A propósito de “oportunidade”, Passos Coelho perdeu uma de estar calado

Anda por aí muita falsa indignação com as declarações de Pedro Passos Coelho sobre o desemprego. O que é pena, porque o que não falta nelas (ou pelo menos, naquilo que delas as televisões deram a conhecer) são motivos para que essa indignação fosse genuína. Consta que o Primeiro-Ministro terá “pedido aos portugueses” que adoptassem uma “cultura de risco” e que encarassem o desemprego “como uma oportunidade de mudarem de vida”. Percebo o que Passos Coelho quer dizer. E teria toda a razão em dizê-lo se Portugal se pudesse orgulhar de uma economia, como se diz agora, “dinâmica”. O problema é que não é esse o caso.

Em Portugal, na conjuntura actual, perder o emprego não abre qualquer oportunidade. Cria, apenas e só, dificuldades. O problema do desemprego em Portugal só com muita má vontade poderá ser descrito como um de uma série de gente com “falta de iniciativa” que prefere ficar em casa a “arriscar”, recebendo subsídios em vez de um salário. Na realidade, com empresas a fecharem, dificuldade em contratar, e uma incerteza quanto ao dia de amanhã maior do que as contas bancárias, encontrar um novo emprego não é uma questão de vontade e “iniciativa”, é quase um milagre. E claro que algumas dessas pessoas poderiam “arriscar” abrir o seu próprio negócio. Mas por muita “cultura de risco” que se possa ter, para abrir um negócio é preciso também dinheiro. E quem é que vai conseguir obter um empréstimo nas circunstâncias actuais? e que perspectivas é que há de que esse negócio possa ser bem sucedido?

Para além de que realmente muita gente não tem qualquer possibilidade de “arriscar”. Seria importante que Passos Coelho não se esquecesse de que, quando fala do desemprego em Portugal, está a falar em grande medida de uma série de pessoas que não viram apenas o seu emprego a desaparecer – antes viram desaparecer toda e qualquer perspectiva de de exercerem qualquer actividade. Pessoas que trabalhavam em indústrias que perderam por completo toda a sua competitividade com o exterior, que se tornaram obsoletas, que nunca mais regressarão ao nosso país; e pessoas que não têm (no horrível termo burocrático dos nossos dias) “competências” para procurarem empregos noutras áreas; ou que por terem 40, 45, 50 ou mais anos, são consideradas demasiado velhas por “empreendedores” como os que enchem os discursos de Passos Coelho; que, pura e simples, foram deixadas para trás pelo andar da carruagem. Essas pessoas, mudaram mesmo de vida. Mas essa mudança foi efectivamente uma tragédia para elas, e não lhes abriu qualquer oportunidade.

Mas se Passos Coelho quer realmente que os portugueses vejam o desemprego como uma oportunidade, tem bom remédio. Porque é dele e dos seus colegas de Governo que isso depende. A única forma de o desemprego deixar de ser, para muita gente, algo de permanente, mas apenas algo de temporário, e dee as pessoas procurarem aproveitar as oportunidades que lhes possam surgir e criar as que não estão imediatamente ao seu alcance, é o Governo realizar uma série de reformas que até agora ainda não passaram do papel, ou nem sequer nele foram escritas. Quando for mais fácil contratar, quando as empresas e as pessoas puderem canalizar as suas receitas para o investimento em vez de para o pagamento de impostos, quando criar uma empresa deixar de ser um pesadelo e a economia for realmente “dinâmica” o suficiente para o risco que as pessoas correm possa valer a pena.

Mas para isso, o Governo terá de, em vez de se limitar a fazer discursos, realmente fazer essas reformas. Até lá, as únicas oportunidades que existem são as que Passos Coelho perde de estar calado.

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27 thoughts on “A propósito de “oportunidade”, Passos Coelho perdeu uma de estar calado

  1. Muito bem !

    Com o IRC e TSU existentes e Portugal é quase impossivel criar emprego duradouro.

  2. É de louvar que o PM procure dar alento aos portugueses, mas o problema é que a maior parte dos factores não dependem dele, por isso as suas palavras valem de pouco e soam a falso. Mais vale falar pouco, porque a oposição apenas usará o seu discurso para lançar sobre si o odioso.

