Marx e a Coca-Cola

 

“Aquilino Morelle, conselheiro próximo do Presidente François Hollande, viu-se forçado a apresentar nesta sexta-feira a sua demissão, depois de ter sido acusado de ter beneficiado empresas farmacêuticas quando era membro da Inspecção Geral dos Assuntos Sociais, e por levar “uma vida sumptuária” com os meios do Estado, num artigo publicado quinta-feira pelo site Mediapart.”

“As revelações de “Mediapart” tiveram grande repercussão porque o site (…)  revelou estranhos hábitos burgueses, muito chocantes para o eleitorado de esquerda, do assessor presidencial. Morelle não hesitaria por exemplo em “privatizar” salões do “Hotel Marigny” – palácio localizado nas imediações do Eliseu onde geralmente a Presidência instala os mais ilustres chefes de Estado estrangeiros durante as suas visitas a França – para mandar engraxar os sapatos! Segundo “Mediapart”, o conselheiro de 51 anos terá mais de três dezenas de pares de sapatos de grande luxo e abusaria do consumo de vinhos de nomeada da cave do Palácio presidencial para acompanhar simples refeições de trabalho.”

 

Leio esta notícia e penso no “filósofo da vaidade” de Burke: um personagem típico da esquerda dita “caviar”, um canalha capaz de proclamar publicamente o seu amor pela Humanidade, de dar sermões moralistas a um público choroso muitas vezes com um discurso assente no “vai dar para toda a gente ser feliz sem se magoar nada nem ninguém e até sobra para acabar com os sem-abrigo” mas, em privado, não hesitaria em abandonar e maltratar, por exemplo, os filhos (como Rousseau, o tal filósofo da vaidade). Pessoas que se julgam salvadoras do mundo (e do país), com belas proclamações são, basicamente, de dois tipos: ou são autoritárias ou são infantis. Não é só a mentira, a desonestidade intelectual, a diferença entre o que dizem e o que fazem, entre a prática e a teoria se quisermos, mas o exercício mental de que partem: a fuga para grandes abstracções, grandes ideias (a Humanidade, a igualdade, o proletariado), puras fantasias dogmáticas, com modificações e deturpações das circunstâncias reais e com consequências, por vezes destrutivas, para a realidade de que fogem. Hipocrisia e vaidade: são as marcas registadas da esquerda caviar, sempre do lado errado na batalha das ideias. Roberto Campos fez um diagnóstico preciso da árvore genealógica desta gente ao afirmar que se “trata de filhos de Marx numa relação adúltera com a Coca-Cola”. 

 

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Legitimidades

Vasco Pulido Valente no Público

O coronel Vasco Lourenço e os seus consócios querem agora falar na Assembleia da República, presumivelmente para defender aquilo a que chamam “ideais” de Abril, que, na sua douta opinião, o Governo anda por aí a trair. Sucede que o Governo foi eleito e que nenhum título assiste aos militares, que se consideram depositários de uma herança hoje desacreditada e morta, para expender no Parlamento as suas frustrações

André Azevedo Alves na RR

Pode ler aqui o texto integral das declarações do André Azevedo Alves à Radio Renascença.

Se fosse ministro das Finanças, como seria o seu DEO?
Neste momento a posição de ministro das Finanças não é muito invejável e é sempre mais fácil falar quando não se tem a responsabilidade de exercer as funções. Eu creio que, neste momento, o país, a economia, ainda mais quando há alguns sinais de retoma depois de uma situação muito difícil, não pode acarretar, não deveria acarretar, novos aumentos de impostos. Eu excluiria, à partida, a possibilidade de aumentar impostos. Sobra a possibilidade de reduções da despesa e parece-me difícil que essas reduções, para além de tornarem permanentes as medidas temporárias mais significativas, necessariamente teriam que passar, ainda que sob uma forma diferente, por alterações em termos do financiamento da Educação, da Saúde e da Segurança Social. A prazo, creio que qualquer solução que não implique alterações nessas áreas não será uma alteração verdadeiramente sustentável.

