No cinco dias, Francisco Furtado percebeu que as escolhas feitas via processo democrático (ainda em Junho passado houve eleições!) não agradam a todos. Mas em vez de defender um Estado com mínima interferência nas nossas vidas (os liberais!), o “revolucionário” Francisco Furtado tenciona sobrepor as suas preferências à dos eleitores (meus destaques):
Os inimigos do povo, os arrogantes fariseus e as nossas elites ignorantes bem podem espernear, daqui prá frente a resistência popular só irá crescer (em média, a tendência, claro que haverá períodos de acalmia e algum retrocesso, mas a tendência de fundo será de crescimento), aliás até já há alguns “arrependidos”. A existência de luta e resistência por si só não será garantia de que se irá derrubar o governo ou anular as medidas no imediato, mas pelo menos significa que se vai a jogo. Este protesto prova que há o potencial, de se travar uma luta com potencial de vitória.
A Esquerda parlamentar e sobretudo os sindicatos desempenharão um papel destacado. Mas não tenha a mínima dúvida que por si só serão incapazes de produzir uma vitória.
Talvez a estes “indignados revolucionários” ajude ler Fernando Pessoa (via Samuel de Paiva Pires) [meus destaques]:
“O Preconceito Revolucionário”:
O estado mental do homem que crê na eficácia social directa das revoluções é exactamente o mesmo do do homem que crê na realidade dos milagres. A crença na eficácia das revoluções pressupõe a crença na intervenção antinatural da vontade humana no curso natural das coisas sociais. Não é mais absurdo supor que determinado taumaturgo inverte, por o uso de qualidades inanalisáveis, as leis físicas e naturais [?], do que supor que um grupo de homens nascido no mesmo meio que outro grupo, educado da mesma maneira, sofrendo as mesmas influências, e com hereditariedade social idêntica, pode, substituindo-se a esse outro grupo e por o simples facto de ter ideias diferentes, agir diferentemente na vida social. Isto é tão simples!
O estado social permanece o mesmo agravado com a anarquia que resulta da substituição violenta de uma situação administrativa por outra. Os antigos detentores do poder, por imorais e corruptos que fossem, tinham, ao menos, pelo uso do poder, certa noção inevitável de como usá-lo, conheciam, pelo menos, como administrar. Os recém-vindos, iguais moralmente a eles por serem produto do mesmo meio, levam para o poder a falta de prática do poder; são fatalmente piores — intelectualmente piores. Assim, os governos revolucionários, sendo tão imorais como os governos anteriores, são intelectualmente mais incompetentes. (…)
Deixei o seguinte comentário no 5dias:
Francisco Furtado,
Imagine que, no passado dia 5 de Junho, as eleições legislativas tinham tido um desfecho completamente diferente. O PCP-PEV tinha obtido 2.159.742 votos e eleito 108 deputados e o BE tinha obtido 653.987 votos e eleito 24 deputados.
O Governo PCP-PEV-BE, legitimado pelo voto popular e com apoio de uma maioria absoluta de deputados, decreta “a suspensão da dívida, a auditoria à mesma e às contas públicas, a mudança de regime, o fim do capitalismo, a expropriação da banca”.
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Passados 4 meses, insatisfeitas com estas políticas, reclamando representar a “vontade do povo” e com o apoio da “direita parlamentar” (PSD com 16 deputados e CDS com 8, contra os 132 deputados PCP-PEV-BE), algumas dezenas de milhar de pessoas decidem manifestar-se, ocupar espaços públicos (incluíndo as escadarias da Assembleia da República) e exigir a queda do Governo, a redução da Administração Pública e da despesa e a reinstauração do capitalismo.
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O que diria o Francisco?
Comentário por Joaquim Amado Lopes — Outubro 17, 2011 @ 12:59
Boa pergunta, aliás já respondida pela história. Qualquer governo progressista eleito pelo voto popular irá enfrentar dos interesses instalados (e da direita) uma reacção incomparavelmente mais dura que qualquer manifestação de indignados. Dou dois exemplos, independentemente dos juízos de valor que se façam, quer o governo de Allende no Chile quer o de Chavez na Venezuela foram eleitos e tinham legitimidade democrática formal. Qual a resposta da direita?
Pressão de manifestações de rua constante, tentativas de golpe de estado (bem sucedida no Chile, falhada na Venezuela), actos de terrorismo, lock-out, etc…
Portanto, as virgens ofendidas que falam agora da legitimidade eleitoral deste governo, numa situação inversa seriam os mesmos que estariam a apelar à insurreição, até armada. Ou seja, aquilo que agora começa é bem mais contido, respeitador e integrado nas regras do regime que qualquer reacção que a direita teria no caso de se passar um cenário semelhante ao acima exposto.
A resposta das forças populares numa situação dessas teria de ser ponderada no contexto, mas teria de ser à altura do desafio.
O post acima, para citar um exemplo, é pura demagogia de fariseu (http://www.paroquias.org/biblia/?c=Mt+23).
Comentário por Francisco — Outubro 17, 2011 @ 16:36
Francisco,
“as virgens ofendidas que falam agora da legitimidade eleitoral deste governo, numa situação inversa seriam os mesmos que estariam a apelar à insurreição, até armada”
Portanto, na hipótese que coloco, o governo PCP-PEV-BE não se portaria como uma “virgem ofendida” e aceitaria a representatividade popular de algumas dezenas de milhar de manifestantes como equivalente ou mesmo superior à do governo apoiado por uma maioria absoluta de deputados eleitos por sufrágio universal. É isso?
Comentário por Joaquim Amado Lopes — Outubro 17, 2011 @ 20:59