    Nesta altura todos os olhos estão sobre a Grécia porque se o pior cenário se verificar vai sobrar para nós. Alguém tem de apelar veemente aos gregos para que se entendam. Alguém como o novo presidente francês, porque a França tem maior ascendente sobre a Grécia e Hollande não é mal visto em Atenas. Pelo menos por enquanto. É que cada vez que os alemães falam, aos gregos só “apetece” fazer pior para ser do contra, e isto assim não serve a ninguém. O fracasso grego deu origem ao pacto orçamental, que para além das medidas restritivas está longe de ser reactivo, como nos convinha. Pelo contrário, é proactivo o que condiciona mais a soberania dos países mais pequenos e fracos. O impasse político na Grécia pode dar origem a um novo impulso para mexer no sistema e se isso acontecer (cuidado com a revisão do pacto orçamental) a alteração pode não ir de encontro à flexibilização que desejamos. Pode significar desta vez um aprofundamento político para evitar situações como o caos político que se verifica na Grécia, na mesma lógica do pacto orçamental. Tal viria a reduzir ainda mais a nossa margem de manobra. À Grécia tem de ser dito de uma vez por todas para decidir. Ou então é melhor que saia do euro porque os outros não podem continuar a apanhar por tabela.

  3. Numa sociedade liberal estas palavras fariam todo o sentido.
    Mas num país, e numa UE, onde tudo é planificado a nível central, visando o todo e ignorando as partes, quem planifica não pode de todo sacudir a água do capote desta forma.
    Ainda por cima admitir que a carga fiscal é insuportável e ao mesmo tempo que o desemprego é uma oportunidade, deve ser o mesmo que sugerir a emigração…

  4. Como disse no meu blog, não se passa um dia sem que uma frase do PM ou de outro ministro não seja aproveitada para um grande alarido da esquerda. Agora Passos Coelho foi acusado de insensibilidade, de ofensa aos portugueses, de não saber o que se passa com o povo e de outras coisas horríveis por ter dito que o desemprego não tem de ser visto como um estigma, mas pode ser considerado uma oportunidade. Nesta polémica não interessa tanto saber se o PM tem razão absoluta, um pouco de razão ou nenhuma razão nesta apreciação do desemprego. O que me choca é que tenha sido este o tema absoluto das notícias do dia, dos comentários dos políticos e das conversas. Pode ter sido uma frase genial ou talvez uma declaração infeliz. Em qualquer caso só mereceria uma opinião breve e sucinta e não a enorme troca de argumentos pró e contra, como se não houvesse mais nada a tratar nos meios de comunicação. Tenha o PM razão ou não, seria mais curial e até mais sensato discutir as opções a as acções do Governo, em vez de perder tempo a falar à exaustão de frases avulsas.

  5. Este Governo que aumenta o Estado, ou seja recompensa a Economia Política em vez da Economia Livre não tem o direito de depois vir dizer que os Portugueses devem optar por uma Cultura de Risco e Liberdade.

  6. Só não percebi um coisa. Qual é a dificuldade de contratar em Portugal? Qualquer empresa, desde uma de vão de escada a uma grande empresa, contrata facilmente. Recibo verde, contrato a prazo, outsorcing, etc. Eu tenho 48 anos e nos últimos 10 anos já trabalhei em várias a recibos verdes, depois de ter saído do ensino, onde estive com contrato a prazo durante anos. Nunca houve burocracias nenhumas, garanto-lhe, nem para contratar, nem para mandar embora. Nunca ganhei mais de 500 euros (nos contratos em que tive mais sorte), porque os patrões em Portugal, se pagam mais do que isso vão rapidamente à falência, é o que me dizem e eu acredito. Temos os patrões mais desgraçados do mundo, é uma jeremiada permanente. Portanto, tenho tido uma carreira profissional riquissima, diria o nosso PM. Tenho tido pelo menos a oportunidade fantástica de conhecer o mercado de trabalho em Portugal. A quem quiser, posso dar lições sobre como se forma uma empresa e se contrata em Portugal. Quem é que quer?

