Na última semana veio a público no Reino Unido a notícia de que um casal ideologicamente progressista ocultou o sexo do seu filho para o poder educar como sexualmente neutro. Aos 5 anos de idade, os pais finalmente revelaram à sociedade que a criança era de facto um rapaz e que até hoje o tinham tratado como se não tivesse sexo, vestindo-o alternadamente como rapariga e como rapaz, entre outras coisas. A mensagem que eles quiseram passar à sociedade é simples: o género sexual é uma construção social e não biológica.
Para muitos este episódio parece uma piada; mas é apenas a hipérbole de algo mais profundo: na realidade esconde uma ideologia base que tem suportado muitas das reivindicações políticas: a crença na tábua rasa. Esta crença baseia-se na ideia de que os seres humanos são essencialmente produtos da socialização/educação e que não têm instintos, capacidades ou predisposições comportamentais inatas.
Apesar dos desenvolvimentos no campo da genética comportamental ou da psicologia evolutiva revelarem cada vez mais o contrário, isto é, que somos em larga medida produto da nossa biologia, o pensamento popular dominante ocidental assenta na falácia da tábua rasa. Mas porquê? A resposta é que, em termos culturais, o marxismo foi um vencedor.
Devido aos maus incentivos económicos que postula, o marxismo económico rapidamente se revelou caótico e incompatível com tendências básicas da natureza humana. Porém, o igualitarismo radical que Marx postulou perdura em termos culturais e tornou-se vitorioso. Esse igualitarismo baseia-se na falácia da tábua rasa; ou seja, na crença rousseauniana do bom selvagem sem predisposições inatas que é posteriormente corrompido pela sociedade e torna-se mau, ou na tábua rasa lockeana que vê igualmente a mente à nascença como estando a zero, isto é, desprovida de informação comportamental inata. Sob esta luz, é precisamente porque o homem é uma tábua rasa que os comunistas podem construir, através de engenharia social, o novo ser humano “socialista” do futuro.
Em boa parte, esta actual supremacia do marxismo cultural tem a sua origem nos departamentos universitários de humanidades e ciências sociais, onde imperam os estudos feministas, de género, de desenvolvimento, de cultura, pós modernistas, entre outros. Estas elites cognitivas lançam memes constantes para moldar a opinião popular e aconselham regularmente políticas públicas. Mas vão mais longe, montam igualmente uma polícia do pensamento (também apelidada de “politicamente correcto”) que está sempre pronta a atacar com processos legais e descrédito intelectual sempre que alguém conclui que existem profundas diferenças comportamentais inatas entre grupos de seres humanos, ou entre indivíduos em termos gerais.
Para além de advogarem a redistribuição de riqueza, estas pessoas são as que estão por trás dos grupos de pressão que advogam mais educação (pública, claro) para resolver qualquer problema social através do modelar/doutrinar do homem, ou por trás dos defensores das quotas na sociedade, porque claro, segundo dizem, quaisquer diferenças sociais são sempre o produto de discriminação e não resultado das características únicas de cada indivíduo ou dos vários grupos sociais. São igualmente as mesmas por trás da promoção do multiculturalismo e da integração forçada que está a ser efectuada contra a vontade dos indígenas das nações europeias. Advogam amnistias, não só para imigrantes ilegais, mas também para criminosos com base na ideia de que com forte (re)educação e apoio estatal se escreve algo completamente diferente nas alegadas “tábuas rasas” destes indivíduos; ideia, aliás, satirizada brilhantemente por Stanley Kubrick na sua “Laranja Mecânica”.
Contudo, alguns teóricos políticos igualitaristas concedem que existem diferenças de capacidade inatas entre indivíduos (e.g. John Rawls, Ronald Dworkin…). Assim, como igualitaristas da sorte (luck egalitarians), defendem que a sociedade deve funcionar de modo a mitigar ou mesmo anular essas diferenças que seriam resultado natural das nossas desigualdades genéticas. Paradoxalmente, apesar de rejeitarem a falácia da tábua rasa acabam por a reforçar, pois acreditam que cada indivíduo pode agir contra os seus próprios interesses e pré-disposições numa base regular, de forma a atingir um ideal igualitário. Esquecem-se que os humanos têm uma autonomia reprodutiva descentralizada e não funcionam como formigas estéreis cuja única forma de replicação genética é trabalhar em prol da mãe reprodutora; ou tal como o sociobiólogo E.O. Wilson disse: “Karl Marx estava correcto, o socialismo funciona, mas ele aplicou-o à espécie errada” (“Karl Marx was right, socialism works, it is just that he had the wrong species”).
O marxismo económico falhou num relativo curto espaço de tempo, como não podia deixar de ser, e este marxismo cultural com base na tábua rasa irá falhar da mesma forma, mas calculo que irá levar bastante mais tempo até que se perceba que ele está por trás da maior parte dos erros a que assistimos politicamente.
