Da presunção e da ignorância

Não faço ideia quem é o Paulo Guinote. Depreendo que é professor e que está apreensivo quanto ao futuro do sector onde trabalha. Não tendo gostado das declarações do primeiro-ministro sobre possível emigração de professores, resolveu disparar causticamente contra quem observou que as ditas declarações não eram de todo irrazoáveis e que as críticas de que foram alvo não tinham razão de ser. Fê-lo de forma escusada, presumindo coisas sobre pessoas que não conhece, distorcendo os seus argumentos e preferindo um ataque ad hominem (ainda por cima atirando ao lado) em vez de sequer tentar contra-argumentar. Só um idiota, um mal-intencionado ou um ignorante me classificaria de jovem e me acusaria de depender do PSD ou do CDS para o que quer que seja. Como não sou o Paulo Guinote e prefiro não assumir coisas sobre pessoas que não conheço, parto do princípio que se trata do último destes casos.

Não me compete a mim comentar a forma abjecta como ele trata o post do Carlos Fernandes, mas não deixo passar em branco o que escreveu sobre o meu:

  • O gráfico apresentado é o relativo à distribuição da população em função dos grupos demográficos. Mostra claramente uma diminuição da população em idade escolar. É falso que já existam dados posteriores, pois a fonte são os censos do INE e os resultados por grupo dos censos de 2011 ainda não foram publicados, só os dados globais. De qualquer modo, não tenho dúvidas de que a tendência de diminuição será reforçada em 2011.
  • Não confundo nascimentos com crianças em idade escolar. Essa acusação é perfeitamente descabida. É evidente que os nascimentos são o principal driver da população em idade escolar. A imigração e a emigração também têm influência, naturalmente, mas face ao peso dos fluxos migratórios o efeito não é de todo suficiente para alterar a tendência.
  • É um facto conhecido que o número de alunos no ensino básico é cerca de metade do que era há 30 anos, quando atingiu o pico. Esse pico contribuiu para picos nos 2º e 3º ciclos durante o início da década de 90, mas desde 1995 que também esses ciclos têm visto o número de alunos diminuir (apesar da maior cobertura do sistema por via de maior rigor no cumprimento da escolaridade obrigatória). O aumento artificial em 2009 por causa das Novas Oportunidades não conta, como é óbvio.
  • É evidente que a emigração não ajuda à resolução do problema demográfico. Mas isso não é relevante para o assunto em causa: Um professor que queira impreterivelmente continuar a sua carreira com tal, à falta de oportunidades de trabalho no país, não tem grande alternativa a emigrar. Não se trata de uma obrigação, mas de um direito. Se ele quiser emigrar, e se muitos outros quiserem, o problema demográfico agravado não serve de desculpa para impedir esse fluxo. De igual modo, a criação de programas com dinheiros públicos para assegurar postos de trabalho desnecessários constituiria uma má política económica, pois alocaria recursos de sectores produtivos a sectores improdutivos, resultando num empobrecimento geral.

Não faço juízos sobre as sinapses do Paulo Guinote. Mas se ele não percebe estes factos ou está de má-fé ou tem outras limitações.

ADENDA: Vejo entretanto que entre a altura em que fiz o gráfico e hoje, já existem dados provisórios dos Censos 2011. Tal como previsto, a população em idade escolar diminuiu.

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32 thoughts on “Da presunção e da ignorância

  1. então e agora com a emigração macissa de portugueses, que começou já há alguns anos atrás, ainda vai diminuir mais… a segurança social vai colapsar, mais depressa do que se julga… a nossa ecónomia está completamente arrasada…o que vale é que vamos sair do Euro a 1 de Janeiro de 2012!! não vejo outra solução…partindo do principio que estes Liberais Passistas não estão ao serviço da Banca, mas sim ao serviço dos portugueses…

  2. “Não se trata de uma obrigação, mas de um direito”
    Exacto, a emigração, da parte do país de origem, é um direito. Desde que exista um país de destino disposto a aceitar o emigrante, o país de origem não tem nada a ver com isso.

    Mas o problema com as declarações do Primeiro Ministro não são se ele tem ou não razão (infelizmente tem).
    O problema é um Primeiro Ministro não poder dizer isto pois manifesta uma imensa descrença na capacidade do país, do governo e dele próprio.
    No fundo o que ele disse foi que era incapaz de voltar a por a economia a andar e o melhor que se podia fazer era emigrar.
    Que confiança dá um país em que é o próprio Primeiro Ministro a manifestar que é incapaz?
    Ahhh! Mas há mais, na ânsia de salvar o Primeiro Ministro das suas desastrosas declarações, retorce-se o que ele disse. Ele nunca referiu que os professores podiam ter de mudar de profissão!

