O Insurgente

Maio 10, 2010

Do que é que precisamos: mais ou menos “Europa”?

Ontem, “celebrou-se” (por assim dizer) o “Dia da Europa”. Ao contrário do que os euroentusiastas mais excitadas gostariam, os tempos não estão para grandes festas, e as “celebrações” passaram ainda mais despercebidas dos “europeus” do que é usual. Preocupados em evitar que a Grécia rebente (ainda mais) e outros países apanhem com os estilhaços, nem mesmo os propagandistas do costume gastaram muito tempo a falar das maravilhas da “união”. No entanto, de forma mais ou menos envergonhada, lá aproveitaram as reuniões de emergência para o “salvamento” da Grécia para nos explicarem como todo o tumulto é a prova de que precisamos de “mais Europa”.

O raciocínio desta gente é simples: a crise actual mostra como “os problemas de hoje” são “problemas globais”. E, dizem-nos, “problemas globais” requerem “soluções globais”. As “complicações” (para ser generoso) enfrentadas pela Grécia (e, não esqueçamos, Portugal) mostram, continua o argumento, como nenhum país tem capacidade para enfrentar crises como a actual sozinho, e portanto, como “construções” como a União Europeia são indispensáveis no “mundo globalizado de hoje”.

Mas e se a actual crise, o que mostra, realmente, é que “soluções globais” são a pior opção possível? E se o que a crise mostra é como precisamos de menos “Europa”, em vez de uma “maior e mais profunda intergração”? Há algum tempo, no New York Times, David Brooks pegava na “gripe A” (ainda se lembra, caro leitor?) e colocava a mesma pergunta aos que, tal como os europeístas de hoje, procuram “soluções globais para problemas globais”: “a couple of years ago”, escreve Brooks, “G. John Ikenberry of Princeton wrote a superb paper making the case for the centralized response. He argued that America should help build a series of multinational institutions to address global problems. The great powers should construct an “infrastructure of international cooperation … creating shared capacities to respond to a wide variety of contingencies.” If you apply that logic to the swine flu, you could say that the world should beef up the World Health Organization to give it the power to analyze the spread of the disease, decide when and where quarantines are necessary and organize a single global response. If we had a body like that, we wouldn’t be seeing the sort of frictions that are emerging from today’s decentralized approach. Europe has offended the U.S. by warning its citizens not to travel across the Atlantic. Ukraine is restricting pork imports. Europe could hoard flu vaccines, leaving the U.S., which has only one manufacturing plant, high and dry. Fear of a pandemic could lead to a restrictionist race, as nations compete to curtail movement and build walls. Those dangers are all real. Yet, so far, that’s not the lesson of this crisis. The response to swine flu suggests that a decentralized approach is best. This crisis is only days old, yet we’ve already seen a bottom-up, highly aggressive response. In the first place, the decentralized approach is much faster. Mexico responded unilaterally and aggressively to close schools and cancel events. The U.S. has responded with astonishing speed, considering there are still few illnesses and just one hospitalization (…) A single global response would produce a uniform approach. A decentralized response fosters experimentation. The bottom line is that the swine flu crisis is two emergent problems piled on top of one another. At bottom, there is the dynamic network of the outbreak. It is fueled by complex feedback loops consisting of the virus itself, human mobility to spread it and environmental factors to make it potent. On top, there is the psychology of fear caused by the disease. It emerges from rumors, news reports, Tweets and expert warnings. The correct response to these dynamic, decentralized, emergent problems is to create dynamic, decentralized, emergent authorities: chains of local officials, state agencies, national governments and international bodies that are as flexible as the problem itself.”

Tal como a “gripe A”, a crise económica mostra como vivemos num mundo de imprevisibilidade e risco. E tal como Brooks, tenho sérias dúvidas que “respostas globais”, ou “europeias”, sejam a melhor forma de viver num mundo como o nosso. Não seria melhor termos uma diversidade de respostas aos problemas, em vez de caminharmos todos para o abismo? não deveríamos nós aceitar a natureza imprevisível, caótica, arriscada, do mundo globalizado de hoje, ee correr o menor número de riscos possível na configuração dos próprios arranjos políticos. Precisamente por os riscos de qualquer decisão serem enormes, não só para quem a toma como para todos os outros, deveremos limitar, não o número de pessoas que tomam decisões, mas o número de pessoas sujeitos a um só decisor: se eu e o meu vizinho fizermos duas apostas diferentes, pode acontecer que eu perca, mas que ele ganhe. E mesmo que o facto de eu perder possa ter impacto sobre o ganho dele, o que é verdade é que ele ganhou alguma coisa, minorando o impacto que a minha perda possa ter nele; se o “Grande Regulador” fizer uma aposta em nome dos dois, ambos vamos perder o mesmo, sem nada que sirva de almofada a qualquer um de nós. E sim, é verdade que a nossa tendência para copiarmos as respostas que os outros dão significa que, muitas vezes, estamos a copiar respostas erradas. Mas também significa que, outras vezes, estamos a copiar respostas certas. Se um “Grande Regulador” der as respostas por todos nós, ou decidir qual o leque de respostas admissíveis, todos beneficiaremos quando ele tiver razão, mas o impacto de uma resposta errada será também muito maior, porque todos estarão errados.

A “Europa”, como seria de esperar, não está a seguir por este caminho. De certa maneira, a opção europeia é inevitável: como explicava o Miguel Morgado há dias, a única forma de salvar o euro será através de maior “integração” (o termo em EUROSOC para “subordinação nacional a Bruxelas”). Mas como o próprio Miguel notava, o facto de uma política “salvar” o euro não significa que ela não crie outros problemas, eventualmente mais graves e mais dificeís de resolver. A “saída” europeia da crise corre o risco de ignorar a principal lição que se deveria tirar da dita crise: a imprevisibilidade do nosso mundo, e a irracionalidade de algumas das nossas decisões, são factores que não podemos dispensar ao pensarmos acerca de como deverão ser os nossos arranjos políticos. Mas devemos considerar ambos igualmente, e levá-los a sério: deveremos perceber que todos podemos fazer escolhas erradas, e perceber que qualquer escolha pode ter consequências imprevisíveis. E que por isso, será melhor que o processo de escolha seja o mais disseminado possível, para que ninguém possa escolher por todos, para que o impacto de uma escolha errada seja o menor possível. “Mais Europa” é precisamento um exemplo do que não precisamos.

Maio 4, 2010

O Governo finge que existe

Há uns dias, e depois de vários meses que os “passistas” passaram a avisar para o perigo do “regresso” do “Bloco Central” com Manuela Ferreira Leite, o seu “chefe” (o “jovem” que tudo ia “mudar” e fazer “verdadeira oposição”) foi a um beija-mão ao Sr. Primeiro-Ministro, garantir-lhe que o PSD iria ficar caladinho nos próximos tempos, enquanto o PS finge que resolve os problemas e, na realidade, os deixa tornarem-se cada vez mais graves. O Primeiro-Ministro, claro, agradeceu, e o país, como de costume, pagará caro.

As novas medidas “restritivas” da atribuição do subsídio de desemprego são um bom (salvo seja) exemplo desse preço. Essas medidas até parecem um bom exemplo de saudável pensamento económico: se o Estado pagar menos subsídio de desemprego aos desempregados, estes terão menos incentivos para continuarem desempregados. Mas, mais do que uma demonstração de inteligência e bom senso dos responsáveis socialistas, esta medida mostra apenas o quão intelectualmente cromagnon é o Governo.

Ao contrário do que Sócrates e os seus meninos (com o silencioso beneplácito de Passos Coelho e o seu malcriado guru Nogueira Leite), não consta que o problema do desemprego em Portugal se deva a uma chusma de preguiçosos que ficam sentados a sugarem os contribuintes enquanto os empregos florescem no mercado de trabalho. Pelo contrário. Os dois grandes problemas do desemprego devem-se, por um lado, à morte de certas actividades que, pura e simplesmente deixaram de ser rentáveis, e que lançam no desemprego uma série de pessoas que nunca de lá sairão, e por outro, à falta de flexibilidade do mercado de trabalho: é difícil despedir, o que faz com que seja difícil contratar, o que faz com que o problema do desemprego não seja um problema de falta de procura por parte dos desempregados, mas essencialmente de oferta de empregos.

Ser menos “generoso” na atribuição dos subsídios de desemprego, nestas circunstâncias, pouco ou nada fará para resolver o problema, pela simples razão de que o problema não está aí. Com tais medidas, o Governo (e Passos Coelho) apenas deixarão desempregados de longo prazo, que, devido à rigidez do mercado de trabalho, terão dificuldade em arranjar emprego por muito que o procurem, em maiores dificuldades. Como de costume, na sua ânsia de se mostrar “activo” e “actuante” (“in the parlance of our times”) perante a crise, Sócrates deixa imaculados os verdadeiros problemas, e cria outros como se o país já não tivesse os suficientes. Como se estas pérolas de “sensibilidade social” (algo que o PS sempre disse apreciar bastante, mas de que se esquece regularmente) não fossem suficientes, o Governo insiste (com protestos envergonhados do PSD) na necessidade de esbanjar dinheiro no TGV e restantes obras de “investimento público” (que, quando convém, são “de capital privado”. O “melhor” de dois mundos, portanto). O que mostra bem como não é só o TGV que precisa de ser suspenso, mas o próprio Governo (e a oposição) que deveria ser convenientemente dinamitado, antes que seja todo o país a rebentar.

Abril 9, 2010

A “unidade”

Filed under: Política,Portugal — Bruno Alves @ 21:30

Parece que começou o Congresso do PSD em Carcavelos. Os primeiros “sinais” (como agora se diz) da liderança de Pedro Passos Coelho devem certamente acalmar os que estavam preocupados com a sua capacidade de “unir” o partido. A mim, os tais “sinais” mostram apenas aquilo que já sabia de Passos Coelho: ele sabe como sobreviver no meio ambiente da politiquice, e domina bem a arte da distribuição de lugares (“sinal” de que todos aqueles anos na JSD não foram em vão). O que me deixa tudo menos descansado.

Abril 1, 2010

“Booby Trap”

Filed under: Cultura,Diversos,Internacional,Médio Oriente,Teoria — Bruno Alves @ 17:50

Em tempos, disse em conversa que as mulheres (o termo que eu devo ter utilizado deve ter sido outro, mas enfim) podiam “get away with murder” (não sei falar português, como o leitor atento certamente já reparou), porque tinham “certas características”, ausentes nos homens, que lhes permitem conquistar a nossa “simpatia” (chamemos-lhe assim) desviando-nos assim das suas intenções malignas. A representante da espécie com quem conversava interpretou as tais “características” como uma referência, e passo a citar, “às mamas”, no que não se enganou. Confesso que o que eu tinha em mente com o “get away with murder” não era bem o que vem relatado nesta notícia do The Sun, mas vejo que estou muito à frente do comum dos mortais no que respeita à identificação das potenciais ameaças à nossa segurança:

FEMALE suicide bombers are being fitted with exploding breast implants which are almost impossible to detect, British spies have reportedly discovered.
The shocking new al-Qaeda tactic involves radical doctors inserting the explosives in women’s breasts during plastic surgery — making them “virtually impossible to detect by the usual airport scanning machines”.

It is believed the doctors have been trained at some of Britain’s leading teaching hospitals before returning to their own countries to perform the surgical procedures.

MI5 has also discovered that extremists are inserting the explosives into the buttocks of some male suicide bombers.

Terrorist expert Joseph Farah claims: “Women suicide bombers recruited by al-Qaeda are known to have had the explosives inserted in their breasts under techniques similar to breast enhancing surgery.”

The lethal explosives called PETN are inserted inside plastic shapes during the operation, before the breast is then sewn up.

The discovery of these methods was made after London-educated Nigerian Umar Farouk Abdulmutallab came close to blowing up an airliner in the US on Christmas Day.

He had stuffed explosives inside his underpants.

Hours after he had failed, Britain’s intelligence services began to pick up “chatter” emanating from Pakistan and Yemen that alerted MI5 to the creation of the lethal implants.

A hand-picked team investigated the threat which was described as “one that can circumvent our defence”.

Top surgeons have confirmed the feasibility of the explosive implants.

One claimed: “Properly inserted the implant would be virtually impossible to detect by the usual airport scanning machines.

“You would need to subject a suspect to a sophisticated X-ray.

“Given that the explosive would be inserted in a sealed plastic sachet, and would be a small amount, would make it all the more impossible to spot it with the usual body scanner.”

Explosive experts allegedly told MI5 that a sachet containing as little as five ounces of PETN could blow “a considerable hole” in an airline’s skin, causing it to crash.