Denial

kafkaEu, no Diário Económico de hoje

Apesar da negação, as pensões de reforma já estão indexadas à demografia e ao crescimento económico em toda a Europa, sendo que, se em alguns países já o perceberam e agiram em conformidade, em Portugal, mantemo-nos orgulhosamente no primeiro estágio do Modelo de Kübler-Ross. Parecemos não querer saber que a Segurança Social é um sistema de redistribuição e não se distribui o que não existe. Se há dois pães e duas pessoas a quem os distribuir há um pão para cada uma. Se houver três pães e quatro pessoas, não se distribui um pão a cada pela razão simples que só há três.

 

Ninja Português Da Marinha Lança O Primeiro Drone Avião-Submarino

NinjaO Ministro da Defesa, Aguiar-Branco, foi ontem brindado em Alfeite pelo lançamento de um avião não tripulado que em breve fará a vigilância da costa. A experiência no entanto correu mal, tendo o drone caído ao mar logo após o lançamento. Este drone, desenvolvido por uma empresa portuguesa que desenvolveu os drones da PSP tem a particularidade de ter que ser lançado à mão, sendo o principal risco do lançamento o drone bater na cabeça ou nas costas do lançador. Apesar de tudo, o lançamento acabou por ser bem sucedido à segunda tentativa.

O Ocidente e a Ucrânia

Nas últimas semanas, tenho vindo a acompanhar o agravamento da tensão na Ucrânia com crescente preocupação. Trata-se de um conflito que na minha opinião tem sido desvalorizado pela opinião pública internacional, e que poderá evoluir para uma situação dramática a qualquer momento.

Há algum tempo que andava a pensar escrever este post, mas hoje, depois de ouvir a entrevista que Putin concedeu à televisão russa, decidi que o post não podia esperar mais. Tenho para mim que todas as guerras, independentemente das tropelias que sempre são cometidas de parte a parte – daí o velho ditado “quem vai à guerra dá e leva” -, têm sempre de um lado aqueles que moralmente têm razão e do outro aqueles que moralmente não a têm. Além disso, tenho também como convicção que nenhuma guerra deve ser desencadeada de forma preventiva; apenas deve ser movida como resposta a uma agressão explícita. Foi por estas razões que no passado apoiei a intervenção da NATO na Sérvia, e também por essas razões que sempre me opus à 2ª invasão do Iraque.

Ora, neste conflito entre a Ucrânia e a Rússia temos de um lado a Ucrânia, um país onde a população forçou à deposição de um regime corrupto, conduzindo à nomeação parlamentar de um Governo de transição com vista a eleições democráticas perfeitamente datadas, e datadas em tempo útil. E temos do outro lado a Rússia que, não tendo gostado da queda do tal regime corrupto, e sob o mesmo tipo de discurso que outrora ouvimos de um sujeito chamado Adolf Hitler, decidiu invadir as fronteiras internacionalmente reconhecidas do seu vizinho, anexando parte desse mesmo território. Assim, não existem para mim quaisquer dúvidas acerca de quem tem a vantagem moral neste conflito, e de quem partiu a agressão.

A Guerra Fria está de volta, e a Rússia está de novo no lado errado da contenda. Mais: Vladimir Putin é um grandessíssimo pulha, e a Europa está ela própria a cometer os mesmos erros do passado. Angela Merkel faz agora de Neville Chamberlain. Quanto a Obama, não obstante a retórica inicial, e umas pequenas medidas dissuasoras contra o regime de Moscovo, também não foi capaz de conter o avanço russo. O Ocidente falhou rotundamente. A sua atitude complacente e permissiva, permitindo que Putin anexasse a Crimeia num fechar de olhos, foi um enorme erro.

Bem sei que ninguém deseja um conflito militar com a Rússia. Mas atendendo à natureza revivalista da liderança do homem forte de Moscovo, mais cedo ou mais tarde será necessário por travões a Putin. E quanto mais tarde isso acontecer, tanto pior será. Galvanizado, parece evidente que Putin continuará a desestabilizar a Ucrânia. Assim, a melhor resposta, a fim de evitar males maiores, seria colocar de imediato as tropas da NATO no terreno, isto é, no leste ucraniano, salvaguardando a integridade territorial da Ucrânia, e impondo essa fronteira a Putin. A ideia é simples: à agressão não se responde com palavras; responde-se com actos, e se necessário com beligerância também. É para isso que existem exércitos: para travar os pulhas deste mundo, que não são travados pelas palavras, e com isso evitar guerras maiores. Tenho dito.