    Freire de Andrade, não é razoável tratar o PM como se fosse um qualquer comentador que manda uns bitaites. Se um qualquer tipo aqui me disser que tenho sorte por estar desempregado, porque é uma oportunidade para ser empreendedor, ou qualquer coisa assim, eu mando-o à merda sucintamente. Se for o PM, é um bocado diferente. É sinal que temos um governante que não conhece as dificuldades dos que estão no desemprego e isso, enfim, não é lá muito bom. Isto não é de esquerda, nem de direita. As dificuldades trágicas de alguém que fica desempregado não têm a ver com ideologias. Calha a todos.

  7. Criação do Próprio Emprego ou Empresa – amostra da burocracia: introdução no site http://www.iefp.pt

    “E porque não criar o seu próprio emprego ou empresa?

    Conheça e beneficie do Programa de Apoio ao Empreendedorismo e à Criação do Próprio Emprego, criado pela Portaria n.º 985/2009, de 4 de Setembro, e alterado pela Portaria n.º 58/2011, de 28 de Janeiro.

    Nota – Os projectos de emprego promovidos por beneficiários das prestações de desemprego, apresentados ao abrigo do Programa de Estímulo à Oferta de Emprego até 4 de Setembro de 2009 (inclusive) são regulados, até ao final da sua execução pela Portaria nº 196-A/2001, de 10 de Março (com as alterações introduzidas pelas Portarias n.º255/2002, de 12 de Março, n.º 183/2007, de 9 de Fevereiro e n.º 985/2009, de 4 de Setembro) e pelo respectivo Manual de Procedimentos do PEOE.

    Aos projectos de criação do próprio emprego apresentados entre 5 de Setembro de 2009 e 28 de Janeiro de 2011 (inclusive), por beneficiários das prestações de desemprego, aplica-se o Manual de Procedimentos da medida “Apoio à criação do próprio emprego por beneficiários das prestações de desemprego” do PAECPE.

    Os projectos apresentados a partir de 28 de Janeiro de 2011, são regulados pela Portaria n.º 58/2011, de 28 de Janeiro, que alterou a Portaria n.º 985/2009, de 4 de Setembro, republicando-a, e pelo Manual de Procedimentos do Programa de Apoio ao Empreendedorismo e à Criação do Próprio Emprego – PAECPE.

    Em virtude da entrada em vigor do Decreto-Lei n.º 64/2012, de 15 março, são regulados pelo Manual de Procedimentos do Programa de Apoio ao Empreendedorismo e à Criação do Próprio Emprego – PAECPE:”

    Porque não? Por isto, para começar.

  8. Je, se não quiseres apoios financeiros do estado, não precisas desses procedimentos. Um verdadeiro liberal não precisa de nada disso. Cria-se um empresa num instante. Sabes como é que se cria uma empresa?

  9. Eu até compreendo o que quis dizer o nosso PM, Mas as palavras leva-as o vento se nada for feito para acompanhar a teoria. Aqui vejo-me obrigado a voltar à questão do Código Contributivo da Segurança Social que inviabiliza o auto-emprego por via de recibos verdes (aumentos brutais e pagamento de IRS sobre as contribuições majoradas) e que em breve vai também inviabilizar qualquer actividade de quem for empresário em nome individual ou detentor de uma sociedade unipessoal.

    Os seja, as hipóteses de um desempregado criar o seu próprio emprego são negadas pela voracidade contributiva imposta pelo anterior governo com o conluio dos sindicatos de esquerda.

    Sinceramente, fico chocado com o alheamento revelado nesta proposta, aparentemente optimista, mas que choca no dito código que já deveria ter sido revogado desde que este governo tomou posse. Assim é gozar com a cara de todos aqueles que, não tendo emprego, querem ir à luta ao invés de ficarem pendurados na subsídio-dependência.

    E o pior está para vir, quando estiver concluído o período de transição e os Independentes (e os referidos micro-empresários) começarem a ficar sem modo de vida, sacrificados para alimentar uma segurança social que nunca lhes valeu, nem valerá.

    É muito mau…

  10. Claro que nenhum membro do governo, nenhum acessor, nenhum deputado, nenhum comentador, nenhum jornalista, enfim… ninguém vai ler isto e parar um segundo para pensar. Por qualquer razão que ultrapassa a minha compreensão a questão do código tornou-se um tabu e simplesmente é ignorada por tudo e todos.