Março 26, 2010

Tudo o que está errado no PSD

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 18:47

Acabo de chegar a casa, vindo da secção de Oeiras do PSD, onde fui votar para as eleições do partido. Como seria de esperar, a caciquagem começa logo à porta, com os militantes a serem devidamente instruídos acerca de como votar “devidamente”. Mas curiosamente, a eleição que preocupa os “vultos” do PSD de Oeiras não é a eleição para a liderança, mas uma qualquer eleição para a secção (ou para a concelhia, confesso que não sei, pois esse é um peditório para o qual dispenso dar). No meio de tanta conversa acerca do “futuro do partido”, e da “escolha do próximo Primeiro-Ministro de Portugal”, o que preocupa as almas que “animam” o partido é a eleição aparelhista, a que lhes dá empregos nos serviços municipais e afins. E isto é o suficiente para perceber tudo o que está errado naquele partido.

Março 19, 2010

Quanto mais apodrecido estiver o Governo, mais difícil será pô-lo no lixo

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 21:40

(publicado também aqui)

No exercício vagamente deprimente que foi o último Congresso do PSD, foi muito mencionada a ideia de que o partido laranja se prepara para escolher “o próximo Primeiro-Ministro de Portugal”. Apesar de, em parte, esta ser uma declaração mais ou menos de circunstância, típica de gente apostada em “animar as tropas”, mais indicadora da pobreza das cabecinhas que a emitem do que da realidade da cena política portuguesa (tal como a expressão “cena política portuguesa” indica a pobreza da minha), ela é também reflexo de um “estado de espírito” acerca do Governo e do seu futuro imediato: ela reflecte a ideia de que o Governo está como que “ferido de morte”, e que “cairá de podre” mais tarde ou mais cedo, entregando no doce regaço da pobre alma que estiver na presidência do PSD a tarefa de tirar Portugal do rosadinho buraco em que Sócrates e os seus aguadeiros nos afundaram.

Foi essa ideia (e claro, a possibilidade de castigar “aqueles que falam contra o partido”) que animou o Congresso de Mafra, tal como foi essa ideia que penalizou a avaliação do mandato de Ferreira Leite: por várias vezes, nos últimos meses, muito bom e mau analista achou por bem dizer que, perante um Governo tão fragilizado por “casos” e desgastado pela “crise”, só mesmo a suposta inabilidade de Ferreira Leite pode explicar a sobrevivência do regime socrático. A crer nestas “análises”, a solução para os problemas do PSD (e do país) seria fácil: bastaria encontrar um político “hábil”, ou seja, um mentiroso sem escrúpulos como Sócrates, e como políticos mentirosos e sem escrúpulos é o que não falta no PSD, a tempestade estaria próxima do fim.

Não querendo estragar a festa laranja (até porque o próprio partido se encarrega de o fazer), devo dizer que esta ideia de que a total descredibilização do PSD facilita a tarefa do PS é uma ideia profundamente errónea. Aliás, a derrota de Ferreira Leite parece-me ser precisamente uma prova disso. Ao contrário do que o PSD parece pensar, e do consenso generalizado da “inteligência” pátria, quanto mais apodrecido o Governo estiver, mais difícil será pô-lo no lixo.

Em primeiro lugar, porque nem a total describilização é suficiente para o Primeiro-Ministro deixar de se agarrar ao poder como eu gostaria de me agarrar a uma adolescente de qualidade estética superlativa (ou alguém capaz de disparar um bom insulto. Cheguei ao ponto em que já me contento com pouco). Como toda a sua história de vida demonstra, o cheiro de matéria fecal manifestamente não incomoda José Sócrates, que, como o outro senhor de The Wire prefere “to live in shit than to be seen to work a shovel”. Por muito que o seu regime apodreça, Sócrates nunca abdicará livremente do trono que ocupa, e de lá só poderá ser arrancado “à bomba”. “Bomba” essa que o Presidente da República, um senhor reconhecidamente pacífico, não quer largar, e longe vai o tempo (esperemos nós) em que os militares se entregavam a essas actividades. A única “bomba” que poderá ser usada será a dos eleitores nas urnas, mas temo que, quanto mais necessária ela se torne, menor seja a probabilidade deles estarem dispostos ao trabalho de a lançar.

antes das eleições de Setembro passado o escrevi: é precisamente o facto de vivermos num clima de “fim de regime” do PS que tornará as coisas mais difíceis para o PSD. Em primeiro lugar, a violência e degradação do debate “excita” os “fiéis”, que por muito desagradados que possam estar com Sócrates, não gostam de ver “um dos seus” ser atacado por “eles”. A podridão do regime fidelizará o PS, que tenderá, até à última hora, a proteger Sócrates como se de uma criança indefesa se tratasse (depois da última hora, a canção será outra).

Em segundo lugar, a demagogia reinante favorece os partidos de protesto, mas pequenos, o que estranhamente, acaba por favorecer o PS. O ódio a Sócrates não se traduz forçosamente no voto no PSD, podendo mais facilmente deslocar-se para o CDS ou até para o BE, partidos dados à berraria que faz o gosto do povo. É difícil a um partido que quer ser governo fazer oposição num ambiente político degradado, porque aquilo que pode motivar a conquista de votos (essa mesma degradação do regime do momento) é também aquilo que faz com que as pessoas tenham uma maior predisposição para votar em quem faz barulho, só por fazerem barulho. A degradação do Governo do PS acaba por retirar votos, não apenas ao PS, mas também ao PSD.

Até porque a podridão do Governo, arrastando consigo a desconfiança dos eleitores, traz também uma desconfiança não apenas em relação ao Governo, mas em relação à alternativa. Um Governo que mente, que manipula, que esconde e que parece corromper e estar corrompido, faz com que os eleitores, muito sabiamente, desconfiem de todo e qualquer político que lhes peça a sua confiança. Porquê confiar “nestes”, só porque nos dizem que vão ser diferentes? Os “outros” disseram “o mesmo”, e “foi o que se viu”. A desconfiança dos eleitores em relação a este Governo transforma-se, muito rapidamente, numa descrença na palavra de toda a classe política. Quanto pior o PS for, quanto mais degradado o Governo estiver, mais agreste será o clima político para aqueles que queiram promover uma alteração do estado das coisas (deixemos de lado a “mudança” obâmica, ela própria um produto e causa da podridão). Quanto menos as pessoas acreditarem no PS, menos acreditarão na possibilidade de “os outros” serem diferentes. Por muito que me custe, temo que o “próximo Primeiro-Ministro de Portugal” seja precisamente o que lá está hoje.

Março 17, 2010

Zombies e civilização

Filed under: Diversos,Teoria — Bruno Alves @ 15:05

Através de uma pessoa profundamente perturbada, cheguei a um texto de Daniel Drezner, na Foreign Policy, em que este discute uma série de estudos acerca do que aconteceria se viesse a ocorrer um ataque de zombies em larga escala. Aparentemente, tudo começou com um estudo tornado público em Agosto, sobre o qual Drezner terá escrito logo na altura. A minha primeira reacção foi de incredulidade, espantado com o facto de alguém falar seriamente do assunto. A segunda foi de admiração, por ver uma série de gente a não ter qualquer pingo de vergonha em falar seriamente do assunto. E a terceira foi achar que eles tinham toda a razão em falar seriamente do assunto, porque, no meio da parvoíce (que é, obviamente, muita, como aliás o leitor poderá ver de seguida, facto pelo qual peço desde já desculpa), se consegue perceber algo de fundamental acerca das nossas sociedades.
(mais…)

Março 13, 2010

Respondendo a Rui Rodrigues

Filed under: Blogosfera,Comentário,Insurgentologia,Política — Bruno Alves @ 22:10

Parece que o meu texto de ontem sobre o PSD deu, simultaneamente, “pena” e “vontade de rir” a Rui Botelho Rodrigues. Acho estranho que algo que provoque sentimentos de “pena” ao Rui lhe dê ao mesmo tempo “vontade de rir”, um sinal de ruindade ou desequilíbrio que não abona muito a seu favor. Ou então, era apenas uma tentativa de ser “provocador”, mostrando apenas e só a sua inabilidade para o fazer. Seja como for: é por causa de textos como o do Rui que cada vez vou tendo menos paciência para os blogs. Porque esse texto mostra uma de duas coisas: ou estou a escrever para iletrados que não sabem raciocinar sobre o que escrevo, ou sou um total incompetente, que não sabe explicar o que quer dizer (a crer na opinião dos desafortunados que têm aulas comigo, a segunda hipótese é bem mais provável).

O Rui acusa-me de ser um “utilitarista” que acha que a “justiça” é apenas “o bem material do maior número”, e vislumbrou essas minhas tenebrosas convicções no post de ontem. Ele, que nota que eu pus “justiça” entre aspas, não se apercebeu que, se o fiz, por alguma razão foi. E bastava ter-me lido como deve ser para perceber que quando eu falei de “justiça” nos termos em que falei, entre aspas, me estava a referir à opinião de outras pessoas, e não à minha. Comecei por dizer que eu defendia um modelo liberal por desconfiar da espécie humana ao ponto de querer ser governado o menos possível pelo meu semelhante (e quanto mais semelhante ele for a mim, menos quero que ele me governe). Depois, referi-me a pessoas que acreditam nesse dúbio conceito da “justiça social”, e procurei mostrar como pode ser possível convencer essas pessoas de que o modelo liberal é o mais adequado para satisfazer as suas pretensões. Eu não acho que a “justiça” seja o mesmo que “utilidade”, mas, no entanto, há muito boa gente que assim pensa, e eu apenas quis dizer que o PSD, se quiser ser um partido capaz de fazer reformas em Portugal, terá de se saber dirigir a essas pessoas.

O Rui chama-me ainda de “ingénuo” por acreditar que o PSD pode ser um partido liberal. Pessoalmente, tenho as maiores dúvidas que o possa ser. Acho, isso sim, que deveria sê-lo, mas daí a acreditar que vai ser há uma distância muito grande. Poderei ser muito “ingénuo” em muitas coisas (e “juvenil”, infelizmente, sou certamente), mas em relação ao carácter e opiniões de muitas das pessoas que fazem parte do PSD, não o sou, de facto. Acredite o Rui que não preciso que ele me venha dar lições de realismo acerca do PSD, que, apesar da “ingenuidade juvenil” (que de facto me “embaraça” muito noutras àreas), há já muito tempo que as aprendi todas. O que não me impede, no entanto, de dizer que gostava que as coisas fossem diferentes. Acima de tudo, depois de ter passado meses a estudar e a escrever sobre as razões pelas quais a liberdade deve ser defendida como um valor imprescindível nos arranjos políticos, dispenso que me venham dizer que eu penso que se o comunismo trouxesse o “bem material do maior número”, eu seria comunista (não gosto que me chamem nazi, e não vejo grande diferença entre chamarem-me nazi e comunista, portanto agradecia que se abstivesse de fazer comentários desses). Claro que o Rui não tem meio de saber o que eu faço fora do blog, e portanto é natural que desconheça algumas das minhas opiniões sobre o assunto. No entanto, como já disse, bastava ter lido o meu texto com atenção para perceber como as acusações que me faz são de uma idiotice atroz. Ou, como temo, fruto da minha profunda incompetência. Seja como for, só peço ao Rui que tenha mais uma vez “pena” de mim (mas sem se rir, por favor), e me deixe em paz, até para ele próprio não ser acometido por sentimentos que visivelmente o perturbam de sobremaneira.

Março 12, 2010

O futuro do PSD

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 22:18

(publicado também aqui)

Não tenho escrito sobre as eleições no PSD, em parte por desvio da minha atenção para outras ocupações, em parte por pura preguiça. Além disso, o que penso acerca do PSD, o que penso acerca do que o PSD deve ser, não mudou nada nos últimos anos. A relativa pobreza do país, que convida os nativos a guardarem o pouco que têm e não a correrem os riscos necessários para poderem passar a ter mais, parece ser suficiente para deitar por terra as pretensões de “liberalizar” o país. Mas com um pouco de coragem e habilidade políticas, talvez seja possível encontrar um eleitorado disposto a apoiar um PSD liberal.

Há um conjunto de pessoas que estaria sempre disposto a votar em qualquer partido que pretenda emagrecer o Estado. Para pessoas que, como este vosso escriba, desconfiam da espécie humana ao ponto de quererem ser o menos possível governadas pelo seu semelhante, ou para “liberais clássicos”, que entendem ser o modelo liberal o mais adequado à natureza humana, tais propostas seriam sempre positivas. São poucas, é certo, mas outras poderiam juntar-se-lhes: “sociais-democratas”, no sentido tradicional do termo, pessoas que, acreditando na “justiça social” (e que é função do poder político obtê-la), se dispõem a apoiar as propostas que melhor lhes pareçam satisfazer tal pretensão. Para ser uma verdadeira alternativa ao PS, e assim regressar ao poder e exercê-lo em vez de ser seu refém, o PSD precisa de, adoptando um programa “liberalizante”, criar uma “coligação de vontades” que, indo da “direita” ao “centro-esquerda” (como o fizeram Sá Carneiro e Cavaco), concentre a sua campanha nesse “centro-esquerda”. E que o faça, não cedendo ao estatismo que esses eleitores tradicionalmente preferem, mas procurando mostrar-lhes como o liberalismo, mais do que o Estado Social a que se afeiçoaram, promove melhor a tal “justiça social” que desejam, melhor promove uma sociedade na qual não apenas eles, mas também o seu vizinho, poderão ter uma vida melhor.