Paul Krugman e a desigualdade de rendimentos

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Paul Krugman foi recentemente contratado pelo “Income Inequality Institute” com um salário de $250.000/ano, feito que o coloca no top 2% da distribuição de rendimentos nos EUA.

Presume-se, então, que Paul Krugman foi contratado para se estudar a ele próprio. O que, em parlance Keynesiana, é o análogo a colocar notas em garrafas, cavar um buraco, enterrá-las para logo depois desenterrá-las, concluindo finalmente que isso aumentaria a riqueza real.

“If the Treasury were to fill old bottles with banknotes, bury them at suitable depths in disused coalmines which are then filled up to the surface with town rubbish, and leave it to private enterprise on well-tried principles of laissez-faire to dig the notes up again (the right to do so being obtained, of course, by tendering for leases of the note-bearing territory), there need be no more unemployment and, with the help of the repercussions, the real income of the community, and its capital wealth also, would probably become a good deal greater than it actually is. It would, indeed, be more sensible to build houses and the like; but if there are political and practical difficulties in the way of this, the above would be better than nothing.”

– John Maynard Keynes

“The problem with socialism is that eventually you run out of other people’s money”

Em França, o austeritarismo-neoliberalista-libertarianista parece ter tomado definitivamente conta do Partido Socialista.

Ou isso, ou acabou o dinheiro: França congela pensões e salários e reduz gastos sociais

O novo primeiro-ministro francês avançou algumas das medidas que permitirão poupar 50 mil milhões de euros entre 2015 e 2017. O plano antecipa cortes repartidos pelo Estado, municípios e contribuintes. “Não podemos viver acima das nossas possibilidades”, avisou Valls.

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Subir o salário mínimo?

Artigo de Pedro Bráz Teixeira no i

Ao contrário do que muitíssimas pessoas desejavam que fosse verdade, os governos não podem determinar os salários na economia, que dependem sobretudo da produtividade.

No caso do salário mínimo, é preciso reconhecer que este tem um impacto assimétrico no emprego. Se for definido muito abaixo da produtividade dos trabalhadores com menor produtividade (os mais jovens, sem experiência, e aqueles que têm menores qualificações), torna-se irrelevante porque as empresas pagariam sempre salários acima do mínimo legal. Se for legislado acima daquela produtividade, proíbe a contratação dos trabalhadores em situação mais frágil, agravando o desemprego neste segmento.

Como os governos desprezam geralmente as leis económicas e procuram a maior popularidade, o risco de decidirem salários mínimos demasiado abaixo daquele limiar de produtividade é insignificante. Mas persiste o risco de tomarem decisões fantasiosas sobre o salário mínimo.

Continue a ler aqui.

Demolidor

“Onde está o povo?” de António Araújo (Malomil). A versão alargada da rencensão de “História do Povo na Revolução Portuguesa, 1974-75″ de Raquel Varela.

A conclusão mais óbvia a retirar desta obra é-nos dada pela própria autora que, num momento de rara sageza, observa: «a fronteira entre a política militante e o senso comum é lata e difícil de medir» (p. 68). Este livro é um infeliz exemplo de como a política militante nos pode afastar do senso comum.

“pink elephants will fly over Mare Nostrum”

France is the new cauldron of Eurosceptic revolution. Por Ambrose Evans-Pritchard.

Britain is marginal to the great debate on Europe. France is the linchpin, fast becoming a cauldron of Eurosceptic/Poujadist views on the Right, anti-EMU reflationary Keynesian views on the Left, mixed with soul-searching over the wisdom of monetary union across the French establishment.

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A via fiscal para o totalitarismo

O Governo pretende aplicar o pagamento de uma taxa adicional sobre produtos que tenham impacto nocivo na saúde, abrangendo assim os que contêm altos teores de açúcar, de sal, e alimentos vulgarmente considerados como “comida de plástico”, que podem provocar aumentos excessivos de peso.