Em relação ao rapaz de 5 anos que finalmente se pode revelar como tal: parabéns rapaz, se quiseres, já podes tirar o tutu.
Visionamento recomendado: Steven Pinker: The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature
Não sendo um particular defensor do marxismo pergunto: o que é que esta parvoíce tem a ver com o marxismo?
Comentário por xico — Janeiro 26, 2012 @ 19:41
“um casal ideologicamente progressista ocultou o sexo do seu filho para o poder educar como sexualmente neutro. ”
Ideologicamente progressista não, ideologicamente cretino!
Para já não vejo onde é que está o progressismo de se esconder informação vital a quem quer que seja.
O que vejo aqui é um par de cretinos fascitóides a enganar uma pobre criança negando-lhe uma informação vital para o seu desenvolvimento, a de que é um rapaz!
Comentário por O Raio — Janeiro 26, 2012 @ 20:16
Ahhh! E, claro, o que é que esta parvoíce tem a ver com marxismo como escreveu o xico?
Comentário por O Raio — Janeiro 26, 2012 @ 20:21
Admirável mundo novo…
Comentário por André Miguel — Janeiro 26, 2012 @ 20:34
O que é que isto não tem a ver com marxismo? O marxismo abraça visões sobre a justiça que não têm nada a ver com a evolução humana. Mas isso não tem a ver só com o Marxismo, mas com qualquer ideologia que tenta desenhar o futuro da sociedade, partindo ou não da aceitação da tábua rasa.
Comentário por tiago — Janeiro 26, 2012 @ 20:34
“o que é que esta parvoíce tem a ver com o marxismo?”
Tem tudo a ver com o marxismo. Aliás, Karl Marx era mulher, mas deixou crescer as barbas para mostrar que homens e mulheres era tudo a mesma coisa.
Comentário por LA-C — Janeiro 26, 2012 @ 21:12
No mundo marxista todos são iguais e não há divisão do trabalho. O génio dos cárpatos tanto punha as pessoas a trabalhar um ano na siderurgia como o seguinte na agricultura.
O irmão nazista nos campos de extermínio e nos gulags comunas rapavam os cabelos a todos os prisioneiros, retirava-lhes o nome e vestiam-nos todos de igual: é o anulamento da identidade. São aquilo a que eles chamam “massas”: moles de gente sem vontade própria e marcha sincronizada nas poderosas demonstrações de militares em posturas agressivas da Praça Vermelha e de Pyongyang..
Tem tudo a ver … é o anulamento do específico em cada ser humano.
Comentário por A. R — Janeiro 26, 2012 @ 21:53
Excelente post, ainda que se tenha que reconhecer que o normal é que os os próprios,talvez por serem os originais, tendem a não se reconhecer nas loucuras dos seguidores, jmm
Comentário por José Manuel Moreira — Janeiro 26, 2012 @ 22:26
Ou como outro filósofo do mesmo nível do Filipe Faria referiu um dia:
“I see marxists all the time. They’re everywhere.”
Comentário por Palamedes — Janeiro 26, 2012 @ 22:51
“o que é que esta parvoíce tem a ver com o marxismo”
Em Portugal não, mas na AL, principalmente no Brasil, as pessoas que praticam esse tipo de parvoíces, como alguém disse, são os mesmos que advogam marxismo, leninismo etc.
Ou acham que as forças de esquerda que andam por aí são iguais ao PCP, tradicionais representantes do marxismo em Portugal?
Comentário por Cfe — Janeiro 27, 2012 @ 00:37
Marx não inventou nada que não existisse já no pensamento e nas mentalidades do seu tempo.
Mas é verdade que, ao longo de décadas e décadas de acção politica e de intervenção nas escolas, nos mass média, na produção cultural, etc, o marxismo acabou por marcar sériamente uma parte significativa de todos nós, talvez mesmo todos nós. Desde logo, os nossos conceitos, os nossos instrumentos de analise, a nossa visão do mundo, a nossa propria moral. Em muitos casos, as nossas orientações ideologicas e opções politicas.
A premissa da “tabua rasa”, a utopia do “homem novo”, o egalitarismo, e tudo o mais de que fala o Filipe Faria neste post, fazem parte deste adquirido cultural para o qual o marxismo tanto contribuiu.
Deste ponto de vista o marxismo não foi um falhanço, antes um sucesso.
De certo modo “post mortem” já que, como ideologia reconhecida e até como projecto e realização politica concreta, o marxismo perdeu a batalha da substituição do capitalismo por um totalitarismo socialista a nível mundial.