No fundo, o PSD deverá adoptar um programa liberal, e perguntar aos que não o são se será “justo”, por exemplo, que a classe média seja sufocada por impostos que a impedem de suportar encargos com os seus pais já reformados, obrigando assim o Estado a ocupar o seu lugar, e dessa forma, retirar a uma população activa cada vez mais diminuta uma parte cada vez maior do seu rendimento, para dar a um crescente número de seus dependentes um rendimento cada vez mais escasso? Será “justo” que uma parte cada vez maior da sociedade faça descontos para um sistema de pensões do qual sabe nunca poder vir a beneficiar? Será “justo” que, sob a ilusão de um SNS “tendencialmente gratuito”, se aumentem os custos individuais com o recurso a esse mesmo SNS? Será “justo” que, devido ao espartilho legislativo que sufoca o mercado de arrendamento, os jovens sejam praticamente obrigados a comprar uma casa e a contrair o endividamento eterno que a acompanha?

Deverá depois convencê-los de que é mais “justo” deixar o mercado funcionar, e “amparar” a queda dos que não tiverem a sorte ou a capacidade de serem bem sucedidos, do que, como no mercado da habitação, o Estado acabar por criar problemas mais graves do que aqueles que, com a sua intervenção, pretende resolver. De que é mais “justo” que sejam os doentes (e idealmente apenas os que não tiverem recursos suficientes para o fazer por si próprios) a serem financiados, em vez dos hospitais, de forma a que o estes últimos deixem de depender do Ministério da Saúde e respondam às necessidades dos que a eles recorrem. De que é mais “justo” que os indivíduos tenham a liberdade de escolher a quem entregam as suas pensões, do que ficarem presos a um sistema condenado à falência. No fundo, de que uma sociedade mais livre será uma sociedade mais “justa”.

O PSD era tradicionalmente visto como um partido de pessoas que queriam subir na vida. Anos e anos de poder transformaram-no num partido de pessoas que querem manter o emprego público. Ao mesmo tempo, os portugueses foram sendo amarrados a um Estado Social que apenas garante o empobrecimento generalizado da população. Nenhum partido, excepto o PSD, os poderá libertar. E se é verdade que não o tem querido fazer, também parece ser cada vez mais verdadeira a ideia de que não lhe resta outra alternativa que não passar a querer. O líder do PSD, seja qual for o seu nome, terá de perceber isto, se quiser libertar o partido da letargia que o tem caracterizado, e os portugueses do Estado que os sufoca. E terá de perceber que, ao contrário dos seus antecessores, terá de conduzir a opinião pública, em vez de ser conduzido por ela. O melhor candidato á liderança será aquele que melhor perceber isto. Passos Coelho não o será certamente, embora provavelmente venha a ser o vencedor. Resta saber quem merecerá mais o cargo, se Rangel se Aguiar Branco. Talvez este Congresso sirva para o perceber.

Fevereiro 13, 2010

A falência do socratismo

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 22:34

Ontem, no sítio onde compro os jornais aqui em Caxias, havia mais actividade do que num relvado em que estão os jogadores do Sporting. Gente que eu nunca vi na vida entrava na loja, perguntando se havia o Sol. Todos faziam piadas, todos mostravam uma indisfarçável satisfação em ver, bem à vista de todos, a natureza dúbia das personagens que nos governam. O cenário, aparentemente, repetiu-se um pouco por todo o país. Quiosques com gente a pedir o jornal antes da hora de abertura, e-mails circulando com versões em pdf do jornal, e até versões fotocopiadas do Sol começaram a ser vendidas. Nada exemplifica melhor a total falência do socratismo: ontem, só mesmo os “abrantes” e “magalhães” não sentiram um enorme alívio ao ver o esgoto moral do governo ficar a céu aberto, restando apenas esperar que alguém venha finalmente resolver um problema que há muito era evidente que existia. Ontem, a procura do Sol foi um reflexo do nojo que os portugueses sentem por este governo, e em particular, pelo fato Armani que vive em S. Bento. Foi um sinal do desprezo que nutrem pelo “engenheiro” Sócrates, da sua vontade de o ver pelas costas, e da sensação que têm de que não falta muito para isso acontecer. Apenas temo que, como o cheiro da matéria fecal manifestamente não incomoda o Primeiro-Ministro, essa saída não esteja para tão breve assim.

Janeiro 21, 2010

Boa escolha

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:33

Passos Coelho apresentou hoje o seu livro, onde conta o seu “percurso de vida” e dá a conhecer as suas “ideias para o país”. À mesma hora, eu estava noutro local de Lisboa, sem Passos Coelho ou as suas “ideias”, mas a levar com chocolate quente em cima das pernas e a arriscar graves queimaduras. Acho que fiz uma boa escolha.

Janeiro 13, 2010

À falta de coisas importantes para discutir, o país político dedica-se às presidenciais

Filed under: Colunas,Comentário,Media,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 19:17

Manuel Alegre deu, este fim-de-semana, uma entrevista ao Expresso, mais uma oportunidade para falar longamente sobre o assunto que mais gosta, ele próprio (entre a entrevista e as fotos de Clara Pinto Correira em “êxtase sexual”, que fizeram as delícias de metade do país, e encheram de pesadelos o sono da outra metade, na qual me incluo, não houve grande diferença). A dada altura, o ex-deputado dizia que Cavaco Silva “sabe gerir os silêncios, mas não sabe gerir a palavra”, o que mostra que, se é verdade que o júri ainda está à procura de um veredicto acerca de se Alegre sabe gerir a palavra ou não, pelo menos fica claro que não sabe dar grande sentido às ditas.

Mas deixemos as graças de lado, até porque Alegre não merece ser gozado, pois cumpre um papel importantíssimo na manutenção da paz e tranquilidade na sociedade portuguesa. Se não fosse ele, e o seu gosto em mostrar que nada tem para dizer, o que teria sido dos jornalistas esta semana? Findo (por agora) o festival do casamento gay, centenas de jornalistas e comentadores entraram em pânico, sofrendo profundos e severos ataques de ansiedade por terem ficado sem assunto sobre o qual terem milhares de opiniões, nenhuma dela fundamentada. Teriam que se preocupar com o défice? Fazer reportagens sobre a sustentabilidade (ou falta dela) da Segurança Social? Limitar-se-iam a entrevistas a Pedro Passos Coelho, outro homem visivelmente apaixonado por si próprio? Esta última hipótese não preocupava especialmente a redacção do Diário de Notícias, que não tem feito outra coisa nos últimos tempos, mas certamente não fazia as delícias dos restantes. Felizmente, Alegre resolveu falar, e daquele conjunto de sons mal articulados, logo os jornalistas fizeram brotar um assunto de “debate”: as presidenciais de 2011.

Diga-se de passagem (e muito, muito, a contragosto) que o tema não é totalmente descabido. Dada a situação política actual, as eleições presidenciais de 2011 poderão ter um impacto significativo na realidade política (embora, dado o adormecimento que parece agradar a todos nós, o mais provável é que fique tudo exactamente na mesma). Mas o que excita os jornalistas (que, no entanto, não exibem fotos disso em galerias de Cascais) é mesmo a eterna dúvida “será que Alegre se candidata?”, e as intrigas palacianas que ela acarreta, especialmente tratando-se do PS, onde estas coisas têm sempre um certo fascínio, só superado pelas do PSD (quem tem Santana Lopes consegue sempre oferecer outra magia).

Gente mais sensata, como o Luciano Amaral, também se preocupou com as presidenciais de 2011. Diz o Luciano que a “última coisa de que o primeiro-ministro gostaria” seria “ter de lidar com um Presidente Alegre. Ora, é esse mesmo o outro real candidato a perfilar-se no horizonte. Um Presidente Alegre tornaria Sócrates refém da maioria parlamentar de esquerda (ou pelo menos da quase-maioria com o BE), o caminho certo para a sua irrelevância ou para o fim da sua credibilidade governativa. Onde chegamos a uma situação interessante. Entre a penúltima” (ter de lidar com Cavaco silva novamente) “e a última coisa de que menos gostaria, talvez o primeiro-ministro devesse preferir a primeira, o que reeditaria as circunstâncias das últimas presidenciais: apoio oficial a um candidato de esquerda e multiplicação de sinais mostrando que se preferiria o de direita. Sócrates bem esperneia, mas, na ausência de uma invenção catastrófica, ainda vai ter de acalmar o seu tom com o Presidente.”

Não discordando da análise do Luciano, falta-lhe uma outra hipótese, sobre a qual em tempos já escrevi: Sócrates avançar ele próprio contra Cavaco Silva. O resultado das últimas eleições, e a atmosfera de cortar à faca da política portuguesa nos últimos tempos, fazem-me ver tal cenário como cada vez mais provável: sem maioria absoluta, Sócrates ou governava em minoria ou com uma coligação com um qualquer partido que lhe será pouco menos que hostil (CDS ou BE). Descanso, era coisa que nunca teria (nem terá) fizesse o que fizesse. Eleições antes do tempo serão praticamente inevitáveis. O potencial de conflito com o presidente é enorme, e a melhor desculpa que o PS poderá usar para se vitimizar, estratégia indispensável em eventuais eleições antecipadas. E nada melhor para radicalizar esse conflito com o Presidente, e assim recorrer à única estratégia que poderá salvar o PS na difícil conjunutra que o espera, será Sócrates candidatar-se ele próprio à Presidência, para remover a “força de bloqueio” (aposto mesmo que este será o termo usado) que “impedirá o PS” de “dar futuro a Portugal”. Se a política portuguesa chafurdou na lama nos últimos anos, agora será muito pior. O que certamente deixará os jornalistas um bocadinho mais descansados.

Janeiro 8, 2010

Parlamento aprova casamento gay

Filed under: Comentário,Media,Política,Portugal — Bruno Alves @ 19:47

(publicado também aqui)

Esta tarde, a Assembleia da República aprovou a nova lei do “casamento gay”, para gáudio da meia-dúzia de pessoas que se encontrava à porta da Assembleia à espera de serem entrevistadas pelas televisões, e do Primeiro-Ministro, à procura de horas e horas de “espaços informativos” dedicados a tudo menos aos problemas reais do país (a cobertura da SIC Notícias, num excitadíssimo directo, teve o desgaradável resultado de me impedir de ver a repetição da Quadratura do Círculo, o que apesar de tudo, teve a vantagem de não me forçar a aturar a vergonhosa falta de educação de António Costa, rapaz a precisar de uns bons tabefes).

A dada altura, o pivot da SIC Notícias desviou a transmissão para São Bento, onde um “porta-voz” dos grupos de “gays, lésbicas e simpatizantes” (tantas perguntas, tão pouco tempo para as fazer: não são as lésbicas “gay”? O que são os “simpatizantes”? Serão como os dos clubes de futebol, os que torcem por uma equipa mas não são sócios? Estou habituado a, nas sitcoms americanas, os homossexuais serem referidos como “jogando na outra equipa”, mas não estaremos a ir longe demais?) foi interrompido pela repórter (da qual sou simpatizante, diga-se de passagem, não por causa da sua orientação sexual, que desconheço, e muito menos pelo trabalho, que me passa despercebido, mas pelas suas qualidades estéticas, que me despertam variados sentimentos, nenhum deles particularmente digno), que lhe pediu a sua opinião acerca do que se passara dentro da Assembleia: o porta-voz (que desconheço se seria “gay” ou mero simpatizante. Lésbica, presumo que não fosse, mas talvez seja discriminatório e antiquado restringir a lesbianice às mulheres) regozijou-se com a aprovação da lei, que, segundo ele, “punha fim à discriminação”.

Lamento desiludir o “gay, lésbico ou simpatizante”, mas a lei não elimina discriminação nenhuma. Pelo contrário, introduz uma discriminação, ao criar dois “casamentos” iguais em tudo, menos na capacidade de adoptar crianças, diferença essa baseada única exclusivamente no género das pessoas envolvidas: casais de um homem e uma mulher podem adoptar crianças, casais de dois homens ou duas mulheres (não sei se os simpatizantes, não pagando quotas, terão direito a usufruir da nova lei) não podem. Introduz ainda uma outra discriminação, entre homossexuais casados (que não podem adoptar), e homossexuais solteiros que vivam sozinhos ou com um parceiro (que poderão adoptar): um dos propósitos da nova lei, segundo os seus principais defensores, era o de atribuir às relações homossexuais a “dignidade” do casamento, mas na realidade, a nova lei trata o casamento homossexual como menos digno que o heterossexual, e até menos digno que uma mera “parceria”, ou “coabitação”, homossexual.

