Explicações (muito pacientes e elementares) a João Miranda

Se calhar eu devia ter maior reverência por quem supõe saber qual o ‘salário de equilíbrio’ e a proporção de recursos que devem ser investidos nos sectores transaccionáveis e não-transaccionáveis. Felizmente não tenho, pelo que na sequência destes dois posts e deste espantoso comentário de João Miranda, aqui seguem algumas explicações básicas.

Primeira:

Quem tem defendido ‘menos austeridade e mais crescimento’ (como João Miranda surpreendentemente diz que eu faço) defende um aumento da despesa pública. Ora eu defendo uma diminuição de impostos acompanhada de redução de despesa pública (o que João Miranda diz ser contraccionista). Que se confundam duas posições antagónicas só pode ser sintoma de alguma (ou mesmo muita) desorientação.

Segunda:

Numa redução de despesa pública acompanhada de uma redução de impostos (que é o que defendo), não há qualquer contracção da procura interna, ao contrário do que afirma João Miranda, pelo que não haveria por esta via efeito nos salários. É que o dinheiro que paga salários, avenças, contratos, etc. sob a forma de despesa pública não nasce numa árvore: é primeiro retirado às empresas e às famílias. Assim, numa redução de impostos acompanhada de uma redução de despesa pública, o dinheiro que o estado deixa de gastar em salários, contratos, etc. não desaparece por magia: antes fica nas mãos das empresas e das famílias, que o pouparão ou gastarão em bens de consumo de forma bem mais eficiente do que o estado. (Por estes dias descobrem-se defensores das virtudes da despesa pública nos locais mais insuspeitos. Mais umas semanas e corremos o risco de ter João Miranda a falar de um maravilhoso multiplicador dos gastos públicos).

Não é preciso agradecer e continuo ao dispor.

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18 thoughts on “Explicações (muito pacientes e elementares) a João Miranda

  1. A brincadeira de aumentar ou manter os impostos elevados sobre as empresas vai dar uma grande bronca !

    As exportações em Abrial estão praticamente estagnadas em valores reais e a decrescerem para a U.E. !

    2011 2012

    3.441 3.536 2,8 % (total exp.)

    2.552 2.529 -0,9 % (u,e exp.)

  2. Cara Maria João Marques, três notas:
    1º) Saber que os salários estão acima dos valores de equilíbrio é completamente diferente de dizer que se sabe qual o salário de equilíbrio. Penso que compreende isto
    2º) O mesmo para a proporção de recursos investidos em transaccionáveis e não-transaccionáveis
    3º) Se a Maria João diz que uma redução da despesa acompanhada por uma redução dos impostos não provoca contracção da procura interna, então está, implicitamente, a reconhecer que o que defende não é uma política de austeridade. Por definição, política de austeridade é aquela que reduz a procura interna.

  3. Maria João, porque é que assume que o dinheiro da redução de despesa seria proporcional à redução de impostos? É que a meu ver esse dinheiro poderá ser utilizado para a redução da dívida publica e não para a redução de impostos Qual a sua perspectiva quanto aos niveis de endividamento?

  4. Esse raciocinio so seria valido se se partisse de uma situacao de equilibrio, em que os os gastos do estado correspondiam exactamente a receita de impostos. Como tal nao e verdade, e uma vez que grande parte dos gastos do estado e financiada pelo estrangeiro… preciso de continuar este argumento?

  5. “Se a Maria João diz que uma redução da despesa acompanhada por uma redução dos impostos não provoca contracção da procura interna, então está, implicitamente, a reconhecer que o que defende não é uma política de austeridade.”

    Eu não sou a Maria João mas aqui para mim que não percebo nada de horta quem tem de ter uma política de austeridade é o Estado, não são os cidadãos que sabem fazer contas e sempre viveram dentro das suas possibilidades. Isto do Manel andar a gastar à larga e ser o Zé a entrar em austeridade é uma política do raio que o parta.

  6. Nuno Branco,
    Diz que não percebe nada da horta, mas também não é preciso ser-se grande especialista para perceber algo muito simples. O endividamento externo existe (e, por acaso, nem sequer é maioritariamente do Estado, mas isso não interessa muito) e o consumo nacional é superior à produção nacional. Percebo que queiramos todos que esse fosso seja preenchido com um aumento da produção, mas é absolutamente irrealista pensar que esse fosso desaparece rapidamente sem haver também uma contracção da procura interna. Sinceramente, andar com isso é andar com fantasias. Se fosse fácil todos os governos fariam isso, sem precisarem de grandes conselhos.

  7. “Se a Maria João diz que uma redução da despesa acompanhada por uma redução dos impostos não provoca contracção da procura interna, então está, implicitamente, a reconhecer que o que defende não é uma política de austeridade.”

    Penso que há uma certa indefinição sobre o que quer dizer “austeridade” – eu sempre associei a palavra a uma politica de reduzir o deficit / aumentar o superavit (e penso que seja também esse o sentido que o LAC está usando); no entanto, já vi (sobretudo em blogs) muita gente usar “austeridade” como sinónimo de “reduzir a despesa pública” (independentemente do que se passe do lado da receita).