LEITURA COMPLEMENTAR: Acerca da legalização e taxação da droga

Pompa e circunstância

“(…) os partidos políticos não estão hoje minimamente sensibilizados para a necessidade de se constituírem como elementos construtivos do debate de ideias. Não há governos sombra; há, sim, sombras dos governos. O oportunismo partidário é o denominador comum, e em relação aos fazedores de opinião, os cabeças de cartaz continuam a ser ex-políticos, frequentemente mais preocupados em fazer propaganda do que opinião.”, no meu artigo de hoje no Diário Económico.

A minha reeducação está a dar frutos

O João Villalobos reagiu à bela prosa do presidente do sindicato dos estivadores. Obviamente o João, certamente eivado de contaminações empresariais, não foi capaz de apreciar o convincente argumentário do sindicalista. Dou alguns exemplos. Logo de início se entende bem que o sindicalista tem uma legitimidade democrática muito superior à do pm, afinal foi eleito diretamente pelos votos de 400 pessoas. Também é de cristalina evidência que, de facto, o pm ‘está agarrado ao poder’. Eu, antes da epifania provocada pela correspondência sindical aberta, estava convencida que o que atribuía legitimidade democrática a um governo era ser sustentado por uma maioria na AR democraticamente eleita. E que, nas democracias normais, um governo governa durante o tempo que intermeia entre eleições e que a vontade expressa em votos pelos eleitores conta mais do que, sei lá, birras de sindicalistas eleitos por 400 estivadores. Mas não. Claro que o pm está agarrado ao poder. Também me parece muito bonita a declaração de que o autor epistolar se preocupa com ‘as pessoas’, enquanto o malvado pm se preocupa com ‘as empresas’. Eu, no meu ser anterior não-esclarecido, pensava que ‘as pessoas’ viviam bastante mal nas sociedades onde não existem ‘as empresas’ e que, nas sociedades onde benevolentemente as empresas são deixadas existir, ‘as empresas’ são constituidas por ‘as pessoas’ (e, até ver, mesmo aqueles que contribuem para as empresas com o capital são também ‘pessoas’); em suma, costumava considerar que o bem de ‘as empresas’ e ‘as pessoas’ se interligava; que, por exemplo, a falência de uma empresa não costuma deixar deleitado de felicidade quem lá trabalhava. Mas agora, at long last, vejo que as duas realidades são mutuamente exclusivas.

Confesso que (talvez seja o mesmo mal que aflige o João) ainda me resta alguma desconfiança perante o sindicalista epistolar. Não é à toa que o discurso da falta de legitimidade do governo vem de setores afetos ao PCP. Ora pois; dos setores que têm um entendimento peculiar do que é uma democracia, o bem-comum ou a liberdade de expressão – que nos países onde a ideologia do sindicalista epistolar vigorou não se costumava tolerar estas saudáveis cartas abertas aos governantes. Ainda há um pedacinho não-esclarecido de mim que tem vontade de, segundo as palavras do filósofo sócrates, dizer ao sindicalista epistolar para ir dar lições de moral à tia.

No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no i.

Reformas

O FMI divulgou há dias o seu relatório Fiscal Monitor, no qual considera que os estados das economias mais avançadas deverão proceder a reformas estruturais. Estas deverão ter em vista a redução da despesa pública, não, como tem sido feito até agora, através dos cortes horizontais, ou seja, decididos em função do seu valor, mas de acordo com a função de cada trabalhador do Estado.

Esta diferença pressupõe que se pense antes de se cortar. Supõe uma reforma estrutural do Estado, uma definição de quais devem ser as suas funções essenciais. Para que este passo seja dado, e o que agora segue é conclusão minha, são necessários três pontos: em primeiro lugar lugar, que as contas públicas estejam equilibradas, um caminho que está a ser parcialmente percorrido; em segundo lugar, que a grande maioria dos cidadãos, percebendo as vantagens de se viver sem dívidas, não aceite governos que estimulem a economia com obras públicas, por outras palavras, com despesa e dívida.