Independentemente do que se possa pensar acerca da legalização do “casamento gay” (pessoalmente, tenho as maiores dúvidas acerca do assunto), se há coisa que não se pode dizer é que esta lei é “igualitária” e põe fim à “discriminação” (podemos achar que essa discriminação se justifica ou não, mas não podemos achar que ela não existe). Se os senhores deputados que acham que dois homens e duas mulheres se podem casar entre si fossem mais homenzinhos, se (perdoem-me o francês) tivessem um pouco mais de tomates, se quisessem realmente “pôr fim à discriminação” (em vez de meramente criar uma distracção), teriam ido mais longe, permitindo a adopção de crianças por parte de casais homossexuais. Se quisessem (com ou sem razão) atribuir igual “dignidade” às relações homossexuais, não as discriminariam em relação ao casamento heterossexual nem a outras relações homossexuais.

Pensando bem, talvez a tal “falta de tomates” se adeque à ocasião. O Parlamento aprovou uma lei do casamento “gay”: não apenas uma lei que possibilita casamentos “gay”, mas uma lei do casamento que é, ela própria, um bocadinho “gay”, um bocadinho “amaricada”, um bocadinho “rotinha”, uma lei à qual falta a determinação e firmeza que se encontra nos melhores exemplos de masculinidade, a determinação que permite dizer que ou o casamento é só entre homem e mulher, ou, se é para ser entre dois homens, duas mulheres, ou entre simpatizantes, então esses “casamentos” terão mesmo que ser iguais aos outros. Ao aprovarem esta lei, os senhores deputados, em vez de carregarem (como pretendiam) o estandarte do “progresso” e da “igualdade”, mais pareciam ir embrulhados naquelas bandeirinhas arco-íris que se vêm em coloridas paradas berlinenses ou certas janelas lisboetas. E antes que o caro leitor acuse este texto de transpirar a ódio aos gays e às lésbicas (os simpatizantes não o parecem preocupar. Veja lá, não seja discriminatório), devo alertar-lhe que está enganado. Não nutro particular ódio por quem quer que seja. Não discrimino: odeio toda a gente, independentemente da raça, credo, género, ou orientação sexual. A começar por mim próprio.

Dezembro 28, 2009

“Investir” na família

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 18:21

A primeira página do I de hoje exclama, em tom meio indignado, que “Portugal é dos países que menos investem na família” (o que, conhecendo algumas famílias portugueses, se compreende. Seria dinheiro deitado à rua). Aparentemente, o Estado português “só gasta 1,2% do PIB em apoios à família”. É sabido como em Portugal toda a gente gosta de “apoios” (eu, por exemplo, sonho que o Estado um dia me apoie, atribuíndo-me um subsídio a quem gosta de ver muitos filmes, muita televisão, ou para que eu pudesse ficar em casa até ao fim dos meus dias sem ter de contactar com outros seres humanos), e como todo e qualquer Governo gosta de se dizer “amigo da família”, em especial da “natalidade”. Ninguém de bom senso (o que, por acaso, até não é o meu caso) negaria a importância das famílias (ou, pelo menos, de algumas) numa sociedade decente, ou os problemas associados à baixa natalidade, como a insustentabilidade da Segurança Social (não que esse problema exista em Portugal. Como todos sabemos, Portugal enfrentou com sucesso esse “desafio”: Guterres resolveu o problema para os 100 anos seguintes, e Sócrates garante ter resolvido o problema segunda vez, meia década depois). Mais duvidoso é que os tais “apoios” que o I considera serem escassos servissem para apoiar outra coisa que não os empregos no funcionalismo público dedicados a distribuí-los.

Como a grande maioria das “reclamações” dos portugueses, e das políticas que apelas aos nossos governantes, os “apoios” à família e à natalidade sobrecarregam mais do que “apoiam”. Ninguém, por exemplo, decide ter um filho porque o Estado lhes dá os trocos por isso. Mesmo que, porventura, o subsídio fosse elevado ao ponto de alterar a opção das pessoas, o resultado não seria muito bom: estar-se-ia a criar uma espécie de “parideiras públicas”, transformando a maternidade em profissão paga pelo contribuinte, como, segundo relatos, é o caso em certas camadas mais desfavorecidas da população inglesa.

Mas o que nunca ocorre aos Governos que se deixam enamorar pela retórica natalista e “amiga da família” é que se ninguém escolhe constituir família porque o Estado lhes dá um subsídio, há quem escolha não o fazer porque tal implica a compra de uma casa (e o endividamento eterno que a acompanha), porque tem de abdicar de metade do seu rendimento para permitir que o Estado distribua “apoios” pelos vários objectos da sua predilecção, porque no começo da vida activa a sua situação laboral é precária sem que o mercado seja flexível o suficiente para que lhe seja fácil arranjar outro emprego. Se o Estado quer “apoiar” as famílias, não precisa de “investir” nelas. Precisa de sair da frente, e deixar que se crie um verdadeiro mercado de arrendamento. Precisa de sair da frente, e deixar de sugar uma parte tão grande do rendimento dos contribuintes. Precisa de sair da frente, e deixar que as relações contratuais no mundo do trabalho sejam mais livres. As famílias, mais do que de mais “apoio”, precisam de menos carga.

Dezembro 14, 2009

O verdadeiro Portugal

Há dias, no Corta-Fitas, João Távora embarcava no comportamento tão típico do “intelectual português” que é a busca da salvação do país, e, como é habitual na espécie, chegava à brilhante conclusão de que “a resolução do imbróglio português só poderá sair duma solução de “salvação nacional” amplamente consensual e de forte liderança”, e de que “é urgente redescobrir a verdadeira alma portuguesa para fundar um novo ciclo”. Deixando de lado a prosa: é difícil dizer qual destas duas “conclusões” é a menos perspicaz.

Comecemos pela “salvação nacional amplamente consensual”. É espantoso como sempre que surge uma crise particularmente grave, toda a gente se lembra de pedir aos políticos que “ponham de lado as divergências” e “se unam” para se encontrar uma “resposta” para os graves problemas que nos afectam. Não ocorre aos suplicantes que é precisamente nas alturas de crise que não só é mais díficil chegar a “consensos amplos” como eles nem sequer são particularmente desejáveis: tais “consensos” são improváveis, pois é em períodos particularmente conturbados e difíceis que as opções à disposição das pessoas se tornam mais radicais, mais drásticas; é portanto apenas e só natural que as divergências entre políticos de uma orientação e outra se tornem ainda mais conflituantes, ainda menos dispostos a chegar a um consenso do que em tempo de “vacas gordas”; em segundo lugar, esses “consensos”, a existirem, são pouco desejáveis pois mais não seriam que um compromisso entre opções mutuamente incompatíveis, um cozinhado aquecido e reaquecido nos microondas das salas do Rato e da São Caetano, concebidos para agradar a toda a gente e destinados a não servir a ninguém que não os que deles recebessem um lugarzinho ou outro numa generosa empresa pública.

Pior que essa curiosa fé no “consenso amplo”, só mesmo o desejo de redescobrir “a verdadeira alma portuguesa” para, com ela, “fundar um novo ciclo”. Não ocorre a João Távora que a “verdadeira alma portuguesa” possa ser precisamente aquela que “fundou o ciclo” a que ele quer pôr fim. Não ocorre a João Távora que “isto” possa ser precisamente aquilo que os portugueses querem. Como em tempos escrevi, Portugal deixou há muito pouco tempo de ser um país verdadeiramente pobre. Há, por isso, uma “memória social” (perdoe-se o jargão) relativamente avivada da penúria, da fome, da miséria. Comparadas com a condição permanente da vasta maioria dos portugueses até há poucas décadas, as agruras desta “crise” são um verdadeiro paraíso, insuficientes para alarmar quem ainda tem a falta de comida como termo de comparação e avaliação da sua condição.

Ainda para mais, a grande maioria do eleitorado certamente se lembra da crise de 73, da do final dos anos 70, da dos anos 80. Um período de dificuldades económicas não é novidade para essa grande parte dos portugueses. E quanto aos eleitores mais novos, desde 2000 que vivem em “crise”, praticamente não se lembram de viver noutro estado que não o de “crise”, e portanto, vêem-na como algo de “normal”, não como algo que justifique uma mudança drástica. Pouca gente em Portugal sente que a estagnação (o destino inevitável do país se não se fizer “alguma coisa”) lhes fará perder o que quer que seja. Já as “reformas” aparecem como a ameaçadora possibilidade de muitos deles perderem alguns dos “benefícios” que o Estado vai fingindo que lhes dá. Entre a calma da estagnação (pouco assustadora se a compararmos com o passado recente do país) e a incerteza das reformas, muitos preferem a estagnação.

Os únicos que poderão perder alguma coisa se a “crise” continuar a ser “normal” (e a ser cada vez mais “normal”) são os que ganharam alguma coisa com a relativa prosperidade dos anos de Cavaco e Guterres. Infelizmente, essa prosperidade veio em grande parte do aumento do funcionalismo público, dos “fundos” europeus e da facilidade do endividamento, ou seja, do Estado e de coisas que ou acabaram de vez ou serão insustentáveis se continuarem. O que quer dizer que os únicos que poderiam ter alguma motivação para querer que a “crise” não se torne “normal”, têm, ao mesmo tempo, muitas razões para não quererem arriscar as “reformas”. É perfeitamente plausível que prefiram comer as poucas maçãs que ainda lhes restam antes que apodreçam, em vez de plantarem outra macieira para passarem a ter mais maçãs para comer. O facto de termos chegado ao “fundo do poço” não quer dizer que façamos tudo para voltar à superfície. Podemos optar por aproveitar o pouco que temos, antes de ficarmos com ainda menos. É uma opção pior, diz o caro leitor, e eu acho que o leitor tem razão. Mas nada nos garante que optemos pelas melhores soluções. A “alma portuguesa” teve, aliás, uma oportunidade de mostrar o que queria há bem pouco tempo. E o que quis foi precisamente “isto”. E eu bem que gostava de acreditar que nada disto é verdade, mas infelizmente é mesmo.

Amanhã, dia 15

Filed under: Agenda — Bruno Alves @ 01:12

1º Debate blog.PNG

Não se esqueça, caro leitor, amanhã, dia 15 (3ª feira), às 18h, na Sala de Exposições (2º piso do Edifício da Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica), a Associação Académica do Instituto de Estudos Políticos da UCP (nobre instituição que caridosamente me acolhe) realizará o seu 1º Debate.blog: todos os meses, dois bloggers estarão no IEP a debater um qualquer tema da actualidade. Nesta primeira edição, Pedro Adão e Silva, do blog Léxico Familiar (para além de ser colunista do I e do Diário Económico, e comentador nos programas Bloco Central da TSF e Roda Livre da TVI 24), e o nosso Rodrigo Adão da Fonseca discutirão o impacto da crise económica e as implicações que esta terá nas políticas a serem adoptadas no futuro. Poderá ainda assistir ao fracasso que será a prestação deste rapaz como moderador, certamente um espectáculo digno de se ver. Quem quiser ir assistir, será bem vindo, e qualquer questão sobre o debate poderá ser respondida através do endereço de mail aaiep@iep.lisboa.ucp.pt.

Dezembro 9, 2009

O pior que se pode fazer

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 22:27

O CDS/PP anunciou que se iria abster na votação do Orçamento Rectificativo e, no Cachimbo de Magritte, o Alexandre Homem Cristo aplaude. Diz ele que “o pior que se pode fazer a José Sócrates e ao Governo é deixá-los governar”. Esquece-se o Alexandre que “deixá-los governar” como eles governam é também “o pior que se pode fazer” ao país.

Dezembro 7, 2009

Publicidade institucional

Filed under: Agenda,Diversos — Bruno Alves @ 23:07

1º Debate blog.PNG

No próximo dia 15 (3ª feira), às 18h, na Sala de Exposições (2º piso do Edifício da Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica), a Associação Académica (terrível nome) do Instituto de Estudos Políticos da UCP (onde este vosso criado está a fazer o seu mestrado) realizará o seu 1º Debate.blog: todos os meses, dois bloggers estarão no IEP a debater um qualquer tema da actualidade. Nesta primeira edição, Pedro Adão e Silva, do blog Léxico Familiar (para além de ser colunista do I e do Diário Económico, e comentador nos programas Bloco Central da TSF e Roda Livre da TVI 24), e o nosso Rodrigo Adão da Fonseca discutirão o impacto da crise económica e as implicações que esta terá nas políticas a serem adoptadas no futuro. A moderação (so to speak), por razões que a razão desconhece (campanhas negras insinuam que se trata de um escandaloso abuso de poder), estará a cargo deste vosso rapaz, mas não deixe que isso o faça ficar em casa, caro leitor (eu não vou falar muito). Quem quiser ir assistir, será bem vindo, e qualquer questão sobre o debate poderá ser respondida através do endereço de mail aaiep@iep.lisboa.ucp.pt.

