Com o Outono a despertar, constato que os africanos (subsaharianos) não entraram em Primaveras (as proto-manifestações de Luanda não chegam para fazer regressar uma andorinha). Entretanto as eleições livres no Egipto estão marcadas pela junta militar e foram prontamente boicotadas por boa parte dos partidos e movimentos que a elas podem concorrer. Provavelmente movido pela paixão ao Egipto, o actor e realizador Sean Penn, juntou a sua voz à de alguns egípcios que exigem na praça Tahrir o regresso da revolução. Na vizinha Líbia, a Primavera varre o deserto e varreu do mapa o regime de Kadhafi. Fontes bem posicionadas, relatam que o Mohammed Saeed al-Sahhaf líbio foi preso, vestido de mulher. Mais grave é o facto de se assistir na Líbia “libertada”, sem grandes problemas éticos, a uma espécie de “pogroms”contra os negros, por estes terem servido o coronel Kadhafi como escravos ou mercenários. Movidos pelo realismo cínico que a História e a política internacional são pródigas, apenas 20 dos 53 estados africanos reconhecem institucionalmente as novas autoridades líbias como tal. Os resultados do controlo e expansionismo árabe em África são conhecidos.
Setembro 30, 2011
Encontrado o sucessor de Jerónimo de Sousa
Pole wakes up from 19-year coma
A Polish man has woken up from a 19-year coma to find the Communist party no longer in power and food no longer rationed, Polish TV reports.
Railway worker Jan Grzebski, 65, fell into a coma after he was hit by a train in 1988.
“Now I see people on the streets with mobile phones and there are so many goods in the shops it makes my head spin,” he told Polish television.(…)
When Mr Grzebski had his accident Poland was still ruled by its last communist leader, Wojciech Jaruzelski.
“When I went into a coma there was only tea and vinegar in the shops, meat was rationed and huge petrol queues were everywhere,” Mr Grzebski said.
The following year’s elections ushered in eastern Europe’s first post-communist government.
É grátis (2)
Giles Tremlett, o correspondente do The Guardian em Madrid desde os anos 1990, publicou um livro em 2006, chamado Ghosts of Spain, no qual elogia frequentemente o sistema de Saúde público. Elogia com convicção. Até chegar a primeira gravidez da mulher. É então que [his] patience with public health ran out. Depois de um calvário de nove meses, que passou pelo caos causado pelos hábitos descritos no texto anterior, a última de gota de água foi ver um médico remover os pontos da cesariana enquanto combinava, com o telemóvel entre a orelha e o ombro, uma partida de golfe. O segundo filho nasceu numa maternidade privada.
É grátis
Coisas que aprendemos quando vemos alguns programas de televisão e lemos alguns jornais: o sistema de saúde espanhol, maioritariamente público, é o melhor do mundo, e os ingleses adoram viver aqui a sua reforma porque podem pôr ancas novas sem pagar um tostão. Coisas que aprendemos quando vivemos em Espanha: quando um espanhol é internado num hospital público, há quase sempre um membro da família que o vai acompanhar durante as vinte e quatro horas do dia. Isto está ligado às tradições e à cultura, sim, pelo menos no sul, mas é um comportamento que também é incentivado por médicos e enfermeiros. Estes dizem que, durante a noite, não podem garantir as necessidades básicas do paciente nem acudir a qualquer emergência. Ora, quando a hospitalização se prolonga por uma semana ou mais, imagine-se as consequências deste ritual, ao nível pessoal e laboral. Ah, mas a Saúde é de “borla”
“Desvio” de fundos na Câmara Municipal de Oeiras
Jornal Público (versão papel):
Câmara de Oeiras gastou 1,5 milhões numa escultura
A Câmara de Oeiras entregou a Pedro Cabrita Reis, por 1,25 milhões de euros (mais IVA), a concepção e a execução de um “monumento escultórico comemorativo dos 250 anos do município”. A decisão está a ser muito contestada na blogosfera e um sindicato fala em esbanjamento.
O contrato com aquele artista plástico foi, segundo o Portal dos Contratos Públicos, celebrado em Abril de 2010. Mas o assunto ressurgiu agora na internet, já que a inauguração do dito monumento estava agendada para as 20h de ontem.
Esta indignação tem, pelo menos, quase um ano de atraso (ver segundo ponto).
Leituras complementares: posts no Oeiras mais atrás e Oeiras Local
INE vs DGO
A fim de credibilizar o reporte das contas públicas nacionais, é urgente fundir os relatórios do Instituto Nacional de Estatística (INE) e da Direcção Geral do Orçamento (DGO) num só. É que o relatório hoje divulgado pelo INE, que agrega movimentos de caixa efectivos (já pagos) e futuros (compromissos ainda não pagos), relativo ao primeiro semestre deste ano, dá conta de um défice global no conjunto das administrações públicas de 6.995 milhões de euros; já o relatório da DGO, que agrega apenas movimentos de caixa efectivos, relativo ao período Janeiro a Junho e que tinha sido publicado em Julho passado, dava conta de um défice global de 3.902 milhões!?!
