Ventos e Tempestades

Pedro Marques Lopes, no DN :

Tenho muita dificuldade em imaginar o que um cidadão desempregado, com filhos para sustentar, casa para pagar, que já enviou centenas de currículos e não obteve qualquer resposta, que ou já perdeu o direito ao subsídio de desemprego ou vê esse dia a aproximar-se, pensou quando ouviu o primeiro-ministro a recomendar-lhe que visse a sua situação como uma oportunidade.

Se esse cidadão foi um dos portugueses que votou no partido de Passos Coelho, é provável que tenha pensado que tivesse sido uma gaffe, mais uma das inúmeras declarações pouco pensadas do primeiro-ministro. Afinal, uma das razões que levara o cidadão a votar no PSD teria sido o facto de se identificar com a figura do seu líder: um homem comum, trabalhador por conta de outrem, morador num bairro dos subúrbios de Lisboa, com filhos, com uma vida sem luxos, conhecedor das dificuldades normais duma família de classe média. Alguém como ele.

O que mais choca nas declarações de Passos Coelho, que anteciparam a divulgação dos números do desemprego que revelam que existem mais de um milhão de pessoas sem emprego ou em situação de subemprego, não é a evidente insensibilidade ou a falta de pudor na abordagem deste flagelo, é o flagrante desconhecimento da situação real do País. Naquele em que nós vivemos não há empresa que esteja a contratar quem quer que seja e os bancos não emprestam um tostão para novos projectos. Os mais jovens ainda têm a hipótese de emigrar… mas de que tipo de “oportunidades” estaria Passos Coelho a falar para as pessoas da idade dele? Estaria a aconselhar a emigração para estes também? A um homem ou mulher de 50 anos com filhos? Em que tipo de bolha vive o nosso primeiro-ministro que não lhe permite conhecer o drama dum cidadão de meia-idade sem dinheiro, nem perspectivas de o ter? Será que ignora o que representa para alguém enfrentar a família e admitir que não consegue providenciar o sustento, a sensação de inutilidade, o desespero, a angústia?

O Bruno Alves já aqui tinha abordado a falta de vergonha do Primeiro-Ministro:

A propósito de “oportunidade”, Passos Coelho perdeu uma de estar calado

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26 thoughts on “Ventos e Tempestades

  1. mas Passos Coelho e este Governo pensam!!?? tal como a Troika ??
    .
    O Governo e a Troika mostraram-se surpreendidos com os números do desemprego…com a Grecia mesmo ali ao lado !!?? ou são burros ou são intrujas…tal como o lider do PS…esse então…não diz nada de jeito ! é o papagaio do Hollande…e Portugal na mão destes ilustres senhores, já para não falar dos jornalistas…que esses…

  2. Ricardo

    Esta súbita agendinha jornalística anti-governo traz água no bico.
    Os comentadores de serviço perderam toda a credibilidade para tentar agora navegar a onda dos desempregados. Quem é que lhes encomendou o sermão dominical?

    Hoje só os protagonistas dessa história podem vir falar da sua situação sem nos soar a conversa encomendada. Porque é que os jornais de serviço não dão esse espaço no seu jornal aos protagonistas dessa situação? Veriam as suas vendas aumentar, pela credibilidade da “vida contada em primeira mão”, esse quotidiano sem perspectivas de um futuro para si e para a sua família.

    Muito muito pior do que essa gaffe do “prime minister” é o cinismo do “president” num cenário de prosperidade económica, a Austrália: pedir aos jovens para não emigrar.
    Ana

  3. No caso do PML não considero que seja súbita. Já nos primeiros meses de Governo o ouvi criticar duramente o Governo – ele que foi um dos grandes apoiantes dos media de PPC – afirmando na tv que votou num programa de tendência liberal e foi enganado. Portanto…

  4. Num mundo liberal não se espera sentado (ou atrás de 1000 cv’s enviados) à espera que o governo lhe resolva o problema do desemprego… Procura no mundo alternativas… E nesse sentido, oportunidades.

    Não acho que tenha sido uma gafe.

  5. Só politicos e economistas incompetentes e ignorantes poderão estar supreendidos com o crescimento do desemprego.

    É sabido que numa recessão o crescimento do desemprego atinge o sue valor mais elevado 6 a 9 meses depois do inicio da recessão, porque começa nas empresas de bens de investimento de bens de consumo duradouro e depois vai-se propagando a toda a economia.

    E corremos o risco de entrar numa grande deflação de activos, que tornará a recessão ainda mais profunda.

    Sem redução dos IRC e da TSU nos sectores transacionaveis o nivel de desemprego ou da emigração forçada manter-se-ão muito elevados.

