O Insurgente

Setembro 16, 2011

Quando a estupidez toma conta de um país

Filed under: Blogosfera,Economia,Política,Portugal — Miguel Botelho Moniz @ 18:10

O João Pinto e Castro, recordando «os rudimentos da microeconomia que se aprende nas escolas», afirma que «o preço de um bem ou serviço deve ser igual ao seu custo marginal». Não estando correcto – num mercado o preço de um bem ou serviço tenderá para o seu custo marginal à medida que o mesmo mercado tender para a concorrência perfeita – levanta, apesar de tudo, um ponto interessante.

A racionalidade de um projecto de investimento depende do equilíbrio entre o dinheiro que sai, dividido em investimento e custos operacionais, e o dinheiro que entra, ou seja, receitas. Sendo verdade que quando o custo marginal de um determinado bem ou serviço é zero ou perto disso, na presença de forte concorrência o preço tenderá para zero, quem investe tem de fazer a priori um juízo da probabilidade disso acontecer. Evidentemente, se esse risco não for negligenciável a decisão racional de investimento será não investir.

Na operação de auto-estradas, as barreiras à entrada e à saída são enormes, pelo que o mercado nunca será de concorrência perfeita. Assim sendo, ao contrário do que sugere o João Pinto e Castro, a estupidez que tomou conta do país não é a de tentar minimizar os custos do estado com as SCUT por via da introdução de portagens. A estupidez foi construir estradas para as quais não há procura suficiente para torná-las economicamente viáveis. (Deixando de lado, para já, a possibilidade de que os contratos de engenharia financeira feitos para financiar as obras talvez fossem à partida mal feitos e lesivos do interesse público.)

14 Comentários »

  1. A estupidez foi construir estradas para as quais não há procura suficiente para torná-las economicamente viáveis
    .
    PELO DIREITO AO VETO DE QUEM PAGA (vulgo contribuinte) blog: Fim da Cidadania Infantil.
    {um outro ex: a nacionalização do negócio ‘madoffiano’ BPN nunca se realizaria: seria vetada pelo contribuinte!}

    Comentário por menvp — Setembro 16, 2011 @ 20:52

  2. P.S.
    Ninguém no seu perfeito juízo acha que o TGV será rendível!…

    Comentário por menvp — Setembro 16, 2011 @ 20:54

  3. Certo. Já em 2008 ou 2009 havia 9 ou 10 auto-estradas que não tinham tráfico que justificasse a sua simples existência, ou sejam, nelas circulavam, em média, menos de 10 000 veículos por dia. Depois disso, foi o que se viu. Por estas e por outras cheira-me a mudança de regime.

    Comentário por Luis — Setembro 16, 2011 @ 21:02

  4. Pois é, mas os “estúpidos” vão-se a rir o caminho todo para o off-shore …

    Comentário por Euro2cent — Setembro 16, 2011 @ 21:02

  5. Perdão, Regime e não regime, e seja e não sejam.

    Comentário por Luis — Setembro 16, 2011 @ 21:02

  6. “num mercado o preço de um bem ou serviço tenderá para o seu custo marginal à medida que o mesmo mercado tender para a concorrência perfeita”

    JPC disse deve num sentido normativo e não num sentido positivo. O que com certeza quis dizer foi que um óptimo de Pareto não seria atingido enquanto o p>CMg, dado que estás a excluir do consumo alguém que tem uma utilidade marginal superior ao custo marginal.

    Comentário por LA-C — Setembro 16, 2011 @ 21:55

  7. A inexistência de concorrência perfeita deve-se essencialmente ao facto de os recursos serem escassos.

    Comentário por JoaoMiranda — Setembro 17, 2011 @ 01:12

  8. Não essencialmente. Deve-se ao facto da informação ser imperfeita.

    Se o Pedro tem uma boa ideia que vai colocar as empresas dominantes em dificuldades no dia 25. Mas no dia 26 tem um acidente mortal…
    Isto para não falar da entrada/saída de pessoas importantes de uma empresa.
    Grau de complexidade de um produto por exemplo. A escolha é feita sem entrar todas as variáveis. E mesmo que se soubesse todas sobre ainda os “unknow unknowns”.
    Excesso de escolha para o valor do produto. A partir de que determinado momento deixa de compensar investigar mais os dados técnicos leitor portátil de mp3?

    Comentário por lucklucky — Setembro 17, 2011 @ 02:06

  9. Ainda ontem tentei explicar esta teoria ao porteiro do cinema. Ele respondeu-me que isto podia ser óptimo para o Pareto, mas que se toda a gente entrasse à borla ele ficaria sem emprego.

    Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Setembro 17, 2011 @ 07:06

  10. CGP, quando percebes muito bem um conceito, a sua aplicabilidade e o seu uso, não faz muito sentido que o deves tentar explicar. Pelo contrário, deves é pedir explicações.

