O estatismo, a demografia e o declínio da Europa

Será que entrámos no Reich da austeridade para mil anos? Por JMF.

O intervalo de Agosto é boa altura para ganharmos distância e abandonarmos as ilusões. O dinheiro barato que alimentou o nosso nível de vida nos últimos dez, quinze anos não desapareceu por causa da ganância dos banqueiros, da maldade dos alemães ou da fuga para offshores. Desapareceu porque a crise financeira de há cinco anos acabou com a ilusão do dinheiro eterno, do dinheiro que havia sempre, do dinheiro que se inventava através de esquemas audaciosos para alimentar bolhas imobiliárias (e não só) um pouco por toda a parte. E também para alimentar a voracidade de políticos empenhados em deixar obra e conseguir a reeleição.

Quando essa ilusão explodiu há exactamente cinco anos, com a declaração de crise num primeiro banco, o Northern Rock, o mundo percebeu que tinha mudado. Ou começou a perceber. E não tinha mudado apenas por causa da que viria a ser conhecida como a “crise do subprime”. Aquilo a que assistíamos era à mais colossal transferência de poder económico desde os processos de descolonização. Para quem já se tenha esquecido, basta recordar que há pouco mais de dez anos uma das bandeiras da esquerda mundial era a do perdão da dívida ao “Terceiro Mundo”, e hoje uma das suas reivindicações é que seja o “Primeiro Mundo” a não pagar as suas dívidas, boa parte delas a países que antes víamos como devedores crónicos. Há dez anos, ouvíamos críticas à globalização porque empobrecia os países do Sul; hoje ouvimos críticas à globalização porque está a abalar o estado de bem-estar dos países do Norte.

O mundo está, de certa forma, de pernas para o ar. Antes o Norte emprestava ao Sul para este lhe comprar bens de equipamento. Hoje o Sul empresta ao Norte para este lhe comprar bens de consumo. O “milagre económico” do Norte transferiu-se para o Sul. Só na última década (dados do Banco Mundial), a riqueza por habitante da China aumentou 138%, a da Índia 76% e a do Brasil 28%. Em Portugal, desceu um por cento. Na zona euro, tal como nos Estados Unidos, cresceu apenas seis por cento. Mas na Alemanha foi de 12% e na Suécia (país que não aderiu ao euro) o salto foi de 17%. Entretanto, se há dez anos a economia americana era sete vezes maior do que a chinesa, em 2011 já só era cerca de três vezes maior. Durante décadas, o estado de bem-estar europeu alimentou-se de crescimento económico e de uma demografia favorável. Hoje temos uma demografia desfavorável e o crescimento económico está como está – e está assim desde antes da austeridade, não nos iludamos. O desequilíbrio tornou-se inevitável e a única forma que os governos tiveram para lhe responder foi contraírem dívidas e mais dívidas. Foi esse ciclo de endividamento sem fim que terminou em Agosto de 2007. Hoje sabemos que não voltará a haver dinheiro fácil – resta saber se voltará a haver crescimento.

Na Europa, e não só em Portugal, as perspectivas não são animadoras. O nosso sistema educativo, sobretudo nos escalões de elite, está claramente a perder para os Estados Unidos. O mesmo se passa no domínio da investigação científica (basta ver como a indústria farmacêutica migrou do Velho para o Novo Continente). Não temos a mesma capacidade de inovação. Nem de empreendedorismo. Nem de integrar imigrantes.

(…)

É por tudo isso que desconfio que a austeridade que tanto criticamos tenha vindo para ficar. Durante muitos milénios, quase não houve qualquer progresso nos níveis de vida das populações. Depois, de repente, deu-se a explosão propiciada pela revolução industrial. Nos 150 anos que terminaram na viragem do milénio, o rendimento per capita na Europa Ocidental foi multiplicado por dez. Desde essa altura estagnou. E estagnar, em tempos de envelhecimento da população, é sinónimo de diminuir.

O que hoje vemos passar-se na Europa, sobretudo na Europa do Sul, é uma retracção assustada que só agravará a decadência relativa. Faz lembrar a retracção da China no século XIV, quando resolveu proteger-se do exterior para preservar a sua riqueza e civilização, então as maiores do Mundo. Sabemos o que lhe aconteceu a seguir.

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11 pensamentos em “O estatismo, a demografia e o declínio da Europa

  1. Como diz um amigo meu inglês cá residente, conservador e monárquico, os países latinos não estão moldados para receber regimes democráticos nem liberais. Mais cedo ou mais tarde será a ditadura.

  2. Esse amigo também não vê o que está a acontecer à Inglaterra, EUA, Australia…
    E basta ir aos anos 70 para vermos tanques nas ruas do Canadá.

    Quero deixar aqui a notícia mais importante do mês, talvez do ano: A tentativa de atentado á liberdade e fomento do estatismo pelo Governo PSD+CDS felizmente coartada pelo Presidente( das tantas asneiras que faz e diz pelo menos fica isto) http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/politica/cavaco-silva-da-puxao-de-orelhas

    “A razão concreta da não promulgação do decreto foi o artigo 11º, que estabelece que “a fiscalização e contra-ordenações por violação das suas normas seja definido por portaria”. Cavaco avisa os deputados que tal não pode ser definida por portaria, mas sim por decreto–lei, porque levaria a uma “desgraduação normativa e constituiria um grave precedente”.

  3. Essa da austeridade já enjoa. Desde quando estamos a ser austeros?! Austeridade é quem tem 1000, pode gastar 900 mas decide comprar por 800. Nós estamos a ser racionais, a gastar apenas o que temos.

  4. “Nós estamos a ser racionais, a gastar apenas o que temos.”

    Estamos? Segundo o boletim mensal do igcp de Julho- por isso até Junho o Estado/Governo já fez mais 12000 milhões de euros de nova dívida. 1200 Euros por Português.

  5. É uma austeridade portuguesa.
    O Estado, todos os meses, gasta 2.000.000.000 de euros que não tem, .
    A oposição acha pouco.
    A troika aplaude.
    Os portugueses e o governo esperam que um dia destes a crise passe.
    A nossa última esperança é a Nossa Senhora de Fátima.
    “Tudo isto é Fado”

  6. Tem razão lucklucky, onde escrevi “estamos” devia ter escrito “devíamos estar”, porque na realidade esta história da austeridade é conversa para boi dormir já que a despesa continua a aumentar.

  7. Nao existe crise demográfica nenhuma, dado que o desemprego jovem é altíssimo em toda a UE.

    Existe apenas uma crise monetária devido as diferenças enormes entre a produtividade nos países da Zona Euro.

    O dinheiro barato veio para ficar porque o dinheiro é produzido em computadores a custo quase Zero.

    O JMF parece pensar que o dinheiro vem das minas !!!!

  8. ” Hoje sabemos que não voltará a haver dinheiro fácil”
    ???

    Não voltará? Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de História sabe que este tipo de frases é idiota!

  9. André tem razão, enquanto vemos países fortemente estatistas, como o Brasil, a China e a Índia, crescer de forma muito significativa, a europa que se liberalizou afunda-se na miséria.

  10. @Mariana,

    [ citation needed ]

    Estão a crescer porque são economias estatistas ou porque são ricos em recursos naturais, têm populações jovens (ergo, muitos braços para trabalhar -> ergo, mão-de-obra mais barata -> ergo, quem se pode deslocalizar facilmente aproveita) e grandes carências de infra-estruturas?

    Por que acha que houve o Baby Boom e os 30 Gloriosos, logo após a 2ª Guerra?

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