Espero estar enganado
O sítio do sindicato dos jornalistas deve ter um problema técnico que o impede de publicar uma nota que seja sobre a ocupação de um jornal por uma força partidária. Outra hipótese possível é que o sindicato dos jornalistas não pretende influenciar o decurso normal da campanha eleitoral madeirense.
Leitura complementar: Espero estar enganada, por Helena Matos.
Será esta a génese do nosso gosto masoquista por pagar impostos, e quanto mais os aumentarem mais gostamos do governo?
Nos Estados Unidos o tipo de doença do cérebro é certamente diferente e menos maligna, já que o amor aos impostos é bastante menos pronunciado.
batendo no ceguinho Keynesiano: Phillips Curve
Cochrane’s Kinky Curves (Cato@Liberty):
The modern version originated with William Phillips, a New Zealand-born economist who, in 1958 .. suggested that when inflation went up, unemployment went down. Keynesian economists Paul Samuelson and Robert Solow popularized Phillips’ idea as a reason to ratchet up government spending and inflate the money supply .... in 1973, President Richard Nixon, who had famously declared “I am now a Keynesian,” leaned hard on Fed Chairman Arthur Burns to inflate the money supply and drive down unemployment .. as those of us who were around back then recall, both inflation and unemployment went up! This was a bit of a problem for Phillips Curve aficionados.
As if the stubborn stagflation of the 1970s wasn’t bad enough, subsequent efforts by new Fed Chairman Paul Volcker and President Ronald Reagan to stop inflation cold delivered another hammer blow against the Phillips Curve: both inflation and unemployment went down!
a tratar da Saúde
Passados cem dias de Governo and the winner is…Paulo Macedo. O Ministro da Saúde, que ontem anunciou medidas, simultaneamente, importantes e simbólicas, tem tido, na minha opinião, o melhor desempenho governativo do Governo de Passos Coelho.
Ora, estava com grande curiosidade quanto ao comportamento ministerial deste Ministro. Desde logo, porque, enquanto director geral das Finanças, nunca lhe apreciei o estilo “bully” e porque foram frequentes as vezes em que abusou dos direitos dos contribuintes, esmagando-os, perseguindo-os sem limite, o que, num Estado caloteiro como o nosso e onde a Justiça contra o Estado não funciona, não é aceitável.
Mas sem prejuízo do disposto anteriormente, também é verdade que os traços de personalidade deste Ministro, se calhar, são ideais para lidar com o problema financeiro na Saúde. Neste sector, com o passar das décadas, estabeleceram-se relações promíscuas entre as entidades públicas e privadas, que conduziram a vários abusos. Médicos que não estavam nos hospitais, como contratado, mas sim nas suas clínicas particulares. Capacidade instalada no serviço público, mas não utilizada. Horas extraordinárias, pagas a peso de ouro, resultantes de conluios diversos e de má gestão hospitalar. E, claro, um “lobby” farmacêutico poderosíssimo que, monopolista e (estranhamente) vencedor de todas as contendas com o seu cliente Estado, foi manipulando a seu bel-prazer os preços dos medicamentos. Incluindo uma também poderosa participação no segmento empresarial dos genéricos que fazem com que Portugal exiba uma das mais baixas taxas de penetração de genéricos na Europa.
Assim, as notícias ontem apresentadas, nomeadamente a imposição por parte do Estado português, acção legítima tendo em conta que é o principal e quase exclusivo cliente das farmácias nacionais, de taxas de comparticipação regressivas nos medicamentos, incentivando a prescrição de medicamentos mais baratos entre sucedâneos, são excelentes notícias. Ganha o SNS (logo, os contribuintes) e ganham os utentes. Quanto às farmácias e indústria farmacêutica, terão de se ajustar. Infelizmente, mal habituados que estão, será um longo (e pouco lucrativo) processo de ajustamento, como a demissão do histórico João Cordeiro aí está para demonstrar. Ainda relativamente a novas medidas, o Diário Económico avança hoje (página 10), que o Ministro da Saúde irá isentar de taxas moderadoras os doentes que cheguem às urgências referenciados pelos médicos dos centros de saúde. Sendo certo que as carências de recursos nos centros de saúde são acentuadas (é lá que faltam médicos que, por sua vez, sobram noutras áreas redundantes; e ao contrário do que dizem os políticos do sector, é lá que existem relatos muito credíveis de falta de medicamentos, incluindo pílulas contraceptivas), também é um facto que a desobstrução das urgências dos hospitais passa em primeiro lugar por um eficaz funcionamento destas unidades de saúde.