    Se ele tivesse dito “Devido à baixa da taxa de fertilidade, o número de alunos nas escolas diminuiu e, principalmente nalgumas matérias, pode haver professores a mais. Como não compete ao Estado pagar a professores para estes não fazerem nada estes profissionais devem reconverter-se”.

    Pode-se discordar totalmente destas afirmações mas, são afirmações aceitáveis para serem, ditas por qualquer governante. Infelizmente não foi o que o nosso Primeiro Ministro disse.

    Que ele era incapaz já o sabiamos… mas agora que tenha a desfaçatez de o manifestar um público, isso não o sabia.

  3. A bolha especulativa da educação é para continuar.
    (des)Educação a área económica mais ineficiente, inflacionada nos preços que existe. Provavelmente metade dos professores empregados estão a mais.
    Não se cansa de pedir mais e mais recursos para resultados cada vez mais paupérrimos.
    É uma clique que nem se interroga por o país estar em recessão real desde há 10 anos, ou do abandono escolar.

  4. «Ele nunca referiu que os professores podiam ter de mudar de profissão!»

    De acordo com o Público:

    “Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm, nesta altura, ocupação. E o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos”, disse ainda o primeiro-ministro.

    “Estamos com uma demografia decrescente, como todos sabem, e portanto nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma: ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa”, explicou.

  5. «Mas o problema com as declarações do Primeiro Ministro não são se ele tem ou não razão (infelizmente tem).
    O problema é um Primeiro Ministro não poder dizer isto pois manifesta uma imensa descrença na capacidade do país,»»

    .
    Se o PM diz a verdade então demonstra descrença na capacidade do país. Então para ser crente na capacidade do país o melhor é o PM não conhecer a verdade.

  6. Estou emocionado com a fraquinha reacção dos insurgentes.
    Esperava coisas mais fortes por parte de quem acusa os outros que deles discordam de terem apenas “uma sinapse funcional”.
    Não gostam dos ataques ad hominem, mas praticam-na quando lhes dá jeito. Melhor… praticam-na sobre todos os que deles discordam, se possível a corja maldita dos “professores” a quem antes batiam palmas quando o lema era derrubar José Sócrates.

    Dizem que não desmontei os argumentos dos autores visados. Bom,,, mas como se desmonta um post cuja linha de raciocínio é chamar “meninos e meninas que não querem sair do regaço da mamã”?
    Dizem que eu fui abjecto.
    Sorte vossa que escrevi muito menos do que pensei, porque quem escreve um post daqueles pode ter muitas sinapses funcionais, o problema é a atitude de sobranceria e o argumentário vazio.

    Quando ao texto que se dá ares de sabedoria matemática, cujo autor nem percebeu a ironia da sua alegada “juventude”, eu recomendaria que, para crianças em idade escolar, seguisse as estatísticas disponíveis sobre matrículas:

    http://estatisticas.gepe.min-edu.pt/cat.jsp?id=220&edit=false

    Entre 2005/06 e 2008/09 a evolução dos do pré-escolar é a seguinte:
    128 754
    127 602
    131 502
    131 765

    Estou daqui a tentar vislumbrar a descida, mas deixei cair as lentes.

    No 1º ciclo:

    417 204
    420 353
    420 716
    408 923

    Pronto, perderam-se menos de 8500 alunos, ou seja 2% do total… (uma catástrofe!)

    Quanto ao total de alunos no ensino até ao 12º ano (ainda sem escolaridade alargada):

    1 347 456
    1 360 851
    1 386 200
    1 525 420
    Aumento de quase 180.000 alunos, ou seja, mais de 10%!!!

    E agora?

    Se espreitarem para aqui http://www.gepe.min-edu.pt/np4/?newsId=611&fileName=EE2009_2010_JOVENS.pdf terão a hipótese de constatar que, logo a abrir os quadros se refere a contabilização de mais de 1.700.000 alunos.

    Claro… sou eu que não uso argumentos, não me baseio em factos e os insurgentes multisinápticos é que estão carregados de razão!

    E agora?

    Ou a realidade atrapalha a teoria?

  7. Pingback: Da Insurgência Multisináptica « A Educação do meu Umbigo

  8. Duvido muito que os dados de 3 anos pemitam inferir o que quer que seja acerca da evolução demográfica. É necessária uma série mais longa como a que é fornecida pelo Miguel Botelho Moniz no post original. Aproveito também para dizer que acho muitssimo estranho o “salto quântico verificado em 2008/09 no total de alunos até ao 12º ano. O quer é que sucedeu para de repente haver um “pulo” de 150 mil alunos quano nos anteriores a variação anual rondava os 20 mil?

    Como comecei por escrever, necessita de uma serie mais longa para poder suportar a sua tese

  9. Quando Paulo Guinote diz que O Insurgente tem ‘alguns jovens dependentes da presença do PSD e CDS no Governo para beneficiar de visibilidade e presença’, demonstra não perceber nada de quem aqui escreve.