Dezembro 2, 2009

Obama e o Afeganistão

Filed under: Comentário,Internacional,Médio Oriente,Política — Bruno Alves @ 21:37

(publicado também aqui)

O Presidente americano Barack Obama anunciou ontem um reforço de tropas do seu país no Afeganistão. Nos próximos seis meses, 30 000 novos soldados serão enviados para o Afeganistão, num reforço da estratégia de “counter-insurgency” na região. Obama anunciou também que, a partir de Julho de 2011, os EUA iniciarão o processo de retirada de todas as suas tropas actualmente em missão em território afegão.

É necessário compreender como esta era um decisão difícil para Obama. Dadas as “complicações” (para ser simpático) que os EUA e a NATO enfrentam no Afeganistão, não aumentar o número de tropas equivaleria a aceitar a inevitável derrota que se começava a adivinhar. Derrota essa que, por sua vez, significaria a perda da (pouca) credibilidade americana como potência capaz de impôr a ordem no mundo (numa altura em que é preciso que alguém imponha essa ordem). Por outro lado, ao aumentar o número de tropas, Obama compromete-se directamente com o esforço de guerra no Afeganistão, até aqui meramente um conflito que ele tinha “herdado” de George W. Bush. O Presidente da “paz”, do “diálogo”, o “anti-Bush”, torna-se assim, da noite para o dia, num “war president” como o seu antecessor.

Consciente do dilema, Obama tomou a pior decisão possível. O General McChrystal, o comandante americano no Afeganistão, pedira ao Presidente 40 000 tropas, o número que ele considerava necessário para que o país pudesse ser controlado. Ao enviar um número inferior àquele que os responsáveis militares no terreno entendiam ser o mínimo necessário para os objectivos serem atingidos, Obama compromete-se com uma estratégia que corre grandes riscos de fracassar.

Risco esse que é apenas e só agravado com o anúncio de retirada para 2011. Em 2006, quando se discutia se George W. Bush deveria ou não retirar do Iraque, Paddy Ashdown, ex-líder dos Liberal Democrats britânicos, antigo Alto-Representante da ONU para a Bósnia-Herzegovina, e crítico da intervenção americana no Iraque, dizia que o anúncio de uma retirada imediata provocaria um aumento da violência, direccionada contra as tropas, num momento em que estas estão mais vulneráveis (segundo Ashdown que tem alguma experiência nestas questões, o momento da retirada é, pela própria natureza da operação, o momento em que estas estão mais vulneráveis a ataques, e em que estes podem causar mais baixas). Para além de que, sabendo a partir de quando as tropas americanas vão retirar, os Taliban apenas precisam de ficar quietos, em paz e sossego, sabendo que, mal elas saiam, terão um país inteiro à sua disposição, sem ninguém que lhes faça frente.

Mas não só a decisão de Obama foi a pior possível, como o processo que conduziu a ela (semanas e semanas de adiamento da decisão, que impediam o principal aliado dos EUA, o Reino Unido, de sequer preparar a sua própria decisão quanto ao futuro das suas tropas no Afeganistão) mostra como toda a enjoativa propaganda da campanha eleitoral de Obama não passava de banha da cobra para ser vendida aos ingénuos. O Presidente do “multilateralismo”, na sua relação com o principal aliado dos EUA, comportou-se da forma mais “unilateralista possível, como um recente número da Spectator mostrava. Bush era acusado de arrogância por não dialogar com o “Eixo do Mal”; Obama nem sequer dialoga com o Governo do país com mais soldados a morrer ao lado dos soldados americanos. E por não ter tido a coragem de enviar as tropas que, segundo os comandantes militares que ele próprio escolheu, Obama arrisca-se a que morram muitos mais.

Novembro 26, 2009

Democracia a mais, democracia a menos

Filed under: Comentário,Política,Portugal,Teoria,União Europeia — Bruno Alves @ 22:14

(publicado também aqui)

No editorial da sua última edição, a Sábado insurge-se contra a forma como a União Europeia escolhe “as pessoas que vão ocupar os principais cargos da sua estrutura dirigente”. Nada tenho contra o dizer-se mal da União Europeia (aliás, nada tenho contra o dizer-se mal seja do que for), mas é sempre desejável que seja pelas razões correctas. Ora, as razões apresentadas pelo editorial da Sábado não são das melhores. A queixa da revista é a de que, em vez de “usar uma caneta e um boletim de voto” a UE “usa uma régua e um esquadro” para preencher as vagas das suas instituições. Longe de mim negar o carácter pouco democrático (para ser simpático) da UE. Mas ao contrário do que os editorialistas da Sábado parecem crer, passar a escolher o “Presidente da Europa” com “uma caneta e um boletim de voto” não a tornaria mais democrática.

Convém não esquecermos que “democracia”, ou pelo menos, “democracia” no sentido que hoje atribuímos à palavra, não é apenas o governo da maioria: é o governo da maioria com limites, com controlo, para que essa maioria não “oprima” a minoria (ou as minorias). Mais do que o uso de “uma caneta e um boletim de voto”, o que distingue a democracia de outros regimes menos simpáticos é a presença de mecanismos de responsabilização do poder político, e de mecanismos que impeçam uma momentânea maioria de impôr tudo aquilo que lhe passe pela cabeça. Imaginemos que o “Presidente da Europa” passa a ser escolhido com “caneta e boletim de voto”, ou seja, numa eleição europeia. Seria isso uma forma de garantir e proteger a existência esses mecanismos? Se já hoje temos pouca confiança nos nossos políticos, se até num país tão pequeno como Portugal há tanta gente que não se sente representada pelas políticas adoptadas por quem está no poder, como seria com políticos que não conhecemos, e numa comunidade política tão alargada e tão diversa como seria uma “Europa Unida”? Como poderíamos nós saber se um político letão é não ou confiável, se não conhecemos nada do seu percurso? Como é que o desencantamento com a política, e a desconfiança em relação aos que a exercem, não aumentaria, quando um polaco visse um alemão a tomar decisões que, no seu entender, afectam negativamente o seu país?

Na realidade, a Europa já hoje tem um grave problema “democrático”: é demasiado democrática numas coisas, e insuficientemente democrática noutras. O Parlamento Europeu, por exemplo, é excessivamente democrático: se o compararmos com as instituições americanas, ele não é uma espécie de Câmara dos Representantes do povo europeu, antes é uma espécie de Senado em que cada Estado luta pelos seus interesses nacionais, com a diferença de que alguns estados (os com maior dimensão) têm mais poder do que os outros; os números têm mais força que os limites que supostamente os deviam controlar; é “democrático” no sentido pejorativo que os antigos lhe davam, de “domínio da multidão”. Por outro lado, a UE é pouco democrática ao menosprezar a verdadeira representação política dos seus cidadãos, aquela que está assente nos vários parlamentos nacionais. Onde a democracia no sentido moderno reside, nos parlamentos nos quais se sentam os verdadeiros representantes dos cidadãos, a UE insiste em esvaziar o poder que essas instituições têm, transferindo-o para essas distantes instâncias onde o “interesse europeu” (o dos “números”) é defendido. Passar a usar “uma caneta e um boletim de voto” na escolha dos cargos europeus não seria uma solução. Seria mais um passo no agravamento de um problema que já não é de menosprezar.

Novembro 24, 2009

Daqui a uns anos

Filed under: Comentário,Economia,Política,Portugal — Bruno Alves @ 23:11

(publicado também aqui)

Vitor Constâncio, conhecido propagandista governamental e Governador do Banco de Portugal nas horas vagas, disse recentemente que “para trazer o défice do valor em que se situará este ano para menos de 3% vai ser preciso novas medidas quer do lado da despesa, quer do lado da receita”. Traduzido de portsoc para português-padrão: vai ser preciso aumentar os impostos. Involuntariamente, Vitor Constâncio conseguiu numa só frase mostrar como a declaração (anterior) do Ministro das Finanças Teixeira dos Santos, de que “a elevação do limite de endividamento em 4.904,6 milhões de euros visa tão somente cobrir a falta de receita provocada pela conjuntura adversa que vivemos em 2009 e não pela necessidade de se gastar mais do que anteriormente autorizado pela AR”, era pouco mais que um embuste.

É que ao contrário do que Teixeira dos Santos quer fazer crer, o aumento do endividamento não consegue sequer cumprir esse propósito aparentemente tão comezinho (uma palavra que parece estar de novo na moda, e agradeçamos ao dr. Soares por isso) de cobrir a falta de receita. Na realidade, ele traduz-se apenas e só no adiamento da cobertura da falta de receita para daqui a uns anos. Ao endividar o Estado, Teixeira dos Santos apenas consegue fazer com que os encargos deste (ou seja, de todos nós) para daqui a uns anos aumentem, fazendo com que daqui a uns anos haja ainda mais “falta de receita” relativamente à quantidade de despesa que terá de ser efectuada. Sem querer, Vitor Constâncio explicou como a únicas formas de cobrir essa tal “falta de receita” serão a descida da despesa ou a cobrança de mais receitas.

Conhecida que é a apetência de Constâncio para desempenhar o papel de aguadeiro de Sócrates, não foi de estranhar que muito boa gente tivesse interpretado as palavras do ex-líder socialista como um sinal de que o Governo se preparava para aumentar os impostos. Teixeira dos Santos veio entretanto reafirmar o compromisso do PS com a promessa de que não subiria mais os impostos, o que obviamente veio apenas confirmar a percepção inicial de que eles seriam aumentados. Posso estar enganado (e normalmente estou, seja qual for o assunto), mas tenho muitas dúvidas que isso venha a acontecer. Não por confiar na honestidade e honorabilidade dos membros do Governo (ninguém de bom senso confia), mas por uma razão diferente. Este Governo não é um Governo, é uma gigantesca Comissão Eleitoral que usa os meios do Estado para fazer campanha. O seu único propósito é ganhar a próxima eleição. E como ninguém sabe muito bem quando irá esta ocorrer, Sócrates e os seus afilhados (sim, estou a insinuar que Sócrates é precisamente isso que o leitor está a pensar) têm que estar preparados para a eventualidade de ela ter lugar em qualquer altura. Ou seja, não podem tomar qualquer medida impopular, porque pode não haver tempo para recuperar dos seus efeitos a nível eleitoral.

À primeira vista, este poderia parecer um cenário relativamente agradável. Se eu tiver razão, a frágil economia portuguesa e as pessoas já em sérias dificuldades, não seriam ainda mais asfixiadas com uma carga fiscal que já hoje ultrapassa o tolerável. No entanto, se eu tiver razão, isso será tudo menos motivo para regozijo. Pois a mesma razão que impedirá o Governo de fazer a tremenda asneira de aumentar os impostos será a mesma razão que o impedirá de tomar as medidas necessárias para resolver o problema. Num país dependente do Estado, e principalmente, numa conjuntura como esta, os cortes na despesa pública (as várias “ajudas” que o PS dá aos seus aparentemente vastos “amigos”) seriam a coisinha mais impopular que o Governo poderia fazer. Por isso, para a forma como em São Bento se pensa, o único caminho possível é precisamente deixar tudo para daqui a uns anos. O problema está em que, a continuar a seguir essa opção, daqui a uns anos o problema pode já não ter solução.

Novembro 16, 2009

Ainda Sócrates e as escutas

Filed under: Comentário,Justiça,Política,Portugal — Bruno Alves @ 23:28

O deputado do Partido Socialista, João Galamba, criticou o meu post anterior. Diz o João que nós não sabemos o que realmente está nas escutas, e que portanto, não cabe a Sócrates defender-se daquilo que elas pretensamente o indiciam, mas sim à Justiça esclarecer-nos do seu conteúdo. Diz ainda o João que a Justiça fez este Sábado o esclarecimento que tinha a fazer, dizendo que havia indícios de crime nenhum.

Há uma coisa em que o João tem razão: nós não sabemos se o teor das conversas de Sócrates com Vara é ou não aquele que foi relatado nos jornais. Por isso mesmo eu escrevi que “a confirmar-se que elas dizem o que se diz que dizem, elas são suficientes para nós sabermos que Sócrates mentiu ao Parlamento, para sabermos que interferiu em negócios privados, e para sabermos que usa o poder para o qual foi eleito para dar “ajudas” a “amigos” como “o Joaquim”.” Ou seja, se aquelas conversas não forem verdadeiras, então, nada há a censurar no Primeiro-Ministro. Ora, tanto quanto julgo saber, ninguém desmente o teor das conversas. O que o Primeiro-Ministro nega é que elas sejam reveladoras de práticas duvidosas.

