O Insurgente

Abril 17, 2012

VEJA o Passos

Filed under: Diversos,Política,Portugal — Ricardo Lima @ 14:14

A recente entrevista de Passos Coelho à revista VEJA é um marco no que tem sido a intervenção pública do actual primeiro-ministro ao longo dos últimos anos. O registo é o de um liberalismo moderado e bem fundamentado. O diagnóstico não é diferente daquele que muitos de nós têm vindo a fazer ao longo da evolução da crise actual e é de todo semelhante áquele que outros, como Thatcher ou Reagan, faziam nos anos 80 sobre a situação dos países que governavam. Era um puto (e ainda sou) quando ouvi falar em Passos Coelho pela primeira vez. Devia ter  uns 17 anos e o PSD estava naquele clima de guerra civil que agora o PS faz questão de copiar. Já na altura a comunicação social, de longe a longe e sobretudo em notas de rodapé, dava uns ares de que o rapaz poderia ir longe.

E finalmente avançou. Confesso que, simpatizante do PSD à época, não votei em MFL. A análise que fazia do país era a correcta e não sofria da megalomania de Menezes que, em inicios da crise, se propunha a esbanjar umas centenas de milhões a remodelar os bairros sociais por este país fora enquanto dava ares do seu jeito para a bola num qualquer gueto lisboeta. No entanto, a doutora, tendo o diagnóstico certo pecava por ser branda na cura e o seu programa eleitoral era de uma moderação que no máximo atrasaria a vinda do FMI a terras lusitanas. Já o seu rival, PPC, além do carisma que prometia desviar o PSD da sua travessia do deserto,  oferecia soluções bem mais radicais. Falava em privatizações, desregulações e legalizações. E assim foi nos tempos que se seguiram. Até ao confronto com Rangel e Aguiar Branco para a liderança do partido, PPC falava em soluções tão radicais para um país apadrinhado por Marx como Portugal como legalizar as drogas leves ou privatizar a CGD. Mas foi Sol de pouca dura. Já a campanha havia começado e vimo-lo rodeado de todo o tipo de figuras não recomendáveis que um partido catch-em-all como o PSD tinha para oferecer. E as propostas moderavam-se, não fosse o país correr o risco de ter laivos de liberalismo a impedir uma estável sucção do erário público por parte da esfera partidária. Passos venceu. Mas a firmeza com que afirmava querer enfrentar os constantes zigue-zagues do Governo PSD logo se desfez. E o país assistiu a PECs e Orçamentos com a constante benção do PSD. Quando o Governo finalmente caíu, o país estava de restos, perto da ajuda externa e a classe política num descrédito absoluto. Confesso que apesar do meu liberalismo vincado, sou bastante prático. E numas eleições em que Paulo Portas, jogador experiente, apostou tudo no centro, eu apostei num Programa Eleitoral que sendo Social-Democrata roçava bastante algumas soluções de liberalização do país. Acompanhei PPC durante a campanha, ouvi os seus discursos contra o peso do Estado, os impostos, o socialismo. Não fosse a má experiência com o Barrosismo e os seus choques fiscais ou a desconfiança da postura do senhor e diria estar perante uma nova Thatcher.

Mas o PSD ganhou perto da maioria absoluta, formou um Governo de maioria e fez aquilo que todo o primeiro-ministro em Portugal nos habitou a fazer: deitou grande parte das promessas eleitorais na retrete de S. Bento. E até a substileza dispensou em tal acto. Expandiu a carga fiscal muito para além do exigido pela Troika, demonstrou timidez nas privatizações, ficou-se pela metade em grande parte das liberalizações planeadas – fosse no ensino, no mercado laboral ou no arrendamento – e deu carta branca a corporativistas como Assunção Cristas, socialistas como Paula Teixeira da Cruz ou meros dementes banhados num paternalismo fascizante. como Fernando Leal da Costa, Secretário de Estado da Saúde. O discurso mudou e a sinceridade esvaíu-se quando o ouvimos dizer, pouco depois de tomar posse, que acabava de descobrir que o estado das contas públicas era bem pior que o esperado, depois de ter passado uma campanha a insistir que o estado das contas públicas era bem pior que o esperado. E adiante. Mas a recente entrevista à Veja oferece-nos um registo diferente. Um Passos como o conhecemos antes de chegar aos pódios da política. O diagnóstico é correcto e as ideias são as necessárias.

Mas o meu maior receio não é da incapacidade de diagnosticar os problemas do país. Essa o PSD e o CDS já nos demonstraram de há alguns anos para cá. O que me assusta é a aparente incapacidade por parte dos actuais governantes de procederem a uma potente cura para a doença que vem corroendo o país, das finanças à educação, da segurança ao emprego: o Socialismo. E se, por mais discursos bonitos que se façam, nada de pouco moderado se fizer para contornar a espiral de recessão e endividamente que o país enfrenta,  estaremos condenados a, a posteriori, recordar um Primeiro-Ministro que discursou como uma Thatcher, mas governou como um Blair.