  6. NTS, num mundo liberal não se aumenta a carga fiscal nem se mantém\aumenta regulação, nem se mantém despesa pública (que consome o crédito privado). O PPC não pode rebentar com a possibilidade de se criar emprego e depois vir falar em oportunidades. Não pode.

  7. Ricardo…Tem toda a razão quanto à necessidade de cortar despesa e reduzir os impostos.

    Mas o Ricardo sabe bem que no curto prazo, essas medidas, apesar de correctas, também causariam muito desemprego, nomeadamente na função publica. O recurso à imigração no curto prazo é uma inevitabilidade, seja qual for o modelo. E na sequência vem a conversa das oportunidades.

  8. Se a malta emigrar e não produzir internamente, o PIB cai e a receita fiscal também.

    E assim os rácios pioram os juros sobem, etc.

    Só com crescimento económico é que nos podemos safar , não é com reduções do PIB.

  9. Dou-lhe um exemplo, NTS. Uma das medidas da Troika implicava baixar substancialmente a TSU e logo diminuir os custos de trabalho, o que facilita a criação de emprego ou, pelo menos a manutenção do existente. Isso foi feito ?

  10. Ricardo… Já lhe dei razão quanto aos impostos.
    E do lado da despesa ? Como faz isso sem aumentar o desemprego ?

  11. Segundo o PSD seria compensada pelo aumento do IVA – que foi feito, com algumas excepções.

    Mas compensa-se com cortes na despesa. Onde ? Em todo o lado menos na AI. De preferência extinguindo-se o orçamento da cultura, as associações\organizações\fundações\institutos e os “incentivos à economia” – que não seriam suficientes para compensar a perda, por si só.

    E tambéms seria inteligente não ter aumentado impostos, que constituírão uma perda de receita.

  12. Ricardo Lima : “…Uma das medidas da Troika implicava baixar substancialmente a TSU”

    Creio que era apenas um dos membros da Troika (o do FMI) que previligiava uma descida substancial da TSU. Os outros dois mostraram-se mais compreensivos com as reticencias do governo.
    O cenario que foi considerado previa que uma descida da TSU a curto prazo teria de ser financiada por um aumento ainda mais brutal do IVA.
    O que também teria os seus efeitos, estes negativos, sobre o emprego, nomeadamente em sectores de pequenas e médias empresas viradas para o mercado interno, empregadoras de uma parte importante da mão de obra de baixa qualificação, e relativamente espalhadas por todo o territorio nacional.
    O aumento do IVA tem também um impacto forte sobre o poder de compra das camadas de menores rendimentos da população e que mais sofrem com a austeridade. Começando pelos … desempregados !
    O governo considerou que o impacto imediato de uma baixa da TSU sobre o emprego seria mais limitado do que era antecipado por alguns dos seus defensores. Até pelo facto da economia estar em recessão e as reformas estruturais previstas apenas darem efeitos a mais longo prazo em termos da confiança das empresas quanto a investimento e emprego.
    Quem é que tinha razão ? Não era uma arbitragem facil.
    De qualquer modo, uma baixa do custo do trabalho, mais ou menos substancial, é certamente uma das medidas que é indispensavel aplicar logo que haja folga financeira suficiente.

  13. O Governo ? Reticências ? O Fernando assistiu à mesma campanha eleitoral que eu ?

    Repare, eu não sou favorável à subida do IVA. Só referi o que o principal partido do actual governo afirmou em campanha. Por mim delapidava-se a despesa, a começar nas mais fúteis como a cultura e os “incentivos” e as fundações dum dia para o outro.

  14. Aliás, o PSD entusiasmou-se tanto que quando deram por ela já tinha ido de 4% para se falar em baixar em mais que 8%.

  15. Ricardo Lima : “Mas compensa-se com cortes na despesa.”

    Nem toda a gente pensa que cortes substanciais na despesa publica sejam possiveis no imediato e no curto prazo.
    Também ha quem alerte para os efeitos que estes cortes, para serem visiveis, teriam a curto prazo sobre a situação geral do pais, desde o emprego até ao consumo, passando pela situação de certas categorias e camadas da população muito dependentes do Estado. A restruturação e redução do peso do Estado não é nem vai ser obra facil. Mas ainda mais dificil é a curto prazo.
    De qualquer modo, o governo actual parece ter adoptado claramente este ponto de vista. Estara certo ou errado ? Digamos que, pelo facto de o ter adoptado, se tornou num dado do problema de curto prazo ! Ver-se-a mais para a frente se o governo evolui nesta matéria ou se, pelo contrario, se acomoda. Neste ultimo caso, seria um péssimo sinal quanto às verdadeiras intenções reformistas deste governo.