Para concluir, se Paulo Macedo, para além das melhorias de eficiência, conseguir limpar o passivo do Sistema Nacional de Saúde, coisa que se exige dadas as dívidas grotescas associadas ao sector – embora uma auditoria prévia não fosse má ideia –, então sim, completará um grande trabalho. Pelo contrário, na ausência de um saneamento financeiro dessa natureza, toda a dimensão ética que este ímpeto reformista inicial promete trazer será perdido. Mas, felizmente, para já, a coisa parece estar bem encaminhada.
Ps: A pressão da banca nacional ao Estado português é cada vez maior, estando este a ser rejeitado como cliente em várias e diversas áreas. As palavras de Cavaco Silva não foram inocentes…
Lincoln vs Barroso
Durante a guerra civil americana em que os Estados do sul quiseram ser independentes e abandonar os EUA o presidente Abraham Lincoln escreveu:
“My paramount object in this struggle is to save the Union, and is not either to save or to destroy slavery. If I could save the Union without freeing any slave I would do it, and if I could save it by freeing all the slaves I would do it; and if I could save it by freeing some and leaving others alone I would also do that. What I do about slavery, and the colored race, I do because I believe it helps to save the Union; and what I forbear, I forbear because I do not believe it would help to save the Union.”
Esta é a mesma falta de princípios apresentada por Durão Barroso e respectivas elites europeias. Nada mais interessa senão salvar a “União” (i.e. salvar o Estado pelo Estado, a autoridade pela autoridade), mesmo que tal represente a miséria económica e social de milhões de europeus.
Em 1865 Lincoln venceu pela via do autoritarismo; em 2011/12 Durão Barroso só poderá vencer por essa via.

Setembro 29, 2011
Como não formar cientistas
Início do novo ano lectivo. O meu filho de 12 anos começa o 7º ano. Traz um trabalho de casa de Ciências Naturais. No final de um capítulo dedicado às teorias geocêntricas e heliocêntricas, surge um pequeno texto sobre o space shuttle e algumas dificuldades técnicas que impediram uma missão. Pergunta sobre o texto: «Em que medida este acontecimento mostra a profunda relação entre a Ciência e a Tecnologia?»
O resto do capítulo não é diferente. Quem concebe o programa de Ciências Naturais está mais preocupado em tentar incutir em crianças de 12 anos conceitos sobre a sociologia e a filosofia da ciência do que ensinar factos, teorias e conhecimento que permitam aos miúdos ganhar interesse pelo assunto. Entre as tretas pós-modernas de idiotas como Boaventura de Sousa Santos e quejandos, e a quase iliteracia funcional dos autores dos manuais escolares, para não falar nos imbecis que os certificam no ministério, vamos construindo um futuro em que quase ninguém sabe ciência, entende física ou percebe matemática.
Como dizia o outro: Porreiro, pá!
Dicionário Português-Progressista
Censura: uma empresa privada não aceita expor uma obra que não está de acordo com os seus padrões.
Progresso: um governo tenta proibir uma campanha publicitária.
a entrevista do Presidente
A entrevista de ontem do senhor Presidente da República à TVI, assinalando os primeiros seis meses do seu segundo mandato, foi qualificada pela generalidade dos comentadores como tendo sido boa ou, pelo menos, suficiente mais. Na dita entrevista, em meu entender, foram transmitidas três grandes mensagens: a) que Cavaco apoia a sobretaxa extraordinária de IRS, mas que continua a discordar da redução salarial que se fez este ano na função pública; b) que Cavaco considera normais as atoardas de Alberto João Jardim, acrescentando ainda que os madeirenses têm todos os dados para poderem votar em consciência e; c) que o Presidente da República entende que a chamada troika está a ser demasiado exigente no que diz respeito à recapitalização da banca portuguesa.
