Otelo e os Oteletes

Reproduzo de seguida um texto enviado pelo leitor Fernando Gomes da Costa:

Otelo e os Oteletes

As recentes declarações de Otelo Saraiva de Carvalho sobre a legitimidade e seu incondicional apoio a um golpe militar contra o sistema político atual, não me causaram qualquer espanto ou surpresa.
Isso não se deve ao facto de eu ser médico, mas sim a já ter alguma imunidade à avassaladora quantidade de disparates e ruído mediático com que todos os dias somos metralhados (usando uma terminologia à Otelo).
Já o desmesurado impacto que aquelas declarações tiveram nos meios de comunicação, a benevolência ternurenta de muitos responsáveis políticos, “pensadores”, críticos sociais e, sobretudo, a manifesta concordância maquilhada de alguns setores ideológicos especialistas em conciliar um entusiástico apoio às principais ditaduras vigentes e de um passado recente com a “defesa das liberdades” (plural que pressupõe, convém notar, uma freudiana seleção de itens no âmbito do conceito global de Liberdade), me causam alguma preocupação.
Esses “Oteletes”, por analogia com os populares “Outlets” que servem para as multinacionais venderem os seus produtos diretamente ao público sem se sujeitarem aos custos dos intermediários, utilizam, no âmbito ideológico, exatamente a mesma estratégia: impor o seu produto no mercado político, sem ter de passar pelo limitador constrangimento das eleições e do voto universal.
Este tipo de manipulação, embora já antigo, tem hoje em dia um ambiente social propício para contaminar as mentalidades mais acríticas, ingénuas ou sugestionáveis. Basta ver como uma ou duas centenas de indivíduos, devidamente controlados e com uma pose convenientemente telegénica, desde um exibicionismo salvífico, tipo Woodstock, à violência esteticamente marcante de partir montras, incendiar automóveis ou procurar ser arrastado pelo chão, são promovidos em “prime time” nos meios de comunicação social como sendo a “ponta visível” de uma vontade popular tida como generalizada, mais legitima e esclarecida do que o voto nas eleições.
A vontade, os desejos e a opinião da esmagadora maioria da população, que não tem tempo, nem capacidade de organização para abraçar a neo-profissão de “indignado” ou colocar-se no papel de detentor da verdade, porque precisa de trabalhar, porque já não consegue sair de casa, porque não tem dinheiro para se deslocar ou por ser pouco propensa a exibicionismos mediáticos, são assim totalmente esmagados e desprezados por uma minoria de arrogantes que se julgam possuídos pela clarividência.
O paradigma da Liberdade e Democracia – um cidadão um voto – tende a ser avidamente devorado por um crescente pulular de multinacionais do poder, patriarcas ideológicos, e meios de comunicação “de causas” sejam elas o frete político ou a ganância do share de audiências.
Mas mesmo estando essas pessoas nos antípodas do que eu penso, sou e serei sempre um intransigente defensor de que devem ter todo o direito de se manifestar e ser ouvidas. Só que essa liberdade só faz sentido se não se confundirem os desígnios de quem tem capacidade, meios e privilégios de falar mais alto com a vontade da maioria.
Por isso, não é Otelo que devemos calar, mas a prepotência dos “Oteletes” que temos de recusar.

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