“(…) Mr. Papandreou may have messed up his tactics, but he was right on one point. The changes needed to save the euro are so profound in nature that, sooner or later, they must have the explicit consent of the people – or they will fail.”, na Economist desta semana (coluna “Charlesmagne”, página 43).
Ontem à noite, participei num jantar debate promovido pela Associação Portuguesa de Gestão e Engenharia Industrial (APGEI), no qual o orador convidado foi Alexandre Soares dos Santos, presidente da multinacional Jerónimo Martins e mentor da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Ora, tendo passado o jantar a conversar com o vizinho do lado acerca das vantagens de uma Democracia de cariz deliberativo, ou Directa, apontando nomeadamente as virtudes do modelo suíço por oposição às inúmeras fraquezas da democracia representativa em Portugal, não pude deixar de saudar que boa parte da intervenção do orador convidado tivesse sido acerca desse mesmo tema.
Enfim, eu confesso: tenho uma profunda admiração pelo senhor Soares dos Santos, em particular pelo trabalho que a sua Fundação, superiormente dirigida por António Barreto, tem feito no nosso País. A base de dados Pordata e, sobretudo, os seus Ensaios são o resultado de uma participação cívica pela qual a Fundação Francisco Manuel dos Santos, como ontem tive oportunidade de transmitir ao seu fundador, será reconhecida como referência marcante, um dia que se escreva a História de Portugal do início do século XXI. Só posso, por isso, felicitar e encorajar os seus responsáveis.
Mas regressando à palestra de Soares dos Santos, esta versou essencialmente o estado da Democracia em Portugal, bem como as formas de, em conjunto, os cidadãos a tornarem melhor. Assim, Soares dos Santos mencionou que o Parlamento, o Governo e o Eleitorado têm de ser responsáveis. Ora, a isso, acrescento eu, soma-se a necessidade de serem também responsabilizados; os políticos pela sua acção governativa e os cidadãos pelas suas escolhas políticas. E nesse contexto depreendi das palavras do orador que, tal como hoje nas empresas se incentivam iniciativas “bottom-up” a fim de influenciar, melhorar e, no bom sentido, condicionar a gestão de topo, também na política se seguirá essa mesma avenida. Ou, nas palavras do orador, que cito de memória, “a existência de uma democracia representativa não nos deve isentar de formas de participação democrática de natureza deliberativa ou directa”.
Ora, eu não escondo: há algum tempo que deixei de acreditar na democracia representativa. Na minha opinião, representa, numa sociedade abúlica como a portuguesa, o caminho da desresponsabilização e, naturalmente, das más decisões políticas. Em Portugal, tem fomentado a falta de estímulo intelectual e, acima de tudo, tem fomentado a falta de interesse dos cidadãos pelo rumo do seu país. E infelizmente abriu as portas à captura do regime pelos agentes políticos que, na minha opinião, de representantes pouco têm. É, por isso, que esta mesma classe política, que nos empurrou para este estado de coisas, está agora de consciência pesada, por um lado, continuando a prometer o impossível, por outro lado, não querendo abrir mão de instrumentos democráticos, como os referendos, que permitissem à população repor a democracia na trajectória para a qual esta foi projectada há séculos – pelos gregos! –, isto é, ao serviço e no interesse da população.
Concluindo, como ainda ontem comentava, no tal jantar debate, considero que a bancarrota actual de Portugal é consequência directa da ruína institucional da democracia portuguesa (como também é na Grécia e na Itália). Mas contrariamente àqueles democratas que alegam que o povo não tem discernimento para votar certos assuntos, eu sou da opinião que nisto da democracia não há meio-termo: ou se respeita a vontade popular, democraticamente, ou não, entrando-se numa deriva autocrática sob a capa de uma outra coisa qualquer. Assim, o importante é dotar o eleitorado de informação. E, sobretudo, habituar o eleitorado à participação regular e à decisão, através de rotinas democráticas, nomeadamente de referendos como na Suíça, medindo acções e consequências. Numa só palavra, responsabilizando-se. Existindo informação e, mais importante ainda, existindo verdadeiras rotinas participativas, estou convicto de que, por maior ou menor instrução formal que a população pudesse ter, a maioria decidiria com sensatez. E, certamente, decidiria pela sua própria cabeça.