Há uns tempos atrás, ponderei sobre a ideia de iniciar um blog onde registaria todas as falácias, meias-verdades e manipulações que se vão escrevendo sobre a actual crise e a economia em geral. Acabei por concluir que era um exercício desnecessário e redundante porque já existia o Arrastão.
Desta vez é o Sérgio Lavos que nos vem contar a história da Bélgica, um país que esteve sem governo durante 1 ano e que, logo após ter formado governo salvou um banco e lançou um país na crise. A mensagem é clara: os interesses políticos juntaram-se para salvar um banco e trazer a crise a um estado social forte e dinâmico.
Há três problemas com esta tese. O primeiro é de ordem cronológica: o governo belga apenas foi formado em Dezembro enquanto o banco foi salvo em Outubro. O segundo é de grandeza: o défice belga era de 4.2% antes do salvamento e com o salvamento do banco passou a… 4.6%. Uma subida relevante, sem dúvida, mas dificilmente causa de colapso das contas do estado (pelo menos por enquanto). O terceiro é de natureza. Quando a esquerda fala de salvamentos a bancos, transpira sempre a ideia de que o dinheiro dos contribuintes está a ser utilizado para salvar banqueiros milionários que andaram a estourar o dinheiro na bolsa. Embora tal situação seja próxima da realidade no caso do BPP/BPN, é absolutamente errado nesta situação. O salvamento do Dexia é basicamente o salvamento dos depositantes, cujo dinheiro estava em risco pelas imparidades com empréstimos a países com estados sociais falidos como Portugal.
Do post do Sérgio Lavos, para além da magnífica imagem que o ilustra, salvam-se duas boas ideias: a ideia de que é bom ter um governo com poderes limitados e de que é necessário bancos falir. Um governo de gestão com poderes limitados teria sido excelente ideia para Portugal. Tenho a certeza que se Portugal tivesse andado a ser governado a duodécimos desde a última visita do FMI, provavelmente seria hoje um país mais próspero e menos endividado. Também concordo com a ideia mais ou menos implícita de que é necessário deixar bancos falir devido à crise da dívida soberana. Se sobrevivermos, um dos grandes legados desta crise será exactamente um aumento da percepção de risco da dívida soberana, e nada como o espectro da falência para fazer os bancos pensarem duas vezes no futuro sobre o financiamento ao estado social.
Não resisti e deixei o seguinte comentário no Arrastão:
— inicio do comentário —
2011.10.10
http://www.euronews.net/2011/10/10/dexia-rescue-hides-black-hole-for-europe-s-banks/
“Belgium paid four billion euros to save Dexia Bank Belgium, its 6,000 staff, and the 80 billion in deposits of its four million customers.”
2011.12.06
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2070508/Belgium-finally-gets-new-government-541-days-limbo–King-steps-new-Prime-Minister.html
“Belgium finally has a new Prime Minister – after a record-breaking 541 days without a government.”
2011.12.17
Sérgio Lavos escreve:
“Curiosamente, enquanto este país não teve um Governo – cerca de um ano, recordemos – a economia foi crescendo. Bastou os flamengos e os valões porem-se de acordo para começar o descalabro. E como começou? Com o salvamento de um banco, o Dexia. A história do costume.”
Sinceramente, esta nem precisa de “punch line”.
— fim do comentário —
Estou curioso por ver se o comentário é aprovado e qual a resposta do Sérgio Lavos.
Comentário por Joaquim Amado Lopes — Dezembro 18, 2011 @ 05:54
Há gente que muito gosta de reinventar a história, mesmo a historia recente. Não reparam, esses “historiadores”, que o povo não tem assim a memória tão curta e que há sempre quem esteja atento. São uns convencidos que temos obrigação de desmascarar. Sempre.
Comentário por Tiro ao Alvo — Dezembro 18, 2011 @ 22:39