No Fio da Navalha

O meu artigo deste sábado para o jornal i.

A Dama de Ferro

Se Margaret Thatcher nos avisou quanto aos inconvenientes da moeda única, como é que a crise do euro põe em causa o seu legado?

“Where there is discord, may we bring harmony. Where there is error, may we bring truth. Where there is doubt, may we bring faith. And where there is despair, may we bring hope.”

Margaret Thatcher, citando S. Francisco de Assis, no dia da sua tomada de posse.

Quando Margaret Thatcher chegou ao poder, em 1979, o Reino Unido andava nas ruas da amargura. Tudo devido à inflação, a uma economia estagnada, a um tecido empresarial ultrapassado, a demasiadas empresas públicas e a um excessivo poder dos sindicatos. Um desastre resultante das políticas socialistas que visaram a colectivização dos meios de produção e foram levadas à prática durante as décadas de 50 e 60. Thatcher reconhecia esta realidade, sabia que a economia não crescia devido ao peso do Estado e foi citando S. Francisco de Assis, sobre a harmonia, a humildade e a esperança que entrou pela primeira vez no número 10 de Downing Street. Não temeu as dificuldades e não receou o julgamento do voto. Thatcher tinha noção do que tinha de ser feito. Fê-lo, apesar de todas as vozes contra. De todos os pedidos de que voltasse atrás. De todas as dificuldades que a sua política implicava para os britânicos. Pode parecer antagónica a referência a S. Francisco de Assis, mas apenas alguém capaz de perceber o seu conteúdo tem a força interior para levar a cabo a empreitada que Thatcher se propôs.

A ex-primeira-ministra britânica voltou a estar na boca do mundo com o filme que valeu o Óscar a Meryl Streep. E também devido à crise que vivemos, que tantos dizem pôr em causa o mundo que Thatcher ajudou a criar. Ora é aqui que deparamos com algo que não pode estar certo. Vamos por partes e comecemos com uma argumentação de mera lógica: se foi o fim das políticas estatizantes dos anos 50 e 60 que permitiu aos britânicos viver melhor, como é que a crise financeira do século xxi explica o fracasso da governação de Thatcher, 21 anos depois de esta se ter ido embora? Como é que a crise do euro justifica as medidas estatizantes que empobreceram o Reino Unido e legitima o que falhou no passado? Não há resposta para esta argumentação lógica. O que não impede que se continue a carregar na mesma tecla: a crise da dívida pública é um falhanço da governação de Thatcher.

A semana passada alertei para a necessidade de lermos com atenção os manuais da história norte-americana antes de concluirmos pela decadência daquele país. Volto à carga, desta vez sobre a governação da Dama de Ferro, entre 1979 e 1990. Thatcher não só reduziu a despesa pública, evitando os erros cometidos pelos governos que se lhe seguiram no Reino Unindo e na Europa, como sempre alertou para o perigo da moeda única. Se formos honestos, lembrar-nos-emos das fortes críticas que Thatcher teceu ao projecto da moeda única, nunca aceitando a adesão do seu país. Sempre avisou que uma moeda europeia não teria em consideração os diferentes níveis de produtividade dos países, as suas diversas culturas, as diferentes formas como o trabalho é encarado por cada povo. Preveniu que uma moeda única pressupunha transferir mais soberania para a Alemanha, pondo em risco as democracias. Alertou-nos, a quem a queria ouvir, para o que nos está a acontecer agora. Na altura, em que se sabia que o euro traria dinheiro barato e uma longa vida política aos governantes de então, ninguém quis saber. Fez-se aquilo a que nos fomos habituando: atirou-se o problema para o futuro. Para os outros, que somos nós. Thatcher foi apelidada de teimosa, obstinada, inflexível e caprichosa. Sabemos agora porquê. Mas em vez de reconhecermos que estava certa, preferimos acatar as justificações dos que não a quiseram ouvir e erraram. Continuamos a fechar os olhos. Talvez porque abri-los implica admitir o erro. E se individualmente consentir num erro é difícil, reconhecê-lo em colectividade é impossível. Até nisso lhe damos razão.

5 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. “O que não impede que se continue a carregar na mesma tecla: a crise da dívida pública é um falhanço da governação de Thatcher”

    Quem é que diz isso?

