Reproduzo de seguida um texto enviado pelo leitor Fernando Gomes da Costa:
Pide no prato
Parece que teve grande aceitação a ideia recentemente sugerida pelo bastonário da Ordem dos Médicos de taxar a fast-food. Qualquer cidadão modernaço e iluminado gosta de zurzir no “american way of life” (e de emigrar para lá sempre que tenha oportunidade), o que me leva a suspeitar que haja uma certa dose de ideologia nesse entusiasmo sanitário. Mas agora, que anda aí uma campanha para eleger os melhores pratos de Portugal, já pensaram nas calorias do leitão? e dos pasteis de Belém? e da chanfana? e do abade de Priscos? e do bacalhau com natas? e das tripas à moda do Porto? e da posta mirandesa? e da alheira de Mirandela? e da açorda alentejana? e dos doces conventuais? e do bife à Trindade? e dos coiratos? e das farturas? e dos pezinhos de coentrada? e do vinho? e por aí fora?..
Afinal, se calhar é melhor proibir primeiro a comida tradicional portuguesa….ou até a comida toda que não seja devidamente sancionada pelos novos defensores da raça perfeita e implacavelmente normalizada. Provavelmente já estivemos mais longe disso.
Mas se ambicionamos uma nova pide a vigiar o que fazemos no dia a dia, ao menos não sejamos hipócritas a atirar as culpas apenas para a fast-food só porque é eminentemente americana. Aliás, qualquer pessoa pode comer todos os dias “lixo alimentar” saudável (saladas, sopas, hambúrgueres de peixe, rolls de vegetais, fruta, etc., que estão lá nos menus). Por outro lado, sempre dei consultas em locais onde não há redes de fast-food e gordos e gordas por ali não faltam…
A base do problema são o tipo e quantidade de comida que se ingere, mas parece que os intelectuais da nutrição acham que tudo tem a ver com quem a vende e não com quem a come e o que come. Daí os “brilhantes” resultados que têm conseguido…
É efectivamente pouco adequado para o paradigma ideológico dominante (as pessoas passam fome ou comem demais conforme o objectivo do argumento) aceitar o óbvio: hoje em dia a comida (toda, e não só a fast food) é apelativa, abundante e, felizmente, acessível. Por isso as pessoas dificilmente resistem à tentação, seja ela um abominável e yankee sundae de chocolate (a taxar) ou uns portuguesíssimos secretos de porco preto alentejano (a louvar, até ver). É aí, no apetite incontrolado, que se tem que trabalhar. Mas sem soluções piores que o problema.
Como médico, tenho alguma dificuldade em abdicar de uma visão holística e humanizada da saúde (com pecadilhos incluídos) para a reduzir a uma mera optimização de índices de massa corporal, taxas de colesterol, e projecções economicistas. Acho mesmo que estamos a trilhar caminhos muito perigosos quando começamos a achar que a saúde não é um direito mas sim um dever, e que o papel dos médicos não é aconselhar mas sim impor.
O desejo de controlar os comportamentos em nome do “bem comum” sempre deu em tragédia ao longo da História…e ele aí está de novo em pleno, sob a capa das novas religiões eco-sanitárias e dos novos pânicos todos os dias empolados, quando não inventados.
Por mim, antes anafado e livre que magro e controlado (em Auschwitz também eram…).
No entanto, e a julgar pelas reacções propaladas, parece que há por aí muita gente que está disposta a abdicar da sua liberdade nas mais pequenas coisas. Eu não.
Fernando Gomes da Costa
(Médico)
Excelente.
Comentário por ruicarmo — Setembro 13, 2011 @ 00:33
Acho óptimo sentirem-se livres para não comerem. Que comam o que podem e o que bem entendem mas a ideia de dizerem que os outros não podem, transforma-se em mania doentia.
http://blogs.laweekly.com/squidink/2011/09/foie_gras_ban_los_angeles_chefs.php
Muito gosta esta gente de regular e proibir,
Comentário por ruicarmo — Setembro 13, 2011 @ 00:46
É também nesta importante “frente de batalha” que se vai decidir o futuro da Liberdade amanhã…
Comentário por Rxc — Setembro 13, 2011 @ 09:28
Realço especialmente esta passagem:
“O desejo de controlar os comportamentos em nome do “bem comum” sempre deu em tragédia ao longo da História”
Não diria melhor.
Comentário por o anafado — Setembro 13, 2011 @ 09:50
Mundo Insurgente:
Taxar fast-food = Pide
Utilização dos serviços secretos para benificiar Empresas = Move along, nothing to see here.
Comentário por Alexandre — Setembro 13, 2011 @ 10:30
Os meus parabéns ao autor do texto.
É típico de todo aquele que não sabe escolher o querer impor as suas escolhas a todos os outros. Convence-se, assim, que escolheu bem.
Comentário por zedeportugal — Setembro 13, 2011 @ 21:07
Carissimo Doutor
Não me oponho a que seja ANAFADO e livre , desde que isso não envolva custos para o SNS ou Segurança Social , e a final custos para o já tão sacrificado contribuinte que não tem a possibilidade de trabalhar sem recibo .
Comentário por economista — Setembro 16, 2011 @ 23:03
[...] – Pide no prato 2 – Leitura dominical 3 – A Riqueza das Nações 4 – Lesa-Pátria 5 – [...]
Pingback por Top posts da semana « O Insurgente — Setembro 17, 2011 @ 19:01
“O desejo de controlar os comportamentos em nome do “bem comum” sempre deu em tragédia ao longo da História”
Abaixo o cinto de segurança
Comentário por oscar maximo — Setembro 17, 2011 @ 21:20