Por fim, que a classe política seja pragmática. O país não pode regressar ao despesismo e à irresponsabilidade de outrora. Assim, será preciso que os políticos se sentem à mesa e discutam as ditas funções essenciais do Estado. O que é que é imprescindível? O que é que teremos de deixar cair para que não se perca o mais importante? A fórmula seguida nos últimos 40 anos não deu os frutos que a maioria esperava. Desta vez, mais que ilusões revolucionárias seria importante que se conseguisse algo de concreto e duradouro.

Estaremos quase a deixar de ser lixo?

Hoje, no Económico.

A agência de rating Fitch deu recentemente indicações sólidas de que estará eminente uma reclassificação da nossa dívida, que poderá deixar de merecer a classificação de “lixo”. Ao rever para “positiva” a perspectiva de evolução do rating da República Portuguesa, justificando tal decisão com aquilo que se considera serem os “os progressos positivos na redução do défice orçamental”, a Fitch confirma que a estratégia do governo, em matéria de monitorização do défice, começa a dar frutos. Em particular, o facto do Governo português ter conseguido cumprir a meta do défice, ficando 1% abaixo da meta de 5,5% do PIB (se excluirmos a recapitalização do BANIF) veio credibilizar, e muito, aquilo que está a ser a capacidade de Portugal conduzir um processo de estabilização orçamental que dê tranquilidade aos credores.

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Professor Nuno Serra, está chumbado

Da mesma fonte de onde em tempos surgiu o escândalo do aumento do emprego de curta duração, que afinal era só uma aldrabice estatística, surge-nos agora este post do Doutor Nuno Serra, ilustre membro do blogue Ladrões de Bicicletas e do Congresso das alternativas.

O doutor Nuno Serra tenta ilustrar a sua ideia de que durante o mandato do actual governo a população activa não empregada aumentou substancialmente. Para o fazer coloca o gráfico abaixo:

activosememprego

O número de erros deste gráfico é inacreditável, e seria de bradar aos céus mesmo para um aluno de primeiro ano de faculdade. A escala está incorrecta e cortada de forma a fazer as diferenças relativas parecerem maiores do que são. Num texto que fala do impacto do actual governo, o único ponto de referência incluido diz respeito a 3,5 anos antes de o governo entrar em funções. Na verdade, entre a entrada do novo governo e o final de 2013 passarram a haver mais 152 mil activos desempregados, comparado com os mais 276 mil activos desempregados resultante dos mandatos do governo anterior. Mas, para não dizerem que só faço críticas destrutivas, fica aqui o gráfico bem feito. O Doutor Nuno Serra está à vontade para o usar.

activagraph

(Nota: já depois deste post ter sido publicado, o Nuno Serra corrigiu a escala do gráfico. O Nuno Serra também respondeu a este post aqui)

Sobre o empobrecimento do país

Esgotado até à exaustão o clamor da “espiral recessiva”, o novo arremesso é agora o do empobrecimento do país. A questão é, uma vez mais, abordada com a ligeireza que o discurso vago, demagogo e populista assim exige.

Para desmontar o argumento, façamos um pequeno exercício. Desconte-se a taxa de crescimento do endividamento externo líquido à taxa de crescimento do Produto Interno Bruto. Coincidentemente, o valor base da dívida externa em 1998 é muito próximo do valor base para o PIB em 1997 (DEL = 100.062 M€, PIB 101.146M€ a preços correntes), pelo que permite efectuar esta comparação directa. Admitindo que a maior parte do endividamento externo líquido é imediatamente injectado na economia doméstica (e não utilizado para arbitragem ou outras operações financeiras) sob a forma de consumo ou investimento, então é fácil perceber que uma parte muita significativa do crescimento económico dos últimos anos foi ilusória, apenas resultante do endividamento.

PIB sem divida externa

É fácil perceber porque assim o é. Quando nos endividamos e compramos uma casa, a nossa riqueza líquida continua exactamente igual. No activo entra um imóvel, no passivo entra um empréstimo e o balanço mantém-se inalterado. Embora, aparentemente, tenhamos mais, é puramente ilusório. Ao valor do imóvel desconta o pagamento do capital e dos juros, pelo que, excepto se o bem tiver tido um uso produtivo, a nossa riqueza é igual à do ponto de partida.