    Comentário por la-c — Setembro 17, 2011 @ 07:37

  11. Mas poderá ser introduzido um factor que justifique um investimento: o impacto social do mesmo.
    Desde que garantido que o funcionamento e a manutenção são suportáveis e financeiramente equilibrados é admissível que possa ser o contribuinte a pagar o investimento (ou apenas parte dele) mesmo que sem retorno. Claro que temos que aproximar o contribuinte (o mais possível) ao utilizador. Para incutir alguma justiça contributiva.
    Por exemplo, não tem sentido ser o OE (ou seja, todos os contribuintes) a suportar as indemnizações compensatórias e os défices repetitivos e as dívidas por pagar dos metros e empresas públicas de transportes (muitas resultantes de investimentos) que são locais…
    Até as tropelias as Alberto João Jardim são mais facilmente imputáveis. A verdade é que poderão existir mais dívidas mas as mesmas estão confinadas à Madeira. Serão sempre os madeirenses a paga-las num futuro mais ou menos curto ou mais ou menos longo.
    Os ajustes de que se fala actualmente são apenas contabilísticos. Não implicam qualquer pagamento do que AJJ se endividou.
    As medidas compensatórias anulam o défice surpresa (resulta da soma dos défices) mas mantêm a separação das dívidas e a imputabilidade a quem as criou.
    Infelizmente o mesmo já não acontece com o BPN, com as imparidades da CGD e com as dívidas e défices do Metro de Lisboa. São mesmo pagas por TODOS sem excepção. Pois estão pendentes, sempre, no Orçamento de Estado.

    Comentário por Gonçalo — Setembro 17, 2011 @ 08:55

  12. (onde se lê “imputabilidade a quem as criou” deve-se ler “responsabilidade de quem as criou”)

    Comentário por Gonçalo — Setembro 17, 2011 @ 08:57

  13. Diz-se que há concorrência perfeita, quando nenhum interveniente num determinado mercado tem poder para influenciar o preço directamente. Ou equivalentemente todos os agentes têm que aceitar o preço como variável exógena. Isto implica que não pode haver barreiras à entrada de novos produtores e consumidores.

    Comentário por ricardo saramago — Setembro 17, 2011 @ 14:23

  14. “A estupidez foi construir estradas para as quais não há procura suficiente para torná-las economicamente viáveis. (Deixando de lado, para já, a possibilidade de que os contratos de engenharia financeira feitos para financiar as obras talvez fossem à partida mal feitos e lesivos do interesse público.)”

    Caro Miguel Botelho Moniz

    O seu Post está globalmente correcto, mas se me perdoar, merece na minha opinião algumas rectificações(zitas).
    Na frase que cito acima, pôs entre parênteses aquilo que acho mais imperioso a que se dê a máxima importância e vigilância.
    Porque não tenhamos ilusões, todo e qualquer governo (CM ou JF) mandará fazer obras inúteis, sumptuosas e disparatadas, mas que estejam prontas, a tempo de se cortar a fita, antes das eleições.
    Portanto, o mais importante mesmo, é impedir que essas obras sejam também um pântano nojento de roubo e corrupção.
    O meu ramo de Eng. Civil é Urbanização e Sistemas (ao fim de 9 meses de estágio gratuito e 1 ano de recibos verdes, desisti e fui para as obras) e aí aprendi que existem duas teorias opostas para a decisão de construir uma via de comunicação (há uma terceira que é a mais usada que é o “parentesco” entre o pato bravo e o cacique que decide).
    A teoria dos especialistas em Transportes, é que, só se deve construir uma via de comunicação se se verificar procura.
    A teoria dos Urbanistas é que a procura gera-se pela oferta da via comunicação, e que isso permite uma “melhor” organização do território.
    Acho que as duas teorias estão correctas.
    O que constactei, é que raramente se analisa as duas em simultâneo, e se toma decisões tecnicamente suportadas.
    Finalmente uma informação de carácter mais técnico:
    - Uma Auto-estrada não tem que obrigatoriamente ter muito trânsito.
    Aliás, um engarrafamento numa auto-estrada, é a negação técnica que essa via seja na realidade uma auto-estrada.
    É uma via rápida mal-amanhada.
    Uma auto-estrada, cumprindo as normas técnicas de projecto que aprendi (eu não tirei o curso por fax ao domingo), deve permitir a circulação à velocidade máxima de todos os utentes.
    O nível de serviço duma auto-estrada é inversamente proporcional ao tráfego.
    Portanto, é natural e correcto que as verdadeiras auto-estradas tenham um baixo nível de tráfego e que sejam pagas na totalidade por quem as utiliza.
    O baixo nível de tráfego (em especial de pesados) diminui substancialmente os custos de manutenção.
    .

    Comentário por Mentat — Setembro 18, 2011 @ 12:31


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