O ministro da Economia Álvaro Santos Pereira denunciou, e fez muitíssimo bem, a existência de um ambiente de ostentação nos ministérios que agora chefia, classificando-o de insultuoso face à crise que Portugal vive. E foi interessante ver as caras contraídas dos deputados do PS perante as afirmações do novo ministro. Mas, curiosamente, creio que a denúncia de Santos Pereira nem sequer tinha em vista pôr em causa as pessoas do PS. Pelo contrário, creio que o ministro acabou por sublinhar uma certa cultura instalada, pela qual as pessoas – do PS ou do PSD/CDS –, naturalmente, se deixam seduzir.
Vou dar um exemplo: há tempos fui convidado para um programa de televisão em Lisboa, no qual se debateu a questão dos transportes públicos. Um dos outros convidados era o chefe de gabinete do então secretário de Estado. À saída, enquanto eu me dirigia para o meu carro, pude observar o referido senhor – uma simpatia de pessoa, sublinhe-se – a dirigir-se para uma viatura de alta cilindrada do Estado, aparentemente novinha em folha e acompanhada do respectivo motorista fardado a rigor. Perguntei-me: não poderia o senhor chefe de gabinete do secretário de Estado ter ido de táxi? É que já nem digo de transportes públicos – seria, apesar de tudo, um bom exemplo, sobretudo tendo o programa versado aquela matéria –, mas não bastava chamar um simples táxi? Pelos vistos não, é mesmo preciso um Audi A8…para transportar um indivíduo que, por mais consideração que me mereça, ocupa uma posição subalterna na hierarquia governamental. Enfim, como disse antes, não estão em causa as pessoas que, porventura, até dispensam estas benesses; está em causa uma cultura instalada que faz parecer mal quem das benesses não beneficia.
Assim, se Álvaro Santos Pereira quer mesmo dar o exemplo, acabando com aquilo que acaba de denunciar, então, que alargue o exemplo do seu ministério a todos os institutos públicos que por aí existem e que, de si dependendo, praticam abusos ainda piores.
Ps: A propósito de transportes públicos e da recente alteração tarifária, entendo a insatisfação dos utentes pela subida dos preços. Mas não entendo a intrujice – lamento, mas não há outra palavra – que as associações de utentes veicularam na comunicação social, a fim de envenenar a opinião pública contra uma medida absolutamente imperiosa e infelizmente ainda insuficiente. Em Democracia, não pode valer tudo…
[...] uma cultura enraizada Ricardo Arroja Wed, 03 Aug 2011 09:59:20 GMT [...]
Pingback por uma cultura enraizada « 25 de Novembro sempre ! — Agosto 3, 2011 @ 11:50
Se o estado faz malabarismos orçamentais entre as suas empresas (como por exemplo usar as receitas de publicidade dos seus canais para injetar noutros sítios), porque não tentar amenizar o aumento dos transportes da mesma forma? Nem digo que não devam aumentar, mas 25%, em alguns casos, é um exagero. Ainda por cima quando estão previstos novos aumentos para janeiro.
Porque não aumentar a taxa dos carros de luxo? Porque não aumentar ainda mais os parquímetros? Porque não taxar a entrada dos carros na baixa do porto e Lisboa? Desta forma os transportes ficavam com mais utentes, logo, com mais lucro sem prejudicar tanto quem obrigatoriamente depende deles no seu dia-a-dia.
Comentário por Fusivel Ativo — Agosto 3, 2011 @ 12:28
Os aumentos de transportes públicos não passam de aumentos de impostos uma vez que não há cortes.
Comentário por lucklucky — Agosto 3, 2011 @ 17:05
Os bilhetes e os passes dos transportes publicos deviam ter impressos, não só o preço que o utente paga, mas o seu custo real, quanto mais não fosse para calar certas bocas com grandes culpas nesta situação, e que andam nas tvs e nos jornais a chorar lagrimas de crocodilo; e para quem usa transportes publicos saber quanto custa todos os dias ao erario publico
Comentário por Alexandre Carvalho da Silveira — Agosto 3, 2011 @ 17:16
Caro Alexandre Silva, o seu raciocínio tinha duas aplicações bem melhores: no ensino “gratuito” e na saúde “gratuita”.
Comentário por Bruno — Agosto 3, 2011 @ 22:22
e outras tantas: água, electricidade… Se de um momento para outro tivermos de pagar a factura de dezenas de anos de empresa públicas mal geridas não vai dar… Principalmente porque do seu lado o Estado Português não corta nada…Temos que questionar o porquê da estrutura de custos e reformá-la. Fazer o preço com custo+margem é economia primitiva. A estrutura de custos é que tem de se adaptar ao preço de mercado (neste caso um preço “justo”). Voltando aos transportes públicos, temos o exemplo da CP em que os maquinistas estão há 20 anos a fazer greves e a melhorar as suas condições salariais. ganham um prémio só por aparecer, ganham prémio por km’s, etc… pagar estes custos? dispenso.
Comentário por Bruno — Agosto 3, 2011 @ 22:33
Vou dar um exemplo claro: os magistrados deste país têm um poder que poucos têm, sendo que um juiz tem um poder que ninguém terá, a condenação em processo criminal. Não são vistos com carros, motoristas, etc. e como se sabe em muitos país têm direito por lei.Mais grave, é uma carreira, não estão lá por 4 anos.
Comentário por às direitas — Agosto 4, 2011 @ 00:41
[...] – uma cultura enraizada 2 – O mito do bom antropólogo 3 – A RTP como teste para Passos Coelho 4 – “É [...]
Pingback por Top posts da semana « O Insurgente — Agosto 7, 2011 @ 20:17