O mistério 1,7

O governo apresentou hoje o cenário macroeconómico revisto no âmbito da 7ª visita da Troika. Já muito pouco tem a ver com o cenário que serviu de base ao actual Orçamento do Estado para 2013. Acompanhei pela televisão parte apenas da conferência de imprensa do ministro das Finanças, de modo que me deve ter escapado a pergunta de um jornalista sobre se o Governo deverá submeter à Assembleia da República um Orçamento Rectificativo. Também não encontrei na imprensa que consultei a resposta que o ministro terá dado.

Passemos. Onde estava uma contracção da produção de 1% está agora uma contracção de 2,3%. Mas também onde se previa um défice global de 4,5% do PIB, prevê-se agora um défice de 5,5% do PIB. Onde se estimava que o défice em 2012 tivesse sido de 5% do PIB, calcula-se agora, devidamente chumbada a maquilhagem do costume para efeitos de marketing, que tenha sido de 6,6% do PIB.

O maior mistério na revisão ocorrida tem a ver com a projecção para a inflação, ou, melhor dito, para o deflator do PIB. Onde o Governo previa um deflator a aumentar 1,3%, passou a aumentar 1,7% (Cf. pág. 24 do relatório). Sendo absolutamente incompreensível como uma contracção maior de todas as componente do PIB na óptica da despesa – com excepção do consumo público -, produz semelhante resultado, resta-me admitir que o Governo, e a troika, têm uma monomania com o número 1,7. É que vamos no terceiro ano consecutivo em que semelhante projecção é feita e os resultados afastam-se como um barco à deriva.

Preços deflator do PIB    Fontes: ver em nota.

Do ponto de vista estrito das Finanças Públicas, onde os impostos indirectos são função, em idêntica medida, da quantidade de coisas que se produzem e vendem, como dos seus preços, um erro na projecção do deflator é, neste particular, tão lesivo das projecções como um erro na projecção do PIB e das suas componentes em volume. Mais: os rácios do défice e da dívida são calculados sobre valores, sendo estes a multiplicação de quantidades pelos seus preços, e afectando estes últimos tanto os referidos rácios como as quantidades. Uma simples projecção linear da tendência acima, nada arriscada, como é fácil de ver, dar-nos-ia este ano uma queda do deflator de -0,4 e não a subida monotónica em que o Governo e a troika andam embrulhados há três anos. Se for este o resultado, o erro será exactamente o mesmo, caso o Governo, e a troika, acertassem nos preços, mas, em vez de uma diminuição da produção de 2,3%, se tivessem enganado e a diminuição viesse a ser de 4,3%. Uma diferença de 2%. Haveria menos impostos, mais défice em euros, e mais défice em proporção da produção, e mais dívida, e por aí fora. Talvez me engane, e mehor se assim for, mas este cenário e as metas orçamentais sobre o qual é feito nascem mortos. É a diferença entre chegar ao fim do ano com um PIB a preços correntes de 164,4 mil milhões de euros e um PIB de 161,0 mil milhões de euros. Por exemplo: sendo os impostos indirectos da ordem dos 13,8% do PIB, menos 3.400 milhões no PIB dão menos 470 milhões em impostos, ou menos 0,3% do PIB. Mas como também diminui o PIB, o défice já vai em 5,9% deste. É apenas uma ilustração dos efeitos de primeira ordem do erro nos preços.

Nota: os valores das previsões são as constantes nos relatórios do OE para os anos respectivos; os dados observados são da base da Comissão Europeia, Ameco.

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15 thoughts on “O mistério 1,7

  1. Raios parta a realidade que nunca mais atina com os especialistas do Governo e os fazedores de cenários e gráficos do Insurgente !!!

    Já é má vontade …..!!!!!

  2. Esta história dos 1,7% prova porque é que os Políticos não gostam de Economistas (independentes): estes últimos são umas pragas que insistem em descrever a realidade como ela é, e não como deveria ser.