    O estranho é que não sabendo, nem percebendo, conclui.

  10. Realmente o professor provou que os alunos estão a aumentar. Há professores desempregados apenas por má fé dos políticos de direita e das duas políticas hiper-ultra-mega-neo-liberais. Toca a empregar os professores desempregados porque há procura. Sugiro que, uma vez que os funcionários públicos já perderam 13º e 14º, seja abolido o seu 12º (o mês de férias pago) para pagar aos restantes. Nada como a solidariedade para resolver estas questões.

  11. O caro Paulo Guinote parece insistir na técnica da elevação à base da pedrada. Quanto aos seus números, são de facto interessantes. Penso que é nesse tipo de argumentação que se deve centrar todo o debate. O resto é verborreia agressiva que em nada contribui para o esclarecimento (o Miguel que me perdoe o atrevimento, mas também não ajudou).

    Mas se pretende dar ares de sabedoria matemática analisando apenas a variação absoluta de uma variável, penso que não está a ser correcto. Há mais do que uma variável, e há um mundo para lá da primeira derivada de uma função.

    Deixei no seu blog e deixo aqui também a sugestão para um conjunto de dados e uma análise que tenta ver um pouco além desse absolutismo numérico:

    http://costarochosa.blogspot.com/2011/12/emigracao-de-professores-e-de.html

  12. As estatísticas dos “adultos” (para quem foi lá dizer que eu até usava dados das NO) estão aqui:

    http://www.gepe.min-edu.pt/np4/?newsId=611&fileName=EE2009_2010_ADULTOS.pdf

    Eu não ando aqui para enganar ninguém, porque não espero lugar em grupo de trabalho.
    Quanto à verborreia, é algo que muitos insurgentes não desdenham.

    Vá lá, mais uma ajudinha para os alunos e professores das Universidades de topo:

    286241 alunos em regime de RVCC/NO.
    Página 23 do volume dos “adultos”.

    http://www.gepe.min-edu.pt/np4/?newsId=611&fileName=EE2009_2010_ADULTOS.pdf

    Os “truques” à Sócrates são mais para os spin-doctors mirins deste Governo que martelam clichés em vez de fundamentarem o que afirmam.

  13. #11,
    Já percebi que da evolução da Educação conhece apenas uns números soltos.
    Há um site do ME cheio de séries longas…
    O Google por vezes ajuda.
    Lamento o paternalismo, mas…

  14. Está à vontade. Se quiser postar aqui as series em vez de mostrar apenas três anos avulso talvez ajude na credibilização da sua tese.

  15. O Pordata também dá uma ajudinha: http://www.pordata.pt/Portugal/Alunos+matriculados+no+ensino+secundario+publico+total+e+por+modalidade+de+ensino-1015

    A evolução positiva nos últimos anos deve-se exclusivamente a cursos profissionais e ensino recorrente (que para os anos em questão são o RVCC). Na via ensino apesar de uma pequna melhoria nos últimos dois anos (resultado do aumento da escolaridade obrigatória?) os números têm grandes variações e demonstram que há uma redução superior a 1/3 desde o pico nos anos 90

  16. Olhando melhor para os dados do Paulo Guinote e comparando com os do Pordata verifico que aquela “salto quantico” em 2008/2009 que referi no comentário #11 coincide com o grande aumento no ensino recorrente, cursos profissionais e cursos de aprendizagem. Calculos a olho explicarão cerca de 110.000 alunos da tal variação de 150.000.

  17. Então, pelos vistos, há mesmo mais alunos a frequentar as nossas escolas, logo, à partida, haverá necessidade de mais profs. Ou não???

    A chatice foram as declarações, em resposta «ad hominem» (i.e. Steps Rabbit), daquele comissário.

  18. Pingback: Modelos a seguir para ataques “ad hominem” (2) « O Intermitente (reconstruido)

  19. Pingback: Da presunção e da ignorância (2) « O Insurgente

  20. Pingback: Uma atitude louvável « O Insurgente

  21. Pingback: Top posts da semana « O Insurgente

  22. É estranho como os liberais daqui ficam muito incomodados quando se lhes sugere emigrar para um país mais liberal ou com menos carga fiscal. Realmente as medidas certas para a “populaça” não são de todo aceitáveis para “liberais” esclarecidos…

  23. “É estranho como os liberais daqui ficam muito incomodados quando se lhes sugere emigrar para um país mais liberal ou com menos carga fiscal. ”

    Que liberal daqui ficou escandalizado com essa sugestão? Ou a frase é só um “straw man”?

  24. Pingback: Da desconversa e da obfuscação « O Insurgente

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