Ora, começando pelo primeiro ponto, é extraordinária a recorrente preocupação do Chefe de Estado em manter a lealdade do seu eleitorado base: o chamado Monstro, uma criação sua enquanto Primeiro-Ministro. E, francamente, não entendo como é que, apesar de toda a evidência factual (a mais concludente é até do próprio Banco de Portugal, publicada em Julho de 2009) que aponta para uma clara e expressiva desigualdade salarial entre aqueles que (majorados) trabalham na órbita do Estado e aqueles que trabalham no sector privado, o Presidente continua a apresentar a Função Pública como negativamente estigmatizada pelo resto do País. Na minha opinião, e sendo Cavaco um economista, só pode ser por cálculo político. Quanto à sobretaxa de IRS, pelos vistos, o Chefe de Estado aprova que o Governo, sem antes ter esgotado as medidas previstas e prometidas na campanha eleitoral, tivesse lançado mão de uma medida que havia jurado não implementar. Segundo ponto, é inconcebível afirmar-se que os madeirenses têm todos os dados para poderem votar em consciência. Que o Presidente queira desculpar as diatribes de Alberto João, mais uma vez por razões tácticas, eu entendo, mas sabendo-se já, como ainda ontem Carlos Moedas afirmou na televisão, que a Madeira será especialmente afectada por um programa reforçado de austeridade, infelizmente, apenas conhecido depois das eleições regionais, não é possível, em boa consciência, defender que todos os dados são já conhecidos. Por fim, terceiro ponto, a recapitalização da banca, a chamada de atenção do Presidente da República reflecte a sua preocupação com o que se está a passar no terreno. É que não foi apenas ao sector privado que a banca cortou o crédito; o próprio Estado também está a esbarrar na parede, quiçá, como forma de a banca forçar o Estado a pressionar a troika…
Em suma, a entrevista de ontem, tendo sido melhor do que eu esperava, transmitiu, embora apenas de forma aparente, uma certa sensação de normalidade. E isso, valendo o que vale, foi positivo. Mas não deixou de mostrar um Presidente à defesa.
No Fio da Navalha
O meu artigo para o jornal i desta semana.
Direito de escolha
Na busca cega da igualdade, o Estado diferencia alunos e promove mais desigualdade. Onde está a justiça social?
Estamos em Setembro e chegámos ao início das aulas. Desta vez a novidade está no êxodo dos alunos das escolas privadas para a públicas. A crise, a que se juntou a forte subida dos impostos para salvar a falência do Estado, obrigou os pais, que se sacrificavam para ter os filhos no ensino privado, a desistirem de escolher o tipo de educação que queriam para eles. Veja-se o contra-senso: o Estado que está falido, cobra impostos que dificultam a vida aos que não querem ser um peso na sua estrutura. Penaliza os que assumiram como custo seu a educação dos filhos, não onerando, dessa forma, os seus concidadãos. Em vez de incentivar quem não pretende ser uma sobrecarga desnecessária para os outros, o Estado penaliza-os. Infelizmente, esta não é a única incongruência na política educativa que há anos nos prossegue. (mais…)
alavancar o EFSF?! (5)
“(…) The most recent nonsense making the rounds is that the euro zone should allow the European Financial Stability Facility to borrow, increasing its available resources and using taxpayers’ pledged €440 billion ($597 billion) as a sort of capital base. The notion is that this would ensure bailout facilities have sufficient “firepower” to “shock and awe” the doomsayers into a more sanguine state of mind. I use the quotation marks because such phrases are just shorthand for pumping up moral hazard. Acting on this plan would lead to the mutualization of hundreds of billions of Italian and Spanish debt within weeks, without any further adjustment of policy by the governments in question to defend their own credit. No one appears to have given a moment’s thought to whose money would be put at risk (…) As Axel Weber, the prophet not recognized in his own house, spelled out with typical force and clarity in a lecture at the weekend, the most dismaying aspect of the levered EFSF proposal is that it shows Europe’s politicians have learned nothing from 2008. Leverage gives only the short-term illusion of firepower, at the cost of a huge increase in risk. Making taxpayers fund a “first loss” tranche of financing for Europe’s bailout vehicle massively increases the chance of their funds being wiped out.”, hoje no Wall Street Journal.
E se de repente um sindicato lhe oferecer uma notícia em bouquet isso é…
Atentem, por exemplo, na qualidade jornalística deste parágrafo de uma “notícia” intitulada “Acabar com o envio dos mapas de horários de trabalho à ACT é um “erro”:
“A inspectora Maria Armanda Carvalho questiona-se sobre essa “figura da autorização automática” e como funciona. Ninguém analisará os pedidos? E se o seu conteúdo não for rigoroso ou aceitável? Não haverá o risco de reduzir requisitos legais a meras formalidades? Haverá ainda uma portaria a determinar esse procedimento? Que sistema informático irá dar essa “autorização automática”? Dúvidas ainda sem resposta.”
Dúvidas ainda sem resposta? Que tal o senhor jornalista do Público ir à procura das respostas antes de fazer copy/paste do que Sindicato dos Inspectores de Trabalho lhe deu? A ACT não quis comentar e a história acaba aí? Mas afinal o senhor jornalista do Público é pago para quê?
What is Wrong with Global Warming Anyway?
What is Wrong with Global Warming Anyway? por David D. Friedman:
.. nobody knows if the net effects would be good or bad, and probably nobody can know. We are talking, after all, about effects across the world over a century. How accurately could somebody in 1900 have predicted what would matter to human life in 2000? What reason do we have to think we can do better?
.. The earth and its climate were not, after all, designed for our convenience, so there is no good reason to believe that their current state is optimal for us ..
If we have no good reason to believe that humans will be substantially worse off after global warming than before, we have no good reason to believe that it is worth bearing sizable costs to prevent global warming.