O que nos conduz ao “esclarecimento” feito pela “Justiça” neste Sábado: ao contrário do que o João diz, a Justiça não se pronunciou. pronunciou-se um intérprete da Justiça. Um intérprete autorizado (pelo Estado de direito) a interpretar a Justiça e a fazer valer a sua interpretação, mas um intérprete nonetheless. pode haver quem ache (há quem ache) que essa sua decisão é errada, e que existem nessas escutas (cujo conteúdo, mais uma vez, não foi desmentido, pelo menos que eu saiba) indícios de práticas mais duvidosas.

Mas admitamos que Pinto Monteiro tem razão ao considerar que elas não revelam qualquer indício de qualquer crime. Isso, mais uma vez, não nega que Sócrates não tenha dito o que se diz que ele disse. E se ele tiver dito o que se diz que disse (e nem ele próprio o nega: não é preciso ter-se “conhecimento oficial” para se ter conhecimento) então nós, cidadãos comuns, eleitores, devemos ter isso em consideração. Algo com que o próprio João galamba concorda, quando diz que “em certas circunstâncias, a legalidade da coisa passa para segundo plano, ou melhor, torna-se irrelevante; a legalidade não anula todos os factos.”

Ora, é precisamente isto que o Daniel Oliveira, que também criticou o meu post, contesta. Diz o Daniel que “a legalidade da utilização das escutas é, por enquanto, tudo o que me interessa”: “se eu colocar microfones na casa de Bruno Alves; se violar a sua caixa de correio e abrir-lhe a correspondência; se entrar no seu computador para ler os seus documentos e descobrir os sites que visita; e se, depois disso, tiver imensas coisas para dizer sobre a pessoa em causa, não se atrevam a querer discutir a moralidade e a legalidade do que fiz. Perante o que eu possa dizer sobre o Bruno Alves, isso será completamente irrelevante e secundário.”

Se o Daniel fizer isso tudo, terá tudo menos coisas interessantes a dizer sobre a minha pessoa. Levo uma vida francamente desinteressante, e pior do que ser eu, só mesmo ser a pessoa responsável por me vigiar 24 horas por dia. Mas esqueçamos isso, e imaginemos que eu sou um verdadeiro Tony Soprano, apenas com os meus 50 quilos de peso e neuroses mais graves. O facto de o Daniel cometer uma imoralidade ao escutar-me ilegalmente não apaga a minha imoralidade ao ser um líder de uma organização mafiosa. O nosso vizinho não me poderá pôr em tribunal, mas pode (e deve) pensar que será condenável associar-se a mim.

Diz o Daniel que se discutirmos o teor de escutas ilegais, e das quais não temos a certeza do seu teor, estaremos a pôr em causa conquistas que não deveríamos arriscar perder. Ele esquece-se que, se esse teor for verdadeiro, essas conquistas já estão em grande parte perdidas. E ao contrário do Daniel, eu não acho isso secundário.

Escutando Sócrates

Filed under: Colunas,Comentário,Justiça,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 16:52

Há uns anos, na Hungria, veio a público uma gravação do então Primeiro-Ministro, em que este admitia ter mentido aos eleitores acerca da verdadeira situação das contas públicas do seu país, provocando um compreensível escândalo público e uma série de manifestações violentas. Obviamente, essa gravação era tudo menos legal. Mas uma vez realizada, e uma vez tornada pública, as pessoas não podiam ignorar aquilo que ela revelava.

Imaginemos que um qualquer autarca era objecto de uma escuta ilegal por parte do DIAP do seu distrito era “apanhado” a organizar uma qualquer actividade criminosa. Esse imaginário autarca, por razões óbvias, não poderia ver essas provas usadas contra si em tribunal. Tendo sido ilegalmente obtidas, por muito que elas provassem a culpabilidade do dito autarca, não poderiam servir para o julgar criminalmente. No entanto, todos nós ficaríamos a saber que esse autarca havia estado envolvido em actividades criminosas. Não é difícil de imaginar as reacções da “inteligência” pátria: todos os colunistas e comentadores colocariam em causa o carácter do dito autarca, e exortariam os seus munícipes a não votarem nele.

Curiosamente, não têm essa reacção quando tal acontece a José Sócrates. Aparecem relatos de escutas que indicam que José Sócrates terá mentido ao Parlamento ao negar ter interferido no negócio da TVI, e a discutir “ajudas” ao “amigo Joaquim”. De imediato, inciou-se uma discussão acerca da legalidade das ditas escutas: há quem diga que são legais, e portanto passíveis de serem usadas como prova, e quem negue essa legalidade, dizendo que terão de ser destruídas. Essa é uma discussão importante, mas apenas relevante para saber se Sócrates deverá ou não ser alvo de um processo judicial. O facto de as escutas serem ou não legais é absolutamente irrelevante para o nosso julgamento do que lá é revelado. Elas poderão não ser suficientes para pôr Sócrates em tribunal. Mas, a confirmar-se que elas dizem o que se diz que dizem, elas são suficientes para nós sabermos que Sócrates mentiu ao Parlamento, para sabermos que interferiu em negócios privados, e para sabermos que usa o poder para o qual foi eleito para dar “ajudas” a “amigos” como “o Joaquim”. São suficientes para nós formarmos uma opinião sobre o carácter duvidoso do Primeiro-Ministro, e emitirmos um julgamento sobre a forma como ele usa o poder. Gente sem vergonha na cara mas com o bolso cheio (as “ajudas” de Sócrates aos seus “amigos”, pelos vistos, são bem generosas) mostra-se muito preocupada com o Estado de direito e os atentados contra este, motivados pelo uso de escutas ilegais (e isto dando de barato que são ilegais, algo com que nem toda a gente concorda). No entanto, não se preocupam tanto quando o primeiro-Ministro usa o tal “Estado de direito” (convenientemente “torcido”) para benefício próprio e dos seus “amigos”.

Novembro 7, 2009

O intervalo

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 22:09

O debate que esta semana teve lugar no Parlamento, sobre o programa de Governo do executivo Sócrates, e as “análises” que desse debate se foram fazendo na comunicação social, foram (infelizmente) uma pequena amostra do que serão os próximos tempos. O Governo, como de costume, vive no mundo de ilusão que só existe na linguagem propagandística que insiste em nos impingir. Para o Governo, os últimos anos foram um período de incessante sucesso, de grandes “conquistas” e recheado de “momentos históricos”, que só “bota-abaixistas” e “pessimistas” se escusam a aceitar, certamente por “inveja” e “ressentimento”. Os que se seguem serão, a acreditar nas palavras do Primeiro-Ministro, uma continuação da imparável caminhada de Portugal em direcção à “modernidade”.

Sempre que a oposição tem o descaramento de lembrar Sócrates de que a economia está em crise, que o défice derrapou, e que os problemas do país não têm fim à vista, ele ignora a evidência, e acusa os outros partidos de ainda não terem percebido que perderam as eleições. Estes, claro, retribuem a acusação, dizendo ao Primeiro-Ministro que ele é que não percebeu que já não tem maioria absoluta. Mas o que os debates mostraram foi como todos eles perceberam muito bem o que aconteceu nas últimas eleições. A oposição não podia senão perceber que perdera as eleições. E o PS tem a plena consciência de que não governará com a facilidade que encontrou nos últimos quatro anos. É por isso que o debate foi como foi.

Todos os partidos têm a sensação de que esta legislatura não conta. A anterior acabou (o PS já não tem maioria absoluta), mas a actual surgiu num quadro de tão grande indefinição e incerteza (até pela conjuntura económica) que ninguém espera nada de muito relevante enquanto ela durar. O que o debate mostrou foi que os partidos representados no Parlamento encaram esta legislatura como um longo intervalo entre a anterior e a próxima: fora uma ou outra excepção (como a intervenção de Pacheco Pereira sobre a corrupção), o debate não passou de um “jogo de posicionamento” que durará até à convocação de eleições antecipadas, em que o PS se apresenta como um agente de “modernização” que só a “cegueira” do “bota-abaixismo” e da “irresponsabilidade” ousa bloquear, e a oposição acusa o Governo de “arrogância” e, claro, “irreponsabilidade”. Todos sabem que a legislatura não chegará ao fim, e todos procuram que esse destino funesto seja considerado da responsabilidade da outra parte. O problema é que, enquanto os deputados e governantes se divertem a atirar a batata quente de um lado ao outro do hemiciclo, os problemas do país não têm intervalo. Pioram. E salvo essas raras excepções, o Parlamento não os discute. Torna-se inútil. Aumenta a descrença dos cidadãos nos seus representantes. A conta, claro sairá cara para nós. Mas também para aqueles políticos que, de um lado e de outro, optam por ignorar a realidade.

Novembro 2, 2009

O “novo” Público

Filed under: Colunas,Comentário,Media,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 22:25

Ouvi há pouco, na TSF, a entrevista de Bárbara Reis, nova directora do Público, a Carlos Vaz Marques. Ouvi, e fiquei preocupado. Diz Bárbara Reis (repetindo o que fora escrito no seu editorial) que o Público tinha tido até aqui um “excesso de carga ideológica”: ou seja, o facto de haver, na redacção do jornal, uma pessoa que gostava de George W. Bush e apoiara a guerra do Iraque é sinal de um excesso de carga ideológica no jornal (presumo que Reis não se estivesse a referir a São José Almeida ou a Teresa de Sousa, exemplos de isenção e neutralidade).

O que me preocupa não é, ao contrário do que se possa pensar, que o “novo” Público se torne um jornal “de esquerda”. O “velho” já o era, e eu continuava a lê-lo. O que me preocupa é uma aparente maior “moleza” perante o regime. Preocupa-me que a retirada de “carga ideológica” acabe por se traduzir em falta de vigilância à podridão que vem de S. Bento. Dirá o leitor que, se isso acontecer, eu tenho bom remédio: deixar de ler o Público. Mas o problema está em que esta não é uma mera questão de gostar ou não do Público. Está em que o Público tem sido, até aqui, o único a não ter medo de investigar as dúvidas em torno da pessoa e do passado do Primeiro-Ministro, o único a pôr em causa a propaganda oficial e a não ir atrás dos “abrantes”. Uma transformação do Público em Diário de Notícias B não seria apenas uma má notícia para os leitores do Público, mas um problema para o país.

Outubro 21, 2009

Os Tennessee Titans e o welfare state

Titans a serem deitados ao chão pelos Patriots

Titans a serem deitados ao chão pelos Patriots

No próximo domingo, o Estádio de Wembley irá ser palco de um futebol diferente daquele a que está habituado com os jogos da selecção inglesa e a Final da FA Cup (os pombos que, desde a reinuaguração, “acampam” perto da baliza do lado direito, esses, devem continuar lá): na tentativa de promover o futebol americano na Europa, a NFL realizará o seu jogo anual no estrangeiro em Londres, com um jogo entre os Tampa Bay Buccaneers e os New England Patriots. A propósito do jogo, o blog do New York Times dedicado à NFL comenta o facto de os Bucanneers, uma das poucas equipas que esta época contam todos os seus jogos por derrotas, ser propriedade de Malcolm Glazer, o dono do Manchester United, o clube de futebol mais bem sucedido da última década no futebol inglês (e, apesar do Barcelona, a nível europeu). O autor do texto, Jeffrey Marcus, pergunta se há uma grande diferença entre ser bem sucedido num campeontao como o inglês de futebol “europeu”, e na NFL. A resposta, diz Marcus, é sim, existe uma grande diferença. Ele cita, Simon Kuper, co-autor do livro Soccernomics, para explicar como a diferença na organização dos dois campeonatos favorece equipas bem sucedidas no futebol europeu (em que é difícil a um “grande” deixar de ser grande), enquanto que a da NFL faz com que uma equipa campeã possa, uns anos depois, estar nas ruas da amargura.

O argumento do livro de Kuper é criticável, mas é indesmentível que essa diferença existe. Os Buccaneers são eles próprios um exemplo vivo da maior dificuldade de manter a supremacia na NFL: na época de 2002, foram campeões, hoje não conseguem ganhar um jogo. Outro exemplo pode ser encontrado nos Tennessee Titans, que na época passada tiveram o melhor registo na temporada regular (sendo depois eliminados nos playoffs), e que este ano ainda não ganharam um único jogo, tendo neste domingo sofrido uma humilhante derrota por 59-0 contra os Patriots.