Assim sendo, não é sério falar de “empobrecimento do país” quando Portugal nunca foi, afinal, detentor da riqueza. Excepto, claro está, se tal endividamento tivesse uma produtividade marginal elevada. O que, olhando para as auto-estradas que arruinam a paisagem do país, não parece ser propriamente o caso.

Sucesso a mais?

Ricardo Reis no Dinheiro Vivo

Chego ao fim desta coluna sem resposta convincente para a pergunta inicial. Embora a confiança dos mercados em Portugal, Espanha e Irlanda seja muito bem vinda, continuamos a dever uma enorme quantia de dinheiro. Com a definição imposta pelo Tribunal Constitucional de quais são os cortes da despesa que são legais, está longe de ser garantido que vamos poder pagar tudo. Menos importante, mas curioso, é que não se ouve ou lê uma palavra dos comentadores que, quando as crises rebentam, são tão lestos a denunciar especuladores e culpar a euforia dos mercados, e para quem as bolhas são sempre tão óbvias para quem quiser ver

Universidade e pluralismo

Artigo de João Carlos Espada (Público) sobre o Fórum da Liberade que decorreu a semana passada em Porto Alegre e que contou com a participação do André Azevedo Alves.

O tema da liberdade voltou a estar presente no colóquio mais restrito que se seguiu ao fórum, dedicado à ideia de universidade na América Latina. Durante três dias, universitários brasileiros, latino-americanos e portugueses debateram o tema num ambiente de grande abertura intelectual. No centro dos debates estavam três interrogações centrais: (1) como deve ser entendida a ideia clássica de universidade?; (2) como é que essa ideia foi entendida e/ou ignorada na América Latina?; (3) qual é a viabilidade da ideia clássica de universidade nos tempos actuais?

Continue a ler aqui.

Da série “os russos estão a ficar muito americanos” III

Esqueça-se o facto da Rússia ser incapaz de defender todos aqueles que falam russo, caso a Ucrânia decida optar por assinar um acordo comercial com a União Europeia. Aproveite-se a falta de memória selectiva para esquecer os 1300 quilómetros de fronteira com a mesma União Europeia e os menos de 200 que separam São Petersburgo da ameaça europeia…desde 1995. Não esquecer o quão excepcional é o Presidente russo: Putin’s Russia: Censoring anti-invasion sentiment.

Leitura complementar: Da série “os russos estão a ficar muito americanos”, Da série “os russos estão a ficar muito americanos” II,Vale a penaA Rússia não é vítima do Ocidente.

Contradições

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Assim escreve João Miranda no Blasfémias a propósito da posição pouco esclarecida de António Saraiva, presidente do CIP:

António Saraiva, da CIP, assinou o manifesto pela reestruturação da dívida onde se diz que esta é insustentável.

O mesmo António Saraiva, em entrevista à TSF, mostra-se espantado por as agências de rating ainda não terem subido o rating de Portugal, depois de tantos sacrifícios, que certamente o país merecia um rating mais elevado.

Em suma, António Saraiva acha que a dívida é insustentável, logo, tem de ser reestruturada. Mas acha ao mesmo tempo que o rating deverá sair da classificação de lixo, classificação geralmente atribuída a títulos com um considerável risco de incumprimento, pelo que considera que afinal é …sustentável.

Cartas para Moscovo

Alexander Rodchenko, pintor, fotógrafo, desenhador e activista da causa bolchevique, chegou a Paris no dia 23 de Março de 1925. Ficou três meses. Viajou para montar algumas das exposições e pavilhões preparados pela União Soviética para a exposição de Artes Decorativas e Industriais Modernas. Aproveitando o embalo, tentou estabelecer contactos com a comunidade artística e na bagagem levava quase trezentas obras suas. Visitou Léger, mas com Picasso ficou-se pelas intenções. Mergulhou no Sena, viu os Dez Mandamentos de DeMille, foi ao circo, bebeu Chablis. E escreveu quase diariamente a Varvara Stepánova, amante e futura mulher.