Permitam-me um bocadinho de “fundamentalismo demagógico” a propósito da RTP (Parte II)
O Manuel Castelo-Branco respondeu ao meu post em relação à RTP dizendo que está de acordo quanto ao meu diagnóstico mas não quanto à minha solução, resumidamente, porque a minha solução não garante a “sustentabilidade” do mercado. O problema é que isto não é verdade. A minha solução, tirar o Estado da comunicação social rapidamente e em força, garante a sustentabilidade do mercado. O que não garante é a sustentabilidade do mercado que temos actualmente. Mas isso é positivo, não negativo.
Vamos por partes.
Quando os operadores privados dizem que “não há espaço” para um novo canal comercial o que estão a dizer é que talvez não haja espaço para eles próprios. Depois de terem conseguido que a partir de 2003 fossem os contribuintes a oferecer-lhes publicidade, limitando a que a RTP pode exibir a metade do que a lei lhes permite a eles exibir, agora estão compreensivelmente preocupados que o festim acabe. É claro que, já que preferem dedicar-se ao lobbying em vez de tentarem produzir conteúdos que os consumidores queiram comprar, podiam convencer o governo a mandar uma boa parte da Lei da Televisão e do Código da Publicidade para o lixo mas percebo que seja mais fácil e proveitoso tentar manter as coisas como estão. Ou seja, como disse no meu post, já se sabe que a RTP é óptima para os Governos, para os operadores privados e para os trabalhadores da RTP. O que ainda ninguém conseguiu explicar é a única parte verdadeiramente relevante desta questão e a única parte com que o Governo se devia preocupar: em que medida é que a RTP é boa para os portugueses em geral.
Mas presumo que seja aí que entra a outra metade do argumento do Manuel Castelo-Branco, a de que a existência da RTP subsidiada pelos contribuintes garante (ou, pelo menos, não acaba com) a viabilidade financeira de múltiplos jornais e rádios por esse país fora e, como isso é bom para a democracia, os contribuintes devem a continuar a subsidiar a RTP.
Mesmo sem entrarmos na imoralidade (sim, imoralidade) destas transferências, esta análise está errada em dois aspectos. O primeiro, é formal. O que nós estamos aqui a debater é se é bom ou mau para o mercado privatizar/acabar com a RTP. Não estamos a debater se é bom ou mau para a democracia a existência de jornais, rádios e canais de televisão. O que nós estamos a debater é precisamente se o facto de “entre 2009 e 2012 o mercado publicitário cairá entre 25% e 30%” e as eventuais consequências no mercado publicitário da privatização da RTP implicam uma “redução do nº de players do mercado, a redução da concorrência e menor liberdade de escolha”. Enquanto esta relação não for provada, não vale agitar a bandeira da qualidade da democracia.
O segundo aspecto errado na análise é precisamente a ligação entre o que o Manuel Castelo-Branco diz que vai acontecer ao mercado publicitário e o que isso implica para as empresas de comunicação social.
Dizer que se o mercado ficar “sem espaço” isso acaba com o mercado não faz sentido. Assumindo que o Dr. Balsemão quer continuar a ter dinheiro, se o mercado ficar “sem espaço”, vai ter de tornar a Impresa mais eficiente, mais rentável, mais inovadora, mais produtiva, etc. É aliás o que tem acontecido desde que o mercado ficou “sem espaço” por causa da internet e isso transformou o sector da comunicação social num dos mais inovadores da economia, precisamente porque gerou uma procura desenfreada por modelos de negócios que tornassem viáveis jornais, rádios, etc. Uma procura que até levou alguns iluminados a falar em booms iminentes no sector da comunicação (com uma ajuda da tal desregulação). Uma procura que não levou a uma redução do nº de players do mercado, a uma redução da concorrência e a uma menor liberdade de escolha, mas sim ao inverso. Resumindo, eu gostava sinceramente que o Dr. Balsemão transmitisse aos seus colegas a mensagem que o país já lhe transmitiu a ele há anos: talvez não fosse má ideia concentrarem-se nos negócios e esquecerem a política. Ficávamos todos a ganhar.
Dizer que se o mercado ficar “sem espaço” isso acaba com o mercado é uma espécie de aplicação pro-business (e não pro-market) da lógica que a esquerda usa em relação à fiscalidade. Quando a esquerda acha que o Estado precisa de dinheiro, olha para as declarações de impostos dos portugueses e desenha um esquema para ir buscar o dinheiro necessário ao bolso dos contribuintes sem sequer lhe passar pela cabeça que talvez isso altere os incentivos que os portugueses têm para produzir riqueza. O facto de não conseguirmos saber o que vai acontecer no futuro não prova que o futuro não existe, apenas prova que somos ignorantes. E a ignorância não é propriamente a base ideal para uma qualquer política pública.