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11 Comentários »

  1. Ainda há quem acredite em palavras?

    Comentário por lucklucky — Abril 17, 2012 @ 14:18

  2. Precisamente.

    Comentário por Ricardo Lima — Abril 17, 2012 @ 14:19

  3. 1.-O país ainda pode ter uma escola primária gratuita onde ler, contar, interpretar sejam realmente ensinados?
    2.-O país ainda pode ter 5 hospitais públicos gratuitos?
    3.-O país ainda pode ter 2 000 000 de pensionistas ou reformados?
    4.-O país ainda pode ter 3 000 advogados à borla a tropeçar pela justiça?
    5.-O país ainda pode ter 5000 militares?
    6.O país ainda pode ter 2 000 policias?
    7.-O país ainda pode ter 230 000 funcionários?
    8.-O país ainda pode ter 35 autarquias?
    5.-O país ainda pode ter isto tudo com crescimento inferior a 1,75% até 2020?

    Talvez seja melhor os nadólogos de barbicha e tambor, “piercing e colar às flores” de olhar esgazeado, irem fazer concertos ao Optimus Alive para Nairobi…AQUI NÃO HÁ GUITO

    Comentário por Sebastien De Vries — Abril 17, 2012 @ 14:27

  4. O nosso sistema eleitoral não está feito para que os Governos tenham que agradar aos eleitores mas sim às bases do partido, enquanto assim for o destino deste país será este, uma espécie de Socialismo para o partido, em que o Estado mantém a sua influência na economia para poder garantir aos partidos uma quantidade suficiente de tachos. Sem mudar o sistema eleitoral, na minha opinião, não vamos lá.

    Comentário por DavC — Abril 17, 2012 @ 14:31

  5. PPC . MUDAR (de vida …)
    Com esta fotografia já não me enganas (sic) Doces .Começou com Doces e acaba com AMARGOS .
    E ainda há quem acredite em aldrabões !…
    PPCanalha !….Diz-me com quem andas …
    PECs e OGEs com a benção do PSD ( e de Cavaco para obter um segundo mandato pois no primeiro teve menos votos do que aqueles que votaram para ele não ser PR …)
    Democracia com aldrabões nunca será Democracia . Nem já o Sporting escapa ! Fujam …
    Isto não é um País , mas sim um SITIO muito mal frequentado onde existe um pseudo Povo que não se governa nem se deixa governar !…
    Mas que ousadia comparar PPC a Tatcher e a Blair !…
    Curar uma doença “crónica” ! Sonhador …Já se aproxima da dezena de vezes que esta desgraça nos acontece …E não vai ficar por aqui … Infelizmente já não há tomates nem ovos podres.

    Comentário por alienigena — Abril 17, 2012 @ 14:51

  6. Quando este governo dialoga eu vou sempre ler o memorando da troika.

    E está à vista o falhanço do governo. Aliás a maior parte destas personagens andam erradas à 38 anos, uma cambada de marretas.

    Eu sou mais troika!

    Cumpram o que está lá escrito palhaços.

    vivendi-pt.blogspot.com

    Comentário por vivendipt — Abril 17, 2012 @ 15:07

  7. esse Passos ainda não se demitiu!!?? oito meses e a renegociação das parcerias publica-privadas ainda nem começou…e não acerta uma no orçamento…o que no actual contexto económico, é chumbo claro !.

    Comentário por tric — Abril 17, 2012 @ 16:41

  8. Por falar em socialismo, sempre que ouço, ou leio, alguém falar em mudar mentalidades, penso sempre em “campos de reeducação”. Por falar em socialismo…

    Comentário por Ricardo Monteiro — Abril 17, 2012 @ 16:49

  9. Excelente artigo.

    Nunca se deve confiar num neo-tonto que é dirigente de um partido social democrata, só pode dar asneira, porque vai escolher o pior das duas ideologias.

    Comentário por Paulo Pereira — Abril 17, 2012 @ 17:21

  10. tanta entrevista que o homem dá e para quê?? só serve para se enterrar cada vez mais..esta gente devia falar menos e trabalhar mais..deve andar a aprender com o Relvas, que cada vez que abre a boca só diz é asneiras..já para não falar do Álvaro…

    Comentário por nelson — Abril 18, 2012 @ 02:12

  11. Caro Nelson : Sem pretender qualquer conotação , mas A BEM da NAÇÃO (que já não existe…) , SALAZAR nunca saía de S. Bento ; pelo contrário , o Pedrito das doces , apesar de ser Coelho nunca está na toca . Passa o tempo a vender banha de cobra aos papalvos que ainda têm neurónios(ou não os têm) para o ouvir !… Os tugas pelos vistos não elegeram um PM mas sim um Vendedor(+aldrabão)
    de Ilusões …um SEM VERGONHA(o que dizem ser normal neste sitio tão mal frequentado…) que ainda tem coragem de olhar para nós (agora com uma nova cosmética ocular…) .

    Comentário por Alienigena — Abril 18, 2012 @ 11:01


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