Segundo Kuper, “domingo a domingo”, “jogo a jogo” (como gostam de dizer os nossos “misters”), a Liga Inglesa é mais competitiva. A probabilidade de uma equipa “pequena” ganhar um jogo a uma “grande” é maior na Liga Inglesa do que na NFL (o que facilmente se explica pela natureza do jogo: o carácter atlético do futebol americano, e a própria forma como o jogo decorre, faz com que seja pouco provável que uma equipa com jogadores inferiores aos do adversário o consiga vencer. No “nosso” futebol, já não é bem assim). Mas a realidade é que o lote de campeões (de equipas, que, no fim de toda a temporada, ganham os títulos) tem sido, nos últimos anos, bastante menos amplo do que na NFL: desde os finais dos anos 90 que o título inglês não escapa a uma de três equipas (Chelsea, Arsenal, e Man. Utd.) enquanto que o Superbowl já foi ganho (só nesta década) pelos St. Louis Rams, Patriots (várias vezes), Baltimore Ravens, Bucanneers, Pittsburgh Steelers, New York Giants e Indianapolis Colts.

A diferença, argumenta Kuper, está na forma como os “perdedores” são tratados na organização da liga americana. Na Liga inglesa, como em todas as ligas europeias, os últimos classificados do campeonato descem de divisão. A descida de divisão, por sua vez, implica perda de contratos de transmissão televisiva, ou seja, implica perda de dinheiro, que por sua vez implica perda de capacidade de contratação de jogadores. As maiores equipas, por sua vez, qualificam-se para as competições da UEFA, que lhes trazem mais dinheiro ainda, o que lhes permite contratar ainda mais jogadores de maior qualidade, que lhes permitem (ou, no mínimo, facilitam) a consolidação do seu estatuto de superioridade.

Na NFL (como nas ligas dos outros desportos americanos), nada disto acontece. Uma equipa pode perder todos os jogos da época regular (como os Detroit Lions na época passada), que nada lhe acontece: mantém-se na liga, mantém os contratos televisivos, e, mais importante ainda, tem direito à primeira escolha do draft do ano seguinte: a pior equipa da liga tem acesso aos melhores jogadores saídos do campeonato universitário (que pode trocar por outros jogadores que fortaleçam a equipa). Os maus resultados de uma equipa não prejudicam necessariamente a sua condição financeira, e a qualquer altura podem estar de novo no topo. Na pior das hipóteses, os fracos resultados de uma equipa podem conduzir a uma descida nas vendas de bilhetes e camisolas, mas nada que não se resolva com uma mudança de cidade (fala-se por exemplo, de uma mudança dos Rams para Los Angeles).

Na NFL, os “perdedores” são compensados e “protegidos”. Na Liga inglesa, perder é uma tragédia. Pode-se argumentar que este tratamento mais favorável dos perdedores na NFL produz uma maior competitividade: uma equipa tradicionalmente medíocre como os Arizona Cardinals pode, num ano, chegar ao Superbowl (como aconteceu o ano passado). Mas tem também efeitos preversos, como se viu este domingo em New England. Os Titans, com cinco derrotas em cinco jogos, e apenas onze por jogar, dificilmente chegarão aos playoffs. Para todos os efeitos práticos, a época está perdida. Na Liga Inglesa do ano passado, uma equipa que (como os Titans) tinha grandes ambições e (como os Titans) começou mal a época, o Tottenham, não tinha a época perdida: dificilmente chegaria às competições europeias, é certo, mas convinha que continuasse a jogar a sério, para não descer de divisão. Equipas do fundo da tabela, como o Newcastle ou o Hull, lutaram até à última jornada com o objectivo de permanecerem na Premier League.

Os Titans (ou os Lions, ou os Rams, todas equipas com péssimo registo este ano) não têm necessidade de lutar para sobreviver. Mais: como explicavam os comentadores do programa Monday Night Countdown da ESPN, a propósito dos Titans, o mau começo de época leva a que os jogadores, pura e simplesmente, desistam de se esforçar. O risco de se lesionarem é grande, e uma lesão pode pôr em risco a próxima temporada. Para quê pôr em risco uma temporada em que se começa do zero, por uma em que já nada pode ser conquistado? Pelo contrário, no campeonato inglês, não lutar até ao fim significa precisamente perder a temporada seguinte.

O problema identificado pelos comentadores do Monday Night é um clássico problema de incentivos: num campeonato como a Premier League, a mediocridade é fortemente penalizada com a “expulsão” da liga (através da descida de divisão). Na NFL, ela não só não é penalizada, como, através da atribuição das primeiras escolhas no draft às piores equipas, se procura atenuar a diferença entre os mais medíocres e os melhores. Como Kuper bem diz, a NFL é um welfare state desportivo. Tal como qualquer welfare state, tem óbvias vantagens. Equipas como os Lions não deixam de poder jogar contra os Patriots ou os Steelers só porque perdem todos os jogos, tal como um pobre não deixa de ter (ou não deveria deixar de ter) comida para comer. Mas tem também efeitos preversos, pois ao proteger o fracasso, retira o incentivo para a ele escapar. A NFL é um excelente exemplo de como um “welfare state” traz enormes vantagens a quem dele beneficia. Mas basta ter visto a deprimente exibição dos Titans no jogo de domingo passado para perceber como um “welfare state”, apesar de todas essas vantagens, contribui para a aceitação da mediocridade e da passividade.

Outubro 16, 2009

A “responsabilidade” do PSD

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 19:46

Na procura do seu duplo objectivo de ser líder do PSD e tornar-se o parceiro silencioso de José Sócrates (ou, pelo menos, silencioso em tudo o que não diga respeito a Manuela Ferreira Leite, onde é bem vocal), o sempre solícito Pedro Passos Coelho manifestou-se muito incomodado com o anúncio de que o PSD não contava aprovar o Orçamento socialista. Indignado, Passos Coelho perguntava-se como pode alguém rejeitar aprovar um orçamente que não existe. Ao contrário do que pensa, ou finge pensar (se pensa, pensa mal, e se apenas finge, não finge melhor), o que não faltam são boas razões para rejeitar o próximo orçamento socialista, independentemente do seu conteúdo.

Ao contrário do que por vezes parece a quem oiça ou leia a comunicação social ou preste atenção a pessoas como Passos Coelho, nenhum Governo é posto na terra por “Imaculada Conceição”. Este Governo, como qualquer outro, não nasce do nada. Não é uma folha em branco. Nasce da eleições de deputados que concorreram com um programa. O PSD, por sua vez, concorreu com um programa que se opunha ao do PS. O PSD não precisa de esperar pelo orçamento. Sabe que, se o PS cumprir a sua palavra e respeitar a confiança dos portugueses que votaram em si, apresentará um orçamento que reflectirá um programa que o PSD considera ser nocivo ao país.

O leitor dirá que o PS pode, uma vez ultrapassada a corrida aos votos, abandonar as suas políticas mais eleitoralistas, e adoptar um orçamento “sensato”, que um PSD “responsável” (uma palavra que está na moda) não poderia rejeitar. Mas seria “responsável” da parte do PSD colaborar com a quebra da palvra por parte do PS? Seria “responsável” da parte do PSD deixar o PS quebrar impunemente as suas promessas eleitorais e aprovar (ou ser indiferente a) uma atitude que apenas aventuará na cabeça dos eleitores a ideia já pouco abonatória que eles têm dos “políticos”? Gente preocupada com as suas ambições pessoais e com os negócios dos apoiantes não se deixa perturbar por estas questões. Alguém um bocadinho mais sensato facilmente percebe que, seja o orçamento socialista mais um exemplo do vergonha socrática, seja um orçamento uma maravilha de sensatez, um PSD “responsável” não pode senão rejeitá-lo.

Outubro 12, 2009

Isaltino e Oeiras

Filed under: Colunas,Comentário,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 19:02

A (esperada) reeleição de Isaltino Morais, com um reforço da sua votação, fez com que a satisfação dos comentadores com a derrota de “candidatos arguidos” como Fátima Felgueiras e Avelino Ferreira Torres ficasse a saber a pouco. Afinal, Isaltino fora recentemente condenado a sete anos de prisão (tendo depois interposto um recurso da decisão), algo que não preocupou os eleitores de Oeiras. Mais do que insatisfação, o resultado em Oeiras motivou alguma perplexidade, parecendo algo incompreensível.

Sendo um habitante de Oeiras, que não votou em Isaltino (que não votou em ninguém, diga-se de passagem), não me parece difícil de perceber por que razão Isaltino continua a merecer o apoio dos oeirenses. Não é que os meus “vizinhos” sejam indiferentes à corrupção, nem que sejam populações pobres que se deixam comprar por electrodomésticos (e quem pode culpar os casos em que isso acontece?). O que se passa em Oeiras é a conjugação de uma série de factores que tornam a ideia de votar em outra pessoa que não Isaltino algo muito pouco desejável.

Para perceber o que se passa em Oeiras, é preciso perceber onde fica Oeiras. Sendo um concelho suburbano, com muitos habitantes trabalhando nos concelhos em seu redor, os eleitores oeirenses conhecem, e observam quase diaramente a realidade desses outros concelhos. Sempre que alguém me pergunta o porquê das vitórias de Isaltino, dou este exemplo: qualquer pessoa que ande de carro em Oeiras percebe quando atravessou a “fronteira” com Cascais, Lisboa ou Amadora. De repente, as estradas têm mais buracos, o alcatrão está mais gasto, as ruas mais sujas e, em redor, aumenta o caos urbanístico.

Em Oeiras, também há bairros sociais de aspecto deprimente (e com populações que votam em massa em Isaltino, diga-se de passagem), também há obras que se eternizam, também aí idiotices sem sentido (o monocarril é a maior delas). Mas é difícil não ter a percepção de que nos concelhos vizinhos é ainda pior, e de que a vantagem relativa de Oeiras se deve ao homem que “manda aqui” desde 1985. Por muito que o carácter corrupto de Isaltino repugne as pessoas, não é o suficiente para que elas arrisquem votar noutra pessoa, pois, ao contrário de Isaltino, eles não dão a garantia de que não transformarão Oeiras numa Amadora ou em Cascais. É, de facto, deprimente que um homem condenado a sete anos de prisão ganhe uma eleição. Mas enquanto os outros partidos não perceberem a realidade de Oeiras, dificilmente o vão conseguir evitar. Até lá, Isaltino (ou qualquer fantoche por ele apoiado), ganhará sempre em Oeiras.

Outubro 11, 2009

Maioria absoluta garantida

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 23:03

Rui Rio venceu no Porto, renovando a sua maioria absoluta. A crer em Elisa Ferreira, o Porto deve ter muitos adeptos do Benfica. Recorde-se que, numa entrevista ao I, a eurodeputada (perdeu-se uma eleição, mas não a “gamela”) dissera que Rui Rio tinha “o apoio de seis milhões de benfiquistas”. Parte deles, pelos vistos, vota no Porto. Imagine-se se Rui Rio viesse a ser líder do PSD: seria uma maioria absoluta garantida.

Outubro 5, 2009

It’s…

Filed under: Diversos,Videos — Bruno Alves @ 21:38


Pelos vistos, foi para o ar há 40 anos.

Setembro 29, 2009

A declaração de Cavaco

Filed under: Comentário,Media,Política,Portugal — Bruno Alves @ 21:42

Cavaco Silva veio dizer, muito claramente, que dirigentes do PS e gente ligada ao Governo tinha feito circular notícias com o propósito de o fragilizar e de distrair os portugueses da campanha eleitoral. Até aqui, nada a apontar ao Presidente da República. É evidente que foi esse o objectivo da manobra, logo no início e muito claramente aquando da “notícia” do DN. Mas, ao demitir Fernando Lima (deixando assentar na cabeça das pessoas a ideia de que ele tinha feito algo de errado), e não dizendo o que hoje disse antes das eleições, Cavaco deixou que essa manobra atingisse os seus objectivos. Tal como ao longo do seu mandato, Cavaco assistiu impávido e sereno á falta de vergonha deste Governo, e às suas actividades pouco lícitas. Agora vem, com toda a razão, apontar o carácter duvidoso das pessoas que nos governam. Pena que seja tarde demais. O seu silêncio (deixando a declaração de hoje para depois das eleições) e a sua acção (demitindo Lima) permitiram a vitória dos que “ultrapassaram os limites da moral e da decência”. Falou demasiado tarde.

O que aí vem (2)

Filed under: Blogosfera,Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 16:37

O Paulo responde amavelmente ao que aqui escrevi ontem. Diz ele que a razão pela qual escreveu que “José Sócrates e o PS são reféns de um parlamento pulverizado” foi que “dialogar com as oposições contraria a verdadeira natureza de José Sócrates e deste PS”. Ora, é precisamente aqui que me parece estar o erro do raciocínio do Paulo e da maioria das pessoas que têm dito coisas semelhantes. Ao contrário do que diz Ana Sá Lopes (num artigo citado pelo Paulo), não me parece que o “verdadeiro Sócrates” tenha “acabado”. A razão é simples: não me parece que venha aí grande diálogo. A “arrogância” do Primeiro-Ministro vai continuar, e se os outros partidos não forem atrás, serão caracterizados como “maledicentes” e “obstáculos” à “modernização do país”. Sócrates não vai precisar de esconder a sua natureza e tornar-se um “animal manso”, porque a sua habitual ferocidade fará parte da estratégia de vitimização com que pretenderá fortalecer a sua posição em eleições antecipadas. A única forma de isto não suceder será se Passos Coelho (ou outra figurinha desprezível como ele) acabar mesmo por se tornar líder do PSD. Aí, Sócrates terá um PSD sempre disponível para se curvar aos seus pés. Mas não me parece que o país, nem sequer o parlamento, ganhem muito com isso.