Finalmente, dizer que se o mercado ficar “sem espaço” isso acaba com o mercado é admitir que o mercado só sobrevive se os contribuintes continuarem a financiar indefinidamente e de forma abitrária empresas privadas. Isto parece-me um óptimo motivo para acabar com esse “mercado” ou com essas empresas. Pintar, como faz o Manuel Castelo-Branco, o fim dessas transferências como uma espécie de “imposto sobre os ricos ou uma taxa tobin sobre os media” é inaceitável. Parafraseando a Thatcher, o dinheiro, esse dinheiro, não é dos ricos ou dos media e sobretudo não é do Governo para que este o distribua. É dos contribuintes.
Opções políticas onde benefícios intangíveis para a sociedade têm como contrapartida vantagens muito concretas e palpáveis para grupos perfeitamente identificados são algo a que estamos tristemente habituados. Acabar com estes cozinhados ou, pelo menos, discuti-los abertamente, é que vai melhorar a democracia.
Leitura complementar: Permitam-me um bocadinho de “fundamentalismo demagógico” a propósito da RTP, “When it’s darkest men see the stars“
Wikileaks, a casa dos segredos
Ingredientes : Um concorrente que quer mudar o mundo de acordo com a sua visão inspirada, outro que é o único capaz de decidir o que é (ou não) segredo, outro que é um putativo vencedor do prémio nobel da paz, outro que punha os Pentagon Papers a um canto da História, outro que ia aterrorizar os governos do mundo e tornar o universo um lugar melhor.
Duração: A cozer, com variações de fogo, desde 2010.
Bem apresentado por Alasdair Roberts The WikiLeaks Illusion.
Setembro 28, 2011
Irresponsabilidade Ilimitada
A entrevista do Senhor Presidente da República foi, no mínimo, soporífera.
Lá mais para o fim o senhor, que se refere a si mesmo na terceira pessoa (no melhor estilo futebolístico), despertou-me do torpor com a ideia do crédito europeu ilimitado. Repito: ILIMITADO.
E, para que não restem dúvidas, o Senhor Presidente exemplifica, toma o caso concreto da Itália e recomenda como solução a compra ilimitada da dívida italiana. Perfeito! Afinal, qual é o problema? É só pôr a máquina do dinheiro a imprimir mais depressa.
Palavras para quê? É um artista português!
O mundo azul mudou
A equipa técnica do FC Porto – a primeira escolha de Pinto da Costa – aguentará a próxima derrota?
Além do melhor futebol, o Zenit de São Petersburgo contou com a ajuda inesperada de um disparate de Fucile, expulso mesmo antes do intervalo. E o golo de James, aos 10’, foi de todo insuficiente para manter a tradição de os portistas conseguirem resultados positivos em solo russo. Para satisfação do Presidente Dmitri Medvedev, conhecido adepto da equipa que veste totalmente de azul e que ontem dominou totalmente o jogo. E para desgosto do treinador portista, que viu a equipa somar mais uma exibição pobre (a terceira consecutiva), num jogo em que nem a lesão prematura de Kléber (32’) serve de desculpa, tal a superioridade adversária. Helton sofreu três golos e poderiam ter sido mais.
“Ladies and gentlemen, the longer I am here the more I feel that this assembly is more a part of the problem than a part of the solution”
Jan Zahradil: Czech politician, member of the european parliament and chairman of the European Conservatives and Reformists group in the European Parliament.
Perversão explicada
Explaining the perverse double of double taxation with a chart, por Dan Mitchell.
There are a lot of boxes, so it’s not a simple flowchart, but the underlying message hopefully is very clear.
1. We earn income.
2. We then pay tax on that income.
3. We then either consume our after-tax income, or we save and invest it.
4. If we consume our after-tax income, the government largely leaves us alone.
5. If we save and invest our after-tax income, a single dollar of income can be taxed as many as four different times.
You don’t have to be a wild-eyed supply-side economist to conclude that this heavy bias against saving and investment is not a good idea for America’s long-run prosperity.
“É um fenómeno e a cultura é uma coisa importante”
Joe Berardo denuncia existência de “saco azul” na Fundação CCB
“Diziam que quando as fundações são do Governo e têm dinheiro a mais, este reverte no fim do ano para o Governo e o problema é que, além do saco azul, [a Fundação CCB] tem uma lista de onde investiu e não está investido em Portugal, é quase tudo investido fora do país”, disse o empresário à agência Lusa.
Joe Berardo apontou que esta situação é tanto mais grave porque a Fundação Berardo (FB), “vizinha” da Fundação CCB, ainda não recebeu o dinheiro estabelecido no acordo com o Estado e “não tem dinheiro para os salários este mês”.
(…)
“Se querem poupar nas despesas das fundações era melhor a fundação Berardo e o CCB se juntarem. Pelo menos vão ter fundos para continuarem a obra cultural e reduzir as despesas”, sugeriu.
