um belo negócio

O aumento de capital ontem anunciado pelo BES, ou seja, cerca de mil milhões de euros ao preço de 39,5 cêntimos, representa um “haircut” de 66% face à cotação de fecho da véspera (1,167). É este, portanto, o preço implícito que está associado ao facto de o BES não recorrer à linha de recapitalização bancária com dinheiro público. Em face deste “haircut” implícito, os títulos abriram hoje em bolsa exibindo uma queda de 20% face à véspera, a mais baixa capitalização bolsista de sempre atingido pelo banco. Enfim, dado que a oferta será repartida entre os accionistas de referência e um consórcio bancário que tratará de colocar a outra metade junto de outros grandes institucionais, os pequenos accionistas é que não devem estar nada satisfeitos, nomeadamente aqueles que, ainda há meses, terão trocado perpétuas por acções…

About these ads

7 pensamentos em “um belo negócio

  1. A irrealidade do sistema monetário e a prova de que os próprios reguladores e eu diria até os próprios banqueiros percebem mal o próprio sistema em que operam (de resto, a própria constatação das recorrentes bolhas/crises bancárias provaria isso de qualquer forma) pode ser visualizada nos aumentos de capital dos bancos onde estes oferecem incentivos para que os clientes ou outros participem no aumento de capital com o recurso ao crédito do próprio banco.

    Eu já referi este assunto várias vezes. Aqui vai outra vez:

    Banco anuncia aumento de capital e oferece crédito para accionistas (estas operações foram públicas e por isso com o conhecimento e consentimento dos reguladores)

    Vamos ver o que se opera ao nível do balanço partindo de uma situação inicial:

    Activo: 1000
    Passivo: 900
    Capital. 100

    Concessão de crédito pelo Banco aos futuros subscritores de capital

    Activo: 1000 + 100 = 1 100 (100 é novo crédito criado “do nada”)
    Passivo: 900 +100 = 1000 (100 é dinheiro criado “do nada” e depositado na conta DO dos subscritores: aqui se iniciam as bolhas porque a Tx Juro é artificialmente baixa)
    Capital: 100

    Realização do aumento de capital

    Activo: 1000 +100 = 1 100
    Passivo: 900 + (100 – 100) = 900, a conta de DOs é debitada pelo aumento de capital
    Capital: 100 +100 = 200 o capital aumenta por contrapartida do débito das DO´s dos subscritores (que tinham sido creditadas pelo crédito concedido)

    Situação Final:

    Nada em termos reais se passou, dinheiro criado do nada serviu para aumentar o activo (crédito concedido) e o capital foi aumentado e para cúmulo, os rácios de solvabilidade aumentaram:

    Rácio inicial = Capital / Activo = 100 / 1000 = 10%

    Rácio final = 200/ 1100 = 18%

    Se alguém quiser por em causa o raciocínio faça o favor.

  2. Admira-me como é que o sistema financeiro, o regulador, etc permitem que se faça uma manobra destas, na qual claramente os pequenos acionistas são roubados. É caso para uma pessoa perder completamente a confiança no mercado acionista. Então eu vou investir em ações quando sei que amanhã poderei ser roubado desta forma?

  3. “Então eu vou investir em ações quando sei que amanhã poderei ser roubado desta forma?”

    Negociar em acções é assumir um risco, meu caro.
    Como tudo na vida.
    Uns safam-se bem, outros não.

  4. “O Espírito Santo Financial Group anunciou hoje que vai aumentar o capital em 400 milhões de euros junto de investidores institucionais europeus para reforçar os rácios de capital e participar no aumento de capital do BES.”

    Não estou a dizer que seja o caso, mas era bom saber se parte deste aumento de capital da Holding é efectuado com crédito directo ou indirecto proporcionado pelo BES. Caso em que o efeito acima descrito operaria igualmente.

  5. Quem sabe, sabe, e o BES é que sabe.

    O Banco Espírito Santo é da velha aristocracia bancária europeia, veste bem com todo o tipo de regimes e políticos, está-lhe no sangue.

    É das poucas instituições nacionais que é centenária e o BES esteve sempre ao longo dos tempos no centro de decisão nacional nas opções estratégicas financeiras.

    Agora parece que ainda vai pagar cara a brincadeira, caso não se queira a economia portuguesa no contínuo definhar por longos anos. Falo da dívida monstruosa, pública e privada, que poderá ter um desfecho estrondoso para a banca.

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s