Nas cartas, Rodchenko descreve um Ocidente decadente e compara-o com a grandeza da pátria em construção. E fala das compras que fez no dia anterior. Critica o consumismo e o capitalismo de uma sociedade tecnológica. E conta que comprou duas camisolas, uma máquina fotográfica e um tripé. Espanta-se, porque ali “todos trabalham e as coisas correm bem”, para logo redimir-se “para quê?”, “onde querem chegar?”. E vão mais duas câmaras e quinze rolos de película. Deixa-se deslumbrar pela oferta e pelos preços de Paris mas logo encontra na mulher-objecto e no bidet motivos para soltar a verve revolucionária. E troca a vestimenta operária pelo fato que comprou de manhã. Volta à carga contra o capitalismo mas é com insucesso que tenta refrear o impulso gastador (“aqui há milhões de coisas, apetece comprar tudo”) e esconder o fascínio pelo esplendor técnico que o rodeia nos dias parisienses. E compra um casaco de peles para Stepánova.

No dia 18 de Junho de 1925, depois de longas negociações com a alfândega e com as autoridades da URSS, deixa Paris, carregado com: várias máquinas fotográficas e respectivos acessórios, máquinas de filmar, roupa, muita roupa, para ele e para a mulher, perfumes, cachimbos, um gramofone e discos. Ao subir para o comboio ainda deve ter soltado mentalmente mais dois ou três impropérios contra o capitalismo. Mas a natureza humana é traidora, inimiga do proletariado e a primeira obreira da contra-revolução. Depois de Paris, o empenho de Rodchenko na invenção do homem novo nunca mais foi o mesmo.

Leitura dominical

O país do respeitinho, a opinião de Alberto Gonçalves no DN.

Manuel Alegre acha que o 25 de Abril “não pode ser só mais uma data no calendário”. E, no que depender dele, não é. À semelhança dos campeonatos internacionais da bola, em que nunca lhe faltam uns versos dedicados a Figo ou a Cristiano Ronaldo, a cada aniversário do golpe de Estado o poeta ameaça soltar a lira. Desta vez, se calhar porque a lira anda desgastada sob a opressão datroika, fê-lo sob a forma de uma antologia poética (título: “País de Abril”) e respectiva sessão de lançamento.

Pelas descrições, a cerimónia, realizada no quartel do Carmo, deve ter sido belíssima. Na plateia, Maria de Belém, José Sócrates, António José Seguro, Almeida Santos, Vasco Lourenço e etc. ouviam embevecidos. No palco, os fantasmas de Francisco Fanhais e de Manuel Freire entoaram versões musicadas da obra em causa. O autor da obra recitou umas coisas, do gabarito de “Era um Abril de amigo/ Abril de trigo/ Abril de trevo e trégua e vinho e húmus/ Abril de novos ritmos novos rumos./ Era um Abril comigo/ Abril contigo” (título: “Abril de Abril”) e de “Que o poema seja microfone e fale/ uma noite destas de repente às três e tal/ para que a lua estoire e o sono estale/ e a gente acorde finalmente em Portugal” (título provisório: “País de Abril”). Nem a obsessão temática nem o recurso a “húmus” para rimar (?) com “rumos” levou a audiência às gargalhadas. Aquilo é gente séria.

E foi a sério que Manuel Alegre acrescentou uns comentários à situação actual. Para ele, as políticas de austeridade “cortam as dimensões da vida e a música das vogais”. Também tinha essa impressão. Fica, porém, uma palavra de esperança: “A poesia pode libertar a língua.” E, de facto, a língua travada é um aborrecimento, quase tão grande quanto o rancor de uma clique que sonhou fazer do “país de Abril” o seu quintal e, pelo caminho, deparou com uma população discordante. Ainda por cima, a população vota: assim não há democracia possível. Ou, nas palavras do bardo, arriscamo-nos a “perder Portugal como futuro do passado”, o que em português de gente é igual a mandar o povo chatear o Camões. Certo é que até dia 25 não faltarão lengalengas do género. E igualmente certo é que os donos do regime nem sempre mandam no regime, o que sem dúvida constitui uma ironia. Poética, se quiserem.