Joe Berardo diz estar ciente que “fazendo esta denúncia e com o que eu disse ontem e o que eu tenho dito no passado sobre o Presidente da República, que é capaz de eles até pararem com o Museu Berardo”, destacando que só no passado fim-de-semana cerca de 8 mil pessoas visitaram aquele espaço.
“Temos tido um grande sucesso de motivar as pessoas a visitar os museus. É um fenómeno e a cultura é uma coisa importante”, concluiu, declarando que isto tem sido algo a que tem dedicado toda a vida.
Tragédia orçamental e comédia política
Assim vai a Madeira: Candidatos do PND barricados no edifício-sede do Jornal da Madeira
A entrada nas instalações no jornal, situado na Rua Dr. Fernão de Ornelas, principal rua de comércio do Funchal, seguiu-se a uma pequena declaração de António Fontes, na qual o candidato criticou os apoios concedidos pelo Governo Regional da Madeira, que detém a maioria do capital social daquele órgão de comunicação social. Além de António Fontes, também Dionísio Andrade, Gil Canha, Hélder Spínola, Eduardo Welsh e Baltasar Aguiar participam na acção do PND. O actor Márcio Amaro, que na campanha do PND-Madeira assume o papel de um agricultor madeirense com algumas semelhanças a Alberto João Jardim, também está no interior do edifício.
“Vamos passar da legítima defesa à acção directa. Vamos entrar no Jornal da Madeira, vamos-nos barricar aqui dentro enquanto não formos ouvidos pelo vice-presidente do governo regional [João Cunha e Silva] ou pelo senhor bispo do Funchal [D. António José Cavaco Carrilho]. Daqui não sairemos”, assegurou António Fontes.
Subsídios fraternos
Para além dos 50 mil euros anuais que “o Município está obrigado” a dar como “apoio financeiro” à fundação de Soares, acrescem mais 14.825 euros, propostos pela vereadora da Cultura, Catarina Vaz Pinto – e que vão hoje a discussão e votação em reunião de Câmara.
Sondagem dá PSD com maioria absoluta
A política do PSD de subir impostos em vez de impôr verdadeiros cortes na despesa está a ter um impacto positivo no eleitorado. Enquanto PS e CDS continuam a cair nas sondagens, o PSD estará agora a rondar a maioria absoluta. Depois de se tornar redundante ideologicamente, o CDS está em risco de se tornar desnecessário.
2,7%
Relativamente aos notáveis resultados do Bloco de Esquerda nesta sondagem, aguardo com alguma expectativa os comentários que certamente vão aparecer aqui e aqui.
Extinguir a Entidade Reguladora para a Comunicação Social
Pegando na oportuna questão do Rui A., creio que é claro que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social tal como existe, com os seus cinco directores e sessenta funcionários, serve essencialmente como um instrumento de pressão e controlo político sobre a comunicação social. E parece que nem a crise trava a ERC: Seguro negoceia ERC com Relvas.
junk food
“O presidente da Comissão, Durão Barroso, vai hoje propor a adopção de uma taxa mínima sobre compra e venda de acções, obrigações, títulos e derivados, que vai cobrir 85% das transacções financeiras da União Europeia. Num esboço recente da proposta, a Comissão trabalhava com uma taxa na ordem de 0,1% sobre acções e obrigações e de 0,01% sobre derivados e render entre 30 a 50 mil milhões por ano, mas os números finais deverão ser ultimados hoje de manhã na reunião do colégio de comissários em Estrasburgo (…) A decisão terá de ser tomada por unanimidade no Conselho Europeu e conta já com a oposição de países como o Reino Unido e a Suécia.”, hoje, no Diário Económico (página 16).
A proposta descrita em cima, que vou, simpaticamente, classificar de “junk fund” (aparentemente barata, de má qualidade), é um tiro ao lado em todos os campos. Primeiro, em matéria de facto, a imposição de uma taxa de 0,1% nas transacções de acções e de obrigações teria um impacto significativo na redução da liquidez diária dos mercados financeiros. Dir-me-ão: mas a função económica dos mercados não é simplesmente assegurar financiamento para as entidades emitentes que lá cotam os seus títulos? É, porém, do ponto de vista dos financiadores, que podem ser investidores de longo prazo ou especuladores de curto prazo, a beleza do mercado de capitais está na facilidade de encontro dos preços oferecidos por compradores e por vendedores e que é consequência directa do volume de transacções. Quanto maior este for, maior será a proximidade de preços compradores e vendedores e mais próximo estará o preço de mercado do preço justo. Imaginem, agora, um investidor institucional, que por conta de aforradores e pensionistas, movimenta diariamente milhões de acções ou de obrigações. Com esta nova taxa, este gestor iria pagar mais 0,1% de taxas diárias, o que, multiplicado pelas cerca de 260 sessões bolsistas do ano, representaria um encargo anual de 26 pontos percentuais sobre a carteira movimentada. Imaginem quem iria suportar este encargo? Os participantes do tal fundo, directamente e em primeiro lugar, e as entidades emitentes de seguida, por via da transferência de custos ou, mais provável ainda, pela via de menores recursos disponíveis para as suas actividades de financiamento. Um absurdo, portanto. Em particular, numa altura em que tanto se fala de falta de financiamento e, sobretudo, de falta de alternativas ao financiamento bancário.