  8. Pingback: Resposta à Maria João Marques « BLASFÉMIAS

  9. Austeridade é uma palavra inventada por Keynesianos e pelos jornais fieis e usada também pela Direita burra que não percebe nada de discurso mediático.
    Diz essencialmente: se o Estado não pode continuar a crescer tanto como queremos é Austeridade. Por isso é que Portugal está em Austeridade com 7% de défice (14% do seu orçamento é pedido emprestado)…hahaha!

    A palavra Austeridade tal como a palavra Populismo é só aplicada à Direita, apesar do Estado Social ser o maior populismo que existe…nunca nenhum jornal chamou Populismo ao Estado Social onde tudo é supostamente “grátis” ou para lá caminha. Tal como nunca chamaram Populista à nossa Constituição.

    Voltando à Austeridade, por exemplo não têm parado de subir os impostos desde há anos. Mas os media nunca chamaram Austeridade à subida de impostos. Porque será? As pessoas não ficaram com menos?

  10. “A palavra Austeridade tal como a palavra Populismo é só aplicada à Direita”

    Acho que há uma questão de geografia ai – acima do Trópico de Câncer, “populismo” só é aplicado à Direita; abaixo é mais ou menos ao contrário.

    “os media nunca chamaram Austeridade à subida de impostos”

    Não? Os media fartam-se de falar na “austeridade” europeia dos últimos anos, que tem consistido essencialmente em subidas de impostos.

  11. Sobre a dívida externa, não me canso de chamar a atenção para duas coisas:
    1- A divida externa portuguesa e a dívida pública são mais ou menos equivalentes e da ordem de 120% do PIB. (DE=Posição Investimento internacional) pelo que o argumento que tenta diluir as responsabilidades do Estado não tem fundamento.
    2- A dívida dos privados ao estrangeiro é fundamentalmente diferente da dívida pública porque só responsabilizam a entidade que a contraiu, enquanto que a dívida pública terá que ser paga pelos contribuintes.

  12. Maria João Marques,
    Ja outros o escreveram antes de mim mas não é demais repeti-lo, para ver se da próxima vez não escreve artigos tão falhos de sentido quanto este.

    1. Não é preciso saber qual é o ponto exacto de equilibrio para saber que há desiquilibrio;
    2. A diminuição da despesa pública com correspondente diminuição da cobrança de impostos só tem um resultado nulo na procura interna se (a) os privados procurarem os mesmos bens e serviços que o Estado deixa de consumir (o que não é razoável) e (b) o Estado não diminuirem o deficit (continuando a competir com os privados no acesso ao crédito e a aumentar a dívida pública ainda mais para além do ponto incomportável que já atingiu).

    Da próxima vez que pretender dar lições a alguém, garanta primeiro que domina pelo menos as bases da matéria em causa. E, já agora, raciocinar um bocadinho também ajuda.

  13. Caro LA-C,
    Como referi nos meus posts no Cachimbo, os salários já têm descido, e não não se pode saber se já se atingiram o seu equilíbrio: em algumas actividades sim, noutras não. É o mercado que decide o equilíbrio, não João Miranda ou António Borges. O mesmo para os sectores transáccionáveis.

    Quanto à austeridade, ligo a palavra a uma política de contenção da despesa pública. Se outros lhe dão outro significado, é com eles.

    Quanto à contenção da procura, evidentemente terá de acontecer, visto que andámos a adiantar consumo com recurso ao crédito externo. Consumimos mais do que produzimos, agora temos de consumir menos do que produzimos. Não vejo é o que isto tema a ver com montantes de salários decididos pelo António Borges ou com a redução de impostos.

  14. Maria João Marques (14),
    “montantes de salários decididos pelo António Borges”
    Quando é que o António Borges pretendeu ser ele a decidir quais os salários a pagar pelas empresas? (link, por favor, se não der demasiado trabalho sustentar com factos aquilo que escreve)

  15. Pingback: Para manter a procura interna temos o keynesianismo « BLASFÉMIAS

  16. “Ora eu defendo uma diminuição de impostos acompanhada de redução de despesa pública”

    Cara Maria João Marques,

    O que defende é de tal forma evidente que, em qualquer lado com maior literacia económica, nem precisaria de o justificar.

    Não só partilho da sua opinião, como tenho a certeza que é impossível recuperar o país sem reduzir impostos/ despesa pública, e de forma abrupta.

    Durante anos muitas as empresas investiram na optimização de processos permitindo produzir mais com menos pessoas. No Estado, pelo contrário, sempre aumentou o número de pessoas e o respectivo nível salarial. Para o suportar, aumentou-se de forma grotesca, os impostos sobre empresas e particulares, asfixia a economia, e provoca cada vez mais falências e desemprego (o caso mais recente foi com o IVA da alimentação).

    Desta forma, cada vez haverá menos empresas e trabalhadores a pagar (tantos) impostos, diminuindo a base potencial de tributação.

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