como a mulher de césar

“O deputado centrista Ribeiro e Castro furou esta manhã a disciplina de voto da sua bancada e votou contra a revisão do Código Laboral proposta pelo Governo de coligação PSD/CDS-PP. A justificação que apresentou na sua declaração de voto reside na eliminação do feriado de 1 de Dezembro, dia da restauração da independência nacional (…) “Não violei o mandato para o qual fui eleito e o mais importante é que não se elimine o 1º de Dezembro”, afirmou.”, no Público.

O 1º de Dezembro….pois. A declaração de Ribeiro e Castro faz-me recuar no tempo e recordar uma pequena, mas acalorada, discussão que com ele mantive há uns anos numa visita a Bruxelas. Inserido num curso que na altura estava a frequentar, o programa terminou com uma viagem à capital belga para conversas com os eurodeputados portugueses e também com o excelso Durão Barroso, entre outras actividades. Recordo-me que chegámos numa 4ª feira ao final do dia e que as conversas estavam marcadas para o dia seguinte, 5ª feira. Bom, quanto a Durão Barroso, já então Presidente da Comissão Europeia, a sua excelsa agenda ditou o cancelamento de última hora da sua prelecção. Quanto aos eurodeputados portugueses, fomos agraciados com a presença de Elisa Ferreira, Ilda Figueiredo e o supra citado Ribeiro e Castro. Já os outros que também estavam apalavrados, Miguel Portas e Carlos Coelho, meteram-se no avião – afinal já era 5ª feira (!) -, regressando a Lisboa sem terem tido a simpatia de nos receberem.

A impressão com que fiquei de Bruxelas, e do trabalho dos nossos eurodeputados, foi que ali quem quisesse fazer muito fazia e quem nada quisesse fazer nada fazia. Pela positiva, fiquei muito bem impressionado com Elisa Ferreira: enérgica, em cima dos dossiers, competente e entusiasmada com o seu trabalho em representação dos portugueses. Pela negativa, fiquei mal impressionado com Ilda Figueiredo: despachou-nos em quinze minutos com uma mão cheia de nada. Quanto a Ribeiro e Castro, o primeiro impacto foi positivo, mas o segundo não. Primeiro, Ribeiro e Castro é, sem dúvida, um cavalheiro. Mas, mal começou a sua apresentação – numa sala oval que por vezes vemos na TV -, logo percebi que tinha as suas prioridades trocadas. Afinal, a sua luta, enquanto eurodeputado, não consistia nas importantes questões sectoriais (em indústrias importantes para nós) que na altura se discutiam em Bruxelas e na necessidade de as divulgar em Portugal junto dos portugueses e das empresas. Não, a sua luta era a implantação da língua portuguesa enquanto língua de trabalho da União Europeia – que, para este fim, adopta somente o inglês, o francês e o alemão. Fiquei estupefacto. E protestei. Protestei veementemente! Enfim, talvez até de forma excessiva pelo que, mais tarde, ao jantar, onde Ribeiro e Castro amavelmente voltou a marcar presença, tive oportunidade, à boa maneira portuguesa, de amenizar a polémica, coisa que o eurodeputado, de forma cordial e cavalheiresca, não me levou a mal.

Tudo isto para dizer o seguinte: neste momento histórico de descrédito da política e dos políticos, é absolutamente crucial que estes saibam dar prioridade aos assuntos e que sejam coerentes. Que sejam e pareçam sérios. Por isso, rejeitar uma lei do trabalho, que é uma lei bem pensada pelo Governo, sob o argumento de que esta elimina um feriado ao qual a maioria dos portugueses pouco associam – afinal, o dia que a esmagadora maioria celebra como dia de Portugal é o 10 de Junho -, é criar uma polémica sem razão de ser. Ora, tendo tido a oportunidade de travar (breve) contacto com o Dr. Ribeiro e Castro estou razoavelmente convicto de que ele acredita mesmo nessa batalha do 1º de Dezembro, mas infelizmente, para aqueles que com ele nunca tiveram qualquer contacto, a mensagem que transparece da sua justificação é uma de hipocrisia e de cinismo político. Puxa, não havia necessidade…

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5 pensamentos em “como a mulher de césar

  1. O que eu não consigo perceber é o que fazem a abolição ou criação de feriados dentro de uma proposta de lei laboral.

  2. 3 – Os feriados (para os trabalhadores do sector privado*) estão definidos no Código do Trabalho (e, se pensarmos bem, onde mais poderiam estar?), logo a abolição ou a criação de feriados tem que vir numa alteração ao código do trabalho

    * os feriados dos funcionários públicos estão definidos em leis diferentes, de forma que durante alguns anos a Função Pública teve menos um feriado (que calha sempre ao domingo, portano também não fazia grande diferença) que o regime privado

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