  16. Ricardo : “Só referi o que o principal partido do actual governo afirmou em campanha.”

    O PSD foi irrealista e imprudente no que prometeu em campanha. Prometeu baixar a TSU e não aumentar o IVA e não aumentar impostos e … Se não o tivesse feito talvez não tivesse conseguido ganhar as eleições. Tanto mais que o PS de Socrates prometia então ainda mais e melhor … Não digo que fosse deliberado. Creio antes que Passos Coelho não tinha a verdadeira noção da real situação que o esperava como futuro PM.

  17. Ricardo : “… delapidava-se a despesa, a começar nas mais fúteis como a cultura e os “incentivos” e as fundações dum dia para o outro.”

    Acho bem que sim. Até para começar e dar um sinal forte.
    Mas dizem os mais entendidos nestes numeros que seria manifestamente insuficiente. A maior parte da “carne” esta nos salarios dos funcionarios, no Estado Social, na Saude, na Educação,… Onde é mais problematico e complicado !

  18. Ricardo : “Aliás, o PSD entusiasmou-se tanto [relativamente à TSU] que quando deram por ela já tinha ido de 4% para se falar em baixar em mais que 8%.”

    Precisamente. Houve quem dissesse, e se calhar com alguma razão, que ou era 8% ou então não valia a pena !…
    Mas sera que mesmo os 8% teriam um impacto imediato tão grande quanto o esperado no curto prazo ? Sera que a nossa taxa de desemprego seria actualmente muito menor ?
    E se se tivesse ido para os 8% não estariamos hoje com uma execução orçamental ainda mais incerta e apertada ?
    Estamos a falar em “janelas” muito apertadas. Nem os “especialistas” sabem ao certo o que é que cada tipo de medida daria como impacto imediato e de curto prazo.
    Por isso é que eu, apesar de também “sonhar” com um programa com muito mais cortes de despesas e com reduções de impostos, não contesto as medidas concretas do governo nesta fase de emergencia. No fim de contas é o que temos e alternativa melhor politicamente viavel não ha ! Vamos ver o que consegue. O que conta é a direcção.
    Se não conseguir cumprir minimamente os objectivos e sair da crise financeira, então podemos concluir que a estratégia foi errada. E, mais cedo ou mais tarde, voltaremos a ter o PS, desta vez com Seguro, eventualmente ajudado pelo “amigo” Hollande e pela sua “politica de crescimento” !….
    Se conseguir … talvez haja uma oportunidade para ir mais longe e ha que pensar no que vem a seguir, no médio e longo prazos.

  19. O processo de ajustamento da economia portuguesa tinha de levar, e vai ainda levar mais, em qualquer circunstancia a um aumento de desemprego. O corte na despesa (que se impõe) acelerá o desemprego. O aumento de impostos dificulta a sua criação.

    Ou seja, a emigração é inevitável nos próximos 3-5 anos. O país não vai gerar riqueza para tanto subsidio de desemprego. Não vale a pena ficarmos chocados com o PM por indicar o caminho.

  20. A redução da TSU e do IRC podem ser feitas à custa de um deficit superior e de cortes em RTP´s e PPP’s, fundações e outras aldrabices .
    .
    O caminho que está a ser seguido tem resultados desastrosos ao nivel do emprego e do investimento privado .

    Sem alteração da estrutura fiscal a economia vai estagnar durante anos a fio e o desemprego permanecer elevadissimo.

    A austeridade não funciona por si só.

  21. Pedro Marques Lopes, no DN : “… a evidente insensibilidade ou a falta de pudor na abordagem deste flagelo [do desemprego e do subemprego],…”

    Mas o que é a “sensibilidade” e o “pudor” nesta matéria ?
    O que mostram os indignados, os partidos à esquerda, as organizações caritativas, os dirigentes religiosos, a minha Mãezinha-que-tem-um-coração-enorme, o Sr Francisco, a Da Amélia, o Pedro Marques Lopes,… ?!!…
    Mas quanta demagogia facil à volta deste assunto !!

    Pedro Marques Lopes, no DN : “…mas de que tipo de “oportunidades” estaria Passos Coelho a falar para as pessoas da idade dele?”