  3. O que se passa é muito simples:

    Mesmo com o roubo descarado que se verifica nas tarifas dos sectores pseudo liberalizados – energia, combustíveis, transportes, telecomunicações, rendas, etc – a inflação global está a baixar dos 0% na periferia da Europa.
    Quando esta deflação começar a atingir o centro da Europa (daqui a 6 meses/1 ano), então sim, haverá ordem para gastar, mas gastar à grande!…

  4. Mais uma grande vitória!
    O raio da realidade não se ajusta mesmo ao mago gaspar!

  5. Os preço sobem desde há muito na alimentação e energia.
    Não me digam que agora que a bolha acabou já voltaram a incluir o preço do imobiliário nos índices…

  6. Outra do genial Sr. Jorge Costa:

    ” Em 2012, o nível português (149,9) é dividido pelo pelo nível alemão (114,2) e o quociente, se se mantiver constante a taxa de câmbio nominal, dá o multiplicador da apreciação/depreciação cambial, que é o indicador de tendência de competitividade relativa por excelência. A economia portuguessa sofreu, com esta medidada, uma apreciação real de 31,2% ao longo de todo este período.”

    in http://oinsurgente.org/2013/03/14/a-preferencia-pela-inflacao-esta-nos-a-custar/#comments

    Para quem apenas tem um martelo, todos os problemas lhe parecem um prego. E gostei desta definição: “indicador de tendência de competitividade relativa por excelência.”

    Mas há mais martelos que pregos, como soi dizer-se.

    “An important result of our model is that, according to Harrod’s intuition, there is less cyclical instability in the open economy than in the closed one where chaotic instability prevails. Dynamics in our model exhibits a limit cycle. Finally, the model shows that the possibility of an export-led
    growth strictly depends on the technical progress dynamics. ”

    in http://www.unisa.it/uploads/2551/104_dp.pdf

    Esperem lá que há mais martelos. E o Paradoxo de kaldor? E como e aplicaria à economia portuguesa? Não conhecendo trabalhos que versem a economia portuguesa ou parte dela, podemos procurar sobre o que existe sobre a economia espanhola, com um modelo um bocado mais parecido com a portuguesa:

    “As a particular empirical case study, empirical analysis of trade market shares in relation to effective real exchange rate is carried out for the Spanish case. Results shows that the Kaldor paradox continues having a strong importance in Spanish trade, although not all the service sectors have the same price/costs sensibility. Recent trends also present uneven results depending on the service sector, but in general there are not signs of decreasing the role of non-price/cost factors in
    international trade (in particular business services), although many services continue to be slightly more sensitive to relative prices than other industries.”

    in http://www2.uah.es/iaes/publicaciones/Dt6-06-ing.pdf

    Pode até haver alguns casos em que o os custos possam pesar na competitividade de uma eocnomia. No entanto, não é a evolução relativa dos custos de trabalho ou da inflação interna relativa que podem contar. Os nível dos custos:

    “A few years later Kaldor, having found a positive correlation between the time changes of the main industrial countries’ relative manufacturing export shares and that of their relative unit costs – correlation that became known as “Kaldor paradox” – was led to dismiss his original cumulative causation theory and adopt a version close to Harrod’s ‘foreign trade multiplier’. The purpose of this paper is to re-affirm the Kaldorian cumulative causation theory in its original version, by giving to it a firmer analytical basis and showing that, contrary to “Kaldor paradox” time changes in export performance must be “explained” by levels rather than by changes in unit costs.”

    in http://www.siecon.org/online/wp-content/uploads/2011/04/Boggio-Barbieri1.pdf

    Ora por aqui se pode ver que o martelo do Sr. Jorge pode ser um bocado despropositado para a sua genialidade. Parece que anda muito preocupado com os deflatores, com a inflação e com a competitividade relativa das economias mas ainda não percebeu que os salários na Alemanha ainda são mais elevados que em Portugal e, pasme-se até, que deve corar o sr. Jorge Costa de pavor, as exportações portuguesas nos dois últimos anos ganharam as quotas de mercado perdidas desde 1995, sem uma grande desinflação interna/deflação. E não apenas Portugal reconqusitou as suas quotas de mercado perdidas desde 1995, como viu os seus custos salariais subir nos sectores exportadores e, mais ainda, para cereja no bolo, as exportações portuguesas, desde 2005, estão a subir sempre mais que as alemãs.

