Causa e Consequência

Escreve o Jornal de Negócios que «Programa da troika faz salários reais recuarem quase 20 anos».

Quem ler o artigo fica com a ideia de que o empobrecimento sofrido pela população portuguesa foi causado pelo programa da troika. Nada mais errado. O programa da troika é a consequência de muitos anos de endividamento descontrolado usado para pagar consumos e investimentos improdutivos. Já era altura dos “cáinesianos” cá do burgo perceberem um importante facto da vida: Torrar dinheiro leva ao empobrecimento.

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12 pensamentos em “Causa e Consequência

  1. O problema é que os que ficaram (ainda mais) pobres não são os que torraram o dinheiro. Esses não são afectados pela austeridade.

    Como diz o Fernando Sobral no Jornal de Negócios de hoje: “o corte nos subsídios será utilizado para pagar as rendas das PPP”.

    Concluindo, a pobreza é consequência dos “consumos e investimentos improdutivos”, como diz o rapaz que publicou esta posta, e também do programa da troika/governo que fez recair a austeridade sobre os grupos mais pobres. Não existem alternativas, como se sabe. Denunciar contratos com grandes grupos seria por em causa os direitos de propriedade e isso não se pode fazer. São direitos sacrosantos do indivíduo (pelo menos dalguns deles) e o investimento e a prosperidade futuras poderiam ficar comprometidos. Se alguém mandasse os gajos passear ainda o desemprego chegava aos 15%.

    É preciso uma melhor redistribuição da pobreza …

  2. Será por acaso que foi há 20 anos que a taxa de câmbio do escudo foi fixada contras as restantes moedas do Euro ?

    Keynes não advogava investimentos improdutivos, nem um regime de câmbios fixos .

  3. “Como diz o Fernando Sobral no Jornal de Negócios de hoje: “o corte nos subsídios será utilizado para pagar as rendas das PPP”.”

    O Fernando Sobral também devia saber que a maior parte das PPP ainda não começeram a ser pagas porque os governantes, convenientrmente, empurraram a maior parte dos pagamentos para fora do periodo eleitoral.
    http://ppplusofonia.blogspot.pt/2011_10_01_archive.html

    E que para além das PPP temos toda o “monstro” estatal para pagar E não é nada pouco

  4. «O problema é que os que ficaram (ainda mais) pobres não são os que torraram o dinheiro. Esses não são afectados pela austeridade.»

    Quem torrou o dinheiro foi o estado. O estado limitou-se a seguir as “políticas activas de investimento” e intervenção que defendem todos os partidos que se sentam na AR. Pode dizer-se que o estado fez o que os eleitores quiseram; ou pelo menos que os eleitores não se opuseram.

    Nestas coisas, quando se torra dinheiro, há quase sempre terceiros que ganham. Alguns dos parceiros nessas PPPs, por exemplo. Mas isso não desculpa quem torrou.

  5. «Keynes não advogava investimentos improdutivos, nem um regime de câmbios fixos .»

    Pois não. Mesmo não concordando com muitas das ideias de Keynes, há que reconhecer que o próprio ficaria horrorizado com os disparates que se fazem em seu nome.

  6. A respeito dos investimentos improdutivos, não sei se não advogaria – penso que a teoria dele era mesmo que a maneira de sair de uma depressão era o Estado ter despesas maiores que as receitas em impostos, logo imagino que uma despesa improdutiva, como pagar ao José para cavar buracos e ao Francisco para os tapar, também fosse boa numa perspectiva keynesiana (ou, pelo menos, melhor do que despesa nenhuma); creio que a única razão porque Keynes preferia os investimentos produtivos era simplesmente por uma questão de matar dois coelhos de uma cajadada – além do estimulo à economia que qualquer deficit geraria, tinha-se a vantagem adicional de no fim até se ficar com uma obra útil.

    A respeito dos cambios fixos, imagino que não tenham sido feitos em nome dele (por outro lado, atendendo que ele foi um dos ideólogos de Bretton-Woods, dá-me a ideia que não seria absolutamente contra).

  7. Do ponto de vista de Keynes não me parece muito relevante se os investimentos são produtivos ou não, desde que criem emprego. Até poderia um investimento improdutivo ser melhor do que um produtivo que, por exemplo, melhore a eficiência de uma unidade de produção e permita reduzir pessoal, já que este no curto prazo aumenta o desemprego e cria uma pressão para a baixa de preços. Note-se que estou a falar do Keynes do curto prazo, quanto ao longo-prazo não tenho muito conhecimento sobre as suas ideias.

  8. Keynes advogava que numa recessão o estado ideve investir em infraestruturas recorrendo ao deficit e que se mesmo assim o desemprego continuasse alto então deveriam ser criados programas de emprego local.

    Mas como percebia exactamente que parte do rendimento extra seria usado em importações então advogava um ajuste cambial discreto para diminuir a propensão para as importações. Foi isto que foi feito no Reino Unido nos anos 30.

    O regime de Bretton-Woods foi impostos pelos EUA. Keynes advogou a criação do sistema BANCOR que sancionaria os paises com superavits comerciais cronicos.

    “The bancor was a supranational currency that John Maynard Keynes and E. F. Schumacher[1] conceptualised in the years 1940-42 and which the United Kingdom proposed to introduce after the Second World War. This newly created supranational currency would then be used in international trade as a unit of account within a multilateral barter clearing system – the International Clearing Union – which would also have to be founded.
    John Maynard Keynes proposed an explanation for the ineffectiveness of monetary policy to stem the depression, as well as a nonmonetary interpretation of the depression, and finally an alternative to a monetary policy for meeting the depression. Keynes believed that in times of heavy unemployment, interest rates could not be lowered by monetary policies.
    The bancor was to be backed by barter and its value expressed in weight of gold. However, this British proposal of introducing a supranational currency could not prevail against the interests of the United States, which at the Bretton Woods conference established the U.S. dollar as world key currency.”

    http://en.wikipedia.org/wiki/Bancor

    Ou seja , num regime de cambios fixos irreversiveis (ao contrário de Brenton-Woods que permitia ajustes discretos) qualquer investimento publico deve ter em conta a sua influência na balança corrente, quer directamente quer pelo aumento do consumo em produtos importados.

    Ora desde 1992, ano em que se fixou o cambio do escudo, o investimento publico não teve em conta a balança corrente.

  9. Gestores de Empresas, por definição, fazem o possível, e o impossível, para atrair clientes, aumentarem o volume de vendas, a facturação, sob pena de os accionistas os substituirem por quem dê melhor conta do recado.

    Os gestores das Auto-estradas em Portugal, no caso vertente ex-PPPs, contrariam afincadamente o
    potencial fluxo de clientes durante todo o ano -com preços de portagens incomportáveis, não
    apelativos, e, para clientes sazonais -Páscoa, Verão, Natal- organizam eficientes bloqueios conseguindo assim, esperam, evitar o uso das Auto-estradas e as consequêntes despesas de manutenção. Gestão habilidosa uma vez que o (principesco) lucro está garantido. Tudo bem. Afinal isto “sem os chatos dos Clientes é porreiro pá”. Não dá trabalho nenhum. Aliás estão a conseguir reduções de tráfego em cerca de 50%!. Definitivamente um caso de sucesso.

    Alguém sabe explicar porque é que na definição de PPP consta: “… projectos de investimento de interesse público…”?. Interesse público?
    E, por essa razão, ainda com direito a facilidades financeiras e fiscais, entre outras?.
    Não teria sido mais simples (KISS) contratualizar, com “o estado”, uma rendasita?

  10. Pingback: A culpa é sempre dos outros « O Insurgente

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