VEJA o Passos

A recente entrevista de Passos Coelho à revista VEJA é um marco no que tem sido a intervenção pública do actual primeiro-ministro ao longo dos últimos anos. O registo é o de um liberalismo moderado e bem fundamentado. O diagnóstico não é diferente daquele que muitos de nós têm vindo a fazer ao longo da evolução da crise actual e é de todo semelhante áquele que outros, como Thatcher ou Reagan, faziam nos anos 80 sobre a situação dos países que governavam. Era um puto (e ainda sou) quando ouvi falar em Passos Coelho pela primeira vez. Devia ter  uns 17 anos e o PSD estava naquele clima de guerra civil que agora o PS faz questão de copiar. Já na altura a comunicação social, de longe a longe e sobretudo em notas de rodapé, dava uns ares de que o rapaz poderia ir longe.

E finalmente avançou. Confesso que, simpatizante do PSD à época, não votei em MFL. A análise que fazia do país era a correcta e não sofria da megalomania de Menezes que, em inicios da crise, se propunha a esbanjar umas centenas de milhões a remodelar os bairros sociais por este país fora enquanto dava ares do seu jeito para a bola num qualquer gueto lisboeta. No entanto, a doutora, tendo o diagnóstico certo pecava por ser branda na cura e o seu programa eleitoral era de uma moderação que no máximo atrasaria a vinda do FMI a terras lusitanas. Já o seu rival, PPC, além do carisma que prometia desviar o PSD da sua travessia do deserto,  oferecia soluções bem mais radicais. Falava em privatizações, desregulações e legalizações. E assim foi nos tempos que se seguiram. Até ao confronto com Rangel e Aguiar Branco para a liderança do partido, PPC falava em soluções tão radicais para um país apadrinhado por Marx como Portugal como legalizar as drogas leves ou privatizar a CGD. Mas foi Sol de pouca dura. Já a campanha havia começado e vimo-lo rodeado de todo o tipo de figuras não recomendáveis que um partido catch-em-all como o PSD tinha para oferecer. E as propostas moderavam-se, não fosse o país correr o risco de ter laivos de liberalismo a impedir uma estável sucção do erário público por parte da esfera partidária. Passos venceu. Mas a firmeza com que afirmava querer enfrentar os constantes zigue-zagues do Governo PSD logo se desfez. E o país assistiu a PECs e Orçamentos com a constante benção do PSD. Quando o Governo finalmente caíu, o país estava de restos, perto da ajuda externa e a classe política num descrédito absoluto. Confesso que apesar do meu liberalismo vincado, sou bastante prático. E numas eleições em que Paulo Portas, jogador experiente, apostou tudo no centro, eu apostei num Programa Eleitoral que sendo Social-Democrata roçava bastante algumas soluções de liberalização do país. Acompanhei PPC durante a campanha, ouvi os seus discursos contra o peso do Estado, os impostos, o socialismo. Não fosse a má experiência com o Barrosismo e os seus choques fiscais ou a desconfiança da postura do senhor e diria estar perante uma nova Thatcher.

Mas o PSD ganhou perto da maioria absoluta, formou um Governo de maioria e fez aquilo que todo o primeiro-ministro em Portugal nos habitou a fazer: deitou grande parte das promessas eleitorais na retrete de S. Bento. E até a substileza dispensou em tal acto. Expandiu a carga fiscal muito para além do exigido pela Troika, demonstrou timidez nas privatizações, ficou-se pela metade em grande parte das liberalizações planeadas – fosse no ensino, no mercado laboral ou no arrendamento – e deu carta branca a corporativistas como Assunção Cristas, socialistas como Paula Teixeira da Cruz ou meros dementes banhados num paternalismo fascizante. como Fernando Leal da Costa, Secretário de Estado da Saúde. O discurso mudou e a sinceridade esvaíu-se quando o ouvimos dizer, pouco depois de tomar posse, que acabava de descobrir que o estado das contas públicas era bem pior que o esperado, depois de ter passado uma campanha a insistir que o estado das contas públicas era bem pior que o esperado. E adiante. Mas a recente entrevista à Veja oferece-nos um registo diferente. Um Passos como o conhecemos antes de chegar aos pódios da política. O diagnóstico é correcto e as ideias são as necessárias.

