

Não posso deixar de agradecer à Antonieta Lopes da Costa que me recebeu, confiando cegamente em alguém que à data não tinha qualquer experiência neste ramo; ao Paulo Pinto Mascarenhas, anterior moderador do programa, que me pediu que o substituísse, quando motivos profissionais não o permitiam continuar, e a todos os convidados que aceitaram gravar e discutir o que lhes ia na alma, sem medo de exporem as suas ideias a um país que, ainda que muito lentamente, está a começar a concordar connosco.

 

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