A Carteira e a Vida

Excerto de “Os Dias Contados” de Alberto Gonçalves (Diário de Notícias)

As patrulhas não dormem. Uma campanha da Samsung filmou uma jovem ligada à moda a enumerar desejos para 2013. O principal desejo consistiu numa carteira Chanel, que a jovem sonha comprar logo que junte dinheiro para tal. A irrelevância do anúncio é tamanha que nenhuma criatura psicologicamente equilibrada repararia nele. Por sorte, o Facebook está repleto de criaturas à beira de um colapso nervoso e o filmezinho em questão transformou-se depressa no que agora se designa por fenómeno viral. Muitos milhares de pessoas decidiram considerar criminosa a ambição pela tal carteira e, com a indispensável valentia que define a raça, começaram um processo de enxovalhamento da jovem, de seu nome Filipa Xavier.

É ou não é bonito? É, sim senhor. Sobretudo num país em que todos os dias figuras públicas, semi-públicas e anónimas exprimem sem pudor nem consequências alucinados apetites. O dr. Mário Soares pode ansiar por guerras civis, europeias ou mundiais que o vulgo não arrisca um comentário menos abonatório. O inqualificável prof. Freitas e o sr. Carlos da CGTP reclamam a dissolução do Parlamento e o vulgo acha o pedido normalíssimo. Diversos capitães de Abril reivindicam golpes de Estado e o vulgo não dá um pio. Comentadores encartados e o sr. Baptista da Silva convocam a “solidariedade” europeia a patrocinar-nos os delírios e o vulgo aplaude. Jornalistas que perceberam mal a natureza da profissão adoptam a retórica demagógica em vigor e o vulgo aprecia a proeza. O próprio vulgo, ou parte dele, ciranda por manifestações e “telejornais” a exigir em simultâneo protecção social e isenção de impostos. E nada disto suscita uma fracção do escárnio inspirado pela carteira Chanel. Ou uma chamada aos estúdios da Sic.

Numa das páginas mais embaraçosas do jornalismo pátrio, Filipa Xavier viu-se entrevistada no noticiário por aquela senhora que, durante dez minutos, tentou uma carreira como correspondente de guerra. “Entrevistada” é força de expressão: Filipa Xavier foi alvo de um interrogatório paternalista, onde acabou forçada a fazer votos de pobreza pessoal e familiar, a mostrar-se aflitinha com a situação económica e, juro, a garantir que ajudaria os desvalidos a vestirem-se para concorrer a um emprego. Entretanto, a referida “jornalista” esqueceu–se de exibir o guarda-roupa ou de anunciar a partilha do salário, decerto superior aos confessos 700 euros de Filipa Xavier. E a Samsung suspendeu a campanha. A pior crise está nas cabeças, não na carteira.

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7 thoughts on “A Carteira e a Vida

  1. Para já a Filipa tem o meu apoio e até concordaria com um peditório para lhe arranjar a carteira Chanel…
    Depois acho este texto tão ou mais deplorável do que os textos dos que atacaram os desejos da Filipa.
    O que é que tem a ver o inocente desejo de uma carteira Chanel com o que o autor do texto diz sobre Freitas do Amaral, Arménio Carlos, Mário Soares, etc., etc.
    É um facto que a política seguida pelos adiantados mentais que nos governam está a destruir o país e como sempre aconteceu em situações semelhantes ao longo da História, a conduzir-nos para a guerra.
    É preciso ser muito tapado para dizer, como o nosso amigo Passos Coelho disse que temos de nos empobrecer e aguentar 15 a 20 anos para corrigir a situação actual e não concluir que o país aguente assim 15 a 20 anos sem entretanto desatar todo à pancada.
    Avisos como o de Mário Soares são importantes pois o perigo da Europa se transformar numa imensa Jugoslávia está cada vez mais ao virar da esquina. Meter a cabeça na areia como faz o autor deste texto só serve para acelerar a altura em que o descalabro desabe sobre nós.
    Recordemos que a crise de 1929, tão citada actualmente, só foi verdadeiramente ultrapassada com a II Guerra Mundial.

  2. Se as críticas à moça são estúpidas e a Samsung suspendeu a campanha por causa das críticas à moça então a Samsung premiou a estupidez.

  3. Mas afinal o que é que o autor deste artigo pretende com o que escreveu? Para já está a confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira!Mais nada.

  4. Culto do pequenino, do suficiente, da mediocridade, da pelintragem. Típico de um certo Portugal.

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