Setembro 28, 2009

O que aí vem

O Paulo Pinto Mascarenhas, no seu blog, diz que “Sócrates e o PS são reféns do parlamento”. Compreende-se o regozijo (tudo o que pareça uma diminuição de poder de Sócrates provoca a alegria de uma pessoa de bem), mas não me parece que o Paulo tenha razão. Como bem diz o Miguel Morgado, o resultado de ontem conduzirá, não tanto a uma maior actividade parlamentar, mas “mais comunicação e negociação entre as direcções dos partidos políticos.” Aquilo a que se vai assistir nos próximos anos (resta saber quantos) não será uma “parlamentarização do regime. Teremos, isso sim, muitas reuniões de vão de escada (um local desaparecido desde a campanha do referendo sobre o aborto) e de sótão (há muitos socialistas com saudades), a muitos “acordos secretos” que, longe de fortalecerem o parlamento e a representação dos cidadãos, apenas contribuirão para o crescente nojo que os portugueses sentem em relação à actividade política. O frágil equilíbrio parlamentar presta-se a golpes baixos, a jogos de “posicionamento” enfim, a “politiquice”.

E nessa “politiquice”, tenho as maiores dúvidas de que os “reféns” acabem por ser o PS e Sócrates. Por estranho que pareça, serão os partidos minoritários a estarem numa posição mais complicada. É verdade que o PS “precisa” deles para ver aprovadas as medidas que quiser implementar. Mas também é verdade que o PS, tal como o PSD em 1985/87, poderá pôr os outros partidos entre a espada e a parede: se apoiarem, mesmo que pontualmente, o PS e o Governo, arriscam-se a trair um eleitorado que votou neles por serem diferentes do PS; se votarem contra o PS, arriscam-se a que Sócrates use a “postura obstacularizadora” (habitue-se a este jargão, caro leitor) dos partidos da oposição para se vitimizar e apresentar-se a umas eleições antecipadas como alguém a quem “não deixaram salvar o país”. Esperam-nos anos de muita actividade para os “abrantes”, de muita baixeza, de muita lama. Precisamente aquilo em que, como se viu nestes últimos anos, o actual primeiro-Minitro se sente à vontade.

Setembro 27, 2009

Sobre os “abutres”

Ao contrário do que diz o Miguel, Luís Felipe Menezes não inicia agora as hostilidades. Esta tarde, ainda o acto eleitoral estava a decorrer, e já Menezes dizia aos jornalistas que o PSD precisava de seguir outro rumo. A falta de carácter não espera por resultados.

Sócrates 2011

Há alguns anos, após a eleição de Cavaco para a Presidência, eu disse, em conversa com o André Abrantes Amaral, que em 2011, José Sócrates seria o candidato presidencial do PS. Já este ano, a propósito dos planos presidenciais de Alegre para esse ano, mudei ligeiramente a minha “previsão”: se Sócrates ganhasse as eleições de hoje, seria o candidato. Inicialmente, não acreditava muito no que estava a dizer: apenas fiz uma previsão com poucas probabilidades de acertar, para caso ela se viesse a confirmar, eu parecesse genial. Mas o resultado de hoje, e a atmosfera de cortar à faca da política portuguesa nos últimos tempos, fazem-me ganhar mais convicção nessa previsão: sem maioria absoluta, Sócrates ou governa em minoria (como sou contra qualquer coligação pós-eleitoral, o cenário que preferiria) ou com uma coligação com um qualquer partido que lhe será pouco menos que hostil (CDS ou BE). Descanso, é coisa que não terá. Eleições antes do tempo serão praticamente inevitáveis. O potencial de conflito com o presidente é enorme, e a melhor desculpa que o PS poderá usar para se vitimizar, estratégia indispensável em eventuais eleições antecipadas. E nada melhor para radicalizar esse conflito com o Presidente, e assim recorrer à única estratégia que poderá salvar o PS na difícil conjunutra que o espera, será Sócrates candidatar-se ele próprio à Presidência, para remover a “força de bloqueio” (aposto mesmo que este será o termo usado) que “impedirá o PS” de “dar futuro a Portugal”. Se a política portuguesa chafurdou na lama nos últimos anos, agora será muito pior.

O pior do resultado eleitoral

Pior que ter alguém de carácter duvidoso e manipulador como José Sócrates como Primeiro-Ministro, só mesmo ter uma cópia da personagem, Passos Coelho, como líder do PSD e principal “alternativa” de poder.

Merecer ou não merecer

Como diz o Hélder, nem todos têm o que merecem. Pelo merecido castigo de muitos (cerca de 40% dos eleitores, ao que parece), vão pagar muitos outros.

Setembro 26, 2009

A campanha e a realidade

Filed under: Comentário,Política,Portugal — Bruno Alves @ 18:50

Tem-se tornado hábito, nas últimas campanhas eleitorais, assistir-se a lamentos da intelligentsia acerca de como as campanhas dos principais partidos são incapazes de “mobilizar os portugueses”, acerca de como falham nas suas tentativas de “ultrapassar a descrença” dos portugueses. Em parte, têm razão em lamentar. Mas por outro, este é um facto que só abona a favor dos portugueses. Quando o país enfrenta problemas que, se não forem defrontados, nos deixarão um futuro negro, e a resolução desses problemas nos obrigará a enfrentar dificuldades hoje, a “descrença” e a “falta de esperança” são sinais de que os portugueses, ou pelo menos, uma parte significativa deles, compreendem a realidade. Algo que não se pode dizer, por exemplo, de José Sócrates. Pena que, com o começo do circo das duas últimas semanas, se tenha falado pouco disso.

Setembro 21, 2009

O pântano

Filed under: Colunas,Comentário,Media,Política,Portugal,Semana Política — Bruno Alves @ 22:24

De repente, o “disparate de Verão” transformou-se naquilo que, desde o princípio, dava para perceber que se iria tornar: um sinal grave da degradação da democracia portuguesa. Depois do DN ter revelado a fonte da notícia orginal do Público, e de insinuar, sem fundamento, que o simples facto de a notícia vir de Fernando Lima implicava que tudo não passava de uma invenção, Cavaco Silva vem agora desautorizar o seu assessor, e por contágio, a investigação do Público, ao demitir Fernando Lima. Ao contrário do que se poderia pensar pela histeria agora surgida, por contraste com o silêncio absoluto quando o Público trouxe o assunto para a praça pública, os acontecimentos mais recentes nada trazem de novo: todos os não envolvidos continuam sem saber o que se passou, e tal como aqui escrevi na altura, seja qual for o cenário que corresponda à realidade dos acontecimentos, nenhum deles augura nada de bom.

Se o ex-assessor de Cavaco tiver razão, e o Governo estiver a escutar e a vigiar as pessoas que trabalham na presidência, a gravidade da coisa não pode ser exagerada: um governo que traísse a relação de confiança mútua, e de respeito, pela Presidência, desta maneira, seria, pura e simplesmente, um Governo criminoso, já nem sequer “sub suspeita” como dizia Aguiar Branco, mas apanhado em flagrante. Se, pelo contrário, esta acusação não passa de uma notícia plantada por spin doctors ao serviço de Cavaco, uma mentira deliberada que visa descredibilizar (ainda mais) o Governo, seria também uma quebra intolerável da normal relação que a Presidência deve ter com um Governo, e portanto, um acto intolerável. E mesmo que o antigo assessor de Cavaco pense realmente que está a ser escutado, mas tal não corresponda a verdade, o caso não é menos grave: pois o simples facto de algo assim ser concebível, o simples facto de alguém na Presidência poder acreditar que o Governo é capaz de fazer algo assim, atribuir credibilidade a essa hipótese, demonstra como a relação entre Belém e São Bento se degradou.

Mais do que essa relação, degradou-se a própria democracia: o tom da campanha tem sido particularmente violento, nada que já não se tivesse tornado habitual nos últimos anos. Como escrevia Vasco Pulido Valente há uns dias, vive-se um ambiente de crispação e desconforto mais parecido com o PREC do que com o que seria de esperar de uma democracia normalizada. E é um clima que tem responsáveis. A começar pelo governo, que cultiva este ambiente porque acha (provavelmente com razão) que ele o beneficia, e que, como nenhum outro, fez da mentira e manipulação o seu modo de acção, apagando a já pouca confiança que os eleitores tinham na classe política.

Mas o Presidente da República também não está isento de culpas. Já há muito que ele deveria ter demitido o Primeiro-Ministro. Em vez disso, foi tolerando o seu comportamento destruidor da confiança democrática. Cavaco Silva assistiu, impávido e sereno, à degradação da democracia portuguesa, em vez de demitir o Governo e explicar porquê. Nesse sentido, ele, o único que poderia ter feito alguma coisa para o evitar, é talvez o maior responsável pelo estado a que “isto” chegou. De Sócrates, não esperava nada de diferente. Mas no que diz respeito a Cavaco, o seu dever era precisamente evitar que as coisas chegassem a este ponto.

Sinceramente, não compreendo como o país inteiro já não está farto deste deprimente circo, e ainda há pessoas dispostas a pôr Sócrates no poder. Como já aqui disse, se Portugal conserva um mínimo de decência, Sócrates perderá as eleições. Mas se não as perder, os portugueses (e um Cavaco certamente desagradado), terão o Governo que merecem. A culpa será toda deles, Cavaco incluído.

Setembro 17, 2009

As tentações de Ferreira Leite

Filed under: Comentário,Media,Política,Portugal — Bruno Alves @ 18:02

Fui um dos muitos milhões de portugueses que, há dias, assistiram à participação de Manuela Ferreira Leite no programa daqueles quatro rapazes que não se cansam de mostrar a sua total falta de criatividade e humor. E devo dizer que fiquei um pouco incomodado com o que vi. Não pela prestação de Ferreira Leite, que “se saiu bem” do “confronto” com Ricardo Araújo Pereira (súbita e estranhamente elevado ao estatuto de temível entrevistador), mas pelo simples facto de Ferreira Leite ter ido àquele programa.

O programa é pura e simplesmente revoltante. Para além de ser uma cópia do Daily Show de Jon Stewart, é uma má cópia. Para além do mais, a própria natureza do programa recomendaria a recusa de Ferreira Leite em participar. Ele consiste exclusivamente de peças que procuram ridicularizar os políticos, descontextualizando frases suas de forma a mostrar como eles são rídiculos e motivo de chacota. Não conseguindo fazer rir, o programa apenas é bem sucedido a confirmar na cabeça das pessoas a ideia já bastante negativa que a generalidade deles tem dos políticos. Aqueles três quartos de hora, para além de incrivelmente entediantes, são um extraordinário contributo para a degradação de debate político em Portugal.

Só isto seria o suficiente para Manuela Ferreira Leite não aceitar dar a sua caução ao dito programa. Dirá o leitor que a líder do PSD tinha de ir ao programa, porque todos os outros líderes partidários iriam participar, e a sua ausência seria motivo de acusações e críticas. O que me conduz à outra razão, talvez até mais importante, pela qual Ferreira Leite fez mal em aceitar participar: alguém que, como a própria Ferreira Leite disse no próprio programa, quer “fazer política de forma diferente”, não deveria ter ido aos Gato Sem Piada só porque os outros também o fizeram. A juntar à escolha de Santana Lopes para as autárquicas, ou à inclusão de António Preto e Helena Lopes da Costa nas listas do círculo de Lisboa, ou às declarações na Madeira elogiando o comportamento “democrático” de Alberto João Jardim, esta é apenas mais uma de uma já considerável lista de pequenas cedências de Ferreira Leite às “necessidades” do “jogo eleitoral”, ou seja, à “política feita como é costume”.

No estado em que o país está, com as reformas que precisarão de ser implementadas, Manuela Ferreira Leite, qual Cristo no deserto (ou eu junto de adolescentes bem parecidas) será muitas vezes “tentada” a não fazer o que o país precisa. O próximo Governo só poderá ser um bom Governo se resistir a todas essas tentações. Já sabia que Sócrates não seria capaz de o fazer. Começo a temer que Ferreira Leite também não o seja. E quem o diz é alguém que, enquanto alguns dos “apoiantes oficiais” de Ferreira Leite andavam loucamente apaixonados por Pedro Passos Coelho, sempre defendeu a importância de Ferreira Leite ser a líder do PSD e a próxima chefe de Governo. Espero ter acertado à primeira, e os meus receios actuais se comprovem tão infundados como há uns meses eu os acharia.

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