    O Sr. Jorge Costa tem encontrar esse martelo pois o que usa abundantemente não tem qualquer fundamento real. É um martelo ideológico de quem come os bolos alheios, seja em em língua inglesa, alemã ou quiçã portuguesa, desde que seja propaganda contra a participação portuguesa no euro.

    Sr. Jorge beba mais um bagacinho para a despedida. Comigo resulta. Oh se resulta!

  7. Não querendo assumir o posto de advogado de defesa do Jorge Costa, ele até pode estar errado nas apreciações que faz.Mas anti-comuna, isso não é razão para a forma insultuosa e francamente rasca com que o aborda.Faça o seu contraditório, mas com civismo e respeito

  8. Parece que o meu comentário veio tarde.O autor do post decidiu agir em tempo útil.No blasfémias não fazem isso ao dito comentador

  9. Não me parece bem que apaguem post que não tenham linguagem insultuosa, apenas por divergência de opinião (mesmo que sejam opiniões com pálas nos olhos)

  10. “Não me parece bem que apaguem post que não tenham linguagem insultuosa, apenas por divergência de opinião (mesmo que sejam opiniões com pálas nos olhos)”

    Neste blogue “liberal” tudo o que sejam opiniões contrárias são insultos ao autor do texto. Excepto quando é o próprio autor do texto que tem divergências de opiniões com outras personalidades.

    Bem prega Frei Tomás…

  11. Antes de apagar este comentário também, que os melhores deflatores para entender eventuais efeitos sobre as receitas fiscais, são os preços no consumo e não na produção.

    E informo o autor também, que os preços do consumo beneficiam o Estado porque quase são sempre são mais altos do da produção, que o Estado também consome.

    E bebo mais um bagacinho com estes novos génios das previsões económicas portuguesas. eheheheheh

  12. Oh AC, o que mais me chamou à atenção no link que acima postou foi a clara visão que temos da balança comercial do país. Desde que o Gasparov tomou posse que o crescimento das exportações tem vindo a baixar. As ricas exportações que no tempo do outro senhor (socrates) da desgraça, descontando os anos da crise, até estavam em ritmos de crescimento porreiros. mal chegou o Gaspadinhas ao poder parece que bateu nos exportadores por exportarem tanto e pimbas eles reagiram e não passaram a exportar menos quantidade (pelo contrario) mas exportam com margenzinhas cada vez menores. O menor ritmo de crescimento das exportações era perfeitamente expectavel. Pessoalmente eu esperava uma quebra maior, mas parece que subestimei o instinto de sobrevivencia de alguns empresários que, baixando margens, conseguiram manter-se à tona.
    .
    As importações, essas, baixaram como o caraças. Até parece que já nem precisamos importar. Até parece que já as substituimos. Gostei da táctica. Não te dou dinheiro, assim não compras cenisses importadas. Não compras importações, nem produção nacional. E o problema residiu essencialmente no ‘não compras’ produção nacional. Foi esta parte do ‘não compras’ que está na origem do descalabro das contas nacionais, publicas e privadas).
    .
    A poupança subiu ligeiramente. E isso seria uma coisa muito boa se deviesse de criação de riqueza. Uma pessoa poupa porque lhe sobra. No caso portugues, fruto do gasparov, um gajo poupa porque tem medo.
    .
    Parabens.
    .
    Ricciardi

  13. Pingback: 125,4% | O Insurgente

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