Mas o meu maior receio não é da incapacidade de diagnosticar os problemas do país. Essa o PSD e o CDS já nos demonstraram de há alguns anos para cá. O que me assusta é a aparente incapacidade por parte dos actuais governantes de procederem a uma potente cura para a doença que vem corroendo o país, das finanças à educação, da segurança ao emprego: o Socialismo. E se, por mais discursos bonitos que se façam, nada de pouco moderado se fizer para contornar a espiral de recessão e endividamente que o país enfrenta,  estaremos condenados a, a posteriori, recordar um Primeiro-Ministro que discursou como uma Thatcher, mas governou como um Blair.

11 thoughts on “VEJA o Passos

  1. 1.-O país ainda pode ter uma escola primária gratuita onde ler, contar, interpretar sejam realmente ensinados?
    2.-O país ainda pode ter 5 hospitais públicos gratuitos?
    3.-O país ainda pode ter 2 000 000 de pensionistas ou reformados?
    4.-O país ainda pode ter 3 000 advogados à borla a tropeçar pela justiça?
    5.-O país ainda pode ter 5000 militares?
    6.O país ainda pode ter 2 000 policias?
    7.-O país ainda pode ter 230 000 funcionários?
    8.-O país ainda pode ter 35 autarquias?
    5.-O país ainda pode ter isto tudo com crescimento inferior a 1,75% até 2020?

    Talvez seja melhor os nadólogos de barbicha e tambor, “piercing e colar às flores” de olhar esgazeado, irem fazer concertos ao Optimus Alive para Nairobi…AQUI NÃO HÁ GUITO

  2. O nosso sistema eleitoral não está feito para que os Governos tenham que agradar aos eleitores mas sim às bases do partido, enquanto assim for o destino deste país será este, uma espécie de Socialismo para o partido, em que o Estado mantém a sua influência na economia para poder garantir aos partidos uma quantidade suficiente de tachos. Sem mudar o sistema eleitoral, na minha opinião, não vamos lá.

  3. PPC . MUDAR (de vida …)
    Com esta fotografia já não me enganas (sic) Doces .Começou com Doces e acaba com AMARGOS .
    E ainda há quem acredite em aldrabões !…
    PPCanalha !….Diz-me com quem andas …
    PECs e OGEs com a benção do PSD ( e de Cavaco para obter um segundo mandato pois no primeiro teve menos votos do que aqueles que votaram para ele não ser PR …)
    Democracia com aldrabões nunca será Democracia . Nem já o Sporting escapa ! Fujam …
    Isto não é um País , mas sim um SITIO muito mal frequentado onde existe um pseudo Povo que não se governa nem se deixa governar !…
    Mas que ousadia comparar PPC a Tatcher e a Blair !…
    Curar uma doença “crónica” ! Sonhador …Já se aproxima da dezena de vezes que esta desgraça nos acontece …E não vai ficar por aqui … Infelizmente já não há tomates nem ovos podres.

  4. Quando este governo dialoga eu vou sempre ler o memorando da troika.

    E está à vista o falhanço do governo. Aliás a maior parte destas personagens andam erradas à 38 anos, uma cambada de marretas.

    Eu sou mais troika!

    Cumpram o que está lá escrito palhaços.

    vivendi-pt.blogspot.com

  5. esse Passos ainda não se demitiu!!?? oito meses e a renegociação das parcerias publica-privadas ainda nem começou…e não acerta uma no orçamento…o que no actual contexto económico, é chumbo claro !.

  6. Por falar em socialismo, sempre que ouço, ou leio, alguém falar em mudar mentalidades, penso sempre em “campos de reeducação”. Por falar em socialismo…

  7. Excelente artigo.

    Nunca se deve confiar num neo-tonto que é dirigente de um partido social democrata, só pode dar asneira, porque vai escolher o pior das duas ideologias.

  8. tanta entrevista que o homem dá e para quê?? só serve para se enterrar cada vez mais..esta gente devia falar menos e trabalhar mais..deve andar a aprender com o Relvas, que cada vez que abre a boca só diz é asneiras..já para não falar do Álvaro…

  9. Caro Nelson : Sem pretender qualquer conotação , mas A BEM da NAÇÃO (que já não existe…) , SALAZAR nunca saía de S. Bento ; pelo contrário , o Pedrito das doces , apesar de ser Coelho nunca está na toca . Passa o tempo a vender banha de cobra aos papalvos que ainda têm neurónios(ou não os têm) para o ouvir !… Os tugas pelos vistos não elegeram um PM mas sim um Vendedor(+aldrabão)
    de Ilusões …um SEM VERGONHA(o que dizem ser normal neste sitio tão mal frequentado…) que ainda tem coragem de olhar para nós (agora com uma nova cosmética ocular…) .

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