    Até ser tarde demais… Aí cria-se um fundo de solidariedade ou coisa que o valha, para dar um subsídiozinho a quem tiver falido à conta deste absurdo.

    E chama a isto um regime liberal…

  11. Pingback: Iniciativa, empreendedorismo e criação de emprego: retórica governamental vs. realidade « O Insurgente

  12. Renato, pode dizer como. Não sou um verdadeiro liberal: sou um realista minarquista desempregado, que pretende quanto antes deixar de depender do subsídio/seguro de desemprego. Não sou rico, nem santo. Tenho Juízo, uma família e contas para pagar mensalmente. Seria lindo mandar o subsídio às malvas e avançar de peito aberto e sem dependências acreditando nos novos “amanhãs que cantam” do empreendedorismo, mas não é assim. Na situação actual – e dado que não encontro já clientes que me paguem toda esta a vontade de liberdade- é ir-me libertando com as ferramentas que o estado “generosamente” diz que dá: subsídio parcial de desemprego ou criação do próprio emprego. Ora aqui é que a coisa fia fino: ora burocracia, ora em lado algum saberem exactamente, claramente, o que devo fazer. E olhe que já tentei. Resultado, subsídio suspenso, bichas e meses de espera. Não é a primeira vez que nesse submundo chamado SS fico à beira do pranto. Não de tristeza, repare, mas de raiva e impotência. E o medo apenas antecipa o da TSU, IRS e IVA, a “canga”.
    Coisa como o iapmei – com os seus meandros e histeria empreendedorista, não ajudam. E ouvir do PM, coisas como sair da zona de conforto – um tipo que durante décadas viveu à sombra das juventudes partidárias e nunca vi sair da zona de conforto para se opor às políticas que agora dizem criminosas, não é bom. Tal como não foi quando, aluno mediocre que terá sido, andou a pregar a virtude dos bons alunos.

  13. E sei que um dos pedidos insistentes da troika foi para baixar a TSU, ao que o governo actual disse nada…

  14. Bom, creio ter compreendido o que Passos Coelho queria fazer, dar uma ajuda à auto-estima dos desempregados, nada mais.
    Infelizmente o nosso Primeiro é totalmente incapaz e, quando abre a boca, geralmente saí disparate.
    O que me assusta pois, se é assim cá no burgo, falando livremente, o que será nas reuniões que mantém no Conselho Europeu, com a queria Ângela e com os outros chefes de governo da UE?
    Quanto disparate já terá dito? Quanto é que nos estará a custar a inépcia do nosso Primeiro Ministro?

  15. Gostei muito do seu post. De facto o empreendedorismo é totalmente desencorajado pelo Estado e pela Segurança social.
    Um exemplo básico é o facto de que alguém empregado que crie uma empresa perde o direito ao subsidio de desemprego, mesmo que a empresa dê lucro zero e esteja como gerente não remunerado…

  16. Rui, um empresário não deve depender de subsídios. Se alguém cria uma empresa, não está desempregado. Porque precisa então de subsidio de desemprego?

  17. Sousa, criar uma empresa ou tornar-se empresário não é encontrar a galinha dos ovos de ouro. Seria optimos e então eramos todos empresários. A criação de uma empresa até dá nos primeiros tempos prejuízo, se tiver de investir. O impulso inicial que permite lançar um pequeno negócio pode ser pedir emprestada a garagem dos pais. Ou pode ser um business angel ou o subsídio de desemprego – legitimamente ganho e pago pelo desempregado durante anos de pesados descontos. Segundo o Sousa quem fica em casa a enviar curriculums sem obter resposts tem direito, e quem decide empreender já não, certo? Uma das coisas desesperantes é ser tratado como golpista só por usar a palavra “empresa” ou empresário. É a mesma justiça que cobra a taxa por inteiro ao empresário, mas lhe nega o apoio no desemprego caso a coisa dê para o torto.

  18. A maior parte dos “neotontos” nunca criaram empresa nenhuma, é só conversa fiada, e muitos vivem encostados ao estado !

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