Há uns anos, logo depois da reeleição de G.W. Bush e da vitória do GOP no congresso, lembro-me de ler um editorial no The Economist decretando a morte do Partido Democrático e prevendo muitos anos de domínio republicano na política americana. Depois da vitória de Barack Obama e respectivo triunfo democrático no congresso, seguiu-se novo editorial decretando a morte do Partido Republicano e prevendo muitos anos de domínio democrático na política americana. Não foram necessários mais de dois anos para o GOP retomar a Câmara dos Representantes e reduzir a maioria democrática em seis senadores.
O grande problema da análise política conjuntural é a sua incapacidade de prever as alterações fundamentais no equilibrio de forças eleitorais que podem resultar de coisas tão simples como o surgimento de uma figura carismática, uma crise geopolítica ou económica, uma mudança no estado de espírito dos eleitores ou uma mudança no discurso dominante entre os opinion makers. Se por vezes estas alterações ocorrem num único ponto no tempo, o que as torna realmente imprevisíveis, noutras ocorrem numa sequência de momentos, podendo ser observadas à medida que influenciam os acontecimentos políticos.
O Nuno Gouveia, na forma ligeira como retrata Ron Paul como um candidato “inexistente”, tal como faz tipicamente a imprensa, cai neste erro de análise que olha para o espelho retrovisor. A importância de um candidato não se mede apenas pela probabilidade de vencer. Goldwater sofreu uma derrota gigantesca perante Johnson, mas lançou as sementes que tornaram Reagan possível. De igual modo, foram as sementes lançadas por Paul em 2008, especialmente os movimentos grassroots espalhados pela América, que tornaram possível as tea parties um pouco por todo o lado que resultaram nessa entidade incorpórea a que chamam Tea Party. Nestas primárias, o discurso está necessariamente ancorado em torno da redução do governo e dos seus gastos de uma forma que seria anteriormente impensável. A simples presença de Paul nas primárias condiciona o discurso dos restantes candidatos. Este efeito é tanto maior quanto o seu peso nas votações. Em 2008 as sondagens davam-lhe consistemente resultados inferiores as 2% a nível nacional. Em 2011, têm dado consistentemente resultados próximos dos 10%. Fosse o homem 10 ou 20 anos mais novo e daqui a quatro anos talvez surgisse como um “candidato natural” com sondagens nacionais perto dos 20%.
Mas mesmo se nos limitarmos a olhar para as primárias de 2012, um candidato com 10% a nível nacional, com dinheiro e vontade para ir até ao fim (já anunciou que não voltará ao congresso) é sempre alguém que entra nas “contas”. Desde 1976 que se sabe antecipadamente quem vencerá a nomeação republicana na convenção nacional. Não tem de ser sempre assim.
Excelente análise.
Comentário por André Azevedo Alves — Agosto 17, 2011 @ 16:19
O Jogo Sujo feito pelas Estações de TV como a NBC – aquelas que os jornalistas tugas chamam de independentes – já começou.
http://hotair.com/archives/2011/08/16/ed-schultz-sorry-for-deceptively-editing-that-rick-perry-video/
Comentário por lucklucky — Agosto 17, 2011 @ 19:52
É pelo exercício continuado de “jornalismo” deste tipo conjugado com a descarada agenda anti-AGW (e anti-económica…) que acabei este ano com a assinatura da The Economist que durava já há mais de 30 anos.
O MSM está corrupto e apenas tem como preocupação salvar o status quo.
Comentário por Eduardo F. — Agosto 18, 2011 @ 02:37