    Sim, há muita gente a dizer que a crise do sistema bancário em 2008 foi culpa das políticas de Thatcher – mas nuna vi em lado nenhum tal argumento feito para a actual crise das dívidas (nem que seja porque o Reino Unido tem escapado a essa crise).

  2. O grande legado de Thatcher foram as privatizações , no resto fez asneiras, como os juros elevados e o aumento ou manutenção de impostos altos sobre as empresas.

    Os juros altos que levaram também à valorização da libra tornaram a industria do RU não competitiva e ao aumento de desemprego, e levando o RU a ter um deficit corrente cronico.

    Beneficiou da produção de petroleo e gas natural, que atingiu um pico durante os seus mandatos.

    Teve razão ao dizer que a criação de uma moeda única na U.E. é uma asneira, dadas as divergencias entre as economias e culturas.

  3. o seu livro escrito em 1994 de memórias vale a pena ser lido. A determinada altura ela escreve sobre a moeda única ” é um erro tremendo com consequencias nefastas para os países periféricos do sul da europa, como por exemplo….a Grécia “. Isto foi escrito em 1994 !!!!

  4. “Teve razão ao dizer que a criação de uma moeda única na U.E. é uma asneira, dadas as divergencias entre as economias e culturas”.

    Margaret Thacher dixit algo assim em 1990?
    Paresce que algo há de anhadido e da sua propia colleita porque o que ela previu foi sempre uma perda para UK em todolos sentidos. E de poderes sobre todo ,economico e político -federal em que a UK sempre ia sair perdendo.Inclusive (valorava ela um trasvase de imigraçao dos paises mais pobres , os termos PIGS naceriam depois, para os mais ricos, como a Inglaterra o que nao ficava dentro da sua perspectiva da Uniao Europa em modo algúm:
    .
    Mr. Terence Higgins (Worthing vai explicar que, por sua vez causaria o desemprego generalizado, o que provavelmente existiria em uma base permanente, e desequilíbrios financeiros muito sério? ”
    .
    O Primeiro-Ministro (Thatcher) : “Sim, eu concordo com o meu querido amigo direito ..Totalmente Seria fazer exatamente isso. Isso significaria também que teria que ser transferências de dinheiro de um país enorme para outro, nos custaria muito…. de dinheiro. Uma razão pela qual alguns dos países mais pobres é que eles querem que ele teria grandes essas transferências de dinheiro. Estamos tentando contestar isso. Se temos uma moeda única ou uma moeda bloqueado, vêm as diferenças quanto ao desemprego ou substancialmente Movimentos de pessoas VAST de um país para outro. Muitas pessoas que falam de uma moeda única STI completo nunca considerou Implicações “.

    Sr. Tony Benn (Chesterfield): “É o primeiro-ministro o que estamos cientes de que não é realmente Discutindo Gestão Econômica, mas o futuro conjunto das relações entre este país ea Europa Esta questão não é melhor expressa na linguagem do século 19 ou patriótico? Sobre a linguagem emotiva em que o desenho é sobre a moeda. ”

    O Primeiro-Ministro:..(Thacher) “Eu acho que eu iria colocá-lo apenas um pouco diferente da hon direito Gentleman, embora eu reconhecer algumas da força de alguns dos pontos que eu tenho que faz quando as propostas Delors para a carne da União Económica e Monetária exclui , foi dito pelo meu querido direita imediatamente. amigo [Nigel Lawson] o então Chanceler do Tesouro Que eu não era realmente a todos os aspectos de a política monetária, mas de uma porta traseira para uma Europa federal, tomando muitos poderes democráticos longe de órgãos democraticamente eleitos e dando aos não-eleitos corpos. eu acreditam fervorosamente que isso é verdade, razão pela qual eu não tenho nada para fazer Marshall com sua definição da União Económica e Monetária

  5. Como o traductor nao é tao assim fiavel fiquem (quando menos) com a ultima frase que é bastante explicativa sob a postura da dona Thacher:

    -razão pela qual eu não tenho nada para fazer Marshall com sua definição da União Económica e Monetária

    Nao sei as razoes de porque esta cita da dona nao se conhece demasiado e sim outras menos comestiveis…

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