    Pelo que percebi, o Primeiro Ministro deste pais, que por sinal se chama Passos Coelho, estava a discursar de improviso a convite num encontro organizado por uma entidade cujo nome exacto não tenho presente mas que se ocupa da promoção do empreendedorismo …
    De que é que havia o homem de falar senão de … espirito empreendedor, novos desafios, aproveitar oportunidades, não baixar os braços perante as dificuldades, fazer dos momentos dificeis uma viragem para novas experiencias, etc, etc, etc ??!!…
    Não percebi que estaria a falar apenas para as pessoas da idade dele, para os desempregados de longa duração, para as pessoas cansadas e desmoralizadas, etc, etc… Estava a falar em geral para tanta gente, empregada e desempregada, que vive situações dificeis ou frustrantes, e que pode precisamente ganhar coragem e motivação para se lançar em novas experiencias, novos empregos, novas actividades, trabalhar por conta propria, emigrar (sim, emigrar), etc, etc…
    Não creio que seja verdade que é hoje algo de impossivel … Ha empresas a recrutar, nomeadamente na exportação, ha pequenas empresas que fecham todos os dias mas também ha outras que se criam, etc, etc.
    Apenas uma minoria pode seguir este caminho ?… Talvez, mas ja vale a pena, e para essas pessoas é algo de extremamente importante, além de que podem ser um exemplo e abrir caminho para outros …
    Também não fiquei com a ideia que, ao falar naquele tipo de pessoas, Passos Coelhor estava a esquecer ou a ignorar que ha muitos desempregados e mal empregados que não teem condições objectivas e subjectivas para ultrapassar as dificuldades por que passam, e que a responsabilidade de um governo e de um PM é também procurar criar condições para que a economia cresça, crie riqueza, emprego e bem estar para o maior numero.
    Pois eu achei muito bem que um Primeiro Ministro num pais em crise e sinistrado, não por culpa dele mas por culpa dos que antes dele, inclusivé pertencentes ao mesmo partido, levaram a cabo politicas que trouxeram o pais para a situação dramatica em que se encontra, tenha aproveitado o ensejo para fazer um discurso de esperança, de encorajamento, de aposta na responsabilidade individual e no espirito de iniciativa, da procura de outras oportunidades (sim, “oportunidades”)… !!
    Não sei se tenho a “sensibilidade” e o “pudor” suficientes para falar do desemprego, não sei se conheço suficientemente o pais real,… mas, no lugar dele (cruzes !!), eu teria tentado falar com o mesmo espirito e com o mesmo tipo de ideias e palavras !!

    Ja agora … é melhor falar do desemprego apenas como uma fatalidade social da responsabilidade do Estado (e do capitalismo liberal) e que o Estado tem a obrigação de resolver ?… ou é preferivel falar da procura de emprego e de uma situação melhor também como um acto de responsabilidade e iniciativa individual ?!..

  22. Para quê ter um governo que não faz ideia do que fazer para minimizar o enorme problema do desemprego ?

    Meio governo era mais que suficiente para continuar a não fazer nada de especial.

  23. O desemprego involuntário nunca é uma oportunidade. Se um indivíduo (+- 50 anos com família) tem um emprego e o perde o sentimento nunca será de oportunidade.
    Começará por surpresa e pânico.
    Tentará responder à contrariedade utilizando os meios disponíveis e as formas normais “atrás de 1000 cv’s enviados”.

    Fora de questão criar empresa, a menos que tenha capital de lado (um mínimo realista de 5.000€ para custos de criação + 12 ordenados para compensar o 1º ano presumivelmente sem rendimento).
    – Tem que ter um produto (serviços, pasteis de nata, etc) com um mínimo de procura.
    – Tem que ter um mínimo de conhecimento do mercado.
    – Fica sem acesso ao apoio de desemprego, pelo que, é uma situação (para quem tem família e despesas fixas) a considerar com muito cuidado.
    – Se corre mal “está feito”.
    – Tem que ter algum talento de vendedor (nem toda a gente tem) para convencer os potenciais clientes.

    Não esquecer que os impostos e despesas fixas continuam a chegar independentemente de se estar desempregado. Os miúdos continuam a ir à escola, ao dentista etc.O IMI continua. O empréstimo bancário continua etc.

    No fim do subsídio de desemprego o indivíduo (1/2 anos mais velho) tem um CV com um tempo longo de inactividade o que é um problema adicional.

    Resolver:
    Remover regulação e impostos. Simplificar a contabilidade. Remover a reversão de dívidas (estupidez incrível, muito socialista, a criação da ideia).
    Quanto mais simples for contratar mais gente será contratada.
    Pessoalmente a extensão do acto isolado a 10/20 por ano acho que seria uma boa medida para começar.
    Naturalmente haveria abusos (empregos por pagamento através de acto isolado). A ideia que se consegue prever todas as situações e impedir todos os abusos é muito socialista (tem um toque de perfeição social) mas irrealista.

    Parece que os Sr.NTS vive num mundo liberal. É favor enviar a morada, caso seja no planeta Terra.

  24. muito bem HCL.

    Os sr, candidatos a liberais que andam por aqui devem ter um curriculum fabuloso de criação de empresas e de emprego nos sectores de bens transacionáveis, sem recorrerem a subsidios !

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