Mas mesmo derrotado, mesmo politicamente morto, as sementes culturais do marxismo continuam presentes, talvez até mais presentes do que nunca tendo em conta que as actuais gerações mais activas e influentes foram formadas na fase de maior pujança do marxismo. As ideias e os reflexos herdados do marxismo continuam a fazer mossa e continuam a ser obstáculos importantes na evolução das nossas sociedades para patamares de maior liberdade e de maior bem estar.
Dito isto, parece-me que o Filipe Faria tem razão em prever igualmente o falhanço do “marxismo cultural”, mais cedo ou mais tarde.
Pela simples razão de que o marxismo é das ideologias que nos seus fundamentos mais se afastou daquilo que é verdadeiramente a natureza humana (o que não exclui que, como todas as ideologias, tenha igualmente integrado certos aspectos desta mesma natureza para adquirir alguma coerencia e se poder afirmar).
Comentário por Fernando S — Janeiro 27, 2012 @ 07:55
CORR : … “egalitarismo” é um francesismo, um erro … deve dizer-se “igualitarismo”, naturalmente !…
Comentário por Fernando S — Janeiro 27, 2012 @ 08:56
Excelente post.
Não se têm lido por aqui muitos com esta qualidade.
E sim, trata-se de marxismo cultural, um refinamento das ideias económicas de Marx e cuja raiz se pode encontrar na célebre Escola de Frankfurt.
As ideias marxistas estão omnipresentes na cultura, nos media, na educação, na moralidade ( a correcção política é um código moral claramente marxista).
O marxismo triunfa, de facto e arrasta-nos para o fundo.
Devia ter havido um tribunal de Nuremberga, como houve para o nazismo.
Não aconteceu, infelizmente.
Comentário por Lidador — Janeiro 27, 2012 @ 09:05
Para ser franco, fico bem mais preocupado com de múltiplas formas como a direita e o pensamento conservador não tem parado de ceder à apologia da vontade geral e/ou de legitimar a acção do Estado Progressista pensando que o consegue dominar na sua direcção (direcção esta de resto, cada vez mais desorientada).
Comentário por Carlos Novais — Janeiro 27, 2012 @ 10:46
Sim, CN, quem precisa de um Estado que pretende regular os costumes quando se tem uma Igreja que pretende regular os costumes?
Comentário por Alexandre — Janeiro 27, 2012 @ 12:42
Pela lógica de alguns comentários aqui colocados, a praxe académica é um movimento marxista já que se anula a identidade, passam a usar um nome de praxe, todos se vestem de igual e passando-se a comportar como animais irracionais em comparação com os mesmos.
Comentário por Vítor — Janeiro 27, 2012 @ 12:59
A Igreja tem todo o direito de regular os costumes na doutrina católica, mas quem impõe sob penas seculares é a máquina do Estado secular. o Estado moderno começou por ser um projecto conservador, mas a centralização do poder e o monopólio do direito, abriu a legitimar o progressismo e e a vontade geral: por isso, nem para conservadores nem para a Igreja faz já sentido . tudo têm a perde com contribuir para essa legitimação. Têm tudo a perder… a não ser porque por esta altura já sejam meios progressistas também.
Comentário por Carlos Novais — Janeiro 27, 2012 @ 13:05
Isto tem tudo a ver com o marxismo… panasca, apenas isso, que não é pouco pois é a merda da ideologia que está por trás do ps, do be, da maçonaria, da maioria do psd, de alguns do cds e oficlalmente do pcp. Escolher o sexo é para a internacional paneleira um direito humano e por isso, para negar a ciência e a evidência, chamam-lhe género. Há só um pequeno problema, cada ser humano é macho ou fémea da ponta dos cabelos às unhas dos pés, por mais que corte ou implante um falo. Esses alienados acreditam em fábulas mitológicas como a ‘mudança de sexo’. Deste ponto de vista a aproximação ao marxismo é legítima, são ambas ideologias porfundamente amorais.
Comentário por hajapachorra — Janeiro 27, 2012 @ 16:57
hajapachorra, diga isso a alguém que nasça com os dois sexos como eu conheci uma pessoa. E, de qualquer maneira, a evidência científica demonstra que temos características residuais do sexo oposto como pequenas quantidades de hormónios femininos num homem. Quer seja no género, quer seja na raça ou na própria espécie nada é profundamente evidente.
Comentário por Vítor — Janeiro 27, 2012 @ 19:48
Não desespere Carlos Novais, um dia destes o Peter Thiel vai salvar os Libertários e todas as crianças do mundo.
Comentário por Alexandre — Janeiro 27, 2012 @ 20:10
Logicamente que isto nada tem a ver com Marxismo.
A foto é do Paulinho Portas! O “menina” Portas é o resultado terminado de uma experiência Liberalista Recalcada com doutrina cristã. Vê lá bem o que andaste a ler, para principiantes do Marx, porque isso não sofreu revisão por parte de pessoal qualificado.
Boa Sorte!
Comentário por Carrocel — Janeiro 28, 2012 @ 00:39