O Insurgente

Setembro 11, 2011

Leitura dominical

Filed under: Media — ruicarmo @ 15:22

11 de Setembro de 2011, por Alberto Gonçalves.

Não foram só as imagens dos atentados de 11 de Setembro de 2001 que, conforme se repetiu à exaustão, pareceram retiradas de um filme de Hollywood. O enredo era igualmente familiar: fanáticos treinados por redes instaladas em nações párias usam a hospitalidade ocidental para obter licenciaturas em engenharia, frequentar cursos de pilotagem e, por fim, desviar aviões e lançá-los contra símbolos do poder americano. No filme, não custava adivinhar quem protagonizava o Mal. Na realidade, a coisa foi um bocadinho mais complicada.

É trivial dizer-se que a guerra no Iraque destroçou a simpatia que, há dez anos, a humanidade comovida devotava à América. Trivial e absurdo. A segunda guerra do Golfo começou em 2003. Em 2002 ou, se formos rigorosos, nos minutos seguintes à queda do World Trade Center, a opinião pública internacional já recuperara um ódio antigo e iniciara um encantador processo de subversão dos factos, transformando as vítimas em opressores e os assassinos em vítimas. Na verdade, tratou-se de dois processos simultâneos, nos quais o dia que mudou o mundo acabou mudado pelo mundo.

O primeiro processo visou legitimar os atentados à luz do “imperialismo” dos EUA e particularmente flagrante no presidente George W. Bush. O pormenor de, até à data fatídica, os curtos meses do mandato de Bush terem sido globalmente criticados pelo seu “isolacionismo” não vinha ao caso. O pormenor de os psicopatas que mataram três mil pessoas serem filhos de famílias desafogadas e, grosso modo, naturais de países “amigos” da Casa Branca mereceu idêntico desprezo. Aparentemente, o 11 de Setembro constituía o preço a pagar pela “arrogância” americana.

O segundo processo consistiu em doutrinar as massas na bondade intrínseca do Islão. Enquanto nas mesquitas, incluindo algumas de Paris e algumas de Londres, imãs transtornados incitavam à aniquilação de judeus e cristãos, nos media comentadores suaves de ascendência judaica ou cristã exigiam tolerância para com os partidários da fé em Alá. As críticas ao unilateralismo militar no Iraque e no Afeganistão não se alargaram ao unilateralismo ecuménico. Por azar, o belo pressuposto de que a vasta maioria de muçulmanos não é terrorista despreza a circunstância de que uma minoria razoável dos ditos, no Magreb ou em França, no Paquistão ou em Inglaterra, no Médio Oriente ou na Alemanha, apoia actos terroristas. E, a acreditar nas estatísticas, demasiados muçulmanos aceitam, às vezes com entusiasmo, as sociedades bárbaras, racistas, misóginas e homofóbicas decretadas pela sharia. E demasiados ocidentais também.

Durante a década que hoje se completa, continuaram, inclusive na Europa, os atentados e as ameaças de inspiração islâmica. Ao mesmo tempo, continuou a repulsa do Ocidente por si próprio e a sua subserviência face a uma civilização que urge compreender e, sobretudo, não ofender. Criadores viram-se silenciados. Senhoras célebres e jornalistas obscuras posaram com véu integral. Doidos varridos descobriram conspirações “internas” sob os cadáveres de Nova Iorque, Washington e Pensilvânia. Antropólogos progressistas louvaram a excisão feminina. Fascistas de linhagens diversas organizaram vigílias contra a América, Israel e as democracias suas aliadas. Ingénuos e perversos celebraram as revoltas árabes em prol da asfixia religiosa. E as fitas de Hollywood passaram a promover o fascínio do exótico e a erguer os perigos ecológicos ou as turbulências financeiras à condição de inimigos únicos.

Pelo meio, a ascensão de Obama e a eliminação de Osama não beliscaram o essencial. A 11 de Setembro de 2011, uma Europa demográfica e culturalmente prostrada assiste com enfado às cerimónias nos EUA, aliás em alerta máximo. Sempre que os alvos agradecem, o crime compensa.

11 Comentários »

  1. É pá também já cansa
    - que as guerras no médio oriente e presença militar em mais de cem países (não tenho pachorra para googlar) não seja nem posta em causa
    - guerras que continuaram, incluindo todo o tipo de interferências, guantanamos, etc
    - que nem se fale do fascismo decorrente do patriot act, homeland security, etc
    já basta de rally around the flag, get over it

    Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Setembro 11, 2011 @ 15:45

  2. Alcança quem não cansa. :)
    Sobre o resto, o que não falta – não me apetece googlar – são opiniões, artigos, retratos notícias e palhaçadas sobre o que dizes que nem se fala.

    Comentário por ruicarmo — Setembro 11, 2011 @ 15:48

  3. exacto, ha espuma-gourmet-dos-dias, e que a liberdade seja massacrada todos os dias não interessa, há que não vacilar no braço-de-ferro da “narrativa”

    Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Setembro 11, 2011 @ 15:55

  4. Isso, isso. O crime não deve compensar.

    Comentário por ruicarmo — Setembro 11, 2011 @ 15:58

  5. +700 bases militares pelo mundo fora, PA e DHS que sob a capa da “luta contra o terrorismo” violam grosseiramente (no sentido mais literal da palavra, graças às revistas “enhanced” nos aeroportos pelos agentes da TSA) os mais elementares direitos dos cidadãos (basta atentar no “sucesso” que têm tido outras “guerras” contra conceitos, como a “war on drugs”, que basicamente torna em criminosos largas camadas da população jovem devido a puritanismos histéricos), custo estimando do Iraque + Afeganistão na ordem dos vários triliões (americanos) de dólares, complexo industrial-militar a dominar o aparelho de Estado para garantir uma renda em troca de morte e destruição permanente do “inimigo”, conivência com práticas de tortura e regimes totalitários anti-democráticos, etc…Quem são mesmo os terroristas?

    Comentário por Rxc — Setembro 11, 2011 @ 16:05

  6. não é a _sociedade_ americana, apesar da preocupante (porque crescente e incontestada) “unidade” com o seu Estado

    Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Setembro 11, 2011 @ 16:10

  7. Fiquei a saber por alguns comentários que os Aliados na Segunda Grande Guerra foram piores que Terroristas e claro que durante a Guerra Fria deveriam era ter deixados os Comunistas conuistar o que quisessem…
    .

    Comentário por lucklucky — Setembro 11, 2011 @ 16:57

  8. dez anos de non-sequiturs e atropelos orwellianos à lógica

    Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Setembro 11, 2011 @ 17:00

  9. QED ( a maioria dos comentários…)

    Comentário por JSP — Setembro 11, 2011 @ 19:34

  10. Lucklucky, seriously? Esperava mais do que um argumento estafado e redutor do “bons vs maus”…É que há toda uma panóplia de cinzentos que constituem a realidade. A começar pelos aliados contra o Eixo, onde inclui os Soviéticos, suponho. E recomenda-se vivamente a revisão do discurso do general Eisenhower sobre o desmantelamento da máquina de Guerra criada para a WWII (que nunca foi concluído) e o risco da criação dum complexo industrial-militar.

    Comentário por Rxc — Setembro 12, 2011 @ 00:00

  11. [...] – Pide no prato 2 – Leitura dominical 3 – A Riqueza das Nações 4 – Lesa-Pátria 5 – EUROSHIMA Classificar isto: [...]

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