“(…) quem defende uma possível saída do euro não percebe minimamente de economia”, Álvaro Santos Pereira, ministro da Economia (manchete de hoje do Jornal de Negócios).
O senhor Ministro, que ontem à margem de uma entrega de prémios comentava a especulação em redor da moeda única, deveria ser mais cauteloso e, sobretudo, mais elegante nas suas afirmações. Enfim, já se percebeu que Álvaro Santos Pereira, por quem eu até tenho uma particular estima intelectual, é daquelas pessoas que de improviso nem sempre reagem bem – as suas “gaffes” começam já a ser célebres – e o improviso de ontem, por mais convicto que possa ter sido, poderá gerar um perigoso efeito de ricochete, estimulando ainda mais a especulação em vez de a estancar, como era certamente o propósito do Ministro.
E, de facto, o tema gera cada vez mais interesse mediático. Hoje, o Jornal de Negócios dedica-lhe seis páginas. Nelas, inclui entrevistas com vários economistas, das quais destaco duas. A primeira, uma entrevista ao Prof. Ricardo Cabral (uma estrela em ascensão) da Universidade da Madeira, e a segunda ao Prof. Campos e Cunha da Universidade Nova. O primeiro explica a situação actual com rigor, explicando de seguida os ajustamentos macroeconómicos, que se seguiriam a uma eventual saída do euro, e rematando da seguinte forma: “A saída do euro seria catastrófica? Nada disso”. Mas, enfim, das palavras de Santos Pereira, só posso deduzir que o Prof. Ricardo Cabral nada percebe de economia. Quanto a Campos e Cunha, um macro economista do regime, afirma: “a sequência de horrores seria tal que abandonar o euro é proibitivo. Felizmente.”. Não obstante o cenário catastrofista que pinta, o Prof. Campos e Cunha admite uma coisa extraordinária: “Não tenho um modelo que quantifique a recessão”! Este economista, segundo o nosso estimado Ministro, é daqueles que sabe do que fala.
Ora, esta ideia de fazer tabu de certos assuntos é uma das principais razões pelas quais, nas horas difíceis, o mundo nos costuma cair em cima. Veja-se, por exemplo, o que já está a acontecer na Alemanha onde operadores turísticos, antevendo o que irá suceder na Grécia, já se começaram a proteger, renegociando contratos de euros para dracmas (ainda que, nesta fase, somente virtuais). Isto, sim, é pensar prospectivamente. Em Portugal, pelo contrário, o Ministro optou por desconsiderar, desprezando intelectualmente, todos aqueles que, como ele, acompanham a situação actual do ponto de vista macro económico e que, como ele, também já leram sobre a história de secessões cambiais operadas em circunstâncias muito semelhantes àquelas que hoje vivemos – certamente na Grécia.
E a verdade dos factos é uma: nos modelos que quantificam as recessões associadas a “defaults” soberanos, por exemplo em Reinhardt e Rogoff (This time is diferent”), em média, o afundanço real do PIB no ano t, o ano de incumprimento na dívida, é de 4%, sendo a taxa média de crescimento real nos três anos seguintes ao ano t de 2,9%. Ao mesmo tempo, num outro estudo apresentado este ano na Royal Economic Society em Londres, da autoria do alemão Christoph Trebesh e do argentino Juan Cruces (“Sovereign Defaults, The price of haircuts”), o período médio de exclusão dos mercados, após o incumprimento, é de 6 anos, baixando, porém, para apenas 3 anos nos casos de incumprimento até 30% do valor da dívida (nota: neste estudo, o “default” foi estimado em termos reais, incluindo, assim, “defaults” explícitos e “defaults” implícitos). Em suma, essa ideia – esta, sim, catastrofista – de que quando um País entra em incumprimento na sua dívida nunca mais na vida lhe emprestam dinheiro é falsa, sem paralelo na evidência histórica. Como, aliás, bem nota o Prof. Ricardo Cabral, o tal que “não percebe minimamente de economia”, e que conclui a sua entrevista afirmando o seguinte: “é provável que ficássemos afastados dos mercados, mas estes funcionam com base no lucro expectável: se o ‘default’ tornasse a nossa dívida mais sustentável, eles rapidamente voltariam a dar crédito”. Nem mais.
Moral da história, o Ministro da Economia quis passar uma mensagem política. Está no seu direito. Mas escusava de ter ofendido a integridade intelectual daqueles que, também por aqui, andam a estudar os mesmos assuntos e que, sobretudo, não estão politicamente condicionados, como ele infelizmente está.