Segundo, em matéria de forma, eu pergunto-me, por que carga de água se movimenta todo um Colégio de Comissários Europeus, a fim de apresentar uma proposta que, já se sabe, está derrotada à partida? É para isto que se pagam salários sumptuosos àqueles senhores? Para perderem tempo com ideias idiotas, que nada acrescentam à resolução dos problemas? Ó Sr. Barroso, francamente…
Motivos de reflexão para Seguro
Dados que deveriam fazer a actual liderança do PS reflectir seriamente sobre a credibilidade do estilo de oposição que decidiu adoptar, ainda para mais sabendo-se que a governação não tem sido propriamente exemplar: PSD e Passos Coelho com popularidade em alta
De acordo com este inquérito, o PSD conquista actualmente os 47,1% das intenções de voto, contra 23,3% das intenções de voto dos socialistas (uma queda de quase sete pontos em relação ao último barómetro, nas vésperas das legislativas de Junho).
A TSF recorda que, mesmo com a mudança do seu líder – após a saída de José Sócrates -, o PS surge com o seu pior resultado em quatro anos.
O CDS-PP, parceiro de coligação governamental, conta actualmente com 6,8% de intenções de voto.
À esquerda as coisas não estão famosas: CDU obtém 4% de intenções de voto e o Bloco de Esquerda apenas 2,7%, naquele que é o pior resultado de sempre neste barómetro do partido liderado por Francisco Louçã.
Nota muito positiva para os resultados da extrema-esquerda, ainda que pessoalmente me custe a acreditar numa queda tão grande em tão curto espaço de tempo. Será que o Povo está mesmo a acordar?
O porta-voz do Povo que há-de acordar
OS Carlos Moedas e os Miguéis Noronhas que não falam para o Povo são do piorio. Resta esperar que o Povo acorde e corra com essa gente toda instalando a verdadeira social-democracia dos Carlos Botelhos.
Democracia e intervencionismo
o intervencionismo destruirá a democracia. Por Rui A.
Em 1940, num livro com o título «Intervencionismo: uma análise económica», Ludwig von Mises escrevia, sobre o fracasso das democracias europeias do seu tempo, o seguinte: «O intervencionismo transformou o governo parlamentar no governo dos grupos de pressão. Não foram o parlamentarismo e a democracia que fracassaram. Foi o intervencionismo que paralizou tanto o parlamentarismo como a economia de mercado».
(…)
O ponto de vista de Mises explica bem o que se passa no nosso tempo, em Portugal e nas democracias europeias e ocidentais. A crise dos países do euro, por exemplo, é cada vez mais uma crise da democracia representativa, verdadeiramente afastadas que as soberanias têm estado dos interesses das suas populações, tornando-se reféns não dos «mercados», como agitam os políticos que são responsáveis por ela, mas de meros interesses circunstanciais de política eleitoral e de clientelas específicas (empresas de construção, lobbys bancários, dirigentes sindicais, alguns caciques locais, etc.). Os políticos prometem em campanha o que sabem não poder cumprir no governo, o que descredibiliza o sistema democrático e provoca a desconfiança generalizada das populações em relação aos sucessivos governos, aos políticos e à política, o mesmo é dizer, à democracia. O intervencionismo crescente dos estados democráticos tem servido para aumentar exponencialmente a sua esfera de ocupação da vida civil, para esvaziar a responsabilidade social e individual, e substituir estas últimas pela decisão governamental e burocrática, o que reforça a necessidade de satisfazer grupos de pressão e de influência determinantes para a manutenção do poder, seja no governo, nas autarquias, nas empresas estatais ou de controlo indirecto do estado, ou dentro das estruturas partidárias.
food for thought
“The horns have sounded and the hounds are baying. Across the developed world the hunt for more taxes from the wealthy is on (…) There is a basic bargain to be had. Imagine a tax system which made the top rates on wages and capital more equal, and which eliminated virtually all deductions. To avoid taxing investments twice, such a system would get rid of corporate taxes. It would also allow for a much lower top rate of income tax. The result? A larger overall tax take from the rich, without hurting the dynamism of the economy. Now that would be worth blowing your horn about”, em “Hunting the rich”, o editorial desta semana da revista “The Economist” (destaques meus).







